terça-feira, 21 de junho de 2011

Notícias circunstanciadas dos sucessos na viagem do General Loison, dos dias 21, 22 e 23 de Junho de 1808



Tendo-se em 16 de Junho em Vila Real, primeiro que em outra parte, reconhecido os Direitos do Nosso Augusto PRÍNCIPE e rompido o vergonhoso Grilhão Francês que nos oprimia, na tarde desse feliz dia se ouviram por toda a parte alegres vozes de Viva Portugal, Viva o PRÍNCIPE, e Viva a Religião, pondo-se à testa de toda a Nobreza e Povo Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, Tenente Coronel de Cavalaria. Depois de tão gloriosa acção, se principiou a combinar os meios com que se fizesse realizar o projecto de extermínio do Tirano e Sanguinário Governo Francês, e restaurar em Portugal o da Soberana Casa de BRAGANÇA. Foi então que se soube em Vila Real que o General Loison, à testa de 2.500 homens, se encaminhava por Lamego ao Porto, a vingar nesta cidade a prisão que os valorosos Espanhóis tinham feito nos executores infames do pérfido Governo Francês; projectou-se obstar-se-lhe na passagem do Douro, porém, reflectindo-se melhor, intentou-se atacar o inimigo na passagem do escarpado Marão no sítio dos Padrões da Teixeira, convidando-se a isto os Povos de Guimarães, [Marco de] Canaveses e Amarante; partindo o Tenente-coronel Silveira para Chaves, a procurar fazer marchar 150 homens de Infantaria, já ali unidos, alguma Artilharia, e principalmente pólvora e bala, que não tínhamos. 
Enfim chega o dia 21, em que Loison passa o Douro com 2.500 Infantes, 100 Dragões, 4 Peças de Artilharia e 2 Obuses, trazendo 27 carros de bagagem. 0 General marchava numa carruagem no centro de uma desmantelada coluna, que marchava com toda a confiança de Conquistadores, sem ordem, e mesmo sem Armas carregadas: passaram primeiro 8 Cavaleiros, que imediatamente se dirigiram a Mesão Frio, para fazerem Quartéis; passou depois o General e o infame português Baeta, Físico-mor do Exército Francês, e a Cavalaria; o General e o Físico-mor dirigiram-se à Estalagem da Régua para almoçar, onde um valoroso Soldado do 18.º Regimento, por alcunha o Ruivo, intentou vingar neles as mortes que tão injustamente este General fez nos Oficiais, Soldados, e Paisanos na vila das Caldas, mas que aquela povoação não consentiu com o temor de que fosse arrasada. A Infantaria principiou a passar e logo que se achava formada alguma Divisão, carregava as armas e continuava a marcha a Mesão Frio. Estando Loison para jantar nesta vila, lhe veio dizer uma Ordenança que nos Padrões da Teixeira os Paisanos da Serra não os deixavam passar, a que respondeu o General, cheio de cólera: «Fazia tenção de dormir aqui, agora mudei de tenção; às 4 horas da tarde vou castigar os rebeldes.» Principiando de jantar, chega-lhe a notícia que na Régua dois valorosos homens portugueses tinham principiado a atacar as bagagens, e que este partido ia engrossando; destina-se o General a vir castigar os novos rebeldes: toca às armas; deixam comeres, malas e fardos em poder dos habitantes, e correm à Régua, aonde dois corajosos homens de Canelas, chamados António Teixeira Fraga Botelho e Manuel Pereira Falante, acompanhados depois de Manuel Alves Failde, António Teixeira de Araújo e do sempre animoso Capitão-Mor da Prezegueda, que ali tinha vindo com suas Ordenanças, e que em todo o dia comandou e animou, com outros de Poiares e Covelinhas, como também do Peso da Régua, atacaram a guarda da bagagem, que seriam 200 homens, e tendo-lhe feito grande carnagem, desampararam três carros que já tinham passado o Rio Douro, dos quais os nossos ficaram senhores, ficando a outra da margem oposta, à excepção de uma barca que vinha passando o rio, da qual os marinheiros se fizeram senhores, ficando todos os seus efeitos nas nossas mãos; este sucesso fez retroceder o General e a sua Coluna. Uns corajosos Paisanos se emboscaram no sítio do Santinho; Carlos, Cirurgião da Régua, e outro, cujo nome se ignora, esperaram com as armas ocultas, mas descobertos, que o General passasse; passou, e a 30 passos lhe atiraram quatro tiros, e vendo que não caíra, lhe começaram a atirar à pedra, acção que pasmou o General; os emboscados fizeram fogo, mataram 2 Oficiais de Dragões e alguns Soldados de Cavalaria, mas se retiraram, porque duas Companhias Ligeiras passaram a atacá-los nas vinhas; os nossos tomaram as alturas, e o General, estabelecendo as suas guardas, se acampou no Olival Escuro, e assim se manteve tranquilo aquela tarde e noite, sendo contudo incomodado algumas vezes pelos Paisanos. Foi neste dia de manhã que Carlos, irmão do Capitão do Peso, matou o Capitão da 3.ª Companhia do 2.º Regimento de Infantaria Ligeira, chamado Francisco Leport, com ferimento de faca. Distinguiram-se mais João Guedes Figueira, João de Mancilha, um Alfaiate, e o Esquerdino, e outros muitos do Peso e Régua. 
Projectando no dia 22 o inimigo saquear o Peso e a Régua, quis assegurar-se das alturas de S. Gonçalo, e Senhora da Graça de Lobrigos, e Ribeira de Jugueiros; para isto mandou o Grão-Major de Batalha com um Destacamento de 30 homens, e vários outros Destacamentos, e fez passar a Artilharia para o lado oposto do rio, e a fez assestar no Peso e Régua; pôs as suas Guardas de forma que estas povoações ficaram cercadas; bordou tudo com a sua Tropa, e passou a executar mil modos de barbaridades e crueldades sobre os infelizes, que por sua idade, sexo e enfermidades não puderam largar as suas casas; o que tendo executado, sendo avisado [que] ia a ser atacado por diferentes Colunas de valorosas e corajosas Ordenanças, ao meio-dia tocou a reunir, e começou de repassar o Rio Douro, esquecendo-se de ir ao Porto executar os vis projectos do seu infame Governador. Foi neste dia de manhã que no posto da Senhora da Graça três valorosos Paisanos de Vila Real e um do Peso atacaram a Guarda do Grão-Major, matando a este e mais dois Soldados, sendo o primeiro que o feriu João Baptista de Araújo, Estanqueiro de pólvora em Vila Real, e repetindo-lhe segundo o caixeiro do Velela do Peso, tomando-lhe o primeiro um bom macho em que ia o tal Oficial. O Reverendo Capucho Fr. Pedro de Parada de Cunhos aqui matou 2 Soldados, e no alto de S. Gonçalo outro foi morto, sem que neste ataque tivéssemos algum morto ou ferido, mas tão somente aqueles infelizes, que a raiva a barbaridade de hum inimigo batido sacrificou no saque ao seu furor. 
Foi na tarde do dia 22 que a Coluna de Ordenanças de Vila Real, numerosa em mais de 10.000 animosos Paisanos, comandada, por unânime consentimento de todos e pela nomeação do Capitão mor das mesmas Ordenanças de Vila Real, pelo Tenente de Cavalaria João Botelho Guedes, chegou a S. Gonçalo de Lobrigos, e sendo informado que o inimigo tinha embarcado e que só lhe restava uma pequena porção de Tropa a passar, animou o Povo, mandando uma porção pelas alturas da Senhora da Graça, e outra pela Ribeira de Jugueiros, para irem batendo todas aquelas vinhas, não caírem em alguma emboscada, e reconhecer o país; foi pelo centro o Tenente de Granadeiros de Milícias de Vila Real, António de Almeida, acompanhado dos valorosos habitantes de Vila Real, os quais, por mais que voaram, já acharam que o inimigo havia passado o Rio Douro; porém como divisassem gente e carros, se embarcam, passam o Rio, espargem uma pequena Guarda, fazem um prisioneiro, e tomam uma forja de Campanha; sendo noite se recolhem à Régua, aonde pelas 10 horas da noite chegaram também duas Colunas de Ordenanças de Guimarães e Amarante, vindo à testa desta o Alferes de Cavalaria n.º 6 Luís Maria de Cerqueira e o Cadete de Artilharia João Borges de Cerqueira; e à testa daquela o Monsenhor Miranda, o Mestre Escola e Cónegos da Colegiada de Guimarães, o Capitão de Cavalaria António de Sousa, o Tenente de Cavalaria João Pinto Passo e outros muitos Fidalgos e Cavalheiros daquela Província, não faltando em todas estas colunas imensos Religiosos de todas as Ordens, Clérigos e seculares de toda a qualidade. Para segurança e sossego de Paisanos tão valorosos mas cansados com marchas de 5, 7, e 12 léguas, se estabeleceram guardas avançadas, guarnições em todos os barcos e barcas, os quais foram guardados, e rondados com valor, vigilância e disciplina Militar. 
Tendo-se no dia 23 pela manhã distribuído pólvora e bala que a actividade do Tenente-coronel Silveira tinha remetido de Chaves, e chegando à nossa notícia que Lamego era saqueada, determina-se o embarque e ir socorrer os nossos compatriotas; não se vê outra coisa mais do que a emulação de ser o primeiro no embarque; e se algum desfalecia por falta de comida (pois havia muitos que fizeram a marcha de um dia sem ter tomado alimento) o Tenente Botelho e Francisco Correia do Amaral o animava, dando-lhe mesmo do seu dinheiro para comprarem pão em Lamego e marcharem, sendo ambos incansáveis em fazer embarcar a gente, animá-la e conduzi-la em seguimento do inimigo. 
Chega-se a Lamego: a valorosa coluna de Vila Real formada a 3, com Bandeiras despregadas e ao som de caixas batentes, e seguida das outras, fazem declarar a esta cidade, ressoar nas suas ruas alegres vozes de Viva o PRÍNCIPE REGENTE, Viva PORTUGAL, Morram os seus inimigos. Os Cidadãos desta cidade, berço da nossa Monarquia, repetem o mesmo, correm às armas e unem-se à causa comum. Isto feito, corre-se ao ataque e encontra-se o inimigo acima da Póvoa de Juvantes, aonde estavam descansando; mas vendo que o seguíamos, continua a sua marcha nesta forma: O General Loison com toda a sua Cavalaria na Vanguarda, levando no centro a bagagem, e a Infantaria em coluna na retaguarda, marchando com grande união e disciplina, mas velozmente. Foi aqui que 250 a 300 homens valorosos, cheios do maior ânimo e coragem fazem sobre o inimigo um fogo matador e constante por mais de duas léguas. É de admirar a ordem e o método, com que o faziam, aproveitando-se das posições locais, penedias, e desfiladeiros; a presteza com que depois de fazerem a sua descarga, se lançavam à terra para carregar, e enquanto os outros avançavam terreno para dar a sua descarga, o reconhecimento das alturas, as emboscadas, etc., sendo animados todos pela Nobreza já dita, distinguindo-se muito o Monsenhor Miranda e o Tenente João Pinto Passo, que igual ao vento chegou numa escaramuça a raspejar a coluna inimiga; porém, a falta de pólvora e bala fez cessar o fogo e ataque. Mostra bem o respeito que nos olharam, a disciplina com que a coluna inimiga marchava, a retirada em ordem que fazia, as guardas que lançava para protegê-la, e o ser obrigado o General a montar a cavalo e a manobrar em consequência. 
Cessando o ataque, o inimigo acampou em duas pequenas eminências, formando da sua coluna dois quadrados, e reconcentrando no seu intervalo toda a bagagem, postando fortes guardas em todas as direcções, que mesmo de noite foram incomodadas por alguns que dormiram ao pé e pelos povos daquelas serras, que igualmente concorreram a seguir o inimigo. 
No dia 24 não passaram de Castre Daire, sendo até ali mesmo acossados, aonde o General pediu fios para se curar, por ir ferido numa coxa. 
Resultou destes diferentes ataques ser livre a capital do Porto, pôr-se em fugida um General experimentado, que comandava esses chamados valorosos vencedores de Marengo, Austerlitz e Jena, sendo acossados por Paisanas descalços, armados pela maior parte de foices, chuços e paus; vermos seguras de invasão as províncias do Minho e Trás-os-Montes; sofrendo de perda incalculáveis bagagens, já na Régua, que se lhe tomaram, já em Mesão Frio e Castro Daire, que abandonaram; vários e ricos uniformes, que ornam os Templos de S. Gonçalo de Amarante e [da] Senhora da Oliveira em Guimarães, e de que andam vestidos os nossos Paisanos; 2 obuses e mais de 25 barris de pólvora e bala, que foram mergulhados no Rio Douro, uma forja de Campanha, que enobrece Vila Real, outra despedaçada na Póvoa de Juvantes, uma carreta ali quebrada, a secretária lançada no Rio; perda para eles e para nós considerável, para nós por perdermos o conhecimento de seus planos e projectos, livros mestres e económicos de Companhias, livros e instrumentos de música, e sobretudo várias preciosidades de ouro e prata, que deixaram os nossos Paisanos ricos. 
Calcula-se a perda dos mortos do inimigo em mais de 300, e sabe-se que em Viseu achou de menos 700 a 800; nos mortos entra um Grão-Major, um Ajudante de Ordens, um Capitão e dois Oficiais de Cavalaria; consta levar de Castro Daire 20 carros de feridos, sendo do seu número o General e um Ajudante de Campo. Morreram da nossa parte 4 valorosos homens, perda considerável pelo seu valor, o qual os sacrificou até ir com uma foice no Peso atacar-lhe as fileiras; tivemos três feridos; morreram mais no saque 15 pessoas das desgraçadas que nas casas se achavam e [e que se] encontravam nos caminhos descuidadas. 
Distinguiram-se, além dos já nomeados e cujos nomes se puderam averiguar, de Vila Real o Capitão Baía, o Padre Luís Cambalhoto, 2 irmãos por alcunha os Paciências, Gregório das Quintelas, o Tenente de Milícias de Parada Cristóvão, o Reverendo José de Galegos da Serra, um sobrinho do pintor da Rua Nova, o Padre José Ferreira Grilo, Alexandre Carroça, António Dias, o Reverendo Abade de S. Dionísio, António Cumprido, um rapaz por alcunha o Mirandeiro, Romão Fernandes, todos de Vila Real, e outros muitos que ignoro os nomes; 3 Religiosos de Celeiros, os de Canelas, os da Prezegueda, muitos de Guimarães, alguns de Lamego, e entre estes os Marchantes, que até foram a cavalo e com os seus cães de fila; é grande o sentimento ignorar o nome de um Religioso que em toda a acção de 23 perseguiu o General, e que obrigou a este a fazer-lhe elogios em Viseu. Deve-se grande parte desta acção ao valoroso Coronel de Milícias António da Silveira Pinto, motor da marcha da Coluna de Vila Real; e que com presteza nos veio sustentar e franquear a passagem do Rio com 150 homens de Tropa de Linha e 4 peças. 
Assim se terminaram três gloriosos dias, cujos louros são as primícias dos muitos que se hão-de de colher, e que puseram em segurança o Porto, o Minho, e Trás-os-Montes.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os escassos recursos militares de Junot e a ida do General Loison para o Porto




Como atrás vimos, foi preciso esperar até ao dia 9 de Junho para chegarem a Junot as notícias de que três dias antes o exército espanhol comandado por Belestá tinha aprisionado os franceses que estavam no Porto e marchado com estes para a Galiza. Para além de em represália ter mandado prender os vários destacamentos dispersos de espanhóis que estavam ao seu alcance (fora alguns que conseguiram fugir, como o Regimento de Múrcia), Junot deu também ordens ao General Loison para que este retrocedesse a sua marcha e fosse ocupar a cidade do Porto. 

Ainda que a Gazeta de Lisboa anunciasse frequentemente que Portugal vivia num cenário de tranquilidade, aqueles acontecimentos do Porto vieram agravar a situação bastante crítica em que Junot já se encontrava, e isto antes mesmo de ter conhecimento dos vários focos de insurreição que começariam a surgir nos dias seguintes e a alastrar pelo norte e pelo sul do país. A saída da divisão de Solano do sul de Portugal, algumas ordens de Napoleão e do Grão-Duque de Berg, e finalmente as revoltas espanholas, obrigaram Junot a dividir e a dispor sucessivamente o seu exército em novos postos. Desta forma, nos primeiros dias de Junho mais de um terço da totalidade dos seus homens estava repartido entre Almeida, Elvas e no sudeste do país (estes últimos com ordens para entrar na Espanha e abafar as revoltas da Andaluzia, juntamente com o exército de Dupont, e depois seguir para Cádis). À excepção de alguns destacamentos dispersos pelas estradas que conduziam de Lisboa a aqueles pontos, e exceptuando também a região litoral à volta de Lisboa, onde se encontravam cerca de 10.000 homens (ou seja, cerca de metade dos franceses que nesta época eram comandados por Junot), o resto do país estava então literalmente livre de franceses:



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Principais pontos ocupados pelos franceses (cerca de 10 de Junho de 1808)




As ordens e contra-ordens das movimentações do General Loison ilustram bem o estado de desorientação em que Junot se encontrava, sabendo que as suas forças eram insuficientes para conseguir sustentar a ocupação do país em caso de um desembarque dos ingleses e/ou do alastramento das revoltas espanholas a Portugal (desorientação esta que se torna visível em grande parte da correspondência que Junot enviou a Napoleão pelo menos até 7 de Junho de 1808, data da última carta conhecida). De facto, Loison, que no dia 8 de Dezembro de 1807 instalara o seu Quartel-General em Torres Vedras para comandar a sua divisão, que se concentrou sobretudo entre Mafra e Peniche, recebeu ordens em meados de Maio do ano seguinte para partir para a praça de Almeida, acompanhado com uma coluna de cerca de 4.000 homens. Depois de cerca de 15 dias de árdua viagem até Almeida, Loison continuou a marcha em direcção a Ciudad Rodrigo, a fim de repor as comunicações com o exército francês que ocupava a Espanha, pois os rebeldes espanhóis tinham começado a interceptar a correspondência dos franceses desde meados de Maio de 1808. Pouco depois de passar a fronteira e de mandar ocupar o forte de la Concepción, Loison recebe as contra-ordens de Junot para ir ocupar o Porto, dado que os espanhóis tinham abandonado esta cidade. Assim, no dia 17 de Junho, Loison viu-se obrigado a retroceder a sua marcha, começando a caminhar para o Porto acompanhado por cerca de 2.600 franceses e com 3 ou 5 peças de artilharia (consoante as versões). 
A viagem decorreu sem grandes incidentes até Lamego, onde este corpo pernoitou no dia 20. Contudo, tudo se alteraria nos dias seguintes. Como temos mostrado, depois dos espanhóis terem aprisionado os poucos franceses que se encontravam no Porto, várias povoações a norte do Douro começaram a aclamar o Príncipe regente e a levantar-se contra o governo francês. 





Focos de insurreições no norte do país até 19 de Junho de 1808





Ao cruzar o Douro na manhã seguinte, um militar experiente como Loison iria deparar-se com um cenário que jamais tinha visto, sendo atacado não por um exército mas por pequenos bandos de guerrilhas emboscados no meio das vinhas, que, quando acabavam as suas munições, atiravam pedras... Como veremos, depois de quase ir para o maneta, Loison acabou por no dia 23 voltar a passar para a margem sul do Douro, supostamente por ter recebido novas ordens de Junot para regressar a Almeida...



Carta do Capitão George Creyke ao Almirante Charles Cotton, sobre o estado dos acontecimentos do Porto (20 de Junho de 1808)




H.M.S. Elipse, barra do Porto, 20 de Junho de 1808 



Senhor: 

Depois da relação que tive a honra de vos entregar a 10 de Junho, o Porto sofreu duas revoluções, e esteve sucessivamente nas mãos dos franceses e nas dos vassalos do Príncipe Regente. 
Depois dos espanhóis terem entregado os fortes à guarda dos portugueses e das bandeiras nacionais terem sido hasteadas, os franceses puderam voltar a estabelecer a sua autoridade, em consequência das fracas e indeterminadas medidas do Governador, Luís de Oliveira, que agora está preso como traidor, e a mantiveram até ao dia 16, dia do Corpus Christi, grande festividade nacional, na qual tem sido habitual que os Regimentos portugueses assistam arvorando as bandeiras [nacionais]. O Governador [Luís] de Oliveira, em consequência de ordens de Junot, tentou estabelecer na procissão a bandeira francesa em vez da portuguesa. Este violento ataque contra o costume nacional elevou os murmúrios da populaça a tal grau, que, quando se tentou executar a ordem do Governador, esta não teve qualquer efeito; e na tarde do dia 18 (um dia antes da minha chegada aqui), o povo estava excitado a tal grau de fúria que, apoiado pelos eclesiásticos, levantou-se em massa, arrombou os depósitos e muniu-se com vinte e cinco mil conjuntos de armas, e junto com a tropa regular, formou um exército bastante determinado e entusiasmado. A partir deste momento, toda a autoridade francesa cessou; e foram presos todos os homens franceses ou suspeitos de serem amigos dos franceses. 
O Bispo do Porto foi eleito como novo Governador, e um exército de vinte mil homens foi enviado para encontrar os franceses que tinham avançado, em número de novecentos, até seis léguas de distância do Porto. 
O entusiasmo foi comunicado de boca a boca, e as províncias portuguesas de Trás-os-Montes, Minho e a parte setentrional da Beira, à imitação dos espanhóis, levantaram-se sobre armas, determinadas a extirpar os franceses do seu Reino. Segundo as contagens mais moderadas, para além dos que existem no Porto, posso estimar que se levantaram mais de 100.000 homens. 
Todos os Regimentos regulares desmantelados pelos franceses estão a formar-se novamente com a maior actividade, e em brevemente unir-se-ão aos outros. Tive hoje uma entrevista com Sua Excelência o Governador, tendo sido conduzido até ele entre brados e hurras da populaça. 
Amanhã enviarei um destacamento para montar as peças de artilharia de um grande navio do Brasil, cujo comando foi dado a um inglês, e que se destina a bateria flutuante para defender a ponte [das barcas], caso os franceses tenham a temeridade de se aproximarem, embora não se receie tal ocorrência. Se me for requerida alguma pólvora, consentirei em dá-la, mas por agora eles têm abundância de armas, munições e mantimentos. 
A repulsa dos portugueses pelos franceses é tão grande que o Capitão Jones e eu, depois de suplicarmos pela vida do Intendente da Polícia francês [Perron], tivemos a maior dificuldade para trazê-lo como prisioneiro para o barco, e apenas o ilimitado amor e respeito pelos ingleses pôde evitar que a raivosa populaça não o desfizesse aos pedaços. 
Tenho a honra de ser, etc. 

G. A. Creyke 


[Fonte: The London Gazette, n.º 16161, from Saturday July 9, to Tuesday July 12, 1808, p. 963-964. Para além da nossa, existe uma outra tradução disponível no Correio Braziliense de Julho de 1808, p. 143]. 


Edital da Junta Suprema do Porto sobre as taxas sobre o azeite e vinho (20 de Junho de 1808)






Ordem da Junta Suprema do Porto para que a alfândega voltasse a cobrar as taxas impostas no tempo do Príncipe Regente (20 de Junho de 1808)




Edital da Junta do Supremo Governo do Porto sobre o governo militar da comarca de Penafiel, Sobre-Tâmega e Amarante (20 de Junho de 1808)



Edital da Junta do Supremo Governo do Porto convocando os soldados veteranos (20 de Junho de 1808)



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Observação: Para além dos veteranos, neste mesmo dia 20 de Junho de 1808 também se mandaram armar as Ordenanças, como se pode ver da seguinte acta de vereação da Junta do Porto:

Nesta sessão, por ser intimada a ordem bocal da Junta do Supremo governo desta Cidade ao Vereador Ber­nardo de Mello Vieira da Silva Menezes para se armar e por em acção toda a Ordenança de que este Senado é Capitão Mor, se determinou expedirem-se logo ordens, como efectivamente se expedirão sem perda de tempo, a todos os Sargentos Mores e Capitães respectivos para se porem imediatamente em armas, e prontos para toda a utilidade contra os franceses, determinando-se que se acendessem os fachos e [que] se participasse quaisquer notícias da chegada do inimigo para se lhe sair ao encontro.
[Fonte: Artur de Magalhães Basto, "O Porto contra Junot (continuação)", in Revista de Estudos Históricos da Faculdade do Porto, vol. 1, nº. 3, 1924, pp. 88-120, p. 105].

Carta da Câmara de Faro às demais Câmaras do Reino do Algarve, participando a restauração daquela cidade (20 de Junho de 1808)


Ilustríssimos Senhores, Juiz de Fora, Presidente, Vereadores e [de]mais Oficiais da Câmara, etc.:

No dia 19 do corrente mês, pelas duas horas da tarde, foi proclamado pelo povo desta cidade, por seu Legítimo Soberano o Príncipe Regente de Portugal Nosso Senhor. Arvoraram-se as suas bandeiras e a elas se reuniram os habitantes de todas as classes da mesma cidade e termo para defenderem os direitos do mesmo Soberano, Pátria, vidas e propriedades, contra os esforços do comum inimigo; e como esta causa interessa a todos os fiéis portugueses, razão porque o povo desta cidade e termo, e o Corpo militar, têm rogado e instado a esta Câmara [para que] haja de fazer manifesto a todas as cidades e vilas deste Reino do Algarve [que] queiram fazer comum connosco para repelirmos a força do comum inimigo, e não deixar exposta ao seu furor esta pequena porção de honrados e fiéis portugueses. 
Portanto, rogamos a Vossas Senhorias para que se dignem fazer público ao povo os nossos sentimentos e a nossa situação, e fazer as necessárias participações a todas as autoridades desse termo, para que de comum acordo cooperem connosco e tomem as medidas convenientes para se obter o fim desejado, e isto sem perda alguma de tempo, pois toda a demora poderá ser nociva. 
Deus Guarde a Vossas Senhorias 
Faro, em Câmara de vinte de Junho de 1808. 

Manuel Herculano de Freitas Azevedo Falcão, Presidente 
João Veloso Manuel Pessanha Cabral 
Domingos da Costa Dias e Barros 
Ventura da Cruz 
João Manuel de Faria Freire 
Guilherme José Pargana 
Amaro de Santa Teresa 
Manuel da Costa

[Fonte: Adérito Fernandes Vaz, Olhão da Restauração no tempo e a 1.º Invasão Francesa em 1808, no contexto regional e nacional – 2.º Volume, Olhão, Elos Clube de Olhão, 2009, pp. 72-74 (reprodução fac-símile de uma cópia desta carta)].

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Nota:

Num folheto impresso da época, esta carta era seguida pela seguida nota:
Por efeito desta carta, que foi circular e remetida logo a todas as Câmaras das cidades e vilas deste Reino do Algarve, se pôs logo todo o Povo em massa pronto para repelir o Comum Inimigo, o que assim felizmente se conseguiu, tento todos a glória de novamente aclamarem a Rainha Fidelíssima Nossa Senhora e o Príncipe Regente Nosso Senhor por nosso legítimo Soberano, e segunda vez ser restaurado este fiel Reino do Algarve do poder dos Inimigos rapinadores, que, com manifesta perfídia, entraram neste Reino de Portugal para o roubarem e assolarem, bem como assim o têm praticado em todo ou quase todo o Universo.
[Fonte:
Representação ou carta enviada pela Câmara desta cidade de Faro ao Rio de Janeiro a Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor, Faro, Officina de Don Josè Maria Guerrero [sic], s.d. [c. 1808], pp. 5-6].
 

Carta do Cônsul Geral da Espanha em Lisboa ao Governador de Badajoz e Presidente da Junta da Extremadura





Meu estimado Moreti: 



Mil sinceros parabéns pelo seu novo emprego, e muitos mais pelo formidável, brilhante e bom aspecto que vão tomando os negócios da minha amada pátria. Sabendo Vossa Mercê tudo quanto particularmente me interessa, suplico-lhe que não seja tão lacónico quando me escreva; assim mesmo lhe rogo que use de iniciais para indicar pessoas que já conheço, e que assine o seu nome com um M. e que me escreva sob o nome de Guanche. Todas estas precauções e ainda mais são necessárias no estado crítico em que nós os espanhóis nos achamos neste Reino*. O recomendado de Vossa Mercê chegou no dia 16, e no mesmo dia prosseguiu com toda a segurança para o seu destino, levando consigo a carta fechada que trazia e a recomendação de um bom amigo. Acaba de voltar com a resposta**, e não querendo eu deter-lhe, direi a Vossa Mercê à pressa as notícias e as ideias que me ocorrem para que, no caso de que essa Junta [da Extremadura] as considere úteis, possa comunicá-las à Suprema Junta de Sevilha. 

O Exército francês de Portugal, que jamais chegou a ter 24 mil homens, acha-se reduzido a 13 ou a 14 mil, repartidos entre Elvas, Almeida, Porto, Figueira, Peniche, Cascais, Mafra, Setúbal, Reino dos Algarves e Lisboa***, podendo dizer-se que se encontram encerrados num saco com as imensas riquezas que produziu a contribuição de guerra e a prata das igrejas, o que se computa em 24 milhões de duros [sic]. 
Um Exército espanhol composto de 18 ou 20 mil homens, vindo da Galiza a esta cidade [=Lisboa] por via do Porto, poderia fazer a conquista deste Reino em 15 ou 20 dias, adquiriria para a Espanha a maior reputação política aos olhos da Europa, recolheria bastantes riquezas para fazer toda a campanha, guardaria e asseguraria as nossas fronteiras, destruindo este Exército inimigo que está nas suas costas, daria a liberdade a três ou quatro mil espanhóis indignamente desarmados, etc., etc. 
Digo que este Exército deveria vir da Galiza, primeiro por ser aquela província a que mais abunda de gente, por ser a menos ameaçada do inimigo e a mais fácil de defender-se pelas suas costas e montanhas, e em segundo lugar porque não tendo o nosso Exército que atravessar o Tejo, neutralizaria e evadiria as dificuldades que opõem os navios e fortalezas que o defendem. 
Para melhor assegurar o mais pronto e feliz êxito da empresa, seria conveniente: 

1.º que uma divisão de oito a dez mil homens entrasse por Santa Bárbara e Serpa para apoderar-se do Alentejo e Setúbal, e cortar a comunicação do Algarve. 

2.º que o Exército de Badajoz ameaçasse as guarnições de Elvas. 

3.º que o de Ciudad Rodrigo praticasse outro tanto a respeito de Almeida. 

4.º enfim, que os ingleses fizessem um falso ataque sobre Cascais e São Julião no dia em que os espanhóis se apresentassem diante desta capital. Deste modo poderia não haver uma gota de sangue derramada. 

Na minha opinião, uma proclamação curta deveria expressar que os espanhóis vinham agora a Portugal com o objectivo de combater contra um Exército tão inimigo dos portugueses como dos espanhóis, que, fazendo causa comum, vinham ajudá-los a sacudir o jugo infame, que vêm enfim abrir os seus portos ao comércio, à abundância e à prosperidade de que gozava este Reino antes que uns soldados que não têm mais religião nem princípios que o amor das riquezas, não somente os despojaram das que tinham, mais ainda de todos os meios que podiam procurar a sua existência, etc., etc. 
As últimas notícias de Inglaterra anunciam-nos que uma expedição de 20 mil homens ao mando do General Moore deveria sair daqueles portos no mês de Maio, e que se dirigiria a Portugal; as embarcações de transporte que se viram ultimamente unir-se à esquadra que bloqueia este porto parece que apoiam esta opinião; mas todo o bom espanhol devia sentir cordialmente que seja a Inglaterra e não a Espanha a que faça a fácil e vantajosa conquista de Portugal, em primeiro lugar porque podiam os ingleses apoderar-se das naus de guerra que ficaram neste porto, e das imensas riquezas que os franceses juntaram, e em segundo lugar porque fazendo-se donos de Portugal, julgariam poder dispor ao seu gosto este Reino; ao passo que se fossem os espanhóis os que fizessem a conquista, poderiam ou devolvê-la ao seu Príncipe, ou trocá-la por uma possessão americana que o acomodasse. Para realizar a nossa intenção, seria preciso adiantar-nos e não perder um instante para executar o projecto; rogando ao mesmo tempo aos ingleses que destinem a sua expedição para outros portos da Espanha. Basta por agora. Noutra ocasião direi o mais que ocorra. 
As expressões de Vossa Mercê foram muito gratas e o grau de Coronel fez abrir tamanhas atenções. Veja Vossa Mercê se um pobre aprisionado e desarmado pode servir de alguma coisa e mande com confiança mas com cautela a seu amigo. 



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Nota: 

A razão de tantas precauções (o sublinhado é do autor) deve-se à mudança da atitude de Junot com os espanhóis depois de ter tomado conhecimento da rebelião do General Belestá no Porto e de outros corpos de tropas espanholas noutras partes de Portugal (como por exemplo o Regimento de Múrcia). Na sequência destes acontecimentos, como atrás vimos, Junot ordenou que os militares espanhóis se reunissem no Terreiro do Paço (para supostamente embarcarem de regresso ao seu país), sendo aí desarmados e encarcerados em embarcações surtas no Tejo (salvo algo algumas excepções). Ignoramos se foi devido a este incidente que o Cônsul Geral da Espanha resultou prisioneiro, como o afirma no último parágrafo desta carta, ou se só o diz num sentido metafórico, tendo em conta tudo o que tinha ocorrido aos espanhóis. De qualquer forma, e apesar de não datada, esta carta teria sido escrita por volta de 20 de Junho de 1808, sendo remetida para o Governador de Badajoz através de um dos vários confidentes que este último tinha em Lisboa. Para evitar represálias caso a carta fosse interceptada pelos franceses, o Cônsul espanhol (cujo nome real ignoramos) assinou-a com o falso nome de Guanche (que curiosamente é o nome dado aos habitantes das Cánarias no tempo da sua conquista), e endereçou-a um outro pseudónimo, Moreti (que não deve ser confundido com Federico Moretti), ao qual felicita pela sua suposta condecoração de Coronel. O destinatário era, na verdade, José (ou Josef, segundo a grafia da época) Galluzo, Governador de Badajoz e presidente da Junta Suprema da província da Extremadura, conforme este último confessaria ao Capitão General do Exército da Galiza numa carta datada de 25 de Junho de 1808

** É possível que se trate da resposta de Cotton a Galluzo datada de 20 de Junho de 1808. Não encontrámos a carta de Galluzo (de 11 de Junho) que motivou tal resposta.

*** Enganava-se o Cônsul ao rebaixar tanto os números reais dos franceses em Portugal. Ignorava também que o "Reino do Algarve" já estava a repelir os invasores desde o dia 16 de Junho, data da "restauração" iniciada em Olhão. Na verdade, foi o próprio Junot que deu publicidade às revoltas algarvias e do norte do país através da sua famosa proclamação de 26 de Junho de 1808, a qual inclusive serviu de motivo para uma réplica dum franciscano algarvio, entre outras. 

Carta do Almirante Charles Cotton ao General Galluzo, Presidente da Suprema Junta de Badajoz (20 de Junho de 1808)



Navio de Sua Majestade Britânica Hibernia, em frente de Lagos, 20 de Junho de 1808. 



Senhor: 

Tenho a honra de acusar a Vossa Excelência o recibo da sua carta do dia 11 do mês corrente, por um correio que desempenhou perfeitamente o seu dever e que me alcançou hoje, não tendo omitido quantas diligências fez da sua parte para o dito fim. 
Ele levará às mãos de Vossa Excelência uma nota dirigida aos bravos espanhóis separados dos que estão nos arredores de Lisboa, noticiando-lhes o estado dos seus animosos compatriotas naquela cidade, e prevenindo-os contra tamanha traição. 
Ademais disto, permita-me Vossa Excelência que lhe assegure que plenamente imposto da magnitude do grande e glorioso esforço que a Espanha está fazendo presentemente para suster o seu legítimo Monarca e resistir à mais execrável perfídia e injusta opressão, tomou-me o mais vivo interesse pelo seu bom êxito; e a esquadra que comando dará qualquer género de auxílio que possa ser dado para suster uma causa tão justa e honorífica; da qual tive eu a honra de informar aos Senhores da Real Junta de Sevilha, através dum oficial espanhol que me enviaram, e que partiu daqui, regressando a Sevilha, no dia 11 do corrente mês; assegurei-lhes e pedi-lhes para assegurarem a Vossa Excelência a favorável disposição de Sua Majestade Britânica em assistir a todo o esforço feito sob virtuosos princípios, de modo a restabelecer a independência da Monarquia espanhola e por último a independência da Europa. 
Celebro com grande prazer esta ocasião para assegurar a Vossa Excelência o grande apreço e respeito com que tenho a honra de ser, Senhor, de Vossa Excelência o mais obediente e humilde servidor. 

C. Cotton. 



domingo, 19 de junho de 2011

Proclamação do Almirante Charles Cotton aos portugueses (19 de Junho de 1808)



Habitantes de Lisboa e de todo o Portugal


Os nossos inimigos e opressores, os franceses, têm sido obrigados a sair das três províncias do norte do vosso Reino pelos seus leais patriotas e pelos espanhóis. O Governo do Príncipe Regente está outra vez restituído, e a bandeira portuguesa outra vez arvorada. Todo o socorro que vos puder dar a esquadra de Sua Majestade Britânica ser-vos-á franqueado com o maior gosto, e aos vossos generosos aliados espanhóis, na grande empresa de libertardes a vossa capital e o vosso Reino da violenta opressão que tem sofrido desde que nele entraram as tropas francesas.
Dada a bordo da nau Hibernia, defronte da foz do Tejo, aos 19 de Junho de 1808.

Charles Cotton

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 32-33].

Notícia publicada no National Register de Londres (19 de Junho de 1808)



[...] Não temos razões para mudar as opiniões que expusemos no nosso último número sobre o socorro da Espanha*. Sir Arthur Wellesley, ao que parece, irá comandar uma expedição para auxílio da Espanha. As tropas que ele irá comandar encontram-se em Cork. São compostas pelos Regimentos de Infantaria a pé n.os 5, 9, 38, 40 e 91; pelo 3.º batalhão do Regimento n.º 69, e pelo 4.º batalhão dos Veteranos Reais. O Major-General Hill será o segundo no comando, sob o qual estarão os Generais-Brigadeiros Fane e Crauford. 

Não podemos olhar mais para o emprego destas forças sem denunciar uma grande inquietação. A Inglaterra sempre foi bastante rápida a interferir em qualquer disputa continental e a derrubar um império que descontentasse uma província. Mas como a informação da determinação dos ministros em enviar aquele exército para a Espanha não foi tornada pública, nenhuma opinião decidida pode ser formada acerca da sua conveniência. A sagacidade e a prudência deve ter bastado para dirigir as nossas medidas para auxílio dos espanhóis; não estamos certamente obrigados pela honra, pois nem temos aliança nem confiança com a Espanha. 



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Nota:

* No número anterior deste semanário londrino, depois de relatar a chegada à Inglaterra dos dois nobres espanhóis enviados pela Junta das Astúrias (ver uma notícia e uma carta do Capitão John Hill a George Canning sobre este assunto), referia o redactor o seguinte: 

Os nossos leitores lembrar-se-ão que a partir do primeiro momento em que chegaram as notícias da mudança de circunstâncias da Espanha, considerámos como infundadas as esperanças daqueles que, a partir de tais alterações, foram induzidos a daí esperar vantagens para a causa da Grã-Bretanha ou da Europa em geral. Parece agora que os nossos Ministros, animados pelo pedido dos dois nobres acima mencionados, estão determinados a enviar ajuda para os desafortunados habitantes da Espanha. Esta questão já excitou uma fermentação considerável neste país - ou melhor, os editores dos periódicos aproveitaram a ocasião para excitar a fermentação. Um partido, os amigos dos Ministros, exaltam a liberalidade e sabedoria do Governo, enquanto os aderentes da oposição condenaram em alguns jornais a administração pelo seu atraso. Pela nossa parte, conservamos as nossas opiniões originais, e não sentimos inclinação para aprovar a conduta dum partido ou do outro. Sentimos que é do nosso dever fazer o nosso protesto contra as medidas, que circulam confidencialmente, através das quais os nossos Ministros têm a intenção de prestar auxílio ao povo de Espanha. A história de todas as eras e de todos os países proporciona milhares de provas do quão pouco pode fazer uma população, armada na emergência dum momento, contra veteranos alicerçados na coragem e disciplinados por experiência. Não é contudo necessário remeter para provas distantes, e procurar os registos da antiguidade para os antecedentes da nossa conduta: encontram-se antecedentes nas recordações de todos nós; abundam antecedentes na narração dos eventos que se seguiram à Revolução Francesa; os antecedentes vivem nas nossas memórias, e agem ainda sobre os nossos sentimentos. O estado da Europa, a queda de todas as coligações continentais, a destruição de todas as vãs esperanças sustentadas por anteriores Ministros, a matança dos nossos soldados, o peso das nossas taxas, são estes os antecedentes que chocam com o exemplo deles, sendo tremenda a sua pressão! Devemos enviar para Espanha, segundo se diz, cinco ou dez mil homens. Mas, em nome da prudência, que bem pode ser efectuado por cinco ou dez mil homens? Não serão eles cortados como erva? Estarão aptos para opor resistência por um momento, face às numerosas legiões que Bonaparte pode enviar contra eles? Não há nenhuma região intermédia hostil através da qual as tropas francesas tenham que passar para entrar na Espanha; a linha de comunicação é fácil e directa, e miríades de homens podem deslocar-se a qualquer parte, bastando uma palavra. Enviamos o nosso pequeno exército para uma chacina certa. Mas mesmo supondo que os Ministros determinem enviar para a Espanha uma força realmente grande e operativa, qual deverá ser a consequência? As nossas costas ficarão completamente indefesas; e Bonaparte, vendo toda a nossa força empregue num serviço estrangeiro, poderá conseguir uma oportunidade, doutra forma quase desesperada, de invadir estas ilhas, e, como tememos, de invadi-las com sucesso. A sua superioridade em números tem pouca vantagem contra nós enquanto as nossas tropas regulares continuem em casa, porque a força regular, se for organizada por uma população devidamente disciplinada, é suficiente para agir contra um exército invasor, que necessariamente deve ser incapacitado ao se levar ao mesmo tempo um vasto número de homens para aquela zona;  mas quando as nossas tropas regulares forem removidas, Bonaparte estará em condições para se opor a elas no estrangeiro, com um poder igual ou maior do que o que elas possuem, e para enviar outro exército de não menor magnitude contra estas ilhas, que então estarão completamente indefesas. Nestas circunstâncias, qualquer acaso do tempo que afaste a nossa marinha dos seus postos, deixar-nos-á totalmente expostos ao vigor militar dos nossos invasores.
Quanto mais contemplamos o conjunto de circunstâncias na Espanha, com menos terreno ficamos para racionalmente esperarmos uma vantagem. Exércitos pequenos perecem. Exércitos grandes, na Espanha, rodeados de habitantes de diferentes partidos e opostos a um inimigo de bravura e perícia infinitas, lutarão com perspectivas pouco brilhantes de sucesso; e entretanto a Inglaterra fica exposta. Não nos falem em generosidade. A auto-defesa é uma virtude bastante fundamental para a generosidade. Que o Governo poupe o povo inglês, em vez de se apressar para ajudar os espanhóis. Não é este o tempo para que a Grã-Bretanha pegue em lanças e se ponha a galope, com um quixotismo político, defendendo qualquer nação fraca ou tola que, tendo na prosperidade perdido toda a credibilidade para se aliar com a Grã-Bretanha, julga que na adversidade pode lançar-se na misericórdia britânica. Esperamos que a desgraça dos ingleses nunca seja oprimir os infelizes; mas nem a necessidade e nem a honra dizem para se reparar os estragos que a insensatez fez na sua própria cobertura.
[Fonte: The National Register, London, n.º 24, June 12, 1808, pp. 378-379].


Restauração de Torre de Moncorvo (19 de Junho de 1808)



Na extremidade mais oriental desta província [de Trás-os-Montes], um pouco abaixo de Zamora, o Douro, descendo pelo reino de Leão, vem tocar o terreno de Portugal, e banhando os muros da cidade de Miranda, toma a direcção de nordeste a sudoeste até o confluente do Águeda, defronte do castelo de [Barca de] Alva, formando sempre a divisão dos dois reinos. Aqui se entranha em terras de Portugal, tomando o caminho do noroeste, e forma uma curva, que se aproxima a um ângulo recto, recebendo sucessivamente da parte do norte as águas do Sabor, do Tua e de outros rios que oferecem por toda a parte, principalmente o Douro, margens escarpadas de dificilíssimo acesso e correntes precipitadas, que só dão passagem em algumas barcas. É dentro desta curva, e por entre estes rios, que se estende a comarca da Torre de Moncorvo, país muito fértil e agradável no interior, e valado no exterior com estas fortes trincheiras que a natureza lhe concedeu; a cabeça da comarca está situada muito perto da foz do Sabor.
Na verdade, os seus habitantes não foram dos primeiros em soltar os vivas da aclamação; mas o que perderam em tempo, eles o ganharam na combinação e acerto das suas providências, no estabelecimento da sua Junta, que principiou por acautelar abusos que as outras nunca puderam evitar. Preparou-se a revolução nos dias 17 e 18 de Junho, apreendendo-se as barcas do Douro desde a foz do Águeda até ao do Sabor, para se evitar a passagem aos franceses de Almeida, se tentassem algum repentino ingresso no país. Na barca de Alva houve uma pequena oposição, que facilmente venceu um Capitão de ordenanças à frente de 60 caçadores, mandando passar o rio a dois resolutos nadadores que na margem oposta a foram apreender e meter no fundo. A 19 ficou consumada a revolução, pela sanção de um numeroso congresso da Câmara, clero, nobreza e povo. Seguiram-se imediatamente as demonstrações públicas do prazer geral e [as] disposições para o armamento do povo, tais quais permitiam as circunstâncias de uma terra onde os meios eram muito limitados.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 154-156].

Primeira proclamação da Junta Provisional do Governo Supremo do Porto (19 de Junho de 1808)





Termo da constituição da Junta provisória do Supremo Governo do Porto (19 de Junho de 1808)



No dia dezanove de Junho de mil oitocentos e oito anos, nesta Cidade do Porto, e no Paço Episcopal, em Congresso convocado pelo Corpo Militar, estando presente a Câmara da Cidade, o Desembargador Estanislau José Brandão, que no impedimento do Chanceler da Relação serve o seu lugar e [o] de Governador Interino das Justiças, e outros Magistrados, e bem assim os Representantes do Estado Eclesiástico e o Corpo Militar; representado pelas primeiras Patentes da sua Oficialidade, e bem assim o Procurador, e Escrivão do Povo, e alguns Negociantes da Cidade: Foi proposto da parte do Corpo Militar pelo Capitão Comandante da Brigada de Artilharia, João Manuel de Mariz Sarmento, o seguinte: A Corporação Militar que restaurou o Porto e deu os passos mais importantes para a conservação e defesa do Estado, tendo eleito seis dos seus Membros para uma Junta Provisional do Governo que supra a falta de representação legítima da Autoridade Soberana, pede ao Excelentíssimo Senhor Bispo do Porto e às demais Autoridades Constituídas, [que] queiram nomear dois Membros da Corporação Eclesiástica, dois da Magistratura, e dois da do Comércio para completarem e constituírem esta Junta Provisional do Governo, que só dependerá do PRÍNCIPE REGENTE de Portugal, e a quem só responderá do uso que fizer da Autoridade Soberana, de que circunstâncias imperiosas a obrigam a apossar-se, e que exercerá enquanto na Capital, actualmente bloqueada pelas forças inimigas, não for restituído o Governo instituído por Sua Alteza Real. E mandando Sua Excelência Reverendíssima que se propusesse a votos a proposta acima, foi decidido por unânime consentimento de todos os Representantes que se instituísse uma Junta Superior e Interina do Governo Geral, com todos os Direitos da Soberania, que será composta por dois Membros do Corpo Eclesiástico, dois do da Magistratura, dois do Corpo Militar, e dois da classe dos Cidadãos, de que será Presidente Sua Excelência Reverendíssima, e que se convocará nas Segundas e Sábados neste Paço Episcopal e além disso todas as vezes que for necessário; a qual Junta, segundo as Leis deste Reino, usos, costumes e privilégios dele, deliberará e mandará tudo o que for necessário, entendida a Autoridade e Responsabilidade da Junta na forma proposta; e que a Autoridade e exercício desta Junta cessará inteiramente logo que se restituir na Capital o legítimo poder instituído por Sua Alteza Real. Assentou-se mais que, recaindo o Governo das Armas no Coronel de Infantaria José Cardoso de Menezes Sotto Maior, haja mais uma Junta particular Militar para o Governo e direcção de todas as operações tendentes ao Ataque e Defesa da Nação, e que esta Junta se componha de cinco Membros tirados dos cinco Ramos do Corpo Militar, a saber: do Corpo de Engenharia, da Artilharia, da Infantaria de Linha, da Cavalaria, e da Infantaria Mili­ciana, servindo nela sempre de Presidente quem tiver o Governo das Armas, e na sua falta a Patente maior, ou, na concorrência de duas ou mais iguais, a de maior antiguidade entre elas. 
E passando logo a votar nas Pessoas de que se hão compor as duas Juntas, saíram eleitos por unanimidade de votos para a Junta Superior e Geral, de que é Presidente Sua Excelência Reverendíssima, a saber: o Reverendo Manuel Lopes Loureiro, Provisor do Bispado, o Reverendo José Dias de Oliveira, Vigário Geral, o Desembargador de Agravos Luís de Sequeira da Gama Ayalla, o Desembargador Juiz da Coroa José de Mello Freire, o Capitão Comandante da Brigada de Artilharia João Manuel de Mariz Sarmento, o Sargento Mor de Infantaria António da Silva Pinto, António Mateus Freire de Andrade, e António Ribeiro Braga: e para a Junta particular Militar de Ataque e Defesa, o Tenente Coronel de Engenharia Luís Cândido Cordeiro, o Tenente Coronel de Artilharia Manuel Ribeiro de Araújo, o Sar­gento Mor de Infantaria de Linha João da Cunha de Araújo, o Tenente de Cavalaria Luís Paulino de Oliveira Pinto, e o Tenente Coronel de Infantaria Miliciana Do­mingos Ribeiro de Freitas. E para constar a todo o tempo, se fez este Assento assinado, pelos Representantes Vogais, os quais mandam que ele se imprima, e publique: e eu, José de Mello Freire, Desembargador Juiz da Coroa, que o escrevi e assinei. 

José de Mello Freire
Bispo Presidente. 
Estanislau José Brandão. 
José Cardozo de Menezes. 
Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado de Mendonça. 
João Manuel de Mariz Sarmento, Capitão Comandante da Brigada de Artilharia. 
João da Cunha Araújo Porto Carreiro, Sargento Mor de Linha. 
Luís Paulino de Oliveira Pinto de França. 
António da Silva Pinto. 
Manuel Ribeiro de Araújo. 
António de Araújo Vasques, Alferes. 
António de Almeida Carvalhais, Te­nente. 
Faustino Salustiano da Costa e Sá. 
António Cae­tano de Castro Moraes. 
Rodrigo Xavier de Sousa da Silva Alcoforado. 
Domingos Ribeiro de Freitas. 
Gonçalo An­tónio Teixeira Coelho de Mello. 
Raimundo José Pinheiro. 
José Cândido de Pina de Mello. 
Manuel Caetano Machado Pereira da Silva Rocha, Sargento Mor. 
António de Se­queira Almeida Carvalhais, Capitão. 
José Augusto Leite Pereira de Mello, Coronel. 
Joaquim de Brito Coutinho Araújo, Capitão. 
João Joaquim Pereira do Lago, Alferes. 
José Bernardo Pereira Barroso, Alferes. 
Manuel Joaquim Freire de Andrade Pinto, Capitão de Caçadores. 
Manuel Luís Correia, Tenente. 
João Lourenço de Meirelles, Te­nente Coronel. 
Sebastião Gomes de Oliveira, Tenente. 
Florido Telles de Menezes. 
José Cardozo Pinto de Madureira Vasconcellos, Capitão Mor de Penafiel. 
Joaquim de Magalhães de Menezes Brito, Alferes. 
Manuel Lopes Lou­reiro. 
José Dias de Oliveira. 
Tomás da Rocha Pinto Chantre. 
António Jorge de Meirelles, Arcediago do Porto. 
Francisco Januário Valle. 
Tomás Aquino de Lima. 
O Arcipreste Pedro António Virgolino. 
Luís de Sequeira da Gama Ayalla. 
Alexandre Barbosa de Albuquerque. 
João de Almeida Coutinho Vieira. 
Luís de Barbosa Men­donça. 
Joaquim de Vasconcellos Cardozo e Menezes. 
Ber­nardo de Mello Vieira e Sousa de Menezes. 
Tomás da Silva Ferraz. 
António Mateus Freire de Andrade Cou­tinho Bandeira. 
Manuel Félix Correia Maya. 
Rodrigo Freire de Andrade Pinto. 
Procurador do Povo na falta do Juiz, Inácio Vieira Soares. 
Escrivão do Povo, João de Almeida Ribeiro.