terça-feira, 21 de junho de 2011

Excerto de uma carta do General Spencer ao Secretário de Estado da Guerra, Visconde Castlereagh (21 de Junho de 1808)




No brigue de Sua Majestade Scout, diante de Lagos, 21 de Junho de 1808


Meu Senhor:

Como a esquadra francesa rendeu-se no dia 14 e os comissários espanhóis [enviados pela Junta de Sevilha] embarcaram seguidamente para a Inglaterra, permita-me que recapitule os diferentes eventos que conduziram a este objecto desejável, e que relate a Vossa Senhoria a situação presente da Espanha e de Portugal, se são correctas as informações que obtive.
Os ânimos gerais dos espanhóis foram sendo excitados durante algum tempo, até chegarem ao maior grau de indignação pela conduta dos franceses. A informação da resignação forçada da Coroa de Espanha por Carlos IV, Fernando e toda a Família Real a favor de Bonaparte, foi aparentemente o que provocou a oposição universal aos objectivos da França.
A Junta de Sevilha, uma das principais jurisdições provinciais da Espanha, arrogou em alguns estatutos da sua constituição a sua rejeição às ordens do Supremo Conselho de Madrid, enquanto aquela capital estiver em poder das tropas estrangeiras. Assumiu-se assim como uma autoridade independente, em nome de Fernando VII, a quem proclamou Rei; e depois de alguns passos preliminares, declarou formalmente guerra à França e apelou à nação espanhola para a sustentar; e a sua supremacia foi reconhecida pelas Juntas de várias outras províncias.
Na Andaluzia, a Junta reuniu entre quinze a vinte mil tropas regulares, e distribuiu armas a mais de sessenta mil paisanos. O General Castaños foi nomeado Comandante em Chefe; e suponho que ele tenciona aumentar, a partir dos primeiros recrutamentos, o estabelecimento dos antigos regimentos, para duplicar o seu número actual.
Também se estão formando assembleias provinciais na maioria das grandes vilas e diferentes depósitos [de militares], em consequência do aumento dos voluntários. 
A Junta tem proporcionalmente cerca de quatro mil homens de cavalaria, e ainda uma grande quantidade de artilharia, visto que Sevilha tem uma fundição e um dos maiores depósitos da Espanha.
Todos os relatos confirmam que as insurreições começaram quase ao mesmo tempo em todas as partes da Espanha; e muitos destacamentos do inimigo, e seus oficiais, foram travados na suas marchas.
O General Avril recebeu ordens para se juntar em Sevilha com quatro mil homens, que se deviam reunir em Alcoutim, mas com a nossa chegada à barra de Ayamonte, com o armamento de toda a Espanha, e com os alarmes em Portugal, os franceses evitaram esse movimento; creio que o General Junot não será capaz de destacar quaisquer tropas de Portugal, e ainda que se suponha que um corpo francês foi reunido em Elvas, não penso que possa exceder quatro mil homens, embora as notícias da sua força sejam muito diversas.
Em Faro, os portugueses já se levantaram, aprisionando ou destruindo um destacamento de cerca de duzentos homens, e apoderando-se das armas e munições da província, que os franceses tinham juntado num depósito, e também cerca de quarenta mil dólares em ouro, que o General francês [Maurin] tinha acumulado.




Proclamação do Bispo do Porto apelando à tranquilidade e segurança pública (21 de Junho de 1808)



Carta do Juiz de Fora da Sertã para Lagarde, sobre os acontecimentos no Porto, boatos e a situação em Sertã (21 de Junho de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Neste correio recebo dois ofícios de V. Ex.ª datados um a 10 e outro a 15 do corrente, e tenho a dizer a V. Ex.ª que já nesta vila se relatava o triste evento entre as tropas francesas e espanholas na cidade do Porto, o que julgava [que] não devia participar a V. Ex.ª primeiramente porque semelhante novidade em nada alterou e menos atraiu os ânimos dos meus domiciliários, antes continuam no mesmo bom sossego; em 2.º lugar esta notícia, tendo chegado por vozes vulgares, não dava certeza e crédito, e nunca eu quero ser achado em engano, e ultimamente entremeando daqui ao Porto 28 léguas e tantos magistrados, mais incumbia aos mais vizinhos darem conta do que a mim; mas, como V. Ex.ª exige participação até de boatos, anuncio (não respondendo pela verdade ou certeza) que se diz vulgarmente que em Espanha se cuida apressadamente num numeroso Exército, que este todos os dias se aumenta com imensos voluntários; que com eles se envolvem muitos ingleses, e que destinam uma grande parte a entrar em Portugal dirigidos contra as autoridades delegadas de Sua Majestade Imperial e Real; que Elvas está em sítio; e ultimamente, que em Espanha tudo é tumulto contra as tropas francesas; mas este povo nem dá inteiro crédito a estas notícias, nem menos as apoia; e por isso sem esforço nem predicações mantenho a paz entre eles.
Convém também dar parte a V. Ex.ª que nesta vila se faz um mercado, a que concorrem os povos em distância de quatro e seis léguas a comprarem os géneros de que precisam, e a venderem os de que abundam; isto no dia sábado de cada semana: requereram os povos que em cada um daqueles dias perdia a lavoura e agricultura oitocentas ou mil pessoas, [o] que em todas as semanas do ano fazia um prejuízo muito considerável, e que este se evitava mudando-se o mercado para o dia Domingo, em cujo dia não implicava venderem-se semelhantes géneros; a Câmara, em conferência que olhava a economia do povo, consultando os interesses destes julgou de acerto e utilidade mudar-se aquele mercado para o Domingo; porém, como muito poucos indivíduos, principalmente eclesiásticos, que têm aquele dia Domingo mais ocupado na sua paróquia, e por isso menos tempo de passarem o mercado, ao qual nenhuma utilidade ou abundância resulta da sua assistência; figurando-se nimiamente escrupulosos da disciplina eclesiástica, mostram-se pouco satisfeitos com a mudança; quando esta seja da aprovação de V. Ex.ª, queira por uma sua portaria autorizá-la e apoiá-la, para maior firmeza para o futuro, no que fará ao público uma nova graça própria da liberalidade da sua alma.
Sertã, 21 de Junho de 1808.

O Juiz de Fora, Isidoro António do Amaral Semblano

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 5, doc. 18].


Carta de Domingos Moniz, Juiz de Fora da vila de Trancoso, para Lagarde, sobre boatos e requisições de Loison





Trancoso, 21 de Junho de 1808


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Neste correio, senhor, recebi 2 ofícios, um com a [?] gazeta e notícias de Madrid, e outro com as proclamações do acontecimento do Porto e disposições das armas aos espanhóis, das quais instruções de V.ª Ex.ª fico ciente, e fiz publicar aos concidadãos que hoje assistiram à audiência; e mandei [que] se lessem[?] aos que não assistiram; na [?] inteligência de que o sucesso do Porto diste desta vila 28 léguas, diferente província; mas porque não estava inteirado do mesmo, mas só o fiei depois que se pôs em marcha a tropa de Almeida para aquela cidade, de cujo chefe, o Excelentíssimo sr. Loison, recebi ordens em 18 deste [mês], e que o mesmo mo participou, é que acreditei [n]o sucesso, e de que só neste correio devia participar a V.ª Ex.ª o mesmo trânsito, e o meteria o sucesso, por não ser neste território; é-me como o que aqui se diz acontecido na Guarda às tropas francesas com os desertores, que estes mataram um daqueles, e sobreviera a morte a mais 4, porém que nem o povo e nem as justiças são responsáveis. A par dos ofícios de V.ª Ex.ª nada ouço ou posso informar relativo ao caso da Espanha mais que alguns factos inacreditáveis de levantes e partidos, mas ignoro aonde e de quem seriam.
Da praça de Almeida se me têm feito algumas requisições para fornecimento das tropas, o que esta vila e termo se tem prestado louvavelmente, mas para melhor complemento pedi ao Sr. Governador da mesma e General da província [a] autoridade para poder estender as mesmas [requisições] às vilas das mesmas superintendências das décimas e sisas, algumas próximas a esta, mas não da mesma jurisdição ordinária; e como os mesmos senhores ainda não me autorizaram, nem sei se anuíram à mesma súplica, a faço a V.ª Ex.ª para melhor poder concorrer com o que se me pedir em auxílio das tropas; pois pedindo agora por autoridade (ainda que vocal) do Excelentíssimo sr. Loison aos juízes ordinários das ditas vilas, estes não se prontificaram como deveriam, nem o farão [a] menos que os oficiais deste juízo não exigir[em] as mesmas requisições por mandato meu independente dos mesmos juízes, que, por serem ordinários, o não fazem com o zelo que requer o serviço de Sua Majestade Imperial e Real, ao qual sempre me prontificarei sem a menor hesitação, e muito mais facultando-me V.ª Ex.ª a autoridade que exijo e espero.
Tenho a distinta honra de saudar a V.ª Ex.ª

O Juiz de Fora Domingos Moniz

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 5, doc. 17].

Carta do Juiz Desembargador e Corregedor da comarca de Moncorvo para Lagarde, sobre a conduta do General Sepúlveda (21 de Junho de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


No correio antecedente avisei a V. Ex.ª de algumas coisas sucedidas nesta comarca e província; agora acresce mais dizer a V. Ex.ª que tenho notícia de que o General desta província Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda em Bragança deu ordens ao Feitor do assento daquele Quartel para fazer cozer e aprontar munício para sustento de alguns Batalhões de tropa que ele passava a formar nesta província para defesa dela, e a mesma ordem dirigiu por via do Governador da Praça de Chaves à administração do mesmo assento nela estabelecida, para o dito efeito de prontificação de munício. Como este concelho de Monforte de Rio Livre, que é em que estou, dista de Chaves quatro léguas, consta-me que à mesma Praça têm concorrido vários soldados e oficiais, que saíram na redução, para se atestarem, aos quais o General fez convocar por via dos Coronéis; igualmente consta que o mesmo General, em nome do Príncipe do Brasil, tem publicado que perdoa a todos os desertores da primeira deserção no caso de se reunirem a seus corpos. 
O Edital que V. Ex.ª me dirigiu na data de vinte e um [sic] do corrente o fiz afixar. E como as circunstâncias actuais pode ser [que] venha[m] a causar revolução, tumulto ou desordens, eu passo já à cabeça desta comarca (Torre de Moncorvo), a fim de suplicar todos os meus esforços para que o povo não se altere e sossegue o espírito, e até para ali receber e executar as ordens que V.ª Ex.ª e as mais repartições me dirigirem. 
Consta-me finalmente que de Espanha têm vindo alguns soldados a procurar outros da mesma nação que se achavam nesta província ocupados a levar a vida por jeiras, e os têm conduzido consigo para o mesmo Reino. 
V. Ex.ª mandará o que lhe parecer justo.
Monforte de Rio Livre, 21 de Junho de 1808.

O Desembargador Corregedor da Comarca de Moncorvo, 
Francisco de Avis da Fonseca

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 5, doc. 29].


Gravura do General Sepúlveda





Gravura da autoria de Francesco Bartolozzi (1812)


Sepúlveda em Bragança alçando a mão 
Disse pelo Príncipe Regente D. João


Carta de Sepúlveda, em nome da Junta de Bragança, à Junta Suprema do Reino da Galiza (21 de Junho de 1808)



Havendo esta província de Trás-os-Montes tomado a nobre resolução de sacudir o jugo francês que nos oprimia, hoje, 21 do corrente Junho, proclamou com bando solene [a] guerra aos franceses e arvorou as quinas portuguesas; formando-se uma Junta de representantes de todos os estados da província para deliberar e decretar tudo aquilo que for conducente aos bens dos povos e ao feliz êxito da guerra; e pondo-se em armas toda a tropa possível, a fim de repelir a força e obrar belicamente onde e como melhor convenha. E como os interesses desta província são os mesmos que os de toda a Espanha, temos a honra de participar a Vossas Excelências a nossa resolução para nos ajudarmos mutuamente nas urgências da causa comum; rogando a Vossas Excelências [que] se dignem [a] comunicar-nos as novidades que ocorrerem, que nós da nossa parte faremos outro tanto.
Da Praça de Almeida consta com toda a certeza [que] saíram três ou quatro mil franceses, e há motivos de supor que se encaminham ao Porto; e como por ali podem penetrar a esta província, nos pareceu necessário participar isto a Vossas Excelências; e por estarmos ainda com a tropa por organizar, é indispensável que Vossas Excelências queiram secundar as nossas boas intenções, enviando-nos dois oficiais Generais que possam comandar as nossas tropas (pois que o nosso Excelentíssimo Presidente se acha impedido na Junta) e ao mesmo tempo alguma artilharia e infantaria de linha que possa animar a nossa, a qual está há muitos tempos sem disciplina e ainda mal organizada; esperando que esta providência seja rápida, porque os movimentos dos franceses o são também.
O oficial portador desta [carta] melhor exporá a Vossas Excelências a nossa resolução, o nosso estado e as nossas provisões; rogamos a Vossas Excelências [que] o ouçam benignamente e se sirvam atendê-lo em quanto for possível.
Deus Guarde a Vossas Excelências.
Quartel-General de Bragança, em Junta de 21 de Junho de 1808.

Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda
Tenente-General e Presidente

P.S. Inclusa remetemos uma cópia da nossa proclamação; e podemos certificar que uma parte da província do Minho tem tomado igual resolução.


[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Estados de Fuerza de las tropas españolas en Portugal. Documentación relativa a los ejercitos de la provincia de Tras-os Montes, así como a subsistencias y pasaportes de ciudadanos", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.3//DIVERSOS-COLECCIONES,87,N.27].


Edital do General Sepúlveda convocando os transmontanos às armas contra os franceses (21 de Junho de 1808)





Criação da Junta de Bragança (21 de Junho de 1808)



Em Bragança, depois de no dia 11 de Junho de 1808 se ter aclamado o Príncipe regente e do General Sepúlveda ter convocado os desertores às armas, através de um edital, “desde o dia 15 se tinha falado numa Junta de Governo, mas [esta] somente veio a formar-se a 21, quando a revolução já estava muito adiantada; e denominando-se ao princípio Suprema, tomou depois o título mais modesto de Provincial, para não chocar com a que dois dias antes se tinha estabelecido no Porto [...]. Sepúlveda foi o seu Presidente; e para ela se transferiu realmente toda a administração e poder supremo nos negócios da província, em nome de Sua Alteza Real o Príncipe Regente; mas as suas determinações não foram sempre respeitadas em todas as terras, como mostrará a série dos factos. 
É do mesmo dia um segundo edital de Sepúlveda, pelo qual chamou novamente às armas, e com mais ampla generalidade, a todos os transmontanos sem excepção de pessoa, contra o inimigo comum; trazendo-lhes à memória os feitos dos antigos portugueses, e pondo-lhes diante dos olhos o exemplo dos espanhóis. Pelo mesmo edital ordenou que todos os franceses, de qualquer graduação que fossem, existentes nos limites da província, saíssem dela no termo de três dias, com a cominação de serem havidos por espias e punidos na conformidade das leis, com sequestro de seus bens por via de represália. E contando já com a completa insurreição de todo o norte do Douro, estabeleceu a sua linha de defesa neste rio, e tratou de formar um plano de operações ulteriores, combinado com os espanhóis, abrindo para isso correspondências com o General Pignatelli, que comandava em Zamora, e com de la Cuesta, então Capitão-General de Castela [e ainda com a Junta da Galiza].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 148-149].


Versos de Marfirio Cândido, “Pastor do Douro”, dedicados à retirada de Loison



À face das Lusas Quinas 
É qualquer um novo Marte: 
Que o diga Loison fugindo
E os seus Soldados no Douro, 
Que em vão tentam passá-lo, 
Pois lhe iam chegando ao couro. 

[Fonte: Trombeta da verdade metrico-analytica, contra os planos, e imposturas de Napoleão, e seus satellites, por Marfirio Candido, pastor do Douro, Lisboa, Impressão Regia, 1811, apud Artur de Magalhães Basto, "O Porto contra Junot (continuação)", in Revista de Estudos Históricos, Faculdade de Letras do Porto, vol. 1, nº. 3, 1924, pag. 88-120, p. 102].

Notícias circunstanciadas dos sucessos na viagem do General Loison, dos dias 21, 22 e 23 de Junho de 1808



Tendo-se em 16 de Junho em Vila Real, primeiro que em outra parte, reconhecido os Direitos do Nosso Augusto PRÍNCIPE e rompido o vergonhoso Grilhão Francês que nos oprimia, na tarde desse feliz dia se ouviram por toda a parte alegres vozes de Viva Portugal, Viva o PRÍNCIPE, e Viva a Religião, pondo-se à testa de toda a Nobreza e Povo Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, Tenente Coronel de Cavalaria. Depois de tão gloriosa acção, se principiou a combinar os meios com que se fizesse realizar o projecto de extermínio do Tirano e Sanguinário Governo Francês, e restaurar em Portugal o da Soberana Casa de BRAGANÇA. Foi então que se soube em Vila Real que o General Loison, à testa de 2.500 homens, se encaminhava por Lamego ao Porto, a vingar nesta cidade a prisão que os valorosos Espanhóis tinham feito nos executores infames do pérfido Governo Francês; projectou-se obstar-se-lhe na passagem do Douro, porém, reflectindo-se melhor, intentou-se atacar o inimigo na passagem do escarpado Marão no sítio dos Padrões da Teixeira, convidando-se a isto os Povos de Guimarães, [Marco de] Canaveses e Amarante; partindo o Tenente-coronel Silveira para Chaves, a procurar fazer marchar 150 homens de Infantaria, já ali unidos, alguma Artilharia, e principalmente pólvora e bala, que não tínhamos. 
Enfim chega o dia 21, em que Loison passa o Douro com 2.500 Infantes, 100 Dragões, 4 Peças de Artilharia e 2 Obuses, trazendo 27 carros de bagagem. 0 General marchava numa carruagem no centro de uma desmantelada coluna, que marchava com toda a confiança de Conquistadores, sem ordem, e mesmo sem Armas carregadas: passaram primeiro 8 Cavaleiros, que imediatamente se dirigiram a Mesão Frio, para fazerem Quartéis; passou depois o General e o infame português Baeta, Físico-mor do Exército Francês, e a Cavalaria; o General e o Físico-mor dirigiram-se à Estalagem da Régua para almoçar, onde um valoroso Soldado do 18.º Regimento, por alcunha o Ruivo, intentou vingar neles as mortes que tão injustamente este General fez nos Oficiais, Soldados, e Paisanos na vila das Caldas, mas que aquela povoação não consentiu com o temor de que fosse arrasada. A Infantaria principiou a passar e logo que se achava formada alguma Divisão, carregava as armas e continuava a marcha a Mesão Frio. Estando Loison para jantar nesta vila, lhe veio dizer uma Ordenança que nos Padrões da Teixeira os Paisanos da Serra não os deixavam passar, a que respondeu o General, cheio de cólera: «Fazia tenção de dormir aqui, agora mudei de tenção; às 4 horas da tarde vou castigar os rebeldes.» Principiando de jantar, chega-lhe a notícia que na Régua dois valorosos homens portugueses tinham principiado a atacar as bagagens, e que este partido ia engrossando; destina-se o General a vir castigar os novos rebeldes: toca às armas; deixam comeres, malas e fardos em poder dos habitantes, e correm à Régua, aonde dois corajosos homens de Canelas, chamados António Teixeira Fraga Botelho e Manuel Pereira Falante, acompanhados depois de Manuel Alves Failde, António Teixeira de Araújo e do sempre animoso Capitão-Mor da Prezegueda, que ali tinha vindo com suas Ordenanças, e que em todo o dia comandou e animou, com outros de Poiares e Covelinhas, como também do Peso da Régua, atacaram a guarda da bagagem, que seriam 200 homens, e tendo-lhe feito grande carnagem, desampararam três carros que já tinham passado o Rio Douro, dos quais os nossos ficaram senhores, ficando a outra da margem oposta, à excepção de uma barca que vinha passando o rio, da qual os marinheiros se fizeram senhores, ficando todos os seus efeitos nas nossas mãos; este sucesso fez retroceder o General e a sua Coluna. Uns corajosos Paisanos se emboscaram no sítio do Santinho; Carlos, Cirurgião da Régua, e outro, cujo nome se ignora, esperaram com as armas ocultas, mas descobertos, que o General passasse; passou, e a 30 passos lhe atiraram quatro tiros, e vendo que não caíra, lhe começaram a atirar à pedra, acção que pasmou o General; os emboscados fizeram fogo, mataram 2 Oficiais de Dragões e alguns Soldados de Cavalaria, mas se retiraram, porque duas Companhias Ligeiras passaram a atacá-los nas vinhas; os nossos tomaram as alturas, e o General, estabelecendo as suas guardas, se acampou no Olival Escuro, e assim se manteve tranquilo aquela tarde e noite, sendo contudo incomodado algumas vezes pelos Paisanos. Foi neste dia de manhã que Carlos, irmão do Capitão do Peso, matou o Capitão da 3.ª Companhia do 2.º Regimento de Infantaria Ligeira, chamado Francisco Leport, com ferimento de faca. Distinguiram-se mais João Guedes Figueira, João de Mancilha, um Alfaiate, e o Esquerdino, e outros muitos do Peso e Régua. 
Projectando no dia 22 o inimigo saquear o Peso e a Régua, quis assegurar-se das alturas de S. Gonçalo, e Senhora da Graça de Lobrigos, e Ribeira de Jugueiros; para isto mandou o Grão-Major de Batalha com um Destacamento de 30 homens, e vários outros Destacamentos, e fez passar a Artilharia para o lado oposto do rio, e a fez assestar no Peso e Régua; pôs as suas Guardas de forma que estas povoações ficaram cercadas; bordou tudo com a sua Tropa, e passou a executar mil modos de barbaridades e crueldades sobre os infelizes, que por sua idade, sexo e enfermidades não puderam largar as suas casas; o que tendo executado, sendo avisado [que] ia a ser atacado por diferentes Colunas de valorosas e corajosas Ordenanças, ao meio-dia tocou a reunir, e começou de repassar o Rio Douro, esquecendo-se de ir ao Porto executar os vis projectos do seu infame Governador. Foi neste dia de manhã que no posto da Senhora da Graça três valorosos Paisanos de Vila Real e um do Peso atacaram a Guarda do Grão-Major, matando a este e mais dois Soldados, sendo o primeiro que o feriu João Baptista de Araújo, Estanqueiro de pólvora em Vila Real, e repetindo-lhe segundo o caixeiro do Velela do Peso, tomando-lhe o primeiro um bom macho em que ia o tal Oficial. O Reverendo Capucho Fr. Pedro de Parada de Cunhos aqui matou 2 Soldados, e no alto de S. Gonçalo outro foi morto, sem que neste ataque tivéssemos algum morto ou ferido, mas tão somente aqueles infelizes, que a raiva a barbaridade de hum inimigo batido sacrificou no saque ao seu furor. 
Foi na tarde do dia 22 que a Coluna de Ordenanças de Vila Real, numerosa em mais de 10.000 animosos Paisanos, comandada, por unânime consentimento de todos e pela nomeação do Capitão mor das mesmas Ordenanças de Vila Real, pelo Tenente de Cavalaria João Botelho Guedes, chegou a S. Gonçalo de Lobrigos, e sendo informado que o inimigo tinha embarcado e que só lhe restava uma pequena porção de Tropa a passar, animou o Povo, mandando uma porção pelas alturas da Senhora da Graça, e outra pela Ribeira de Jugueiros, para irem batendo todas aquelas vinhas, não caírem em alguma emboscada, e reconhecer o país; foi pelo centro o Tenente de Granadeiros de Milícias de Vila Real, António de Almeida, acompanhado dos valorosos habitantes de Vila Real, os quais, por mais que voaram, já acharam que o inimigo havia passado o Rio Douro; porém como divisassem gente e carros, se embarcam, passam o Rio, espargem uma pequena Guarda, fazem um prisioneiro, e tomam uma forja de Campanha; sendo noite se recolhem à Régua, aonde pelas 10 horas da noite chegaram também duas Colunas de Ordenanças de Guimarães e Amarante, vindo à testa desta o Alferes de Cavalaria n.º 6 Luís Maria de Cerqueira e o Cadete de Artilharia João Borges de Cerqueira; e à testa daquela o Monsenhor Miranda, o Mestre Escola e Cónegos da Colegiada de Guimarães, o Capitão de Cavalaria António de Sousa, o Tenente de Cavalaria João Pinto Passo e outros muitos Fidalgos e Cavalheiros daquela Província, não faltando em todas estas colunas imensos Religiosos de todas as Ordens, Clérigos e seculares de toda a qualidade. Para segurança e sossego de Paisanos tão valorosos mas cansados com marchas de 5, 7, e 12 léguas, se estabeleceram guardas avançadas, guarnições em todos os barcos e barcas, os quais foram guardados, e rondados com valor, vigilância e disciplina Militar. 
Tendo-se no dia 23 pela manhã distribuído pólvora e bala que a actividade do Tenente-coronel Silveira tinha remetido de Chaves, e chegando à nossa notícia que Lamego era saqueada, determina-se o embarque e ir socorrer os nossos compatriotas; não se vê outra coisa mais do que a emulação de ser o primeiro no embarque; e se algum desfalecia por falta de comida (pois havia muitos que fizeram a marcha de um dia sem ter tomado alimento) o Tenente Botelho e Francisco Correia do Amaral o animava, dando-lhe mesmo do seu dinheiro para comprarem pão em Lamego e marcharem, sendo ambos incansáveis em fazer embarcar a gente, animá-la e conduzi-la em seguimento do inimigo. 
Chega-se a Lamego: a valorosa coluna de Vila Real formada a 3, com Bandeiras despregadas e ao som de caixas batentes, e seguida das outras, fazem declarar a esta cidade, ressoar nas suas ruas alegres vozes de Viva o PRÍNCIPE REGENTE, Viva PORTUGAL, Morram os seus inimigos. Os Cidadãos desta cidade, berço da nossa Monarquia, repetem o mesmo, correm às armas e unem-se à causa comum. Isto feito, corre-se ao ataque e encontra-se o inimigo acima da Póvoa de Juvantes, aonde estavam descansando; mas vendo que o seguíamos, continua a sua marcha nesta forma: O General Loison com toda a sua Cavalaria na Vanguarda, levando no centro a bagagem, e a Infantaria em coluna na retaguarda, marchando com grande união e disciplina, mas velozmente. Foi aqui que 250 a 300 homens valorosos, cheios do maior ânimo e coragem fazem sobre o inimigo um fogo matador e constante por mais de duas léguas. É de admirar a ordem e o método, com que o faziam, aproveitando-se das posições locais, penedias, e desfiladeiros; a presteza com que depois de fazerem a sua descarga, se lançavam à terra para carregar, e enquanto os outros avançavam terreno para dar a sua descarga, o reconhecimento das alturas, as emboscadas, etc., sendo animados todos pela Nobreza já dita, distinguindo-se muito o Monsenhor Miranda e o Tenente João Pinto Passo, que igual ao vento chegou numa escaramuça a raspejar a coluna inimiga; porém, a falta de pólvora e bala fez cessar o fogo e ataque. Mostra bem o respeito que nos olharam, a disciplina com que a coluna inimiga marchava, a retirada em ordem que fazia, as guardas que lançava para protegê-la, e o ser obrigado o General a montar a cavalo e a manobrar em consequência. 
Cessando o ataque, o inimigo acampou em duas pequenas eminências, formando da sua coluna dois quadrados, e reconcentrando no seu intervalo toda a bagagem, postando fortes guardas em todas as direcções, que mesmo de noite foram incomodadas por alguns que dormiram ao pé e pelos povos daquelas serras, que igualmente concorreram a seguir o inimigo. 
No dia 24 não passaram de Castre Daire, sendo até ali mesmo acossados, aonde o General pediu fios para se curar, por ir ferido numa coxa. 
Resultou destes diferentes ataques ser livre a capital do Porto, pôr-se em fugida um General experimentado, que comandava esses chamados valorosos vencedores de Marengo, Austerlitz e Jena, sendo acossados por Paisanas descalços, armados pela maior parte de foices, chuços e paus; vermos seguras de invasão as províncias do Minho e Trás-os-Montes; sofrendo de perda incalculáveis bagagens, já na Régua, que se lhe tomaram, já em Mesão Frio e Castro Daire, que abandonaram; vários e ricos uniformes, que ornam os Templos de S. Gonçalo de Amarante e [da] Senhora da Oliveira em Guimarães, e de que andam vestidos os nossos Paisanos; 2 obuses e mais de 25 barris de pólvora e bala, que foram mergulhados no Rio Douro, uma forja de Campanha, que enobrece Vila Real, outra despedaçada na Póvoa de Juvantes, uma carreta ali quebrada, a secretária lançada no Rio; perda para eles e para nós considerável, para nós por perdermos o conhecimento de seus planos e projectos, livros mestres e económicos de Companhias, livros e instrumentos de música, e sobretudo várias preciosidades de ouro e prata, que deixaram os nossos Paisanos ricos. 
Calcula-se a perda dos mortos do inimigo em mais de 300, e sabe-se que em Viseu achou de menos 700 a 800; nos mortos entra um Grão-Major, um Ajudante de Ordens, um Capitão e dois Oficiais de Cavalaria; consta levar de Castro Daire 20 carros de feridos, sendo do seu número o General e um Ajudante de Campo. Morreram da nossa parte 4 valorosos homens, perda considerável pelo seu valor, o qual os sacrificou até ir com uma foice no Peso atacar-lhe as fileiras; tivemos três feridos; morreram mais no saque 15 pessoas das desgraçadas que nas casas se achavam e [e que se] encontravam nos caminhos descuidadas. 
Distinguiram-se, além dos já nomeados e cujos nomes se puderam averiguar, de Vila Real o Capitão Baía, o Padre Luís Cambalhoto, 2 irmãos por alcunha os Paciências, Gregório das Quintelas, o Tenente de Milícias de Parada Cristóvão, o Reverendo José de Galegos da Serra, um sobrinho do pintor da Rua Nova, o Padre José Ferreira Grilo, Alexandre Carroça, António Dias, o Reverendo Abade de S. Dionísio, António Cumprido, um rapaz por alcunha o Mirandeiro, Romão Fernandes, todos de Vila Real, e outros muitos que ignoro os nomes; 3 Religiosos de Celeiros, os de Canelas, os da Prezegueda, muitos de Guimarães, alguns de Lamego, e entre estes os Marchantes, que até foram a cavalo e com os seus cães de fila; é grande o sentimento ignorar o nome de um Religioso que em toda a acção de 23 perseguiu o General, e que obrigou a este a fazer-lhe elogios em Viseu. Deve-se grande parte desta acção ao valoroso Coronel de Milícias António da Silveira Pinto, motor da marcha da Coluna de Vila Real; e que com presteza nos veio sustentar e franquear a passagem do Rio com 150 homens de Tropa de Linha e 4 peças. 
Assim se terminaram três gloriosos dias, cujos louros são as primícias dos muitos que se hão-de de colher, e que puseram em segurança o Porto, o Minho, e Trás-os-Montes.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os escassos recursos militares de Junot e a ida do General Loison para o Porto




Como atrás vimos, foi preciso esperar até ao dia 9 de Junho para chegarem a Junot as notícias de que três dias antes o exército espanhol comandado por Belestá tinha aprisionado os franceses que estavam no Porto e marchado com estes para a Galiza. Para além de em represália ter mandado prender os vários destacamentos dispersos de espanhóis que estavam ao seu alcance (fora alguns que conseguiram fugir, como o Regimento de Múrcia), Junot deu também ordens ao General Loison para que este retrocedesse a sua marcha e fosse ocupar a cidade do Porto. 

Ainda que a Gazeta de Lisboa anunciasse frequentemente que Portugal vivia num cenário de tranquilidade, aqueles acontecimentos do Porto vieram agravar a situação bastante crítica em que Junot já se encontrava, e isto antes mesmo de ter conhecimento dos vários focos de insurreição que começariam a surgir nos dias seguintes e a alastrar pelo norte e pelo sul do país. A saída da divisão de Solano do sul de Portugal, algumas ordens de Napoleão e do Grão-Duque de Berg, e finalmente as revoltas espanholas, obrigaram Junot a dividir e a dispor sucessivamente o seu exército em novos postos. Desta forma, nos primeiros dias de Junho mais de um terço da totalidade dos seus homens estava repartido entre Almeida, Elvas e no sudeste do país (estes últimos com ordens para entrar na Espanha e abafar as revoltas da Andaluzia, juntamente com o exército de Dupont, e depois seguir para Cádis). À excepção de alguns destacamentos dispersos pelas estradas que conduziam de Lisboa a aqueles pontos, e exceptuando também a região litoral à volta de Lisboa, onde se encontravam cerca de 10.000 homens (ou seja, cerca de metade dos franceses que nesta época eram comandados por Junot), o resto do país estava então literalmente livre de franceses:



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Principais pontos ocupados pelos franceses (cerca de 10 de Junho de 1808)




As ordens e contra-ordens das movimentações do General Loison ilustram bem o estado de desorientação em que Junot se encontrava, sabendo que as suas forças eram insuficientes para conseguir sustentar a ocupação do país em caso de um desembarque dos ingleses e/ou do alastramento das revoltas espanholas a Portugal (desorientação esta que se torna visível em grande parte da correspondência que Junot enviou a Napoleão pelo menos até 7 de Junho de 1808, data da última carta conhecida). De facto, Loison, que no dia 8 de Dezembro de 1807 instalara o seu Quartel-General em Torres Vedras para comandar a sua divisão, que se concentrou sobretudo entre Mafra e Peniche, recebeu ordens em meados de Maio do ano seguinte para partir para a praça de Almeida, acompanhado com uma coluna de cerca de 4.000 homens. Depois de cerca de 15 dias de árdua viagem até Almeida, Loison continuou a marcha em direcção a Ciudad Rodrigo, a fim de repor as comunicações com o exército francês que ocupava a Espanha, pois os rebeldes espanhóis tinham começado a interceptar a correspondência dos franceses desde meados de Maio de 1808. Pouco depois de passar a fronteira e de mandar ocupar o forte de la Concepción, Loison recebe as contra-ordens de Junot para ir ocupar o Porto, dado que os espanhóis tinham abandonado esta cidade. Assim, no dia 17 de Junho, Loison viu-se obrigado a retroceder a sua marcha, começando a caminhar para o Porto acompanhado por cerca de 2.600 franceses e com 3 ou 5 peças de artilharia (consoante as versões). 
A viagem decorreu sem grandes incidentes até Lamego, onde este corpo pernoitou no dia 20. Contudo, tudo se alteraria nos dias seguintes. Como temos mostrado, depois dos espanhóis terem aprisionado os poucos franceses que se encontravam no Porto, várias povoações a norte do Douro começaram a aclamar o Príncipe regente e a levantar-se contra o governo francês. 





Focos de insurreições no norte do país até 19 de Junho de 1808





Ao cruzar o Douro na manhã seguinte, um militar experiente como Loison iria deparar-se com um cenário que jamais tinha visto, sendo atacado não por um exército mas por pequenos bandos de guerrilhas emboscados no meio das vinhas, que, quando acabavam as suas munições, atiravam pedras... Como veremos, depois de quase ir para o maneta, Loison acabou por no dia 23 voltar a passar para a margem sul do Douro, supostamente por ter recebido novas ordens de Junot para regressar a Almeida...



Carta do Capitão George Creyke ao Almirante Charles Cotton, sobre o estado dos acontecimentos do Porto (20 de Junho de 1808)




H.M.S. Elipse, barra do Porto, 20 de Junho de 1808 



Senhor: 

Depois da relação que tive a honra de vos entregar a 10 de Junho, o Porto sofreu duas revoluções, e esteve sucessivamente nas mãos dos franceses e nas dos vassalos do Príncipe Regente. 
Depois dos espanhóis terem entregado os fortes à guarda dos portugueses e das bandeiras nacionais terem sido hasteadas, os franceses puderam voltar a estabelecer a sua autoridade, em consequência das fracas e indeterminadas medidas do Governador, Luís de Oliveira, que agora está preso como traidor, e a mantiveram até ao dia 16, dia do Corpus Christi, grande festividade nacional, na qual tem sido habitual que os Regimentos portugueses assistam arvorando as bandeiras [nacionais]. O Governador [Luís] de Oliveira, em consequência de ordens de Junot, tentou estabelecer na procissão a bandeira francesa em vez da portuguesa. Este violento ataque contra o costume nacional elevou os murmúrios da populaça a tal grau, que, quando se tentou executar a ordem do Governador, esta não teve qualquer efeito; e na tarde do dia 18 (um dia antes da minha chegada aqui), o povo estava excitado a tal grau de fúria que, apoiado pelos eclesiásticos, levantou-se em massa, arrombou os depósitos e muniu-se com vinte e cinco mil conjuntos de armas, e junto com a tropa regular, formou um exército bastante determinado e entusiasmado. A partir deste momento, toda a autoridade francesa cessou; e foram presos todos os homens franceses ou suspeitos de serem amigos dos franceses. 
O Bispo do Porto foi eleito como novo Governador, e um exército de vinte mil homens foi enviado para encontrar os franceses que tinham avançado, em número de novecentos, até seis léguas de distância do Porto. 
O entusiasmo foi comunicado de boca a boca, e as províncias portuguesas de Trás-os-Montes, Minho e a parte setentrional da Beira, à imitação dos espanhóis, levantaram-se sobre armas, determinadas a extirpar os franceses do seu Reino. Segundo as contagens mais moderadas, para além dos que existem no Porto, posso estimar que se levantaram mais de 100.000 homens. 
Todos os Regimentos regulares desmantelados pelos franceses estão a formar-se novamente com a maior actividade, e em brevemente unir-se-ão aos outros. Tive hoje uma entrevista com Sua Excelência o Governador, tendo sido conduzido até ele entre brados e hurras da populaça. 
Amanhã enviarei um destacamento para montar as peças de artilharia de um grande navio do Brasil, cujo comando foi dado a um inglês, e que se destina a bateria flutuante para defender a ponte [das barcas], caso os franceses tenham a temeridade de se aproximarem, embora não se receie tal ocorrência. Se me for requerida alguma pólvora, consentirei em dá-la, mas por agora eles têm abundância de armas, munições e mantimentos. 
A repulsa dos portugueses pelos franceses é tão grande que o Capitão Jones e eu, depois de suplicarmos pela vida do Intendente da Polícia francês [Perron], tivemos a maior dificuldade para trazê-lo como prisioneiro para o barco, e apenas o ilimitado amor e respeito pelos ingleses pôde evitar que a raivosa populaça não o desfizesse aos pedaços. 
Tenho a honra de ser, etc. 

G. A. Creyke 


[Fonte: The London Gazette, n.º 16161, from Saturday July 9, to Tuesday July 12, 1808, p. 963-964. Para além da nossa, existe uma outra tradução disponível no Correio Braziliense de Julho de 1808, p. 143]. 


Edital da Junta Suprema do Porto sobre as taxas sobre o azeite e vinho (20 de Junho de 1808)






Ordem da Junta Suprema do Porto para que a alfândega voltasse a cobrar as taxas impostas no tempo do Príncipe Regente (20 de Junho de 1808)




Edital da Junta do Supremo Governo do Porto sobre o governo militar da comarca de Penafiel, Sobre-Tâmega e Amarante (20 de Junho de 1808)



Edital da Junta do Supremo Governo do Porto convocando os soldados veteranos (20 de Junho de 1808)



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Observação: Para além dos veteranos, neste mesmo dia 20 de Junho de 1808 também se mandaram armar as Ordenanças, como se pode ver da seguinte acta de vereação da Junta do Porto:

Nesta sessão, por ser intimada a ordem bocal da Junta do Supremo governo desta Cidade ao Vereador Ber­nardo de Mello Vieira da Silva Menezes para se armar e por em acção toda a Ordenança de que este Senado é Capitão Mor, se determinou expedirem-se logo ordens, como efectivamente se expedirão sem perda de tempo, a todos os Sargentos Mores e Capitães respectivos para se porem imediatamente em armas, e prontos para toda a utilidade contra os franceses, determinando-se que se acendessem os fachos e [que] se participasse quaisquer notícias da chegada do inimigo para se lhe sair ao encontro.
[Fonte: Artur de Magalhães Basto, "O Porto contra Junot (continuação)", in Revista de Estudos Históricos da Faculdade do Porto, vol. 1, nº. 3, 1924, pp. 88-120, p. 105].

Carta da Câmara de Faro às demais Câmaras do Reino do Algarve, participando a restauração daquela cidade (20 de Junho de 1808)


Ilustríssimos Senhores, Juiz de Fora, Presidente, Vereadores e [de]mais Oficiais da Câmara, etc.:

No dia 19 do corrente mês, pelas duas horas da tarde, foi proclamado pelo povo desta cidade, por seu Legítimo Soberano o Príncipe Regente de Portugal Nosso Senhor. Arvoraram-se as suas bandeiras e a elas se reuniram os habitantes de todas as classes da mesma cidade e termo para defenderem os direitos do mesmo Soberano, Pátria, vidas e propriedades, contra os esforços do comum inimigo; e como esta causa interessa a todos os fiéis portugueses, razão porque o povo desta cidade e termo, e o Corpo militar, têm rogado e instado a esta Câmara [para que] haja de fazer manifesto a todas as cidades e vilas deste Reino do Algarve [que] queiram fazer comum connosco para repelirmos a força do comum inimigo, e não deixar exposta ao seu furor esta pequena porção de honrados e fiéis portugueses. 
Portanto, rogamos a Vossas Senhorias para que se dignem fazer público ao povo os nossos sentimentos e a nossa situação, e fazer as necessárias participações a todas as autoridades desse termo, para que de comum acordo cooperem connosco e tomem as medidas convenientes para se obter o fim desejado, e isto sem perda alguma de tempo, pois toda a demora poderá ser nociva. 
Deus Guarde a Vossas Senhorias 
Faro, em Câmara de vinte de Junho de 1808. 

Manuel Herculano de Freitas Azevedo Falcão, Presidente 
João Veloso Manuel Pessanha Cabral 
Domingos da Costa Dias e Barros 
Ventura da Cruz 
João Manuel de Faria Freire 
Guilherme José Pargana 
Amaro de Santa Teresa 
Manuel da Costa

[Fonte: Adérito Fernandes Vaz, Olhão da Restauração no tempo e a 1.º Invasão Francesa em 1808, no contexto regional e nacional – 2.º Volume, Olhão, Elos Clube de Olhão, 2009, pp. 72-74 (reprodução fac-símile de uma cópia desta carta)].

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Nota:

Num folheto impresso da época, esta carta era seguida pela seguida nota:
Por efeito desta carta, que foi circular e remetida logo a todas as Câmaras das cidades e vilas deste Reino do Algarve, se pôs logo todo o Povo em massa pronto para repelir o Comum Inimigo, o que assim felizmente se conseguiu, tento todos a glória de novamente aclamarem a Rainha Fidelíssima Nossa Senhora e o Príncipe Regente Nosso Senhor por nosso legítimo Soberano, e segunda vez ser restaurado este fiel Reino do Algarve do poder dos Inimigos rapinadores, que, com manifesta perfídia, entraram neste Reino de Portugal para o roubarem e assolarem, bem como assim o têm praticado em todo ou quase todo o Universo.
[Fonte:
Representação ou carta enviada pela Câmara desta cidade de Faro ao Rio de Janeiro a Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor, Faro, Officina de Don Josè Maria Guerrero [sic], s.d. [c. 1808], pp. 5-6].
 

Carta do Cônsul Geral da Espanha em Lisboa ao Governador de Badajoz e Presidente da Junta da Extremadura





Meu estimado Moreti: 



Mil sinceros parabéns pelo seu novo emprego, e muitos mais pelo formidável, brilhante e bom aspecto que vão tomando os negócios da minha amada pátria. Sabendo Vossa Mercê tudo quanto particularmente me interessa, suplico-lhe que não seja tão lacónico quando me escreva; assim mesmo lhe rogo que use de iniciais para indicar pessoas que já conheço, e que assine o seu nome com um M. e que me escreva sob o nome de Guanche. Todas estas precauções e ainda mais são necessárias no estado crítico em que nós os espanhóis nos achamos neste Reino*. O recomendado de Vossa Mercê chegou no dia 16, e no mesmo dia prosseguiu com toda a segurança para o seu destino, levando consigo a carta fechada que trazia e a recomendação de um bom amigo. Acaba de voltar com a resposta**, e não querendo eu deter-lhe, direi a Vossa Mercê à pressa as notícias e as ideias que me ocorrem para que, no caso de que essa Junta [da Extremadura] as considere úteis, possa comunicá-las à Suprema Junta de Sevilha. 

O Exército francês de Portugal, que jamais chegou a ter 24 mil homens, acha-se reduzido a 13 ou a 14 mil, repartidos entre Elvas, Almeida, Porto, Figueira, Peniche, Cascais, Mafra, Setúbal, Reino dos Algarves e Lisboa***, podendo dizer-se que se encontram encerrados num saco com as imensas riquezas que produziu a contribuição de guerra e a prata das igrejas, o que se computa em 24 milhões de duros [sic]. 
Um Exército espanhol composto de 18 ou 20 mil homens, vindo da Galiza a esta cidade [=Lisboa] por via do Porto, poderia fazer a conquista deste Reino em 15 ou 20 dias, adquiriria para a Espanha a maior reputação política aos olhos da Europa, recolheria bastantes riquezas para fazer toda a campanha, guardaria e asseguraria as nossas fronteiras, destruindo este Exército inimigo que está nas suas costas, daria a liberdade a três ou quatro mil espanhóis indignamente desarmados, etc., etc. 
Digo que este Exército deveria vir da Galiza, primeiro por ser aquela província a que mais abunda de gente, por ser a menos ameaçada do inimigo e a mais fácil de defender-se pelas suas costas e montanhas, e em segundo lugar porque não tendo o nosso Exército que atravessar o Tejo, neutralizaria e evadiria as dificuldades que opõem os navios e fortalezas que o defendem. 
Para melhor assegurar o mais pronto e feliz êxito da empresa, seria conveniente: 

1.º que uma divisão de oito a dez mil homens entrasse por Santa Bárbara e Serpa para apoderar-se do Alentejo e Setúbal, e cortar a comunicação do Algarve. 

2.º que o Exército de Badajoz ameaçasse as guarnições de Elvas. 

3.º que o de Ciudad Rodrigo praticasse outro tanto a respeito de Almeida. 

4.º enfim, que os ingleses fizessem um falso ataque sobre Cascais e São Julião no dia em que os espanhóis se apresentassem diante desta capital. Deste modo poderia não haver uma gota de sangue derramada. 

Na minha opinião, uma proclamação curta deveria expressar que os espanhóis vinham agora a Portugal com o objectivo de combater contra um Exército tão inimigo dos portugueses como dos espanhóis, que, fazendo causa comum, vinham ajudá-los a sacudir o jugo infame, que vêm enfim abrir os seus portos ao comércio, à abundância e à prosperidade de que gozava este Reino antes que uns soldados que não têm mais religião nem princípios que o amor das riquezas, não somente os despojaram das que tinham, mais ainda de todos os meios que podiam procurar a sua existência, etc., etc. 
As últimas notícias de Inglaterra anunciam-nos que uma expedição de 20 mil homens ao mando do General Moore deveria sair daqueles portos no mês de Maio, e que se dirigiria a Portugal; as embarcações de transporte que se viram ultimamente unir-se à esquadra que bloqueia este porto parece que apoiam esta opinião; mas todo o bom espanhol devia sentir cordialmente que seja a Inglaterra e não a Espanha a que faça a fácil e vantajosa conquista de Portugal, em primeiro lugar porque podiam os ingleses apoderar-se das naus de guerra que ficaram neste porto, e das imensas riquezas que os franceses juntaram, e em segundo lugar porque fazendo-se donos de Portugal, julgariam poder dispor ao seu gosto este Reino; ao passo que se fossem os espanhóis os que fizessem a conquista, poderiam ou devolvê-la ao seu Príncipe, ou trocá-la por uma possessão americana que o acomodasse. Para realizar a nossa intenção, seria preciso adiantar-nos e não perder um instante para executar o projecto; rogando ao mesmo tempo aos ingleses que destinem a sua expedição para outros portos da Espanha. Basta por agora. Noutra ocasião direi o mais que ocorra. 
As expressões de Vossa Mercê foram muito gratas e o grau de Coronel fez abrir tamanhas atenções. Veja Vossa Mercê se um pobre aprisionado e desarmado pode servir de alguma coisa e mande com confiança mas com cautela a seu amigo. 



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Nota: 

A razão de tantas precauções (o sublinhado é do autor) deve-se à mudança da atitude de Junot com os espanhóis depois de ter tomado conhecimento da rebelião do General Belestá no Porto e de outros corpos de tropas espanholas noutras partes de Portugal (como por exemplo o Regimento de Múrcia). Na sequência destes acontecimentos, como atrás vimos, Junot ordenou que os militares espanhóis se reunissem no Terreiro do Paço (para supostamente embarcarem de regresso ao seu país), sendo aí desarmados e encarcerados em embarcações surtas no Tejo (salvo algo algumas excepções). Ignoramos se foi devido a este incidente que o Cônsul Geral da Espanha resultou prisioneiro, como o afirma no último parágrafo desta carta, ou se só o diz num sentido metafórico, tendo em conta tudo o que tinha ocorrido aos espanhóis. De qualquer forma, e apesar de não datada, esta carta teria sido escrita por volta de 20 de Junho de 1808, sendo remetida para o Governador de Badajoz através de um dos vários confidentes que este último tinha em Lisboa. Para evitar represálias caso a carta fosse interceptada pelos franceses, o Cônsul espanhol (cujo nome real ignoramos) assinou-a com o falso nome de Guanche (que curiosamente é o nome dado aos habitantes das Cánarias no tempo da sua conquista), e endereçou-a um outro pseudónimo, Moreti (que não deve ser confundido com Federico Moretti), ao qual felicita pela sua suposta condecoração de Coronel. O destinatário era, na verdade, José (ou Josef, segundo a grafia da época) Galluzo, Governador de Badajoz e presidente da Junta Suprema da província da Extremadura, conforme este último confessaria ao Capitão General do Exército da Galiza numa carta datada de 25 de Junho de 1808

** É possível que se trate da resposta de Cotton a Galluzo datada de 20 de Junho de 1808. Não encontrámos a carta de Galluzo (de 11 de Junho) que motivou tal resposta.

*** Enganava-se o Cônsul ao rebaixar tanto os números reais dos franceses em Portugal. Ignorava também que o "Reino do Algarve" já estava a repelir os invasores desde o dia 16 de Junho, data da "restauração" iniciada em Olhão. Na verdade, foi o próprio Junot que deu publicidade às revoltas algarvias e do norte do país através da sua famosa proclamação de 26 de Junho de 1808, a qual inclusive serviu de motivo para uma réplica dum franciscano algarvio, entre outras.