sexta-feira, 17 de junho de 2011

Excerto de uma carta do General Spencer ao Secretário de Estado da Grã-Bretanha, Visconde Castlereagh (17 de Junho de 1808)




H.M.S. Windsor Castle, na barra de Ayamonte, 17 de Junho de 1808


Meu Senhor:

Aproveito a oportunidade proporcionada pela ida do Nautilus de Lord Collingwood até Sir Charles Cotton [ancorado na foz do Tejo], para vos felicitar pela rendição da esquadra francesa de cinco navios de linha de guerra e uma fragata, no ancoradouro de Cádis, às armas espanholas no passado dia 14; em cujo dias as cores espanholas foram hasteadas nos navios franceses. Os detalhes deste acontecimento importante e interessante será, sem dúvida, comunicado completamente a Vossa Senhoria por Lord Collingwood.
Também me causa muita satisfação informar-vos que o movimento que fizemos até aqui, conforme o requerimento do General Morla, foi realizado com o melhor efeito. As tropas francesas estão a retirar-se de todos os lugares em direcção a Lisboa, excepto alguns destacamentos muito insignificantes que continuaram ocupando os pequenos fortes e baterias neste lado de Portugal. O povo português está a levantar-se em todas as partes, encorajado fortemente pela nossa presença aqui; e assim, a fronteira espanhola no Guadiana está efectivamente segura de qualquer ataque dos franceses.
Tenho a honra de ser, etc.

B. Spencer, Major-General



Aviso publicado na Gazeta de Lisboa (17 de Junho de 1808)


AVISO


Tendo-se reunido ao Ministério da Guerra, por determinação de Sua Excelência o Senhor Duque de Abrantes, tudo quanto pertence à Administração das Coudelarias: todas as cartas, relações, ou petições relativas a esta Administração deverão ser dirigidas ao Secretário de Estado da Guerra com a inscrição: Serviço Imperial, Coudelarias, o qual as mandará ao Senhor Vergnette, Inspector Geral encarregado de informar o mesmo Ministro do seu conteúdo.
O mesmo se deve entender a respeito das diferentes petições que os particulares dirigem muitas vezes aos diversos chefes de divisão da Repartição da Guerra: não serão elas, de hoje em diante, recebidas do Correio Geral se não forem dirigidas ao Secretário de Estado da Guerra e da Marinha, que as mandará às diferentes Repartições da sua Secretaria.

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 24, 17 de Junho].

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre a procissão do Corpo de Deus em Lisboa (17 de Junho de 1808)



Lisboa, 17 de Junho 


Em Lisboa, a Procissão do Corpo de Deus é talvez mais magnífica que em outra alguma parte da Cristandade. Assistem a ela, todos os anos, a Corte, o Clero da capital, os Cavaleiros das Ordens Militares do Reino, os Corpos Monásticos e as Irmandades do Santíssimo [Sacramento] das diferentes freguesias desta cidade. A Procissão decorre a bela Praça do Rossio, as duas magníficas ruas que lhe ficam vizinhas, a Augusta e a Áurea, e a dos Capelistas: todas as casas e janelas deste circuito estão nesse dia armadas de damasco encarnado, de sorte que parecem estar convertidas num vasto Templo, com galerias cheias de espectadores, à roda do qual circula mui religiosamente a mais extensa das procissões.
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, desejando ardentemente prestar uma nova homenagem à Religião, quis que a dita Procissão, que neste país é uma festividade nacional, se celebrasse este ano da mesma forma e com o mesmo aparato que nos anos anteriores; mas como fosse sangrado* no dia precedente, por causa de uma indisposição que lhe sobreviera, devia, em vez de acompanhar a Procissão, assistir a ela da varanda do Palácio da Intendência Geral da Polícia, situado na Praça do Rossio, diante do qual passava a Procissão; portanto, a dita varanda se achava disposta adequadamente para esse fim por ordem do Senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino.
Sua Excelência passou ao Palácio da Intendência Geral pelas nove horas da manhã; e foi ali recebido pelas principais autoridades militares e civis, assim francesas como portuguesas.
A Procissão começou a sair, pelas dez horas, da Igreja de S. Domingos, contíngua à Praça do Rossio; e já a frente dela entrava na Rua Augusta, por entre duas alas de tropas.
Por toda a parte se via estabelecida a melhor ordem; e reinava esta entre o estranho concurso dos habitantes, senão quando um terror pânico se apodera da parte do povo que ocupava o meio da Rua Augusta: o medo vai lavrando, e a multidão se abala até à Praça do Rossio, como se estivesse ameaçada de algum grande perigo; falavam uns em movimento de artilharia, por se costumar pôr todos os anos naquela Praça algumas peças, para saudar o Santíssimo Sacramento; e outros imaginavam que havia um tremor de terra; cada um se figura uma causa grave para uma fugida inesperada, e ninguém sabia ainda que só se tratava de um ladrão que acabava de ser preso na Rua Augusta pela Guarda Militar, e que para fugir favorecido pela confusão, gritara que lhe acudissem, ao escapar-se.
Assim que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes advertiu, do alto da varanda, nesta agitação, que podia tornar-se perigosa em meio de uma tal multidão, deu as suas ordens e desceu pessoalmente à Praça, ao príncipio só, mas em breve se viu seguido dos membros das autoridades militares e civis. A sua presença e a sua voz detém, como por uma espécie de prestígio, aquela multidão que por todos os lados se precipitava: “De que tendes medo? grita ele. Não estou eu em meio de vós? Que podeis recear onde eu estou? Sem dúvida há aqui engano, ou insinuação de alguns dos nossos inimigos comuns. Olhai para as minhas tropas que estão à roda de vós! Sede como elas, tranquilos e imóveis!”.
Imediatamente torna a si todo o povo, ficando cada indivíduo no seu lugar, sem que houvesse (o que custará a crer, não obstante ser um facto sabido de toda a capital) outro acidente senão o estarem por terra cinco ou seis pessoas, mas sem dano algum, e uma tão somente ferida, ao cair. Nem um só soldado saiu da sua fileira ou fez uso da sua arma, ainda que alguns tivessem de cair ao chão; todos porém num instante tornaram a ficar na sua posição.
Sua Excelência o General em Chefe passa logo à Igreja, onde se achava ainda a maior parte da Procissão; ali se vê rodeado de uma multidão imensa, que ignorava o que fora dela tinha acontecido, e que deitada aos seus pés lhe dizia em alta vós: Senhor, livre-nos deste perigo! Declara logo Sua Excelência que a sua intenção é que a Procissão prossiga imediatamente; e que para desenganar as pessoas que pudessem crer que havia o menor perigo, ia em pessoa acompanhá-la.
Em menos de dez minutos se torna a formar a Procissão com a mais perfeita tranquilidade e o mais piedoso recolhimento; e faz-se com a mesma solenidade que se observara nos anos em que mais brilhante fora.
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, sem embargo de estar doente, e apesar do ardor do Sol à hora do meio-dia, não quis aceitar um pálio (dais) [sic] que se lhe oferecera; ia só, a pé, descoberto, precedido dos seus Ajudantes de Campo, e seguido das diversas autoridades militares e civis.
Nunca houve ocasião em que Sua Excelência mais conciliasse a atenção do povo, e que visse da parte deste maior interesse e maiores testemunhos de afeição. Parecia que todos o congratulavam daquela inspiração tão rápida e tão judiciosa, que lhe fizera opôr um remédio certo a uma desordem que, a não ser a sua presença e a confiança universal que ela excita, podia ter bem tristes consequências; davam todos mostras de agradecer-lhe o ter livrado do medo e quase de que soubessem do dito acidente as demais partes da cidade, que disso só ouviram falar depois de se ter acabado a Procissão no maior sossego, e sem que a malevolência pudesse já semear a mais leve inquietação pela pronta maneira com que ficara restabelecida a seguridade.
O resto da tarde e a noite do mesmo dia se dedicaram aos passeios de costume, em carruagem, pela Praça do Rossio e ruas vizinhas; por todas as partes ressoavam as expressões do mais vivo reconhecimento, correndo de boca em boca para com o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, cuja admirável presença de ânimo, muitas vezes tão necessária no interior das cidades como nos campos de batalha, acabava de fazer a esta capital um tão importante serviço!

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 24, 17 de Junho].

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Nota: 

* A sangria era uma prática medicinal algo bárbara mas bastante utilizada em Portugal em pleno século XIX, sendo receitada para inúmeras doenças ou sintomas (desde febres a dores, de insónias a inflamações nos olhos, e até mesmo a hemorragias!). Partindo do princípio de que o sangue de um doente estava impuro, consistia a sangria numa espécie de hemodiálise à antiga, isto é, sem reposição do sangue retirado... [Cf. Novos Principios de Cirurgia...- Tomo II, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1817, pp. 40 e ss.].
A este respeito, Camilo Castelo Branco (cuja vasta obra tem inúmeras referências a este suposto tratamento), refere curiosamente que “um francês que esteve em Lisboa por 1728, escreveu: Les Medecins du Païs passent dans l'esprit de la Nation pour être fort habilès; cependant ils sont extrêmement prodigues de sang, et ne connoissent presque d'autre remede que la saignée. Dans les maladies ordinaires, ils commencent par ordonner uma meia dúzia de sangrias, c'est-à-dire, demi douzaine de saingées; et quand le mal se rend opiniâtre, ils poussent l'ordonnance jusqu'à quinze et vingt; tellement que ce qui peut arriver de mieux au malade, c'est d'en être quitte pour un epuisement dont il a bien de la peine à se remettre”. [in Description de la ville de Lisbonne, Paris, 1730, apud Camilo Castelo Branco (pref.), Os Ratos da Inquisição – Poema inedito do Judeu Portuguez Antonio Serrão de Castro, Porto, Ernesto Chardron – Editor, 1883, p. 21].

Outras notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Junho de 1808)



D. José Sebastião de Saldanha, que fora expedido por Sua Excelência o Duque de Abrantes a 4 deste mês a Bayonne com uma segunda via da representação dos portugueses a Sua Majestade o Imperador dos franceses, e que devia trazer a resposta da mesma, não pôde passar às fronteiras da Espanha, e voltou já a Lisboa. Por felicidade, porém, o correio extraordinário incumbido do original, que partira na noite de 2 para 3, e que devia chegar naturalmente antes do mesmo D. José Sebastião, passou por Almeida, no seu caminho para Salamanca, onde era de esperar que chegasse a 6, visto que fora encontrado na noite precedente entre Salamanca e Ciudad Rodrigo.

Anunciam as cartas das fronteiras de França que por ali se vê passar diariamente muitas tropas, as quais aceleram a sua marcha para vir a acabar de sujeitar à razão os facciosos que pelas suas imposturas procuram enganar e sublevar algumas províncias da Espanha contra o novo Rei que o Céu e o Grande Napoleão concederam aos votos dos principais corpos da Monarquia. Por notícias fidedignas consta que o medo vai entrando nas Juntas revolucionárias; que a de Sevilha, entre outras, treme à aproximação do Exército do General Dupont, que talvez se acha já dentro daquela cidade, e que ela mendiga de umas e outras partes socorros, cuja precisão atesta a convicção em que está de que lhe é impossível resistir à autoridade legítima.

[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 24, 17 de Junho].


Proclamação de Junot traduzida e comentada pelos espanhóis (e publicada no Diário de Badajoz de 17 de Junho de 1808)



 
 
 


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Lembrança para ficar na memória dos valorosos marítimos deste Lugar de Olhão, do que fizeram na restauração de Portugal e seu princípio, por João da Rosa



Lembrança para ficar na memória dos valorosos Marítimos deste Lugar de Olhão, do que fizeram na Restauração de Portugal e seu princípio. Casos sucedidos sobre o levantamento que este povo fez contra a nação francesa e como este Lugar de Olhão foi a primeira terra que se levantou no Reino de Portugal. E recomendamos muito a todos os nobres marítimos que sempre sejam muito leais valorosos vassalos a Sua Majestade, assim como eles foram em casos tais. Que o Altíssimo Jesus Cristo nos livre de tais casos sucedidos a todo o mundo, como sucedeu no ano de 1808.

O nosso amado Príncipe-Regente Nosso Senhor Dom João e sua mãe a Rainha Nossa Senhora D. Maria governando este Reino no melhor que podiam, tudo a beneficio dos seus vassalos, não querendo que o sangue dos seus leais vassalos fosse derramado, buscando todos os meios de estar em paz com o imperador de França Bonaparte e com seu sogro o Rei de Espanha fazendo as vontades a todos estes com dinheiros e tudo mais que lhes era preciso, a fim de conservar este Reino em paz e sossego e não derramar o sangue dos seus vassalos; como este imperador de França Bonaparte já tinha tomado vários Reinos, uns por força de armas e outros por falsidades e falsas promessas, induziu o Rei de Espanha para meter tropas em Portugal, espanholas e francesas, dizendo-lhe que vinham auxiliar Portugal contra Inglaterra, obrigando ao nosso Príncipe declarar guerra e tapar os portos à Inglaterra. Vendo-se o nosso Príncipe tão obrigado destes Reinos e não querendo fechar os portos e declarar guerra contra o seu fiel e leal amigo o Rei de Inglaterra, mas sendo obrigado à força, se proibiram os portos à Inglaterra. Vendo o nosso Príncipe que por nenhum modo podia conservar a paz, vendo que não podia acomodar isto, determinou mandar armar as suas naus e fragatas e brigues e mais navios, e mandando buscar a esquadra portuguesa que se achava no Estreito de Gibraltar de guarda costa contra os mouros argelinos, sabendo que as tropas francesas e espanholas vinham com toda a pressa entrando em Portugal, determinou embarcar-se, mais toda a Família Real e fidalgos e mais povo que pôde, e no dia vinte e nove de Novembro largou da barra de Lisboa para o Rio de Janeiro, e logo no outro dia trinta entraram as tropas francesas e espanholas em Lisboa, Setúbal e no Porto e mais terras do Reino. Este monarca Rei de Inglaterra foi tão fiel a Portugal, não olhando que Portugal lhe fechasse os portos, ainda mandando a todas as suas armadas que não proibissem os portugueses navegarem nem os pescadores irem ao mar a pescar, antes lhes dessem todo o auxílio e os tratassem ainda mais bem que os próprios ingleses, como bem constou nestes mares de Portugal, senão ainda nos mares dos Reinos estranhos.
Entradas que foram as tropas francesas e espanholas, logo tomaram posse do Reino, repartindo o Reino ao meio, de Lisboa para o norte ser de França, de Setúbal para baixo ser de Espanha, de sorte que em Lisboa nas torres e fortalezas estava a bandeira francesa arvorada, em Setúbal a bandeira espanhola. Passando alguns meses, teve o General francês com o General de Espanha ou a falsidade daquele Bonaparte introduzida contra Espanha, de sorte que se retiraram as tropas espanholas para Espanha, ficando governando todo o Reino de Portugal o General francês chamado Junot, começando [a] mandar tropas francesas para o Algarve, em que neste Lugar de Olhão entraram as tropas francesas no dia catorze de Abril, quinta-feira santa, vindo um General francês [Maurin] e um Governador [Goguet] para a cidade de Faro; tomando posse de todo o reino, dando baixa às nossas tropas de soldados e oficiais, tomando-lhes a todos as armas, mandando-as logo para Lisboa, ditando vários editais com ordens, ditando vários tributos aos povos e mandando numerar todos os barcos pescadores deste Reino, e ainda as mesmas lanchinhas da murraça e da meia-água, obrigando a este Compromisso cobrar destes miseráveis pescadores, por os deixar ir ao mar a pescar, oitenta e oito mil réis cada mês para o prato do Governador francês que assistia [=residia] em Faro; ainda os obrigava a levá-los a Faro, além dos mais tributos que pagavam de suas casas e vinhas e fazendas, e da dízima que pagavam a Junot. Chegou a tanto a maldade desta nação que abandonando todas as igrejas, tirando-lhes todas as alfaias de prata, cruzes, lâmpadas, coroas das imagens e tudo que tocava a prata, mandando logo para Lisboa fundir em dinheiro em barra e remetendo tudo para França. Chegou a tanto este Reino, que se queria ir algum barco de navego para Tânger ou Tetuão lhe havia de dar dez moedas de ouro, fora o que dava mais ao governador francês que estava assistindo neste Lugar de Olhão; se algum passageiro ia para fora do Algarve, lhe havia de pagar de tributo quatrocentos réis, chegando a tanto que, dos nossos soldados, fazendo dos mais moços e melhores trinta e tantos mil homens, os remeteu para França, onde chegaram até Salamanca e por lá ficaram. Vendo-se estes miseráveis marítimos, por todas as partes, por mar e por terra, com tantos tributos, em miserável estado, vendendo as suas roupas e alfaias de casa, quase dadas, quase menos pela metade, perdendo muitos dias de irem ao mar pelas encomendas que o francês lhes dava, e mais era que parecia que o Nosso Senhor e o próprio mar estava contra eles, que iam dias e dias ao mar e não matavam nada, que parecia que se tinha secado todo o mar e todo o peixe no mar, que apenas por serem muitos barcos pescadores é que matavam algum peixe e ia muito barato por causa das poucas ganhanças que havia tanto no mar como na terra, e o peixe não ter saída para o Reino e fora dele, chegando a tanto a maldade desta nação que em todo este Reino mandando derrubar abaixo as nossas armas reais, de que em várias cidades, vilas, povos e lugares fortalezas se deitaram abaixo e outras picadas e outras tapadas com painéis e outras com cal e pedra. Desta sorte estava este miserável Reino e seus vassalos oprimidos. Chegou a tanto a maldade deste tirano Imperador Bonaparte que tendo toda a Espanha por sua, o que ele queria se fazia, e fingindo que queria tratar certos negócios com o Rei de Espanha e seu filho o Príncipe D. Fernando e com as mais Pessoas Reais e tratar certos negócios do Reino, nas raias de França e debaixo daquela paz como estavam com o seu leal amigo já há muitos séculos de anos, partiram da Corte de Madrid todas as Pessoas Reais, levando consigo muitos fidalgos e secretários e tudo o mais que lhe era preciso a tal Senhor. Chegados que foram às raias de França, o banquete que lhes deu foi aprisioná-los, a todas as Pessoas Reais e tudo o mais que levavam em sua companhia, e conduzindo tudo logo para França prisioneiros, onde estão tratados como umas pessoas mal-nascidas, sem honras e sem mando. Sabendo-se em Espanha esta falsidade se levantaram, onde foi o primeiro levantamento na nobre e leal cidade de Sevilha, como bons fiéis vassalos.
Os marítimos deste Lugar de Olhão, como bons fiéis vassalos a tão bom Senhor como tínhamos, o Príncipe-Regente D. João nosso Senhor, vendo-se em tantas misérias e necessidades como foram notórias, e principalmente este Lugar de Olhão sendo uma das terras deste Reino do Algarve que lhe foram carregados mais tributos, chegando mais que até o Governador francês que estava mandando e governando este povo obrigava este Compromisso lhe dar peixe todos os dias por deixar ir os pescadores ao mar a pescar, e não os deixava ir senão alto dia com sol e vir com sol, sendo que se alguém não viesse a horas os mandaria prender e remetê-los ao seu Bonaparte em França, e que eram falsos que iam vender peixe aos ingleses e dar todas as notícias do que se passava em terra, e para acautelar tudo isto se lhe dava o dito peixe para não padecer ninguém; estes nobres marítimos deste Lugar de Olhão, nem com todos estes trabalhos, necessidades e misérias que passavam perderam o amor e a lealdade ao nosso amável Príncipe, pois bem conheciam que ele de nada disto era culpado e por tanto amor e lealdade que lhe tinham e a todas as Pessoas Reais e à Pátria, e o sangue português que circulava por suas veias como bons e fiéis vassalos a tão bom Senhor, olhando sempre para aquela nação francesa com olhos de veneno e má vontade, como eles diziam em Faro que a gente deste Lugar era má gente que nunca olhava para eles com olhos direitos.
Capela do Compromisso Marítimo de Olhão
(cujo arco é rematado pelas armas reais)
Nosso Senhor Jesus Cristo, que tão altos são os seus divinos olhos de misericórdia, e como tem escolhido este Reino para tronco da cristandade, e querendo-o livrar desta nação francesa, olhando-nos com seus divinos olhos de misericórdia, caso prometido por Deus: Sucede que no dia doze de Junho de 1808, véspera do nosso Santo António português, cuja imagem temos na nossa Capela deste Compromisso, lhe irem armar a Capela para no seu dia treze se celebrar a sua festa, e de repente, olhando para as armas reais que estão na dita Capela, na Igreja, que se achavam já há muitos meses tapadas e pregadas com pregos com um painel de Nossa Senhora da Conceição, o escrivão deste Compromisso, João da Rosa, as destapara e as pusera a público, sem olhar a mais nada, confiado em Deus e Nossa Senhora da Conceição e no nosso Santo António. Vindo o dia 13, dia do nosso Santo António, vindo o povo deste Lugar à missa, vendo as armas reais destapadas, se lhe infundiu na alma e no coração aquele amor e lealdade, como bons e fiéis vassalos a tão bom Senhor. Todas as embarcações na praia em terra levantaram a bandeira portuguesa acima, sem temerem o inimigo nem a mais nada senão a sua liberdade e serem fiéis ao nosso amado Príncipe, de quem tinham recebido tantas mercês e favores. Sucede no dia dezasseis de Junho, dia de gloriosa memória de 1808, dia de Corpo de Deus, pelas dez horas e meia do dia, tocando-se à missa do dia, estarem muitos marítimos e mais povo no adro da igreja para ouvirem a missa, e chegar José Lopes, governador da Vila Real, a quem eles já tinham chamado a si por este se ter ausentado de Vila Real para não estar sujeito ao francês, vindo assistir [=residir] neste Lugar sem mando, mais a sua família; e todos juntos, estando um edital francês que tinha mandado o General francês de Lisboa, chamado Junot, pregado à porta da Igreja e outro no pelourinho [=cadeia] prometendo muitas promessas e ameaças a todos os que não quisessem, e pedindo nele auxílios a nós portugueses, este José Lopes, fazendo uma fala a este povo e principalmente a nós mareantes, dizendo que já não havia homens do mar marítimos como os antigos, eles todos juntos a uma voz lhe responderam que eles eram homens como os seus antecessores e bons fiéis e leais vassalos a Sua Majestade e que por ele queriam morrer e dar até a última pinga de sangue do seus corpo, dizendo mais que os mandasse e governasse como seu chefe, que para tudo estavam prontos e mais que prontos. E logo sem mais demora, correndo cada um quem mais podia a rasgar o edital que estava pregado na porta da Igreja e o fizeram em bocadinhos e o pisaram aos pés, outros logo correndo ao pelourinho a fazer o mesmo ao outro edital, outros subindo à torre tocar o sino a rebate, e logo todos juntos a uma voz clamaram dizendo "Viva Sua Majestade, viva o Príncipe-Regente Nosso Senhor D. João de Portugal, viva toda a Família Real, viva todos os nossos governos portugueses que foram fiéis ao nosso amado Príncipe, morra toda a nação francesa", e logo se arvorou as armas do nosso Portugal, e correndo pelas ruas em altas vozes clamando "Viva o nosso amado Príncipe", o que todo o povo seguiu a mesma voz e logo todos, a quem mais prestes correndo, embarcando-se em barcos, deitando-se ao mar assim como estavam vestidos, sem olharem a mais nada, embarcando em barcos uns à Barra Grande e outros à Barra Nova [mais precisamente ao forte (arruinado) da Armona e à fortaleza de S. Lourenço] buscar as peças e algumas munições e pólvora para nos defendermos do inimigo, e os que cá ficaram era tanta alegria e prazer que havia na terra, todos pegando nas armas que havia na terra, que eram forcados, fisgas, besteiros e paus, espadas velhas, espadins, paus, pedras, tanto faziam homens como mulheres, rapazes, raparigas, até o mesmo pároco da igreja e os padres, todos dizendo em altas vozes “Queremos morrer pelo nosso amado Príncipe e toda a Família Real”. E todos unidos a uma voz e a uma vontade, dispostos a todos os perigos, embarcados em barcos a quem mais podia embarcar, os da Barra Grande chegando à cabana do guarda do Forte da Barra Grande, que se achava comandando o Sargento Jacinto Ramalho Ortigão, o que este oficial, como bom fiel vassalo a Sua Majestade, logo entregou a eles marítimos tudo o que lá tinha em seu poder, sem pôr a menor dúvida, que constava de duas peças de bronze, uma caixa de pólvora e mais munições, e chegando ainda mais que ele mesmo mais os seus soldados embarcaram dos barcos e nos vieram ajudar, assistindo em tudo como bons e fiéis vassalos, a socorrer este Lugar aonde assistiram em tudo; os barcos que foram à Barra Nova, que comandava o tenente José Alberto, obrando pelo contrário, não quis entregar nada, antes embolando as peças e mandando formar soldados contra eles mareantes, os quais se vieram embora sem trazerem nada. Outros barcos que foram à armada inglesa, que se achava ancorada na Figueirita, para ver se nos mandava algum auxílio ou nos socorria com algum armamento, lhes responderam que não podiam dar isso e se tínhamos nós mantimentos para sustentar as suas tropas inglesas. Largando foram a Ayamonte, topando lá o Capitão Sebastião Martins Mestre, da cidade de Tavira, este sabendo o que eles lá iam buscar, e juntamente que Olhão estava levantado contra os franceses, os estimou muito e lhes deu tudo o que era preciso para darem socorro a este Lugar contra o inimigo, e por sua via alcançaram 130 espingardas, e embarcando ele mesmo no dito barco, de que era mestre Cristóvão Gomes, que tinha acabado o ano passado de ser juiz deste Compromisso, chegando todos a terra a este Lugar todos muito contentes, e principalmente este Lugar, por se achar sem armas entremeio de duas cidades inimigas [Faro e Tavira] que lhe não podiam valer ainda por via das muitas tropas francesas que estavam nelas. O dito governador José Lopes, mais o Capitão Sebastião Martins Mestre, entregando estas espingardas aos homens do mar e alguns da terra que assistiam neste Lugar, recebendo as ditas armas todos ficaram muito contentes e fortes, como se estivessem na melhor praça de armas das mais fortes que houvesse no mundo. Neste mesmo dia tomámos o coche da nossa Rainha, que tinha trazido o General francês que estava em Faro, trazido de Lisboa, que ia de Faro para Tavira pela estrada de cima a buscar umas francesas para Faro. Sabendo-se que três chavecos de Tavira vinham para Faro carregados de trastes de guerra e outras coisas mais, encomendadas pelos franceses, entrando pela Barra Grande se embarcaram os marítimos deste Lugar, como bons, fiéis e valorosos portugueses, em barcos pescadores, e junto à Barra Nova tomaram todos os três chavecos e aprisionaram tudo o que eles tinham tirado ao Regimento de Lagos e ao Regimento de Tavira, onde trouxeram tudo para este mesmo Lugar, onde aprisionámos setenta e sete soldados franceses, quatro oficiais e um quartel-mestre; em terra aprisionámos três correios franceses com cartas que traziam de Lisboa. Chegados que foram os chavecos a este Lugar, os prendemos a todos e principalmente sabendo-se que estes soldados e estas bagagens vinham para Faro em socorro das tropas francesas que se achavam em Faro e que tinham medo que os filhos de Olhão os fossem atacar a Faro, de sorte que juntassem em Faro, pelas estradas que vêm para Olhão, peças de artilharia. 
Ponte velha de Quelfes
O General francês [Maurin], logo que no mesmo dia soube que Olhão estava levantado, mandou ordens a Tavira e a Vila Real para virem para Faro todos juntos, para virem arrasar Olhão e passarem tudo à espada. Já a este tempo nós tudo sabíamos por via de três piquetes que lhes tínhamos apanhado com cartas que diziam isto mesmo; os valorosos marítimos e mais algumas pessoas da terra que assistiam neste Lugar de Olhão nada disto lhes metera medo nem abalo, antes lhes meteu mais ânimos, de sorte que sabendo-se neste Lugar, por piquetes que trazíamos, que tinham chegado a Moncarapacho pelo meio-dia as tropas francesas, as fomos esperar à Ponte de Quelfes, onde começámos a atirar os primeiros tiros e os fomos perseguindo em peleja entre os matos do Joinal, matando lhes dezoito soldados franceses, fora doze feridos entrando em Faro estropiados. Vendo o General francês da sorte que Olhão estava da sua tropa maltratada, mandando um piquete a este Lugar dizendo que o seu Imperador Bonaparte nos daria muitos dobrados privilégios dos que tínhamos do nosso Rei e não pagaríamos tributos nenhuns, seríamos livres de todos os direitos, isentos de tudo, e que o seu Imperador seria nosso amigo, que nos perdoaria tudo, que seria nosso amigo, que faria tudo como nós quiséssemos, que esperava de nós este favor e que lhe mandássemos a resposta por escrito. Esta embaixada mandou ele General francês a um hortelão de uma horta de Faro, e seu irmão provedor francês a trouxe e a deu ao tal hortelão, ele ficou à Meia-Légua esperando pela nossa resposta, porque neste tempo tudo quanto vinha de Faro se aprisionava. Dada a resposta por escrito, cujo se escreveu em casa do pároco deste Lugar, o Padre António de Matos Malveiro, o qual foi muito valoroso e fiel vassalo, pois era o primeiro que se achava em tudo o que era preciso, concorrendo em tudo o que era preciso de sua casa, socorrendo os pobres e metendo muito ânimo a todos, pregando pela ruas e na Igreja, dispondo muitas vezes o venerável sacramento, em cuja resposta respondeu o povo todo junto a uma voz e resoluto que não queriam reconhecer o Bonaparte por seu Rei, senão o Príncipe Dom João de Portugal e toda a mais Família Real, e que não se queriam entregar nem queriam seus privilégios nem suas dádivas, que pelo seu Príncipe estavam prontos até à última pinga de sangue do seu corpo, se queria guerras que eles estavam prontos no campo, que viesse mais todos os franceses e todo Faro, que estavam prontos para tudo. Dada a resposta por escrito e a voz do povo, ido que foi o embaixador, mandando seu irmão o Governador francês trazendo obrigados à força da cidade de Faro o Dr. Corregedor Juiz de Fora e mais algumas pessoas particulares de Faro, vindo todos em seges e outros a cavalo a Torrejão de Cima, porque na embaixada que se lhe deu fora o juiz deste Compromisso e o escrivão do mesmo assinados, e mandando chamar o dito juiz do Compromisso e mais oficiais, onde fora ter com eles levando em sua companhia o eleito mais velho, António Martins Calado, e mais algumas pessoas do povo, chegados que foram à sua presença o chamou para o pé de si com muito amor e carinho, e chamando-lhe bom pai de família, que ele era seu amigo, que fizesse com o seu povo que os acomodasse, que se fizesse tudo como nós quiséssemos, que ele queria paz connosco, que se queríamos assim que pedíssemos nós os fiadores que quiséssemos e seria tudo o que nós determinássemos, se queríamos assim no outro dia à Meia-Légua viria um tabelião fazer a escritura, se não quiséssemos fazer o que ele dizia seríamos todos passados à espada e Olhão arrasado para memória das mais terras. Estando nestas práticas chegou um piquete francês de cavalo, todo suado, a toda a pressa, a dar-lhe notícia que Faro estava levantado. E logo todos se foram embora para Faro, levando consigo a tropa francesa e alguma portuguesa obrigados à força, que vinham a combater com este Lugar de Olhão; chegando à horta de Caetano Domingues lhes fizeram fogo do alto os nossos portugueses, de que fugiram todas as tropas francesas. Em Faro aprisionaram o General francês e mais alguns franceses, isto foi no dia dezanove de Junho no dito ano de 1808, pelas três horas e meia da tarde, de que se levantou Faro. Fugidas que foram as tropas francesas de Faro, passando nessa noite desviados deste Lugar, perdidos por essas fazendas com medo que tinham da gente de Olhão, não tomando estradas direitas toda a noite, deixando por cima deste Lugar, na estrada de São Bartolomeu, um obus mais uma peça, tudo encravado em muita pólvora escramalhada por essas estradas, entrando em Tavira pela manhã, cansados, estropiados do caminho e de não dormirem aquela noite, na tarde se formaram todos, onde se dizia que vinham arrasar Olhão e passar tudo à espada; formadas as tropas francesas, tomaram a Rua de São Lázaro pela estrada do Alentejo, e idos que saíram de Tavira se alevantou a cidade no dia vinte de Junho do dito ano acima.
Nestes dias todos que estivemos alevantados contra os franceses, não vinha pão nem nada de fora da terra para este Lugar nos sustentarmos a nós e mais quarenta e nove soldados pés-de-castelos que nos ajudaram a nos defendermos, tanto fez de noite como de dia, todos nós pegados em armas das que havia sem ninguém descansar, com rebates de noite e de dia, nem se dormir. Além das muitas despesas que este Compromisso tinha já feito nas tarimbas, aquartelamentos e camas e tudo isto mais que lhe era preciso, obrigados pelo General francês a fazerem tudo isto e o mesmo foi nas mais terras deste Reino e sem este Compromisso de todo em todo ter cinco réis, por causa que neste dias todos não ia ninguém ao mar nem ainda ao rio [actualmente denominado Ria Formosa] passando todos muitas necessidades por não irem ao mar nem haver condutos para nos sustentarmos, de sorte que muita gente dias e dias não comia nada por não ter para comprar pão e principalmente a tropa que nos ajudava, que foi necessário que os oficiais deste Compromisso, António Martins Calado e mais outros, andassem pedindo pela terra pelo amor de Deus para os sustentarmos e lhes darmos naqueles dias o seu soldo por não morrerem à fome, e com todas estas necessidades que passámos parecia que Deus Nosso Senhor nos mantinha, porque havia dias que ninguém vinha comer a casa senão à pressa, à noite, e logo marchava para o campo a pôr-se pronto tudo em geralmente, e desta se deitaram as tropas francesas fora deste Reino do Algarve, ficando livre desta maldita nação. Idos que foram deste Reino do Algarve, foram direitos a Beja, onde houve muitos mortos na nossa gente e muitas desgraças, morrendo também muita gente francesa, e o mesmo fizeram em várias cidades do nosso Alentejo, muitas casas perdidas e famílias inteiras mortas; sabendo-se isto, vindo alguns oficiais nossos do Alentejo a este Algarve a pedir socorro, lhes foi socorrer o mesmo José Lopes levando gente deste Algarve e peças de Faro, os deitaram fora com ajuda das tropas espanholas que nos vieram ajudar a deitar fora, tomando o caminho as nossas tropas de Setúbal restaram, e mais terras tomadas que foram fizeram linha da banda do sul de Lisboa e saltando as tropas inglesas em terra por cima de Lisboa se deu o inglês por cima de Lisboa [Vimeiro] um combate ao francês em que lhe matou muita gente e no dia 15 de Setembro se entregou Lisboa, do ano de mil oitocentos e oito, cujas tropas francesas os ingleses os meteram em navios e os mandaram pela barra fora, e desta sorte ficou Portugal livre dos franceses, e que depois foi o mesmo José Lopes, já feito marechal de campo, com tropas portuguesas ajudar a Espanha a se defender dos franceses.
E por tudo isto ter sucedido neste Lugar de Olhão, atestamos e fazemos certo, e o que escrevemos de fora do que sucedeu nas mais terras por cartas que recebemos e dito por pessoas de crédito e sabermos de certo tudo isto. Estes são os infortunados sucessos em que se viram este miserável Lugar de Olhão, tanto faz os homens do mar como os homens da terra que então assistiam[=residiam] neste Lugar de Olhão, reservando várias pessoas que fugiram nesta ocasião do combate e nos largaram neste conflito e se ausentaram para fora deste povo, o que presenciámos de vista e sabemos de certo como oficiais que então servíamos neste Real Compromisso, declarados: juiz, José Martins Micano; eleito mais velho, António Martins Calado; recebedor, Lourenço da Costa; escrivão, João da Rosa; procurador, Francisco da Rocha; eleito mais moço, José dos Santos; mordomo, Fernando da Silva. De que fiz declaração como escrivão deste Real Compromisso para todo o tempo constar o sucedido.

João da Rosa


[Fonte: O Manuscrito de João da Rosa [edição actualizada, revista e anotada por Helena Vinagre, Veralisa Brandão e António Rosa Mendes], Gráfica Comercial - Loulé, Câmara Municipal de Olhão, 2008. Ademais de diversas notas (que não incluímos aqui), esta edição contém uma introdução do professor António Rosa Mendes, intitulada "Um documento precioso", que vivamente recomendamos aos interessados]. 

Memória da Revolução do Algarve, pelo padre João Coelho de Carvalho



Parece ser justo que aqui fique em memória a revolução deste Bispado [do Algarve], as suas antecedências e consequências, visto que o Seminário teve muito que temer antes e depois dela. 
O Príncipe Regente de Portugal, temendo com bem fundado receio que as tropas francesas que sem seu consentimento entraram no Reino se quisessem senhorear de sua pessoa, dirigiu-se ao Rio de Janeiro, deixando uma Regência de Governo
Entraram os franceses na Corte fazendo-se senhores dela, e parte do Reino além do Tejo. E para entretanto iludirem a Espanha, a quem haviam [de] fazer o mesmo pouco depois, repartiram com ela deixando à sua disposição a parte que fica aquém do Tejo, em virtude do que os espanhóis fazendo quartel-general em Setúbal, mandaram uma Divisão para o Algarve, e comandada pelo Marquês de Coupigny que veio fazer seu quartel em Faro, residindo desde 22 de Janeiro até 22 de Fevereiro [de 1808] no Palácio Episcopal, sustentando com sua comitiva à custa do Excelentíssimo Senhor D. Francisco Gomes, a quem o mesmo General e seus ajudantes, principalmente Federico Moretti, fizeram grandes obséquios de honra, agradecendo-lhe por fim o bom acolhimento que suas tropas acharam neste povo, devido tudo à boa disciplina eclesiástica que o mesmo Senhor tanto recomendava nas suas homilias ao mesmo povo, que nesta parte correspondeu aos desejos de todos, ao menos em geral e publicamente, não ficando deteriorado o seu crédito com a morte secreta que padeceram alguns espanhóis, talvez bem merecida pelos seus crimes (disto porém apenas havia certo rumor e por isso pode ser [que] não seja verdadeiro). 
Em 22 de Fevereiro saiu daqui o general [Coupigny] e o Estado maior, tendo-lhe precedido a saída da tropa de linha miliciana. O General e seus ajudantes esperavam pelo general francês no seu quartel; mas na madrugada seguinte recebeu ordens de partir logo, de sorte que não se viram, apesar de chegar a Faro duas horas depois da sua retirada. Isto, que então foi acaso, era já prelúdio do que depois havia de acontecer; vindo o dito general Coupigny a ser quem, em grande parte, concorreu para a derrota de Dupont, de quem este exército francês compunha parte, segundo o que depois se descobriu. 
Pela saída dos espanhóis entraram os franceses em duas colunas de pouca gente, que, ao todo, fazia o número de quatrocentos homens. O general [Maurin] alojou-se nas casas de João Carlos, onde foi cumprimentado pela nobreza, em cujo número entrava o Excelentíssimo Senhor D. Francisco, oferecendo-lhe o seu palácio para quartel, que não aceitou para si, mas sim para um seu ajudante, quatro criados e seus cavalos! Que princípios de política francesa! 
A primeira visita que fez este grande político foi a seus cavalos, que vinha ver todos os dias; o seu ajudante era efectivo na cavalariça, e, às vezes, também se viu limpando neles, donde se inferiu que um e outro, ambos irmãos, certamente tinham tido por princípio de educação alguma estrebaria. Apesar desta manifesta grosseria, quis cativar os ânimos da nobreza com um jantar público em dia de Ramos [10 de Abril], para que foi convidado o prelado do Bispado, que não aceitou alegando moléstia e actual trabalho naquele dia solene. Afectou este ser católico, não permitindo [o] uso de carnes no seu banquete, mandando advertir esta circunstância aos convidados, talvez temendo já que por este temor o prelado se recusasse. Com estes prelúdios pretendia dispor os ânimos para anuírem à sua pretensão de que para o seu prato se lhe subministrasse nas três comarcas [Tavira, Faro e Lagos] um conto e duzentos mil réis mensais. Como porém os corregedores, amantes do seu povo, especialmente o de Faro, dessem disto parte a Junot, deste veio ordem para que nada se lhe desse, donde resultou ser descomposto injuriosamente o dito corregedor, Manuel José Plácido, pelo mesmo General, na ocasião de lhe intimar a ordem que recebera. O exemplo do general imitavam todos os subalternos no que lhe era possível. 
Os governadores das praças obrigaram os mestres dos barcos de pesca a pagar um tanto por mês; os de Faro pagavam 400 réis, os de Olhão 600 réis. A estes e àqueles concediam licença para sair do porto, ainda que fosse inimigo, contanto que pagasse bem. E deste modo navegavam os de Olhão para Gibraltar, donde traziam contrabando, sendo isto proibido com pena de morte pelos mesmos franceses, de cujas leis estes eram executores; donde se inferia que semelhante legislação tinha por fim servir de pretexto para sacar dos navegantes avultadas quantias para conseguirem a faculdade de navegar ou de sair do país, o que também tinham proibido com a mesma pena. 
E se este não foi o espírito da proibição, então ainda mais prova a vileza de tais guerreiros, que não cumpriam as ordens do seu semideus Napoleão, por alcunha o Grande. Proibiam a pesca para que os pescadores não comunicassem com os ingleses; mas se pagavam a contribuição, acabava-se o receio: iam à pesca e falavam com os ingleses! Só não procediam contra quem pagava. E que tais eram os representantes de Bonaparte! A usurpação das pratas das igrejas; a contribuição de quarenta milhões; as violências cometidas pelos oficiais, querendo para seu alojamento as melhores alfaias; isto e muitas coisas dispunham os ânimos para a revolta, que no Algarve apareceu no dia 16 em Olhão e 19 em Faro. 
É coisa bem conhecida por todos que a Espanha, com a sua paz e aliança com a França, foi a ruína da Europa, sendo ao mesmo tempo de si mesma, porque as suas riquezas, marinhas e exército, aumentando as forças da França, diminuíam as suas. Por fim, desta íntima aliança foi o trono de Espanha derrubado, a família real toda inteira passou prisioneira à França; e substituído [por] José, irmão de Napoleão, que então era rei de Nápoles, tão legítimo como queria ser de Espanha. A nação irritada sacudiu o jugo levantando-se em massa contra os usurpadores, que, com capa de amigos e defensores, estavam no centro e nos melhores postos. Quando Dupont marchava para se fazer senhor de Sevilha e Andaluzia toda, tiveram ordem as tropas francesas da guarnição do Algarve de marchar para a raia, a fim de que, incorporando-se com uma divisão que havia [de] vir de Setúbal, entrassem na Espanha por Alcoutim. Marcharam, mas a união não teve efeito, e muito menos a passagem, que os espanhóis lha disputaram no passo de Alcoutim. 
Foi nestes mesmos dias que Junot mandou afixar editais convidando os portugueses para atacar a Espanha revolta. Um semelhante edital, posto no dia 16 de Junho na porta da igreja paroquial de Olhão, enfureceu de tal modo os ânimos daquele povo, que, tomando por cabeça o coronel José Lopes de Sousa, governador de Vila Real [de Santo António], que então se achava no dito povo, se puseram em defesa contra os franceses, fazendo vir as peças de artilharia, que tinham na fortaleza de S. Lourenço. Parte da guarnição de Faro, que ainda se conservara, convidou o coronel de artilharia a atacar com a tropa aquela povoação. O coronel anuiu, mas a tropa ia de má vontade e muito menos nisto convinha o povo de Faro. Também por anuir ao General francês e Corregedor mor, a Câmara da cidade mandou afixar editais em Olhão, persuadindo este povo para que se aquietasse. E porque nada se julgava bastante, foram convidadas algumas pessoas caracterizadas e com relação na dita povoação, a fim de lhes ir persuadir que não fossem por diante com a revolta. Mas ou porque uns não aceitaram a comissão ou porque outros a não puderam efectuar, receando ambas as partes a falta de cumprimento nas promessas, os magistrados da cidade tomaram sobre si a reconciliação, que foram persuadir, mas nenhum efeito resultou porque nesse intervalo se levantou o povo de Faro, e porque não havia com quem tratar negócio sério e seguro, estando ausente o acima referido governador, cabeça da revolução, por ter ido conduzir a Sevilha os prisioneiros franceses feitos no dito lugar do Olhão. Aqui pertence expor o motivo desta ausência que constará do que se vai referir. 
No dia 18 de Junho tentaram os franceses atacar Olhão, mas o povo mal armado resistiu, havendo por ambas as partes alguns mortos e feridos; não constando quantos morressem da parte dos franceses, consta que do povo de Olhão, neste encontro, ou escaramuça, morreu um velho, por loucura, pois foi-se meter entre eles, e ficou ferido outro num braço que ficou quase cortado de todo e com uma estocada, que o passou das costas ao peito, que dizem fora feita por um português que acompanhava os franceses, cujo nome se cala* por não estar provado o seu crime, se bem [que] já está mais que convencido da sua maníaca adesão ao sistema e máximas dos franceses presentes. Esperamos que o governo vingue a nação por este atentado e actos de semelhante natureza. 
Além destes, constou que os franceses mataram algumas pessoas que [se] achavam desacauteladas pelos campos, que, em boa fé, não se retiravam por não serem partidistas do povo de Olhão. Isto aconteceu na ponte de Quelfes, onde os franceses, que vinham de Tavira unir-se aos de Faro contra Olhão, foram atacados pelos paisanos, que, por medo e ignorância militar, não os derrotaram de todo; emboscados deitaram muito mal a primeira descarga, e fugindo logo deixaram sós os dois chefes que os comandavam. Foi aqui onde os franceses mataram um segador ocupado no seu trabalho; e dos franceses no combate só consta que morresse um ou dois. 
Antes destes dois encontros tiveram os pescadores de Olhão a temeridade de atacar alguns barcos que vinham pelo rio de Tavira para Faro com a bagagem do exército todo, guarnecidas com sessenta soldados. Foram tomados e sem resistência, porque os franceses ignoravam o levantamento e os suponham pescadores que iam para a pesca. 
Por ocasião deste aprisionamento resolveu o chefe da revolução José Lopes, governador de Vila Real, conduzi-los ele mesmo a Sevilha, a fim de tratar com a Junta daquele reino algum meio de defesa, que não havia em Olhão. 
Muitos críticos, e talvez com razão, censuraram esta retirada do governador, deixando aquele povo entregue a dois comandantes pouco instruídos na arte militar, na ocasião em que ali era indispensável a sua presença, por onde inferiram que ele, contando com a vitória dos franceses, estimou a ocasião de se retirar; e na verdade julgar outra coisa não parecia acerto, à vista do estado daquele povo, sem armas nem munições e numa total ignorância militar. Eram homens que nunca pegaram em espingardas, e só depois da revolução é que tomaram algum exercício, e, portanto, com esta gente, esperar vitoria [sobre] a tropa francesa e artilharia portuguesa [de Faro] era loucura rematada. O mesmo povo – ainda os mais ignorantes dele –, conheceram o evidente perigo, e por isso no dia 18 dormiram todas as famílias em barcos no rio, ficando pouca gente em terra.
É coisa pasmosa ver o modo com que a Providência acudia por este povo. Daquele meio de que se serviu para acautelar do perigo certo e evidente, desse mesmo se serviu Deus para o livrar. Postos os barcos em linha, muita gente dentro deles e outros já abarracados na ilha, fez supor aos franceses que os ingleses, em grande número, estavam já em terra, desembarcados da esquadra que andava à vista. As mesmas mantilhas encarnadas, de que muito usam as mulheres daquele povo, fizeram crer aos franceses que ali estavam tropas inglesas, cujo uniforme é encarnado nalguns regimentos. Ainda mais admirável é uma particular circunstância então acontecida, e presenciada pelos mesmos portugueses que acompanhavam os franceses, que por isso foram testemunhas do seu susto, e também com eles se persuadiam, pelo que viam, da realidade da presença de tropas inglesas. É o caso. Rodeiam Olhão pelo norte muitos valados cheios de piteiras; estas mesmas, com o orvalho da manhã, dando-lhes o sol ao nascer, ficam com certo luzidio resplandecente, pelo que se persuadiram os franceses, à vista disto, observado com os seus óculos, que eram as armas da tropa inglesa. Ainda aqui não param os motivos de admiração. Para se capacitar de todo se havia ou não tropas inglesas em terra, mandam espias a examinar; estes encontram algumas pessoas daquela povoação, de quem, perguntados em diversos lugares, uniformemente ouvem a mesma resposta, por onde ficam certos da verdade do desembarque. Ainda não contentes com estas provas, querem desenganar-se por meio de um fingido parlamentário que enviam a Olhão, o qual procura logo informar-se com disfarce se havia ali tropas inglesas; a guarda que lhe recebeu o recado francamente lhe respondeu que na verdade havia muita gente inglesa. 
Nada disto, porém, seria para admirar para os franceses, homens prevenidos com um terror pânico a respeito dos ingleses e num país cujos nacionais, alem de apaixonados pelos mesmos ingleses, davam expressivas provas do seu ódio aos franceses. O que mais há aqui para admirar é que os mesmos portugueses, ainda os mais inteligentes e presumidos na certeza, estavam convencidos do mesmo. O cónego Manuel do Coito, homem lido e bem conhecido nesta cidade pela sua capacidade, e que passa pelo melhor crítico, este mesmo quis persuadir a quem isto escreve, que na verdade em Olhão havia ingleses, pois oficiais desta nação, pelas fardas encarnadas, foram vistos e conhecidos na Horta do Rio Seco e no Montinho de José da Beira, no dia 18 à tarde. Esta era, pois, a comum persuasão em Faro, no dia 19. 
No dia 18, marchou a tropa portuguesa para auxiliar os franceses contra Olhão. Isto foi mal visto pelo povo de Faro, que logo principiou a dar sinais do que queria fazer. Nessa mesma tarde foram atacados com impropérios o Corregedor mor [Mr. Goguet] e o cônsul francês, Pascoal Turri**, que com justo fundamento se ausentaram de Faro nessa noite para Loulé, a segurar as suas pessoas e dinheiro, donde, voltando no seguinte dia 19, à tarde, foram atacados junto ao lugar de S. João da Venda; e depois de alguns tiros de pistola escaparam, porque errou a espingarda a um paisano. Fugiram para Loulé e daí para Lisboa. 
Dispostos os ânimos, no dia 19, pelas duas horas da tarde, ouviu-se sinal de rebate na torre [da Igreja] do Carmo. Tudo ficou assustado e ninguém saiu, senão os que tinham traçado a revolução muito antes, gente da plebe e rapazes. Duas outras pessoas do povo havia dias que dispunham o negócio, tendo introduzido armas, pólvora e alavancas nas cadeias; tinham armas em suas casas e finalmente pagaram ao que se atreveu a ir dar o sinal, pedindo a chave da torre com disfarce, para umas badaladas, chamadas de parida. 
A populaça em chusma acudiu ao largo do Carmo, onde também apareceu o Governador da praça, o Coronel de artilharia portuguesa, para impedir o rebate. O povo levantou-se contra ele, obrigando-o a mandar vir a tropa que tinha ido auxiliar os franceses. Com efeito, foi [expedida] uma ordem do Governador para vir a tropa, e porque o povo desconfiava, foi ele mesmo levar a ordem e fazê-la vir para a cidade. A este tempo continuava o rebate, mas ninguém de juízo apareciapara governo. Foi preciso ir à casa dos oficiais, dos quais alguns se esconderam em suas casas; de todos só foram mais prontos, depois de chamados pelos cabeças da Revolução, um dos quais era um José, vulgarmente chamado o do Botequim, os Cabreiras, que eram três irmãos, um capitão, Sebastião Duarte Cabreira, e dois tenentes, Severo Cabreira e Belchior Cabreira. Com estes fez o povo cabeça, tomando por comandante o Capitão Sebastião Cabreira***.
Nesta confusão, em que tudo andava sem haver quem comandasse a tempo, foi a Providência quem dirigiu os caminhos para que, por acaso e sem ordem, os rapazes e alguns paisanos sem talento se lembrassem de conduzir artilharia para o Paiol da pólvora, e para defender a entrada dos franceses [na cidade]. E na verdade foi isto tanto a tempo, que uma peça pequena levada às costas de José da Palma, criado do Excelentíssimo Senhor Bispo, e o reparo puxado pelos rapazes, foi quem defendeu a cidade, aterrando os franceses, que por duas partes vinham entrando na cidade. Contra tão manifesto perigo não havia na cidade toda ponto algum tomado senão este, e pelo modo exposto, achando-se ali por felicidade um paisano que tinha sido militar, chamado José Palermo, com cinco tiros de bala, que bastaram para fazer fugir o inimigo. Alguns oficiais inferiores, que tinham vindo com a artilharia que auxiliava os franceses, em lugar de tomar este ponto mais importante, e donde havia vir decerto o inimigo, deixam este na forma dita, e vão segurar outras avenidas pelo rumor que se espalhou, que os franceses vinham por Loulé. Era boa cegueira: deixar o Paiol com o inimigo na frente, sem mais guarnição que uma peça e um paisano que a comandava, para ir segurar pontos duvidosos, e com mais força! O que é isto senão uma evidente prova que a Providência se empenhava em nos convencer que era por ela, e não pelos homens, que o inimigo havia [de] ser expulso do país. 
Enquanto por fora havia tais disposições para defender a entrada dos franceses, a fim de evitar a sua união com os de dentro, no interior da cidade em nada se cuidava menos, como se tal inimigo não houvesse, dentro e fora dela. E tal era o universal descuido e esquecimento do perigo que se levou muito a mal os tiros que se deram, porque com eles se afugentou o inimigo, que vinha depor as armas. Que desatinado discurso! Mas contudo bem prova o descuido do povo. Os factos acontecidos noutras partes bastantemente provaram a extravagância dos que assim discorriam. Rapazes com canas verdes e apupados foram os que desarmaram a guarda do General [Maurin], que então estava enfermo: à vista de uma tal tropa, largam as armas e fogem para o Quartel-General, onde se escondem às portas fechadas; os rapazes e alguns paisanos com a arma da sentinela foram os primeiros que descobriram as armas reais do armazém da Porta da Vila, que estavam tapadas com argamaça. Foi gente deste carácter a que aprisionou alguns franceses, fugitivos ou escondidos; e entretanto, a maior parte se ocupava na arrecadação do que podia haver à mão, ainda que não pertencesse aos franceses; e tanto que, na entrada que fizeram em motim e sem ordem no Quartel-General, sendo todos os trastes, coisas das muitas, que desapareceram. Então se aprisionou o General [Maurin] com João Baptista Malé, seu ajudante, e um capitão do dito General e também ajudante dele. Pediu que o levassem para casa do Excelentíssimo Bispo, que de boa vontade o aceitou, e em seu palácio esteve alguns dias debaixo da mais rigorosa prisão, sendo a Nobreza quem de dia e de noite o vigiava com sentinelas à vista. O Governo, que então já estava organizado, não pôde vencer os clamores do povo, que queria ver fora do país o General e toda a tropa francesa, ordenou que com outros oficiais fosse conduzido para Sagres, onde não chegou, por ser preciso contramandar a ordem, visto que o povo não se aquietou com isto, querendo-o fora do Reino; e também porque o povo de Lagos se amotinou logo que ali chegou a embarcação que os conduzia, custando a sustê-lo para que não o assassinassem. Foi ele e os demais conduzido portanto conduzidos para Gibraltar, onde os ingleses tomaram posse dele. Por aqui se pode ver a brutalidade destes povos, em se quererem privar de um prisioneiro que podia servir de refém. Também foram remetidos para Espanha os soldados franceses aprisionados, que ali foram postos em liberdade cuidando pouco a Espanha de prisioneiros portugueses. Parece incrível que não só a plebe instasse ao Governo por um tal procedimento, mas que pessoas caracterizadas e que deviam ter juízo fossem as que o maquinavam. O Governo conhecia a louca petição de um povo amotinado mas era preciso curar um mal com uma imprudência. 
No dia 20 foi de novo o povo convocado pelo sinal de rebate em todas as igrejas, e convocado o clero regular e secular. No Campo da Esperança apareceram as comunidades da cidade, Cabido com Excelentíssimo Senhor D. Francisco, Bispo deste Algarve. Na tarde deste dia renovou-se o rebate a que acudiu tudo, e mesmo clero armado, a quem se destinou o posto da guarda principal para ponto de união em outras semelhantes circunstâncias, onde por muitos dias entraram de guarda parte do Cabido, clero secular e regular, dando o mesmo Cabido 1200 réis às ordenanças para pelo clero fazerem os quartos de sentinela. 
No dia 22 se convocou os Três Estados para a eleição de uma Junta Provisional. Fez-se a assembleia na Igreja da Senhora do Carmo, onde se nomearam sete pessoas de cada classe para votar nos em que havia [de] recair o Governo. O Excelentíssimo Senhor D. Francisco Gomes, Bispo deste Reino, foi quem recebeu os votos, e prestou juramento aos eleitos, que foram: 

Presidente: O Conde Monteiro-Mor, Marquês de Olhão 

Deputados:
1.º O Arcediago da Sé, Domingos Maria, Comendador de Cristo 
2.º O Cónego António Luís de Macedo e Brito, Comendador de Cristo 
3.º O Desembargador José Duarte de Sá Negrão, Hábito de Cristo 
4.º José Bernardo Mascarenhas, Comendador de Santo 
5.º Sebastião Cabreira, Comendador de Cristo com 300:00 de tença 
6.º Joaquim Filipe Landerset 
7.º Miguel do Ó, Hábito de Cristo 
8.º Francisco Aleixo, Terras para 8 moios de trigo 

O Bacharel Ventura José Crisostomo, Secretário, Hábito de Cristo 


O Excelentíssimo Senhor D. Francisco Gomes foi presidente interino desta Junta, enquanto não veio o Conde Monteiro-Mor, que teve sua dificuldade em vir de Tavira, onde seus moradores se opunham, querendo-o para a sua Junta, que por isso dizia ser a Suprema. Estes obstáculos venceu o Excelentíssimo Senhor Bispo, indo com dois deputados a Tavira, onde em Câmara persuadiu todos da verdade e meios que deviam abraçar-se, em consequência do que prometeu o Conde vir para esta cidade [de Faro], o que fez três ou quatro dias depois, escondidamente, para evitar algum motim na plebe. 
Criada que foi esta Junta Suprema, criou-se uma Tesouraria Geral, para que foi nomeado Tesoureiro Geral o Capitão Ventura da Cruz; para primeiro oficial dela, José Coelho de Carvalho, e para segundo Alexandre José de Carvalho; o 1.º com vinte mil réis de ordenado, cada mês; e o 2.º com dez mil réis; ambos eles eram dirigidos por José Maria Jordão, oficial da Tesouraria Geral de Elvas, que na ocasião do levantamento estava em Lagos com dinheiro que mandava o governo francês para pagamento da tropa portuguesa, com que pretendia adoçar a amargura, temendo as consequências que já se iam manifestando. Este dinheiro foi o primeiro que entrou na tesouraria, e igualmente cinco mil cruzados que o Excelentíssimo Senhor Bispo, e outros cinco [d]o Cabido; e D. Maria da Paz oitocentos mil réis; e quatrocentos [de] José Alves. As demais gratificações que houve foram tão ténues que não merecem memória. 
Depois disto criou-se uma Junta de Fazenda, de que era 

Presidente o Corregedor Manuel José Plácido 

Deputados 
1.º Ventura da Cruz 
2.º O Cónego Manuel do Coito 
3.º O Cónego Duarte da Horta Machado 
4.º José Lopes Ferrete 

António Januário da Fonseca, secretário 


A primeira disposição que fez a Junta Suprema, tendo ainda por seu Presidente o Excelentíssimo Senhor Bispo, foi enviar a Sevilha como legado, o Cónego Manuel do Couto, para remover algumas pretensões que se suponham ter aquela Junta na união deste Reino [do Algarve] ao da Espanha por oferta que se lhe havia feito; e com efeito, depois de algumas dificuldades, concluiu o que se pretendia, ficando daí por diante em harmonia perfeita, como se deixa ver pelo facto de ter sido mandado um Tenente-Coronel anunciar a vitória alcançada de Dupont. Aqui pertence notar o excesso de jurisdição que se atribuiu a esta Junta, que tendo sido criada para prover de remédio o que dele precisasse na falta do Príncipe Regente, fazendo observar as leis do reino, queis arrogar a si o direito de soberania absoluta até ao ponto de condecorar com hábitos de Cristo alguns membros da mesma Junta; erigir em padronado real a capela do Carmo, sujeita à Mesa da Consciência, etc., ainda que por oposição do Excelentíssimo Senhor Bispo e pároco não foi avante este privilégio na extensão que se pretendia, que era tirá-la da jurisdição do pároco sem ele ser ouvido apesar de estar pendente a lide sobre tais direitos. Também foi notada de estender a mais do que devia o seu poder, separando os ofícios de magistratura e nas terras da Rainha [como era o caso de Faro e seu termo]; dando propriedade de ofícios de fazenda a quem os pedia, etc. O tempo mostrará se estas e outras coisas serão ou não aprovadas pelo legítimo Governo, que já está organizado na Corte. 
No dia 1.º de Julho às dez horas da noite se tocou a rebate na cidade, que pelas cinco da manhã do dia dois se repetiu, julgando-se confirmada a notícia de que com efeito entravam os franceses no Algarve, que já se suponham em Albufeira. Se por desgraça fosse verdadeiro o boato, que da mesma origem correu todo o Algarve, sem dúvida seriam todos vítimas, não havendo em todas as partes providência dada em termos, e só então é que se acordou do letargo em que tudo jazia, supondo-se que o inimigo, assim como se fora cheio de medo, sem ver de que, também se conservaria no mesmo terror, como se no Algarve não houvesse quem os desenganasse da existência do motivo, que os tinha aterrado e não os informasse da triste defesa que neste país faziam os seus habitantes. O descuido era universal ao país; ninguém se lembrava do inimigo senão quando ouvia o rebate, quando todos andavam diligentes nos meios de tirar vantagens de interesse particular em qualquer circunstância que se oferecia. As mesmas tropas que tinham sofrido o jugo francês, servindo com eles seis meses por um pão quotidiano, estes mesmos murmuravam e ameaçavam deserção, porque lhe faltou pagamento por dois ou três dias. E nesta disposição estavam todos; uns por egoístas, e outros por partidistas dos franceses, de sorte que o livramento do Algarve todo é de Deus, e nada dos algarvios. 
No dia seguinte ao em que os franceses se retiraram dos subúrbios de Faro e Olhão, que foi na noite do dia 19 de Junho, deixando um obus e muita pólvora junto à horta do Baeta, por caminhos diferentes dos que ordinariamente são trilhados, se conduziram para Tavira, onde chegaram na madrugada do dia 20; reunindo-se a este corpo, o que em seu auxílio vinha de Vila Real [de Santo António], com alguns artilheiros portugueses enganados, ignorando o fim para que vinham. Ajuntaram-se na Praça, onde se demoraram com as armas ensarilhadas, e ao mesmo tempo insultando, donde se inferia que eles buscavam pretexto para as hostilidades; e disto há boa prova, porque retirando-se eles de tarde, voltou logo à cidade um oficial, trazendo um capacho velho com trapos por mal na garupa, fazendo cair os mesmos trapos em diferentes lugares, por onde visto está, que o fim era dar motivo para que, insultado pelo povo, tomarem daqui ocasião de saquear, sabendo que o dito povo estava inteiramente desarmado. Por felicidade nem os mesmos rapazes deram o mais pequeno sinal de escárnio, e consequentemente foram-se sem fazer hostilidade alguma. Poucas horas depois da sua saída, tocou-se a rebate na cidade por ordem do Monteiro-Mor. Este rebate foi acelerado, e teria funestas consequências, se não fosse um mancebo, que teve a valentia de fingir-se mandado pelo dito Monteiro-Mor a fim de que de sua parte avisasse a tropa francesa, que já vinha de volta para a cidade, que não viesse se não queria efusão de sangue, pois estavam desembarcando cinco mil ingleses. Este estratagema foi a tempo, e se fez crível aos franceses, porque viam a esquadra inglesa muito chegada à terra, aumentando-se esta persecução com a certeza que levaram de Faro e Olhão, que com efeito havia tropa inglesa em terra. 
Em consequência deste fingido e amigável aviso, puseram-se em marcha pela serra, em direitura a Alcoutim e Giões; mas não puderam ir com tanta brevidade, que parte da bagagem lhe não fosse tomada pela cavalaria paisana que os foi perseguindo por duas léguas serra adentro. Passaram por Alcoutim e Giões, sem fazer hostilidade nem insultos; logo, porém, que chegaram Mértola, vila que estava ainda pelo seu partido, e onde acharam tudo o que pediam, fizeram ali os maiores insultos à religião. Entraram na Matriz, da pia baptismal fizeram salgadeira de toucinho; queimaram imagens, quebraram retábulos e as portas do sacrário, etc. 
Neste facto é muito que admirar: Parecia que semelhantes insultos teriam mais lugar em Alcoutim ou Giões, pequenos povos, onde não acharam o que pediam, e que pertenciam à província donde iam escandalizados; mas numa vila, onde tudo abundava, o governo dela era de seu partido, e onde se foram acolher, aqui é que vomitam a sua cólera, por um modo tão sensível aos habitantes? Se é muito ajuizar neste facto, diria que Deus quis castigar aquela povoação de Mértola permitindo tais insultos na Matriz pelo desprezo e pouco caso que ali se fazia do culto. As vestes sagradas eram imundas, rotas e velhas de sorte que ninguém de juízo ali queria celebrar. E para prova basta dizer que a casula rica era uma de damasco branco, feita à custa do pároco, não tendo sido possível conseguir paramento algum do Comendador, mas isto dispensava o pároco e seus fregueses de suprir de sua casa a escandalosa omissão do Comendador. Viam uns e outros a sangue frio a indecência com que ali se faziam os ofícios da religião, gastando-se aliás bastante dos reditos eclesiásticos em superfluidades escusadas; de tudo é testemunha quem isto escreve. E porque não será esta a causa de tanta profanação? A relaxação do clero de Campo de Ourique, e algumas cidades do Alentejo, é bem conhecida; e porque não será isto a causa dos desacatos cometidos naquela província? Nada disto consente no Algarve a vigilância do seu Pastor supremo, e talvez fosse por isto que os franceses neste Bispado, nem antes, nem depois da revolta, não fizessem o mais pequeno insulto à religião, nem aos povos; pelo contrário, porém, fingiram actos de católicos, não o sendo. Não devemos supor nisto que eles o faziam por eludir os povos; devemos crer que havia no seu procedimento uma particular Providência. Em todos os portos que eles guarneciam do Algarve assistiam à missa, quando consta decerto quem noutras partes não o faziam. Em Estremoz nunca o fizeram, havendo ali numerosa guarnição por diferentes vezes. Em Elvas tinha o General casa aberta de pedreiros-livres. 

À vista disto julgue o leitor como lhe parecer mais acertado, e conclua de tudo que Deus é quem livrou o Algarve de franceses, servindo como instrumento quimérico dos ingleses, e que saíram sem efusão de sangue, e sem a mais pequena profanação religiosa nem insulto feito por violência a mulher alguma. 

Feito em Faro a 4 de Novembro de 1808. 

[Fonte: Ataíde Oliveira, Biografia de D. Francisco Gomes de Avelar – Arcebispo-Bispo do Algarve, Porto, Tipografia Universal, 1902, pp. 176-196; Da quadrilha à contradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, S. Brás de Alportel, Casa da Cultura António Bentes, 2004]. 

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Notas:



* Na margem esquerda do manuscrito original encontra-se a seguinte nota: “Testemunhas fidedignas atestam que tal sujeito não fora o que feriu este homem, achando-se naquela tarde mais de duas léguas distante dali. Os quinteiros de Bela Mandil afirmam isto mesmo. [Um] Dragão fora quem o ferira, apeando-se do cavalo, depois do golpe no braço”. 

** O comerciante Pascoal Turri, natural de Milão, residia em Faro antes ainda da revolução francesa. Nesta cidade casara e exercera a função de músico do Regimento de Artilharia n.º 2, passando a ser cônsul da França de 1803 em diante. Em 1808, quando os franceses chegaram à capital algarvia, Pascoal Turri tornou-se ajudante do Corregedor mor francês, mr. Goguet  [Cf. Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, 1941, pp. 62, 70 e 77]. Curiosamente, houve um conflito com este indivíduo antes mesmo das invasões, como se depreende do seguinte ofício do Governador do Algarve para António de Araújo de Azevedo: 

Il.mo e Ex.mo Sr.:

Por aviso de V.ª Ex.ª de 15 do presente mês participa-me V.ª Ex.ª que o Príncipe Regente Nosso Senhor foi servido que eu com toda a brevidade possível informasse o ofício que o encarregado de negócios de França lhe tinha dirigido, em data de 27 de Maio próximo passado, queixando-se das violências que se tinham praticado contra a pessoa de Pascoal Turri, Vice-Cônsul de França em Faro; o que me cumpre dizer a V.ª Ex.ª é que eu já remeti a V.ª Ex.ª a minha informação na data de quatro do presente mês, e junto a ela todos os documentos e informações a que antes procedi. 
Deus Guarde a V.ª Ex.ª 
Lagos, 22 de Julho de 1807. 
Conde Monteiro Mor 
[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª sec., 13.ª div., cx. 25, doc. 09, fl. 27].



Este incidente inclusive foi mencionado num relatório sobre a não neutralidade de Portugal, da autoria do ministro francês dos negócios estrangeiros, Mr. Champagny, datado de 21 de Outubro de 1807: 

Un consul français, que le Portugal avait reconnu et admis à exercer ses fonctions dans le port de Faro, a été arraché de sa maison par l'intendant des douanes; il a été trainé dans les cachots; il n’en est sort que pour être exilé, et le gouvernement portugais s’est refusé pendant trois mois à réparer cet outrage. 
[Fonte: Lewis Goldsmith (org.), Recueil de décrets, ordonnances, traités de paix, manifestes, proclamations, discours, &c. &c. de Napoleon Bonaparte et des membres du Gouvernement Français – Troisième Volume, Londres, Imprimerie de R. Juigne, 1813, p. 252. 


**No estalar da revolta farense, Belchior Cabreira não se encontrava nessa cidade, mas sim ao comando da artilharia portuguesa que se tinha deslocado à Meia Légua sob as ordens dos franceses, para evitar que a revolta olhanense alastrasse à cidade. É só depois de um soldado francês se dirigir à Meia Légua relatar que a população farense se tinha sublevado que Belchior regressa a Faro, junto com os seus soldados, onde foi entusiasticamente recebido, pois corria o boato de que tinha sido ferido ou mesmo morto em confrontos na Meia Légua.