sábado, 11 de junho de 2011

Restauração de Bragança (11 de Junho de 1808)


Um General português põe-se à frente da revolução, expede ordens, proclama aos povos, convida outros Generais a se lhe unirem, abre correspondências com Espanha, principia a organizar um exército, procura os meios de o sustentar e de levantar o estandarte português até o centro da dominação intrusa. É o General Sepúlveda, e é em Bragança, título antigo da Real Casa reinante, que se concebem e executam estes projectos. 
O abade de Carrazedo, Manuel António de Sousa e Madureira Cirne, tendo em sua casa a administração do correio, foi o primeiro que, a 11 de Junho pelas 5 horas e meia da tarde, recebeu por uma carta a notícia da prisão dos franceses no Porto. A carta é lida em voz alta a várias pessoas que se achavam presentes; aparecem mais cartas que confirmam esta notícia, acrescentando algumas que Junot devia também ter sido preso em Lisboa, e principiam imediatamente os vivas, de que foram autores o abade, o cónego Bento José de Figueiredo Sarmento, o bacharel Pedro Álvares Gato, e o médico António Afonso Dias Veneiros, e a que responderam todos os assistentes e o povo que se foi ajuntando com um entusiasmo inexplicável. De casa do abade saíram todos a procurar o General, que se achava na igreja de São Vicente assistindo à trezena de Santo António; e com ele voltaram, para darem as providências oportunas ao seu Quartel-General. Já o povo se encontrava aos montes, repetindo os vivas; já repicavam os sinos da catedral, por ordem do cónego Bento José de Figueiredo, e lhes respondiam os das outras igrejas da cidade; não se divisando senão alegria, desde o General até o último indivíduo do baixo povo.
Mas nem todas as autoridades se decidiram logo pela restauração, posto que nenhuma a impugnou abertamente. Houveram funcionários públicos que, apenas informados deste grande reboliço, foram procurar o General com os semblantes amarelos, a perguntar-lhe que novidade era aquela; ao que ele respondeu, conduzindo-os a uma janela e mostrando-lhes as ruas cobertas de povo, que clamava em altas vozes: viva o nosso Príncipe e a Real Casa de Bragança; morram os franceses; e também se ouvia: viva o nosso General. Ali têm o que é, lhes disse Sepúlveda; vejam se se atrevem a acomodar todo este povo. Não houve réplica, porque esta resposta não a admitia.
Sancionado com prazer pelo General este glorioso acto, seguiram-se salvas Reais, e nessa noite e nas seguintes se iluminou toda a cidade; sem outra alguma ordem ou insinuação, que o exemplo do mesmo General e dos outros patriotas que com ele se tinham posto à frente. Começou também desde logo a cuidar-se no essencial, que era procurar armas e soldados, providenciar os meios de sustentar a tropa e consolidar a revolução.
O General pois fez trabalhar incessantemente no concerto de uma porção de armamento velho que havia na cidade, enquanto não se podia conduzir de Chaves o que ali se achava. Publicou um edital datado do mesmo dia 11, por onde chamava às armas todos os transmontanos, e principalmente os militares que tinham obtido baixas no tempo do governo intruso, obrigando-os a se reunirem aos seus corpos, e perdoava, em nome do Príncipe Regente, o crime de deserção simples a todos os que nele se achassem compreendidos, contanto que se apresentassem no termo de 15 dias. Expediu ordens aos Governadores e Capitães mores da província para fazerem a aclamação nos seus respectivos territórios, e para que toda a paisanagem se pusesse pronta a combater o inimigo, se intentasse invasão. Ordenou também com particular cuidado que se cortasse a comunicação das barcas do Douro, para embaraçar ao inimigo a sua passagem, se a tentasse da parte de Almeida.
O dia 12 principiou pelas cerimónias religiosas, assistindo o General com o seu Estado-Maior, a Câmara, nobreza e povo à acção de graças que se celebrou na catedral, em que orou o Governador do Bispado Paulo Miguel Rodrigues de Moraes, um dos homens que trabalharam com grande zelo nesta empresa, e com muita utilidade, inflamando os povos e especialmente o corpo do clero com a sua autoridade e persuasões, e por meio de ordens que expediu a todos os párocos do Bispado. Aí mesmo se ornaram todos com o tope nacional, os eclesiásticcos sobre o peito, os seculares no chapéu.
Voltaram depois a continuar as suas fadigas militares, de que o objecto principal consistia então em reorganizar e armar os regimentos de linha e milícias da província. Começou-se pelo de infantaria n.º 24, debaixo do comando do Capitão Bernardo de Figueiredo Sarmento, que pelo seu comportamento e trabalhos merece uma memória honrosa, e pelo de cavalaria n.º 12, debaixo do comando do seu Coronel Amaro Vicente Pavão de Sousa. A necessidade aumenta prodigiosamente as forças do homem; Sepúlveda, velho e doente, trabalhava como faria um moço robusto; mas ele se achava rodeado de um grande número de fiéis portugueses, que o ajudavam com todas as suas forças; e devem contar-se neste número seus filhos, seus genros, e numa palavra toda a sua família.
Tal era o estado das coisas em Bragança, quando chegou novo correio do Porto, que em lugar de notícias lisonjeiras que se esperavam com alvoroço, trouxe as ameaçadoras cartas de Hermann e Lagarde*, e a certeza de que em Lisboa não tinha havido novidade, e o Porto tinha reentrado nos ferros. O terror produziu prontamente os seus efeitos, um dos quais é aumentar extraordinariamente a ideia do perigo: reflectiu-se sobre a insuficiência dos meios de defesa contra os exércitos do conquistador, nas vinganças de Junot, e no abandono em que se consideravam aqueles povos, tendo dado um passo tão arriscado que não constava que outros imitassem; olhava-se para Almeida e imaginava-se a todo o instante que a divisão de Loison caía sobre Bragança; e para maior desgraça, corriam notícias confusas do exército de Bessières, o qual por esse tempo assolava a alta Castela, que eram bem capazes de produzirem novos sustos. 
Os espíritos pois vacilaram de tal modo que alguns daqueles mesmos que ao princípio se haviam mostrado mais resolutos, caíram na fraqueza de proporem ao General que se humilhasse perante o governo intruso. E quando estes assim pensavam, que fariam os outros que desde os primeiros momentos tinham manifestado a sua timidez? Formaram uma conspiração contra o General e contra os outros motores da revolução; e como alguns deles se achavam armados com a jurisdição, abriram uma devassa contra os mesmos General e mais patriotas, projectando nada menos que o criminá-los e prendê-los, para se livrarem a si próprios. A crise era arriscada, e o General se tirou dela por um lance de prudência; tendo chegado a pontos de dar algumas providências para se refugiar na Espanha, se tanto fosse necessário.
Congregou-se na sua presença um ajuntamento das pessoas principais que tinham figurado na acção, para se deliberar o que devia obrar-se; e falando cada um segundo o seu modo de pensar, Francisco de Figueiredo Sarmento (um dos genros do General) representou com energia a alternativa em que se achavam, de morrerem às mãos dos franceses com ignomínia, ou sustentarem a revolução com uma resistência heróica; e apoiou intrepidamente este último partido, como o único que convinha adoptar. O General, pensando como ele, e sustentando que não tinham outro meio de salvar as vidas senão resistindo, contemporizou destramente com os autores da contra-revolução, subscrevendo à proposta que importunamente lhe faziam como meio conciliatório de escreverem cartas ao governo intruso, humilhando-se-lhe e dando-lhe por desculpa que todos os actos até ali praticados tinham sido de absoluta necessidade, para suspender os movimentos do povo em tumulto; que as salvas e luminárias não tiveram outro objecto que a festividade de Santo António.
Disse-lhe pois o General que escrevessem e lhe fizessem também o borrão para a sua carta, o que eles praticaram; e ajuntando-se à noite em casa do mesmo General, este lha apresentou já posta em limpo. Era tal a precipitação em que eles se achavam, que depois de a lerem, passaram a fechá-la, sem advertirem que estava ainda por assinar; fecharam também as suas, e quiseram deixá-las ao General, para que as mandasse lançar no correio, ao que este não anuiu, dizendo-lhes muito a propósito que as levassem todas e as lançassem no correio, pois que tinham de passar-lhe pela porta para se recolherem a sua casas; mas por baixo de capa mandou ordem ao administrador para que não remetesse a sua, não obstante faltar-lhe a assinatura. Digo que esta lhe faltava por fé do próprio General, que o atesta; e eu acredito, não só pela persuasão em que estou da sua honra e verdade, mas também porque se assim não fosse, a mesma carta o desmentiria, pois existe, e ele o sabe, em poder de um homem que lhe disputa vivamente as honras da primazia na restauração, sendo na verdade um dos que mais se distinguiram nesta obra.
É o abade de Carrazedo, em cuja casa estava, como disse, a administração do correio, quem conserva a carta, e não há muito tempo que a vi nas suas mãos cerrada e lacrada com sobrescrito do General para o ministério da guerra do tempo do governo intruso. Para dizer que é a própria carta da questão, tenho, além dos outros fundamentos, o testemunho do mesmo abade, que acredito sem repugnância; porque por isso mesmo que ele disputa a primazia ao General, mais lhe convinha ocultar do que produzir este documento, em que muito se tem falado; porque produzindo-o, ratifica a ideia de que não chegou a ter efeito; e ocultando-o deixaria sempre em dúvida se o teve, e se o General retrocede nos seus honrados projectos**.
Que não retrocedeu, é uma verdade demonstrada pelos factos; pois não houve intermitência na expedição das suas ordens e [na] execução dos planos que se haviam traçado. Animem-me, ajudem-me, dizia este honrado velho aos honrados patriotas que o rodeava; eles o animaram e ajudaram, e a revolução fez progressos, não só por toda a província transmontana, mas também nas de Entre-Douro e Minho, e Beira Alta, correndo muito para este fim não só o exemplo mas também as participações e convites de Sepúlveda aos respectivos Generais e Governadores.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 136-148].


_____________________________________________________________________________

* O teor da carta que Lagarde enviou ao Corregedor do Porto não devia deferir muito do daquela que enviou ao Juiz de Fora de Chaves, datada de 10 de Junho.

** [Nota original de Acúrsio das Neves] A controvérsia entre o General e o abade parece-me uma questão sem sujeito. O abade, recebendo primeiro as notícias do Porto, teve também ocasião de levantar primeiro a voz; mas ele mesmo reconheceu a necessidade ou pelo menos a importância da autoridade do General, indo logo procurá-lo com as mais pessoas que o acompanharam. O General principiou imediatamente a expedir ordens, e foi reconhecido por todos como chefe da revolução (qual outro o poderia ser na sua presença?); mas os actos foram tão seguidos e continuados, tão uniformes os sentimentos, e propagaram-se com tanta rapidez as vozes da restauração que se pode dizer que não houve senão um aclamador, que foi o povo de Bragança.


Notícia publicada no órgão de imprensa da Junta de Sevilha, sobre o desarmamento das tropas espanholas destacadas em Portugal (11 de Junho de 1808)



Lisboa, 11 de Junho 


É grande a fermentação que aqui se observa entre a tropa espanhola, embora não produza fruto algum; antes se vai tornando impossível, de dia para dia, restituírem-se estes soldados à sua pátria, ou virem a ter algum proveito nesta praça, pois acabam de ser desarmados. Não ocorreu assim no Porto, pois encontrava-se ali o General Belestá, que armou toda a tropa que tinha sob o seu comando e, apoderando-se esta do Corregedor mor, do General de divisão Quesnel, de Mr. Taboureau, Auditor do Conselho de Estado de Paris, do Coronel de Artilharia Picoteau, e de vários outros oficiais civis e militares, como também de um destacamento de Dragões, dirigiram-se à Galiza, acção esta que foi muito sensível aos franceses. O General Junot, receando que os demais imitem esta conduta e antes que sigam este exemplo, tomou o partido de desarmá-los, e não tardará em fazer o mesmo com o destacamento de Setúbal, e os regimentos de Caçadores de Valência e Múrcia, que se encontram completamente insurrectos contra os franceses. 

[Fonte: Gazeta Ministerial de Sevilla, n.º 7, en la Imprenta de la viuda de Hidalgo y Sobrino, 22 de junio de 1808, p. 51].

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (11 de Junho de 1808)


Lisboa, 11 de Junho


As peças seguintes, que se acabam de fazer aqui públicas, indicam a mais atroz violação do Direito das Gentes, cometida no norte deste Reino, e as disposições que dela foram uma consequência necessária. Estas medidas estavam concertadas com tanta sabedoria, que se executaram aqui, a noite passada, sem que os habitantes de Lisboa nem sequer pensassem que nada houvesse de extraordinário, não cessando de reinar por um só instante a mais profunda quietação.


[seguia-se a proclamação de Junot e a sua ordem do dia, ambas de 11 de Junho]



Logo que a Câmara da cidade de Aveiro recebeu, em 17 de Maio, o feliz anúncio dos benefícios prometidos por Sua Majestade Imperial e Real à Deputação portuguesa, o publicou com repiques e pregão aos habitantes dela e seu termo, que à porfia manifestaram a sua alegria com luminárias por três dias, e na tarde do dia 22, unindo-se o Excelentíssimo Bispo com toda a satisfação à mesma Câmara, cantou o Te Deum na Sé pomposamente com todo o Clero, Comunidades Regulares, Ministros, Nobreza e Povo, em sinal do seu contentamento. 

Outro testemunho de igual regozijo é a carta seguinte dirigida ao Administrador da Casa da Gazeta. 





[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 23, 11 de Junho de 1808].

Ordem do dia de Junot sobre o aprisionamento das tropas espanholas (11 de Junho de 1808)





Exército de Portugal

Ordem do Dia 



Ordem do Dia do Exército de Portugal


Soldados, 

A conduta infame do General espanhol Belestá no Porto; o roubo das peças do General de Divisão Quesnel; do senhor Taboureau, Auditor do Conselho de Estado; do Coronel de Artilharia Picoteau; e doutros indivíduos militares ou civis; assim como de um Destacamento de Dragões; a revolta do Regimento dos Caçadores de Valença; e a do Regimento de Múrcia; a detenção, enfim, de muitos dos meus Oficiais em Ciudad Rodrigo e Badajoz, e a impossibilidade em que se viam os senhores Oficiais espanhóis de conter os seus Regimentos:
Todas estas razões me determinaram abraçar o severo partido de desarmar os Regimentos espanhóis que ainda estavam debaixo das minhas ordens. 
Felizmente se conseguiu fazer este desarmamento sem que se derramasse sangue: nós não somos inimigos dos Soldados espanhóis que nós temos desarmado; e o meu coração repugnava a uma medida, que só tinha feito executar, obrigado da necessidade, para nossa própria segurança. Os Oficiais espanhóis conservaram suas armas: Eu determinei que as Bandeiras fossem entregues aos seus Batalhões. Ser-lhes-ão pagos os soldos; fornecer-se-lhes-ão víveres, como até agora; sua actual posição em nada mudará minhas boas disposições a seu respeito. 
Soldados, eu estou satisfeito da maneira com que vos tendes conduzido: eu tenho visto com prazer o vosso sossego e a vossa tranquilidade: se os ingleses querem agora atacar-nos, nós estamos sós para recebê-los. 
VIVA O IMPERADOR NAPOLEÃO!
Dado no Palácio do Quartel-General de Lisboa, 11 de Junho de 1808 

Assinado: O DUQUE DE ABRANTES 


Soldados!

O comportamento infame do General espanhol Belestá, no Porto; a violência com que se lançou mão do General de Divisão Quesnel; de mr. Taboureau, Auditor do Conselho de Estado; do Coronel de artilharia Picoteau; e de vários outros indivíduos militares ou civis, como também de um destacamento de dragões; a revolta do regimento de caçadores de Valença, a do regimento de Múrcia; finalmente, a prisão de vários dos meus Oficiais em Ciudad Rodrigo e em Badajoz, e a impossibilidade em que estavam os Oficiais espanhóis de ter mãos nos seus regimentos:
Todas estas razões me determinaram a tomar o violento partido de desarmar os regimentos espanhóis que ainda ficavam debaixo das minhas ordens. 
Este desarmamento se fez felizmente sem efusão de sangue. Nós não somos inimigos dos soldados espanhóis que havemos desarmado; só por necessidade e por nossa própria segurança é que eu mandei executar uma medida que repugnava ao meu coração. Os Oficiais espanhóis conservam as suas armas; e eu ordenei que as Bandeiras se entregassem aos próprios batalhões. O soldo lhes será pago, e os víveres fornecidos como dantes se praticava. A sua situação actual não fará mudança alguma na boa disposição em que estou para com eles. 
Soldados, satisfeito estou do modo com que vos haveis comportado; e tenho visto com prazer a vossa quietação e tranquilidade. Se os ingleses quiserem agora vir ter connosco, achar-nos-ão de todo prontos a arrostá-los. 
Viva o Imperador NAPOLEÃO! 
Dado no Palácio do Quartel-General, em Lisboa, a 11 de Junho de 1808 

(Assinado) O DUQUE DE ABRANTES 




___________________________________________________

Observações:

Transcrevemos aqui duas versões desta ordem do dia (ver a este respeito o que comentou Acúrsio das Neves): 
- à esquerda, a que foi publicada por editais em todo o país [Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 358 (Doc. 38)].
- à direita, a versão corrigida, conforme foi publicada na Gazeta de Lisboa [Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 23, 11 de Junho de 1808].

Deve-se notar que, apesar de pública, esta ordem do dia era dirigida ao "Exército de Portugal", ou seja, à Armée de Portugal, nome que entretanto tinha adoptado o originalmente chamado (primeiro) Corpo de Observação da Gironda, comandado por Junot (não confundir com o segundo corpo do mesmo nome, comandado por Dupont). O exército português propriamente dito tinha deixado de existir depois de Junot ter decretado o licenciamento e desmobilização da sua maior parte (e enviado cerca de 10.000 soldados portugueses para a França), apesar do mesmo General se ter visto obrigado a conservar algumas tropas portuguesas em zonas onde o número de militares franceses era reduzido ou inexistente. Era por exemplo o caso do Algarve, que apesar de contar com cerca de 900 franceses aquando da publicação da ordem do dia transcrita, mantinha activo (embora muito provavelmente não na totalidade) o Regimento de Artilharia n.º 2 (que guarnecia as fortificações costeiras da província).


Proclamação de Junot justificando o desarmamento dos soldados espanhóis e prometendo a defesa do país (11 de Junho de 1808)


O General em Chefe do Exército aos Portugueses! 

Portugueses! Depois de seis meses de tranquilidade, íeis a ficar expostos a ver perturbada a paz neste Reino pela efervescência cada vez maior das tropas espanholas, que não entraram no vosso país, ao que parecia, senão como aliadas, mas cujo objecto era a desmembração de Portugal. Quando no primeiro de Fevereiro declarei, em nome do Imperador, que eu tomava posse do Governo de Portugal, por inteiro, começaram os espanhóis a mostrar para comigo alguma falta de inteligência. Os sucessos acontecidos em Espanha, a insurreição desenfreada de alguns distritos daquele Reino, induziram diferentes corpos de tropas espanholas à deserção; e desde então começou a haver razões provocativas e alguns meios de facto para com os meus soldados. 
Contando decerto com o bom espírito dos habitantes do Porto, não tinha eu deixado naquela província mais que alguns espanhóis; e tinha enviado para governá-la um General de Divisão e alguns Oficiais que se destinavam a ser empregados nas Praças. Aquele valoroso General, o Corregedor mor, um Coronel de artilharia e vários outros Oficiais civis e militares, que julgavam poder viver sossegados à fé de um General espanhol, e no meio das suas tropas - que digo, portugueses! - esse General espanhol caiu na vileza de prender aqueles quatro ou cinco Oficiais que nele confiavam: Belestá é o seu nome! Caiu ele na vileza de consentir que Oficiais valorosos fossem maltratados pelos seus soldados rebeldes, sem se atrever a reprimi-los. Saiu ele de Portugal com as tropas que lhe foram confiadas para defender este país; nele não há de tornar a entrar. 
O mesmo espírito que dirigiu o movimento do Porto se comunicou às tropas espanholas acantonadas em Lisboa, Setúbal e seus arredores. A tranquilidade estava para ser perturbada; e eu mesmo teria de pôr-me em defesa contra tropas que faziam parte do meu exército. Obrigado me vi a tomar o partido de desarmá-las: assim o fiz. Nada temam porém os espanhóis estabelecidos em Lisboa e em todo o Reino de Portugal, seja qual for o ofício ou emprego que exercerem. Não procederei a represálias, assim como o fizeram os feros habitantes de Badajoz, de Ciudad Rodrigo, etc., etc., havendo tido a barbárie de lançar em masmorras alguns desgraçados franceses, pais de família, estabelecidos entre eles havia 50 anos, e que os faziam gozar dos efeitos da sua indústria! Farei vigiar severamente sobre todos os indivíduos dessa nação; e aquele que tentar semear a turbulência entre vós, será logo punido, e exemplarmente. 
Portugueses! Satisfeito estou até aqui do vosso bom espírito. Haveis sabido prezar o bem que se vos deve seguir da protecção de NAPOLEÃO o GRANDE: tendes em mim confiança. Continuai assim; eu vos dou minha palavra de livrar o vosso país de toda a invasão, de toda a desmembração. Se os ingleses, que só sabem fomentar a discórdia, quiserem agora vir procurar-nos, achar-nos-ão inteiramente prontos a defender-vos. Alguns dos vossos batalhões de milícias e os regimentos que ficam em Portugal farão parte do meu Exército, para defender as vossas fronteiras; instruir-se-ão na arte da guerra; e se eu for tão feliz que possa pôr em prática as lições que recebi de NAPOLEÃO, ensinar-vos-ei a vencer. Viva o Imperador! 
Dado no palácio do Quartel-General em Lisboa, a 11 de Junho de 1808. 

Assinado: O Duque de Abrantes 

[Fontes: Copiámos o texto inserido no 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 23, 11 de Junho de 1808; o edital digitalizado (contendo tanto a versão original, em francês, como uma outra tradução com variantes), encontra-se presente no Archivo Histórico Nacional de España, Correspondencia de Juan Betegón al general Domingo Belesta (Código de referência: ES.28079.AHN/1.1.32//ESTADO, 1750, Exp. 12)].


A forma como Junot reagiu aos acontecimentos do Porto, segundo Acúrsio das Neves


Tristes prazeres, amargurado festim! Poucas horas eram passadas, depois de uma noite tão agradável, quando Junot recebeu a notícia dos sucessos do Porto, e então é que começaram os apertos; mas as angústias de que o seu coração se via oprimido não lhe embaraçaram o dar as providências que julgou proporcionadas às circunstâncias.
Viram-se imediatamente sair tropas francesas para Mafra, Santarém e outros lugares; algumas passaram o Tejo, e ignorava-se o seu destino. Ferviam os correios, as imprensas puseram-se em actividade, notava-se susto e agitação em todos os movimentos dos franceses, e só algumas notícias que pouco a pouco vinham chegando ao público, e os sucessos que foram saindo daquela efervescência dos espíritos puderam enfim aclarar os motivos.
Tanto o General [Junot] como Lagarde e Hermann responderam às cartas de participação que receberam do Porto*. Junot louvou a Câmara, mas dando sempre conhecer a espinha que lhe ficava na garganta, porque ela não tinha tomado logo partido contra os espanhóis. Lagarde não só escreveu uma carta furiosa ao Corregedor, mas também circulares aos magistrados de todas as terras confinantes com a Espanha, que continham as suas missões e ameaças do costume; e concordaram todos em intimidar o Porto com 4.000 homens da divisão de Loison.
Este General, que tinha ordem de entrar em Ciudad Rodrigo e aí se manter, e que não pudera penetrar senão até o forte de la Concepción, situado na extremidade da Espanha em frente de Almeida, que os espanhóis haviam evacuado à sua chegada, a teve com efeito agora para retroceder e cair sobre o Porto. Assim que a recebeu, ele se pôs em marcha, demolindo uma parte do forte, transportando para Almeida as munições e mais efeitos que pôde, e saqueando algumas aldeias por onde passou.
A noite de 9 para 10 foi de grande agitação para os Generais e outros empregados franceses em Lisboa; mas dos seus resultados não apareceram ao público senão as declamações de uma gazeta no estilo do costume. A de 10 para 11 foi ainda de maior reboliço, e de maior vulto o seu parto. Lagarde, para dar mais expedição ao seu laboratório, tinha feito conduzir uma imprensa para a casa da sua residência, e nessa noite mandou também ir o administrador da gazeta [António Rodrigues Galhardo] pela uma hora da madrugada. Trabalhou-se sempre, e contudo Lagarde não se recolheu senão muito depois de amanhecer, quando já estava executado aleivosamente o desarmamento das tropas espanholas que se achavam acantonadas nos abarracamentos de campo de Ourique e Vale de Pereiro.
Na tarde precedente tinham elas recebido ordem de se reunirem à hora dada, para embarcarem no Terreiro do Paço e partirem para Espanha. Era este o alvo dos seus desejos, e caminhando alegres debaixo deste engano, que favorecia o escuro da noite, apenas chegam ao Terreiro do Paço, os valentes espanhóis se acham rodeados de peças de artilharia e de uma quadrilha armada de cobardes franceses, que só por cobardes podiam cometer uma semelhante perfídia. Achavam-se escondidos com a sua artilharia debaixo das arcadas dos edifícios que fecham o recinto daquela praça e nas embocaduras das ruas circunvizinhas; dali caíram repentinamente sobre os espanhóis, que bramiam como leões, mas tiveram de ceder, como cordeiros, na presença da metralha e das baionetas; foram ignominiosamente desarmados, e o campo ficou coberto com as suas mochilas e barretinas, que tudo foram obrigados a largar, e tudo foi entregue a um rigoroso saque.
Apareceu então ao público o trabalho da noite precedente, e revelou-se o mistério das tropas francesas que tinham partido para os diferentes postos, com destino secreto. Uma gazeta, um edital e uma ordem do dia, tudo no gosto francês, anunciaram o desarmamento dos espanhóis em todos os lugares que ocupavam; procurando encobrir com cores plausíveis um procedimento infame, de que nenhum verniz pôde ofuscar a negrura**.
Pela tarde começaram a aparecer começaram a aparecer em Lisboa os prisioneiros espanhóis feitos nos seus contornos; e nos dias seguintes continuaram a vir os de Mafra, Santarém e outros pontos mais remotos. Entravam em magotes, sem armas, e entre franceses, como vítimas entre algozes. Eu vi muitos destes infelizes, e nunca se apagará no meu espírito a forte impressão que me causaram o aspecto e a marcha triste e desconcertada com que os conduziam os seus tiranos, em recompensa de terem abandonado os seus lares para os acompanharem a um país estrangeiro, e serem instrumentos involuntários dos seus roubos e atrocidades. Maridos inválidos eram acompanhados por mulheres e meninos banhados em lágrimas, que mal podiam suportar as fadigas da jornada; outros iam conduzindo tristemente pelas arreatas os jumentos que levavam os filhos e as consortes; vi mulheres desmaiadas, vi outras atenuadas de cansaço e cobertas de suor, por efeito de uma calma ardente, trazendo seus filhinhos aos peitos; e vi também alguns, presos por cordas para não caírem, em cima de carros atacados de caixas, panelas, caldeirões e outros objectos próprios de tropas volantes. A fraqueza do sexo, a enfermidade e a infância sofriam, como a robustez, os mesmos trabalhos. Foram todos conduzidos a vários navios surtos no Tejo e aí conservados, debaixo de guardas vigilantes, maltratados e mesmo morrendo de fome, até que os eternos inimigos do continente, segundo a expressão dos franceses, lhes vieram restituir as armas e a liberdade, depois de terem derrotado no Vimeiro os invencíveis da grande nação. 
Os oficiais tinham ficado ao princípio em liberdade, debaixo da fé de um termo que assinaram, de se não ausentarem; mas passados poucos dias também foram presos, ou porque alguns dessem o exemplo de se retirarem, o que não é de admirar, pois se consideravam num injusto cativeiro; ou porque se tomasse este pretexto para serem reduzidos ao mesmo abatimento que os soldados. De uns e outros conseguiram muitos o escaparem das suas prisões, porque achavam no povo português todo o auxílio possível para esta fuga.
Carrafa não se livra de veementes suspeitas de ter concorrido para uma tão atraiçoada entrega das tropas do seu comando; pelo menos a opinião pública dos portugueses o condenou sempre; e mais o condenaria, se naquele tempo se soubesse um facto que hoje posso dar por autêntico. Carrafa ofereceu a Junot um plano para a redução do exército espanhol, à semelhança do que se havia praticado com as tropas portuguesas, do qual o mesmo Junot fez presente a seu amo [Napoleão]. Contudo, pode ser verdadeiro este facto e Carrafa não ter sido cúmplice no desarmamento e prisão das suas tropas; suspeitas não são verdades demonstradas.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 102-110].

_______________________________________________________________


Notas:


* [Nota nossa] Foram pelo menos cinco as cartas que do Porto foram enviadas ao Governo francês em Lisboa:
1. Carta de Belestá a Junot;
2. Carta da Câmara do Porto a Junot;
3. Carta de Luís de Oliveira da Costa, Governador interino das Armas do Porto, a Junot;
4. Carta de José Teixeira de Sousa, Corregedor da comarca do Porto, a Lagarde;
5. Carta do Tribunal da Relação do Porto a Hermann.


** [Nota original de Acúrsio das NevesA ordem do dia começava por esta forma no original francês: La conduite infâme du Général espagnol Belestá a O-Porto, l’enlèvement du Général de division Quesnel, de Mr. Taboureau, etc., e eis aqui como se traduziu na primeira edição: A conduta infame do General espanhol Belestá no Porto, o roubo das peças do General de Divisão Quesnel, do Senhor Taboreau, etc. L’enlèvement du Général de division Quesnel, de Mr. Taboureau, etc., significa o roubo das peças do General, segundo o dicionário do tradutor; e acham-se muitas passagens destas nas traduções das demais obras do governo francês. Tais eram os homens ilustrados, que estavam ao seu soldo! Na segunda edição, que se pôs em venda pública, conheceu-se e procurou-se adoçar o erro, pondo-se pessoas, em lugar de peças; na gazeta finalmente se emendou nesta forma: a violência com que se lançou mão do General, etc. 


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Relação da marcha do Regimento de Infantaria de Múrcia em 1808, de Portugal à Espanha


Na relação da gloriosa marcha do Regimento de Múrcia de Portugal à Espanha em 1808 há de se notar, como circunstância muito interessante, a falta de concorrência dos chefes naturais do Corpo, e ainda talvez a falta de disposições, quando não de assistência, do General espanhol a cuja Divisão pertencia. Devo portanto à claridade e verdade dos factos, ao mérito do Regimento, à justiça, e ainda ao decoro do dito General, uma explicação da posição política e militar em que nos achávamos, que faça ver o lugar que ocupou cada um, e sirva de introdução ao assunto deste papel.
Quando em 1807 o Exército espanhol entrou em Portugal auxiliando o francês sob o comando do General Junot, foi atribuído o Regimento de Múrcia (1) à Divisão do General Carrafa, mas as circunstâncias ou os acidentes a que estão sujeitas as operações militares fizeram-no agir por si só, a grande distância do seu General. Entrou pelo Alentejo, passou por Campo Maior, ocupou Elvas, dispôs a sua guarnição em união com as tropas portuguesas, e quando o desgosto destas e o receio dos Governadores tornaram crítica a sua posição, soube fazer respeitar as armas de Sua Majestade, mantendo-se com carácter e com medidas que se impuseram, não obstante a praça [de Elvas] encerrar cinco Regimentos de Infantaria e um de Cavalaria portugueses. Nos primeiros dias de Fevereiro de 1808 foi reforçado com o primeiro Batalhão da coluna de Granadeiros da província de Castela-a-Nova, e ambos os Corpos permaneceram na praça até que, no dia 13 de Março, relevados por um Regimento francês, empreenderam a marcha por Batalhões, dirigindo-se para as imediações de Lisboa.
A Divisão Carrafa estava desde meados de Janeiro sob as ordens de Junot, segundo as ordens que tínhamos recebido da nossa Corte, e portanto o General francês dispunha os nossos movimentos segundo o seu arbítrio, devendo notar-se que, tanto nesta parte como nas demais do seu mando sobre as tropas espanholas, costumava dirigir-se directamente aos Coronéis, prescindindo do conduto do General Carrafa sempre que assim o entendia. Deste modo foi comunicada a ordem de marcha por um Ajudante General francês. Assim procedemos, sendo que o primeiro Batalhão entrou em Setúbal a 22 de Março, onde ficou sujeito à Divisão francesa do General Kellermann, que mandava naquela comarca; o 2.º Batalhão marchou no dia 25 para Sesimbra, cujo porto guarneceu em união com as tropas do Regimento Ligeiro de Valência [pertencente à Divisão de Solano], que estava dividido entre esse ponto e Alcácer do Sal.
O General Carrafa estava em Lisboa, onde se conformara com as instruções que teria do nosso Governo, representando um papel bem vergonhoso, sendo insignificante ou fictício o seu comando, pois como nós estávamos dependentes de Kellermann, regulando este o nosso serviço, revistando-nos os seus comissários, recebendo as nossas rações dos armazéns franceses e até os nossos haveres pelas suas mãos, ditando enfim Junot as suas ordens (ou através dos Generais francesespara os [nossos] Corpos, pouco ou nada restava a fazer ao General Carrafa, que com a sua Divisão disseminada em diferente pontos do Reino, tendo os seus Corpos interpolados com os franceses e longes de sua pessoa, não era fácil que concebesse nem executasse grandes pensamentos; não o conheço, nem tive jamais a menor relação com S.ª Ex.ª, nem menos penso em julgar ou qualificar a sua conduta; digo isto só em obséquio da verdade e pelo que influi como insinuei ao princípio no mérito da operação do meu Regimento.
Em Setúbal havia connosco uma guarnição francesa, cuja força não posso fixar, embora possa assegurar que era o triplo ou o quádruplo da do meu Regimento e que constava de tropas de todas as armas. O General Kellermann passou em pouco tempo para Elvas e Grendeux [sic] ficou chefiando-nos em Setúbal.
A operação de desarmar o país, a perseguição dos desertores e os destacamentos em diferentes pontos dividiram a força do meu Regimento, fazendo-a em todas as partes pouco capaz de tentar por si só coisa alguma de importância.
Em tal situação desde meados de Abril, começou a faltar-nos totalmente a correspondência com a pátria, e esta falta, que produzia a carência de notícias sobre o seu estado, era mais que suficiente para pôr os nossos espíritos em agitação, mas não para nos decidirmos por nós próprios a tomar um partido; não obstante, crescia o desgosto com que todas as classes serviam às ordens dos Generais franceses. Através de vias nada seguras, chegavam boatos que anunciavam vagamente uma revolução na Espanha, mas as contradições e obscuridades que os envolviam e o facto de se ignorar sempre o sujeito que os tentava propagar, mantinha forçosamente a nossa incerteza e constituía-nos num estado verdadeiramente lastimoso.
A conduta do [nosso] Coronel [D. Jorge Galván], abertamente afeiçoado às ideias dos franceses, apresentava embaraço aos que tinham diferentes pensamentos e mostravam o seu patriotismo, sendo ao mesmo tempo odiosa a todos os seus subordinados. Os oficiais que então mais intimamente tratavam com ele asseguram que inicialmente esteve decidido a conduzir o seu Regimento à Espanha, e que só depois variou e se decidiu pelo partido francês. Nada me consta acerca disto; sei somente que D. Vicente de Vargas, Subtenente de Granadeiros, encontrava-se então em Lisboa, destacado pelo Coronel, com o pretexto de assuntos relacionados com o Regimento, e, segundo se dizia, com o objectivo de lhe comunicar notícias sobre as ideias e operações dos franceses, o que parece de acordo com aquela opinião; mas de outra parte consta por notoriedade a sua adesão aos franceses. Ouvi-o várias vezes expressar-se nos termos mais escandalosos, no que se refere à nossa situação; que nos importa (dizia um dia) que em Espanha reine a Casa de Borbón ou a de Napoleão; desde que se atenda ao mérito e que sejamos pagos, o demais é igual. Sei igualmente que procurava por todos os meios possíveis granjear o apreço dos franceses, e, finalmente, que poucos dias antes da nossa marcha para Espanha, escreveu e pôs na ordem do Corpo uma proclamação em que recordava ao soldado as necessidades que tinha sofrido em Ceuta e no campo de Gibraltar, comparando-as com a abundância em que então se estava, e concluía proclamando Napoleão Bonaparte como restaurador da Espanha.
Dizia-se ademais que naqueles dias se tinha apresentado na sua casa um homem em traje de paisano espanhol, e depois duma larga conferência sozinho com ele, ao sair de sua casa ordenou aos guardas para que o prendessem e o conduzissem à prisão, e que este paisano, no caminho até à prisão, pôde dizer ao Cabo dos Granadeiros que era um sujeito de qualidade e que tinha entrado na casa do Coronel para lhe propor a sua vinda para a Espanha: este incidente, uma vez divulgado, causou uma agitação muito viva na tropa, mas como só constava pelo dito do Cabo, ficou duvidoso por então o facto que desgraçadamente foi bastante certo.
Em tal estado, avisou o General francês no dia 6 de Junho que a 9 chegaria a Setúbal o 2.º Batalhão, como se efectuou, para marchar a Sesimbra, procedente de Alcácer do Sal, onde se achava desde o mês anterior. Reunidos os dois Batalhões, tornou-se geral o desgosto e começava a correr a opinião de que já era necessário tomar um partido. Naquela noite recebeu-se uma ordem para que todo o Corpo marchasse no dia seguinte para Lisboa, embarcando em Aldeia-Galega [actual Montijo] para atravessar a embocadura do Tejo.
As pomposas expressões da ordem (que dizia que nos destinavam a ter a honra de servir perto do General em Chefe [Junot]) e as persuasões do Coronel (que procurava que víssemos neste facto a nossa felicidade) não puderam apagar a suspeita que concebeu todo o Regimento de que talvez nos quisessem encerrar naquela praça [de Lisboa] e no meio do grosso das tropas francesas com a intenção de nos desarmar. Esta ideia era reforçada pela circunstância de que numa revista de armas passada poucos dias antes, [os franceses] tinham recolhido as munições à tropa [espanhola], se bem que esta teve a precaução de ocultar alguns cartuchos. A desconfiança, pois, era fundada, e o consequente desgosto e o desejo de nos evadirmos e passarmos rapidamente à Espanha, era geral; embora seja forçoso perceber a diferença com que as diferentes classes pensavam entregar-se a um partido violento. Os soldados, com o patriotismo à prova, com valor decidido, com receio fundado, e sem conhecimentos para perceber os perigos da sua posição ou o incerto da sua sorte ao chegar à Espanha, já não pensaram noutra coisa senão em efectuá-lo. Os oficiais, com o mesmo desejo, ademais dos estímulos do seu pundonor e da sua ambição de glória, mas com o convencimento das dificuldades extraordinárias que a empresa apresentava, sem aviso algum dos seus Generais, contrariados os seus sentimentos pelos dos seus chefes (que pareciam que deviam ter notícias mais certas), e, sobretudo, ignorando, pela falta absoluta de correspondência, qual era a opinião geral da sua pátria, que medidas tinha tomado e que governo a regia, tinham somente uma remota esperança de acertar numa operação tão difícil; e queriam executá-la com uma combinação prudente que, pelo menos, lhes ajudasse a salvar a sua tropa, e que se movesse de acordo com algum dado certo, que com ansiedade buscavam.
As suas reuniões secretas eram de alguns dias àquela parte muito frequentes, e embora se reunissem as ideias e as notícias de todos, tudo junto não produzia outra coisa senão o convencimento de que se achavam em situação bem crítica. Não repelíamos, pois, as ideias dos soldados, mas procurávamos inspirar-lhes confiança nos seus oficiais, e evitar, se fosse possível, que executassem em desordem o que só podia conseguir-se dum modo diferente. Este era o verdadeiro estado dos nossos espíritos.
No dia 10 pela manhã o Regimento formou-se para marchar para Lisboa. A tropa deu sinais claros da sua disposição com expressões acaloradas que se viam nas filas. O Coronel apresentou-se, e recebidas as bandeiras com demonstrações de particular alegria, mandou marchar.
A uma légua muito curta de Setúbal está situada, sobre uma elevação, a povoação de Palmela, que devíamos atravessar; ao pé da encosta, à direita parte um caminho que conduz a Espanha; ao chegar a este ponto, ouviram-se gritos que diziam À Espanha. O Coronel quis persuadir a tropa, mas dispararam-lhe alguns tiros que o fizeram correr a esconder-se em Palmela. Os oficiais esforçaram-se para conter a desordem e restabelecer a disciplina, mas uns trezentos homens separaram-se e seguiram o seu propósito da maneira que explicarei mais adiante.
Naqueles momentos de confusão regressaram a Setúbal as equipagens e os cofres; na mesma cidade tinham ficado vários oficiais e outros indivíduos por estarem enfermos e comissionados, entre os quais se contava o Sargento mor [D. Juan Dabán] (2).
Conseguida trabalhosamente a reunião [das tropas], dirigimo-nos a Palmela, onde efectivamente estava o Coronel numa cela do convento que se encontra no castelo; convencemos-lhe a abrir-nos a porta, e assim lhe demos parte de tudo, e de que tinha ali o grosso dos seus Batalhões dispostos a obedecer-lhe em tudo menos em marchar para Lisboa; assim se lhe dirigiram também os soldados, os quais foi ver, a rogo deles. Se este chefe se tivesse aproveitado da boa disposição do seu Regimento, quão facilmente teria adquirido uma glória que não merecia! Mas o miserável estava já cego à luz da razão e surdo ao clamor da pátria que só ele tinha podido ouvir com clareza, pois lhe teriam chegado os avisos que sufocou.
Na revista da tarde falou outra vez aos soldados e estes lhe fizeram igual protesto. Deu parte de tudo ao General francês, e esperava a sua resolução, impossibilitado já de marchar a Lisboa.
Encontrávamo-nos quase todos os oficiais no seu alojamento no convento às nove e meia ou às dez da noite, tendo-se apresentado D. Vicente de Vargas, que vinha de Lisboa; falou com ele aparte durante muito tempo e depois se despediu; alguns de nós o seguimos, desejosos de saber o motivo da sua vinda e o demais que nos podia interessar, mas por então só se explicou misteriosamente.
O caso era que, segundo soubemos depois, D. Tibúrcio Carcelen, Coronel da coluna de Granadeiros provinciais, entregara em Lisboa a D. Vicente de Vargas uma proclamação ou carta manuscrita pelo General Galluzo dirigida aos Coronéis dos Regimentos [espanhóis] que se encontravam em Portugal, em que muito concisamente manifestava o estado da nação, convidando-nos a acudir à sua defesa, prevenindo que se evitassem no caminho encontros com o inimigo e oferecendo um grau aos oficiais e um escudo à tropa; Carcelen, ao dar este papel a Vargas, parece que lhe advertiu para que não se fiasse no Coronel, porque este estava decidido pelos inimigos. Apesar disto, Vargas, que pela sua ausência ignorava as provas que tinha dado aquele chefe em favor daquela opinião, pensou que a situação se agravaria demasiado se em tal ocasião não examinasse por si mesmo a sua vontade. Confiou assim ao Coronel quanto se tinha falado na dita conferência, e este foi bastante pérfido enganando-o, oferecendo-lhe que marchasse para Espanha à cabeça do seu Regimento, encarregando-lhe sigilo e convocando-o para o amanhecer. A esta hora, alguns oficiais dirigiram-se ao convento com Vargas, cuja surpresa foi igual à sua indignação, ouvindo da boca dos religiosos que o Coronel se tinha escapado para Setúbal. Compreendendo então todo o risco da nossa sorte, [Vargas] fez com que se tocasse às ordens, e reunindo todos os oficiais no alojamento do Ajudante mor D. Pedro Carrión, revelou o segredo ao ler a proclamação do General Galluzo, referindo-nos sincera e verdadeiramente tudo quanto tinha falado com o Coronel, e manifestando a sua ideia de marchar seguidamente para Espanha. Ao escutá-lo, todos nos esquecemos de quantos riscos se nos apresentavam e decidimos unanimemente a marcha com a maior alegria. A circunstância de nos acharmos abandonados pelos nossos chefes, a falta de equipagens, fundos, subsistências e munições, a proximidade das tropas inimigas em Setúbal e em número bastante superior, a facilidade de nos acharmos envolvidos pelas [tropas francesas] de outros pontos, a ignorância da topografia do país e a diminuição da nossa força com o acidente do dia anterior eram factos que não se apresentavam à imaginação daqueles oficiais senão como outros tantos fundamentos da glória com que se iam cobrir quando tantos inconvenientes fizessem frente à sua decisão valorosa, às suas espadas e às baionetas dos seus soldados, sendo estes todos os recursos que estavam à nossa disposição. Formaram-se imediatamente os batalhões, recebeu-se a bandeira coronela (3), e instruiu-se a tropa da nossa decisão e do motivo em que se fundava, sendo que Vargas leu-lhes a proclamação [do General Galluzo] sem ocultar o generoso esforço que iam executar numa operação espinhosa. Pintar a alegria que então manifestaram os soldados, a ferocidade e o despeito com que os seus semblantes guerreiros pareciam que desafiavam todos os perigos, e as lágrimas de ternura que um instante depois derramaram ao se mandar repetir o juramento de bandeira, seria um objecto digno, solene e expressivo para a pena de um Ercilla, mas grande demais para que a minha o tente.
Deu-se a reconhecer como comandante provisório o Capitão graduado de Tenente Coronel D. José Bonicelli, o mais antigo dos presentes, mas não teve verdadeiramente as funções de tal no relativo ao movimento empreendido, porque nem o estado dos espíritos, nem o que cada um arriscava em tal empresa tão extraordinária, nem a confiança que a tropa já havia depositado em Vargas permitia que se seguissem os trâmites de ordenança. Reunidos todos ou parte dos oficiais nas ocorrências difíceis, expunha-se o caso e deliberava-se sempre seguindo a voz de Vargas e a opinião de algum outro que merecia particular consideração aos seus companheiros.
Seguimos as quatro primeiras léguas até Águas de Moura pelo caminho real, o único que conhecíamos; mas como podia ser-nos demasiado funesto, fizemos com que um indivíduo experimentado (4) que encontrámos acidentalmente nos conduzisse por outro que não fosse uma via militar. Assim se verificou, por um território bastante acidentado e difícil, mas foi tão acertado este novo juízo que pouco tempo depois de deixarmos as imediações da dita povoação, onde se deu um descanso de duas horas e um pequeno refresco à tropa, entrou em Galvan [sico nosso Coronel com as tropas francesas de todas as armas em nossa perseguição. As precauções tomadas para ocultar a nossa direcção evitaram o encontro. A estação queria aumentar a nossa glória, pois o calor daqueles dias era tão excessivo que se sufocaram por seu efeito vários indivíduos; e nas noites, sobretudo na primeira, sofremos ao descoberto nos montes por onde transitávamos tempestades espantosas de três e mais horas de duração, e chuvas das mais copiosas, sem capotes nem outro resguardo senão o uniforme; o calçado ficou imediatamente destruído e os nossos soldados, descalços, regavam com o sangue dos seus pés o caminho que os conduzia à sua pátria. Marchava-se dia e noite, sem outro repouso além de duas horas ao meio-dia e duas ou três pela noite, desde que obscurecia até que, dissipada a tempestade, queria a lua mostrar-nos o caminho, o que nem sempre conseguíamos, e a luz dos relâmpagos costumava fazer-nos ver a nossa vanguarda desde os demais pontos da coluna. Como não entrávamos em povoações nem as avistámos, toda a subsistência consistia no pouco pão que se encontrava nas quintas que se achavam a certa distância. Recolhia-se este e distribuía-se com ordem; e penso que em nenhum dia se pôde reunir bastante para que se desse mais duma quarta parte dum pão por soldado. Faltavam verdadeiramente as forças físicas, mas susteve-nos o equilíbrio o que sobrava do espírito e bom desejo, e por isto não foi impossível a marcha (5). Esta executava-se, não obstante, sob todas as regras e precauções hábeis. Algumas partidas de tropas que iam descobrindo o caminho em todas direcções asseguravam-nos e impunham tanto quanto se passava na campanha; quando fazíamos alto elegia-se a posição, estabeleciam-se guardas avançadas, dava-se o santo (6) e, enquanto a tropa descansava, os oficiais rondavam e vigiavam continuamente.
Era grande o risco que nos ameaçava de sermos alcançados pela coluna francesa que saiu de Setúbal em nossa busca; o Regimento, evitando tantos perigos, apesar do seu estado, não parecia no entanto ousado. Na segunda noite da viagem chegámos, à hora de descansar, a um moinho que distava só meia légua do ponto onde se achavam dispostas forças francesas procedentes de Elvas(7), que tinham saído para deter-nos. Soubémo-lo antecipadamente, e assim fizemos alto com as precauções correspondentes e permanecemos desde as nove às doze da noite para não alterar o nosso método, decididos a lutar se nos encontravam. No terceiro dia, pela tarde, passámos o Guadiana a vau, próximo de Serpa, com água até aos ombros, em rigorosa marcha de flanco: assim que se terminou esta operação, soubemos que uns quinhentos ou seiscentos franceses deviam passar por parte do próprio caminho por onde nós íamos. Ninguém pensou em livrar-se do encontro; pelo contrário, fizemo-nos conduzir ao caminho, e emboscados sobre ele, esperámos durante mais de duas horas para atacar os inimigos na sua marcha; mas continuámos a nossa, passado aquele tempo, porque segundo novas notícias, os franceses já tinham efectuado o seu trânsito por ali quando nós nos estabelecemos. Por fim, no dia 14 de Junho, quarto dia de trabalhos, sofrimentos e riscos, chegámos a alcançar a vista sobre a nossa Espanha. Ao pisar o limite dos dois Reinos, o Regimento fez a formação de batalha e saudou a sua pátria com três salvas. Entrámos nela por Paymogo, no condado de Niebla (8); demos parte à Junta de Sevilha, que nos mandou marchar à capital, e seguidamente ao exército do General Castaños, tendo o gosto de concorrer à campanha de Baylen e depois dela conduzir os prisioneiros aos camaradas dos portos de Andaluzia, que um mês antes suponham a nossa escravidão de um modo cobarde e falso, e não com o valor e a sobranceria com que os vencemos em Baylen.
Disse antes que trezentos homens se haviam separado na encosta de Palmela no dia dez pela manhã; estes encerraram no meio deles o Tenente Coronel D. António Cornide, que se esforçava em vão para reuni-los ao Corpo; rogaram-lhe que não os deixasse. O General francês saiu de Setúbal com alguns cavalos, falou-lhes de longe oferecendo-lhes perdão e persuadindo-os para que fossem com ele; mas foi afugentado por alguns tiros com que responderam à sua demanda. O Tenente Coronel [espanhol] conseguiu evadir-se e, em vez de ir buscar o seu Regimento, dirigiu-se a Setúbal com o General [francês]. Estes [trezentos] soldados não levaram consigo nenhum oficial nem Sargento, porque um que no seu tumulto atropelaram regressou depois a Palmela. Abriram uma mala de um capitão graduado de Tenente Coronel e, tirando o seu casaco, autorizaram com ele um Cabo cujo nome ignoro, e nomearam-no Comandante. O seu comando durou muito pouco porque, dois dias depois, não estando satisfeitos da sua legalidade e encontrando sobre a marcha o Cabo Tomás Garcia, que regressava da Andaluzia de uma comissão, transmitiram a este a autoridade e o casaco que despojaram ao outro. A sua marcha foi mais cómoda do que a nossa, não só porque levavam um dia de vantagem, mas também porque recaindo a atenção dos inimigos sobre o Regimento, como era natural, ficavam os que se separaram livres de ser molestados. Entraram por Santa Bárbara [de Casa], dirigiram-se a Ayamonte e, dali embarcados, passaram a Sevilha; com sinais de que tinham relaxado a sua disciplina, apresentaram-se ao Governo, ao qual exigiram diferentes mercês. Sua Majestade (9) mandou-os marchar para o exército, conservando por então o comando a Tomás Garcia, a quem se conferiu depois o emprego de Capitão; foi este corpo que seguidamente formou o Batalhão ligeiro de atiradores de Espanha, que tornou à disciplina sob o mando do seu Comandante D. Francisco Copons y Navia, e, em consequência, foi exemplo de valor e entusiasmo na campanha de Baylen e nas seguintes, nas quais se bateu valorosamente, até que, na organização dada ao exército do centro depois da acção de Veles, no Moral de Calatrava, no primeiro de Março de 1809, foi refundido no Regimento de Múrcia, do qual procedia.
Esta reunião não se verificou antes porque nem os separados a queriam, nem muito menos o Regimento, e provisoriamente foi muito política a medida de nos conservarmos independentes.
Parece que do que ficou dito se infere claramente, em primeiro lugar, o aceso amor à pátria de todo o Regimento, que contraiu um serviço muito assinalado, no qual os seus oficiais acreditaram o carácter e o espírito capazes de competir com os que cimentaram a fama dos nossos antigos terços nos dias das suas maiores glórias; em segundo lugar, que a falta destas qualidades nos chefes naturais e o seu infame procedimento, em vez de tornar mais gloriosa a empresa, ocasionou os males da separação de trezentos homens, a perda de fundos e os efeitos que nos vimos necessitados a deixar para trás.
Poderia estender-me muito mais, detalhando tudo quanto quisesse sobre este facto, mas creio que disse o bastante para que se forme um conceito justo dele, restando-me só acrescentar que no escrito não há circunstância alguma essencial que não me conste como testemunha presencial.
O escudo oferecido foi imediatamente confirmado pela Junta de Sevilha, mas não o grau de General oferecido (10); e se é verdade que depois o obtiveram os que particularmente o solicitaram, não deixa de ser menos verdade que alguns não deram este passo e estão contentes com a satisfação de ter executado uma acção digníssima, da qual não receberam mais alguma recompensa senão a glória de que ninguém pode defraudar-lhes, e a cruz que Sua Majestade se dignou conceder por ela.

Madrid, 12 de Julho de 1815

Francisco de Paula Figueras


[Fonte: Francisco de Paula Figueras, "Memoria de la marcha del Regimiento de Infantería de Murcia, en 1808, desde Portugal a España", in Archivo Histórico Nacional de España, cota: ES.28079.AHN/5.1.145.4.2//DIVERSOS-COLECCIONES,91,N.7].


____________________________________________________

O autor deste manuscrito, D. Francisco de Paula Figueras y Caminals Grau de Suñer y Felip (1786-1858), pertencente na época narrada ao Regimento de Múrcia, foi posteriormente nomeado, entre outros cargos e títulos, 1.º Marqués de la Constancia, Tenente-General dos Reais Exércitos, Ministro da Guerra, Capitão General da Andaluzia e da ilha de Cuba, Senador do Reino de Espanha.



1 [Nota do Autor] O 1.º e o 2.º Batalhão, porque o 3.º tinha ficado no campo de Gibraltar.

2 [Nota do Autor] Pela tarde, incorporou-se em Palmela, mas voltou a marchar pela noite para Setúbal, segundo disposição, ao que parece, do Coronel.

3 [Nota nossa] A vandera coronela (conforme o texto original) era uma bandeira que ostentava o estandarte real espanhol, normalmente encimado por uma coroa (daí o seu nome). Era exclusivamente portada pelo primeiro batalhão de cada Regimento do exército espanhol.

[Nota do Autor] Era um contrabandista espanhol.

5 [Nota do AutorParece justo observar que se tinham deixado para trás as mochilas e cartucheiros por disposição dos oficiais, para fazer menos sensível o calor aos soldados que, como se disse, tinham bem poucos cartuchos para guardar. Quando na tempestade da primeira noite tudo devia arrojá-los, deixaram que se desfizesse com a água o pouco pão que tinham recebido em Águas de Moura (e que tinham conservado porque não esperavam reposições) e reservaram no seio os seus cartuchos; com a presença da sua fome, calcule-se o seu mérito!

6 [Nota nossa] “dar el santo”, expressão castelhana que significa: Assinalar o chefe militar o nome de um santo para que sirva de senha às guardas e postos das praças ou exércitos durante a noite

7 [Nota do AutorA própria praça distava só uma légua a nossa posição e continha 7.000 franceses. 
[Nota nossa: Parece-nos muito duvidoso que as tropas espanholas estivessem a apenas uma légua (cerca de cinco quilómetros e meio) da praça de Elvas [Yelves, no original castelhano] ao fim de dois dias de viagem (e na tarde seguinte perto de Serpa), sendo possível que este dado resulte não tanto do exagero mas mais da ignorância da topografia portuguesa por parte do autor. De facto, ainda que não seja muito claro o percurso que o Regimento de Múrcia seguiu, as poucas povoações referidas no texto permitem supor que os espanhóis teriam marchado de Palmela em direcção a Serpa mais ou menos em diagonal (ou seja, seguindo ao largo do antigo caminho que unia Lisboa a Sevilha), pelo que teriam passado a cerca de uma centena de quilómetros de Elvas].

8 [Nota do AutorNo estado mais lastimoso, pois somente conservávamos o espírito, os fusis e a ordem.

9 [Nota nossa] No original aparecem as iniciais S.M., mas dever-se-á entender que foi a Junta de Governo de Sevilha que deu a referida ordem, em nome de Sua Majestade D. Fernando VII (que se encontrava retirado na França, juntamente com o resto da família real).

10 [Nota do AutorA Junta de Sevilha não se achou obrigada a dar este grau, por ser a de Extremadura a que o tinha oferecido, e assim não o executou, ainda que nos cobriu de elogios e aprovações.