terça-feira, 14 de junho de 2011

O aparecimento da esquadra inglesa junto à foz do rio Guadiana



Ao mesmo tempo que ultimavam os preparativos em Cádis para o ataque à esquadra francesa de Rosilyos espanhóis tomaram conhecimento de que uma divisão francesa surgira em Castro Marim, junto à fronteira do Guadiana. Ainda que suspeitasse que estes militares não ousariam passar o rio, a Junta Suprema de Sevilha decidiu tomar medidas preventivas, pelo menos desde o dia 8 de Junho, enviando reforços e armamento para Ayamonte [Cf. Gazeta Ministerial de Sevilla, n.º 3, 8 de junio de 1808, Imprenta de la viuda de Hidalgo y Sobrino, pp. 22-23. Recorde-se ainda a carta de Dupont interceptada pelos espanhóis]. Idêntica preocupação também teve o novo Governador de Cádis, o General D. Tomás de Morla, que pôs imediatamente ao corrente desta notícia os oficiais ingleses que se encontravam a bordo das embarcações que bloqueavam o porto daquela cidade. Assim, logo no dia 10, pelo menos uma embarcação de guerra inglesa saiu de Cádis e rumou em direcção à boca do rio Guadiana, sendo seguida nos dias posteriores por várias outras [Cf. “Précis of letters from Major-General Spencer, relating to Spain and Portugal”, in Correspondence, despatches, and other papers, of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Volume VIILondon, William Shoberl Publisher, 1851, p. 153]. Segundo o diário militar de um dos militares que participou nesta expedição, o Coronel Charles Leslie, o objectivo da manobra era “fazer uma demonstração contra os franceses e cobrir e proteger a insurreição espanhola pela liberdade que tinha acabado de estalar em Ayamonte, para esta não ser obstruída ou subjugada pelas forças que estavam na vizinhança portuguesa” [Fonte: Military Journal of Colonel Leslie, K.H., of Balquhain, whilst serving with the 29th Regt. in the Peninsula and the 60th Rifles in Canada, &c. – 1807-1832, Aberdeen, Aberdeen University Press, 1887, p. 25]. Ao mesmo tempo, Spencer (que continuava no bloqueio de Cádis) escrevia ao Governador da praça de Gibraltar, comentando-lhe que seria imprudente que a marinha britânica, com um corpo de 4 a 5.000 homens, se juntasse ao numeroso exército espanhol (que estava perfeitamente preparado para o campo de batalha), sem se saber previamente quais as operações que tinha tomado o General Castaños (comandante do referido exército), e ignorando igualmente os melhores meios de suprir o corpo inglês à medida que fosse sendo necessário. Ademais, Spencer mencionava que os espanhóis tinham receio do desembarque das suas tropas (não esqueçamos que até aí ambos os países eram inimigos, e portanto era natural que o receio fosse mútuo). Por tudo isto, seria mais útil empregar os seus meios fazendo manobras de diversão, e, se fossem avistados alguns soldados franceses querendo passar o Guadiana, frustar as suas intenções [“Précis of Correspondence from Sir Hew Dalrymple, relative to Spanish Affairs”, in Correspondence, despatches, and other papers, of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Volume VIILondon, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 129-146, p. 140].
Assim foi feito. No dia 12, era a vez de Spencer partir para a boca do Guadiana (numa carta chega a escrever que estava “ansioso para navegar em direcção a Ayamonte, tão rápido quanto fosse possível”), mas ignoramos em que dia chegou (o mais tardar dois dias depois)[Cf. “Précis of letters from Major-General Spencer,relating to Spain and Portugal”, in Correspondence, despatches, and other papers, of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Volume VIILondon, William Shoberl Publisher, 1851, p. 153. A citação provém duma carta de Spencer datada de 12 de Junho destinada a Lord Collingwood, e por sua vez reenviada a Dalrymple, publicada nos apêndices da obra Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone, 1830, p. 229]. Por outro lado, sabemos a forma como o Coronel Leslie alcançou o mesmo destino no dia 14. Segundo o seu diário, as tropas britânicas tinham necessidade de provisões frescas e, para esse fim, cada navio britânico enviou uma lancha à terra, sendo uma destes chefiada por ele próprio. Contudo, segundo Leslie, a tripulação, ignorante da geografia local, “não estava consciente de que a boca do Guadiana era composta por vários canais e que o inimigo estava na posse do canal português; entrámos pelo canal principal. Passando uma bateria que controlava a sua entrada, fomos desafiados, mas ignorando-a, prosseguimos e em breve entrámos num canal no lado espanhol, pelo qual alcançámos Ayamonte. Só então compreendi que me tinha livrado de ter sido aprisionado, pois a bateria que tínhamos passado era ocupada pelo inimigo. Os outros barcos [ingleses] tinham entrado por um canal no território espanhol. Fomos os primeiros ingleses que desembarcaram na Espanha desde o levantamento da causa patriótica, sendo recebidos com as mais entusiásticas manifestações de alegria pelos habitantes”. Leslie, exaltando o patriotismo vivido então em Ayamonte, refere que “se tinham reunido na cidade camponeses armados de todas as idades, dos dezassete aos sessenta anos, ansiosos para se envolverem na causa patriótica […]. Armaram-se com qualquer arma que tinham à mão: alguns mosquetes e armas de caça, algumas lanças ou varas com baionetas velhas na ponta, e muitos forcados”. No dia seguinte (15 de Junho), os militares ingleses voltaram aos seus navios, não sem antes se terem reunido com o governador de Ayamonte. Leslie refere ainda que o mercado da pequena cidade já era escasso para abastecer o grande número de patriotas espanhóis que ali se tinham reunido, de maneira que os ingleses apenas puderam aprovisionar alguns vegetais, fruta e pão [Fonte: Military Journal of Colonel Leslie, K.H., of Balquhain, whilst serving with the 29th Regt. in the Peninsula and the 60th Rifles in Canada, &c. – 1807-1832, Aberdeen, Aberdeen University Press, 1887, pp. 25-26]

Apesar do Coronel Leslie não referir para onde se dirigiram então, sabemos que no dia 16, se não mesmo antes, pelo menos alguns navios desta esquadra boiavam junto ao pequeno porto da Isla Cristina (então denominada Figuereta, Figuerita, Higuerita ou Higuereta), possivelmente em busca de víveres. De facto, logo no dia 16, alguns dos olhanenses que se rebelaram contra os franceses dirigiram-se precisamente a este local em busca de auxílio, mas os ingleses perguntaram-lhes precisamente se eles tinham víveres que lhes pudessem fornecer... Na verdade, as embarcações britânicas sofriam grande carência de provisões frescas, facto que foi registado por vários oficiais ingleses na correspondência que então iam trocando (veja-se a bibliografia citada). Infelizmente, de acordo com o arquivista Pedro Romero Rodríguez, funcionário do Archivo Municipal de Isla Cristina, a quem aproveitamos para agradecer publicamente pela resposta que atenciosamente nos deu, não existe nesse arquivo qualquer documentação que faça referência a embarcações inglesas ancoradas perto do antigo porto daquela localidade, durante o período assinalado. De facto, as únicas referências conhecidas que falam na esquadra inglesa ancorada perto da Figuerita derivam de três memórias de três portugueses: João da Rosa, José Lopes de Sousa e Joaquim Filipe Landerset.

Um parêntesis: suspeitamos que era precisamente a este porto que Napoleão se referia numa carta ao seu cunhado Murat, datada de 25 de Maio, onde dava conta da existência, “entre o Algarve e Cádis, dum pequeno porto donde é facílimo fazer partir avisos para a América. Pequenas embarcações dificilmente partirão de Cádis, que é como um funil; pelo contrário, sairão mais facilmente de um pequeno lugar” [Fonte: Correspondance de Napoléon Ier – Tome XVII, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 202 (n.º 13988)]. Napoleão tinha razão em alertar Murat sobre este facto, pois uma das primeiras medidas ditadas pela Junta Suprema de Sevilha (formada apenas dois dias depois de ter sido escrita a citada carta) foi precisamente o envio de embarcações espanholas com destino às colónias americanas (como fica patente numa carta de Collingwood), com o objectivo de avisá-las que o país se tinha insurgido contra os franceses e de pedir-lhes auxílio monetário e bélico.

Mapa da desembocadura do rio Guadiana (1845)

1. Castro Marim
2. Vila Real de Santo António
3. Ayamonte
4. Isla Cristina (antiga Figuerita)


No dia 14 de Junho, a esquadra francesa ancorada em Cádis rendia-se incondicionalmente aos espanhóis. Finalmente, as restantes embarcações que continuaram a bloquear aquele porto encontravam-se agora completamente livres para se poderem reunir na foz do Guadiana, para onde continuaram a se dirigir nesse e nos dias seguintes. Ainda que os oficiais ingleses sejam os primeiros a assumir que não tinham a intenção de desembarcarem as suas tropas (sobretudo devido aos fracos recursos que possuíam), estas manobras de diversão acabarão por alarmar os franceses que se encontravam no lado português, provocando directa ou indirectamente as consequências que mais adiante veremos.  


A rendição incondicional da esquadra de Rosily em Cádis (14 de Junho de 1808)




A esquadra britânica bloqueando o porto de Cádis


Em Outubro de 1805, o Almirante Pierre Villeneuve, comandante de 18 navios de guerra franceses ancorados em Cádis, recebeu uma carta do seu Governo, através da qual era informado que ia ser destituído do seu posto, pois Napoleão não estava nada satisfeito com o facto dele não conseguir furar o bloqueio que alguns navios britânicos faziam àquele importante porto. Pressionado desta forma, e antecipando a chegada do Vice-Almirante Rosily (que o ia substituir), Villeneuve decidiu sair de Cádis, acompanhado por outros 15 navios espanhóis. Contudo, o tiro saiu-lhe pela culatra, devido à estratégia naval do Almirante inglês Horatio Nelson, que embargou as movimentações das embarcações inimigas, executando um fulminante ataque, no dia 21 do mesmo mês. Entre embarcações apresadas, afundadas e explodidas, somente 11 navios aliados (5 franceses e 6 espanhóis) e algumas fragatas conseguiram regressar à Cádis. Rosily, ao chegar a esta cidade poucos dias depois da batalha de Trafalgar (como ficou conhecido este episódio), deparou-se com um triste cenário... Desde então, Rosily ficou com os seus cinco navios e uma fragata naquele mesmo porto, igualmente sem os conseguir retirar, pois a esquadra britânica, comandada (depois da morte de Nelson na referida batalha) pelo Vice-Almirante Collingwood, persistia no seu bloqueio a Cádis. 


Fonte: Wikipedia


Vista de Cádis e arredores


Quando o povo espanhol começa a manifestar-se contra os franceses, no início de Maio de 1808, Collingwood encontrava-se temporariamente afastado de Cádis, comandando o bloqueio do porto de Toulon (onde estavam ancorados 12 navios franceses). Não obstante estas movimentações, o porto de Cádis continuou a ser bloqueado por 12 embarcações britânicas, que eram agora comandadas pelo Contra-Almirante Purvis (Collingwood, sabendo das acções que mais abaixo se descrevem, regressaria a Cádis no dia 11 de Junho seguinte). A 14 de Maio, depois de conversações com a Junta de Sevilha, o Governador de Gibraltar (General Hew Dalrymple) envia o General Spencer (juntamente com 4 a 5 mil soldados), que estava estacionado naquela praça desde o final de Janeiro daquele ano, ao encontro da esquadra britânica em Cádis, com o fim de cooperar com os espanhóis em caso necessário. Poucos dias depois de ali chegar, Spencer manda publicar na cidade (provavelmente através de pescadores) alguns exemplares duma proclamação sua, onde propunha a união e cooperação entre espanhóis e ingleses contra os franceses. Apesar da oferta ter soado bem aos ouvidos do povo da cidade, as autoridades demoraram em dar uma resposta formal. O Governador de Cádis, que acumulava ao mesmo tempo, e entre outros, os cargos de Governador e Capitão General do exército e da província da Andaluzia, era nada menos que o Marquês del Socorro, o nosso conhecido General Solano, que como vimos recebera ordens em meados de Fevereiro anterior para regressar à Espanha. Parece que Solano queria atacar as embarcações francesas, mas faltava-lhe a pólvora necessária para empreender um ataque satisfatório. Com os ânimos populares já exaltados pelo facto das autoridades de Cádis não tentarem apresar ou destruir os navios franceses, finalmente, na noite do dia 29 de Maio, depois de se reunir com outros Generais espanhóis, Solano decide ordenar a publicação dum edital onde repudiava a ideia de uma aventurada declaração de guerra à França. Ao amanhecer do dia seguinte, os populares vêm a proclamação e dirigem-se imediatamente à casa de Solano. Este, querendo acalmá-los, aponta para a esquadra inglesa que se vê ancorada no horizonte, e indica-lhes que ali estavam os verdadeiros inimigos de Espanha. Supondo-o partidário dos franceses, o povo enraivecido não lhe perdoa e invade os seus aposentos, levando-o preso. No meio do tumulto, a caminho da forca, Solano morreu assassinado, atravessado por uma espada (Solano não foi a única vítima deste tipo de tumultos, que ocorreram um pouco por toda a Espanha - e seguidamente em Portugal. Curiosamente, longe dali e mais ou menos à mesma hora que Solano era assassinado, o Comandante General da província espanhola da Extramadura, o Conde de la Torre del Fresno, também morria às mãos dos populares de Badajoz).

Ainda no dia 29, depois de vários dias sem obter resposta alguma das autoridades de Cádis, Spencer escrevia uma carta ao Secretário de Estado da Guerra da Grã-Bretanha (Visconde Castlereagh), anunciando-lhe que a nobreza e o Governador daquela cidade pareciam “preferir a segurança e a submissão aos perigos duma resistência honrosa” [Fonte: “Précis of Letters from Major-General Spencer, relative to Spanish Affairs”, in Correspondence, despatches, and other papers, of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Volume VII, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 146-157, p. 148]. Perante tal cenário, Spencer preparava-se no dia 30 para regressar à praça de Gibraltar, quando recebe a bordo da sua embarcação uma visita inesperada de dois enviados da Junta de Sevilha,  perguntando-lhe se continuava viável a proposta de acordo que tinha sido tornada pública. Foi assim que Spencer tomou conhecimento de que Solano acabava de ser assassinado, e que, na sequência do tumulto, criara-se em Cádis uma Junta que reconhecia a de Sevilha como Suprema. Depois de várias horas de conversações, chegou-se a um consenso, que foi formalizado no dia seguinte. Os espanhóis rejeitaram o auxílio das embarcações inglesas, pois queriam apresar para si as embarcações francesas. Por outro lado, não nos podemos esquecer que, até aí, espanhóis e ingleses eram inimigos, pelo que ainda continuava a haver algum receio de ambas as partes. Assim, ficou acordado que os ingleses manter-se-iam nas suas embarcações, continuando a bloquear a baía da cidade, mas só dariam assistência em caso estritamente necessário. O que realmente fazia falta aos espanhóis era pólvora (motivo pelo qual, como dissemos, Solano não tinha determinado o ataque aos navios franceses), a qual foi cedida pelos ingleses na quantidade de 400 quilos



Vista aérea de Cádis



Entretanto, antes ainda da revolta espanhola se ter alastrado a Cádis, Rosily, esperando o reforço do corpo comandado pelo General Dupont e prevendo já um eventual rompimento das relações com a Espanha por parte de Napoleão, tinha disposto as suas embarcações entrelinhadas com as espanholas, a fim de se prevenir contra um eventual ataque directo das baterias e fortificações costeiras. Contudo, no dia 30 de Maio (já depois da morte de Solano), sob o pretexto de festejar o dia de San Fernando, onomástico do monarca D. Fernando VII, as embarcações espanholas separam-se das francesas com o consentimento de Rosily, enquanto se começam a preparar as fortificações costeiras e a construir várias baterias terrestres, bem como a artilhar várias lanchas (é caso para se notar que somente um navio espanhol estava em condições de empreender um ataque bem sucedido). Vendo-se cercado por todos os lados e sem poder sair da barra devido ao bloqueio inglês, Rosily decide posicionar a sua esquadra bem dentro da baía de Cádis (numa zona conhecida por Poza de Santa Isabel), no dia 6 de Junho, ou seja, no mesmo dia em que a Junta de Sevilha declara formalmente guerra a Napoleão
Finalmente, no dia 9 de Junho, depois de ultimados todos os preparativos para o ataque, o novo Governador de Cádis (General D. Tomás de Morla) escreve a Rosily, intimando-o a render a sua esquadra e os seus homens:




Sr. Almirante:
A nação espanhola, religiosa, amante dos seus Soberanos, fiel e leal a eles, e sempre valorosa com honra, não pôde ver sem se irritar a perfídia com que a França se apoderou do nosso amado monarca [Fernando VII] sem guerra declarada, e com aparência de cordial amizade. 
A sua insurreição foi geral por todas as províncias, que se declararam mais ou menos prontamente, com muito pouca diferença de dias. Em Sevilha, capital da Andaluzia, erigiu-se uma Junta Suprema de Governo, à qual obedecemos. Esta não pode ver com indiferença que, enquanto as tropas da nação francesa já agem hostilmente nas nossas povoações, esteja neste porto armada e arvorando o pavilhão francês a esquadra comandada por Vossa Excelência. Em consequência, a Junta ordenou-me a intimar Vossa Excelência a render-se imediatamente, e, em caso contrário, a empregar todos os meios que dita a arte e que estão em meu poder para bater a esquadra até que se renda.
Para este efeito dou a Vossa Excelência duas horas para que se resolva a render-se; mas negando-se a fazê-lo depois desse tempo, ou se o ver fazer qualquer movimento, abrirei fogo de bombas e balas rasas (que serão incendiárias se Vossa Excelência se obstinar); atacará a esquadra espanhola e também as forças subtis. Por último, a esquadra inglesa estará na boca do porto para que não lhe reste o menor recurso.
A efusão de sangue é sempre dolorosa a quem tem sentimentos de humanidade; mas muito mais quando se derrama sem a menor esperança de sucesso, como não a pode ter Vossa Excelência. Para além disto, a vossa obstinação irritará muito mais o povo, e ainda que seja pouco o mal que nos possa fazer, não respondo pela sua vingança sobre inocentes vítimas [vivia em Cádis uma pequena colónia francesa]. Conheço a honra militar, e não seria capaz de intimar a Vossa Excelência (a quem pessoalmente estimo) algo contrário a ela. É certo que não a manchará rendendo-se; dado que Vossa Excelência não poderá ter o menor vislumbre de não ser destroçado, perdidas as suas embarcações, e não só a vida das suas tripulações, mas talvez também outras fora do campo de Marte.
Cádiz, 9 de Junho de 1808.
Tomás de Morla


Apesar da sua situação arriscada, Rosily nega render-se, adiantando na resposta ao ultimato de Morla que se a esquadra britânica não atacasse nem perseguisse as embarcações francesas por um período de quatro dias desde a sua saída, estas afastar-se-iam imediatamente das águas de Cádis. Em contra-resposta, o General Morla dá sinal para se começarem as hostilidades. Ao entardecer, depois de cinco horas de uma intensa troca mútua de fogo de artilharia, o combate cessa sem os franceses se renderem. 
Ao amanhecer do dia 10, recomeça o fogo da artilharia, embora com menor intensidade do que na tarde anterior. Por volta do meio-dia, os franceses hasteiam a bandeira de tréguas e Rosily envia um novo ofício a Morla, insistindo na sua postura anterior. A resposta de Morla não se faz esperar:

Peço a Vossa Excelência que reflexione sobre a inutilidade da sua resistência, e se persuada de que se não consente a rendição que lhe intimo pela segunda vez, usarei de todos os meios vigorosos que tenho para destruí-lo, responsabilizando Vossa Excelência por todos os prejuízos e desastres que se originem em consequência.


Na verdade, apesar desta resposta, os espanhóis mal dispunham de pólvora para um ataque em força, uma vez que a tinham gasto quase toda no primeiro dia do combate. Assim, Morla manteve os canhões silenciados à espera que os franceses tomassem a iniciativa, o que não voltou a ocorrer nesse dia 10. 
No dia seguinte, Rosily envia uma nova proposta: apesar de insistir em que o deixem sair de Cádiz com as suas embarcações e respectiva tripulação, adianta agora que cederia todo o seu armamento, que seria desembarcado na cidade. Vendo que os ânimos dos franceses começavam a fraquejar, Morla responde a Rosily que não estava capacitado para aceitar as condições sugeridas e que deve consultá-las com a Junta Suprema de Sevilha. Enquanto se espera pela resposta, os espanhóis aproveitam os dois dias seguintes para executarem ostensivamente (para enganar e induzir medo aos franceses) novas medidas de ataque, entre as quais o restabelecimento das posições danificadas e a instalação de uma bateria costeira de 30 canhões bem defronte dos navios inimigos. 
Finalmente, na manhã do dia 14, chega a Cádis a resposta da Junta de Sevilha, que nega a proposta de Rosily e oferece tão somente o respeito pelas vidas e equipagens dos rendidos. Depois de receber esta resposta, Rosily convoca os seus comandantes e, à vista da aparente inutilidade de resistir ao assédio, decide arrear a bandeira e render a esquadra. Ainda no mesmo dia, o General Morla torna público este facto através da seguinte proclamação:

Prevenções do Governo aos habitantes de Cádis



A esquadra francesa acaba de render-se à discrição, confiada na humanidade e na generosidade dos gaditanos, como já publiquei. As medidas que se tomaram libertaram a nossa esquadra do menor deterioro, e deixaram-na ilesa: mesmo nas forças que se empregaram não houve estragos consideráveis; e a efusão de sangue foi menor que a dum combate de duas embarcações pequenas: não houve mais que quatro mortos.

Ademais, os navios franceses e as suas munições e armas ficam ao nosso dispor; os seus prisioneiros servir-nos-ão de moeda de troca e como reféns. Nada disto se teria conseguido com os projectos pouco meditados e combinados de brulotes, balas incendiários e outros. Se não se tivessem tomado precauções que exigem tempo, a nossa mortandade teria sido considerável. Lisonjeio-me, pois, de ter correspondido à confiança destes habitantes, que tantas e tão repetidas provas me deram da sua estima, a que jamais o meu coração sensível poderá corresponder dignamente.

Mas agora peço, exijo e mando que cessem os rumores, que tudo entre na ordem: que se submeta cada um segundo a sua classe às Autoridades constituídas, que todas dependem da Suprema Junta [de Sevilha], sempre atenta ao bem geral e a procurar com a maior actividade alianças parciais e meios para o feliz êxito da nossa empresa; que se deixem reinar as leis, e se odeie a arbitrariedade. Escandaliza que o povo mais culto e urbano da terra exclame e queira a morte de um particular. Só o campo de Marte, onde se repele a força com a força, autoriza a ilegal efusão de sangue. Fora dele, até os próprios Soberanos não são donos da vida mais facínora; é nas leis que a foice tem a força que a faz obrar. Estas proíbem em todas as nações, mesmo nas mais bárbaras, as sedições, gritarias e tumultos; devemos obedecê-las e respeitá-las: é o único meio de esperar felizes êxitos e de não ofender nesta parte nem ao Deus dos Exércitos, nem ao Soberano cujos direitos sagrados jurámos defender.

Para não multiplicar escritos, dirijo-me agora aos franceses fixos ou residentes nesta cidade. A Junta Suprema teve uma consideração sem exemplo convosco, pois prestando juramento de fidelidade à nação espanhola, admite-vos no seu seio, e salva os vossos bens e propriedades; gratos a este grande benefício, não deveis ser víboras que destroem e mordem o seio que as abriga; pelo constrário, estais obrigados a mostrar a maior lealdade e estima a um Governo tão generoso; deste modo não só afastareis de vós o ódio destes habitantes urbanos, senão que atraireis o seu amor. De contrário, temei a sua justiça. Castigarei com rigor e sem a menor indulgência até as assembleias entre vós, as expressões e ditos desordeiros e contrários à nossa causa. Se algum insensato não a respeita pela sua razão e justiça, será a vítima do seu orgulho ou necessidade.

Cádis, 14 de Junho de 1808.

Morla



***


Chegava assim ao fim o primeiro confronto bélico entre os espanhóis e os franceses (apesar da bibliografia sobre a chamada Guerra de la Independencia muitas vezes dar tal primazia à batalha de Bailén, ocorrida mais de um mês depois). Este episódio marca também o início do fim do Império de Napoleão, provando-se pela primeira vez que as suas tropas não eram invencíveis. Cerca de 3.600 soldados foram aprisionados, e como as embarcações francesas (5 navios e 1 fragata) tinham sido previamente apetrechadas para cinco meses, foi imensa a quantidade de material bélico apreendido: 442 canhões e outras 80 peças de artilharia, 1.651 quintais de pólvora, 1.429 espingardas, 1.069 baionetas, 50 carabinas, 505 pistolas, 1.096 sabres, 425 chuços, 101.568 balas, assim como a quase totalidade de munições para os canhões... A luta andaluza via-se agora mais aliviada e fortalecida do que nunca

Mais de um mês depois, Napoleão tomou conhecimento destes factos através de um periódico inglês. Apesar de anos mais tarde vir a reconhecer que a guerra da Espanha foi o seu maior erro, por enquanto Napoleão mantinha-se altivo e desconfiado da veracidade de tais notícias: numa carta que no dia 28 de Julho de 1808 enviou ao seu irmão José (que como vimos passara a ser rei de Espanha), escreveu ele que um jornal inglês diz que a minha esquadra foi bombardeada durante três dias pelos rebeldes em Cádis, que foi forçada a se render e que se encontra no mesmo porto. E logo repetia, desconfiado da sua autenticidade: isto é uma notícia inglesa... [Fonte: The Confidential Correspondence of Napoleon Bonaparte with His brother Joseph, sometime King of Spain – Volume I, ed. cit., pp. 338-339, p. 339 (n.º 408)].

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Bibliografia e websites consultados:





Miguel Aragón Fontenla, “La rendición de la escuadra de Rosily”, in XXXV Jornadas de Historia Marítima – La Marina en la Guerra de la Independencia I (Ciclo de Conferencias – Octubre 2007), Cuadernos Monográficos del Instituto de Historia y Cultura Naval, n.º 55, Madrid, 2007, 67-90, pp. 88-89; republicado in Revista General de Marina, vol. 255, Agosto-Septiembre de 2008, pp. 329-348.






La captura de la flota francesa en Cádiz y la evacuación de las tropas españolas en Zelanda en 1808, in Todo a babor.


Boney and his horse Talley - returning to Paris with a Spanish Cargo, caricatura de Charles Williams (14 de Junho de 1808)



Boney e o seu cavalo Talley regressando a Paris com uma carga espanhola.
Caricatura de Charles Williams, publicada a 14 de Junho de 1808.

Depois de em Bayonne ter obtido a coroa de Carlos IV (que jaz a seus pés), Napoleão regressa triunfalmente a Paris, conduzindo uma pequena carruagem cuja roda dianteira passa por cima duma "Declaração de Amizade à Família Real da Espanha", papel este que, por sua vez, está sobre uma espada. No banco da frente, ao lado do Imperador, vão sentados o velho Carlos IV e a sua esposa D. María Luísa, a qual ainda ostenta a sua coroa, enquanto no banco de trás estão sentados D. Fernando VII e o Príncipe da Paz D. Manuel Godoy, ambos ligados por correntes de ferro presas ao pescoço. Estes últimos trocam olhares atónitos, aparentemente porque Napoleão acaba de dizer: Podeis estar seguros, faço tudo isto pelos vossos bens. De facto, na bagageira da carruagem encontram-se empilhados e lacrados com o selo do Imperador os "bens do bom velho Rei", os "bens da amável Rainha", os "bens do Príncipe das Astúrias", e um saco, quase tão grande com os três outros volumes, com os "bens do Príncipe da Paz"
Finalmente, apesar da caricatura representar Talleyrand metamorfoseado em cavalo a puxar a carruagem, devemos voltar a dizer que este opunha-se aos planos de Napoleão em relação à Espanha, e que por tal motivo tinha sido afastado, no ano anterior, do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França.


Pormenor




Outras digitalizações:


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Três cartas enviadas a António Pinto Ribeiro de Castro, Corregedor da Comarca de Pinhel, posteriormente enviadas a Lagarde (13 de Junho de 1808)



Carta do Juiz de Fora da Praça de Almeida

Não lhe é novo o movimento da Espanha, e que em Ciudad Rodrigo se ajuntam muitos paisanos. Pelo que pertence ao meu território, reina [a] tranquilidade no povo, e não tem acontecido desordem alguma, nem coisa que ofenda a tranquilidade pública. 
Rogo a V.ª Ex.ª [que] queira continuar a mandar pão, farinhas, [?] para o abastecimento do povo, como mesmo para se ir vender ao campo de S. Pedro, a fim de que a tropa [francesa] possa achar este recurso além da ração que lhe é dada. 
Quanto o possa sentir, não é preciso [nada] mais, pois que o administrador diz ter em abundância. À Câmara foi-lhe meramente impossível o ir a essa cidade no dia de ontem, pois os vereadores todos têm andado ocupados no arranjo preciso da tropa. Amanhã aí vão. Conte com que lhe dissimulo esta falta, porque estou[?] ocupado. 
Deus guarde a V.ª Ex.ª
Almeida, 13 de Junho de 1808. 

O Juiz de Fora, 
João Bernardino da [?] Moreira[?] 



***

Carta do escrivão da Câmara de Pinhel

José Seller de Azevedo, escrivão da Câmara nesta cidade de Pinhel e seus termos: 
Certifico e dou a minha fé em como nesta cidade e termo não se entregou arma alguma das relatadas no artigo sétimo da ordem de 29 de Abril do corrente ano de 1808, nem ao depósito indicado nesta cidade concorreram algumas, passa o referido na verdade. 
Pinhel, 13 de Junho de 1808. 

Eu, sobredito que a escrevi e assinei 
José Seller de Azevedo 




***

Carta do Juiz de Fora de Pinhel


Continua o sossego e tranquilidade pública, e por isso não há presente muita coisa que seja objecto da polícia. 
Deus guarde a V.ª Ex.ª muitos anos. 
Pinhel, 13 de Junho de 1808. 

O Juiz pela ordem, 
José Caetano de Campos Serra[?] de Amorim 

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 5, doc. 14].


domingo, 12 de junho de 2011

Carta do General Spencer ao Secretário de Estado da Guerra da Grã-Bretanha, Visconde Castlereagh (12 de Junho de 1808)



H.M.S. Atlas, barra de Cádis, 12 de Junho de 1808 


Meu Senhor: 

Tenho a grande satisfação em noticiar que os cinco navios de linha e a fragata que compõem a esquadra francesa colocaram-se em posição defensiva no canal que conduz a Caraca, fora do alcance das fortificações de Cádis, recusando atender a quaisquer condições. As embarcações armadas espanholas e as baterias erigidas com o mesmo objectivo na ilha de León e perto do forte Luís, começaram as hostilidades contra os navios franceses às três da tarde do dia 9, e o fogo continuou ininterruptamente em ambos os lados até à noite. Na manhã do dia 10 foram recomeçadas as hostilidades da parte dos espanhóis e continuaram parcialmente até às duas horas da tarde, quando uma bandeira de tréguas foi hasteada pelos franceses; mas como as condições que propuseram eram inadmissíveis, os espanhóis recomeçaram as hostilidades com uma bateria adicional, a leste do forte Luís, que era composta por trinta canhões de vinte e quatro libras. 
O Almirante Purvis e eu próprio desejávamos ter cooperado neste ataque, mas os espanhóis, confiantes nas suas próprias forças, declinaram as nossas ofertas de assistência. 
O Conselho Supremo de Sevilha nomeou comissários, tendo expedido passaportes e uma fragata, na noite passada, para levá-los à Inglaterra, e eles também estão igualmente ansiosos por remeter faluas com despachos para a América do Sul. 
Foram recebidas informações segundo as quais um pequeno corpo francês estava a reunir-se em Tavira, com o objectivo de entrar na Espanha pelo rio Guadiana; fomos requeridos para nos dirigirmos até este corpo, e atacá-los na costa ou esforçarmo-nos para prevenir que continuem na prossecução dos seus planos contra a Espanha. Tenciono consequentemente partir imediatamente para executar este objectivo, logo que tenha a aprovação de Lord Collingwood. 
O Almirante Purvis já destacou três navios de guerra para a boca do Guadiana, e ofereceu quaisquer outras ajudas necessárias, que o Lord Collingnwood tem desde então confirmado. 
Tenho a honra de ser, etc. 

B. Spencer, Major-General 



Carta do General Spencer a Lord Collingwood (12 de Junho de 1808)



H.M.S. Atlas, 12 de Junho de 1808 


Meu Senhor: 

Acabei de ser honrado com a carta de Vossa Senhoria, em resposta à qual rogo que tenhais em consideração a impropriedade do meu corpo tomar uma posição no interior [da Espanha], sujeitando-me a ser chamado a juntar-me ao exército espanhol, talvez em Sevilha, estando o meu corpo mal equipado para uma acção de campo, o que concebo ser muito contrário aos desejos dos ministros de Sua Majestade [Britânica]. 
Estou, portanto, ansioso para dirigir-me à barra de Ayamonte logo que seja possível. 
Tenho a honra de ser, etc. 

B. Spencer, Major-General 

[Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 229].


Carta de George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, aos enviados da Junta das Astúrias (12 de Junho de 1808)



Secretaria dos Negócios Estrangeiros, 12 de Junho de 1808.




Caros Senhores:


Transmiti ao Rei meu amo a carta que a Junta geral do Principado das Astúrias incumbiu Vossas Senhorias de trazer a Sua Majestade, bem como os poderes com que foram autorizados para pedir em nome da Junta a ajuda de Sua Majestade.
O Rei manda-me assegurar a Vossas Senhorias que Sua Majestade vê com o mais vivo interesse a determinação leal e valorosa do Principado das Astúrias para manter uma contenda pela restauração e independência da Monarquia espanhola contra a usurpação atroz da França.
Deste modo, Sua Majestade está disposta a conceder todo o género de apoio e assistência a um esforço tão magnânimo e digno de elogios.
Conforme a esta disposição, Sua Majestade serviu-se mandar que embarquem sem demora para o porto de Gijón os artigos de socorros militares que Vossas Senhorias detalharam como sendo os mais necessários para já; e deu ordens para que se dirija às costas das Astúrias uma força naval suficiente para protegê-la contra qualquer tentativa que a França possa fazer para introduzir tropas por mar no país. Sua Majestade terá gosto em fazer qualquer esforço posterior em apoio de uma causa tão justa.
O Rei manda-me declarar a Vossas Senhorias que está Sua Majestade pronta a estender o seu apoio a todas as demais partes da Monaquia espanhola que se mostrem animadas do mesmo espírito que os habitantes das Astúrias; e ainda que o seu desejo sincero é renovar os vínculos de amizade que subsistiram por tanto tempo entre as duas nações, e dirigir os seus esforços unidos contra aquela potência que se mostrou não menos inimiga da Espanha que da Grã-Bretanha.
Devo recomendar que não se perda tempo em avisar a Junta geral das Astúrias do modo que se serviu Sua Majestade acolher as proposições que lhe chegaram através de Vossas Senhorias, e participo-lhes que se acha pronta em Portsmouth uma embarcação para conduzir qualquer pessoa que tenham o gosto de enviar com esta comunicação.
Tenho a honra de ser, com a maior consideração, o mais atento e seguro criado de Vossas Senhorias.


George Canning

[Fonte: Demostracion de la lealtad espanola: coleccion de proclamas, bandos, ordenes, discursos, estados de exercito y relaciones de batallas publicadas por las juntas de gobierno o por algunos particulares en las actuales circunstancias - Tomo Segundo, Cádiz, 1808, pp. 21-22; Carta Misiva del Principado de Asturias a S.M. Británica sobre las circunstancias actuales de la España, y la contestacion de este Soberano, Valencia, Joseph de Orga, 1808. Existe uma outra tradução portuguesa publicada por José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 17-19].

Boney at Bayonne blowing a Spanish Bubble, caricatura publicada por Thomas Tegg (12 de Junho de 1808)




Bonaparte em Bayonne enchendo uma bolha espanhola.
Caricatura publicada por Thomas Tegg a 12 de Junho de 1808.


Apesar de termos traduzido literalmente o título desta caricatura, devemos notar que outra tradução possível seria Bonaparte em Bayonne difundindo um rumor espanhol, como que aludindo às notícias que a imprensa napoleónica começou a espalhar a partir daquela cidade (ver em particular uma carta anónima de 8 de Maio de 1808, atrás publicada), antes mesmo da abdicação da família real espanhola. Assim, Napoleão é representado a criar uma enorme bolha (note-se que outro significado de bubble, em inglês, é "embuste"), dentro da qual aparecem, da esquerda para a direita, D. Carlos IV, a sua esposa D. Maria Luísa, D. Fernando VII e Godoy, todos eles (exceptuando a rainha) com as cabeças despojadas. Bonaparte cumprimenta-os com mostras de amizade: Meu bom velho Rei, confiai em mim, venho como um Amigo! Digníssima Rainha, Vossa Majestade nada tende a recear de mim. Ah! O Príncipe das Astúrias, meu Amigo e Irmão! Generosíssimo Príncipe da Paz, vede em mim o vosso Anjo da Guarda. Apesar destas promessas e garantias, Bonaparte está sentado num tambor de guerra, rodeado de três peças de artilharia (uma das quais cheia de espuma de sabão gálica), e munido de diversas balas de amizade. Lançando fogo à bombarda que está à sua frente, Napoleão dispara uma bala/bolha em direcção a Madrid, sob as aparências de uma visita amigável, mas que, ao rebentar, dela irrompem diversos soldados franceses, os quais caiem sobre a capital espanhola. Trata-se duma nítida alusão à repressão dos motins madrilenos de 2 de Maio de 1808, o que aliás coincide com uma outra tradução possível de blowing a bubble: "estoirando/atacando uma efervescência"... 


Pormenor