terça-feira, 28 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (28 de Junho de 1808)



Lisboa, 28 de Junho


A proclamação que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes acaba de fazer publicar, dirigida aos habitantes de diversas povoações de algumas províncias, tem feito a maior comoção nos corações dos bons habitantes desta capital, por lhes manifestar aquela paternal exortação ter havido entre os seus compatriotas quem, esquecendo-se dos mais sagrados deveres da sociedade e da religião, maquinasse traças contra a paz e tranquilidade, que Sua Excelência tanto se tem desvelado por manter, e cuja perturbação só pode ser excitada por pessoas que, esquecidas do que ditam a boa razão e a prudência, se deixam facilmente seduzir de malévolas persuasões que não podem ter outro fim senão o de aproveitar a ocasião da discórdia para fazer a nossa desgraça. Altamente convencidos desta verdade, continuamos a desfrutar aqui os felizes resultados das sábias e luminosas providências que Sua Excelência não cessa de dar em nosso benefício e cujas consequências são a boa harmonia, bela ordem e perfeita tranquilidade de que se goza actualmente nesta capital.

De Taboaço avisam que o 1.º deste mês foi o dia mais assinalado que aquela vila tem visto desde que existe; porquanto o Doutor António José da Fonseca Mimoso Pereira e Guerra, seu actual Juiz de Fora, tendo feito armar mui brilhantemente a Casa da Câmara e Praça, estando aí presentes as 8 Câmaras a que preside, como também o Clero, Nobreza e Povos da sua Jurisdicção, lhes recitou uma eloquente oração, pela qual com o maior entusiasmo fez pública a memorável carta da nossa Deputação junto a Sua Majestade o Imperador e Rei. Recitada que foi, correspondeu todo o auditório com estrondosos vivas ao imortal Napoleão. Consecutivamente houve uma segunda oração, por onde o Doutor António Guedes de Carvalho Rebelo Pinto, em nome do Clero, Nobreza e Povo, nos termos os mais energéticos, agradeceu tão altas mercês ao Supremo dos Soberanos, afiançando-lhe a mais segura fidelidade. Não cessaram os vivas em todo aquele dia, que finalizou com uma iluminação geral.

Ainda que nada saibamos de positivo relativamente aos recentes acontecimentos da Espanha, temos contudo suficiente fundamento para crer que vai ali cessando de lavrar o fogo da discórdia, que apenas se conserva nas províncias onde começara a manifestar-se, nas quais ainda o sustenta o extravagante capricho dos celerados, que temerosos do justo castigo que os espera, se esforçam por demorá-lo quanto lhes seja possível, apesar de terem os que seguem uma tão desatinada mania talvez perdido já, com a vida, as suas casas e família, resultando destas desordens por outra parte a desgraça de cidades e províncias inteiras, a quem um melhor futuro prometia aliás vantagens inestimáveis.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 26, 28 de Junho de 1808].

Carta da Câmara Municipal de Tavira em resposta à carta-circular da Câmara de Faro datada de 20 de Junho (28 de Junho de 1808)



Ilustríssimo Senhores Presidente, Vereadores e demais Oficiais da Câmara da cidade de Faro:

No dia dia vinte e um do presente [mês] recebemos a carta de Vossas Senhorias em que nos noticiam do ardente zelo com que o povo de todas as classes dessa cidade concorrem para expulsar o inimigo comum e recuperar a sua antiga liberdade, confessando e clamando por seu legítimo soberano ao Príncipe Regente Nosso Senhor, e em que Vossas Senhorias nos convocam [para que] queiramos propor-nos ao mesmo fim. Toda esta cidade e termo tinha os mesmos fervorosos sentimentos, e tanto que na resposta da recepção do ofício de Vossas Senhorias já se achava em Armas com tanto zelo que não foi necessária mais persuasão; podem portanto Vossas Senhorias ficar na certeza que os nossos sentimentos são iguais e conformes com os de Vossas Senhorias e dessa cidade e termo.
Nós temos tido tantos negócios e providências que até hoje não nos foi possível darmos resposta ao ofício de Vossas Senhorias, a quem Deus guarde muitos anos.
Tavira, em Câmara de vinte e oito de Junho de mil oitocentos e oito.

O Juiz Vereador, Manuel Vaz Velho
António de Aragão e Costa
Pedro Manuel Tavares Paes de Souza
Manuel Baptista Marçal
José Pedro de Oliva Pontes[?]
Jacinto José do Nascimento

[Fonte: Adérito Fernandes Vaz, Olhão da Restauração no tempo e a 1.º Invasão Francesa em 1808, no contexto regional e nacional – 2.º Volume, Olhão, Elos Clube de Olhão, 2009, pp. 78-79].

Carta da Câmara, Nobreza e Clero de Sines dirigida à nação britânica, através do Almirante Charles Cotton (28 de Junho de 1808)




Muito respeitável e alta nação:

A falta que na presente conjuntura se experimenta neste porto duma decente embarcação, nos priva, com pesar, de fazer apresentar na vossa presença o emissário que para este mesmo fim foi nomeado pela Câmara desta vila, para que de viva voz ele pudesse com mais individuação representar as actuais circunstâncias em que nos achamos, as quais bem podereis conhecer pela inclusa cópia autêntica que nos dimanou da Câmara da cidade de Faro, onde primeiro foi proclamado entre vivas do povo o Príncipe Regente Nosso Senhor, convidando a todas as Câmaras vizinhas a abraçarem o mesmo partido; o que nós com efeito, sem demora, fizemos com a maior satisfação e contentamento, e nos consta ter feito uma grande parte desta província do Alentejo, fiados todos na vossa constante amizade e protecção, a qual particularmente vos imploramos com a possível brevidade; pelo que nos servimos, na falta de emissário nomeado pelas circunstâncias, do mestre Manuel de Jesus, pois nos consta [que] se dirige a esta fortaleza uma porção de tropa francesa, a qual, se não nos socorreis com a vossa protecção, chegará a assassinar todo este povo em vingança da prisão feita aqui ao oficial Sanguinette, Comandante da sua tropa.
Sines, 28 de Junho de 1808.

[seguiam-se as assinaturas dos membros da Câmara, nobreza e clero].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 34-35].

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Nota: 

Segundo José Acúrsio das Neves, "o mestre Manuel de Jesus, portador desta carta, animou-se a ir à esquadra num barco, e entre outras coisas ia encarregado de pedir que se enviasse uma embarcação inglesa ao porto de Sines, o que conseguiu voltando ele mesmo na fragata Comus, com a [...] resposta do Almirante [Charles Cotton]" [cf. op. cit., p. 35].

Carta da Câmara Municipal de Santiago do Cacém em resposta à carta-circular da Câmara de Faro datada de 20 de Junho (28 de Junho de 1808)



Ilustríssimos Senhores Presidente, Vereadores e Oficiais da Câmara da cidade de Faro: 

Sendo presente neste Senado a sua carta rogativa e nacional de vinte do corrente mês, logo em consequência dela se renovou nos corações portugueses desta vila e suas freguesias anexas aquele Amor e invencível Lealdade que sempre se divisou nestes para com os Augustos Soberanos que nos têm governado: em altas vozes e com a maior alegria foi novamente aclamado o nosso Príncipe Regente, assim como reconhecida a sua Soberania por todos estes fiéis vassalos; também [ade]mais foi preso na vila de Sines o Governador francês que se achava ali governando, e também mais dois soldados da mesma nação: eles se entregaram sem resistência. E como assentamos [que] se deviam estes presos remeter aí à capital, para deles se dispor o que convém segundo as actuais circunstâncias, vão a ser remetidos escoltados, e acompanhando-os António Martins Leão, sujeito desta vila, em quem descobrimos as qualidades necessárias para a fiel entrega dos mesmos presos e sua bagagem.
Rogamos a Vossas Senhorias [que] queiram dar-nos não só a certeza da entrega, mas também participar-nos por este portador ou por outro ponteiro todas as novidades ou acontecimentos que nos possam ser úteis e a que nos devemos unir para defesa da Religião e da Pátria, no que Vossas Senhorias podem contar como infalíveis as vontades de todos estes habitantes.
Deus guarde a Vossas Senhorias muitos anos.
Santiago de Cacém, em Câmara de vinte [e] oito de Junho de mil oitocentos e oito.

Eu, Francisco de Paula e Sousa Brandão, escrivão da Câmara, que a subscrevi.
O Juiz de Fora Presidente da Câmara, Francisco Onofre de Faria 
José Sebastião Pinheiro
José Joaquim Salema
Joaquim António de Contreiras
Carlos José [?] Roborel

[Fonte: Adérito Fernandes Vaz, Olhão da Restauração no tempo e a 1.º Invasão Francesa em 1808, no contexto regional e nacional – 2.º Volume, Olhão, Elos Clube de Olhão, 2009, pp. 86-87].

Proclamação mandada afixar em Valença, para desvanecimento de quaisquer dúvidas sobre as tropas espanholas que tinham passado àquela vila (28 de Junho de 1808)




Edital do Intendente Geral da Polícia do Porto sobre a actuação judicial contra aqueles que cometeram crimes de traição depois da aclamação de 18 de Junho (28 de Junho de 1808)

Aviso do Bispo do Porto mandando dar despacho às embarcações britânicas que ali aportassem (28 de Junho de 1808)


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Relação de Bernardo António Zagalo, Comandante do Destacamento que foi atacar o Forte da Figueira da Foz (27 de Junho de 1808)



Figueira, 27 de Junho.


Tendo partido de Coimbra na tarde do dia 25 de Junho, mandei o destacamento comandado por António Inácio Coiolla [sic], Sargento de Peniche, pela margem meridional do Mondego, e eu com quatro cavaleiros fui por Tentúgal e Carapinheira até Montemor, onde dei o ponto de reunião. Por todas as vilas por onde passamos aclamou-se a repiques de sinos, e entre inumeráveis vivas, o Nosso Augusto PRÍNCIPE, e descobriram-se as suas Reais Armas. Reunidos em Montemor, continuamos a marchar de noite, e às 7 da manhã chegámos à vila da Figueira acompanhados por quase 3.000 homens de Ordenanças armados com lanças, piques e foices. Mandei atacar a vila por duas divisões com ordem de se reunirem na praça, prenderam-se 11 franceses que andavam fora do forte, e mandei pôr sentinelas à porta do Governador. Caminhámos depois para o forte com o fim de o obrigar a render-se por fome, pois a gente que nele se achava estava em absoluta necessidade de tudo. Vendo porém que o povo, sem reflectir no perigo, se adiantava demais, corri à sua frente e o fiz retirar; nessa ocasião dispararam os franceses alguma mosquetaria e uma peça de artilharia sobre nós; mas tendo observado os seus movimentos, deitámo-nos, e não feriram uma única pessoa. Como o cerco estava formalmente lançado, e a comunicação com o Cabedelo inteiramente cortada, intimei aos franceses que se rendessem, pois sabia que não tinham mantimentos nem para aquele dia, aliás seriam passados à espada; o Comandante respondeu que era um Tenente Engenheiro português e que não podia render-se por causa do perigo em que ficava a sua família, que tinha em Peniche em poder dos franceses; em razão disto continuou o cerco, e quando se estavam a render à discrição de hora para hora, recebi no dia 27 ordem do Governador de Coimbra para me retirar imediatamente para aquela cidade; mas como queria acabar a empresa, propus ao Comandante que se entregasse, e que se poderia ir com a sua gente para Peniche, levando espingardas e mochilas, porém sem pólvora nem bala. A condição foi aceite; e entrando no forte acompanhado do Major de Buarcos e dos Juízes de Fora da Figueira e de Tentúgal, descarregaram-se as espingardas, e os franceses foram-se embarcando para passarem à outra banda, caminho de Peniche. O povo porém não tendo aprovado esta convenção puramente vocal, foi examinar os soldados, cujas cartucheiras ainda que se achassem vazias, entre elas contudo e as patronas descobriram-se mais de vinte cartuchos a cada soldado. Consequentemente ficaram todos prisioneiros, e mais dois Tenentes, um de Artilharia e outro de Engenharia, que era o Comandante. Mandou-se arvorar no forte a bandeira portuguesa com salvas de artilharia, ficando Governador o Major Soares, pois que o antecedente e seu filho vieram presos; e de tudo se deu parte à esquadra inglesa. Feito isto, imediatamente marchámos para Coimbra, trazendo connosco os prisioneiros, as suas armas, e cinco peças de artilharia para defesa da cidade.

Assinado: Zagalo



Crónica dos acontecimentos e medidas tomadas em Coimbra nos dias 26 e 27 de Junho de 1808





Coimbra, 27 de Junho.


O dia de Domingo 26 de Junho será hum dia memorável nos fastos de Coimbra. Recebeu-se notícia de ofício de ter Loison entrado no dia 25 de tarde na cidade de Viseu, e que se encaminhava para Coimbra. As almas fortes e generosas reuniram-se junto do Excelentíssimo Senhor Governador, e tomaram-se grandes medidas de defesa. Mandaram-se pôr em armas todos os povos que bordam a estrada de Mortágua para Coimbra, e igualmente os que habitam desde a Ponte da Mucela até à mesma cidade; e repartiu-se com eles alguma pólvora. Ordenou-se que se abrissem grandes fossos em ambas as estradas, que se cortassem os pinheiros e outras grandes árvores, que as entulhassem, enfim, que as tornassem impraticáveis por todos os meios possíveis. Mandaram-se vir todas as Ordenanças da Comarca, e já na segunda-feira entraram mais de 8.000 armados de piques e roçadoras, e de muitas espingardas que tinham escapado à ordem dos nossos cobardes opressores, que as tinham mandado entregar. Deitou-se um bando [=aviso público], para que todos os moradores se munissem com muitas pedras, cal viva e lume aceso para terem pronta água a ferver, para que se o inimigo pudesse escapar aos ataques exteriores  morresse dentro da cidade. Mandou-se igualmente que se fizessem entrincheiramentos com barricas, cadeiras, estacas, etc., nas bocas das ruas por onde o inimigo podia entrar. Confiou-se esse trabalho aos moradores de cada rua; mas uma reflexão mais sossegada lembrou, que noutras iguais circunstâncias se devem incumbir tais entrincheiramentos a uma companhia de homens, e que se dê um Chefe, que fique responsável pela execução das ordens. Mandaram-se pôr luminárias para que se visse o que se fazia pelas ruas, e para que em caso de algum rebate falso os portugueses não [se] atacassem uns aos outros. Mas é evidente que, no caso de chegar o inimigo, as luminárias se deviam apagar, pois lhe eram muito mais úteis do que aos próprios moradores, que não poderiam combatê-lo tanto a coberto das portas, das janelas e dos telhados; quanto mais o inimigo certamente não havia de tentar a entrada de noite. 
Determinou-se enfim que as mulheres e crianças se recolhessem a suas casas; e que o sinal do rebate verdadeiro seria dado pelos sinos da Universidade, e sendo de noite, seria acompanhado de um farol posto na sua torre.

Os cobardes, e talvez alguns ocultos partidistas franceses julgam que, se Loison descesse de Viseu directamente a Coimbra, conquistaria esta cidade; estão porém perfeitamente enganados, e medem o coração dos outros pela fraqueza do seu; havia grande número de homens denodados, principalmente dos Eclesiásticos e dos Académicos, que tinham determinado pôr-se à testa dos diversos Esquadrões das Ordenanças e do Povo, meterem-se de emboscada nos arrabaldes da cidade, e dentro das travessas e dos becos, e arremessarem-se sobre o flanco dos franceses.
O Excelentíssimo Senhor Governador, tendo mandado chamar a todos os Ministros da terra, quais são Dr. Juiz de Fora, o Dr. Juiz do Crime, o Dr. Corregedor, o Dr. Provedor e o Dr. Vice-Conservador da Universidade, a fim de cooperarem com ele para uma tão justa e gloriosa causa. Estes se prestaram logo, incumbindo-se e executando cada um com toda a prontidão, fidelidade e patriotismo todas as Comissões que lhes têm sido encarregadas; e trabalhando todos com a maior actividade e zelo possível a respeito de um objecto de tanta consideração e importância; e animando a todos com o seu exemplo de praticarem o mesmo. De entre eles foi eleito para Juiz dos Réus de Polícia e Inconfidência o Dr. Provedor Miguel Borges Tavares de Azevedo Gouveia e Castro, o qual tem servido com toda a circunspecção e vigilância um cargo do maior melindre e ponderação. 

Neste dia [26 de Junho] alistaram-se os estudantes, ainda que, por ser tempo de férias, nem metade se achava em Coimbra. Tristão Álvares da Costa, Lente de Cálculo e Major de Engenharia, foi quem dividiu o Corpo em Companhias, formando-se seis, que actualmente se acham bem armadas. Muitos outros estudantes e doutores alistaram-se na Cavalaria e Artilharia. Destes Corpos é que têm saído os Destacamentos que fizeram a conquista dos fortes da Figueira e Nazaré, e de diversas outras expedições de muita honra. Mas seria mais conveniente que se armassem de espingardas ordinárias, para servirem como caçadores, e que as armas pesadas se dessem aos Corpos de Auxiliares que ainda não as tivessem. 
Também se passaram as ordens necessárias para se juntarem todas as Companhias dos Milicianos desta cidade; e efectivamente se acham juntas, e se lhes têm agregado muito dos Soldados de linha veteranos, de maneira que fazem um Corpo de perto de 1.200 praças. 
Não esqueceu mandarem-se emissários com ordens e proclamações para diversas partes, ainda remotas. Uns foram para Miranda, Espinhal, Pedrogão, Sertã e margens do Zêzere, outros para Seia, Gouveia, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Covilhã, etc., e em todas as povoações proclamaram a Restauração do Governo legítimo e a guerra nacional contra os franceses.
A esta medida do enérgico Governo de Coimbra, é que Loison deve a perda que experimentou na sua marcha para Abrantes, a bala que constantemente se afirma [que] recebera num ombro, a falta de víveres que teve e o penoso das marchas que fez; e destas diversas causas reunidas resultaram 800 estropiados ou doentes, que são outros tanto inimigos que temos de menos. 
Enfim, uma medida de grande importância era o fabrico da pólvora e bala, pois tínhamos absoluta falta de munições de guerra; e para que o público conheça com verdade a extensão do trabalho que houve para se remediar esta falta no Laboratório Químico, damos por extenso a conta oficial de um dos seus Administradores.


Conta dos trabalhos do Laboratório Químico, desde 26 de Junho até 14 de Julho.

Tendo-se considerado no dia imediato à Revolução de Coimbra quão pouca era a pólvora que tínhamos para nos defendermos dos ataques do inimigo, de cuja chegada estavamos ameaçados, e sabendo-se que no Laboratório Químico se tinham muitas vezes feito diversas porções dela, pareceu conveniente executar-se a sua composição na maior quantidade possível, segundo a grande necessidade em que estávamos pelas circunstâncias actuais. Consequentemente, incumbiu o Excelentíssimo Senhor Governador este grande projecto ao Dr. Tomé Rodrigues Sobral, Lende de Química na nossa Universidade de Coimbra, o qual, unindo aos grandes talentos e amplos conhecimentos de que é dotado, o maior zelo e actividade, pôs em execução aquele tão útil e tão importante desígnio. A tarde do dia 26 gastou-se em aprontar a lenha necessária para se fazer carvão, para cuja factura concorreu muito uma carrada de vides que veio de Santa Cruz. Às 10 horas da noite apareceu alguma pólvora, mas como não houvesse quem a soubesse encartuchar, ra fazerem cnem também houvessem balas feitas, mandaram-se vir do Hospital dois soldados portugueses convalescentes, para fazerem cartuchos, e mandaram-se também chamar todos os ourives e funileiros, para fundirem as balas; no que se ocuparam toda a noite, sem descansarem um só instante, aprontando todas as formas, fundindo e ensinando também os outros. Na mesma noite cuidou-se em fazer metralha para as peças que se esperavam da Figueira; e às seis horas da manhã estavam feitos mais de 3.000 cartuchos.
Na manhã do dia 27 cuidou-se em mandar buscar aos Salgueirais do Mondego pau de salgueiro, e a Castelo Viegas aveleira, madeiras de que se faz o melhor carvão para a pólvora; igualmente se mandaram vir varas de castanho para lanças. Enfim tratou-se de juntar todo o salitre que havia na cidade, o enxofre preciso, pederneiras, chumbo e ferro. De tarde continuou o trabalho da fundição da bala, do cartuchame, da metralha, das lanças e [do] fabrico de pólvora, e principiou o das lanternetas, o que continuou por toda a noite seguinte. 
[Fonte: Minerva Lusitana, n.º 7, Coimbra, 19 de Julho de 1808].
Todos os trabalhos continuam com igual actividade até ao presente, excepto de noite; multiplicando-se todos os dias os operários voluntários e os jornaleiros.
Fizeram-se até ao dia 14 de Julho cartuchos de todas as sortes...........................69.090
Destes têm-se distribuído por ordem...................................................................29.220
Nos rebates falsos, sem ordem, mais de ...............................................................7.000
Existem...............................................................................................................32.870
Lanternetas de todas as sortes..................................................................................567
Cartuchos de peça de todas as sortes cheios de pólvora feita no Laboratório........... 542
E levaram arrobas......................................................................................................22, e 18 arrat.
Metralha arrobas.......................................................................................................19
Fizeram-se lanças....................................................................................................120
O que tudo consta do livro dos assentos. 
N.B. O trabalho das lanças e metralha foi transferido para a serralharia e carpintaria, onde vai continuando com grande actividade.
Com os instrumentos e aparelhos feitos acha-se o fabrico da pólvora em estado de fornecer, havendo nitro, 4 para 5 arrobas por dia, de qualidade tal que faz dar a bala recuxata [sic] e meia mais do que outra qualquer pólvora, como consta das experiências dos Artilheiros, e atestação do Major de Artilharia; relativamente à formação dos cartuchos, cada dia aprontam-se 6 para 7 mil.  
Assinado: Joaquim Baptista

Merece uma particular atenção e zelo com que o Dr. Joaquim Baptista, tendo primeiro lembrado aquele trabalho, se prestou a ele, pondo todos os seus esforços e diligências para tão importante como difícil serviço. Não são pois mneras especulações e teorias estéreis as lições filosóficas dadas na Universidade, que em tão críticas circunstâncias forneceram suprabundantemente pólvora de qualidade muito superior a qualquer das conhecidas; donde se vê não só a utilidade e conhecimento proveito daquelas lições, mas além disto a vantagem dos trabalhos dirigidos por pessoas instruídos nos princípios respectivos, à dos que só seguem uma rotina empírica e puro mecanismo.


Conta dos trabalhos que se fizeram na Fábrica de Manuel Fernandes Guimarães.

Foram nesta ocasião da mais  evidente utilidade os diferentes estabelecimentos que servem na fábrica de fiação de Manuel Fernandes Guimarães, pelos grandes serviços que prestou o Mestreda dita fábrica Bernardo Ferreira de Brito, natural da vila de Tomar, homem de um génio raro; e tão bom conhecimento havia dos seus talentos, que o Excelentíssimo Senhor Governador o preferiu aos artistas artilheiros que para o mesmo objecto se lhe ofereceram; com efeito em pouco tempo ele fez construir cavalos de frisa guarnecidos de pontas de ferro, com que se obstruiram todas as entradas da cidade, e algumas com fileiras dobradas, sendo cada uma defendida por uma peça de artilharia e por um grosso destacamento de Infantaria de linha. 
Por direcção do mesmo Bernardo Ferreira de Brito concertaram-se muitos centenares de espingardas, clavinas e outras armas que estavam absolutamente inúteis; fizeram-se inúmeráveis piques e também carretas de campo para a artilharia que os estudantes conquistaram na Figueira, e prepararam-se muitas outras obras relativas ao objecto presente com a maior segurança e comodidade. É incrível o prazer que sentiam todos os que iam ver aquele Arsenal, admirando a actividade com que de dia e de noite trabalhavam muitos e diferentes artistas debaixo da direcção do dito Mestre, que a tudo era presidente. O proprietário da fábrica, deixando com a maior satisfação paradas absolutamente as suas manufacturas, anima incessantemente os seus oficiais ao maior cuidado nos seus respectivos trabalhos para o bem comum da Nação.

Tal é a história das fortes medidas que se tomaram nos dias perigos de 26 e 27 de Junho; creio que todo o juiz imparcial confessará que ela faz honra a Coimbra, à Universidade e a todos os nós.



Duas das primeiras resoluções da Junta do Algarve (27 de Junho de 1808)



O Supremo Conselho do Governo deste Reino [do Algarve] determinou, e manda fazer constante a todos, que os portos do mesmo Reino estão patentemente abertos para todas as Nações que neles quiserem importar-se, à excepção da francesa, a quem tem declarado guerra. E outrossim determina o mesmo Concelho que quem tiver ocultado franceses nas suas casas, o declare logo, sob pena de ser reputado como inimigo do Estado, e ser julgado como tal: o que Vossas Mercês farão publicar pela forma do estilo, o que se determinou em Junta. 
Faro, vinte e sete de Junho de mil e oitocentos e oito. 

Ventura José Crisóstomo, Secretário do Conselho 
Gavião
Mascarenhas
Senhores Juiz Presidente, Vereadores e demais oficiais do Senado

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s.ed., 1941, p. 373 (Doc. 53)].

Edital da Junta do Porto apelando a donativos (27 de Junho de 1808)





Ordem da Junta do Porto levantando o sequestro das mercadorias e bens ingleses decretado por Junot (27 de Junho de 1808)

Edital da Junta do Porto anunciando um novo imposto sobre a exportação das pipas de vinho (27 de Junho de 1808)



domingo, 26 de junho de 2011

Proclamação do Governador de Coimbra (26 de Junho de 1808)




O Dr. Manuel Pais de Aragão Trigoso, Fidalgo da Casa Real, Cónego e Arcediago na Sé de Viseu, deputado do Santo Ofício, Lente jubilado na cadeira de Prima da Faculdade de Cânones, Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, e Governador da mesma cidade, etc.

Faço saber a todas as autoridades civis e militares que logo que esta recebam, por serviço do Príncipe Regente Nosso Senhor, e por bem da causa comum e religião do estado, hajam sem perda de tempo de se porem em armas, convocando as ordenanças, milícias e quaisquer militares que tenham dado baixa desde o ano de 1801, e todos os corpos civis, e o executarão
com a maior prontidão, zelo e patriotismo, não prestando auxílio algum de víveres ao inimigo comum, e tomando todas as medidas que lhes ditar o dever e a honra de portugueses para que as tropas inimigas sejam embaraçadas e destroçadas, para o que, outrossim  destruirão os caminhos e pontes por onde possam passar, e muito principalmente com artilharia, ocupando os desfiladeiros e outros pontos defensíveis, a fim de rechaçar o dito inimigo comum; e outrossim Vossas Mercês passarão esta ordem a todos os concelhos e terras das suas jurisdições, e as comunicarão igualmente a todas as mais autoridades, que assim o hajam de cumprir, debaixo das penas do crime de traição ao Príncipe e à Pátria, ficando cada um de Vossas Mercês responsável pela parte que lhes tocar.
Coimbra, 26 de Junho de 1808.

Manuel Pais de Aragão Trigoso

Exame sobre o estado da Espanha e das suas consequências para a Grã-Bretanha, segundo o semanário londrino The National Register (26 de Junho de 1808)



Que novidades há da Espanha? Tem sido esta a pergunta universal dos nossos políticos de todas as facções, desde há algum tempo para cá. Se a ansiedade com que se faz esta questão procede somente duma preocupação generosa por aqueles bravos patriotas que nobremente ficaram firmes em defender a sua independência nacional, seriam altamente louváveis e honráveis aqueles que a sentem e a demonstram. Desejamos que eles a mereçam; e a nossa ajuda, tanto quanto possa ser dada com prudência, certamente receberão. Mas devemos parar por aqui. Não podemos ir mais longe. Acautelemo-nos de sermos enganados; pois a crise é impressionante, e um erro pode produzir as consequências mais fatais. 
Aquele que acredita que o povo espanhol que recorreu às armas tem a mais pequena chance de derrotar Bonaparte (e esta é uma opinião que alguns editores de jornais se têm esforçado por inculcar) é um ingénuo que crê na ilusão mais completa, mais lamentável e mais perigosa. Nenhum homem acostumado a pensar acurada e independentemente, que esteja informado das condições relativas das partes em contenda e dos eventos bélicos dos últimos dezassete anos, pode duvidar por um momento de qual seja o desenlace da presente luta. É um facto lamentável que os bravos espanhóis irão ser, infelizmente, obrigados a se submeterem; mas seria inútil e criminoso esconder ou iludir a convicção que nos inquieta. Não somente demonstraremos a verdade desta opinião, para a satisfação dos nossos leitores, mas apontaremos a utilidade e as vantagens duma atenção antecipada e séria sobre as suas importantes consequências. 
Se as tropas espanholas tivessem sido autorizadas a continuar inteiras nas suas posições e sem se dividirem; se elas tivessem continuado em posse de todas as suas praças-fortes; se tivessem fortificado e guardado todas as passagens dos Pirenéus; se os soldados franceses tivessem sido expulsos do país; se o exército espanhol tivesse sido inflamado com entusiasmo e dirigido pelo seu próprio Governo, mesmo débil como estava; e se os bravos habitantes de todas as províncias tivessem sido armados regularmente e organizados, dispostos a combater, poderíamos então de facto ter tido racionalmente alguma esperança de eles serem capazes de se opor com sucesso ao moderno Alexandre. 
Mas quando o contrário de tudo isto é notoriamente o caso; quando o exército espanhol foi dividido, expatriado, inclusive privado dos seus oficiais e armas; quando os franceses, com uma força numerosa, que cresce todos os dias, encontram-se numa imperturbável posse da capital, do Governo, e de todas as fortalezas; quando o último Rei [Carlos IV], e o seu pretendido sucessor [D. Fernando], se comportaram com uma pusilanimidade, não só contemplativa, mas surpreendente e incomparável; quando os bravos habitantes da capital, depois de centenas dos seus concidadãos terem sido cruelmente assassinados [a 2 de Maio], se constrangeram silenciosamente, apesar de relutantes, a se submeter; quando quase todas as províncias já seguiram o seu exemplo, o que podem realizar os habitantes de duas províncias (Astúrias e Galiza), ainda que sejam bravos e patriotas? Pode alguém esperar que eles conseguirão bater os franceses, marchar à sua própria capital, libertar o seu país, e impelir os invasores franceses para além dos Pirenéus? Não. Tais esperanças não podem ser seriamente tidas em conta, por um só momento, por qualquer homem, mesmo da mais baixa posição social, que seja capaz de calcular dificuldades ou de comparar probabilidades. 
Quais serão então as consequências da resistência patriótica destas duas províncias do norte da Espanha face ao usurpador francês? Os esforços destes bravos homens podem, por um momento, ocupar a sua atenção, distrair a sua força, e tornar a sua conquista menos fácil e menos segura. Estes são, indubitavelmente, eventos de considerável importância, se fizermos uso deste intervalo de tempo para aumentar, reforçar e consolidar os nossos próprios meios de defesa e de ataque, mas fatalmente ilusórios se alimentam esperanças que a Espanha está destinada a formar uma barreira à ampla ambição de Bonaparte. 
A verdade é que o nosso perigo é mais iminente no presente momento do que alguma vez foi desde o começo da presente guerra. Esta proposição foi muito habilmente ilustrada por Mr. York, no seu excelente discurso na Casa dos Comuns, na segunda-feira passada, em relação à defesa do país. Assim, se não nos levantamos rápida e efectivamente daquela letargia em que caíram quase todas as nossas classes; se não nos tornamos plenamente sensíveis dos riscos da nossa situação; se confiamos cegamente na nossa superioridade naval, e esperamos com uma lamentável inércia e com uma confiança presunçosa e criminosa pela tempestade que se avizinha; se não nos preparamos, com esforços extraordinários, para enfrentar os perigos que nos cercam; e se insensatamente esperamos ou temos a mais pequena confiança em alguma ajuda estrangeira, o perigo é incalculável (e triste para que um britânico o consinta), havendo uma possibilidade de sermos destruídos. 
Fiquemos assim completamente convencidos de que é quase indubitavelmente certo que, dentro em breve, poderemos estar expostos, sozinhos, à força inteira, indivisível e concentrada da Europa. Enfrentamos um homem que, apesar de bastante dotado pela sorte, é ainda mais prendado pela natureza; que persegue os seus esquemas sem descanso; que até aqui obteve os objectivos da sua ambição; que nos detesta, que detesta o nosso poder, a nossa liberdade e a nossa independência com inextinguível ódio; cujo interesse, cujo poder e cuja felicidade depende, num grau considerável, da nossa destruição. 
Este homem detém agora o ceptro da Europa. Ele subjugou os Países Baixos, a Holanda, e todos os Estados da Itália; conquistou a Prússia, derrotou e aterrorizou a Áustria, humilhou a Rússia, cativou a a Dinamarca, adquiriu a confiança e a amizade da Porta [Constantinopla], apoderou-se de Portugal, e agora tomou posse da Espanha. Consideremos, por um momento, os meios que ele possui para invadir as nossas costas. Ele tem toda a riqueza do Continente ao seu comando. Um milhão de soldados, bravos e aventurosos, acostumados à guerra e à vitória, estão reunidos debaixo da sua bandeira. Todos os portos continentais que estão abertos ao Oceano Atlântico e ao Mar do Norte, de Cádis a Texel [na Holanda], encontram-se agora debaixo do seu controle – na sua posse. Haverá alguém que ame o seu país, e que depois de considerar todas estas circunstâncias se aventure a afirmar que este inimigo não é terrivelmente formidável? Poderá algum esforço ser tão vigoroso e algum anseio ser tão grande em relação à luta com semelhante adversário? 
A grande vantagem natural da nossa situação insular e a orgulhosa superioridade da nossa marinha foram até aqui consideradas, por toda a nação, como barreiras contra a invasão, quase impossíveis de transpor. Nas circunstâncias e tempos comuns, e contra um inimigo comum, teria sido razoável pensar assim, mas opostos como estamos agora a uma combinação de meios físicos, com uma habilidade extrema, quase sem precedentes na história da humanidade, é prudente que coloquemos alguns limites na nossa confiança. Todos os nossos almirantes mais competentes declararam que uma invasão não era, de forma alguma, improvável ou impraticável. Lord Nelson, Lord St. Vicent, Lord Howe, Sir Sidney Smith, todos o disseram. E se isto for verdade, o que não resta dúvida, deveríamos, indubitavelmente, estar tão preparados para enfrentar os franceses como se não tivéssemos um único navio no mar. 
Com este objectivo, deveria-se recorrer imediatamente a algumas medidas mais compreensivas do que as que foram até aqui adoptadas. O nosso exército regular, apesar de excelente, é escassamente suficiente em número para guardar toda a extensão das nossas costas. O espírito nobre, louvável e honorável que originalmente animou os nossos voluntários, evaporou-se quase totalmente, devido a várias causas, que agora não nos deteremos para enumerar. O nosso exército de reserva entrou em decadência; o sistema de recrutamento é menos produtivo do que antigamente; e o plano de milícias locais é terrivelmente inferior à magnitude do nosso perigo. Um plano semelhante àquele que recentemente foi proposto por Lord Selkirik é tenazmente necessário para a presente crise alarmante – é absolutamente necessário para a preservação da nossa existência nacional. Que cada jovem deste país possa portar armas e que seja instruído da parte mais essencial das tácticas da guerra moderna. Que o povo esteja devidamente consciente da extensão do perigo que corre, e da necessidade do seu esforço. Que a única luta dos nossos maiores homens seja entre quem mais auxilia e quem mais promove os interesses do país. Que todas as classes se unam entusiástica e permanentemente para se prepararem para repelir o inimigo que se aproxima. Desta forma, e somente desta forma, a segurança do país pode ser realmente garantida. 
E se formos tão prudentes para o fazer, não estaremos na necessidade de olhar com impaciência e ansiedade para os bravos, honráveis, mas infrutíferos esforços dos patriotas da Espanha; estaremos completamente preparados para nos defendermos de todo o mundo; poderemos desprezar as ameaças e ataques do Senhor do Continente, e transmitir uma lição gloriosa à posterioridade, sobre a resistência brava e bem sucedida dum povo livre ao mais formidável tirano que o mundo alguma vez viu; e poderemos passar às gerações futuras as nossas liberdades, as nossas leis iguais, os resultados da nossa ciência, conhecimento e civilização, e de tudo quanto seja interessante e valorável para a sociedade. 



Resposta do padre algarvio Frei José do Sacramento Pessoa à proclamação de Junot de 26 de Junho





Junot!

Não é o teu Exército, nem o desse a que chamas o Grande Napoleão; [e] não são os teus, nem os seus capciosos proclamas capazes de assustar os valorosos habitantes do Algarve, que, lembrados ainda de haverem ganhado o seu país à custa de suas vidas, lançando fora dele outros mais temíveis, mais guerreiros soldados, a quem nem tu nem os teus jamais igualarão, os Maometanos, digo, resolveram de uma vez mostrar-te que eles são ainda os mesmos, fazendo desaparecer de entre si a infame raça francesa, bem como aconteceu à Mauritânia gente, e aclamando ao mesmo tempo o Príncipe Regente de Portugal, bem como aclamaram o primeiro Afonso.
Tu foras talvez temido, se o teu Exército justamente merecera a grande fama que tu e teus subalternos têm feito voar pelo mundo inteiro; mas o vil procedimento das tropas francesas e os seus estratagemas cavilosos têm desmentido essa fama. Hoje é assaz conhecida por todas as potências beligerantes a cobardia de semelhantes tropas. Portugal, tendo apenas cem soldados ainda bisonhos, não teme com mil versados na guerra.
As tropas francesas não são mais do que um agregado de saqueadores, de pérfidos, de traidores nutridos com o leite desse monstro desgraçado que a mesma natureza arrependida e envergonhada de o haver produzido, ainda que por descuido, degrada da sua origem: um agregado de gente pior que o Sol cobre.
É contra este Exército que tomamos armas, e contra ti mesmo. Os portugueses deixariam de o ser, se assim não obrassem. Verás tu agora qual é o valor dos nossos braços: sobre ti e o teu exército lá vamos frente a frente os golpes descarregar; será mais esta outra vitória que faça respeitar o Nome Luso de um a outro hemisfério; nós te faremos ver que sabemos conservar a nossa independência, a integridade do nosso país, que tu julgas perdida sem a tua protecção. Portugal é, e será sempre, a mesma antiga Lusitânia governada pelos seus Príncipes.
Porventura dependemos de ti ou do teu infeliz Amo?
Queres persuadir-nos que, sem a tua tantas vezes apregoada protecção ficaremos sendo uma província da Espanha? Não tem Portugal conservado a sua independência?
Acaso ignoras que não sofre jugo alheio? Não tens exemplos? Que te importa a desgraça que julgas consequente da sujeição espanhola? Porventura te rogámos auxílio? É forte mania! Acaso procedem os espanhóis como os franceses? Acaso têm usurpado alheios Ceptros? Acaso destronizaram o seu Rei para aclamarem um estranho homem, cingindo-lhe essa vacilante fronte com o Diadema Imperial? Não! Estes atentados, odiosos ao Mundo todo, só a França é capaz de cometer; só ela é capaz de sofrer. Se a Espanha disputasse o Direito de Sucessão a Portugal, poderia a França articular preferência?
Alma invejosa e ambiciosa, desengana-te, desengana o teu abatido Napoleão. A Europa saiu do letargo; já não dorme, nem dormirá. Não te canses em persuadir-nos da sua alta protecção, ela está bem conhecida por todos os povos a quem ele a tem prometido! Perfídias, traições, eis aqui a grande protecção! E quais serão as felicidades consequentes!
Diz-nos: Que felicidade trouxeste a Portugal?
Oprimir os povos com pesadas contribuições para resgate dos nossos bens, que não estavam cativos; reduzir à indigência famílias inteiras, tirando-lhes o pão que os seus chefes ganhavam pelos seus empregos públicos; sacrificar a virtude à necessidade; exterminar as nossas melhores tropas; extinguir o resto; desarmar as cidades e povoações com o frívolo e manhoso pretexto de manter a segurança pública, quando só por medo que te resistam deste esse errado passo; pôr finalmente a nação indefesa, pobre, sem comércio, sem erário; é porventura tudo isto alguma sombra de felicidade? Eis aqui os efeitos dessa protecção! Itália, fala tu, diz quais são os benefícios que tens recebido da mão daquele que tudo promete e nada faz; que tudo promete para enganar! Ah! Tu não respondes? A escravidão e o medo te embarga a voz! Não importa: Nós o sabemos, o Mundo o conhece, e tu em tempo o dirás. E sobre estes males intentava o Déspota da Europa dar-nos um Padrasto, escolhido por ele, da sua mesma raça, igual a ele? Com que Direito? Com o da guerra? Não. Com o da conquista? Não: ele mesmo já confessou não ter conquistado este Reino. Logo, com que Direito nos dava um Rei que as nossas Leis fundamentais excluem de governar estes Reinos? Sair o Príncipe para Estados seus será crime? E contra quem o cometeu? Não, não é este facto criminoso: é sim um efeito do seu paternal amor para com os seus fiéis vassalos, cujo sangue quis poupar, salvando igualmente a sua Real Pessoa, contra quem os pérfidos atentavam; ele se entrega às ondas dos vastos mares, e deixa-nos a última prova do seu paternal amor, recomendando-nos a obediência ao poder francês, a fim de evitar a efusão do nosso sangue. Que amor! Que heroísmo!
Ah! Se assim não fizeras, Príncipe Amado, a soberba capital veria o sangue dos seus filhos correr pelas suas ruas, e em caudalosos rios o de todos os franceses; cada um procurando seu diferente leito, porque a honra e a virtude não podem unir-se à insídia e à aleivosia. Lisboa veria tão triste cena; mas o triunfo também veria: Lisboa seria Bayonne, mas a presa não sairia. 
Se Portugal te pediu um Rei, obrou tão livre nessa rogativa como os Soberanos de Espanha, na abdicação de seus Estados a favor de um ambicioso até dos atributos da Divindade. Estranhas que Portugal agora proceda assim, e não te lembras que prometendo tu proteger-nos, ias a fazer-nos desgraçados?
Não dizes tu que te imitem? Pois que outra coisa fazemos? Tal é a tua política!
Recorda, Emissário do Despotismo, a infame traição praticada com a Família Real dos Bourbons: vê-te nesse espelho da maior perfídia, e sabe que nenhum Monarca até hoje cometeu acção tão execranda. Não, não; porque o Sangue Régio não produz acções vis. Este sangue não gira nas veias do teu Napoleão! Circula sim um amargoso fel, que a natureza por diferença lhe deu em vez de sangue, compostos dos líquidos mais venenosos de todas as Hidras, de todas as Serpes, cujo leite bebeu na sua desgraçada infância. E vassalos de um tal Rei deveriam entre nós viver? Que valorosas façanhas, que heroísmos têm feito? Acaso é valentia vencer numa batalha, havendo comprado o plano do ataque e o Ministro da Guerra ou Generais da Coroa contra quem marchavam? Não, isto não é heroísmo, é vileza. É com estes Soldados que pretendes vencer-nos?
O Egipto, a Rússia, Alemanha e Itália estão semeadas de frios e mirrados esqueletos franceses sacrificados à ambição das ambições. Espanha e Portugal sepultarão o resto. Aqui mesmo desaparecerá de uma vez essa estrela de Napoleão, que tu crês impossível desmaiar no meio de uns poucos facciosos; aqui mesmo amortecerá com todo o corpo esse braço do mais valente dos seus Generais, como te inculcas nos papéis públicos; aqui mesmo será o termo de tantas glórias ganhadas por traições, perfídias e compras. É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome e tão guerreiras temem guarnecer uma Bateria na Barra Nova da cidade de Faro, só porque imaginavam ser possível cruzar aqueles mares algum batel inglês?
É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome e tão guerreiras são espectadores indiferentes ao combate de dois brigues ingleses com quatro barcas espanholas, na Barreta da mesma cidade*, olhando atemorizados, uns fugindo, outros vendo de suas janelas, como praticou o General Maurin, hoje nosso prisioneiro? E que não acodem aos seus aliados, que foram vítimas? É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome saqueiam os móveis que se lhe davam para alojamento, praticando esta feia e vil acção os seus mesmos Comandantes?
Ah! a antiga França já não existe: esta é hoje a nova França! É com estes soldados que pretendes vencer-nos? Pérfido! São estes os Soldados do bravo Exército da Gironda, do Marengo, de Austerlitz, de Friedland? Envergonha-te! Se são os mesmos, então a perfídia ou a compra venceram as batalhas.
Junot, General por momentos, nós conhecemos a tua triste situação; tu também a conheces: diga-o a carta que dirigias a Napoleão, recomendando-lhe a tua família. E ainda ostentas ameaças?
Onde tens, ou donde te virão essas Tropas para mandares ao saque das nossas cidades, a destruí-las totalmente, e passar ao fio da espada os seus habitantes?
Virão por mar? E que dirá Neptuno a isso? Virão por Espanha? Desgraçadas! Infelizes vítimas!
Não, tu não te podes salvar; tu não tens Soldados: eles te abandonam. Se por algum tempo te seguiram, outro chegou de conhecerem a sua desgraça; de conhecerem, tornamos a dizer, que o homem só deve entrar no estado de guerra para defender a Religião, o Rei e a Pátria. Mas os teus Soldados conhecem que só defendem o capricho de um usurpador de alheias coroas, em que não interessam, porque não são seus irmãos ou parentes. À natureza aborrece o estado de guerra. Ah! Junot, que verdades estas! Afinal recorres às excomunhões e aos anátemas fulminados nessa involuntária pastoral do colégio patriarcal, como que se tu acreditaras esses castigos, ou se Deus punisse quem defende a sua causa.
Cessa de publicar punições; perde, louco, a louca ideia de vir a Portugal esse Eugénio; não exacerbes a nossa cólera; considera o trágico fim das Tropas francesas na Espanha. Esse grande Exército de Dupont, onde está? Que é feito dele? Colunas cortadas, Batalhões assassinados; eis aqui a sua sorte! Saragoça, diz tu, se desses 18 mil franceses que passaste à espada, restou um só? Bravo furor espanhol, conta as tuas vitórias, e continua sempre valoroso, intrépido e honrado. Lembre-te, Junot, o furor português, e persuadir-te-ás com os teus Generais e Soldados que serão todos pequeno pasto para os embravecidos Leões da Lusitânia triunfante, o Algarve. Nós defendemos uma causa justa; tu porém defendes a traição. E como não será assim se tu mesmo nascido em Portugal** vieste invadir a tua pátria! Olha a tua pátria; pensa os teus deveres; ouve a pátria que te fala:

Traidor parricida! Porque assim maltratas tua Mãe? Não distribuí eu igualmente contigo e teus irmãos o mesmo leite, os mesmos costumes, as mesmas inclinações, a mesma honra, a mesma virtude? Porventura ensinei-te a perfídia? Que motivos tens para rasgar as entranhas que te conceberam? Esqueceram-te os deveres sagrados? Ah! Ingrato! Desengana-te. Envergonha-te, entra em tua mesma consciência, lerás nela o teu castigo: sim, o sacrifício a que te expôs Napoleão, entregando-te à raiva portuguesa, faminta de sangue francês.
Estás sacrificado, e pelo teu grande amigo bem protegido: receberás o prémio.

A pátria acabou de falar. E que respondes? Nada... Ímpio, se a verdadeira Religião morasse em teu coração, outro serias qual nós somos. Não, nós não violamos a Religião, como tu dizes; este crime só a nova França comete. Lembre-te um Berthier entrando em Roma, o qual mandando oferecer ao Santíssimo Padre Pio VI o tope da liberdade, e uma certa pensão, recebeu a resposta seguinte:

Não conheço mais que um uniforme, que é aquele com que me decorou a Santa Igreja. Podeis, se quiserdes, destruir o meu corpo; a alma não. Eu conheço o açoite que castiga as ovelhas e o pastor, e a vingança Divina pelas culpas de todo o rebanho; louve a tua mão Soberana; não necessito de pensão; um cajado e um alforge bastam para quem deve acabar a vida debaixo da cinza e do cilício; roubai, saqueai e incendiai ao vosso uso; arruinareis os Templos; porém, o Culto durará assim depois, como durou antes de vós-outros, e permanecerá até a consumação dos Séculos – Pio VI.

Lembre-te o sacrílego procedimento das tuas Tropas na vila de Mértola há poucos dias. Saiba o Mundo que semelhantes Tropas mancharam os altares sagrados, servindo-se deles como de um cepo para cortarem a carne, e da pia baptismal para salgarem a mesma carne. Não mais, não mais nos arguas. 
Essa contribuição perdoadaesse plano de pagar às nossas Tropas, não são bastantes para nos voltarem à obediência das tuas ordens. Nós te agradecemos as belas searas que a Providência nos deu; nós te rendemos graças por nos preservares de uma terrível fome; se tu não foras, certamente não comeríamos.
Graças... mas a quem? A um Deus, que sofre a um mortal tanta ousadia; um mortal, que julga estar em sua mão a prodigiosa produção das nossas searas, e que nos livrou da fome; como que se ele fizera entrar em Portugal alguns víveres para o nosso sustento.
Ah! miserável General! Basta de liberalizar tantas Graças! A contribuição está por nós mesmos perdoada! Os soldos serão pagos, não por tua ordem, pois que o Erário está saqueado, segundo o uso da nova França. Nós te concedemos ainda um momento para te salvares; nisto conhecerás a nossa gratidão. Bem sabes que se nunca tememos Exércitos guerreiros, [nunca] temeremos uns vis cobardes. Se continuas, pagarás com a vida: no teu sangue e no de teus Soldados cevaremos a nossa ira; aproveita; não ouças os teus Subalternos, que não duvidam derramar com o teu o seu sangue; aproveita enquanto é tempo, depõe as armas. Aliás, eis aqui a punição que te espera:

Capitulação não será recebida. As nossas armas serão depostas sobre gargantas francesas. O sangue de um só português será vingado com o de toda a França.

Em obséquio da Religião, do Príncipe e da Pátria.

[Fonte: Proclamação que o general em chefe do exercito de Portugal dirigio aos portuguezes em consequencia da sublevação do Algarve e resposta à mesma, Lisboa, 1808, apud Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 334-340, pp. 336-340].

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Notas: 

Segundo Alberto Iria, antes mesmo do Algarve se revoltar, o autor desta proclamação (resposta a uma outra de Junot datada de 26 de Junho), Frei José do Sacramento Pessoa, padre franciscano de Tavira, tinha composto e feito divulgar uma outra proclamação de incentivo à restauração, para além de ter sido um dos responsáveis pelo armazenamento e ocultação, naquela mesma cidade, de cento e setenta armas. No dia 3 de Julho, já com os franceses definitivamente expulsos do Algarve, foi um dos encarregados pelo conde de Castro Marim para a redacção de uma constituição provisória que procurasse reunir os esforços das várias localidades algarvias e dissipar alguns conflitos de poder que então ocorreram, facto aliás comum por todo a Península Ibérica... Na sequência desta constituição, Frei José foi nomeado vogal da Junta Provisional de Tavira. Marchou depois com o chamado Exército do Sul em direcção ao Alentejo, donde passaria a Lisboa, acompanhando o conde de Castro Marim, quando a capital ficou despojada de franceses. Regressou então ao Algarve para comunicar à Junta da província a restauração do reino e da Regência estabelecida pelo Príncipe (com algumas alterações) antes da partida deste para o Brasil. Será, assim, através dele, que o Bispo do Algarve viria a receber a carta que o Governo de Lisboa lhe enviou no dia 20 de Setembro, reconhecendo os feitos do povo algarvio e particularmente o de Olhão, como mais adiante veremos. 
Ainda que desconheçamos o resultado das suas petições, sabemos ainda que tanto em 1809 como em 1814 (vivendo nesta última data no Convento de S. Francisco de Beja) solicitou licença para passar ao Rio de Janeiro, provavelmente para pedir alguma benesse ao Príncipe, em função dos seus feitos em defesa dos interesses da monarquia portuguesa [Cf. Biblioteca Virtual do Projeto Resgate: Colônia/Capitania - Rio de Janeiro, 1809 e 1814].



** Na verdade, Junot nasceu na comuna francesa de Bussy-le-Grand. Desconhecemos donde proveio a confusão do autor desta proclamação.