quarta-feira, 9 de março de 2011

O avivamento do sebastianismo através de um ovo que ficou para a história



No dia 9 de Março de Março de 1808, Eusébio Gomes anotou no seu diário que “apareceu em Lisboa um ovo que tinha visivelmente as letras V. D. S. R. P., e fazendo-se experiência, não se pôde igualar. Correu isto mas não creio” [apud Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d. p. 152-153].

Algumas das versões sobre este curioso episódio omitem a letra V. De qualquer forma, segundo os mais crédulos, aquelas letras significavam (Viva) Dom Sebastião Rei de Portugal. Mais de 230 anos depois do desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir, este ovo dava novo alento às esperanças dos sebastianistas. Ainda que não pretendamos aprofundar aqui a génese e evolução do messianismo sebastianista (os interessados podem consultar uma obra fundamental sobre o assunto, da autoria de João Lúcio de Azevedo e intitulada A Evolução do Sebastianismo), resulta interessante ver o índice de um volume, compilado em 1809, de algumas das inúmeras fontes utilizadas pelos sebastianistas:



[Fonte: J. Lucio d'Azevedo, A Evolução do Sebastianismo, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1918, pp. 237-239].


Ao mesmo tempo que ganhava força, o sebastianismo virava motivo de paródia. Ainda sobre o "famoso" ovo, a jocosa Gazeta do Rocio [sic] viria a indicar que "Junot teria enviado ao Museu Napoleão [actual Museu do Louvre] um ovo achado nos entulhos ao pé da muralha de S. Pedro de Alcântara, tendo algumas letras esculpidas na casca, mas, pouco crédulo em milagres, o general atribuiu o fenómeno à bruxaria, na qual piamente acreditava, e desdobrou a sigla – V. D. S. R. P. – através do significado Viemos (a Portugal) Danificar, Saquear, Roubar e Pilhar". [Cf. Collecção das celebres Gazetas do Rocio que para seu desenfado compoz certo Patusca, o qual andava à pesca de todas as imposturas, que o intruso ministerio francez fazia imprimir no Diario Portuguez, n.º 7, Lisboa, Tip. Lacerdina, 1808; apud Lúcia Maria Bastos P. Neves, "Portugal durante a ausência do rei", in Revista USP, São Paulo, n.º 79, Set.-Nov. 2008, pp. 10-21, p. 18 (dispusemos em itálicos as citações do próprio jornal, o restante é da autora do artigo)].


De facto, a partir da expulsão dos franceses de Portugal (em Setembro de 1808), as críticas, réplicas e contra-réplicas entre sebastianistas, moderados ou anti-sebastianistas, viriam a fazer correr bastante tinta, com aval e prazer do Governo, pois as receitas revertiam para as despesas de guerra. Para se ter uma noção mínima da quantidade de opúsculos publicados apenas entre finais de 1808 e 1811, veja-se a seguinte relação reunida por Inocêncio da Silva:

[Fonte: Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Sexto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1862, pp. 320-324].




Para além destas fontes devem mencionar-se ainda as reedições das trovas de Bandarra (algumas das quais inéditas), uma das principais fontes do sebastianismo, publicadas fora do país para escaparem à censura da Inquisição:










Gravura sebastianista (c. 1809) 



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Um parêntesis: É possível que este sebastianismo novamente emergente tenha de alguma forma influenciado a escritora britânica Anna Maria Porter (irmã de Robert Ker Porter, um oficial do exército britânico que passou por Portugal em 1808 e que no ano seguinte publicou a obra Letters from Portugal and Spain, written during the march of the British Troops under Sir John Moore, com gravuras da sua autoria). Esta escritora, dizíamos, publicou em 1809 um romance histórico que teve algum sucesso (conhecendo-se várias edições posteriores) intitulado precisamente Don Sebastian; or, the House of Braganza. An Historical Romance (os quatro volumes da primeira edição encontram-se disponíveis on-line: Vol. 1; Vol. 2; Vol. 3; Vol. 4). 

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Depois da polémica inicial, o sebastianismo "decaiu em remate na galhofa popular quando, em 1813, perambulava as ruas de Lisboa certo original, vestido de mouro, que se dizia ser enviado de D. Sebastião, e o vinha anunciar aos portugueses. Ao pescoaço trazia um letreiro com as palavras terra, verdade, poder, honra, santidade, formosura, a que devia ligar algum sentido cabalístico. Chamavam-lhe o último sebastianista. Atrás dele ia em gáudio o rapazio, admirando-lhe o trajo desusado, ouvindo-lhe o discursar extravagante. Podia ser um folião. Era um convencido, porventura algum dos de 1808, que perdera de todo o senso. Para sossego das ruas interveio a polícia, que o sequestrou por demente.
O caso fez arruído, e tanto interessou o público que se propagou pela gravura, e em seguida se apossou dele o oleiro, artista ingénuo, cuja obra tantas vezes é o reflexo da alma popular. Foi copiada a gravura num prato ornado, que mostra o sebastianista levado à prisão por um façanhudo militar. Em trabalho mais cuidado se lavrou uma estatueta, modelada igualmente da gravura. Assim teve consagração perene, na arte singela do povo, este episódio, esquecido dos letrados, visto que nenhum livro o menciona [a gravura, que vem reproduzida num artigo do sr. Emanuel Ribeiro, na revista Límia, de Viana do Castelo, Série 2.ª, Tomo 1.º, pág. 121, tem uma legenda que diz ser o Retrato do suposto Enviado d'El-Rei D. Sebastião preso por um Furriel da Polícia de Lisboa no dia 1.º de Agosto de 1813, e remetido para o Hospital dos doidos]" [Fonte: J. Lucio d'Azevedo, A Evolução do Sebastianismo, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1918, pp. 154-155].



Prato de faiança do princípio do séc. XIX,
representando o "último sebastianista".



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Já em 1816, José Daniel Rodrigues da Costa recordará desta forma a "batalha" que tinha havido entre sebastianistas e anti-sebastianistas: "na contenda dos sebastianistas também meti a minha colherada; a uma obra de certo autor imprimi uma crítica refinada; ele respondeu-me com azedume, e eu derramei todo o meu fel naquela em que lhe respondi. Saíram-me então mais dois a campo a favor dele; e eu a todos sacudi a fato". [Fonte: José Daniel Rodrigues da Costa, Tribunal da Razão, onde he arguido o dinheiro pelos queixosos da sua falta: obra critica, alegre, e moral - Parte I, Lisboa, Officina de J. F. Monteiro de Campos, 1816, p. 28]. 
Finalmente, em 1818, o mesmo autor publicava o seguinte soneto:

[Fonte: José Daniel Rodrigues da Costa, Roda da Fortuna, onde gira toda a qualidade de gente bem, ou mal segura. Obra critica, moral, e muito divertida - Folheto II, Lisboa, Impressão de J. F. M. de Campos, 1818, p. 29]. 



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Algumas obras da "guerra sebástica" disponíveis on-line:


- Jacqueline Hermann, "Dom Sebastião contra Napoleão: a guerra sebástica contra as tropas francesas", in Topoi, Rio de Janeiro, Dez. 2002, pp. 108-133. 
- Dulce Alexandra de Oliveira Lopes Delgado, Transcrição e análise de uma colectânea sebastianista do século XIX [tese de mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares], Lisboa, Universidade Aberta, 2005.

Aviso e proclamação distribuídos em Lagos durante a permanência dos franceses na cidade



AVISO


A França estabeleceu a sua revolução e criou a sua república com agradáveis programas de cumprimento dos direitos das gentes e das nações; mas a França, qual Ícaro atrevido, voou até regiões desconhecidas à sua natureza e, reduzidos a cinzas esses programas, fez tremer os mais sólidos tronos com o seu olhar.


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AO POVO PORTUGUÊS

Filhos da Pátria, Vosso Pai deixou-vos órfãos e obrigados a subsistir por vós mesmos. Os séculos da ignorância e do fanatismo passaram; formai a vossa liberdade sobre as bases da Natureza, guiada pela razão e pela virtude. Nobres! Lembrai-vos de vossos avós, pois que eles vos constituem em obrigação de nobreza, e lembrai-vos que esta nobreza que vos legaram é como a chama que se extingue, se lhe falta alento.
Guerreiros, uni vossas tropas hoje dispersas e sem ordem. Magistrados por via de quem os franceses têm operado, sede mais patriotas. Grande Deus! Teus juízos cheios de equidade nos sejam claros e tua clemência propícia.

[Fonte: Manoel João Paulo Rocha, Monographia - As forças militares de Lagos nas Guerras da Restauração e Peninsular e nas pugnas pela liberdade, Porto, Typographia Universal, 1909, pp. 172-173 (existe uma reedição pela editora Algarve em Foco, com o título Monografia de Lagos); Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, p. 334 (Doc. 7)]. 


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Nota:

Ao publicar estes documentos originalmente em 1909, M. J. Paulo Rocha apresentou-os como produções anti-francesas, embora não mencionasse a sua autoria. Em 1941, Alberto Iria, a nosso ver erroneamente, atribuiu a sua autoria aos franceses (cf. op. cit., p. 16), supostamente no intuito de ganharem a confiança dos portugueses. 

Ofício de Lagarde a Junot relativo a dois incidentes ocorridos em Lagos (9 de Março de 1808)





O Corregedor de Lagos participa, na data de 24 do corrente [seria Fevereiro], que naquela cidade houveram nos dias 11 e 12 de Fevereiro dois motins contra o Governador daquela Praça, e outro contra o Coronel do Regimento n.º 2. 

Procedeu o primeiro de proibir o Governador que os pescadores saíssem ao largo: então, privados do meio da sua subsistência, levantaram-se em massa, fazendo alaridos, aos quais o Governador pôs termo facultando-lhes licenças. 

Procedeu o segundo de querer o Coronel do dito Regimento que, nas guias passadas aos soldados a quem deu baixa, se declarasse que iam satisfeitos do soldo, pão, e fardamento, quando não era assim. E porque o coronel mandou prender um soldado que fez esta representação, outros soldados dispersaram a patrulha que conduzia o preso e o puseram em liberdade, formando depois corpo de delito o Coronel. Este lhe mandou então entregar as fardas vencidas, e se dissipou o tumulto. Não houve em uma e outra desordem mais do que o facto insubordinado. 


[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 12-13 (apud António Ferrão, A I.ª Invasão Francesa, p. 256)].


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Nota: 

Em Milão, pouco depois de ser informado da entrada das tropas de Junot em Lisboa, Napoleão tinha escrito a Junot, no dia 23 de Dezembro de 1807, que o Ministro da Polícia lhe enviaria um "agente para colocar à testa da vossa polícia". Este agente era Pierre Lagarde, que então exercia as funções de Director Geral da Polícia do Estado de Veneza, o que talvez justifique o motivo pelo qual tardou tanto tempo para chegar a Portugal. De facto, a sua partida de Paris somente foi anunciada no dia 29 de Janeiro [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 13, 12 de febrero de 1808, p. 152], ainda que seja possível que tenha partido antes. O que é certo é que no dia 14 de Fevereiro, como Junot indicou a Napoleão, Lagarde ainda não tinha chegado a Lisboa. 
Confrontando esta última informação com o documento acima transcrito, deduzimos que Lagarde teria chegado a Lisboa na segunda quinzena de Fevereiro, começando desde logo a exercer as funções que Napoleão lhe tinha ordenado, apesar de, oficialmente, só vir a ser nomeado Intendente Geral da Polícia do Reino de Portugal no dia 25 de Março. Juntamente com este cargo, Lagarde viria a acumular o de Conselheiro do novo Governo e o de redactor da coluna sobre Lisboa publicada na Gazeta de Lisboa (facto que se torna evidente a partir do número do dia 5 de Abril). Em Lisboa, Lagarde assentou os seus aposentos no Palácio da Inquisição de Lisboa, onde antes se congregavam, como já referimos, os membros do Governo da Regência instituído pelo Príncipe regente D. João, até à sua dissolução por Junot, no dia 1 de Fevereiro. 


Edital do Senado da Câmara de Lisboa destinado a cada bairro da cidade (9 de Março de 1808)


O Senado da Câmara, em observância do artigo 20.º do decreto do 1.º de Fevereiro […] passado, e do artigo 14.º das instruções de 27 do mesmo mês, ordena que toda a pessoa que no bairro de … tiver loja de venda de que pague licença ao Senado, compareça no termo prefixo de oito dias, contados [a partir] da data deste, em todas as manhãs, na Casa dos Vinte e Quatro, perante o muito honrado juiz do povo, a apresentar a última licença que tiver do mesmo Senado, para à vista dela se lhe declarar assim a quantia com que deve contribuir, como os prazos em que devem ser feitos os pagamentos, [sob] pena de, não comparecendo no termo e forma declarados, ser condenado a pagar pelo meio executivo o quádruplo da quantia em que estava colectado. Igualmente se participa a todos os rendeiros do Senado, moradores no dito bairro, que tiverem lugar ou loja de venda, ainda que não paguem licença, que compareçam no termo acima prescrito, debaixo da mesma pena no caso de transgressão. Ficam também incursos nesta todos os droguistas, lojas de papel, lojas de ornatos de casas novos, mercadores de livros, arameiros, relojoeiros, armadores e vestimenteiros, boticários, estaleiros, estâncias de materiais, estâncias de madeira, estâncias de carvão, fornos de cal, estâncias do cais do Tojo, telheiros de pedra de cantaria, padeiros, e os ofícios de peneireiros, almocreves de sobrecarga e moleiros. 

E para que chegue à notícia de todos e não aleguem ignorância, se fixou o presente em Lisboa. 

Lisboa, 9 de Março de 1808. 

Francisco de Mendonça Arrais e Mello 

[Fonte: Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 34-35]. 


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Note-se que este edital data precisamente uma semana depois do juiz do povo e os membros da Casa dos Vinte e Quatro terem ido "cumprimentar" Junot, conforme a seguinte notícia publicada na Gazeta de Lisboa: “Havendo o Juiz do povo desta cidade, José de Abreu Campos, obtido do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do exército francês, Governador geral de Portugal, a permissão de lhe apresentar todos os membros de que se compõe a Casa dos Vinte e Quatro, para terem a honra de o cumprimentar, concorreram para esse fim ao Palácio de sua residência no dia 2 do corrente pelas 10 horas da manhã de capa e volta, e foram recebidos por Sua Excelência com as maiores demonstrações de bom acolhimento e benignidade”. [Fonte: Segundo Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º IX, 5 de Março de 1808]. Foram tão bem recebidos que logo foram nomeados exactores daqueles que representavam...
Sobre este tipo de "homenagem", ver ainda o "convite" que Hermann enviou um mês antes aos magistrados.

Decreto de Junot relativo a reclamações sobre a contribuição de guerra (9 de Março de 1808)


O General em Chefe do Exército de Portugal decreta o seguinte: 

Artigo I. Toda a pessoa que, devendo contribuir em conformidade do artigo 2.° do nosso decreto do 1.° de Fevereiro […] passado, se julgar desproporcionadamente taxada, em comparação daquelas que em iguais circunstâncias houverem de contribuir, reclamará nesse caso perante a Junta do Comércio.

Artigo II. Deverá juntar à reclamação que fizer uma declaração dos seus haveres e propriedades, assim como a quitação do primeiro terço da sua quota; não produzindo porém estes diferentes documentos, não lhe será admitida a reclamação.

Artigo III. Não se admitirá reclamação alguma passado o prazo de quinze dias contados [a partir] da ratificação da taxa.

Artigo IV. A reclamação será processada e julgada por uma Comissão de Revisão ad hoc [=para este fim] nomeada pela Junta.

Artigo V. O processo e a decisão do negócio serão depois remetidos com o parecer e observações da Junta ao Secretário de Estado do Interior e das Finanças [Hermann], o qual há de receber a nossa decisão definitiva sobre cada uma das reclamações.

Artigo VI. A Junta distribuirá pelas pessoas cuja taxa se achar desproporcionadamente menor que a do reclamante, a soma dos abatimentos que houvermos de conceder.

Dado no Palácio do Quartel General, em Lisboa, aos 9 de Março de 1808. 

Junot 



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Fonte: Julio Firmino Judice Biker, Suplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais potências desde 1640 – Tomo XV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, p. 107. 

Acta de vereação da Câmara Municipal de Faro (9 de Março de 1808)



Nesta [vereação] determinou-se [que] fossem avisados por mim, escrivão, o capitão Ventura da Cruz e José Lopes Ferrete, para virem a esta sessão amanhã pelas dez horas do dia, a fim de se pôr em execução o ofício dirigido ao presidente deste mesmo Senado pelo Doutor Corregedor desta Comarca, em virtude das ordens que recebeu da Real Junta do Comércio*, para se realizar o decretado pelo General em Chefe do Exército Francês neste Reino de Portugal, em consequência do decreto de Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno [Napoleão]. 

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 347 (Doc. 16)].



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Nota:

* O teor destas ordens não devia diferir muito das que foram enviadas aos negociantes de Lisboa, pela mesma Real Junta, no dia 3 de Março.


Carta com instruções de Emmanuel Crétet, Ministro do Interior do Governo francês, a Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto da França e administrador do Museu de História Natural de Paris (9 de Março de 1808)




Paris, 9 de Março de 1808.


Como Sua Majestade o Imperador se dignou a autorizar-me a enviar um naturalista a Portugal para recolher nos gabinetes e jardins botânicos de Lisboa e de Coimbra objectos dos três reinos [animal, vegetal e mineral] que possam ser úteis ao Muséum d'Histoire Naturelle*, decidi confiar-vos esta missão.
Os votos dos vossos colegas e a confiança que vos outorgo fazem-me esperar que a cumprireis com todo o zelo que tendes.
Encontrareis inclusas, Senhor, as instruções segundo as quais deveis regular justamente todas as vossas operações. Envio uma cópia ao Senhor Governador de Portugal [Junot]. Convido-o a dar-vos todas as facilidades possíveis para que possais cumprir convenientemente a missão que vos é confiada.
Tenho a honra, etc., 



Instruções 


1.º As investigações relativas às ciências e especialmente à história natural são o principal objectivo da missão do sr. Geoffroy. Assim, antes da sua partida para Portugal, recolherá todas as informações que lhe possam fornecer os seus colegas do Muséum e da primeira classe do Institut sobre os objectos e colecções que merecem mais particularmente fixar a sua atenção.
Como o  Muséum d'Histoire Naturelle tem estado até agora privado de relações com o Brasil, é nas produções deste país que o sr. Geoffroy deverá preferencialmente fixar a sua atenção. Em geral, as suas escolhas focar-se-ão sobre as produções minerais, vegetais e animais de todas as espécies que faltem no  Muséum d'Histoire Naturelle ou que não existam senão num grau de inferioridade pouco digno deste belo estabelecimento.
Assim, o sr. Geoffroy deverá trazer o magnífico bloco de cobre nativo das colecções da Ajuda** e a pedra magnética que está nas de Coimbra***, o espécime mais considerável e com mais energia que se conhece, etc.
Diz-se que o antigo governo depositou em alguns conventos e em diferentes épocas caixas [com objectos] de história natural e, em particular, uma colecção feita na costa de Moçambique; e o sr. Geoffroy fará todas as pesquisas convenientes a este respeito.
Se, como se assegura, existem na colecção de animais [ménagerie] do Príncipe uma avestruz de três dedos**** e um grande leopardo da África central, ambos vivos, e cuja existência é aqui problemática, o sr. Geoffroy poderia ordenar o seu transporte, dada a importância destes dois objectos, reunindo-lhes mais animais raros e muitas aves inexistentes na colecção de animais [ménagerie] do Muséum. Contudo, neste caso, tomará medidas para que tal transporte seja efectuado com os menores gastos possíveis.
O zelo do sr. Geoffroy pelo progresso das ciências naturais é demasiado conhecido para que seja útil instá-lo a aproveitar a sua estadia em Portugal para recolher as produções particulares [do país]. As pesquisas que se farão a este respeito terão assim o fim de enriquecer o Muséum d'Histoire Naturelle daquelas espécies de coisas que carece. A embocadura do Tejo é sobretudo célebre pela grande quantidade de peixes e moluscos que aí chegam, vindos de diferentes rios, ou do mar alto, no tempo da desova. 
As plantas dos arredores de Lisboa são muito belas e muito variadas. O sr. Geoffroy tomará todas as medidas necessárias para obter do Museu as plantas que lhe possam faltar.

2.º Um segundo objectivo da missão do sr. Geoffroy é a recolha de informações sobre os livros e manuscritos, medalhas [entenda-se também moedas] e pedras gravadas, mapas, etc., que possam conter as bibliotecas e outros estabelecimentos públicos de Portugal.
Encontrará esses objectos nas bibliotecas da Corte, na Cartuxa de Évora, no mosteiro dos cónegos de São Vicente de Fora, no convento de São Francisco da cidade de Coimbra, e na casa do emigrado Duque de Cadaval.
As informações que mais particularmente se recomendam ao seu cuidado compreendem as viagens manuscritas dos navegadores e missionários portugueses nas diversas partes do mundo, sobretudo antes de 1500, bem como os mapas manuscritos, recaindo a sua atenção essencialmente nos portulanos que remontem à mesma época.
Deve existir em Portugal um grande número de memórias e de correspondências manuscritas sobre viagens nos arquivos públicos e nos depósitos dos mosteiros, sejam dos ex-Jesuítas, relativos às expedições marítimas, sejam dos Dominicanos, obtidos pelas missões. Recomenda-se que centre as suas pesquisas nas memórias muito antigas que devem existir sobre a Abíssinia. 
Os mapas manuscritos devem-se encontrar nos mesmos depósitos. Supõe-se aqui que as ricas colecções de Vila Viçosa foram levadas [para o Brasil?]. Encontrará também mapas preciosos relativos a bosques e cobre. Tomará todo o cuidado em descobrir o que é feito dos mapas cujos Mouros se serviam para os seus cursos nos mares da Índia e da África.
Copiará, ou fará copiar, as inscrições latinas ou outras que veja nos diversos monumentos, e trará fac-similes. Coimbra apresentar-lhe-á uma grande colecção.
Recolherá tantas informações quanto lhe sejam possíveis sobre as medalhas púnicas, árabes, dos reis godos e outras cunhadas em Espanha [em toda a Península, entenda-se] e chamadas medalhas coloniais. Porém, é inútil que fixe a sua atenção nas medalhas imperiais cunhadas em Roma e que teriam sido enviadas para Portugal.
Se encontrar pedras gravadas, sejam que forem, tomará notas, indicando os respectivos assuntos.
Tentará obter catálogos impressos de livros portugueses, e, se possível, cópias dos catálogos das bibliotecas públicas, enviando-as para a Paris, a fim de que se possa examinar quais são aqueles que faltam na Biblioteca imperial.
Está convidado a prestar uma atenção particular sobre todos esses livros anteriores a 1500.

3.º As estátuas, baixo-relevos, quadros, etc., serão ainda um dos objectivos das pesquisas do sr. Geoffroy.
É possível que encontre em Lisboa e em Coimbra algumas produções de escultura antiga.
Em relação aos quadros, ainda que não tenham existido escolas portuguesas, os palácios e alguns estabelecimentos públicos podem conter obras de mestres portugueses que mereçam ser conhecidas fora do seu país.


Disposições gerais


O sr. Geoffroy está autorizado a fazer-se ajudar em todas as suas pesquisas pelas pessoas que lhe pareçam reunir conhecimentos relativos a qualquer um dos objectivos da sua missão. Mas será necessário que Sua Excelência o Governador Geral [Junot] reconheça e aprove esses assistentes. 
Entenda-se que as pesquisas do sr. Geoffroy só deverão ser feitas nos estabelecimentos públicos. Quando lhe pareça que alguns objectos serão assinaladamente úteis para as colecções da França, o sr. Geoffroy pedirá a Sua Excelência o Senhor Governador Geral para tomar medidas de salvaguarda, através dum sequestro ou de outra forma, para que os objectos permaneçam em segurança até que se estabeleçam as medidas definitivas a tomar. 
Depois de ter visitado cada estabelecimentos público, com o consentimento de Sua Excelência o Senhor Governador Geral, o sr. Geoffroy enviará duas listas de objectos que julgue, segundo estas instruções, que têm um particular interesse para a França. Uma dessas listas será remetida ao Senhor Governador Geral, a fim de ser munida com a sua autorização, e a outra será enviada directamente para nós
As pesquisas do sr. Geoffroy sobre estes diversos pontos não devem passar da recolha de informações.  Em nenhum caso retirará ou enviará estes objectos sem ordem especial de Sua Excelência o Governador Geral.
O senhor Geoffroy terá o cuidado de corresponder-se connosco com a maior frequencia possível, comunicando todos os detalhes necessários sobre os diversos objectivos da sua missão.
Dado em Paris, 9 de Março de 1808.

O Ministro do Interior,
Crétet.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 29-31].


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Notas:


* Mantivemos as referências ao Museu de História Natural de Paris conforme o seu nome original em francês. 

** Este bloco, descoberto em 1782 no Brasil, e recolhido depois no Museu de História Natural da Ajuda, era então o maior exemplar de cobre nativo conhecido no mundo inteiro, e tornara-se famoso no estrangeiro sobretudo devido à publicidade que lhe tinha sido dada numa obra do naturalista alemão Heinrich Friederich Link, que estivera em Portugal entre 1797 e 1799. A referida obra, que teve bastante sucesso na sua época, e que ainda hoje pode considerar-se como uma referência, tinha sido publicada originalmente no ano de 1801, em alemão (Bemerkungen auf einer Reise durch Frankreich, Spanien, und vorzüglich Portugal), aparecendo estampada ainda no mesmo ano em inglês, um ano depois em sueco, e depois em francês. Segundo a tradução portuguesa, publicada mais de dois séculos depois, Link descrevia da seguinte maneira o dito bloco: "Extraordinário é o espécime de cobre puro aqui guardado [i.e., no Real Gabinete de História Natural na Ajuda], encontrado no Brasil, num vale a duas léguas da Cachoeira e a 14 léguas da Baía. Segundo Vandelli, o seu peso chega às 2616 libras, o comprimento máximo é de três pés e duas polegadas, a largura máxima de dois pés e meia polegada, e a espessura máxima de meio pé e quatro polegadas. A superfície é irregular, aqui e ali coberta de malaquite e ocre ferroso, de um lado tinha sido estupidamente polida e tinha gravada uma inscrição. Por aqui os mineralogistas poderão ver como esta peça é única no seu género" [Cf. Heinrich Friedrich Link, Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2005, p. 140]. Note-se que Link baseia parte da sua descrição desta peça de cobre num pequeno apontamento que o próprio director do Museu da Ajuda tinha anteriormente publicado [Cf. Domingos Vandelli, "Varias Observações de Chimica, e Historia Natural", in Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I (desde 1780 até 1788), Lisboa, Typografia da Academia, 1797, pp. 259-261, p. 261]. Porém, deve acrescentar-se que se nesse artigo Vandelli dizia que a peça pesava 2616 arráteis (cerca de 1.200 quilos), noutro manuscrito escreveu que a mesma pesava 2619 arráteis [Cf. "Memoria sobre o cobre virgem ou nativo da Capitania da Bahia, descoberto no anno de 1782", transcrição parcial in Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro - Vol. XXXII (1910), Rio de Janeiro, Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional, 1914, ms. 11. 463, p. 551]. É certo que a diferença é mínima, mas noutro artigo, mais antigo, o mesmo Vandelli referira que o pedaço de cobre pesava 1.666 arráteis, o que, fosse como fosse, já era bastante considerável, "não havendo até agora outro de tão avultado peso em nenhum Museu da Europa" [Cf. "Memoria sobre algumas producções naturaes das Conquistas, as quaes ou saõ pouco conhecidas, ou naõ se aproveitam", in Memorias Economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I, Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias, 1789, pp. 187-206, p. 204]. Devido ao pedestal de mármore onde se embutiu esta peça, é difícil calcular-se actualmente qual seria o seu peso original.
Como mais adiante se verá, apesar do interesse de Geoffroy Saint-Hilaire nesta peça, Domingos Vandelli conseguiu fazer prevalecer as suas instâncias, segundo as quais este era precisamente o objecto mais importante do Museu da Ajuda, evitando assim a sua remoção para a França.
No 2.º Colóquio sobre «Discursos e Práticas Alquímicas» (Lisboa, 2000), esta pedra de cobre deu muito que falar, como se pode confirmar pelos textos publicados nas respectivas actas (Discursos e Práticas Alquímicas - Vol. II, Lisboa, Hugin Editores, 2003), que estão disponíveis online
Ver ainda, sobre este mesmo assunto, o artigo Relatório de uma missão no Brasil - A pedra de cobre nativo da Cachoeirade Maria Estela Guedes; e o artigo O Gaio Método da mesma autora e de Nuno Marques Peiriço; e ainda uma entrevista a Orlins Santana, donde extraímos as seguintes fotografias, da autoria de Ana Luísa Janeira.


A aludida peça de cobre nativo, actualmente disposta no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.


Pormenor da inscrição gravada no próprio cobre.




*** Tratava-se do chamado "magneto chinês", uma poderoso pedra magnética oferecida pelo Imperador da China a D. João V, que foi posteriormente oculto numa armação concebida por um joalheiro e cientista escocês chamado William Dugood (ver as ilustrações abaixo). Deve notar-se que Dugood, que chegou a ser considerado na sua época como o melhor joalheiro da Europa, parece ter aproveitado bem o tempo que passou a fazer a dita armação,  pois chegou a escrever uma dissertação sobre o magnetismo. Curiosamente, na sua passagem por Lisboa, Dugood fundou, em 1727 ou 1728, a primeira loja maçónica portuguesa, intitulada Hereges protestantes (como o nome indica, de tendência protestante) [Cf. Bruce B. Hogg & Diane Clements, Freemasons and The Royal Society - Alphabetical List of Fellows of the Royal Society who were Freemasons, London, 2010, p. 32]. 
Em 1768, o rei D. José I ofereceu esta pedra, juntamente com a sua armação, ao Régio Gabinete de Física Experimental do Colégio dos Nobres, onde leccionava o italiano Giovanni Antonio Dalla Bella, que, como Domenico Vandelli, viera para Portugal a convite do Marquês de Pombal (sendo anteriormente professor de Física Experimental na Universidade de Pádua). Quando pouco depois foram extintos os estudos científicos no Colégio dos Nobres, os objectos do Gabinete de Física Experimental passaram para a Universidade de Coimbra, onde Dalla Bella passou a leccionar, continuando as experiências que há já alguns anos vinha levando a cabo com esta e outras pedras magnéticas. Posteriormente, essas experiências viriam a ser amplamente descritas num estudo intitulado "Memoria sobre a força magnética", apresentado por Dalla Bella à Academia Real das Ciências de Lisboa em 1782 e publicado pela mesma instituição sete anos depois [Cf. Memorias Economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I, Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias, 1789, pp. 85-199].
Nesse estudo, Dalla Bella descrevia o aludido íman como "uma pedra de forma irregular, cujo volume tenho achado ser de 262 11744055 polegadas cúbicas; o seu peso é de 38 libras e 7 onças e ½; e a sua gravidade específica é 4055. A linha do seu meridiano é de 6 polegadas e 10 linhas; e a do seu equador é 8 polegadas e ½; pela parte inferior, em que estão os seus pólos, é esta pedra cortada e lisa, para poder armar-se como convém; o pólo austral dista do equador 4 polegadas e 7 linhas; e o setentrional 2 polegadas e 3 linhas" [id., p. 88]
Segundo as investigadoras Ermelinda Ramos Antunes e Catarina Pires, parece que algumas das conclusões deste estudo de Dalla Bella antecipam a definição da lei das acções magnéticas, "actualmente atribuída a Coulomb", quando, no entanto, os estudos deste "foram realizados três anos depois. Entre os autores que abordaram este assunto (Giovanni Constanzo, "Fisice italiani in Portogallo", in Relazioni storiche fra l'Italia e il Portogallo, Roma, Reale Accademia d´Italia, 1940-XVIII), destacamos o Professor Mário Silva ("A actividade científica dos primeiros directores do gabinete de Física que a reforma pombalina criou em Coimbra em  1772", in Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol. IX, n. 1, 1940) que, quando nas suas aulas ensinava esta lei, a atribui a dalla Bella. Rómulo de Carvalho ("A Pretensa Descoberta da Lei das Acções Magnéticas por dalla Bella, em 1781, na Universidade de Coimbra", in Revista Filosófica, n. 11, Set. 1954, p. 311) coloca reservas aos resultados obtidos por dalla Bella. A discussão deste assunto está fora da finalidade deste trabalho" [Fonte: Ermelinda Ramos Antunes; Catarina Pires, "O Gabinete de Física da Universidade de Coimbra", in Coleções Científicas Luso-Brasileiras: patrimônio a ser descoberto, Rio de Janeiro, Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2010, pp. 173-174. Ver ainda, sobre esta polémica, o artigo de Ricardo Monteiro, "Dalla Bella e a Lei das Acções Magnéticas", in Gazeta de Física (Volume 24 - fascículo 4), Lisboa, Sociedade Portuguesa de Física,  Outubro/Dezembro de 2001, pp. 4-10; e ainda o artigo de João Silva "Sobre a Polémica acerca da Descoberta em Portugal da Lei das Acções Magnéticas"].
Apesar da relativa importância do chamado "magneto chinês", Geoffroy Saint-Hilaire viria a entreter-se de tal modo com as colecções dos museus de Lisboa e da Ajuda, que não chegaria a deslocar-se a Coimbra, e assim, este objecto não correu o risco de ir parar à França (ao contrário de milhares de outros), podendo ainda hoje ser visto nas valiosas colecções do Museu de Física da Universidade de Coimbra

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Fonte: Blog Pedra Formosa.
Fonte: Carlota Simões, Paulo Gama Mota e Pedro Casaleiro, Museu da Ciência - Universidade de Coimbra (apresentação realizada no VIII Congresso Internacional de Cidades e Entidades do Iluminismo, Vila Real de Santo António, 2011).










**** Tratava-se da então denominada thouyoutouyou ou avestruz da América, hoje conhecida, em português, como ema. Curiosamente, nesse mesmo ano de 1808, já após o regresso de Geoffroy Saint-Hilaire a Paris (depois de ter cumprido com sucesso a missão que lhe foi incumbida nestas instruções, inclusive no que diz respeito ao transporte para a França dum exemplar - ignoramos se vivo ou embalsamado - desta ave), os Anais do Museu de História Natural de Paris publicavam um artigo sobre esta ave, embora o seu autor se tivesse baseado num exemplar observado dois anos antes em Estrasburgo: F-L- Hammer, "Observation sur le Touyou ou Autruche d'Amérique (Struthio americanus. Lin.), faites à Strasbourg en janvier 1806", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome douzième, Paris, Chez Tourneisen fils, 1808, pp. 427-433. A gravura ao lado encontra-se precisamente no artigo citado.