terça-feira, 1 de março de 2011

Napoleão e os affaires espanhóis (II)


Deixámos atrás indicadas as movimentações das tropas napoleónicas no interior da Espanha até ao fim de Janeiro de 1808. Como aí vimos, o grosso destes contingentes estava no caminho para Portugal, para não lançarem suspeitas de outras intenções. Contudo, algumas disposições do Imperador começavam a dar margem para dúvidas, como por exemplo o seguinte facto. Com cerca de 88.000 homens dentro da Península, e apesar de se encontrar então em paz com toda a Europa continental, à excepção de Portugal, ocupado pelas suas tropas, Napoleão decidia colocar à disposição do Governo francês outros 80.000 jovens, retirados antecipadamente do recrutamento obrigatório de 1809. Esta medida, decretada a 21 de Janeiro [Cf. Mercure de France, n.º CCXLI, 30 Janvier 1808, p. 238], foi conhecida na Espanha no início de Fevereiro [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 12, 9 de febrero de 1808, p. 137], deixando Godoy bastante inquietado, como ele próprio conta:

Que nova empresa tão difícil e arriscada tinha defronte Bonaparte, então em paz e em paz segura com todo o continente, aliado com a Rússia e com a Dinamarca, a Suécia invadida pela Rússia, a Prússia aniquilada, ainda mais de metade da Alemanha comprometida a seu favor por interesses próprios dela, a Itália entusiasmada do seu poder e das suas glórias e prostrada de bom ânimo a seus pés; até a Porta [Império Otomanoe até a Pérsia fazendo-lhe homenagem; e com Portugal, a única coisa que parecia faltar aos seus desejos, completamente subjugado? Faltava-lhe a Espanha. Não havia já nada mais em toda a Europa que excitasse a sua ambição e ainda faltasse ao seu domínio soberano de entre todos os vizinhos da França. 


Por outro lado, começava a anunciar-se uma viagem de Napoleão ao sul da França, notícia que foi conhecida na Espanha no início de Fevereiro

Paris, 18 de Janeiro 

Escrevem de Bordeaux que a guarda de honra destinada a receber Sua Majestade Imperial e Real, quando for àquela cidade, compor-se-á de 3 companhias, uma de 60 homens a cavalo, e duas de infantaria de igual número de soldados que a primeira. Tanto esta como as demais guardas de honra que se formaram em Toulouse, Pau e Bayonne e noutras cidades meridionais do Império para quando chegue Sua Majestade, continuam com a maior actividade exercitando-se nas manobras militares. Em Soreze formou-se um batalhão dos alunos da escola para obsequiar Sua Majestade, de cuja bondade esperam que honrará aquele importante estabelecimento com a sua presença. 


No dia 9, Godoy escrevia ao seu enviado a Paris, Eugenio Izquierdo, nitidamente preocupado pelo desprezo do Imperador francês perante o tratado de Fontainebleau; pelo que tinha acontecido a Portugal a partir do dia 1 de Fevereiro; pela contínua entrada das tropas francesas em território espanhol e pelos elevados encargos inerentes; pelo pedido que o Imperador tinha feito de alguns navios da esquadra espanhola; pelo conhecimento da saída da França do embaixador espanhol Duque de Frías, sem nada ter resolvido em relação aos interesses espanhóise talvez ainda pela notícia da partida iminente de Napoleão para a fronteira vizinha à Espanha

Não recebo cartas de Vossa Mercê; vivo na incerteza; o tratado [de Fontainebleau] feito por Vossa Mercê é como se não existisse; o Reino está coberto de tropas; os portos de Portugal vão ser ocupados pelas mesmas, e Junot manda em todas; pediram-nos os restos das esquadras, e já se deu ordem para que partam reunidas com as do imperador; o opinião geral está dividida; o príncipe sucessor implicado em juízo de desobediência; as tropas aliadas vivem sobre nós; os povos não podem mais; o subsídio paga-se sem que consideração alguma nos livre deste apuro; o empréstimo da Holanda foi feito como Vossa Mercê avisou; mas nada sabemos nem percebemos das suas vantagens; Vossa Mercê em Paris mal querido; o embaixador [duque de Frías] inútil; que diabo é isto?! E onde pararão tais dúvidas? Chamei Vossa Mercê para prestar contas; Vossa Mercê não veio, e isto excita já as minhas dúvidas. Se Vossa Mercê sabe algo, diga-o; e se o ignora Vossa Mercê, não faça mistério, pois o que importa é saber. Parte Rossi; não tenho tempo para mais; mas tenho afecto a Vossa Mercê.  
Aranjuez, 9 de Fevereiro de 1808. 
[Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 61-62 (doc. CXXVI)]. 

Alguns dias depois, aparecia publicada na Gazeta de Madrid a notícia que se insere de seguida, e que servirá de pretexto para Godoy mandar regressar a Divisão de Solano, como mais abaixo veremos:

Cádis, 12 de Fevereiro de 1808

Apesar de termos à vista 11 navios de guerra ingleses, saiu daqui um comboio de 50 velas para Sanlucar e demais portos de poente, sob a escolta de algumas embarcações menores de guerra.
A esquadra espanhola, estacionada neste porto às ordens do General Apodaca, recebeu ordem para se incorporar com a francesa do Almirante Rosily, e está pronta a fazer-se à vela ao primeiro sinal, com três meses de víveres. 


Entretanto, o General Duhesme tinha chegado a Perpignan no dia 4 de Fevereiro, para passar ao comando da Divisão dos Pirenéus Orientais. Conforme as ordens que tinha recebido de Napoleão, Duhesme devia marchar em direcção a Barcelona, onde esperaria a decisão da Corte espanhola para se dirigir para Cádis. De acordo com os próprios número de Duhesme, estavam à sua disposição cerca de 7.000 homens, repartidos entre oito batalhões de infantaria (um francês, um suíço e seis italianos e napolitanos) e três regimentos de cavalaria [Cf. "Mémoires du Général Duhesme, ou précis historique des opérations politiques et militaires, pendant qu'il a commandé en chief dans la Catalogne en 1808", in Collection complémentaire des mémoires relatifs a la Révolution Française - Tome III, Paris, chez G.-L. Michaud Libraire-Éditeur, 1823, pp. 1-104, p. 1]
Em Figueras, a poucos quilómetros da fronteira, o Governador da praça de S. Fernando só tomou conhecimento destas movimentações quando recebeu, no dia 8, uma carta de Duhesme, que lhe mandava aprontar tudo o que fosse necessário para o alojamento e subsistência das suas tropas, que entrariam naquela praça no dia seguinte. As tropas francesas entraram assim na Catalunha no dia 9, e depois de pernoitarem em Figueras, onde cerca de 800 homens foram deixados, as restantes tropas seguiram para Girona, onde pernoitaram na noite de 10. No dia seguinte, já em Calella, Duhesme recebia uma intimação do Conde de Santa Clara, Capitão-General da Catalunha, para recuar ou para pelo menos deter a marcha das suas tropas até que recebesse ordem favorável do rei espanhol.





Contudo, Duhesme seguiu no dia seguinte em direcção a Barcelona, e tendo recebido uma nova intimação, respondeu apenas que executaria a todo o custo as ordens do seu Imperador, e que esperava que o Capitão-General da Catalunha ponderasse bem no perigo e nas consequências de fechar as portas duma praça às tropas imperiais francesas, acto que poderia incendiar uma guerra entre duas duas nações aliadas. Acontece que no dia anterior ou nesse mesmo dia 12 chegava a Barcelona o Conde de Ezpeleta, com ordens da Corte para assumir o comando da Capitania-General da Catalunha (substituindo assim o Conde de Santa Clara). Com poucas horas à frente do novo cargo e ainda mais embaraçado por não ter quaisquer ordens do Governo espanhol, o Conde de Ezpeleta decidiu deixar as tropas francesas continuarem a sua marcha para Barcelona, onde começaram a entrar no dia 13 de Fevereiro. Ainda assim, apesar de Duhesme ter insistido para as suas tropas serem alojadas na cidadela e na fortaleza de Montjuic (as duas principais fortificações da cidade), o novo Capitão-General da Catalunha aquartelou-as nos quartéis e casernas de Barcelona, tendo por outro lado mandado as tropas espanholas para aquelas duas importantes fortificações. Em princípio, Duhesme não devia demorar muito em Barcelona, de acordo com as próprias ordens de Napoleão, mas conforme veremos mais abaixo, as intenções do Imperador eram outras...


Recordemos agora que, no dia 28 de Janeiro, Napoleão tinha dado ordens ao General Darmagnac para se dirigir a Saint-Jean-Pied-de-Port, a fim de passar ao comando da Divisão dos Pirinéus Ocidentais e entrar com os seus 3.000 soldados de infantaria e 12 peças de artilharia em Pamplona, no dia 9 de Fevereiro. Posteriormente devia ocupar as fortificações da cidade, particularmente a cidadela, embora sem manifestar qualquer tipo de hostilidade da parte da França, continuando a tratar com cortesia os comandantes militares e a população. A posse da cidadela tinha uma importante motivação estratégica, pois segundo Simão da Luz Soriano, "depois que D. Francisco Cisneros, regente de Castela, desmantelou todas as praças de Navarra à excepção da capital [Pamplona], é opinião seguida que será sempre senhor da província o que for senhor de Pamplona, e só será senhor de Pamplona o que for da sua cidadela, tendo sido o rei D. Filipe II o que mandara construir esta praça, que compreende armazéns de munições de guerra e de boca" [Fonte: Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal - Segunda Época - Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1870, p. 115; Cf. José Muñoz Maldonado, Historia política y militar de la Guerra de la Independencia de España contra Napoleon Bonaparte desde 1808 á 1814 - Tomo I, Madrid, Imprenta de D. José Palacios, 1833, p. 74]
Apesar da relativa facilidade em se cumprir este objectivo, dado que Napoleão teria tido conhecimento do estado reduzido de defesa em que se encontrava Pamplona (datam do dia 13 de Novembro do ano anterior as primeiras ordens conhecidas que o Imperador emitira para se recolherem informações sobre o estado desta e doutras praças fronteiriças da Espanha), parece que não foi dada a devida atenção a um grande obstáculo: os cerca de 75 km que separam Saint-Jean-Pied-de-Port e Pamplona, e mais particularmente os primeiros 25 km, até ao passo de Rocesvalles, que obrigam a uma ascensão até 1440 metros de altitude, com um desnível acumulado de 1280 metros (facto pelo qual se considerada esta a mais dura etapa do caminho francês de Santiago). Nesta dura passagem dos Pirenéus, Darmagnac foi obrigado a deixar ficar para trás cerca de 500 homens da sua Divisão com as suas 12 peças de artilharia, devido à dificuldade de transportar estas peças em caminhos cheios de neve (como se depreende de uma carta de Napoleão, abaixo transcrita). 



Tal como se tinha passado na Catalunha, estas tropas passaram a fronteira de Navarra sem qualquer acordo prévio com o Governo espanhol. Contudo, como agora o caminho a percorrer era mais curto (apesar de mais duro), os habitantes de Pamplona só se terão dado conta da aproximação das tropas quando estas já deviam estar bem perto da cidade. Aí, o Marquês de Vallesantoro, então vice-rei de Navarra (depois do Duque de San Carlos ter sido afastado desse mesmo cargo, em virtude de ser um dos implicados no processo de El Escorial), mandou acolher e acantonar os cerca de 2.500 soldados comandados por Darmagnac. Contudo, o mesmo vice-rei não lhes cedeu alojamento dentro da cidadela, como queria Darmagnac.
Godoy, ao tomar conhecimento deste facto, escreveu no dia 14 ao vice-rei de Navarra, dizendo-lhe que:

Fez mal em alojá-los dentro da cidade; mas se já aí estão, deve agir com com muita política e circunspecção até desalojá-los; disponha sobre as povoações das imediações o alojamento desta tropa enquanto se decide o seu destino; esteja em guarda e evite toda a surpresa e violência, servindo-se de paisanos armados; mas isto em último caso, pois até agora a sua vinda é como aliados. 
[Fonte: José Gómez de Arteche, Reinado de Carlos IV, Madrid, El Progreso Editorial, s.d., pp. 245-246].


Fonte: Europeana
Mapa francês de Pamplona, com a cidadela em baixo


Estas instruções, contudo, chegariam demasiado tarde... Entretanto, o vice-rei Marquês de Vallesantoro descurou a vigilância da cidadela, e segundo o Conde de Toreno, "tal era o descuido, tal era o incompreensível abandono, que até dentro da própria cidadela iam todos os dias os soldados franceses buscar as suas rações, sem que se tomassem nem sequer as comuns precauções de tempo de paz. Não estava assim desprevenido o General Darmagnac, que se tinha hospedado antecipadamente em casa do Marquês de Vesolla, porque situado aquele edifício na extremidade da esplanada e em frente da porta principal da cidadela, podia desde ali com mais facilidade observar e aguardar o momento oportuno para a execução do seu aleivoso desígnio. Vendo frustrado a sua primeira tentativa com a repulsa do vice-rei, idealizou o francês recorrer a um vergonhoso ardil. Mandou que na noite de 15 para 16 de Fevereiro passassem à sua pousada um certo número de granadeiros com as armas, dissimuladamente e um de cada vez, ao passo que na manhã seguinte escolheu alguns soldados, guiados pelo chefe de batalhão Robert, para se dirigirem à cidadela, fingindo ir buscar os víveres do costume. Nevava, e sob o pretexto de aguardar pelo seu chefe, começaram os últimos a divertir-se, atirando uns aos outros bolas de neve; distraíram com o entretenimento a atenção dos espanhóis, e correndo e brincando daquela maneira, se puseram alguns sobre a ponte levadiça para impedir que lhes atingissem. Rapidamente, e perante um sinal combinado, lançaram-se os restantes ao corpo da guarda, desarmaram os descuidados sentinelas, e apoderaram-se das espingardas do resto da tropa, colocadas no armeiro, abriram a entrada aos granadeiros ocultos em casa de Darmagnac, aos que de perto seguiram todos os demais. A traição foi executada com tanta celeridade que quando o desavisado vice-rei recebeu a primeira notícia, já os franceses tinham apropriado-se completamente da cidadela. Darmagnac escreveu-lhe então, a modos de satisfação, um ofício em que ao mesmo tempo que se desculpava com a necessidade, lisonjeava-se de que nada se alteraria a boa harmonia própria dos dois fiéis aliados: género de mofa com que fazia ressaltar a sua hipócrita conduta". [Fonte: Conde de Toreno, Historia del levantamiento, guerra y revolución de España - Tomo I, Madrid, Imprenta de J. Martin Alegria, 1848, pp. 45-46].


Enquanto tudo isto se passava na Espanha, Napoleão mantinha-se calado, sem prestar quaisquer satisfações à Corte espanhola. Contudo, apesar de algumas demonstrações no mínimo ambíguas da parte do Imperador, Carlos IV mantinha-se confiante na aliança com Napoleão, que astuciosamente o tinha confundido com a oferta de alguns cavalos, que tinham passado a fronteira espanhola no dia 1 de Fevereiro. Godoy, mais desconfiado, conseguiu convencer o rei, depois de tomar conhecimento da entrada não prevista nem acordada dos franceses em Barcelona e Pamplona (e talvez já depois de saber da tomada da cidadela de Pamplona), a que se mandasse regressar as tropas de Solano à sua localização original (Andaluzia e Extremadura), a fim de protegerem a retirada da Corte, se as intenções de Napoleão a forçassem a seguir o exemplo da família real portuguesa, partindo de Sevilha para as colónias espanholas na América. Ainda que o rei não tenha ficado muito convencido com esta ideia de Godoy (que já em Dezembro escrevera a Junot acerca dos seus receios sobre o perigo de um ataque britânico na costa andaluza), o Príncipe da Paz escreveu no dia 17 ao General Solano, para este mandar aprontar a sua Divisão para regressar à Espanha (o pretexto, novamente, era defender a costa da Andaluzia de um ataque britânico). Estas ordens terão chegado três ou quatro dias depois a Setúbal, onde se encontrava Solano, e foi certamente por este motivo que o Estado-maior das tropas espanholas que se encontravam no Algarve começou a evacuar a região apressadamente, como atrás vimos. Solano avisou então Junot das movimentações que estaria prestes a fazer, e este último escreveu imediatamente a Napoleão, no dia 23: 

O senhor General Solano mandou prevenir-me de que a sua corte lhe ordenou que saísse com as suas tropas do Alentejo e do Algarve e fosse ocupar novamente a costa da Andaluzia. 
Não tendo já poderes de comando sobre o General Solano, não me posso opor à sua partida, mas apresso-me a dar conhecimento dela a Vossa Majestade e a comunicar-lhe a posição que ficarei com as tropas espanholas depois da partida de Solano. 
A divisão de Solano tem 8.000 homens e não possui praticamente nenhuma cavalaria. 
A divisão Carrafa é mais forte, mas eu só tenho no Porto uma parte dessa divisão, pois o resto continua em Espanha, mas junto da fronteira, de modo a poder entrar logo que eu julgue necessário. Se Vossa Majestade desejar que eu tenha tropas espanholas comigo, mandarei entrar o resto da divisão Carrafa imediatamente a seguir à partida de Solano, e poderei então dividir essas tropas de maneira a ficar seguro a seu respeito, visto que, fazendo parte do exército de Portugal, poderão ser movimentadas à minha vontade. Mas continuarei a ter dificuldades no comando em relação à divisão da Galiza; creio que não tardarei a receber as ordens de Vossa Majestade a este respeito, pois já tive a honra de lhas solicitar. 
O General Solano queria começar amanhã o seu movimento retrógado, mas eu disse-lhe que isso não me era possível e decidimos, por conseguinte, que eu mandaria render no dia 28 todos os postos da margem esquerda do porto de Lisboa, o que é de grande importância para a nossa segurança, que no dia 2 de Março mandaria ocupar Setúbal e os portos da costa, e que nessa altura mandaria passar tropas suficientes para que o General espanhol pudesse iniciar o seu movimento retrógado. São-lhe precisos 7 dias para chegar a Badajoz, pelo que não estará lá antes do dia 10 de Março. Estou admirado por não ter sabido desta disposição da Corte de Espanha por intermédio do embaixador; talvez ele a desconheça e, nesse caso, ela poderia ser contrária às intenções de Vossa Majestade. É por isso que me apresso a comunicar o assunto a Vossa Majestade por um correio extraordinário. 
A partida dos espanhóis é, sem dúvida, um bem para nós, mas não basta que nos convenha: é preciso que esteja em conformidade com os desejos de Vossa Majestade. 
Aguardarei com respeito as ordens de Vossa Majestade sobre o comportamento que devo ter com as tropas espanholas que ficarem, e suplico-vos que junteis algumas instruções que me possam dar condições para cumprir com exactidão a vossa vontade Imperial. Como não me dão quaisquer instruções sobre o modo de execução das vossas ordens, os ministros de Vossa Majestade deixam-me em tal embaraço que é impossível eu não cometer erros, o que decerto acontecerá, mas Vossa Majestade dignar-se-á perdoar-me e ver neles apenas a falta de meios e não a de zelo e dedicação ao seu serviço. 
[Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp. 146-147 (n.º 96)].


Entretanto, no dia 19, a Gazeta de Madrid publicava a proclamação e os vários decretos de Junot datados de 1 de Fevereiro, que violavam nitidamente o tratado de Fontainebleau (que, recorde-se, era secreto) [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 15, 19 de febrero de 1808, pp. 177-183].



*


No início de Fevereiro, as tropas napoleónicas ocuparam Roma e prenderam o Papa. Talvez tenha sido este motivo pelo qual a sua atenção parece ter-se desviado dos affaires espanhóis, sobre os quais só começará a escrever a partir do dia 14 (de acordo com a correspondência conhecida). Nesse dia, depois do General Clarke, ministro da guerra, ter perguntado a Napoleão se a sua intenção era que as tropas e o material do parque de reserva de artilharia das Costas do Oceano se unissem, logo depois de chegarem a Bayonne, ao corpo de Observação das Costas do Oceano, em Espanha, respondeu o Imperador da seguinte forma:

Paris, 14 de Fevereiro de 1808

Não me recordo da ordem que dei a esse respeito. O Corpo de Observação das Costas do Oceano deve ter trinta e sei peças de canhão atreladas com as munições e os cartuchos de infantaria necessários. É necessário esse parque para chegar a este resultado? Nesse caso, não há qualquer dúvida que falta dar ordens para que se una ao Corpo de Observação das Costas do Oceano. Se, pelo contrário, este corpo tem as suas bocas de fogo e o que necessita independentemente do parque [de reserva], é necessário que me enviem um estado da composição da sua artilharia e um estado desse parque em Bayonne, a fim de que eu veja onde ele me poderá servir numa outra ocasião. 
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 385 (n.º 13558)].



A 16 de Fevereiro, Napoleão escreveu a Champagny, ministro  das Relações Exteriores, sobre os tais cavalos que tinha enviado de presente a Carlos IV (aqui acrescenta que também eram para Godoy), mandando avisar Beauharnais, embaixador da França junto da Corte espanhola, para reter os cavalos (contudo, Carlos IV acabará por receber este presente antes de Beauharnais ser avisado):


Paris, 16 de Fevereiro de 1808  
Monsieur de Champagny, escrevei ao senhor Beauharnais que já faz algum tempo que enviei oito cavalos ao Rei de Espanha e seis ao Príncipe da Paz. Não sei como o meu grande escudeiro dirigiu o envio desses cavalos; mas, se eles ainda não chegaram a Madrid, a minha intenção é que à sua chegada o senhor Beauharnais os retenha nas suas cavalariças, visto que não é conveniente, na situação actual, que eu faça um presente de cavalos ao Rei da Espanha. Ao dizer isto, pressuponho que esse cavalos não chegarão aí e não serão presenteados ao Rei.  
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 392 (n.º 13562)].



A 18 de Fevereiro, prevendo certamente a falta de recursos do exército napoleónico logo que fosse feita alguma manobra que pusesse os espanhóis em estado de alerta, Napoleão escreveu ao seu ministro do Tesouro Público, Conde Mollien:


Paris, 18 de Fevereiro de 1808  
Monsieur Mollien, quero que no dia 5 de Março estejam em Bayonne 2 milhões [de francos?] em ouro, numa carruagem atrelada com 8 cavalos e debaixo da guarda de um caixeiro do tesouro. Esta caixa fará parte do tesouro público, e o caixeiro terá a ordem de não pagar somente com as vossas ordens ou as minhas. Esta operação deve ser feita o mais secretamente possível. 
Enviai-me hoje um estado da situação das caixas do Corpo de Observação das Costas do Oceano, do Corpo de Observação da Gironda, e da Divisão dos Pirenéus Ocidentais. Desejo que o soldo destes corpos esteja assegurado no 1.º de Março, na suas caixas, para os meses de Março, Abril e Maio.
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 403-404 (n.º 13576)].



No mesmo dia 18, Napoleão escreve ao Ministro da Guerra, General Clarke, mandando aprontar e remeter para Bayonne uma enorme quantidade de munições, artilharia, e viaturas para transportá-las:

Paris, 18 de Fevereiro de 1808

Recebi a vossa carta de hoje com os estados relativos à artilharia do Corpo de Observação das Costas do Oceano. Dareis as ordens seguintes:
Uma companhia de artilharia a cavalo, das três que pertencem ao corpo do Marechal Moncey, passará às ordens do General Dupont, e em seu lugar o General Dupont enviará uma companhia composta do mesmo número de canhoneiros a pé. Não tenho necessidade de vos fazer perceber a razão desse movimento.  
As quatro peças de calibre 12 que estão em Bayonne, do parque de La Rochelle, juntamente com duas de calibre 4, partirão com duas companhias de artilharia a pé (das três que estão em Bayonne, que são a 20.ª do 1.º Regimento e as 7.ª e 22.ª do 5.º), igualmente para o Exército das Costas do Oceano; com a chegada das quatro peças, o Marechal Moncey terá quarenta e duas peças de canhão. 
Fareis assim partir de Bayonne quatro peças de [calibre12 e duas de 4, total seis peças, e cinco atrelados [para peças] de 12, um atrelado de obus (não sendo suficientes quinze atrelados de obus para doze obuses), um atrelado de 4, dezoito caixões [com munições] de 12, quatro caixões de 8, seis de 4, vinte e oito caixões de infantaria; total, sessenta e nove viaturas. 
Ficarão em Bayonne quatro peças de 8, quatro de 4 e quatro obuses, dois caixões de infantaria. É necessário que se complete estes caixões. 
Ao partirem duas companhias de artilharia a pé, ficará em Bayonne uma companhia, que será aumentada com uma companhia que partirá de Île d'Aix. Essas doze peças de artilharia, com um aprovisionamento de munições e metade dos caixões de infantaria mencionados, ficarão em Bayonne para servir a Divisão de Orléans. Recebereis as minhas ordens no 1.º de Março, acerca do movimento definitivo dessa artilharia. Imagino que no 1.º de Março ela estará reunida em Bayonne. Fareis partir a companhia de Île d'Aix para Bayonne. Nomeai um chefe de batalhão para comandar essas duas divisões de artilharia, que serão compostas, cada uma, de duas peças de 4, duas de 8 e de dois obuses. 
Todos os aprovisionamentos que destinardes à Divisão de Orléans, ficando assim aprovado o movimento, reunireis em Bayonne, mas sem peças. Quatrocentos cavalos podem atrelar cem viaturas. Desejo assim ter em Bayonne cem viaturas para transporte de munições, das quais quarenta serão para caixões de infantaria e sessenta para munições para canhões. Calculareis as munições para canhões de maneira a que o Marechal Moncey venha a ter, com o já tem, o dobro das munições de 12, ou seja, seis novos caixões; o dobro das munições de 8, ou seja, oito caixões; o triplo das munições de 4, ou seja, treze caixões; o que soma quarenta e cinco caixões; os outros quinze são necessários para as fráguas, ferramentas do parque de artilharia, alguns utensílios necessários para se deter o fogo quando se quer avivá-lo, etc. Este parque de cem viaturas ficará à minha disposição em Bayonne. Dar-me-ás a conhecer quando estará ele reunido, para então o dispor.  
Portanto, devo ter em Bayonne: 1.º o parque de cem viaturas atreladas pelo 6.º batalhão e pela companhia do trem, que partiram nos últimos tempos de Besançon; 2.º as doze peças que actualmente sobram do parque de La Rochelle e de Toulouse, ou seja, oitenta viaturas, das quais existem realmente cinquenta e uma. Faltará portanto vinte e nove ou trinta viaturas para completar este parque.  
Fazei-me saber o que será necessário para se preparar para o General Dupont, a fim de lhe completar o dobro do seu aprovisionamento. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 404-405 (n.º 13577)].





Perante as poucas tropas que ficavam em Bayonne, ainda no mesmo dia, Napoleão escreveu ao Comandante da Cavalaria da Guarda Imperial, Marechal Bessières, ordenando-lhe as seguintes movimentações:




Paris, 18 de Fevereiro de 1808, às duas horas da tarde

Meu Primo, fazei partir para Poitiers os quatro batalhões de fuzileiros da minha Guarda que estão em Fontainebleau, Cherbourg, Compiègne e Rouen. Eles devem dirigir-se cada um pelo seu lado, a fim de chegar a Poitiers o mais rápido possível. Observai que estejam munidos de quatro pares de sapatos, visto que consumirão um par no seu caminho até Poitiers, a fim de que possam partir de Poitiers com uma par de sapatos nos pés e dois na mochila. Dareis ordens para que eles estejam com as fardas novas, que tenham os seus capotes, e que não lhes falte de nada.  
Fazei partir trinta padeiros, um ordenador, todos os caixões [de munições] e todos os caixões do hospital ambulante que vos restam, juntamente com um número proporcional de cirurgiões, e um outro comissário de guerra. 
O Coronel-Major Boyer irá com toda a rapidez para Poitiers, para chegar aí antes das tropas. Ele não prepará estabelecimento algum para as tropas antes de chegar a Poitiers. Aí, ele procurará apenas alguns cavalos ou mulas para substituir os cavalos da artilharia, que, com a viagem, estejam fatigados. Tereis o cuidado que tudo isto parta amanhã de Paris antes das cinco horas da manhã, a fim que ninguém se aperceba de movimento algum em Paris. 
Fazei partir de La Fère oito peças de canhão com os caixões e aprovisionamentos necessários. 
Fareis partir destacamentos de caçadores a cavalo, de granadeiros a cavalo, e de dragões, de maneira que o corpo que está em Bordeaux ceda 200 homens por esquadrão e em condições de fazer uma campanha. Fareis partir os polacos que restam, tendo o cuidado de fazer partir somente os homens em boas condições e munidos de tudo. Fareis partir cem gendarmes de elite. 
Vereis o ministro da guerra para aproveitardes o correio que ele expedirá daqui a três horas, para enviar a ordem ao General Lepic para partir de Bordeaux com toda a minha Guarda, infantaria, cavalaria e artilharia, para chegar a Bayonne a 1 de Março, o mais tardar no dia 3. Dou estes três dias a mais para que ninguém faça alguma marcha forçada. 
Pelo mesmo correio fareis passar uma carta do Grão-Marechal Duroc a Canisy, pela qual lhe dará a ordem de partir com todos os meus cavalos, viaturas, atrelados, para seguir o movimento da minha Guarda até Bayonne.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 406-407 (n.º 13578)].



A 20 de Fevereiro, Napoleão volta a escrever ao seu ministro do Tesouro Público, Conde Mollien, acerca da coordenação da tesouraria dos exércitos estacionados na Espanha:


Paris, 20 de Fevereiro de 1808  
Monsieur Mollien, é necessário que se coordene o serviço da tesouraria na Espanha. Consequentemente, a minha intenções é que nomeeis um pagador geral encarregado de centralizar os serviços do Corpo da Gironda, do Corpo de Observação das Costas do Oceano, da Divisão dos Pirenéus Ocidentais e da Divisão dos Pirenéus Orientais. Este pagador geral partirá sem demora e estará no dia 28 de Fevereiro em Bayonne. Ele tomará o título de Pagador geral dos corpos do exército na Espanha. Podereis dispor na sua caixa os dois milhões que eu vos disse para dispordes à minha disposição em Bayonne. Percebereis que é necessário um homem duma grande probidade e duma grande inteligência. Como a Divisão dos Pirenéus Orientais se encontra afastada de Bayonne para a sua marcha sobre Barcelona, será necessário, para esse corpo do exército, nomear um pagador particular às ordens do pagador geral, e, para assegurar antecipadamente o serviço para Março e para Abril, fazer fornecer os fundos necessários para o pagador da 10.º divisão militar, que contará com a primeira remessa que vai com o pagador geral. Todo isto simplificará o serviço da tesouraria, e tudo estará em ordem.
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 41-412 (n.º 13585)].




No mesmo dia 20 de Fevereiro, Napoleão escreveu a seguinte carta ao General Clarke:


Paris, 20 de Fevereiro de 1808  
Monsieur General Clarke, a conduta do General Darmagnac é a dum homem sem experiência alguma. Enviai um dos vossos oficiais a Pamplona, e encarregai-o de fazer dirigir a artilharia do General Darmagnac até esta praça. Ele tarda em me informar se essa pequena Divisão [de Observação dos Pirenéus Ocidentais] tem as suas doze peças de canhão. Esse General deverá ser mais ágil e mostrar menos receios.
Enviai um outro oficial a Barcelona para levar a ordem ao General Duhesme para ter as suas tropas reunidas e em regra, a fim de poder, perante qualquer acontecimento, servir-se da praça e das tropas que aí se encontram. Suponho que ele já domina os fortes e a cidadela. Não vejo nas suas cartas em que localização esteja a praça de Figueras e os outros fortes que estão entre Barcelona e a França; que guarnições aí estão, e quem é senhor delas. O oficial que enviareis recolherá informações sobre todos estes assuntos, sobre as munições de guerra, tropas e meios de defesa na Catalunha. O oficial que enviareis a Pamplona recolherá as mesmas informações em Biscaia; e daqui irá até Aranda [del Duero]. Através dos mesmos oficiais, enviareis ao Marechal Moncey a quantia de 50.000 francos, da qual ele prestará contas, para despesas de correios, despesas secretas e outras da mesma natureza. Enviareis igualmente a quantia de 2.000 francos ao General Darmagnac para o reembolso das suas despesas, e dar-lhe-eis ordem para manter em Pamplona a Divisão dos Pirenéus Ocidentais, cujo comando passará ao General Merle. Dareis ordem ao General Merle, que está em Vitória, para se dirigir para Pamplona a fim de tomar o comando da Divisão dos Pirenéus Ocidentais, ocupar a cidadela e conciliar tudo; mas que, antes de mais, que tenha reunida a sua artilharia. Poreis à disposição deste General a quantia de 6.000 francos. Poreis igualmente à disposição do General Dupont 50.000 francos para despesas de correios, despesas secretas, etc. Estes Generais prestar-vos-ão contas do emprego dessas somas, a fim de que as possais juntar aos serviços da artilharia e da engenharia as despesas dos seus serviços, e para que lhes seja imediatamente reembolsado o que retiraram para o serviço geral, seja das caixas da engenharia, seja da caixa da artilharia.  
Antes de expedirdes os vossos oficiais, tereis o cuidado de muni-los com as ordens do tesouro público para os pagadores. Fareis igualmente dar 15.000 francos ao General Duhesme com o mesmo fim.  
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 412-413 (n.º 13586)].



No mesmo dia, Napoleão volta a escrever ao General Clarke, notando-se bem a preocupação do Imperador até ao mais pequeno detalhe:


Paris, 20 de Fevereiro de 1808  
Monsieur General Clarke, desejo que investigueis e que me apresenteis um relatório sobre os regimentos suíços e irlandeses que os espanhóis têm ao seu serviço, e quais são os meios, em caso de algum acontecimento, de se conciliarem uns com os outros. Os regimentos irlandeses são compostos de verdadeiros irlandeses? 
Napoleão 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 413 (n.º 13587)].



Nesse mesmo dia 20, Napoleão nomeia inesperadamente o seu cunhado Joachim Murat, Grão-Duque de Berg, de Comandante em Chefe do exército francês em Espanha, sob o título de Tenente do Imperador. Murat foi informado desta nomeação nessa noite, através do seguinte ofício do Ministro da Guerra, General Clarke:


Paris, 20 de Fevereiro de 1808  
Meu senhor: 
Tenho a honra de prevenir Vossa Alteza Imperial que Sua Majestade o Imperador e Rei nomeou-vos Tenente-General para comandar todas as tropas que estão na Espanha.  
A intenção de Sua Majestade é que Vossa Alteza Imperial parta esta noite para passar o vosso Quartel-General a Bayonne. Sua Majestade deseja que Vossa Alteza esteja naquele lugar no dia 26 de Fevereiro, o mais tardar a 27. 
Sua Majestade designou o General Belliard para chefe do Estado-Maior de Vossa Alteza, e dei-lhe ordem para se dirigir para esse efeito até Bayonne, e enquanto se espera que ele aí chegue, ordeno ao Ajudante-Comandante Bailly de Monthion para se dirigir para aí imediatamente, a fim de cumprir provisoriamente as mesmas funções. 
O General Lariboisière foi nomeado comandante em chefe da artilharia; terei a honra de informar Vossa Alteza Imperial acerca do oficial General que Sua Majestade designou para comandar o corpo de engenheiros, assim como od inspector de revistas ou do ordenador que será nomeado para cumprir as funções de Intendente-Geral.  
A intenção de Sua Majestade é que o senhor Marechal Moncey, comandante em chefe do Corpo de Observação das Costas do Oceano, cujo Quartel-General está em Burgos, o senhor General Dupont, comandante em chefe do [2.ºCorpo de Observação da Gironda, cujo Quartel-General está em Valladolid, o General Duhesme, comandante da Divisão de reserva dos Pirenéus Orientais, cujo Quartel-General está em Barcelona, e o General comandante da Divisão de reserva dos Pirenéus Ocidentais, cujo Quartel-General está em Pamplona, estejam sob as ordens de Vossa Alteza Imperial, e que lhe transmitam todos os dias os estados da situação.  Dei-lhes ordens necessárias para esse efeito. Vossa Alteza Imperial comandará também a parte da Guarda Imperial que se encontra em Bordeaux e que tem ordem de estar em Bayonne entre os dias 1 e 3 de Março.  
Vossa Alteza Imperial está autorizada, em todos os casos imprevistos, a dar instruções e ordens para assegurar a tranquilidade e a segurança das suas tropas. O General comandante da 11.ª divisão militar, tal como o ordenador e os directores da artilharia e da engenharia dessa divisão estarão debaixo das ordens de Vossa Alteza, que poderá extrair deles tudo o que julgue conveniente.  
Enquanto se espera que Vossa Alteza Imperial receba os estados da situação desses corpos do exército e divisões, junto aqui um estado sumário que dará a conhecer a sua força a Vossa Alteza.
[Fonte: Lettres et Documents pour servir a l'histoire de Joachim Murat (1767-1815) - Tome V, Paris, Librairie Plon, 1911, pp. 282-283 (n.º 3021)].




O próprio Napoleão escreveu então a Murat, enviando-lhe as seguintes instruções acerca dos corpos debaixo do seu comando:

Fonte: Wikipedia
 Joachim Murat
segundo François Gérard (1806)

Paris, 20 de Fevereiro de 1808  
O meu Ministro da Guerra deve ter-vos feito saber que eu vos nomeei meu Tenente junto do meu exército na Espanha. O 2.º Corpo da Gironda, comandado pelo General Dupont; o Corpo de Observação das Costas do Oceano, que era comandado pelo General Mouton e que acabei de dar ao General Merle; a Divisão dos Pirenéus Orientais, comandada pelo General Duhesme; o destacamento da minha Guarda a pé e a cavalo, comandado pelo General Lepic; as tropas que formam os Regimentos provisórios n.os 16, 17 e 18; e os cinco batalhões das legiões da reserva que se completarão em Bordeaux; formam os exércitos para os quais vos nomeei meu Tenente, e aos quais deveis, nessa qualidade, dar todas as ordens necessárias durante a minha ausência. O [2.º] Corpo da Gironda tem o seu Quartel-General em Valladolid; o das Costas do Oceano em Burgos; a Divisão dos Pirenéus Ocidentais está em Pamplona; e a dos Pirenéus Orientais está em Barcelona; a Divisão da minha Guarda tem ordens para estar entre os dias 1 e 3 de Março em Bayonne; finalmente, o General Savary partiu hoje para Orléans, e é provável que, amanhã ou depois de amanhã, os Regimentos provisórios n.os 16, 17 e 18 estarão a caminho de Bordeaux. Antes que eles cheguem, farei conhecer-vos o destino dessas tropas. 
Os Regimentos provisórios de cavalaria serão reunidos em Poitiers. O Ministro da Guerra fazer-vos-á conhecer a formação de mais regimentos de marcha que vão reforçar os regimentos de cavalaria que tenho em Espanha. Mais regimentos de infantaria, de marcha, independentemente dos Regimentos provisórios reunidos em Orleáns, formar-se-ão igualmente para irem reforçar os doze primeiros Regimentos provisórios que estão no Corpo do Marechal Moncey. O General Lariboisière comanda em chefe a artilharia e vai para Bayonne. Dei ordem ao Ministro do Tesouro Público de enviar para aí um pagador geral. Foi nomeado um comandante em chefe da engenharia, tal como um ordenador em chefe com funções de intendente. 
Fareis avançar um dos vossos Ajudantes de Campo, que passará a Valladolid, e um outro que passará a Burgos, para que se perceba o estado da situação do Corpo do Marechal Moncey e do Corpo do General Dupont. Enviareis um terceiro a Pamplona, para conhecer a situação da Divisão dos Pirenéus Ocidentais. Escrevereis, através desses Ajudantes de Campo, aos Generais, para lhes dar a conhecer a vossa chegada a Bayonne e dar-lhes instruções necessárias em caso de acontecimentos imprevistos. 
O General Dupont deve ter 300.000 rações de biscoito, ou seja, víveres para o seu corpo do exército durante quinze dias. Outras 300.000 rações devem ter sido transportadas de Bayonne a Vitória; o que dá assim víveres para quinze dias ao Corpo do Marechal Moncey. Dai ordem para que estes víveres sejam transportados para Burgos, e para que ele mande confeccionar mais nessa última cidade, a fim de que os quinze dias de víveres do Corpo do Marechal Moncey estejam bem assegurados. 
O General Lariboisière, Comandante da artilharia, que conhece todas as ordens que eu dei, dirigirá os movimentos dos diferentes parques [de artilhariade acordo com as minhas intenções. 
Vereis pela correspondência que vai inclusa, da qual tomareis conhecimento e que reenviareis seguidamente ao Ministro da Guerra, que o General Darmagnac, que tinha o comando da Divisão dos Pirenéus Ocidentais, não entrou na cidadela de Pamplona e contentou-se em ocupar a cidade. Foi uma grande imprudência ter entrado na cidade com 2.500 homens sem a sua artilharia. A sua Divisão deve ter agora a força de 3.000 homens; é necessário enviar-lhes sem demora as doze peças de artilharia que lhes estão agregadas, fazendo esta artilharia um desvio pela estrada principal, dado que não pode ser enviada directamente por causa das neves. Quando estiverdes seguro que as doze peças de canhão estejam em Pamplona, e que o General Merle, ao qual acabo de dar o comando dessa divisão, aí tenha chegado, escrevereis ao Comandante General de Navarra que tendes a necessidade de ocupar a cidadela de Pamplona, a fim de ter a minha retaguarda em segurança; que estou em paz com o Rei de Espanha, mas que tal medida é necessária pois os interesses comuns obrigam as minhas tropas a entrar na Espanha, que as últimas estejam em segurança, etc. De resto, encarregareis aqueles que envieis para lá de assegurar aos habitantes da província que, quaisquer que sejam os eventos que possam ocorrer, eu serei o primeiro a defender a integridade dos seus privilégios. 
Depois da cidadela de Pamplona, a mais importante é a de San Sebastián. Enviareis alguém para ver a situação em que ela se encontra, e, se merecer a pena, a fareis ocupar, tal como todas as outras fortalezas que se encontrem entre Valladolid e Pamplona e a França, a fim de que as nossas retaguardas do exército estejam perfeitamente tranquilas.  
O Ajudante de Campo que enviareis ao General [sic] Moncey irá até Aranda del Duero, e mandareis o General Dupont enviar-vos o itinerário de Valladolid a Madrid, e mandareis o Marechal Moncey enviar-vos os itinerários de Aranda a Valladolid e de Burgos a Aranda e a Madrid, fazendo conhecer as posições, as montanhas e o número de dias gastos para os percorrer. 
As vossas comunicações com os comandantes espanhóis devem ser amigáveis, e não deveis dar outra explicação sobre a ocupação das fortalezas para além da necessidade de garantir a segurança à retaguarda do exército. Se se der o caso que o Comandante General de Navarra se recuse a render a fortaleza de Pamplona, empregareis as tropas do Marechal Moncey para o forçar. 
De resto, é inútil que tenhais alguma comunicação com a Corte de Espanha até que eu vos dê a ordem. 
O principal, antes de tudo, é ocupar a cidadela de Pamplona. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 413-416 (n.º 13588)].




Ainda na mesma noite, Napoleão volta a escrever mais instruções ao Grão-Duque de Berg. Note-se novamente a preocupação de Napoleão em deter a cidadela de Pamplona, que já estava nas mãos de Darmagnac há alguns dias atrás (mas cujas notícias ainda não tinham certamente chegado a Paris):


Paris, 20 de Fevereiro de 1808  

Enviei-vos esta manhã as vossas instruções; eis o que tenho a acrescentar.
Dois batalhões de caçadores da minha Guarda, comandados pelo General Friederichs e formando 1.200 homens; seis peças de artilharia; um regimento polaco; um esquadrão de caçadores da minha Guarda, com a força de 200 homens; um esquadrão de granadeiros a cavalo da minha Guarda, com a mesma força; um esquadrão de dragões e 160 gendarmes de elite, formando um total de quase mil homens da minha Guarda, devem chegar a Bayonne no dia 1 de Março. Deixareis para trás um destacamento por corpo, composto pelos homens mais fatigados; garantireis a sua estadia em Bayonne, e, no dia seguinte ou no dia 3, fareis dirigi-los para Vitória, onde eu desejo que eles cheguem, se for possível, entre 8 e 10 de Março. Deixareis na fronteira da Espanha um oficial da gendarmaria de elite com 20 homens, a fim de supervisionar todos os movimentos e de conter a deserção. Este oficial enviará todos os dias ao General Savary, que estará perto de mim, um relatório sobre o que se vai passando. Desejo por este meio ser bem informado de todos os destacamentos, batalhões e transportes de víveres que por aí passem. 
Dei ordens para que saíssem 500 mulas de carga dos territórios bascos, e que se conseguisse com que os condutores fossem franceses.
Acima de tudo, o que mais me importa é que a cidadela de Pamplona seja ocupada pelas minhas tropas, a fim de que a Divisão Merle fique disponível [para outras movimentações]. A partir do momento em que se possua esta cidadela, guarnecerão-na 600 ou 700 homens tirados dos três pequenos batalhões que estão na Divisão dos Pirenéus Ocidentais; colocar-se-á nela também um comandante, um comissário de guerra, um oficial de engenharia, um oficial de artilharia com um meia companhia de artilharia, para procederem sem ostentação ao armamento da cidadela, a disporem a salvo do perigo de ser atacada e em condições de se impor sobre o território.
Tenho em Bordeaux cinco batalhões, que são os 4.os das cinco legiões da reserva. Os cinco batalhões não formam mais que uma força de 1.400 homens; mas 1.600 homens que eu chamei das companhias departamentais devem passar a Bordeaux, o que eleva esses batalhões a 3.000 homens, situação suficiente, dado que esses batalhões são somente quatro companhias. Dei ordens para que esses regimentos formem uma segunda brigada sob as ordens dum general de brigada, e que essa brigada faça parte da divisão dos Pirenéus Ocidentais, que é comandada pelo General Merle. Na vossa passagem por Bordeaux, tereis o cuidado de falar com o General Drouet, que aí comanda a divisão militar, para que ele passe revista a esses batalhões e para que active o melhor possível a sua organização, pois a minha intenção é que esses cinco batalhões estejam o mais cedo possível em Pamplona ou Hondarribia. 
Logo que a cidadela de Pamplona seja ocupada pelas minhas tropas, dareis ordem à 3.ª Divisão do Corpo do Marechal Moncey para passar a Vitória e a Burgos, a fim de que Vitória fique desembaraçada para receber a minha Guarda. Ao fazê-la partir, ordenareis então que ela deixe piquetes desde a fronteira até Vitória, para poder vos escoltar; pois é impossível que tenhais rapidamente o vosso Quartel-General em Vitória.  
Se, pelo contrário, tardardes a apoderar-vos da cidadela de Pamplona, será necessário que essa 3.ª Divisão do Corpo do Marechal Moncey se movimento até à praça e exija seriamente que a cidadela seja rendida. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 416-418 (n.º 13589)].



Murat partiu de Paris no dia 22, tendo o Imperador enviado-lhe ainda no mesmo dia a seguinte carta:


Paris, 22 de Fevereiro de 1808  

O Marechal Moncey passou um contrato para se fazer vinte mil pares de sapatos em Bayonne. Indicai-me eles estão feitos. O Ministro Dejean expediu 12.400 pares de sapatos no dia 20 de Janeiro, que devem chegar nos primeiros dias de Março. Dar-me-ás a conhecer quando chegarem, e se são de boa qualidade. A minha intenção é que seja dado um par a cada homem, na sua passagem [por Bayonne]. Se os vinte mil pares encarregados pelo Marechal Moncey estão armazenados, fazei-os transportar para Burgos. É bastante importante que se tenha muitos sapatos. 
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 436 (n.º 13595)].



A 25 de Fevereiro, Napoleão escreve a M. de Tournon, seu Ajudante de Ordens:


Paris, 25 de Fevereiro de 1808  

Ireis a Madrid; na vossa passagem por Bordeaux, ireis até ao General Comandante, e sereis informado sobre a situação dos 4.os batalhões das cinco legiões da reserva, bem como sobre os 1.600 homens que eu chamei, há já dois meses, para completar os cinco batalhões. Remeter-me-eis assim uma relação que me dê a conhecer a situação de cada batalhão, pondo o número das companhias de cada batalhão, o número original dos homens que eles tinham na reserva, e o número de homens que aí foram incorporados. 
Daí, partireis para Bayonne; remetereis a carta adjunta [não se encontra na correspondência publicada] ao Grão-Duque de Berg; dar-me-eis a conhecer o que chegou ao vosso conhecimento, a localização e a situação da minha Guarda. Escrever-me-eis de Bordeaux e de Bayonne através do estafeta que parte todos os dias dessas duas cidades para Paris. Se a minha Guarda já tiver partido de Bayonne, escrever-me-eis de Vitória, recolhendo as vossas informações no caminho até ao General Lepic, que a comanda. 
Em Burgos, escrever-me-eis sobre as tropas que tenhais encontrado e as que fosseis informado. O estafeta parte igualmente de Burgos todos os dias. 
Daí, ireis para Madrid pelo caminho mais curto, e remetereis a minha carta ao Rei. Esperareis a resposta da Corte de maneira a ficardes cinco ou seis em Madrid e a estardes em Burgos no dia 15 de Março. Tereis o cuidado de me escrever pelo correio que o senhor Beauharnais enviará, dando informações vagas e sem que possais fazer suspeitar que tendes conhecimento dos meus projectos. 
Ao passardes por Poitiers, vereis os destacamentos de cavalaria que aí estão, tal como os esquadrões de marcha que aí foram formados.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 444-445 (n.º 13603)].



A carta dirigida a Carlos IV, que Napoleão se refere no documento acima transcrito, é a seguinte. Os comentários ficam para os leitores:


Paris, 25 de Fevereiro de 1808  

Senhor meu Irmão, Vossa Majestade, na vossa carta de 18 de Novembro passado, fizestes-me o pedido duma princesa francesa para o príncipe das Astúrias [D. Fernando]. Respondi, a 10 de Janeiro, que o consentia. Vossa Majestade, na vossa carta de 5 de Fevereiro, não me falais mais desse casamento. Com tudo isto ficam na escuridão os assuntos importantes para o interesse dos meus povos. Espero, pela vossa amizade, que me esclareça todas as minhas dúvidas.
[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 445 (n.º 13604)].



Entretanto, o segredo da missão de Murat tinha sido bem guardado. A sua partida de Paris foi anunciada logo no dia 23, no Journal de l'Empire, embora se indicasse que o seu destino era o Grão-Ducado de Berg... A própria Gazeta de Madrid repetirá este dado desinformativo [cf. Gazeta de Madrid, n.º 20, 8 de marzo de 1808, pp. 239-240]...
Murat chegaria a Bayonne na noite de 25, tendo no dia seguinte escrito várias cartas aos comandantes dos corpos estacionados na Espanha, informando-lhes da sua nomeação de Tenente Geral dos mesmos corpos, e passando as instruções que tinha recebido. Ora, como o próprio Murat assumia nalgumas dessas cartas (dirigidas nomeadamente a Moncey, a Duhesme e a Dupont), entre as ordens que tinha recebido contava-se o instruir esses mesmos comandantes em caso de acontecimentos imprevistos. Contudo, esta tarefa era difícil, dado que ele próprio não conhecia as verdadeiras intenções do Imperador nem os seus projectos posteriores [Cf. Lettres et Documents pour servir a l'histoire de Joachim Murat (1767-1815) - Tome V, Paris, Librairie Plon, 1911, pp. 289, 291 e 293 (cartas n.os 3027,  3029 e 3030)]. A missão secreta de Murat era assim, pelo menos em alguns pontos, secreta para ele mesmo... 
Vejamos agora a carta que Murat escreveu a Napoleão, na noite de 29:


Bayonne, 29 de Fevereiro de 1808, às 11 horas da noite 

Sire, acabei finalmente de receber as notícias oficiais de Pamplona, e ansiosamente envio a Vossa Majestade a cópia do relato do General Darmagnac, que está desolado, vendo-se caído da graça de Vossa Majestade pelo envio do General Merle, para comandar esta divisão. O Ajudante de Campo que me trouxe a sua carta disse-me que as nossas tropas começavam a viver em harmonia com os habitantes, mas que ele não se devia fiar nessa aparente amizade, e que uma ninharia poderia induzir um levantamento geral em toda a Navarra. Até à tomada da cidadela [de Pamplona], os franceses eram vistos na Espanha sem assombro e sem receio; mas conhecendo-se a notícia da ocupação dessa fortaleza, a consternação foi geral em toda a Espanha. Relata-se por aqui que o Príncipe da Paz, logo que recebeu a notícia, disse: "Ora bem, dado que os franceses agem assim, temos que vê-los como inimigos e preparar-nos para combater". É contudo difícil de crer que o Príncipe da Paz fosse capaz de uma tal imprudência; mas o que se consta bem evidentemente é que ele é detestado em todo o lado, tal como a Rainha. O Rei é um ser nulo, e não inspira mais que desprezo. 
Não tenho notícias nenhumas do senhor Marechal Moncey nem dos senhores Generais Dupont e Duhesme. 
Ontem passei revista a todos as reservas que se encontram aqui pertencentes aos diferentes corpos do exército de Espanha e de Portugal. Escolhi 260 homens de infantaria e 60 homens de cavalaria que partirão amanhã. Farei partir sucessivamente e por destacamentos todos os que aqui cheguem. Não permitirei que Bayonne fique em desordem. O chefe do Estado-Maior fará amanhã a visita ao hospital e designará igualmente para partir todos os que estiverem em estado de marchar. É surpreendente que estejam ali 300 sarnentos. Ordenei que todos aqueles que não mostram muitos sinais de sarna se dirigissem aos seus corpos para aí serem tratados com os outros sarnentos. 
A artilharia destinada à Divisão dos Pirenéus Ocidentais chegou ontem à noite e não partirá antes de amanhã, por ter necessidade dum dia para se recuperar; ela chegará ao seu destino [Pamplonapor volta de 6 de Março. 
Um trem de artilharia partirá daqui no dia 3 de Março para o corpo do senhor Marechal Moncey: terei a honra de enviar uma relação a Vossa Majestade no momento da sua partida. 
O pagador geral chegou ontem à noite. De acordo com as instruções que tenho, parece que o soldo está assegurado em todos os corpos até ao 1.º de Março. O senhor General Lariboisière, o ordenador em chefe e o comandante da engenharia não chegaram ainda. 
O intendente espanhol que está estabelecido em Irun para a subsistência das tropas francesas de passagem, pede que sejam extraídas de França à volta de 80 mil rações de aveia. Pensei poder permitir a exportação de 40 mil, depois de me assegurar que os Generais em chefe que me precederam não o fizeram. Prescrevi por excesso todas as medidas de precaução para que não se abuse dessa autorização. Esta quantidade parece-me suficiente por agora.
Vossa Majestade encontrará em anexo o estado da situação da praça, assim como dos seus movimentos.
Recebi à instantes a relação do oficial de engenharia que enviei a San Sebastián, assim como uma espécie de esboço da praça e do forte; ele parece-me bastante mal feito, de maneira que será difícil tomar um partido através dele. Contudo, crê-se em geral que será útil fazê-la ocupar, e já o teria feito, se tivesse tropas à minha disposição nas vizinhanças. De resto, Vossa Majestade decidirá a sua importância na sua chegada e dará ordens para a sua ocupação. É uma cidade que oferece recursos e é um ponto essencial de observação relativamente ao mar. O senhor Bataille, Ajudante de Campo do Vice-Rei de Itália, que chegou à instantes de Portugal, garante-me ter deixado este país na maior tranquilidade. A contribuição imposta por Vossa Majestade parece muito pesada, e em geral crê-se que seja impossível que seja paga. Os espanhóis ficaram com grandes receios, "pois - dizem eles - se o Imperador impõe cem milhões sobre Portugal, quanto imporá sobre a Espanha?".
Não tenho postos de correio à frente do Quartel-General: Vossa Majestade sentirá sem dúvida a necessidade de estabelecer um. Peço-o por querer dar as devidas ordens para o efeito. 
O Duque de Frías chegou ontem à noite vindo da França, mas ele deve repousar ainda três dias para partir com Izquierdo, que lhe escreveu de Paris para esperar por ele.
[Cf. Lettres et Documents pour servir a l'histoire de Joachim Murat (1767-1815) - Tome V, Paris, Librairie Plon, 1911, pp. 298-299 (carta n.º 3039)]




No mesmo dia, em Irun, no outro lado da fronteira, era escrita a seguinte carta, dando conta dos destacamentos que continuaram a passar durante o mês de Fevereiro por aquele que era o principal ponto de entrada das tropas de Napoleão na Espanha (recorde-se que por ali tinham passado os corpos de Junot, Dupont e Moncey):


Irun, 29 de Fevereiro.

As notícias da passagem das tropas francesas por esta vila perderam parte do seu interesse desde que outros corpos da mesma nação entraram por diferentes pontos da fronteira.  
O resumo das que passaram por aqui durante todo este mês é o seguinte: 
Já dissemos que no dia 1 chegaram 1.800 homens de infantaria.  
Entre os dias 2 e 5 passaram 7.000 homens da mesma classe. Passou também o General de Divisão Príncipe de Isemburgo, Coronel do regimento do seu nome. 
Entre os dias 6 e 17 passaram uns 1.300 homens de infantaria e 200 de cavalaria em vários destacamentos. No mesmo período passaram os Generais Merle, Couin, Hortoland e Quenell. 
Nos dias 18 e 19 chegaram 1.158 homens. 
No dia 20 chegou um batalhão suíço de 535 homens com destino a Pamplona, e uma partida de 35 franceses. 
No dia 21 entraram 5 carros com dinheiro, escoltados por 95 homens. 
No dia 22 entraram outros 5 carros com sapatos, botas, etc., com 55 homens. 
Do dia seguinte até a data presente passaram 634 homens em diferentes partidas.
[Fonte: Gazeta de Madrid, n.º 20, 8 de marzo de 1808, p. 240].

*


Finalmente, regressemos a Barcelona, onde, como acima se viu, as tropas de Duhesme tinham entrado no dia 13 de Fevereiro, para aí aguardarem ordens da Corte espanhola para poderem continuar a sua marcha para Cádis, conforme as próprias ordens que tinham sido emitidas por Napoleão. Nos dias seguintes, enquanto estas ordens não chegavam, o General francês conseguiu chegar a um acordo com o Capitão-General da Catalunha, debaixo de pretextos de honra e de boa harmonia, para poder distribuir parte das suas tropas na guarda das portas das muralhas de Barcelona, incluindo a que abria para a cidadela. 

Mapa de Barcelona (1806)
À esquerda situa-se a fortaleza de Montjuic, e à direita a cidadela (hoje desaparecida).


Ao tomar conhecimento da entrada destas tropas na Catalunha, Godoy, em Madrid, tentando evitar que voltasse a acontecer o mesmo que tinha sucedido em Pamplona, enviou a toda a pressa para Barcelona um Tenente Coronel de Artilharia, D. Joaquín de Osma, com instruções para o Capitão-General da Catalunha, o Conde de Ezpeleta, avisando-o que ao mesmo tempo que procurasse conservar a boa assistência e harmonia com os franceses, devia estar de guarda sobre qualquer tentativa dos mesmos para tomar de surpresa a cidadela e a fortaleza de Montjuic (bem como noutras fortificações da Catalunha), como tinham feito em Pamplona [Cf. Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 367-369]. Joaquín de Osma chegou a Barcelona no dia 27, onde comunicou estas instruções, que por sua vez foram remetidas aos comandantes militares da cidade. Entretanto,  antes mesmo de receber estas instruções, talvez por estar pré avisado da tomada da cidadela de Pamplona, o conde de Ezpeleta tinha mandado vigiar e controlar de perto os destacamentos franceses espalhados pela cidade, que eram sempre escoltados por batalhões de tropas espanholas. 
Entre este cenário, e continuando à espera das ordens da Corte espanhola ou de Napoleão para retomar a sua marcha para Cádis, Duhesme recebia no dia 28, às nove horas da manhã, uma carta vinda de Paris, onde o Ministro da Guerra francês lhe indicava que o Imperador o supunha dono da cidadela e de Montjuic. Como escreverá o próprio General Duhesme em 1814, já depois da queda de Napoleão, "é necessário chamar aqui a atenção sobre o maquiavelismo do Gabinete de Saint-Cloud: negou-se a dar ordens para se executar uma empresa desta importância, e no entanto a supunha executada". [Cf. "Mémoires du Général Duhesme, ou précis historique des opérations politiques et militaires, pendant qu'il a commandé en chief dans la Catalogne en 1808", in Collection complémentaire des mémoires relatifs a la Révolution Française - Tome III, Paris, chez G.-L. Michaud Libraire-Éditeur, 1823, pp. 1-104, p. 7]
Perante esta notícia, não havia tempo a perder, e Duhesme chamou o General Lechi para combinar um ataque surpresa. As tropas francesas foram convocadas sob o pretexto de irem fazer uma última revista antes de partirem para Cádis, e enquanto os espanhóis estavam distraídos com o aparato, um batalhão de soldados franceses entrava na cidadela, cuja guarnição, composta por dois batalhões de tropas espanholas, não teve tempo de reagir e pegar nas armas. Seguidamente, um segundo batalhão francês forçou a saída da guarnição espanhola. Ao mesmo tempo que estas ordens tinham sido dadas, parte das tropas francesas dirigiu-se ao forte de Montjuic, que era guarnecido por cerca de mil homens. O comandante do forte, Mariano Álvarez de Castro, ao avistar a aproximação dos franceses, mandou levantar a ponte levadiça, avisando que não os deixaria entrar sem receber ordem do Capitão-General. Duhesme voltou a insinuar ameaças do mesmo teor das que tinha feito quando recebera a intimação para recuar as suas tropas, antes mesmo de chegar a Barcelona. Para além disso, dava como pretexto para as suas tropas ocuparem as duas fortificações o facto de se notar uma atitude hostil na população de Barcelona, que poderia pôr em perigo a vida de um exército aliado. Apesar das instruções que tinha recebido de Godoy, o Conde de Ezpeleta acabou por ceder, querendo evitar que se iniciasse uma guerra com uma nação que continuava a apregoar-se aliada. Por volta da meia-noite, os espanhóis evacuaram o forte e permitiram a entrada dos franceses. [Cf. "Mémoires du Général Duhesme, ou précis historique des opérations politiques et militaires, pendant qu'il a commandé en chief dans la Catalogne en 1808", in Collection complémentaire des mémoires relatifs a la Révolution Française - Tome III, Paris, chez G.-L. Michaud Libraire-Éditeur, 1823, pp. 1-104, pp.6-8].




*



Acabava assim o mês de Fevereiro de 1808 com pouco menos de 110.000 soldados dos exércitos napoleónicos dentro da Península (dos quais somente 27.500 estavam em Portugal), e com a ocupação de três importantes praças-fortes espanholas, sem um único tiro disparado (e ainda com uma guarnição considerável em Figueras, onde se encontrava talvez o melhor forte de toda a Espanha, o chamado castillo de San Fernando). Por outro lado, uma enorme quantidade de munições e artilharia, bem como grande parte da Guarda Imperial, tropa de elite de Napoleão, começava a chegar a Bayonne. Em breve, os piores receios de Godoy seriam realidade...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Substituição do nome de D. João pelo de Napoleão nas colectas das missas (27 de Fevereiro de 1808)



No dia 27 de Fevereiro, foi decretada “a substituição, na colecta das missas, do nome do soberano luso pelo de Napoleão Bonaparte, ordenando ainda que fosse apeado o escudo real português”. 


[Fonte: João Francisco Marques, "O clero nortenho e as invasões francesas - patriotismo e resistência regional", in Revista de História, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1989, pp. 165-246, p. 175].

Instruções para a execução do decreto de Junot sobre a contribuição extraordinária de guerra (27 de Fevereiro de 1808)




O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército Francês em Portugal, tendo tomado em consideração algumas dúvidas ocorrentes e que podem obstar à pronta execução do Decreto do 1.º de Fevereiro, para que ela não se retarde, houve por bem resolvê-las, e mandar formar as instruções que devem servir à execução do dito decreto, pela forma seguinte:



Artigo 1.º - À Mesa da Consciência e Ordens toca a arrecadação da contribuição que devem pagar os comendadores, passando para este fim as necessárias ordens aos provedores das comarcas, ou outros magistrados dos distritos em que existirem as comendas, regulando-se a contribuição delas pelos preços dos seus arrendamentos; e na falta deles, pelos das avaliações que se acham feitas para a décima anual, sem outras deduções mais que as côngruas dos reitores e curas que não contribuem, ou tendo hospitais anexos que por sua natureza não são contribuintes. 

Artigo 2.º - A Assembleia de Malta procederá nesta conformidade pelas comendas que respeitam à sua ordem, com declaração que as que pagam ano de morto ficam isentas desta contribuição. 

Artigo 3.º - Devendo as fazendas inglesas que se acham nas cidades e vilas das províncias fora de Lisboa contribuir, na forma do artigo 3.º do Decreto, os Corregedores das comarcas vigiarão e responderão pela sua execução, sendo os comissários desta contribuição os juízes territoriais, na forma do Decreto de 4 de Dezembro do ano passado, debaixo da sua inspecção, e a farão exacta e efectiva nos prazos declarados no artigo 2.º [do decreto de 1 de Fevereiro]. 

Artigo 4.º - A repartição ordenada no artigo 22.º do referido decreto será executada nas províncias pelas Câmaras das cidades e vilas, e exactamente segundo o que dispõem os artigos 20.º e 21.º, debaixo da inspecção dos respectivos superintendentes das décimas. 

Artigo 5.º - A fim de facilitar a entrada na Casa da Moeda de todo o ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias das províncias, como as de Lisboa, individuadas nos artigos 4.º e 5.º, nos prazos nele fixados, cuidarão os superintendentes da décima na sua pronta execução, fazendo entregar ao depositário geral da mesma décima as pratas da sua comarca, com as listas que nele se declaram para serem transportadas; as das províncias do Minho e Trás-os-Montes ao depositário geral do Porto; as das comarcas da Beira ao convento de Santa Cruz de Coimbra; as das comarcas do Algarve se juntarão em Faro; e dos sobreditos depósitos serão todas remetidas, com as competentes guias, à Casa da Moeda, na qual directamente devem entrar as das províncias do Alentejo e Estremadura. E os mesmos superintendentes poderão mandar fazer as necessárias despesas destes transportes, arbitrando o justo e racionável preço delas por quaisquer cofres das rendas da sua arrecadação. 

Artigo 6.º - Das obrigações destas entregas se reservam para a decência do culto os cálices, as patenas e colherinhas, as píxides, as custódias, os cofres em que na Semana Santa se costuma depositar o Santíssimo Sacramento, as coroas e resplendores que actualmente adornam as imagens, as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, e os relicários cujo peso não exceder a 2 marcos [=459 gramas] de prata. 

Artigo 7.º - Para a percepção desta imposição sobre benefícios eclesiásticos se regularão os respectivos superintendentes pelo disposto no artigo 12.º, calculando para ela a totalidade do rendimento ainda pela união de diferentes benefícios menores no mesmo beneficiado. Quando, porém, estes sejam obrigados a cavaleirados ou pensões impostas nos seus benefícios, as quais equivalham ou excedam a taxa designada no dito artigo, poderão reter as cotas-partes respectivas aos pensionários pelas suas pensões, e inteirar com elas a contribuição competente; mas sendo os benefícios e as pensões menores da dita taxa, pagarão somente duas décimas além da em que estiverem colectados, e segundo a estimação que já se acha feita. 

Artigo 8.º - E para que na liquidação dos réditos se proceda justamente, sendo os frutos incertos, deverá preceder à avaliação mais aproximada, para por ela se determinar a quantidade pelo produto médio dos frutos nos cinco anos próximos pretéritos, designando-se o valor deles pela avaliação legal que rege o actual pagamento da imposição da décima. 

Artigo 9.º - Se, porém, as pensões dos benefícios são aplicadas a côngruas de párocos, hão de deduzir-se da totalidade, sem contudo contribuírem estas, assim como se deduzirão as pensões para fábricas das igrejas, seminários e outras, que serão colectadas no total dos rendimentos das mesmas fábricas e seminários. 

Artigo 10.º - Os benefícios vagos, e os que contribuem para o ano de morto, ficam fora desta contribuição. Contribuirão, porém, os benefícios litigiosos, e será efectiva a solução do em que forem quotizados pelos mesmos depósitos dos seus rendimentos. Não devendo alterar-se a ordem estabelecida pelo que toca à competência dos lançamentos; mas as entregas líquidas da contribuição eclesiástica se farão aos recebedores gerais das décimas das comarcas, e por eles serão remetidas, como as demais, à caixa geral, debaixo da inspecção do corregedor superintendente. 

Artigo 11.º - Para a contribuição dos proprietários de casas não fará dúvida a falta momêntanea de alugadores, porque não estando actualmente alugadas, devem contribuir com o valor de três décimas, regulado pelo último arrendamento; sendo habitadas pelos propietários, deve regular-se a avaliação pela que tiverem na colecta das décimas; e estando alugadas, devem pagar pelo preço do arrendamento, sem dedução alguma, na forma do artigo 16.º, e sem atenção a qualquer acontecimento de futura devoluçao ou falta de alugador, fazendo-se os pagamentos aos depositários e recebedores das respectivas superintendências das décimas. 

Artigo 12.º - Nesta contribuição, porém, dos senhorios de casas, imposta pelo artigo 16.º, podendo entrar em dúvida quais sejam as épocas do pagamento, por isso que no mesmo artigo não se especificam, declara-se que estas épocas sao as determinadas nos artigos 9.º, 10.º e 11.º. E da mesma sorte, as pessoas compreendidas nos artigos 17.º, 18.º e 19.º devem pagar nos mesmos prazos em que se cobram as imposiçoes ordinárias neles declaradas, sendo os exactores destes pagamentos os mesmos que o são das referidas imposições. 

Artigo 13.º - Os bens das Misericórdias, hospitais, enfermarias, casas e objectos de piedade, são por sua índole e aplicações isentos desta contribuição; não o é, porém, o ouro e prata declarados nos artigos 4.º e 5.º do decreto, que compreendem os ditos estabelecimentos, com as excepções já mencionadas no artigo 6.º. 

Artigo 14.º - Todas as regras acima estabelecidas sao compreensíveis de todos os objectos da presente contribuição aplicáveis a cada um dos ramos dela, e obrigam os tribunais, corporações e superintendentes eclesiásticos e seculares, encarregados da execução do mencionado decreto, os quais para maior facilidade da cobrança farão afixar editais com designação dos dias, horas e lugares em que os colectados devem concorrer para as entregas dos seus pagamentos, tendo previamente procedido aos necessários lançamentos, tirados dos que devem ter feito para as décimas; na inteligência de que a remessa do produto da contribuição à caixa geral dela deve ser acompanhada com os livros dos mesmos lançamentos, por onde possam verificar-se as adições lançadas e a sua total importância, ficando cópias deles nas respectivas superintendências. 

Lisboa, 27 de Fevereiro de 1808. 


Francisco António Herman [sic] 




________________________

Fonte: Segundo Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º IX, 5 de Março de 1808; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 30-33. 


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Duas cartas de Napoleão aos Ministros das Finanças e da Guerra (26 de Fevereiro de 1808)



Carta de Napoleão ao Ministro das Finanças, mr. Gaudin


Paris, 26 de Fevereiro de 1808

Li com interesse o vosso relatório sem data sobre as finanças de Portugal. As despesas deste país são bastante exageradas; elas incluem 12 milhões [de francos?] para a Marinha, que certamente não deve custar mais de 4 milhões; 4 milhões são aplicados para as fortificações, mas podemos economizar cerca de 3 milhões: as fortificações terrestres não têm necessidade de ser reparadas, e talvez fosse importante demoli-las. 
Não vejo qualquer inconveniente em confiscar as mercadorias apreendidas aos ingleses e devolver às alfândegas as mercadorias existentes e que realmente pertençam aos portugueses, desde que se verifique que as mesmas não vieram da Inglaterra e que não pertencem a portugueses que partiram com a Corte. Poderemos impor sobre essas mercadorias uma contribuição alfandegária dupla, a título de contribuição de guerra. Talvez seja conveniente que se prepare a amortização do papel-moeda em troca dos bens da Coroa. Escrevereis nesse sentido ao senhor Hermann. Em relação à contribuição [extraordinária dos 100 milhões de francos], ela deve, sem dúvida, abranger todo o país. 

[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier – Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 446-447 (n.º 13607).] 


*


Carta de Napoleão ao Ministro da Guerra, General Clarke



Paris, 26 de Fevereiro de 1808. 

Senhor General Clarke, reenvio-vos as notícias do General Junot que recebi há alguns dias e aquelas que me remeteu o vosso Ajudante de Campo. Respondei-lhe, expedindo a vossa carta por um estafeta até Burgos, donde o Marechal Moncey a fará levar até Lisboa por um oficial, que quanto menos correspondência estabelecer ele com os ingleses, melhor; que achei que nas suas proclamações ele promete muito, e que não toma medidas severas para assegurar a tranquilidade. Como é possível que ele chegue ao terceiro mês de ocupação de Portugal ainda com soldados portugueses, e que as praças-fortes continuem a ser governadas pelos portugueses? Estou certo de que os praças importantes de Elvas e de Almeida continuam nas suas mãos, coisa que é inconcebível. Porque é que as minhas tropas não estão em campos militares, como eu tinha ordenado, e se encontram no meio de Lisboa, expostas a ser massacradas no primeiro evento? Porque é que a população não está já desarmada e as principais personalidades do país enviadas para a França? Dizei-lhe que eu somente prevejo desgraças derivadas dessa péssima conduta, e que não posso estar satisfeito com aquilo que vejo em Portugal. Seria necessário ter publicado que eu eu iria impor uma contribuição de cem milhões antes de estar seguro de dominar o país? Só vejo imprudência naquilo que ele faz; e disso serão os ingleses informados, pois as suas correspondências secretas são numerosas. Reiterai-lhe as minhas ordens para que, sem demoras, todas as tropas portuguesas sejam dirigidas para a França por colunas de 500 homens e por diferentes rotas. Como é possível que a minha própria Cavalaria não esteja montada? Reiterai-lhe as minhas ordens para desarmar a população e para fazer abarracar as minhas tropas, pois não posso vê-las com gosto no meio duma cidade populosa e sem pão, que provavelmente sentirá privações logo que os ingleses tentem alguma coisa. Esta fraqueza de conduta e esta indiferença sobre a execução das minhas ordens é inconcebível em assuntos tão importantes, e eu não prevejo mais que desgraças. É da mais alta importância, nas actuais circunstâncias, que as praças de Elvas e de Almeida estejam guardadas e bem comandadas pelos franceses. Como é que a artilharia ainda não enviou uma relação daquilo que foi confiscado, da artilharia que foi encontrada em Lisboa e nos fortes? Os engenheiros militares não escrevem mais. Ignoro completamente qual é a força das divisões espanholas, das quais uma é comandada pelo General Solano, e a outra está na província do Porto. Como é que não sou informado das coisas verdadeiramente importantes? Recomendai ao General Junot para vigiar essas duas Divisões e para seguir os seus movimentos, se nalguma ocasião deixarem Portugal. Vós compreendeis a minha intenção. Colocai as diferentes questões ao General Junot para se saber porque é que as minhas intenções não são satisfeitas. Também lhe escrevi cartas que, todas elas, abordam as mesmas questões. 

[Fonte: Correspondance de Napoléon Ier – Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, pp. 447-448 (n.º 13608).] 


Edital do Senado da Câmara de Lisboa sobre algumas transgressões que se verificavam na capital (26 de Fevereiro de 1808)





sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Esclarecimento sobre algumas excepções previstas no decreto sobre a contribuição dos 40 milhões de cruzados (25 de Fevereiro de 1808)


Constando ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do exército francês em Portugal que a excepção autorizada pelos artigos IV e V do decreto do primeiro deste mês das peças de prata necessárias à decência do culto tem dado lugar a dúvidas, na diversa inteligência das que devem considerar-se no caso de serem reservadas, tem Sua Excelência declarado e ordena que todo o ouro e prata das igrejas, capelas e confrarias é compreendido na contribuição, exceptuando-se somente os cálices, patenas e colherinhas, as píxides, as custódias, os cofres em que na Semana Santa se costuma depositar o Santíssimo Sacramento, as coroas e resplendores que actualmente adornam as imagens, as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, e os relicários cujo peso não exceder a dois marcos [= 459 gramas] de prata. O que assim se terá entendido por todas as corporações e pessoas a quem pertencer a execução, para que o cumpram, levando prontamente aos lugares designados quaisquer peças que pela errada inteligência tiverem reservado nas igrejas, capelas e confrarias, na certeza de lhe serem aplicáveis, em caso de contravenção ou fraude, as penas cominadas nos referidos artigos IV e V do mesmo decreto. 
Lisboa, 25 de Fevereiro de 1808.

Francisco António Herman [sic]




____________


Fonte: Segundo Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º IX, 5 de Março de 1808.

Aviso do Secretário de Estado dos Negócios do Interior e das Finanças, mr. Hermann, ao provedor e deputados da Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (24 de Fevereiro de 1808)



Em conformidade das ordens do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do exército francês em Portugal, remeto à Ilustríssima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro o decreto da cópia junta, para que haja de mandar expedir as ordens e guias necessárias para a exportação dos vinhos em navios neutros que se acharem no porto dessa cidade, ou que a ele vierem; comunicando esta ordem por cópia às estações competentes para a recepção dos respectivos direitos. O que participo a Vossas Senhorias para que assim se execute. 

Deus guarde a Vossas Senhorias. 

Secretaria de Estado dos Negócios do Interior, em 24 de Fevereiro de 1808. 

Francisco António Hermann [sic]


_____________

Fonte: Segundo Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º VIII, 27 de Fevereiro de 1808.


Saída das tropas espanholas do Algarve e entrada das francesas



Como atrás vimos, em meados de Dezembro de 1807, cerca de 500 militares espanhóis comandados pelo Conde de Vía Manuel entraram no Algarve. Estas tropas, entretanto talvez reforçadas, passariam posteriormente a ser comandadas, segundo o padre João Coelho de Carvalho*, pelo próprio chefe do Estado-Maior da Divisão do General Solano, o "Marquês de Coupigny, que veio fazer seu quartel em Faro, residindo desde 22 de Janeiro até 22 de Fevereiro [de 1808] no Palácio Episcopal, sustentando com sua comitiva à custa do Excelentíssimo Senhor D. Francisco Gomes [Bispo do Algarve], a quem o mesmo General e seus ajudantes, principalmente Federico Moretti**, fizeram grandes obséquios de honra, agradecendo-lhe por fim o bom acolhimento que suas tropas acharam neste povo, devido tudo à boa disciplina eclesiástica que o mesmo Senhor [Bispo do Algarve] tanto recomendava nas suas homilias ao mesmo povo, que nesta parte correspondeu aos desejos de todos, ao menos em geral e publicamente, não ficando deteriorado o seu crédito com a morte secreta que padeceram alguns espanhóis, talvez bem merecida pelos seus crimes (disto porém apenas havia certo rumor e por isso pode ser [que] não seja verdadeiro).
Em 22 de Fevereiro saiu daqui o General [Coupigny] e o Estado-Maior, tendo-lhe precedido a saída da tropa de linha miliciana. O General e seus ajudantes esperavam pelo General francês [Maurin] no seu quartel; mas na madrugada seguinte recebeu ordens de partir logo, de sorte que não se viram, apesar de [Maurin] chegar a Faro duas horas depois da sua retirada. Isto, que então foi acaso, era já prelúdio do que depois havia de acontecer; vindo o dito general Coupigny a ser quem, em grande parte, concorreu para a derrota de Dupont, de quem este exército francês compunha parte, segundo o que depois se descobriu.
Pela saída dos espanhóis entraram os franceses em duas colunas de pouca gente, que, ao todo, fazia o número de quatrocentos homens. O General [Maurin] alojou-se nas casas de João Carlos***, onde foi cumprimentado pela nobreza, em cujo número entrava o Ex.mo Senhor D. Francisco [Bispo do Algarve], oferecendo-lhe o seu palácio para quartel, que não aceitou para si, mas sim para um seu ajudante, quatro criados e seus cavalos! Que princípios de política francesa!
A primeira visita que fez este grande político [Maurin] foi a seus cavalos, que vinha ver todos os dias; o seu ajudante era efectivo na cavalariça, e, às vezes, também se viu limpando neles, donde se inferiu que um e outro, ambos irmãos, certamente tinham tido por princípio de educação alguma estrebaria" [Fonte: João Coelho de Carvalho, Memória da Revolução do Algarve (ver referências abaixo)]. 



Vista aérea da chamada Vila-adentro de Faro.

1. Palácio Episcopal
2. Seminário do Algarve
3. Casas do Conselheiro Horta (actual Governo Civil do distrito de Faro)



A saída repentina dos espanhóis do Algarve foi motivada por umas ordens que Godoy tinha enviado poucos dias antes ao General Solano, a fim de fazer regressar as tropas da sua Divisão à Extremadura e à Andaluzia. Solano, por sua vez, avisou Junot de que estava prestes a abandonar Portugal, o que forçou Junot a mandar parte das suas tropas para o sul do Tejo, até aí ocupado pelos espanhóis.
Entretanto, ainda antes que as tropas francesas tivessem chegado ao Algarve, um grande número de pessoas mais pobres começou a emigrar para Gibraltar. De facto, a 19 de Fevereiro, o Governador desta colónia britânica, Sir Hew Dalrymple, enviava uma carta aSecretário de Estado da Guerra britânico, Visconde Castlereagh, onde não só lhe enviava "proclamações de Junot pelas quais parece que Portugal foi anexado à França", como também lhe adiantava que "contribuições pesadas foram exigidas aos habitantes, em particular ao clero. As classes mais baixas estão a dirigir-se, em grande número, para Gibraltar, onde têm dado grandes encargos, devido à falta de espaço e dos meios para os manter" [Fonte: “Précis of correspondence from Sir H. Dalrymple, relating to Spanish affairs”, in Correspondence, Despatches, and other Papers, of Viscount Castlereagh - Vol. VII, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 129-146, p. 130].
No dia 24 de Fevereiro, ou seja, já depois da entrada das primeiras tropas francesas em Faro, o Conde de Castro Marim, Governador do Algarve, aproveitava alguma das embarcações de pesca que se dirigiam para Gibraltar para enviar um oficial português que queria embarcar para o Brasil. Como no Algarve não existiam embarcações aptas para uma viagem transatlântica, este oficial ia para Gibraltar para daí seguir para a Inglaterra, onde entregaria a seguinte carta do Governador do Algarve a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal junto da Corte britânica, esperando que este último fizesse o possível para conseguir providenciar-lhe transporte para o Brasil:

Pela cópia inclusa****, Vossa Excelência verá a ordem que me foi dirigida pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, a fim de provisionar as embarcações que se achassem nos portos deste Reino [do Algarve], fazendo embarcar as pessoas que nas mesmas se quisessem retirar. Infelizmente sucede o não achar-se nos referidos portos embarcação alguma susceptível a uma semelhante viagem. Pelo que o Tenente Coronel João de Vasconcelos de Sá, portador desta [carta], se dirige a Gibraltar para dali se transportar a esse Reino [da Grã-Bretanha], a fim de receber de Vossa Excelência providências para efectuar o seu destino. Eu rogo a Vossa Excelência todo o favor a este benemérito Oficial, cujo [=o qual] sempre tem servido as mesmas ordens. 
Deus Guarde a Vossa Excelência muitos anos. 
Quartel-General de Faro, 24 de Fevereiro de 1808. 
De Vossa Excelência, 
Conde Monteiro Mor






_________________

Notas


* João Coelho de Carvalho era director temporal (ou seja, tratava dos negócios externos) do Seminário de Faro desde meados de 1797. Em Junho de 1808, depois de formada a Junta do Algarve, após a expulsão dos franceses de Faro (episódios que explicaremos mais adiante), Coelho de Carvalho receberá a pasta de 1.º Oficial da Tesouraria geral da referida Junta. O seu maior contributo para o assunto que tentamos estudar foi um texto manuscrito intitulado Memória da Revolução do Algarve (concluído a 4 de Novembro de 1808, mas com alguns acrescentos posteriores), assente no livro de Registos do Seminário de Faro referente aos anos 1808-1814. Apesar deste ser um documento importantíssimo para se perceber o que se passou no Algarve (sobretudo em Faro e Olhão), particularmente desde a chegada dos franceses até à formação da Junta de governo provisório, só foi retirado do olvido quase cem anos depois de ter sido escrito, quando foi impresso numa biografia do referido bispo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar [Cf. Ataíde Oliveira, Biografia de D. Francisco Gomes de Avelar – Arcebispo-Bispo do Algarve, Porto, Tipografia Universal, 1902, pp. 176-196]. Ainda que mais recentemente tenha voltado a ser publicado no catálogo de uma exposição sobre trajes do início do século XIX patente no Museu do Trajo de São Brás de Alportel [Cf. Da quadrilha à contradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, S. Brás de Alportel, Casa da Cultura António Bentes, 2004], tentaremos aqui ir dando a publicidade merecida a este valioso documento, que narra alguns pormenores inéditos noutras fontes. 

** Filho de uma família da nobreza florentina, Federico Moretti y Cascone nasceu em Nápoles em 1769. Aos 25 anos partiu para a Espanha, onde se uniu, em 1796, ao Real Cuerpo de las Guardias Walonas, com a patente de cadete. Seis anos depois já era Segundo Tenente dos fuzileiros do mesmo Corpo. Em 1807, entrou em Portugal como Ajudante Geral do Marquês de Coupigny. A 4 de Maio de 1808, depois dos incidentes em Madrid dois dias antes, e já depois da Divisão do General Solano ter regressado à Extremadura e Andaluzia, Moretti será enviado a Lisboa numa missão secreta para falar com Junot, Carrafa e com Seniavin, Almirante comandante da esquadra russa ancorada no Tejo, como o próprio conta num texto que será publicado em 1812 [Contestación del brigadier Don Federico Moretti y Cascone (en la parte que le toca) al manifiesto del Teniente General Don Juan Carrafa, Cádiz, Imprenta de Don Jose Maria Guerrero, 1812]. 
Moretti é contudo mais conhecido pela sua contribuição musical, tendo composto e publicado inúmeros estudos e peças para guitarra (da qual era exímio tocador) e outros instrumentos. Tirana, uma peça para guitarra e voz, pode ser escutada aqui. Ver ainda, a este respeito, Ana Carpintero Fernández, "Federico Moretti (1769-1839). I. Vida y obra musical", in Nassarre (Revista Aragonesa de Musicologia), n.º 25, 2009, pp. 109-134.

*** Referência às casas do conselheiro João Carlos de Miranda e Horta Machado, que já tinham sido mencionadas anteriormente.

****  A cópia inclusa que o Governador refere é a seguinte ordem que lhe tinha sido enviada pelo Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra no mesmo dia em que a Corte percebera que as tropas francesas tinham entrado em Portugal [Fonte de ambos os documentos: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 1, doc. 11]:

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor o Príncipe Regente Nosso Senhor, tendo resolvido retirar-se para o Brasil em atenção às presentes circunstâncias, determina que Vossa Excelência haja de fazer aprontar todas as embarcações que se acharem nos portos desse Reino [do Algarve] a fim de conduzirem todas as pessoas que quiserem acompanhar a Sua Alteza Real, cujas despesas e transportes lhe serão exactamente satisfeitas, tirando Vossa Excelência de qualquer cofre o dinheiro necessário para fornecer de víveres as ditas embarcações. 
Deus Guarde a Vossa Excelência. 
Palácio de Mafra, 24 de Novembro de 1807 
António de Araújo de Azevedo. 




Edital de Lucas Seabra da Silva, Intendente Geral da Polícia, proibindo todos os "jogos do Entrudo" (25 de Fevereiro de 1808)






Nota: Os "jogos do Entrudo" eram o que hoje chamaríamos "brincadeiras de Carnaval". Segundo Felipe Ferreira, "Luiz Edmundo, em seu Recordações do Rio Antigo, ressalta o carácter anárquico do Entrudo em Lisboa nos séculos XVIII e XIX. As brincadeiras, bastante agressivas, incluíam ataque aos passantes, que recebiam sobre suas cabeças ovos, farinhas, cabaças de cera cheias de água, tremoços, sacos de areia e até moringas ou tachos de cobre. [...] O Entrudo na capital do reino era marcado por troças e logros, tais como besuntarem-se escadas para provocar tombos, lambuzarem-se maçanetas com matérias fedorentas, colar uma moeda no chão para ver alguém tentando pegá-la sem sucesso ou servir uma sopa cheia de pimenta antegozando a reacção de quem fosse tomá-la. Por outro lado, a fuzarca no interior do país tinha como principal elemento os charivaris, onde a rapaziada das aldeias aproveitava para fazer todo o tipo de zombarias com os habitantes do lugar". [Fonte: Felipe Ferreira, O Livro de Outro do Carnaval Brasileiro, Rio de Janeiro, Ediouro, 2004, p. 75].