segunda-feira, 23 de maio de 2011

Insinuação segundo a qual se devia pedir rei para Portugal a Napoleão (23 de Maio de 1808)



Os portugueses, lembrados de serem de origem francesa, descendentes dos primeiros conquistadores deste belo país em 1093, e de deverem à França, sua mãe pátria, o benefício da independência que tiveram como nação em 1640, não podem deixar de recorrer agradecidos e com todo o respeito à paternal protecção que benignamente lhes oferece o maior dos Monarcas que jamais o mundo viu. 
O grande e imortal Napoleão se digna participar-nos pelos nossos deputados a sua imperial vontade; quer que sejamos felizes, e sempre ligados pelos vínculos mais indissolúveis da nossa filiação ao sistema continental da família europeia; quer que vivamos unidos para gozarmos finalmente as doçuras de uma longa paz à sombra dos sábios governos que institui, fundados sobre as melhores bases de legislação, de liberdade dos mares e de comércio. É este pois o nosso único interesse, assim como o de todas as nações confederadas. Continue portanto a nossa deputação junto a Sua Majestade Imperial e Real a confirmar os nossos votos unânimes e diga:

Senhor, desejamos ser ainda mais do que já fomos, quando abrimos o oceano ao universo inteiro. 
Queremos uma constituição e um Rei constitucional que seja Príncipe do sangue de Vossa Imperial Família. 
Somos contentes com uma constituição que seja em tudo semelhante à que Vossa Majestade Imperial e Real houve por bem de dar ao Ducado de Varsóvia, alterando-se unicamente o modo de eleger os representantes nacionais, que deve ser pelas Câmaras, para melhor se conformar com os nossos antigos costumes. 
Queremos uma constituição em que, bem como na de Varsóvia, a religião do Estado seja a Católica Apostólica Romana, protestando[=declarando] pela admissão de todos os princípios da última concordata do Império francês com a Sé Romana; em que todos os cultos, porém, sejam livres, públicos e civilmente tolerados.
Em que todos os cidadãos sejam iguais ante a lei. Em que o nosso território europeu seja dividido em oito departamentos e que as dioceses, sendo reguladas por esta divisão civil, admitam somente um Arcebispo e sete Bispos. 
Em que as nossas colónias, fundadas e regadas com o nosso sangue pelos nossos antepassados, sejam consideradas como províncias ou departamentos anexos ao nosso reino, e que os seus representantes, sendo já chamados, achem na nossa constituição os títulos que lhes competem, logo que queiram ou possam vir ocupar os lugares da sua representação.
Em que no ministério haja um ministro encarregado da instrução pública, além dos outros que forem necessários.
Em que haja liberdade da imprensa, como se acha estabelecida no Império francês, porque a ignorância e o erro causaram a nossa decadência.
Em que o poder executivo se instrua por um Conselho de Estado, e que sejam os seus decretos cumpridos por ministros que fiquem responsáveis pela sua execução.
Em que o poder legislativo se divida em duas Câmaras, e se comunique com o executivo.
Em que a ordem judiciária seja independente e julgue pelo Código Napoleão. Em que os crimes sejam julgados publicamente com justiça e brevidade.
Em que todos os funcionários públicos sejam os mais beneméritos de entre os nacionais, como se determina no título 11.º da dita constituição polaca.
Em que os bens dos corpos de mão-morta voltem todos à circulação.
Em que a distribuição dos impostos seja proporcionada às posses e bens de cada indivíduo, sem que algum fique isente de pagá-los; procurando-se que a mesma arrecadação seja a mais fácil e suave.
Em que a dívida anterior do Estado, em toda a sua extensão, seja consolidada e garantida, pois que não faltam meios para o conseguir. 
Queremos igualmente que a organização dos corpos da administração civil, económica e judicial seja reformada com a mesma sabedoria que tanto tem feito prosperar o Império francês; e por conseguinte, que o número imenso dos nossos funcionários públicos seja reduzido; mas desejamos e pedimos que a todos os demitidos sejam vitaliciamente conservados os seus ordenados ou pensões decentes e relativas aos cargos, ofícios e benefícios de que ficarem destituídos, e que vagando qualquer emprego, lhes seja dado com preferência, se tiverem merecimento e costumes. 
Escusado era lembrar esta medida de equidade à sabedoria e humanidade do grande Napoleão; mas querendo Sua Majestade Imperial e Real conhecer a nossa opinião sobre tudo o que nos convém, dá-nos evidentes provas de ser ainda mais nosso pai do que nosso Soberano; pois que como bom pai se digna consultar os seus filhos e liberalizar-lhes os meios da sua prosperidade. 

Viva Napoleão o Grande. 

Viva a sua Dinastia 

1808 



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Observações: 

Servimo-nos de dois exemplares manuscritos para a presente transcrição, manuscritos estes que podem ser consultados em duas compilações de diversos textos impressos e manuscritos da época das chamadas invasões francesas, disponíveis na Biblioteca Nacional Digital: Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 73-83; Antonio Joaquim Moreira (org.), Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863fl. 50. Deve notar-se que do primeiro manuscrito citado copiámos o título e a data de 1093 na primeira frase da presente transcrição, uma vez que nos parece mais apropriada no contexto do que a data de 1147 - que surge em todas as outras versões - , dado que foi precisamente em 1093 que se deu o casamento entre D. Teresa de Leão e D. Henrique de Borgonha, aos quais seria atribuída a administração do condado portucalense, embrião de Portugal.
José Accursio das Neves, na sua Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo II (Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1810, pp. 252-257) também transcreveu este documento (embora com pequenos cortes). Por sua vez, o General Foy, que esteve em Portugal nas três invasões, inseriu o original francês(?) ou uma tradução(?) deste "projecto para a Constituição de Portugal", na sua Histoire de la Guerre de la Péninsule sous Napoléon - Tome II, Paris, Baudouin Frrères Éditeurs, 1827, pp. 357-360. Existe ainda uma outra versão deste texto que correu impressa (como se pode ver na imagem ao lado, extraída do site parlamento.pt), que contém diversas variantes em relação à acima transcrita (talvez derivadas de uma diferente tradução do original francês), aparecendo igualmente publicada na obra de S. L. Historia de El-Rei D. João VI – Primeiro rei constitucional de Portugal e do Brazil, Lisboa, Typographia Universal, 1866, pp. 141-144; e também por Simão José da Luz Soriano, na sua História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1870, pp. 212-214. 


Sobre a autoria desta insinuaçãosúplica ou projecto de constituição, em nota ao primeiro manuscrito acima citado (do qual extraímos o título acima assinalado)escreveu o anónimo transcritor: “Este papel que obtive se dizia ser composição de Mr. Carrion Nizas, combinado com Mr. Thimoteo Leucan Verdier, a fim de concluírem o despótico Governo militar, substituindo-lhe um civil”. 
Acúrsio das Neves, um dos primeiros autores a se referirem e a citarem este documento (que teria sido concluído, segundo o mesmo, antes da meia-noite de 23 de Maio de 1808), não é claro quanto ao(s) autor(es) da sua composição, embora indique que no seu conluio estavam, para além dos citados Carrion de Nisas e o negociante Verdier, "o desembargador Francisco Duarte Coelho, um antigo secretário de D. Lourenço de Lima, e mais dois ou três portugueses". 
Segundo o General Foy, este projecto de constituição, que nada agradou a Junot, foi da autoria de três portugueses: o citado desembargador Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raimundo Nogueira, reitor do Colégio dos Nobres, e o cónego Simão de Cordes Brandão, lente de direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, sendo os dois últimos "juristas maçons", segundo António Ventura (in A Maçonaria Portuguesa perante as Invasões Francesas). 
Por sua vez, o autor (francês) da acima citada História de El-Rei D. João VI referiu que “foi esta mensagem redigida pelo doutor G[regório]. J[osé]. de Seixas, de acordo com muitas pessoas distintas por suas luzes e representação, sendo apresentada às autoridades francesas pelo Juiz do povo em nome da (extinta) Casa dos Vinte e Quatro, quando o conde da Ega fora encarregado por Junot de agregar aos membros da Junta dos Três Estados os chamados representantes das diferentes ordens para expressarem o voto da nação, contra cujo acto o mesmo Juiz do povo, que então era um tanoeiro por nome José de Abreu Campos, havia formalmente protestado como ilegal, por dimanar de uma assembleia incompetente, em consequência do que foi chamado ao quartel general, e severamente repreendido por Junot. [...] Um grande número de Câmaras aderiram também a esta mensagem ao Imperador, que dela não teve conhecimento a tempo hábil. O general Foy erradamente atribui a redacção dela a três pessoas que não foram os seus autores”. 

Resta dizer que, independentemente das várias possíveis autorias, este "projecto de súplica não teve seguimento, por não se adequar à política pessoal de Junot, mas é revelador das ideias constitucionalistas no princípio do século XIX", como sucintamente expôs António Manuel Hespanha, no seu artigo "O constitucionalismo monárquico português. Breve síntese" [in A. M. Hespanha e Cristina Nogueira da Silva, Fontes para a história do direito constitucional português (c. 1800 – c. 1910), Lisboa, FD-UNL, 2005]. Ver ainda, sobre o mesmo assunto, António Manuel Hespanha, “Sob o signo de Napoleão. A Súplica constitucional de 1808”, in Almanack Braziliense, Maio de 2008, pp. 80-101 (contém a tradução portuguesa e o original francês da constituição, ou melhor dizendo, do Estatuto Constitucional do Ducado de Varsóvia).


Salvo-conduto passado pelo General Junot ao naturalista Geoffroy Saint-Hilaire, permitindo-lhe a entrada em todos os estabelecimentos científicos de Portugal (23 de Maio de 1808)



Nós, Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, ordenamos a todos os curadores de museus, gabinetes de história natural, bibliotecas e outros estabelecimentos de ciências que tanto pertençam ao Governador como a instituições religiosas ou a particulares que tenham emigrado, para que permitam a visita e o reconhecimento dos seus estabelecimentos pelo senhor Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto da França, abrindo-lhe todos os armários e caixas que ele queira ver. Ficam todos expressamente proibidos de perturbar o sr. Geoffroy na execução da missão que lhe foi encarregada por Sua Majestade o Imperador, e são expressamente ordenados a ajudá-lo em tudo o que lhe seja necessário. 
Dado no Palácio do Quartel-General em Lisboa, 23 de Maio de 1808. 

O Duque de Abrantes

[Fonte: Jacques Daget & Luiz Saldanha, Histoires Naturelles Franco-Portugaises du XIXe Siècle, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação das Pescas, 1989, apud Maria Estela Guedes, "De como o lagarto é envolvido nas invasões francesas", in Dois Casos Secretos em Ciências Naturais (Trabalho apresentado para concurso a Assessor no Museu Bocage), Lisboa, 1994].

domingo, 22 de maio de 2011

Carta do Bispo do Porto, D. António José de Castro, a Napoleão (22 de Maio de 1808)



Sire:

A deputação portuguesa junto da pessoa sagrada de Vossa Majestade Imperial e Real acaba de transmitir a seus concidadãos uma carta que preenche dignamente o objecto da missão, porém que não aumentou a confiança sem limites que depois de muito tempo eu trazia calculada com a grandeza e clemência incomparável de Vossa Majestade Imperial e Real. Assim que as tropas francesas entraram neste reino, minha voz pastoral aquietou publicamente meus diocesanos e garantiu sua segurança, lembrando-lhes que uma nação pouco extensa, e além disso dócil e submissa às leis, não oferecia outra glória ao grande Napoleão mais do que a glória de a fazer feliz.
Por esta prática antecipei eu as seguranças de que foram depois órgãos os deputados meus compatriotas. Tenho, pois, a glória de os haver antecipado, por ser o primeiro que anunciei aos portugueses a benevolência de Vossa Majestade Imperial e Real, que outra coisa não lhes pode dar que não seja segurança e felicidade.
Eu os excederei ainda, se é que podem ser excedidos nos sentimentos mais declarados de gratidão e respeito, que eu tenho a honra de transmitir, conjuntamente com os deles, à augusta presença de Vossa Majestade Imperial e Real, acrescentando-lhes as mais humildes e fervorosas orações, que por meu carácter episcopal sou obrigado a fazer pela conservação e glória da nossa santa religião católica, e as que o amor da pátria reclama.
A pátria, órfã e incerta de quais sejam os seus destinos, é infinitamente digna de atrair as vistas compassivas de Vossa Majestade Imperial e Real.
Eu rogo a Deus Nosso Senhor que haja em sua santa guarda a pessoa sagrada de Vossa Majestade Imperial e Real.
Porto, 22 de Maio de 1808

António, Bispo do Porto.


[Fonte: O Campeaõ portuguez. Ou o Amigo do Rei e do Povo (Jornal politico, publicado todos os quinze dias para advogar a cauza e interesses de Portugal), 1.º de Setembro de 1819, Londres, Impresso por L. Thompson, p. 175; republicada, sem menção da sua proveniência, por Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 235-236. Finalmente, também Raul Brandão publicou esta carta, na sua obra El-Rei Junot (Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d. p. 156)].

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Nota: 



Este documento do bispo do Porto situa-se, cronologicamente, entre dois factos que demonstram bem a hipocrisia e o aproveitamento das circunstâncias políticas por parte do prelado: a sua pastoral de 18 de Janeiro de 1808, e a sua colocação à frente da presidência da Junta do Porto (como adiante veremos, menos de um mês depois de escrever a carta acima transcrita dirigida a Napoleão). 
Aparentemente mais interessado em conservar o seu poder hierárquico do que em questões patrióticas ou de conservação da independência, D. António José de Castro foi ainda o primeiro a propor ao almirante inglês que bloqueava a entrada do Tejo, Charles Cotton (em ofício de 4 de Agosto de 1808), que o Governo da Regência nomeada pelo príncipe regente D. João deveria reassumir as suas funções assim que os franceses fossem expulsos do país, mas com algumas alterações, dado que propunha que fossem incluídos naquele referido Governo três membros da Junta do Porto (que se assumira como Junta Suprema), entre eles um seu irmão...


sábado, 21 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (21 de Maio de 1808)



Lisboa, 21 de Maio.


Entre as cidades que se distinguem pelo entusiasmo com que têm recebido o anúncio dos benefícios prometidos por Sua Majestade o Imperador e Rei à Deputação portuguesa, devemos citar a de Coimbra: os seus habitantes e a sua célebre Universidade, composta dos sábios mais distintos de Portugal, se uniram na sua alegria, e solicitaram dos magistrados licença para fazer iluminar, por três dias, toda a cidade em sinal de regozijo.

Sabemos que vários bispos também deram ordem para que a memória da Deputação se lesse à missa do dia, pelos párocos das freguesias das suas dioceses; e que alguns até ajuntaram a essa ordem pastorais destinadas para trazer à lembrança do povo português o que ele deve ao poder tutelar que, ao tempo que se achava abandonado e entregue a todo o género de incerteza pela fugida dos seus antigos chefes, o salvou da anarquia, o maior dos flagelos; que lhe garantiu a venturosa tranquilidade de que goza, em meio das agitações que o rodeavam; e que lhe prepara um futuro que o indeminizará do padecimento momentâneo que tem experimentado, bem como o resto da Europa, em consequência da guerra obstinada que a Inglaterra faz ao Continente.


Não há coisa mais mal fundada que o boato de ter havido um suposto movimento entre as tropas portuguesas, chegadas a Valladolid, em Espanha. Estas tropas conhecem sobejamente o seu dever, e sobejamente participam do bom espírito que anima os seus concidadãos, para que podessem deliberar-se a desobedecer de modo algum aos seus chefes. Toda a dúvida a este respeito fica tirada por cartas autênticas posteriores às datas citadas.


Cumpre ter por suspeita a exageração dum artigo da Gazeta de Madrid, em data de 13 deste mês, em que, debaixo da rubrica de Tours, se diz que Sua Majestade o Imperador e Rei tinha perdoado a contribuição de cem milhões imposta a Portugal. Por ora não consta a este respeito mais que a promessa feita por Sua Majestade à Deputação portuguesa de reduzir esta contribuição a justos limites, aos que são compatíveis com os meios do país.

Não é num diário de província que Sua Majestade há de manifestar as suas intenções benéficas para com este país. Seria uma causa tão imprudente como criminosa o querer a este respeito interpretar antecipadamente a expressão positiva da sua vontade; da sua bondade, da sua justiça é que tudo se deve esperar; e até que Sua Majestade o tenha declarado, ninguém pode retardar o pagamento do que deve, sem se expor a rigores tão sensíveis para aqueles em quem houvessem de recair, como penosos para os que tivessem de os aplicar.


O General espanhol Solano, que comandava em Badajoz, recebeu outra destinação do seu Governo; e vai exercer outro comando mais importante da banda da Andaluzia.


Segundo algumas cartas particulares de Bayonne, o Príncipe das Astúrias partiu daquela cidade, com os príncipes seu irmão e seu tio, para ir habitar [n]o interior da França, onde Sua Alteza Real fez escolha de um palácio digno da sua qualidade.

Conforme as mesmas cartas, El-Rei Carlos IV, depois de ter delegado os seus poderes a Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, debaixo do título de Lugar-Tenente Geral do Reino, se dispunha também a retirar-se por algum tempo com a Rainha e o Príncipe da Paz, para uma quinta não distante de Paris, a fim de achar aí o sossego que tão necessário se faz para o restabelecimento da sua saúde, depois de tão cruéis abalos.


Imprime-se, há alguns dias, em Madrid, debaixo do título de Diario de Madrid, uma nova folha, cujo tom é notável, nas circunstâncias presentes; nela se agita a questão de saber se a dinastia actual, depois das divisões que a têm desacreditado no conceito dos povos, pode ser capaz para a felicidade de um Estado cuja decadência parece ter por data o Reinado da família dos Bourbons. Do dito artigo se pode concluir que os votos em Espanha parecem dirigir-se a outra família, mais em harmonia com a situação da Europa, e com a precisão que teria aquela Monarquia, para se restaurar e consolidar, de uma autoridade forte e bem respeitável: “O que nos convém essencialmente, nas bordas do abismo a que nos arrastaram os erros do nosso Governo (diz em resumo a citada folha) é que não nos sacrifiquemos à vaidade de alguns indivíduos que nos têm feito ser vítimas da sua incapacidade, da sua fraqueza, e das suas dissensões; mas sim que conservemos a integridade do nosso território, os nossos privilégios tais quais os possuíamos antes de Filipe V; e em especial a Religião Católica, que tanto presa a nossa nação”.


[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 21 de Maio de 1808].


Pastoral do Bispo do Algarve (21 de Maio de 1808)





Dom Francisco Gomes, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo desta Diocese e Bispado do Reino do Algarve, etc.: 

A todos os Nossos amados Filhos em Cristo, saúde, paz e benção do Senhor, que de todos é verdadeiro remédio, luz e salvação. Haveis de saber que a Eterna Sabedoria, que tudo rege, há disposto que a nossa Deputação, que se foi apresentar ao Augusto Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno, tivesse a felicidade de ser benignamente recebida por Sua Majestade Imperial e Real, com promessa de usar com todos nós, os portugueses, dos efeitos da Sua cordial beneficência. Todos pois nos devemos unir em dar a Deus as devidas graças por ter movido a piedade a um tão grande Monarca. E para que esta Acção de Graças seja bem aceite a Deus, vos exortamos a que vos lembreis que a Nossa Santa Lei e Religião nos manda que procuremos sempre viver em paz com todos, e sujeitarmos a quem governa com uma perfeita sujeição e obediência; e tratar a todos os nossos próximos, e as tropas que ao presente se acham entre nós, com afável caridade, para merecermos a Protecção do Senhor, que é Deus de paz; e deste modo mostraremos ao Augusto Imperador e Rei, que satisfazemos às suas Boas Intenções. 
Igualmente exortamos a todos os soldados nossos diocesanos que tiverem desertado, que sem demora recolham para onde são chamados pelo Decreto que sobre isto se publicou, para evitarem o perigo gravíssimo a que estão expostos, e a que expomos interesses verdadeiros de todos nós; e assim esperamos que os Pais e parentes dos mesmos desertores os obriguem e persuadam a que cumpram o que lhes é mandado, para não causarem dano tão notável a si e a todo o Reino. Damos a todos vós, amados Filhos em Cristo, a nossa Bênção, em nome do Senhor. 
Dado em Faro, sob nosso sinal e selo das nossas Armas, aos 21 de Maio de 1808. E eu, Joaquim Manuel Rasquinho, Secretário de Sua Ex.a R.ma que a fiz escrever. 

Francisco, Bispo do Algarve. 

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 344-345 (doc. 12)].


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Nota:

Ano e meio depois (mais precisamente a 4 de Janeiro de 1810), o mesmo Bipo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, em carta a João António Salter de Mendonça (Secretário de Estado dos Negócios do Reino do governo regente), parece de algum modo justificar a posição que tomou com a pastoral acima transcrita: “Ocupados (de facto) os Reinos de Portugal e Algarve pela prepotência francesa; abolida a regência dos mesmos reinos; dada por extinta a Real Casa de Bragança; e sujeito tudo ao poder do Imperador Napoleão, a cujo arbítrio estava o dar um rei aos portugueses; desde logo ficou à vontade destes, ou sujeitarem-se ao duro e estranho Império, ou a reassumirem os seus direitos primitivos para reinvindicação de sua legítima monarquia, liberdade e independência: entre estes dois extremos, não havia meio” [Fonte: op. cit., pp. 395-397, p. 395 (Doc. 94)].


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Carta do Comandante General da província espanhola da Extremadura ao General Kellermann (20 de Maio de 1808)



Ex.mo Senhor:


Nesta manhã apresentou-se mr. Drouet, Capitão Comandante de Engenheiros nesta Praça, o qual foi por mim recebido e acolhido com a mesma consideração e atenção que a todos os demais oficiais franceses que aqui chegaram, tendo-lhe merecido a honra de ter aceite o convite para me acompanhar a almoçar, sem que me tenha manifestado ter-lhe causado o menor incómodo a sua entrada e permanência nesta Praça. Despedimo-nos depois das cinco da tarde na melhor amizade, e saindo mr. Drouet pela Puerta del Puente de Palmas, repararam os guardas que custodiam as rendas, e que estão sempre postados naquele ponto, que mr. Drouet se tinha dirigido à ponte de S. Cristóbal e que andava fazendo algumas observações. Deram parte disto ao Oficial da Guarda e este destacou um soldado ignorante para que o fizesse retroceder e o apresentasse na minha casa, donde havia poucos minutos que eu tinha saído para cumprir os meus deveres de Governador e Corregedor. Logo que me dei conta, e para dar a V.Ex.ª e a mr. Drouet uma satisfação, mandei arrestar o Oficial e pôr o soldado num calabouço, que são precisamente do 2.º Batalhão de tropas ligeiras da Catalunha, que chegaram à há três dias para a Guarnição e hoje foi o primeiro dia que deram serviço de Praça. Em seguida, e apesar dos incómodos do momento, pois estava chovendo fortemente, acompanhei mr. Drouet até deixá-lo fora das portas, por ter insistido em querer pôr-se em marcha.
Ex.mo Senhor, espero que este imprevisto e desagradável caso, que me foi sensível, não seja um motivo para se transtornar a boa harmonia que quero que reine entre V.Ex.ª e eu, entre a Guarnição e os habitantes de Elvas e Badajoz, e finalmente entre as nossas respectivas nações; e que, assegurado V.Ex.ª dos meus inalteráveis desejos de agradar-lhe, sobre os quais lhe informará o portador desta carta, meu Ajudante o Capitão D. Jaime Prat, me proporcione repetidas e muitas ocasiões para acreditá-lo, pois sempre hei de ser e tenho a honra de me confessar o mais atento apaixonado servidor de V.Ex.ª.
Badajoz, 20 de Maio de 1808.

O Conde de la Torre del Fresno

[Fonte: Correspondencia del Comandante General de Extremadura, sobre la entrada de tropas españolas en Portugal a finales d e 1807, la llegada del Ejército francés a la región, su aprovisionamiento y colaboración con él de las autoridades españolas de Extremadura a comienzos de la guerra, in Archivo Histórico Nacional de España, ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.2//DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.31]. 





Pastoral do Arcebispo do Évora (20 de Maio de 1808)













Nota: 

Tal como a pastoral do Bispo do Algarve datada de 21 de Maio de 1808, parece que esta pastoral do Arcebispo de Évora, Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boasfoi composta devido à pressão do Governo de Junot, na sequência da publicação da carta da chamada deputação portuguesa. Segundo as próprias palavras de Cenáculo, "preparei [...] uma Pastoral que fiz imprimir, [...] a qual cuidadosissimamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808".
De acordo com uma nota manuscrita apensa ao raríssimo exemplar impresso acima publicado, da autoria de Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, antigo director da Biblioteca Pública de Évora (fundada pelo próprio Cenáculo), os 500 exemplares impressos ficaram assim conservados fechados e empacotados até à expulsão definitiva dos franceses, quando Cenáculo decidiu mandar queimá-los. 
Ainda segundo Cunha Rivara, para além do exemplar acima publicado, que se encontra compilado no 5.º códice (fls. 101-105v) do chamado Diário manuscrito de Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo), somente escaparam às chamas outros dois exemplares impressos: um que Cenáculo enviou ao Príncipe Regente, em anexo a uma relação acerca da brutal repressão dos franceses sobre Évora no final de Julho de 1808, que teremos ocasião de publicar mais adiante (e da qual extraímos o excerto acima citado); e um "que o Padre José Agostinho de Macedo pôde subtrair da tipografia". 


Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (20 de Maio de 1808)


Por notícias de Bordéus consta que a deputação portuguesa tinha chegado àquela cidade, aonde devia residir por algum tempo para esperar as ordens de Sua Majestade o Imperador e Rei.

Entre Madrid e Lisboa continuam a ser livres e frequentes as comunicações; e sem dificuldade chegam os correios: o que anuncia que o interior da Espanha está agora tão tranquilo e tão submisso como a própria vila de Madrid.

As peças seguintes que recebemos daquela capital anunciam que os efeitos da revolução de Aranjuez ficam anulados; que El-Rei Carlos IV tornou a subir ao Trono; e dão a conhecer o modo actual de organização do Governo espanhol.

[seguiam-se, entre outros textos, um manifesto de Carlos IV (4 de Maio), uma carta de Carlos IV a Murat e um decreto do mesmo monarca à Junta de Governo de Madrid (4 de Maio), e uma carta de D. Fernando a seu tio o Infante D. António (6 de Maio)]

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 20 de Maio de 1808].

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre a homenagem que vários ilustres portugueses deram a Junot no dia 17 de Maio, depois da recepção em Lisboa da carta da Deputação portuguesa em Bayone, de 27 de Abril (20 de Maio de 1808)


Lisboa, 20 de Maio.


O dia 17 do corrente [mês] será memorável para este país e entrará no número das suas memórias históricas as mais honoríficas. O entusiasmo que se manifestara entre os habitantes da capital e das províncias, ao anúncio das disposições tão benévolas de Sua Majestade o Imperador e Rei para com Portugal, parece ser ainda mais vivo nos corpos do Estado; porquanto todos conheceram que era preciso renovar, nesta circunstância venturosa, a sua admiração ao grande Monarca, a quem assim os Reis como os Povos consideram hoje como seu árbitro e regulador dos seus destinos.
Conseguintemente, os principais corpos do reino pediram ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército, permissão para irem render-lhe a homenagem do seu reconhecimento para com o Imperador, rogando a Sua Excelência que quisesse ser o veículo por onde transmitissem os seus votos a Sua Majestade Imperial e Real.
Sua Excelência, rodeado dos membros do Conselho do Governo e do seu Estado-Maior, recebeu, naquele dia, à uma hora da tarde, não deputações dos ditos corpos, mas sim os próprios corpos, que desejavam apresentar-se todos juntos no seu Palácio.
Havendo os ditos corpos, em trajo de cerimónia e com as suas insígnias distintivas, tido a honra de ser introduzidos ante Sua Excelência, o Excelentíssimo Principal Miranda, Deão da Santa Igreja Patriarcal, foi o primeiro que falou em nome do Clero, e disse* que sendo um dos deveres mais santos imposto pela Religião a submissão aos Soberanos da terra, era para o Clero de Portugal uma bem grata satisfação o ver a sorte deste Reino nas mãos dum Monarca que entre os seus numerosos títulos de glória tem o de Restaurador da Religião Católica em França, e de seu Protector nos países onde faz chegar sucessivamente as suas armas triunfantesSabemos, acrescentou ele, que, pois que Napoleão o Grande destina um Rei para Portugal, esse Rei manterá neste país a antiga pureza da fé e os princípios religiosos, pelos quais a nossa nação se tem distinguido sempre entre os fiéis.

O Excelentíssimo Conde da Ega, em nome da Nobreza, falou nos termos seguintes:
A maior parte da Nobreza que tem hoje, Senhor, a honra de vir em corpo à presença de Vossa Excelência, havendo-me conferindo a distinção de ser o intérprete dos sentimentos e dos votos que desejam manifestar ao representante do maior dos Soberanos, procurarei tanto quanto possa exprimir o reconhecimento que nos tem suscitado a comunicação que por Vossa Excelência nos foi transmitida da certeza da benevolência de Sua Majestade Imperial e Real para com esta nação, e das benéficas intenções com que prepara a nossa felicidade; e achando-nos na justa convicção de haver sido Vossa Excelência a quem devemos as esperanças lisonjeiras que nos enchem do maior prazer, tem Vossa Excelência o primeiro direito a receber deste corpo os mais sinceros agradecimentos por um benefício sem igual.
Uma parte deste mesmo corpo, a deputação portuguesa que teve a honra de chegar junto do Augusto Trono de Napoleão o Grande, possuída da voz unânime de uma nação que há quase sete séculos tem entre as da Europa ocupado um lugar assaz distinto, levando o seu nome às regiões remotas, aonde até o presente conserva o direito de possessões ricas, que descobriu pela animosidade e ciência dos seus passados, e sustentou com o seu braço e à custa do seu sangue; quando esta nação consegue a promessa augusta de não ser confundida com aquela cuja posição se aproxima de nós, e da qual soube separar-se e sustentar a dinastia que então confirmou sobre o seu trono e de que hoje lastima ver abandonados vassalos fiéis que seguiam constantes as disposições de seus maiores. A Nobreza de Portugal vai com o resto da nação acolher-se debaixo da protecção do Árbitro da Europa, do ditador**; e a grandes gritos arrancados do fundo da sua alma, aclamam por seu Protector Soberano a Napoleão o Grande: vemos desde agora raiar os nossos dias felizes; esta Nação receber[á] os benefícios de que se tem feito digna, e desvanecer-se[-ão], à proporção que as circunstâncias o permitem, os males que nestes últimos tempos temos experimentado.
Confiados pois no Génio poderoso e regenerador do maior dos Soberanos, que jamais teve outro que o igualasse e que nos oferece tão generosamente a sua augusta protecção e benevolência; se nos for permitido, e Vossa Excelência assim o dispuser e ordenar, teremos a honra de dirigir por Vossa Excelência estes mesmos votos sinceros e puros à presença de Sua Majestade Imperial e Real num acto que firmemos com as nossas assinaturas: este meio será um testemunho irrevogável da nossa deliberação, livre e espontânea, e nela a primeira base de uma grande Monarquia regenerada, que sendo firmada pela mão augusta do Grande Napoleão, veremos conservada, e só por este único modo sustentada a constituição que no princípio desta Monarquia formalizaram [os] nossos maiores, e que elevando à dignidade de Rei a um Príncipe, filho de outro, francês de origem, o Conde D. Henrique, tivemos a felicidade de que esta dinastia nos desse até o último Henrique uma série de 18 Reis todos dignos, por diversos títulos, de ocupar o trono para que haviam nascido.
Digne-se pois Vossa Excelência continuar na presença augusta do nosso Soberano aqueles bons ofícios com que dispôs o seu benéfico e grande ânimo a considerar esta nação digna de ser acolhida debaixo da sua poderosa protecção; sendo pois Vossa Excelência a quem a Nobreza de Portugal reconhece ser o instrumento do prazer com que vem patentear os sinceros sentimentos da sua gratidão: haja Vossa Excelência por benefício de uma nação que assim como lhe deve o sossego público, que tem sabido pelas suas luzes manter, sem opressão nem violência, estudando o carácter português que muito bem conhece, igualmente como primeiro entre os grandes titulares deste Reino pela graça e dignidade que lhe foi conferida de Duque de Abrantes, à testa desta Nobreza, unindo-se a nós, querer que vamos juntos aos pés do Trono Augusto de Napoleão, e peçamos-lhe que nos confira aquela distinção que recebe o seu Reino de Itália: o seu poder não encontra obstáculos, nem a distância o faz ser menos activo; o seu génio não tem limites; sejamos pois com a França, e do modo que Sua Majestade Imperial e Real o decidir, uma mesma família; são idênticos os nossos interesses, sejam os mesmos os princípios que nos liguem e unam: faça Vossa Excelência conhecer que a Nobreza de Portugal há de conservar constante aquela fidelidade para com os seus Príncipes que sempre distinguiu; que há de sustentar, como sempre o fez, no Campo [de guerra] e nos Gabinetes, a dignidade dos seus Soberanos; que há de seguir com igual adesão o sistema que Sua Majestade Imperial e Real lhe prescrever, pois está convencida de que só assim se fará merecedora da grande felicidade de entrar no número dos fiéis vassalos de Napoleão, ou como seu Soberano imediato, ou como Protector de uma nação federativa que jamais se há de separar das suas augustas intenções.

Ao orador da nobreza sucedeu o Desembargador João José de Faria Abreu Guião, primeiro deputado do Senado de Lisboa, e que faz as vezes de presidente, o qual se exprimiu desta sorte:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, o Senado da Câmara de Lisboa, na parte em que representa os seus concidadãos, e o Juiz do Povo, na que diz respeito aos Grémios dos ofícios a que preside, vêm testemunhar a Vossa Excelência que a fidelidade e respeito aos Soberanos foram sempre as qualidades mais características que enobreceram os portugueses: lisonjeados deste carácter, e de que Vossa Excelência o tenha conhecido, vêm gostosos agradecer a Vossa Excelência o resultado das benéficas intenções de que Vossa Excelência fez nascer no magnânimo coração de Sua Majestade Imperial e Real, que vêm transmitidas no anúncio da deputação de Portugal, que, em consequência das ordens de Vossa Excelência nos foram comunicadas; e não havendo ninguém que com mais energia, consideração e piedade possa de novo levar ao coração de Sua Majestade Imperial e Real as puras, respeitosas e necessárias intenções dos portugueses do que Vossa Excelência por que as conhece, auxilia e protege, animados deste poderoso socorro nos esperançamos de que Sua Majestade Imperial e Real, que do seu respeitoso Trono conhece o estado da Europa, e quanto a nossa situação precisa que as reja com sabedoria, proteja a Religião, faça reinar a Justiça, respeitar as Leis, animar as Artes e as Ciências, procure a abundância e conserve a paz. O mesmo Senhor seja quem faça esta escolha, que só nos pode ser vantajosa sendo regulada pelos heróicos sentimentos de um Monarca tão iluminado, tão generoso e pio como Sua Majestade Imperial e Real, de quem pende a conservação da energia portuguesa.

O Desembargador do Paço Manuel Nicolau Esteves Negrão, Chanceler-mor do Reino, nomeado para falar em nome da Magistratura, disse:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, a carta dos membros da deputação portuguesa enviada junto a Sua Majestade o Imperador dos franceses, Rei de Itália, Protector da Confederação do Reno, aos seus compatriotas, a qual Vossa Excelência mandou publicar, enche da maior satisfação e tranquilidade a todo este Reino; ela contém e descobre um inexaurível, precioso tesouro de graças que a poderosa mão de Sua Majestade Imperial e Real derrama, e continuamente há de derramar sobre este país.
O voto uniforme dos portugueses, de reconhecimento, gratidão, respeito e obediência a tão grande Monarca, assim o assegura: e por sua Real vigilência e sabedoria, esperam os portugueses, com confiança, unir-se ao grande Sistema Continental.
A Mesa do Desembargo do Paço, com todo o corpo da Magistratura, a quem Vossa Excelência, anuindo aos seus desejos, benignamente concedeu esta audiência, vem comigo protestar [=declarar] os mesmos sinceros votos da nação; e o mais exacto cumprimento às Reais ordens de Napoleão o Grande, segundo as quais Vossa Excelência cada dia, com interesse público, tão sabiamente decreta.
A Vossa Excelência, Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, particularmente rendemos o nosso mais puro agradecimento pela grande influência que terá tido nestes benefícios, pelas informações que terá dado a nosso respeito; e desejando os tribunais fazerem chegar à sua presença por mão do Ministro do Interior [Hermann].

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, depois de ter acolhido estes diversos discursos com a afabilidade que o caracteriza, respondeu nestes termos às deputações reunidas na sua presença***:

Senhores, tenho ouvido com verdadeiro prazer os votos que se me acabam de expressar da parte de todas as classes do Reino relativamente à importante questão indicada na memória dos senhores da deputação portuguesa aos seus concidadãos. A unanimidade que reina nos vossos votos é um presságio certo de que sabereis unir-vos para sustentar os direitos do Príncipe que o Grande Napoleão designar para vos reger.
Sustido pela protecção daquele grande Monarca, o Rei de Portugal tornará a pôr esta nação na ordem a que pelas conquistas a elevaram os Vascos da Gama e os Joões de Castro, e pela política os Luíses da Cunha e o ilustre Pombal.
Senhores, de boa vontade me incombirei de transmitir ao Imperador e Rei, nosso Soberano, a representação que deveis fazer em nome de todas as classes reunidas do Reino. Dir-lhe-eis que os portugueses têm merecido a sua protecção pelo muito que nele confiam e pela submissão com que obedecem a todas as ordens que têm emanado da sua vontade imperial. Dir-lhe-eis que nas crises que acabam de suceder, perto de nós, têm os portugueses mantido uma tranquilidade perfeita, e que esta só podia proceder duma tal confiança.
Convido-vos pois, Senhores do Clero, Senhores do Tribunal do Desembargo do Paço, Senhores do Senado da Câmara de Lisboa, a que vos unais com os Senhores da Junta dos Três Estados a fim de coordenar a representação que deve exprimir o voto de todas as classes de cidadãos. Este voto será, como me persuado, digno da nação, digno da grandeza de alma do Monarca a quem a haveis de dirigir. Posto entre ele e vós, bem grato me será pensar que haverá podido contribuir para a vossa felicidade, dando a conhecer ao Grande Napoleão que os portugueses merecem a sua bondade, e são dignos da poderosa protecção e da aliança da grande nação.


Este discurso, pronunciado num tom tão firme como nobre, numa assembleia de 300 para 400 pessoas, escolhidas entre o que há de mais ilustre neste Reino, não produziu aumento algum na afeição que os portugueses professam a Sua Excelência o General em Chefe; acabou porém de electrizar os corações e os ânimos, mostrando aberto aos olhos da nossa nação um futuro brilhante. O Duque de Abrantes, decorrendo consecutivamente entre esta numerosa e respeitável reunião de pessoas, parecia um pai em meio duma família a quem acabava de prometer uma grande felicidade. Todo aquele luzidio concurso se retirou convencido de que as nossas esperanças se hão de realizar, pois que têm de chegar aos pés do trono de Sua Majestade o Imperador e Rei, apadrinhados pelos sufrágios daquele que, nos campos da vitória como bem na carreira política e no Governo da capital da Europa, sempre soube tão bem servir a tão grande Amo; e justificar a mais alta confiança que lhe tem merecido.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 20 de Maio de 1808].

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Notas:

* Deve aqui expor-se a seguinte nota, publicada na Gazeta de Lisboa, n.º 35, de 1 de Outubro de 1808 (ou seja, já depois da expulsão dos franceses):




** Deve notar-se que o termo «ditador» não tinha, na época, a conotação autoritária e despótica normalmente atribuída nos nossos dias, significando antes o "magistrado extraordinário entre os Romanos, revestido do supremo poder". Cf. Novo Diccionario da Lingua Portugueza: composto sobre os que até o presente se tem dado ao prelo, e accrescentado de varios vocabulos extrahidos dos classicos antigos, e dos modernos de melhor nota, que se achaõ universalmente recebidos, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1806.



*** A Gazeta de Lisboa inseria também o discurso original em francês. Só copiámos a tradução portuguesa.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (19 de Maio de 1808)





Lisboa, 19 de Maio de 1808.


Meus respeitáveis e caros colegas:

Acabei de visitar as colecções de história natural da Ajuda, e o que vi ultrapassou todas as minhas expectativas. Não vos arrependereis nada por terdes expedido um comissário, pois o vosso comissário desfruta de toda a liberdade que exigem as suas operações.
Metade da colecção é composta por animais brasileiros, e toda essa metade falta-vos [ao Museu de História Natural de Paris, entenda-se]. A principal riqueza das colecções da Ajuda é formada por mamíferos, aves e insectos. Como já tive a honra de vos contar, meus caros colegas, vi alguns animais novos nos gabinetes de Madrid, e [agora] reencontrei-os nos da Ajuda. Temos grandes motivos de satisfação, sobretudo porque todos estes animais estão perfeitamente conservados. Disseram-me o motivo: quase todos provêem duma remessa que foi feita há dois anos atrás*.
Vi estas colecções como um simples amador, pois ainda não recebi uma autorização formal para agir em vosso nome e em nome do Ministro. Desta forma, não conheci senão o que está exposto. Fiz algumas perguntas, e informaram-me que tinham muitas outras coisas em depósito, mas que a falta de espaço e de preparação era o motivo pelo qual não se expunham ao público.
A colecção que mais vos interessará será sobretudo a dos macacos: é bastante considerável. Exceptuando quatro ou cinco, os restantes são novos. Levar-vos-ei finalmente o verdadeiro Simia belzebuth [segundo a denominação de Lineu] ou Guaribu de Marcgrave**; ou melhor, erro ao particularizar, pois levar-vos-ei todos os animais que este antigo naturalista nos deu notícias curtas e até agora insuficientes.
Deixei o gabinete da Ajuda com a maior satisfação: ter-me-ia sido bastante penoso empreender uma viagem tão longa e tão fatigante se não tivesse chegado a um resultado importante, e ao resultado que havíeis prometido a vós mesmos.
Uma sala considerável é consagrada à mineralogia. Peço perdão ao sr. Haüy por não ter nada para lhe dizer hoje, porém, fosse pela minha ignorância sobre esse assunto, fosse por me entreter bastante com os objectos que estão ligados mais directamente aos meus estudos, passei ao de leve pela [sala da] mineralogia; tudo o que percebi é que todas as amostras são muito pequenas.
Ainda não vi as colecções botânicas. Na minha próxima carta informarei os senhores Desfontaines, Jussieu e Thouin [acerca deste assunto], pois hei-de conseguir saber alguma coisa daqui a dois dias.
Vou jantar hoje à casa do General em Chefe [Junot]; espero determinar com ele a maneira como me apropriarei de tantas riquezas.
É essencial para a minha missão que não faltem os objectos que vos devem ser levados. Espero, ademais, que o poder [dos franceses] prevalecerá sobre o querer [dos portugueses].
O General em Chefe aprecia as ciências e tudo o que possa engrandecer o domínio do espírito humano; tenho muita confiança no que ele achará adequado ordenar.
Assim que os meus [próximos] passos estejam traçados, escreverei a Sua Excelência o Ministro do Interior para lhe prestar contas; e para que sejais, meus caros colegas, mantidos perfeitamente ao corrente das minhas operações, enviar-vos-ei cópias dos meus ofícios a Sua Excelência.
Aceitai, caros e respeitáveis colegas, os meus ternos sentimentos e saudações respeituosas.

Geoffroy St-Hilaire.

[P.S.] Lalande apresenta-vos os seus respeitos; vamos separar-nos. Ele continuará junto das colecções da Ajuda, a fim de não perder nenhum tempo. No que me diz respeito, ocupo um magnífico aposento na casa dum escanção da Inquisição, um ex-negociante condecorado com a Ordem de Cristo. É o melhor dos Inquisidores, dado que tem para comigo uma bondade e uma complacência infinita.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 43-44].

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Notas:

* Segundo o autor do artigo onde foi publicada originalmente esta carta, Geoffory Saint-Hilaire alude aqui muito provavelmente às colecções de animais, plantas e minerais recolhidas pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que tinha estado durante quase dez anos no Brasil. [Cf. Manuel José Maria da Costa e Sá, "Elogio do Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo V. Parte II, Lisboa, Na Typografia da mesma Academia, 1818, pp. LVI-LXXX, sobretudo a partir da p. LXV; "Notícia dos Escritos do Senhor Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in id., ib., pp. LXXXI-LXXXIX].
Algumas das caixas que Alexandre Rodrigues Ferreira tinha remetido para Portugal continuavam em 1808 por abrir, facto que muito impressionou Geoffroy Saint-Hilaire, quando finalmente lhe foi concedido o acesso aos depósitos do "gabinete" da Ajuda. Em cartas que posteriormente viria a escrever aos seus colegas do Museu de História Natural de Paris, anotou a este respeito que muitos herbários com plantas do Brasil, de África ou da Índia estavam ainda virgens, precisamente porque ninguém se tinha dado ao trabalho de os abrir. Um deles, feito em 1785, foi encontrado por Geoffroy Saint-Hilaire bastante devorado por insectos. Tal desleixo impressionou tanto Saint-Hilaire que, já depois da Convenção chamada de Sintra, pressionado pelos ingleses para devolver as caixas com os materiais que entretanto tinha recolhido em Portugal, viria a apelar ao naturalista Sir Joseph Banks, presidente da Royal Society, escrevendo-lhe uma carta onde dizia preferir entregar-lhe as ditas caixas do que deixar que o seu conteúdo permanecesse assim desprezado e ignorado pela ciência, pois tinha a convicção de que "depois de mim, estas caixas não serão abertas"... 
Curiosamente, e fazendo justiça às palavras de Geoffroy Saint-Hilaire, algumas das caixas que em 1808 continuavam virgens, assim permaneceriam por mais  200 anos, como foi o caso da recente "descoberta", na Universidade de Coimbra, de uma colecção de peixes do Brasil, recolhida nos finais do século XVIII pelo citado Alexandre Rodrigues Ferreira. [Cf. André Jegundo, "Colecção raríssima do séc. XVIII de peixes do Brasil encontrada na Universidade de Coimbra", in Público, 17 de Janeiro de 2011; "Colecção rara de peixes do século XVIII descoberta na UC", Ciência Hoje, 18 de Janeiro de 2011; "Colecção de peixes do século XVIII encontrada em Coimbra", in Super Interessante].

*Geoffroy Saint-Hilaire viria a descrever este e outros símios do Brasil no seu artigo "Tableau des quadrumanes, ou des Animaux composant le premier Ordre de la Classe des Mammifères", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dix-neuvième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1812, pp. 85-122, p. 108.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Boletim de Lagarde sobre uma carta do Corregedor de Tavira de 18 de Maio de 1808




Boletim n.º 20


Lisboa, 26 de Maio de 1808


Algarves - O Corregedor de Tavira, 18 de Maio


Dez indivíduos desta zona fugiram, numa das noites passadas, numa embarcação espanhola, para passarem à Esquadra inglesa. Esta saída livrou toda a região de sujeitos malvados que não tinham nada de bom.

[Fonte: António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 29 (tradução nossa do texto original em francês)].



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Nota: 

Seria este grupo de fugitivos parte daqueles “malévolos” que o Corregedor mor do Algarve, mr. Goguet, mencionara a Lagarde a 11 de Maio
Este documento foi publicado originalmente por António Ferrão, que comentou a seu respeito o seguinte: "Vê-se que Lagarde, encontrando-se impotente para evitar a fuga dos mais audaciosos para a esquadra inglesa, apesar da determinação das mais severas medidas repressivas, desdenha dos que zombavam das suas ordens. É uma simples variante da fábula da raposa e das uvas!" [António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363].