segunda-feira, 25 de julho de 2011

Notícias publicadas no Correio Braziliense relativas às movimentações dos exércitos portugueses, franceses e ingleses em Portugal (25 de Julho de 1808)



Porto, 25 de Julho 


O General Loison, que havia sido mandado por Junot a tomar posse do Porto, recolheu-se a Lisboa de se lhe haver frustrado a empresa e ter perdido grande parte do corpo que comandava. Depois partiu para Santarém, para formar aqui um posto avançado a Junot, sobre a estrada de Coimbra e caminho de Abrantes; ao mesmo tempo que o General Laborde se postou em Leiria para comandar a estrada nova de Coimbra. Junot concentrou em Lisboa as forças que tinha em Évora e Elvas, com o que tem junto um exército de 16.000 homens. 
O exército dos patriotas portugueses se avançou até Coimbra, e consiste agora das seguintes tropas:

Infantaria regular


7.000
Infantaria de milícia


10.000
Infantaria de ordenança


15.000
Cavalaria montada


500
Cavalaria desmontada


1.000


Total
33.500


O General Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda dispunha-se, com as tropas que ajuntou de Trás-os-Montes, a investir [sobre] Almeida, onde havia uma guarnição francesa. 
O General Arthur Wellesley chegou com a divisão do seu comando a Coruña e saltou em terra; mas logo tornou a embarcar e procedeu em sua viagem; aos 23 do corrente desembarcou no Porto, e no dia seguinte, havendo tratado com o Governo, tornou para a esquadra inglesa tomando a derrota do sul. 
Aos 12 de Julho desembarcaram na Figueira 350 soldados de marinha da esquadra inglesa; e neste mesmo dia entraram no Porto 64 soldados franceses que os estudantes aprisionaram em Coimbra.


domingo, 24 de julho de 2011

O fuzilamento de Manuel José em Lisboa (24 de Julho de 1808)



A 24 de Julho de 1808, Manuel José, um doido conhecido pelas suas extravagâncias, foi fuzilado no Terreiro do Paço. Não era a primeira vez que Lisboa assistia à morte de um civil desde que os franceses a tinham ocupado (recordemos que nos tumultos principiados a 13 de Dezembro de 1807 morreram quatro portugueses), mas no entanto, como assentou José Acúrsio das Neves, "este assassinato praticado no centro da capital do reino causou grande sensação pelas suas circunstâncias", isto é, sem processo nem formalidade alguma, e precisamente um dia depois de Junot ter feito uma aparatosa revista ao enorme corpo do exército francês que estava então em Lisboa, mais numeroso do que o habitual devido à recente chegada de parte da divisão do General Loison.

Segundo um manuscrito anónimo já várias vezes aqui citado, depois dos cinco fuzilamentos anteriores (de Jacinto Correia em Mafra, de nove portugueses nas Caldas da Rainha, de Macário José em Setúbal, e de dois portugueses e dois espanhóis também fuzilados em Setúbal), 

A sexta vítima da decantada justiça dos franceses foi o desgraçado Manuel José, mancebo mentecapto que divertia o povo com as suas momices, e de que não se fazia conceito algum, e cujas acções não tinham consequência, nem mereciam imputação.
Este homem, como louco, ainda no tempo da corte aqui residente, vestia-se celebremente e, ataviado de fitas e laços, com um chicote na mão, corria neste ridículo as ruas de Lisboa; o mesmo que antigamente costumava vestir, o ornou naquele dia em que lançaram mão dele os franceses, que desconfiados de revolução nesta capital imolaram este pobre diabo (como pessoa indiferente a todos e sem consequência) ao terrorismo com que nos queriam conter. E o mais acérrimo instigador desta morte foi o célebre Pitton, oficial da Guarda Real da Polícia; era francês; quanto bastava para ser acusador.
Não cometeu delito algum e foi inocente ao patíbulo, assim como outros muitos o têm sofrido. Conta-se dele esta anedota: que dizendo-lhe os assalariados dos franceses que o acompanhavam na execução que pedisse perdão ao Governo francês do delito cometido e escândalo que à sociedade [dera], respondeu ele: o Governo é quem me deve pedir perdão da injusta morte que me manda dar; teve razão e graça no que disse.
Como aos franceses sempre esquecia dar confessor aos fuzilados, a este quando lho deram foi de caminho, e mandado ao Convento dos Religiosos Calçados de N.ª S.ª do Monte do Carmo buscar o primeiro padre que encontrassem, o que fizeram com tal violência e arrebatamento no que apareceu, que este se julgou ir a justiçar e não para assistir a um padecente; e desde o Convento até ao encontro do padecente se carpiu; e só então se desenganou da sua ilusão, vendo a vítima. Prestou os ofícios do seu ministério, segundo a sandice do infeliz, [o] soçobro dele, e [a] pressa dos franceses em matá-lo, o que teve lugar à uma hora para as duas da tarde, na Praça do Comércio, com assistência de muita tropa francesa e grandes aparatos, tudo disposto à impostura e engano. No mais me remeto à Gazeta que junto [de 27 de Julho de 1808].
[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 342-344. Nota: corrigimos para 24 a data que no texto original aparece como 25 de Julho, com base no texto da citada Gazeta de Lisboana versão de Acúrsio das Neves que abaixo se segue, e ainda num pequeno comentário manuscrito sobre este caso, compilado por Antonio Joaquim Moreira (org.), na sua Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863 (páginas não numeradas)].

Como abaixo se mostra, os pormenores da versão de José Acúrsio das Neves sobre este episódio diferem um pouco dos da anterior, embora ambas as versões concordem no essencial, ou seja, que Manuel José foi executado arbitrariamente, sem quaisquer fundamentos plausíveis que pudessem justificar a sua morte:

Durou a revista [de 23 de Julho] desde as 5 até às 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeu de susto: é o que pretendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror aos povos, para os manter quietos.
Foi sem dúvida com as mesmas vistas que ele mandou cometer no dia 24 o assassinato que vou referir. [...] Havia em Lisboa um homem chamado Manuel José, que tinha sido empregado havia anos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo se reputava por mentecapto, até por extravagâncias do seu vestuário, com que se fazia muito célebre: estas extravagâncias, ou o mataram, ou serviram de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era um domingo) junto à igreja de Santos, vestido com uma jaqueta branca, toda cheia de laços ou bocadinhos de fita encarnada; imediatamente o prenderam e conduziram à casa do General de Laborde, Governador de Lisboa, onde concorreu Lagarde, e se lhe fez um conselho de injustiça, de que resultou ser fuzilado no meio do Terreiro do Paço contra a estátua equestre. As fitinhas passaram por insígnias da revolução, e o mentecapto por emissário dos insurgentes; e com tanta presteza se adquiriram as provas e se lhe fez o processo, que sendo preso pelas 10 horas da manhã, nesse mesmo dia cessou de existir às 3 da tarde. 
Tal foi o aparato, tais os auspícios, com que saiu de Lisboa a expedição que foi cobrir de sangue e de estragos as ruas de Évora.
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo IV, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 90-91]. 

Carta do Almirante Charles Cotton ao Bispo do Porto


Senhor:

Tenho a honra de confessar a Vossa Excelência o recebimento da sua carta datada de 18 do corrente [mês de Julho], e sinceramente espero que antes que esta chegue a Vossa Excelência, terá chegado de Inglaterra socorro de oficiais, tropas, armas e munições ao Porto; um exército considerável tendo embarcado e feito à vela de Cork no dia 3 do presente, como tenho sabido, destinado ao auxílio de Portugal em consequência das minhas representações feitas ao governo de Sua Majestade Britânica.
Eu espero que Vossa Excelência me faça a justiça de persuadir-se que eu sinto o mais vivo interesse no sucesso da gloriosa causa em que Vossa Excelência toma o comando, e espero que nenhum imediato perigo o possa ameaçar, antes pelo contrário (do espírito de lealdade e patriotismo agora geralmente manifestado por todo o reino de Portugal, e do grande sucesso obtido pelos espanhóis, bons patriotas contra o inimigo comum, do qual eu tenho a honra de enviar uma relação), que a mais venturosa consequência há de ser o resultado, não só a Portugal e Espanha, mas à Europa e ao mundo. 
Com a maior consideração e respeito, eu tenho a honra de ser, Senhor, de Vossa Excelência o mais humilde e obediente criado.

C. Cotton

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 48].

sábado, 23 de julho de 2011

Carta da Junta de Governo de Sines ao Almirante Charles Cotton (23 de Julho de 1808)




Recebemos a carta que Vossa Excelência nos fez a honra de remeter pelo emissário encarregado da condução das armas, que Vossa Excelência já na sua primeira carta nos ofereceu, secundando a mesma oferta na outra que pelo mesmo emissário nos foi enviada; e como, segundo Vossa Excelência ajustou com ele, tem já decorrido o tempo aprazado de oito dias, dentro dos quais Vossa Excelência prometeu enviar-nos o armamento, caso que até então chegasse; e como este continua a ser-nos necessário, e supomos que Vossa Excelência já o terá recebido, mandamos novamente, na forma que se ajustou com Vossa Excelência, esse emissário buscar as 400 armas, 8.000 balas e as pistolas e espadas que Vossa Excelência puder dispensar.
Acresce a isto a nova requisição que fazemos a Vossa Excelência de pólvora, o que sem dúvida não exigiríamos se estivéssemos de posse da que tínhamos, que eram dezassete barris, os quais por precaução pusemos a bordo da fragata Comus, que aqui estava, donde Vossa Excelência a poderá receber caso que a dita fragata aqui não volte, remetendo-nos agora a que puder, pois igualmente nos é de suma necessidade.
Rogamos a Vossa Excelência que haja de enviar-nos, quanto antes, ou a mesma ou qualquer outra fragata, a qual servirá não só de animar este povo e suas vizinhanças, que ficaram sumamente sentidos quando a viram sair deste porto, mas até de pôr freio a alguma incursão do inimigo, que, segundo nos consta, tem chegado em grande número a Setúbal, tendo até assestado peças no castelo de Palmela.
Esperamos de Vossa Excelência quanto lhe pedimos, pela grande falta que temos de tudo, não esquecendo a Vossa Excelência a pólvora, por ser artigo da primeira necessidade. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Sines, em Junta do Governo de 23 de Julho de 1808.

Fr. Eusébio da Estrela, Secretário da Junta.

[seguiam-se as assinaturas do Presidente e dos Deputados].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 41-43].

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (23 de Julho de 1808)



Lisboa, 23 de Julho


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes deve hoje, Sábado, pelas 5 horas da tarde, passar uma revista geral às tropas que se acham nesta capital.
Esta revista se fará na Praça do Comércio, aonde as sobreditas tropas se acharão postadas, como igualmente nas praças e ruas vizinhas.

As circunstâncias actuais dão motivo para de novo observar até que ponto chegam o fanatismo e o espírito de partido a alucinar os entendimentos os mais perspicazes, em certas épocas que parecem destinadas pela Providência para punir as nações pelas culpas acumuladas dos seus Governos. Portugal gozava de paz e tranquilidade, apesar da fugida dos seus antigos Príncipes.
Apenas se divisavam mudanças efectuadas, tão suave e moderada era a lei de um vencedor amigo do país, e tal era o respeito com que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes considerava até as instituições antigas, só a fim de remover o partido arriscado de toda a revolução. De repente, porém, se lembram alguns assalariados ingleses e alguns clérigos e frades tão inimigos de Deus como dos homens, de excitar o fogo da discórdia e da rebelião em algumas províncias, chamando a estas o saque e o incêndio em castigo dos mais graves excessos; e, à sua voz pérfida, a multidão se subleva contra a vontade da gente de bem e das pessoas ilustradas, por estarem na persuasão de que estas vãs e criminosas agitações só podiam servir para trazer sobre elas todas os desastres. Por que razão essas pessoas, em vez de se deixaram oprimir e arrastar por força a uma tão perigosa cumplicidade, não se reúnem, como se fez em Tomar, para implorar a bondade e a clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, o qual, ainda ao tempo de descarregar o golpe sobre os mais criminosos, só procurará perdoar às vítimas das suas seduções e enganos?
Como é possível que Portugal, a não querer ir meter-se debaixo do jugo espanhol, que os seus antepassados suportaram com tanto horror, se não envergonhe do indigno modo com que algumas partes das suas fronteiras são tratadas por corpos pouco numerosos de contrabandistas espanhóis, que vêm a ditar nessas partes impunemente a lei, arrebatando daí os seus melhores Magistrados e levando-os presos para Espanha? Porventura é desta sorte que Portugal espera mostrar-se digno de ser ainda uma nação, ou uma simples província tributária e sujeita à Espanha?
A Espanha, sempre ciosa de Portugal e cheia de um ardente desejo de reconquistá-lo, viu com inveja os direitos que este país adquiria, pela sua prudência, à bondade de Sua Majestade o Imperador e Rei; e logo fez cair sobre ele os males que a devoravam, para envenenar o presente e comprometer as esperanças de independência, de prosperidade e de glória que o mui poderoso Árbitro da Europa lhe assegurara num futuro próximo! Portugueses, é ainda tempo de vos deterdes na borda do abismo a que vos impelem os espanhóis, vossos eternos inimigos, fingindo fazer convosco causa comum, a fim de subjugar-vos para sempre; é ainda tempo de merecerdes ser felizes, tornando prontamente ao vosso dever, e imitando o exemplo de submissão e de tranquilidade que vos oferece a vossa capital.

A 20 do corrente voltou a Lisboa o Senhor General Loison, Conde do Império, com o corpo numeroso de tropas que consigo levara. A sua chegada fez acudir um grande número de espectadores, entre os quais havia vários que, acalentados com os contos ridículos que a malignidade e a inconsideração obstinadamente divulgaram sobre a suposta prisão do dito General, mal podiam crer que o viam com os seus próprios olhos. O povo de Lisboa foi induzido a ajuizar assim o quão pouca confiança merecem todas aquelas exagerações e fábulas absurdas por onde se procuram agitar os ânimos, a fim de incitar os habitantes a movimentos cujo primeiro e infalível resultado seria a ruína desta capital, que deve a sua quietação às firmes e sábias disposições de Sua Excelência o General em Chefe.

[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 23 de Julho de 1808].

Diário do General John Moore (23 de Julho de 1808)





Portsmouth, 23 de Julho de 1808


Recebemos uma ordem no mar para irmos para a costa de Downs em vez de para Yarmouth, e consequentemente ancorámos aí na tarde do dia 15. Procurei por cartas na costa, mas nenhuma das que obtive eram oficiais. O Capitão Owen, que era o oficial naval mais velho, recebeu ordens para completar os abastecimentos das provisões e de água dos navios o mais rápido possível. Através de um expresso, informei o Comandante em Chefe e Lord Castlereagh acerca da nossa chegada. Durante a noite chegou uma ordem endereçada ao oficial naval mais velho, para dirigir os navios-transportes para Portsmouth, e para o General Moore ir para a cidade. Deixei os transportes seguirem para o seu destino e parti para Londres, onde cheguei ao anoitecer. No dia seguinte, como era Domingo, nenhum dos Ministros estava na cidade, mas vi o Coronel Gordon, o secretário militar do Duque. Através dele soube que me devia dirigir para Espanha ou Portugal com as tropas que tivesse. Iríamos reunir-nos com as outras tropas que já tinham embarcado, nomeadamente as comandadas por Sir Arthur Wellesley, que partiram de Cork, e as comandadas por Spencer, que estavam estacionadas em Santa Maria, perto de Cádis, para formarmos um exército de 30.000 homens, que será comandado por Sir Hew Dalrymple como chefe, e tendo Sir Harry Burrard como segundo no comando.
Através de Gordon e de outros soube que surgiram muitas intrigas sobre o comando. Houve ministros que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dar o comando a Sir Arthur Wellesley, mas como este era um Tenente-General tão novo, o Duque opôs-se a esta medida, e eles, receosos de desagradarem o exército e a nação com tal nomeação, desistiram da ideia. Frustrado assim o seu principal objectivo, determinaram-se em não me darem o comando, e, para evitarem que eventualmente acabasse por recair sobre mim, nomearam Sir Harry Burrard como segundo no comando. Ficou combinada uma entrevista com Lord Castlereagh para a manhã seguinte (Segunda-feira) no seu escritório, às duas horas.
Castlereagh recebeu-me como usualmente, embora tivesse limitado a sua conversação à expedição à Suécia*. [...] 
Sua Senhoria perguntou-me então algumas questões sobre as tropas, e, quando pensava que elas iriam receber ordens para partir, ao despedir-se disse-me que provavelmente iria querer ver-me no dia seguinte, para me falar sobre outro assunto. 
Ao deixar Lord Castlereagh encontrei-me com o Duque de York, que me recebeu com a sua habitual gentileza e assegurou-me que o Rei e que ele próprio tinham aprovado plenamente tudo o que tinha feito [na expedição à Suécia], e que ambos pensavam que tinha sido muito afortunado que o comando do exército me tivesse sido dado, por ter sido firme em resistir às incomodidades e por não ter permitido que o exército fosse desperdiçado num serviço desnecessário. Ele perguntou-me se tinha visto Lord Castlereagh. Disse-lhe que tinha acabado de o ver, e que ele me tinha declarado a aprovação do Gabinete sobre tudo o que tinha feito. O Duque perguntou-me se ele não tinha falado sobre outro assunto comigo, e respondi-lhe que não. Sua Alteza Real aparentou embaraçar-se bastante. Percebi muito bem que o que se estava passando não era da sua responsabilidade. Ele disse-me, enquanto partia, que sabia muito pouco. Nessa noite, depois de me deitar, recebi uma nota do General-Brigadeiro Charles Stewart, informando-me que Lord Castlereagh queria ver-me às três da tarde, e que devia preparar-me para deixar a cidade logo depois. 
Até aqui, nenhuma palavra me tinha sido comunicada sobre a forma como seria empregado, e mesmo assim quis preparar-me para deixar a cidade nessa tarde. Felizmente, todas as minhas bagagens estavam em Portsmouth, no navio em que tinha vindo da Suécia. Tinha poucos preparativos a fazer, e ordenei que uma carruagem estivesse à porta às quatro da tarde. Quando me encontrei com Lord Castlereagh às três, começou ele por dizer que Sir Arthur Wellesley tinha partido de Cork no dia 12, e que poderia ser esperado na foz do Tejo no dia 20; que ele tinha sido instruído para desembarcar, caso se achasse suficientemente forte para atacar o inimigo, segundo as informações que deveria receber sobre a sua força; em caso contrário, deveria esperar pela chegada das tropas debaixo do meu comando e das outras que foram ordenadas [para o mesmo destino], para então Sir Harry Burrard tomar o comando das operações, pois supõe-se que Sir Hew Dalrymple ainda não terá chegado entretanto. Foi somente por este raciocínio que percebi que deveria prosseguir para este serviço como um Tenente-General debaixo das ordens de Sir Hew Dalrymple e de Sir Harry Burrard. Penso que esta maneira de se comportarem comigo foi bastante extraordinária. Tendo regressado de um Comando-em-Chefe, esperava naturalmente que me dariam alguma explicação ou desculpa, caso se achasse necessário enviar-me com as tropas que então comandei, mas agora numa posição muito inferior; contudo, o comportamento de Lord Castlereagh evidenciava que ele tinha vergonha de si próprio, e que nunca me iria dizer claramente qual seria a minha posição.
Estava completamente determinado a prosseguir para o serviço, mas antes de partir pensei que deveria declarar a Lord Castlereagh o sentimento que tive sobre a forma como tinha sido tratado. Assim, quando me pareceu que terminara tudo o que tinha para me dizer, disse-lhe eu: Meu Senhor, a carruagem está à minha porta, e depois de deixar Vossa Senhoria encaminhar-me-ei para Portsmouth, a fim de me reunir com as tropas, às quais me devo dirigir como Tenente-General, por aquilo que percebo. Talvez esteja na minha sina nunca mais vos ver. Por isso, penso que devo declarar-vos o meu sentimento sobre o deselegante tratamento que recebi de vós. Ele disse que não estava ciente do tratamento a que aludi. Recapitulei então tudo o que se tinha passado desde a minha chegada a Downs. Se fosse um alferes, dificilmente seria possível ter-me tratado com menos cerimónia. Foi apenas por dedução que soube como iria ser empregado agora, pois Vossa Senhoria nunca me disse em termos claros que eu tinha sido nomeado como Tenente-General para servir o exército debaixo do comando de Sir Hew Dalrymple, e que, como vinha dum Comando-em-Chefe, e como a intenção era empregar-me numa posição inferior, esperava que me dissesses alguma coisa. Dissestes-me que a minha conduta na Suécia tinha sido aprovada, mas as vossas acções levam-me a concluir o inverso. Não consigo perceber a causa; pois se houve um oficial ao serviço que se tenha conduzido por um caminho recto, e que se tenha empenhado pelos seus próprios esforços, sem intrigas ou difamações do mérito de outros, penso que esse oficial sou eu próprio.
Não consigo imaginar porque é que devo ser o objecto de tal descrédito; mas, meu Senhor, tenho sido tratado indignamente e duma maneira que nada na minha conduta pode justificar. Os Ministros de Sua Majestade têm o direito de empregar quaisquer oficiais que queiram, e como nesta ocasião deram o comando ao General mais novo do exército, nem deveria sentir nem dizer que me foi feita alguma ofensa; mas tenho um direito, em comum com todos os oficiais que serviram bem e zelosamente, de esperar que seja tratado com atenção, e que quando me é oferecido um emprego, que devem ser tidos em conta os meus serviços anteriores. Aludia aqui a Sir Hew Dalrymple e a Sir Harry Burrard, que, apesar de ambos serem homens respeitáveis e bons, nenhum deles é um oficial para um tal serviço como eu próprio. Lord Castlereagh mal me falou durante a conversação, mas não estava ciente de me ter dado quaisquer motivos de queixa... Quando acabei o queria dizer levantei-me abruptamente e retirei-me.
Entendo que vários membros do Gabinete antipatizaram comigo, embora raras vezes os tenha visto, e não podem saber nada de mim. Eles querem sustentar Sir Arthur Wellesley, e queriam dar-lhe o comando de toda a força [britânica] na Espanha e em Portugal, mas o Rei e o Duque de York opuseram-se a tal, por ser ele o mais novo dos Tenentes-Generais nomeados no outro dia. Isto provocou-os, e juntamente com a sua geral antipatia, esforçaram-se por me humilhar, colocando-me numa posição semelhante à de Sir Arthur. Viram-se obrigados a aprovar o que eu tinha feito na Suécia, e mesmo assim fizeram-no contrariados, pois não tive problemas em ocultar que tinha sido a sua ignorância que nos tinha enviado para ali, quando eles deveriam saber, pelo carácter do Rei e pela fraqueza da sua força, que era impossível que qualquer coisa fosse feita. Ao deixar Lord Castlereagh parti para Portsmouth, onde cheguei ao entardecer da Quarta-feira dia 20, tendo parado em casa do meu irmão Jack, e depois estado com a minha mãe. Encontrei a frota, que acabava de chegar de Downs. Estava ocupado em ultimar os preparativos para partir, quando, no dia 23, um mensageiro do Rei trouxe-me uma carta de Lord Castlereagh, evidentemente com o objectivo de me irritar, esperando que lhe respondesse desmedidamente, para assim dar-lhe uma desculpa para me retirar deste serviço, porque, apesar de ser tão graduado como Sir Arthur e de haverem outros mais graduados que ele, eles pensam que eu estarei no seu caminho. 
Contudo, desapontei-os, pois enviei-lhes uma resposta muito calma, dando-lhes um golpe que podiam sentir mas não ressentir. Enviei ao mesmo tempo cópias de ambas as cartas do Coronel Gordon para o Duque de York, juntamente com uma narrativa sobre tudo o que se tinha passado desde que tinha regressado à Inglaterra. Tenho agora a esperança de poder ir tranquilamente para o serviço para o qual fui ordenado, sem mais aborrecimentos. Sir Harry Burrard chegou ontem, e entreguei-lhe o comando. 



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Nota:

* No final de Fevereiro de 1808, os territórios unidos da Dinamarca-Noruega, pressionados por Napoleão, declararam guerra à Suécia, ao mesmo tempo que a Rússia começara a invadir a Finlândia, território então pertencente à Suécia. Como ambas medidas visavam forçar a Suécia a aderir ao bloqueio continental instaurado por Napoleão, respondeu o Governo britânico dando instruções (embora sem um plano específico) ao General John Moore para ir auxiliar o rei sueco Gustavo IV. John Moore, acompanhado por cerca de 10.000 homens que trazia debaixo do seu comando, chegou a Gotemburgo a 17 de Maio do mesmo ano, dez dias depois de sair do porto inglês de Yarmouth. Contudo, ao contrário do que esperava, Moore não obteve permissão para desembarcar os seus homens, e depois de gastar um mês trocando correspondência com o rei sueco e com o Governo britânico, acabou por partir para Estocolmo, a fim de conversar pessoalmente com o despótico Gustavo IV, monarca algo lunático e com vastos esquemas de conquista (apesar de ter acabado de perder grande parte da Finlândia para os russos, precisamente por carecer de tropas suficientes para a sua defesa), que propunha que os britânicos, juntamente com algumas tropas suecas, deviam tomar a ilha da Zelândia, para daí partirem para a Finlândia para lutar contra os russos. John Moore objectou que a sua força era insuficiente para tais projectos, o que provocou a ira de Gustavo IV, que ordenou  a sua prisão. Poucos dias depois, Moore conseguiu fugir, retornando a Gotemburgo, e acabando por regressar com as suas tropas para a Inglaterra no início de Julho. É precisamente nesta viagem de regresso que John Moore recebe a ordem mencionada no início do texto acima transcrito.
Deve ser notado que, enquanto tudo isto se passava, John Moore ia recebendo correspondência de amigos seus sobre os avanços das revoltas populares da península ibérica contra as tropas de Napoleão, bem como sobre as primeiras disposições do Governo britânico para auxiliar a Espanha e Portugal. 

Carta do General John Moore a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (23 de Julho de 1808)



Portsmouth, 23 de Julho de 1808


Meu Senhor:

Fui honrado agora mesmo com a carta de Vossa Senhoria datada de ontem, que foi trazida por um mensageiro. Como já tive a honra de declarar completamente os meus sentimentos a Vossa Senhoria na minha última entrevista, penso que será desnecessário incomodar-vos com a repetição do que então disse. 
Estou prestes a partir para o serviço que fui ordenado, e esforçar-me-ei para me conduzir com o mesmo zelo com que sempre agi desde que tenho estado ao serviço do meu país; a comunicação que se julga ser adequada fazer a Sua Majestade não pode deixar de me dar prazer. Tenho a confiança mais perfeita na justiça de Sua Majestade, e nunca poderia sentir mais segurança, enquanto a minha conduta, o meu carácter e a minha honra estão debaixo da protecção de Sua Majestade.
Tenho a honra de ser, 

John Moore


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Nota: 

Para maior compreensão desta carta, veja-se um excerto do diário John Moore adiante publicado.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra, ao General John Moore (22 de Julho de 1808)




St. James Square, 22 de Julho de 1808


Senhor:

Penso que é justo que não deixeis a Inglaterra sem saberdes que comuniquei aos Ministros do Rei (por sentir que era meu dever e por supor que teríeis a intenção de que eu o fizesse) a queixa que me fizestes na nossa última entrevista, acerca do "tratamento deselegante e indigno" que recebestes da parte do Governo do Reino, e da minha própria parte, relativamente ao modo como as suas medidas devem ser postas em execução. 
Ao mesmo tempo, como tanto eles como eu sentem que esta queixa é infundada, tenho de garantir-vos que se as disposições do exército não estivessem tão adiantadas, de modos que pudessem ser desfeitas sem prejudicar consideravelmente o serviço de Sua Majestade, teríamos razões da nossa parte para humildemente aconselharmos Sua Majestade para desobrigar-vos duma situação na qual pareceis considerar-vos como tendo sido colocado sem a devida atenção aos vossos sentimentos enquanto oficial.
Ademais acrescento que se julga ser adequado que Sua Majestade seja informada da queixa que haveis feito, juntamente com os sentimentos dos funcionários de confiança de Sua Majestade.
Tenho a honra de ser o vosso mais servo mais obediente e humilde,

Castlereagh


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Nota: 

Para maior compreensão desta carta, veja-se um excerto do diário John Moore adiante publicado.

The Beast as described in the Revelations, Chap. 13. Resembling Napolean Bounaparte, caricatura de Thomas Rowlandson (22 de Julho de 1808)





Fonte: Brown University Library

A Besta como descrita no livro do Apocalipse, Cap. 13.
Semelhante a Napoleão Bonaparte.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 22 de Julho de 1808.




E vi subir do mar uma besta que tinha [...] sete cabeças, [...] e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia. [...] E a besta que vi era semelhante a um leopardo [...] e a sua boca como a de um leão. [...] E vi uma das suas cabeças como que ferida mortalmente [...]. 
(Ap., 13: 1-3).


Inspirando-se, como indica o título, no 13.º capítulo do livro do Apocalipse, esta caricatura representa a besta de sete cabeças erguida do mar (neste caso, a Córsega natal de Napoleão), a qual ostenta o número 666 no seu corpo de leopardo (semelhante ao do "tigre" que o mesmo autor já tinha representado duas semanas antes, na caricatura intitulada The Corsican Tiger at Bay). Esta besta monstruosa é atacada por um guerreiro que representa a Espanha, inclusive na sua própria pose (reforçada pela capa), que se assemelha aos contornos geográficos do dito país. A mitra que ostenta (também presente noutras caricaturas, como por exemplo The Noble Spaniards..., King Joes Reception at Madrid, ou Sancho alias Joe Butt's...), portando as inscrições S. Pedro e Roma, alude ao facto dos monarcas espanhóis serem conhecidos como os Reis Católicos, enquanto a lâmina da sua espada representa um verdadeiro espanhol [de] Toledo, o seu escudo a Catalunha, o seu braço direito o Patriotismo espanhol e o antebraço as Astúrias, o seu boldrié Madrid e a sua coxa esquerda Córdova. O seu pé direito, que representa Cádis, pisa uma serpente, em alusão à rendição incondicional da esquadra de Rosily, reforçada pela presença, ao fundo, da esquadra do Almirante Purvis. Este personagem, vestido como um nobre espanhol, declara que O verdadeiro Patriotismo é subjugar assim a besta monstruosa e acalmar a fúria da Guerra!!!





Este herói deu um golpe certeiro numa das cabeças da besta (precisamente a de Napoleão), a qual está presa por um fio, se bem que continuando a largar chamas da boca. As outras seis cabeças da Besta ostentam caretas selvagens e arreganham os dentes. As suas coroas indicam que são os monarcas da Rússia, Prússia, Dinamarca, Holanda, Nápoles e Áustria. 



Da cabeça quase completamente decepada de Napoleão caiem quatro coroas (duas da França, uma de Portugal e outra da Espanha). A Esperança, representada por uma mulher com uma âncora, corre nesse momento para tentar apanhá-las com o seu avental. 


 


Finalmente, ademais de aparecer inscrito no corpo da besta, o número 666 aparece também associado ao próprio nome de Napoleão (aqui chamado de Napolean), através da correspondência entre as letras e a sua correspondência numérica. Note-se que esta associação entre Napoleão e a Besta do Apocalipse não era nova (ver por exemplo, a cores ou a preto e branco, a caricatura intitulada An hieroglyphic, describing the state of Great Britain and the continent of Europe, for 1804):



[...] A marca que é o nome da besta ou o número do seu nome. [...] 
E o seu número é seiscentos e sessenta e seis 
(Ap. 13: 17-18).


Outras digitalizações:


Proclamação espanhola por ocasião da vitória do Exército da Andaluzia sobre as forças francesas comandadas pelo General Dupont (e respectiva tradução)


 


Carta do General Teodoro Reding ao General Francisco Xavier de Castaños (22 de Julho de 1808)



Excelentíssimo Senhor:

Em consequência da carta que dirigi a Vossa Excelência a 17 do corrente mês, sobre o ataque dado pela minha divisão à do General Gobert, morto na acção, que foi completamente batida e desalojada de todas as posições que tomou até às imediações de Bailén, e sobre os motivos que me obrigaram a regressar a Mengíbar; voltei a passar na mesma tarde do citado dia 17 o rio Guadalquivir, e tomei uma posição naquela noite, reunindo-se-me ao amanhecer do dia 18 a segunda divisão, ao mando do Marechal de Campo Marquês de Coupigny, e ambos empreendemos a marcha para esta vila com o objectivo de atacar o inimigo, se a ocupava.
Assim que cheguei, e para dar cumprimento às ordens de Vossa Excelência, dispus as colunas de ataque direccionadas para Andújar; mas às 3 da manhã do dia 19, quando se estava formando a tropa para empreender a marcha, o General Dupont com o seu exército atacou o nosso campo e começou o fogo da sua artilharia, com o objectivo indubitável de nos surpreender; mas com a celeridade do relâmpago, dirigiram-se todas as tropas das divisões conduzidas pelos seus dignos chefes aos pontos atacados, auxiliados pela artilharia de ambas, sendo tão vivos os movimentos que a primeira companhia a cavalo e também a de batalha sofreu algumas estocadas dos inimigos. Quando o dia clareou, as nossas tropas estavam já em posse das alturas que antes ocupavam, e o inimigo empreendeu os seus ataques por vários pontos da linha, tendo a vantagem de formar as suas colunas a coberto dos nossos fogos, pela menor posição que ocupava protegido pela sua artilharia.
Em todos os pontos foi rechaçado e ainda perseguido, apesar do vigor dos seus ataques, que repetiu sem outra interrupção que a necessária para se desdobrar e formar novas colunas até às doze e meia da manhã, quando se viu fatigado e sem ter podido ganhar terreno, ainda que em várias ocasiões tivesse rompido as nossas linhas de defesa com a intrepidez própria de uma tropas tão acostumadas a vencer, e inclusive chegado até às nossas baterias, que agiram neste dia de um modo singular, que assombrou e aterrou os inimigos, pois não só [os espanhóis] desmontaram imediatamente a sua artilharia, como também desbarataram todas as colunas que se apresentavam, protegendo sempre os pontos atacados e variando as suas posições segundo o exigiam as circunstâncias.
Empreendeu o último ataque o General Dupont, que, com os demais Generais, pôs-se à cabeça das colunas contidas com a artilharia pela espada e sustentada verdadeiramente com admirável firmeza; mas não teve melhor êxito, e segundo o que o inimigo referiu, foram 14 as peças que lhes desmontámos; assegurando-nos que a sua perda chegou a 2.000 homens mortos e muitos feridos, entre estes Dupont e outros dois Generais.
Perante estas circunstâncias, o General Dupont pediu para capitular, e suspenderam-se as hostilidades em ambos os exércitos, concordando-se em ficar cada um na sua respectiva posição, sendo fruto do valor e da constância das valentes tropas que compõem estas duas divisões a total derrota e o aprisionamento do exército de Dupont, e sujeito à mesma sorte o de Vedel, sem outra diferença que a de receber as suas armas quando embarcasse, apesar da posição que este último ponto tomou contra as leis militares, em relação à suspensão de armas concedidas a ele e ao seu General em Chefe.
[...]
Vanglorio-me de ter sido o chefe de tão dignas tropas, que sustentaram a honra e reputação da nação espanhola, e de ter dado a conhecer quão capazes são elas de levar a cabo a digna causa que as obrigou a tomar as armas em defesa da sua Religião, do seu Soberano e da sua Pátria, e que em apenas duas acções conseguiram destruir os inimigos e cumprir o objectivo do sábio Governo que as empregou e que lhes dispensou a sua confiança.
Bailén, 22 de Julho de 1808.

Reding



Artigos da capitulação ajustada na sequência da derrota do exército francês na batalha de Bailén (22 de Julho de 1808)



Capitulação ajustada entre os respectivos Generais dos Exércitos espanhol e francês


Os Excelentíssimos Senhores Conde de Tylli [Vogal da Junta de Sevilha e por esta enviado para Bailén] e D. Francisco Xavier Castaños, General em Chefe do Exército da Andaluzia, querendo dar uma prova da sua alta estima pelo Excelentíssimo Senhor General Dupont, Grande Águia da Legião de Honra, Comandante em Chefe do [2.º] Corpo de Observação da Gironda, assim como pelo exército por si comandado, pela brilhante e gloriosa defesa que fez contra um exército muito superior em número e que o envolvia por todas as partes, e o Senhor General Chabert, Comandante da Legião de Honra, encarregado com plenos poderes por Sua Excelência o Senhor General em Chefe do Exército em francês, e o Excelentíssimo Senhor General Marescot, Grande Águia da Legião de Honra e primeiro Inspector Geral do Corpo de Engenheiros, acordaram os artigos seguintes:

1.º As tropas comandadas pelo  Excelentíssimo Senhor General Dupont ficam prisioneiras de guerra; exceptuando a divisão Vedel e outras tropas francesas que se encontram actualmente na Andaluzia. 

2.º A divisão do Senhor General Vedel e em geral as demais tropas francesas da Andaluzia que não se acham na situação das compreendidas no artigo antecedente, evacuarão a Andaluzia.

3.º As tropas compreendidas no artigo segundo conservarão em geral toda a sua bagagem; e para evitar quaisquer motivos de inquietação durante a sua viagem, deixarão a sua artilharia, trem e outras armas ao exército espanhol, que se encarrega de devolvê-las no momento do seu embarque.

4.º As tropas compreendidas no artigo primeiro do tratado sairão do campo com as honras da guerra, dois canhões à cabeça de cada batalhão e os soldados com as suas espingardas, que se renderão e entregarão ao exército espanhol a quatrocentas toesas* do campo. 

5.º As tropas do General Vedel e outras que não devem render as suas armas, colocarão-nas em tendas de campanha com as suas bandeiras, deixando do mesmo modo a sua artilharia e trem, formando-se o respectivo inventário por Oficiais dos dois exércitos, e tudo lhes será devolvido, como fica acordado no artigo terceiro.

6.º Todas as tropas francesas da Andaluzia passarão a Sanlúcar [de Barrameda] e a Rota pelos caminhos que lhes forem assinalados, não podendo exceder as quatro léguas regulares por dia com os descansos necessários, para embarcarem em embarcações com tripulação espanhola e serem conduzidas ao porto de Rochefort na França.

7.º As tropas francesas embarcarão assim que chegarem ao porto de Rota, e o exército espanhol garantirá a segurança da sua travessia contra quaisquer hostilidades.

8.º Os Senhores Generais, Chefes e demais Oficiais conservarão as suas armas, e os soldados as suas mochilas.

9.º Os alojamentos, víveres e forragens durante a marcha e travessia serão subministrados aos Senhores Generais e demais Oficiais, assim como à tropa, em proporção da sua graduação, e de acordo com os que usufruem as tropas espanholas em tempo de guerra.

10.º Os cavalos que correspondam, segundo os seus cargos, aos Senhores Generais, Chefes e Oficiais do Estado-Maior, serão transportados à França e mantidos com a ração de tempo de guerra.

11.º Os Senhores Generais conservarão, cada um deles, um coche e uma carruagem; os Chefes e Oficiais do Estado-Maior, somente um coche isento de reconhecimento, mas sem transgredir os regulamentos e leis do Reino.

12.º Não são incluídos no artigo precedente as carruagens tomadas na Andaluzia, cuja inspecção será feita pelo Senhor General Chabert.

13.º Para evitar as dificuldades do embarque dos cavalos dos corpos de Cavalaria e dos de Artilharia compreendidos no artigo segundo, deixar-se-ão uns e outros na Espanha pagando o seu valor segundo o preço que se estabeleça pelos dois comissários francês e espanhol.

14.º Os feridos e enfermos do exército francês que fiquem nos hospitais serão assistidos com o maior cuidado e serão enviados à França com escolta segura assim que estejam bons. 

15.º Como em várias paragens, particularmente no ataque de Córdoba, apesar das ordens dos Senhores Generais e do cuidado dos Senhores Oficiais, muitos soldados [franceses] cometeram excessos que são consequentes e inevitáveis nas cidades que fazem resistência quando vão ser tomadas, os Senhores Generais e demais Oficiais tomarão as medidas necessárias para encontrarem os vasos sagrados que possam ter sido roubados e, se existirem, entregá-los de volta. 

16.º Os empregados civis que acompanham o exército francês não se consideram prisioneiros de guerra, mas no entanto usufruirão durante o seu transporte à França de todas as regalias concedidas às tropas francesas, em proporção dos seus empregos.

17.º As tropas francesas começarão a evacuar a Andaluzia no dia 23 de Julho às 4 horas da manhã. Para evitar o grande calor, efectuar-se-á pela noite a marcha das tropas, que se conformarão com a jornada ajustada pelos Senhores Chefes do Estado-Maior francês e espanhol, evitando que as tropas passem pelas cidades de Córdoba e de Sevilha.

18.º Na sua marcha, as tropas francesas irão escoltadas pela tropa espanhola, a saber: trezentos homens de escolta por cada coluna de três mil homens; e os Senhores Generais serão escoltados por destacamentos de Cavalaria de linha.

19.º A marcha das tropas será sempre precedida pela dos comissionados francês e espanhol, para assegurar os alojamentos e víveres necessários, segundo as relações que lhes serão entregues.

20.º Esta capitulação será enviada desde logo a Sua Excelência o Duque de Rovigo, General em Chefe dos exércitos franceses na Espanha, com um Oficial francês escoltado por tropa de linha espanhola.

21.º Fica acordado entre os dois exércitos que acrescentar-se-á como suplemento a esta capitulação aqueles artigos que se possam ter omitido, a fim de se aumentar o bem-estar dos franceses durante a sua permanência e passagem na Espanha.

Ajustado e feito por duplicado em Andújar, a 22 de Julho de 1808.

Xavier de Castaños, General em Chefe do Exército da Andaluzia
O Conde de Tylli, representante e Vogal da Suprema Junta de Espanha e Índias, residente em Sevilha
Ventura Escalante, Capitão-General do Exército e costa de Granada

Como testemunha, o General de Divisão Marescot
O General Chabert



Artigos adicionais igualmente autorizados.


1.º Serão proporcionadas duas carretas por batalhão para transporte das malas dos Senhores Oficiais. 

2.º Os Senhores Oficiais de cavalaria da divisão do Senhor General Dupont conservarão os seus cavalos somente para fazer a sua viagem, entregando-os em Rota, no momento do seu embarque, a um comissionado espanhol encarregado de recebê-los. A tropa de cavalaria da guarda do Senhor General em Chefe desfrutará da mesma disposição.

3.º Os franceses enfermos que estão em La Mancha, assim como os estejam na Andaluzia, conduzir-se-ão aos hospitais de Andújar, ou a outro que pareça mais conveniente.
À medida que se forem curando, os convalescentes serão acompanhados e conduzidos a Rota, onde embarcarão para França, debaixo da mesma garantia mencionada no artigo 6.º da capitulação.

4.º Os Excelentíssimos Senhores Conde de Tylli e General Castaños, Comandante em Chefe do exército espanhol da Andaluzia, prometem interceder com a sua influência para que o Senhor General Erselinant, o Senhor Coronel L'Grange e o Senhor Tenente Coronel Roseti, prisioneiros de guerra em Valencia, sejam postos em liberdade e conduzidos à França debaixo da mesma garantia expressada no artigo anterior.

Decretado e feito por duplicado em Andújar, a 22 de Julho de 1808, de acordo com as ordens do General em Chefe.

Tomas Moreno, Ajudante General.



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Nota: 


* Distância equivalente a quase 780 metros [1 toesa = 1,946 metros].