sábado, 19 de março de 2011

Aviso da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e das Finanças à Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação destes Reinos e seus domínios (19 de Março de 1808)



Sendo presente ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal que o primeiro terço da contribuição extraordinária de guerra, pela parte que é cometida à Real Junta do Comércio, não só deixou de satisfazer-se no prazo assinalado pelo decreto do 1.º de Fevereiro […] passado, mas na sua arrecadação se prossegue com tal demora e vagar que não permite esperar [que] se conclua em termo razoável, o que é inteiramente alheio das intenções de Sua Excelência: 

Manda o mesmo Senhor General em Chefe declarar à dita Junta que até ao último dia deste mês deve achar-se entrado na Caixa geral da contribuição todo o referido terço; para cujo fim a Junta tomará as medidas oportunas, pedindo qualquer auxílio, ou providência que entender necessária; na certeza de que ao contrário será inevitável que o Governo lance mão de meios mais rigorosos, e que façam mais pesado o ónus da mesma contribuição. 

E para constar a todas as pessoas que são responsáveis, se afixaram editais. 

Lisboa, 19 de Março de 1808. 


[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 12, 22 de Março de 1808].

Aranjuez, 19 de Março de 1808



Prisão de Godoy


Abdicação de Carlos IV e aclamação de Fernando VII


Gravuras de Zacarías Velázquez
[Fonte: Ilustración de Madrid (n.º monográfico «Dos de Mayo»), Ano III, n.º 7, Primavera 2008].

Proclamação do Comandante britânico Charles Cotton, dada a bordo do navio Hibernia, ancorado na foz do rio Tejo (18 de Março de 1808)



A todos os súbditos portugueses presentemente alistados no Exército e Marinha de Sua Alteza Real o Príncipe Regente, faz saber o Comandante em Chefe da Esquadra Britânica que actualmente bloqueia os portos de Portugal, que ele tem navios de transporte prontos sobre as costas para tomar a seu bordo todos os sobreditos súbditos portugueses e suas famílias, e lhes oferece o sagrado penhor da fé britânica para a promessa que dá, de os fazer transportar imediatamente aos portos do Brasil, donde passam a Seu Legítimo adorado Soberano. 

Se os transportes não fossem logo bastantes para acomodar todos os que quisessem embarcar, o Comandante em Chefe permite que fiquem repartidos pelos navios de sua esquadra, até que cheguem transportes bastantes ou, se parecer mais conveniente, os remeterá a Falmouth para ali serem embarcados para o Brasil sem perda de tempo. 

Hibernia, a dezoito de Março de mil e oitocentos e oito. 

Comandante Cotton 

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 414-415 (doc. 292); No Arquivo Histórico Militar (1.ª div., sec. 14.ª, cx 182, doc. 83, fl. 7) existe um exemplar impresso desta proclamação, com algumas variantes em relação ao texto recolhido por Alberto Iria].




Relação circunstanciada da Revolução de Espanha, segundo o Correio Braziliense





[Fonte: Correio Braziliense ou Armazem Literario - Vol. I, Londres, Impresso por W. Lewis, 1808, pp. 10-14; p. 91].

Manifesto imparcial y exacto de lo mas importante ocurrido em Aranjuez... (atribuído a Juan de Arias)

Acontecimentos memoráveis do Reinado de Carlos IV desde o ano de 1806 até 19 de Março de 1808, relativos ao Príncipe da Paz



O seguinte texto provém dum manuscrito da época, da autoria de José de Ascutia, o Guarda Real várias vezes citado por Ronald Fraser. Trata-se de um texto anti-godoyista que oferece uma visão algo tendenciosa sobre os acontecimentos de Aranjuez, precedidos por uma pequena contextualização. Certas passagens do texto induzem-nos a pensar que teria sido escrito logo após os motins de Aranjuez, possivelmente antes mesmo dos franceses entrarem em Madrid (no dia 23 de Março). Por esse motivo, vale pelo testemunho da confiança cega que então muitos espanhóis depositavam em boatos e rumores sobre as intenções de Napoleão em relação à deposição de Godoy e ao suposto apoio a Fernando, Príncipe das Astúrias, agora Fernando VII. Como testemunho anti-godoyista, apesar de deixar transparecer várias incoerências e incongruências, revela que havia um plano da alta nobreza espanhola para forçar a destituição de Godoy, cuja ocasião perfeita foi dada no momento em que Carlos IV decidiu partir para Cádis ou Sevilha. 



Acontecimentos memoráveis do Reinado de Carlos IV 
desde o ano de 1806 até 19 de Março de 1808, 
relativos ao Príncipe da Paz 


Na grave doença que padeceu Carlos IV no ano de 1806, Soler fez presente a Sua Majestade que era necessário fazer um testamento. Convencido disto, [Carlos IV] disse que esta disposição seria ordenada pela Rainha e pelo Príncipe da Paz, os quais assim o fizeram; e entre as suas cláusulas havia a seguinte: 

"Deserdo da Coroa o meu filho mais velho, D. Fernando, por [ser] fátuo; e pela menoridade do meu filho o Infante D. Carlos, nomeio o Príncipe da Paz como regente do Reino".

Uma boa pessoa que tomou conhecimento desta negociação artificiosa, participou-a sigilosamente ao Príncipe das Astúrias. Este, vencendo mil dificuldades, como carecia de liberdade escreveu uma carta ao cónego Escoiquiz, na qual lhe perguntava o que devia fazer nas actuais circunstâncias, ao ver-se tratado com o maior desprezo e tendo sido deserdado pelo seu pai, o que é que lhe aconselhava, como o esperava do seu carinho e talento. O cónego respondeu-lhe que aquilo requeria um conselho verbal, e doutro modo não podia responder-lhe. 

Continuou o Príncipe das Astúrias experimentando o maior rigor, sendo privando até de poder falar com o seu irmão Carlos. 

O Rei volta a ter o peito atacado em Janeiro de 1807, e vendo o Príncipe das Astúrias que o ocaso se aproximava, volta a escrever ao cónego, vencendo mil dificuldades para consegui-lo, e valendo-se do mesmo portador que tinha levado a carta anterior. Nesta nova carta, pressionava-lhe fortemente para que lhe desse o ditame. O cónego respondeu, dizendo-lhe que ele não era fátuo, e que estava jurado como Príncipe das Astúrias; e que pelas leis do Reino, não podia ser privado da Coroa; que procuraria falar com o duque del Infantado, a pessoa mais recomendável para o assunto, e de acordo com ele disporiam o que fosse conveniente. Através do mesmo portador que levava a carta, foi chamado o duque del Infantado. Este, tendo sido instruído, ordenou que o Príncipe das Astúrias lhe desse um decreto, nomeando-o General de Castela, e vários ofícios assinados em branco, para o duque preencher as nomeações, no caso de faltar o Rei, para fazer as eleições correspondentes para todas as Capitanias-Gerais e demais empregos entre pessoas idóneas, e outro decreto para prender o Príncipe da Paz. Este papéis foram conservados pelo duque, unidos ao seu próprio corpo, e assim foram salvos. 

Formado todo o plano pelo duque del Infantado e pelo cónego, determinaram prestar contas ao Imperador dos franceses, juntando uma carta do Príncipe das Astúrias, na qual lhe informava tudo o que tinha acontecido, mostrava-lhe o plano que estava feito e rogava-lhe que o protegesse, e que se o plano não estava bem feito, que [o Imperador] alterasse o que lhe parecesse [mais conveniente]. Esta carta foi para a Etrúria e daí em correio [...] para Paris através do marquês de la Romana, com conhecimento de O'Farril e da própria Rainha da Etrúria. 

Tendo isto transparecido nalguma parte, o Príncipe da Paz teceu intrigas, através do embaixador, para desacreditar O'Farril e Romana, e daqui principiou a revolução de Florença. O Imperador dos franceses, pelo mesmo portador, respondeu ao Príncipe das Astúrias, assegurando-lhe a sua protecção e que o plano estava muito bem formado. Neste estado deixa Napoleão este negócio, e parte para a Polónia, encarregando muito particularmente a Talleyrand acerca deste assunto, e sobre o que devia fazer se ocorresse alguma novidade na Espanha, e com o maior sigilo que tentasse ver se por algum meio podia conduzir o Príncipe das Astúrias a casar-se com algumas das pessoas reais daquela Corte [francesa]. 

O Príncipe da Paz, por algumas suspeitas que teve, escreveu a Izquierdo, que estava em Paris, para que procurasse tentar perceber se Talleyrand tinha correspondência com o Príncipe das Astúrias. Este intrigante finge com o ministro francês ser inimigo de Godoy e afeiçoado ao Príncipe das Astúrias; o ministro, de boa fé, disse supor que sabia já da íntima união do Imperador com o dito Príncipe das Astúrias. De boa fé, o ministro confiou-lhe algumas coisas, que foram bastantes para Izquierdo ter uma ideia. Este avisa o Príncipe da Paz que está perdido, pois o Imperador protege o das Astúrias. Quando Godoy recebeu esta carta, tentou sublevar o Reino, alucinar os Reis e declarar guerra à França, como de facto esteve algumas horas declarada, e se não tivesse sido Gil de Lemos, a declaração tinha sido levada a cabo. 
Volta o Imperador a Paris depois de tratada a Paz de Tilsit, fala com Talleyrand sobre a Corte de Espanha, e este conta e refere o episódio com Izquierdo. Penetra Napoleão na intriga, chateia-se com Talleyrand, e dispõe que se dirija a Madrid como embaixador o Ex.mo Sr. D. Beauharnais, a quem deu umas instruções muito particulares. Chama Izquierdo, e pergunta-lhe com que ordem se introduzia nos negócios de Estado, e este presta-lhe satisfações assumindo as ordens que tinha da sua Corte; não obstante, [Napoleão] manda-o sair imediatamente dos seus domínios. [Izquierdo] vem em diligência para Madrid, e diz a Godoy que está perdido, que o Príncipe das Astúrias tem a protecção de Napoleão, as tropas à sua disposição, e que se casa em Paris. De facto, adiou-se o casamento, houve mil dificuldades, e finalmente, depois da Rainha e Godoy terem resistido, respondeu-se afirmativamente.

Vendo Godoy que já não havia remédio, trama a atroz calúnia de difamação do Príncipe das Astúrias, com o fim de lhe cortar a cabeça ou pelo menos deixar-lhe desacreditado, quer para que não reinasse e para que a deserdação fosse levada a cabo, quer para que não se verificasse o casamento em Paris depois de estar  com esta nódoa. 

O Imperador, muito bem informado de todas estas tramas, tanto pelo duque de Frías como pelo embaixador, para preservar o Príncipe das Astúrias dos riscos que o ameaçavam, nomeou-o de Generalíssimo das tropas francesas e espanholas que se haviam de reunir para certos fins, para assim retirá-lo da Corte; ao que a sua mãe respondeu que não o queria para guerreiro.

Napoleão, quer pela palavra dada de protecção ao Príncipe das Astúrias, quer pela estima que sempre tem tido pela paz com a Espanha (e nestas actuais circunstâncias ainda mais), quer pela penetração na bastarda conduta de Godoy, da qual tinha os maiores testemunhos pela correspondência que tinha interceptado com os ingleses, [...] vê-se obrigado a mandar as suas tropas para a Espanha, e a vir pessoalmente derrubar este colosso, aparentando outros desígnios para que não se lhe escapasse. 

Vendo o traidor que todas as suas maquinações estavam descobertas, apela à última para pôr-se a coberto do tecido de maldades que a sua vida envolve, ao que muito contribuiu a muita vontade do Rei, que julgava que Manuel era impecável, chegando a tanto a confiança de Sua Majestade, que se o embaixador da França não o pedisse no próprio acto da prisão, a pessoa do Príncipe das Astúrias tinha sido decapitada, como igualmente teria se não tivesse intervido na causa que se lhe tinha formado um atroz sumário que teria privado da vida muitos homens verdadeiramente ilustres e virtuosos, não tendo bastado nem a clareza com que o Infante D. António falou ao seu irmão [Carlos IV] para desfazer a falsa impressão que tinha formado, nem outras várias sessões[?], tendo chegado a tal a cegueira do tirano, que fez o fiscal Viegas assinar sem ler a resposta na qual lhe pedia monstruosidades. Obrigado à França por tudo! Os espanhóis, muito capazes de qualquer obra grande, estavam atados, não podiam respirar, e assim, quando viram um pouco de claridade, empreenderam a brilhante acção que ocorreu por consequência desta última trama, e é como se segue: 

Dado tudo o que anteriormente foi dito (e manifestado nos papéis públicos), tentou Godoy abandonar este Reino à sorte. Tratou com os ingleses para lhes entregar algumas praças de Espanha e a esquadra de Cartagena, dispôs-se a levar consigo para a América os velhos Reis, e na confusão que daqui infalivelmente resultaria, extinguir o resto dos Borbons. 

Para realizar este iníquo plano, deu, como [chefe] absoluto do Governo, todas as ordens oportunas para o desígnio: repartiu o seu quantioso tesouro nos bancos da Europa [...]. Ordenou que o exército que estava em Portugal, passasse rapidamente, sem ordem do Rei, a Toledo, a fim de entreter o exército francês, obrigando-o a opor-se e empenhando-o tanto com este exército como com as tropas inglesas e as argelinas (que tinham combinado com a Inglaterra), qu entrariam na Espanha apoderando-se de Ceuta e Cádis; e entretanto Godoy fugia com os velhos Reis. Igualmente meditava coroar-se no México, ou imediatamente, como ficou manifestado quando foram encontradas (segundo se afirma) moedas cunhadas em seu nome como Rei de Espanha e Imperador do México*, ou somente depois de mortos os velhos Reis. 

Não pôde dispor este plano sem que se apercebessem tanto os leais espanhóis como a Corte da França, que era contrário a outros fins anteriormente concertados pelas duas Cortes. Ordena Napoleão para que os exércitos se dirijam à Espanha para estorvar esta cruel cena, separar Godoy do Governo e coroar Fernando VII. Os Generais e as tropas francesas ignoravam qual era o objectivo principal que tinham. [Napoleão] deu ao embaixador que residia na Corte de Espanha as ordens convenientes para tudo, instruindo-lhe até ao mais ínfimo pormenor. Ao Almirante da esquadra francesa que estava no porto de Cádis deu-lhe ordens para não permitir, mesmo que isso implicasse sacrificar a sua esquadra, que saísse do dito porto embarcação alguma. Toda esta inaudita maldade [isto é, o plano de fuga de Godoy] estava combinada entre Godoy e os ingleses para o dia 27 de Março; estava também composta a proclamação que fariam os velhos Reis, da urgente necessidade de saírem da Espanha para salvar as suas vidas da ira dos franceses, que enquanto isto não se acalmava e voltassem ao seu trono, deixavam como regente em Espanha o Ex.mo Sr. Duque de Almodovar del Campo [irmão de Godoy]. Foi já depois de organizado este suposto plano, sem esperar outra coisa do que a chegada do referido dia 27, assinalado pelos ingleses, que Godoy o propôs ao Rei (com quem contava como coisa segura), quando já tinha armado todo o Reino espanhol contra os franceses, espalhando rumores vis e vagos que a sua malignidade fazia publicar, dando ordens e contra-ordens para desconcertar os franceses.  

Nestas circunstâncias, (pela providência de Deus) foi desfeita toda esta máquina, por uns poucos vassalos leais e fiéis militares organizados pelos grandes do Reino, apoiados no sempre recomendável Conselho de Castela, sem que os franceses tenham tido mais arte nesta gloriosa acção do que terem provocado a antecipação do projecto pela entrada das suas tropas, tanto pelo medo que teve o tirano, desconcertando-lhe o movimento das tropas francesas, como pelos remorsos da sua péssima consciência. 
O conde de Teba estava em Portugal com o seu Regimento, sem poder entrar em Madrid por ser um dos desterrados. O duque del Infantado encontrava-se em Écija cumprindo o seu desterro. Por certa pessoa foi este último instruído de toda a maquinação, a fim de que, como cabecilha de toda esta história, desse as ordens oportunas. Pensou sobre qual sujeito seria mais apropriado para executar o que tinha meditado. Elege [o conde de] Teba e manda chamá-lo a Portugal; Teba vem imediatamente a Écija em diligência, e apresenta-se ao duque del Infantado, que pergunta-lhe se se atrevia a ir a Madrid para dar parte ao Conselho da trama que estava urdida e reunir toda a grandeza para impedir a saída dos Reis de Espanha. Responde-lhe Teba que se atrevia, e recebendo as instruções de Infantado, disfarça-se em traje de manchengo [natural de La Mancha] e parte para a Corte em diligência. Com aquele traje vai à casa de Sierra, fiscal do Conselho, e diz-lhe que é necessário que o Conselho se reúna, e que se oponha a todo o plano que medita Godoy. O fiscal responde-lhe que juntar o Conselho é o menos, mas para que formule um decreto é necessário que se faça uma representação na qual se exponha tudo o que ele dizia. Sierra pergunta-lhe se via algum inconveniente em que se fizesse a representação em seu nome, ao que Teba respondeu que não o via, e nem mesmo em apresentar-se pessoalmente ao Conselho. Ali fez-se a representação, e ali a jurou Teba. Com isto se convocou o Conselho, que foi perfeitamente instruído pela representação, e decretou com firmeza que não tendo o Rei motivos para sair de Espanha, não se lhe permitiria de modo algum a saída. 
O manchego [conde de Teba], tendo recolhido o decreto do Conselho, convocou uma junta de grandes de Espanha, à qual concorreram 19. Concordaram e comprometeram-se todos com as suas rendas e pessoas não só a impedir a saída dos Reis, mas também a aniquilar o traidor Godoy; acordaram igualmente que era indispensável que alguém se dirigisse ao sítio para entregar a representação e o decreto do Conselho ao Rei. Nisto houve muitas dificuldades, mas resolveu-se que fosse o marquês de Castelar, o qual partiu e falou com o Rei, cujo medo que tinha dos franceses se desvaneceu, e cujo resultado foi a proclamação que trouxe a Gazeta**. 
Neste mesmo dia 13 pela tarde, voltou Godoy ao sítio, propôs aos Reis que era preciso sair para Cádis ou Sevilha para estarem mais próximos para o embarque, que assim convinha para evitar que Napoleão lhes usurpasse o trono, pois aproximava-se a sua chegada, e as tropas estavam já em cima. O Rei respondeu a isto não só manifestando-lhe o decreto do Conselho mas também lendo-lhe uma carta de Napoleão na qual lhe dizia que vinha à Espanha para o seu bem. Pede o traidor ao Rei que junte ali mesmo um Conselho, que Sua Majestade veria como o que ele propunha era conveniente, e que não devia ter confiança nem na carta de Napoleão, nem no decreto do Conselho; e que ele amava o seu Rei. Formou-se um Conselho com os ministros patriarcas e outros, à excepção do Ministro da Guerra e de Caballero, que estavam passeando, e pelo Conselho determinou-se a fuga, assinando todos a resolução. 
A assinatura de Caballero era indispensável para a solenidade desta determinação. Godoy recolheu os papéis para que Caballero os assinasse na noite daquele dia 14. Ao entrar [no Palácio] Caballero, vindo do passeio, encontra Godoy, que lhe diz "tem ali aqueles papéis, assine-os que tem ali um tinteiro". Caballero disse-lhe que não os assinava sem ler, e impôs-se. [Disse Godoy:] "pois bem, leia-os Vossa Mercê, e eu espero ali". Caballero aproximou-se dum candeeiro que estava por perto, e ficou a lê-los; [depois,] volta-se para Godoy, e diz-lhe que não assinava, e [perguntando] quem tinha aconselhado o Rei (desentendendo-se que tinha sido ele) a semelhante traição e vileza, que aquilo era enganar o Rei sacrilegamente e que, assim, ali tinha os papéis [não assinados]. Godoy, que encontrou esta resposta com um valor e firmeza como jamais tinha experimentado, saca da espada, mas antes que a acabasse de desembainhar, já lhe tinha posto Caballero uma pistola junto ao peito, dizendo-lhe que se acabasse de sacar a espada, acabaria com a sua vida com um tiro. Deteve-se Godoy, e com a disputa sobre a assinatura, chegam ao quarto do Rei. Godoy, cheio de cólera, vendo-se desobedecido e ultrajado em termos que jamais poderia ter imaginado, queixou-se ao Rei de que Caballero não queria assinar o que tinha sido acordado por Sua Majestade e pelo Conselho. O Rei censurou docemente Caballero, perguntando-lhe que motivos tinha para não assinar, ao que respondeu ele que amava verdadeiramente a Sua Majestade, que não era falso traidor como era o que lhe tinha aconselhado um absurdo como o que lhe tinham proposto, que não havia porquê temer os franceses, como muito bem constava a Sua Majestade, ao Conselho de Castela, e à maior parte da nação, e que não havia a menor suspeita para uma tão atroz determinação; e voltando-se para Godoy, disse-lhe que "quando Caballero diz que não convém uma coisa, é porque sabe o que diz e porque pode sustentá-lo; e assim, antes darei a vida com gosto, do que assinar a maior maldade que se inventou". Vendo o Rei esta discórdia, e convencido por Caballero, mandou ali mesmo juntar o Conselho por uma segunda vez, cujos membros foram convocados. Caballero foi o primeiro a faltar, e dirigindo a sua palavra ao Rei, disse: "Senhor, já é tempo de falar abertamente a Vossa Majestade; as tristes circunstâncias que nos rodeiam o requerem. O senhor (apontando para Godoy) é um traidor, é quem formou esta trama para os seus fins particulares, a vida do sr. é esta"; e fez ao Rei um retrato muito vivo de Godoy, e volta-se para ele ainda conservando o calor que pelo episódio antecedente se pode calcular, e disse "se Vossa Mercê quer partir, vá, que é um favor que faz ao Reino. Você não sabe o que é um Reino, não sabe mais do que entrar e sair do Palácio". Com isto, os demais ministros tomaram asas e disseram ao Rei o que tinham calado durante mais de 15 anos. Sua Majestade, completamente confuso, mandou que imediatamente se consultasse o Conselho de Castela. Mandou Caballero consultá-lo, que chegou a Madrid no dia 15 de Março às 9 da manhã.  
Juntou-se o Conselho imediatamente, e às 3 da tarde, concluiu-se já quase com as rédeas do Governo nas suas mãos, determinando repetir o decreto anteriormente referido, que se despachou em seguida, mandando o Conselho por si que as tropas de Madrid fossem ao amanhecer ao sítio para impedir qualquer alvoroço. Decretou igualmente a prisão do Príncipe da Paz, entregando este decreto ao marquês de Castelar, fundando-o o Conselho no conhecimento que já tinha de tudo desde a primeira representação que lhe foi feita. 
O manchego [conde de Teba], ao ter tido conhecimento de que na noite do dia 15 tinha Godoy voltado ao Palácio, e com novas intrigas feito vacilar ao Rei, e quase convencendo-o; e entre as muitas coisas com que intimidava Sua Majestade, era que a Corte de Madrid estava sublevada contra ele, e como [Teba] não duvidava que o Rei, apesar do que se tinha passado, havia de seguir o ditame de Godoy, dispôs juntamente com Castelar para que este fosse a Madrid formar uma junta sob a determinação do Conselho, enquanto aquele ia convocar gente em seu auxílio, e para que tudo fosse disposto do melhor modo.  
Teba, disfarçado, dirigiu-se a todas as povoações da comarca, fingindo ser uma vez de tal parte, e noutras vezes de outra, e que vinha pedir que os leais manchegos [naturais de La Mancha] o acompanhassem para impedir que os Reis fugissem e os deixassem desamparados; com estas proposições, trouxe consigo até os velhos, determinados a morrer antes de permitirem que Suas Majestades se fossem embora. Ao regressar desta expedição, já estava ali Castelar, e determinaram não só exigir palavra de honra mas também juramento formal aos chefes das tropas convocadas a defender a saída dos Reis, e não somente não obedecer às ordens do Generalíssimo [Godoy], mas também prendê-lo pelo decreto do Conselho de Castela, que Castelar já tinha entregado ao manchego, depois da consulta feita pelo Rei no dia 15. No dia 16 estava já Godoy completamente desconcertado, e naquela noite volta ao Palácio, e forma as últimas tropas, pois na noite do dia 17 levaria os Reis ocultos, e juntos fugiriam; para cujo fim comunicou as devidas ordens, para que no mesmo dia partissem (como se verificou) a Tudó, [o padre] Duro e outros, para se reunirem em Cádis. Neste momento, tudo estava já bem claro para o Conselho e para os grandes, que tinham previsto todos os pontos, e nada se lhes escapava. 
Chega com efeito a noite de 17, na qual devia realizar-se o último dos atentados, e em que tudo estava disposto, tanto por parte do Almirante [Godoy] para a sua fuga, como da parte dos opositores deste horroroso desígnio. 
Por volta da uma da madrugada dispara-se uma pistola dentro do Palácio Real, e logo a seguir saiu o Príncipe das Astúrias com uma luz do seu quarto, acompanhado de alguns guardas que diziam "traição, traição"; seguem-no outros muitos; deixou todas as portas do Palácio bem custodiadas, para não deixar sair pessoa alguma, voltando depois ao seu quarto. Os paisanos e a tropa que estavam na parte de fora acudiram prontamente ao ouvir o tiro, cercaram o Palácio e aumentaram as guardas nas suas portas, no lado de fora, ficando de tal modo que que nem por portas nem varandas podia escapar quem tentasse sair. Depois deste alvoroço, uma guarda de honra que se dirigia a uma porta falsa do Palácio Real, teve contestações e contendas com outras guardas valonas que estavam antecipadamente a guardar a dita porta. A este barulho acudiu o manchego [conde de Teba], com um grande número de paisanos, que se lançaram à guarda de honra (comandada por Osório, que era carabinero) com paus e pedradas, arrojando-os e perseguindo-os até à porta do Palácio de Godoy. Este foi cercado imediatamente, saindo à sua porta D. Diego Godoy aos gritos, mandando a tropa da guarda abrir fogo; põe-se à frente o chefe das guardas valonas que ali iam e diz a [Diego] Godoy que se a sua tropa abre fogo a sua também o fará, mas que ele não traz a sua tropa para fazer isso, a não ser para aqueles que resistam e que se oponham às ordens que tem. Volta D. Diego a mandar abrir fogo, e o oficial da sua guarda, longe de obedecer, manda descansar sobre as armas, não podendo conter o impulso dos paisanos; atropelam estes a guarda de honra, entram no Palácio, D. Diego resiste e manda usar as armas; dão-lhe duas fortes pancadas com a culatra, atiram-no ao chão, e levam-no ao quartel, mas da guarda espanhola; aqui não o querem receber, e mandam-no ao das valonas. 
A tropa e a paisanagem passam a revistar todo o Palácio, em busca do Príncipe da Paz; não o encontram, mas sim a Princesa, em trajes menores. O manchego [conde de Teba] diz-lhe para não se assustar e para se vestir; e com toda a honra levam-na ao Palácio Real e entregam-na aos Reis, sem se terem apresentado a estes mais do que os manchegos, deixando entretanto tudo bem custodiado, para que não fugisse o réu. No dormitório da Princesa da Paz encontrou-se um papel do marido, em que a encarregava que tivesse cuidado com a sua filha, que ele, para salvar a vida, partia. 
Volta como um raio o manchego ao Palácio de Godoy, e vendo que não o encontrava, julga que fugiu, e apesar de ter tomado todos os caminhos e saídas com a tropa e paisanos, põe-se a caminho de Ocaña. Aí apresenta-se ao Corregedor, pergunta-lhe se o conhece, e diz-lhe o Corregedor que não; dá-se a conhecer ligeiramente, e informa-o acerca do objectivo da sua comissão, do estado em se encontrava o sítio, e que era preciso assim que lhe dissesse se tinha passado por ali Godoy, ao que o Corregedor lhe afirmou que não, e que se necessitava gente, garantia que um grito bastaria para ter todo o povo armado. Disse o manchego que ele não queria alvoroço, e que se passasse por ali Godoy, que o prendesse porque havia ordem para isso, lendo-lhe o decreto do Conselho, que levava prevenido. E feita esta diligência não se apeou nem se deteve até chegar a Madridejos; e aí repete com o alcaide as mesmas palavras que tivera com o corregedor de Ocaña, mas este diz-lhe que na pousada há uns coches e carruagens de personalidades, e que ele não conhece Godoy. O manchego faz a sua descrição, e roga-lhe para passar pela pousada para reconhecer aquelas pessoas, e ver se entre elas vem Godoy, enquanto ele fica à espera. O alcaide foi à pousada, e pela descrição que trouxe de volta percebeu o manchego que eram as senhoras Tudó e o padre Duro. Disse que nada queria com senhoras, e mandou emissários com avisos para Écija, e outros para o sítio. Daqui passou a reconhecer os apeadeiros, e à distância de 5 léguas encontrou um guarda com outros que regressavam depois de terem executado essas mesmas diligências; ficando assim convencido de que o pássaro não tinha saído da Corte. Determinou voltar e não descansar enquanto não se repetissem no sítio as mais escrupulosas revistas de toda a vizinhança e das paragens onde se supusera que se podia ocultar; alimentou-se um pouco e sem se despir descansou num aposento, deixando fechado o Palácio de Godoy e dando as devidas ordens para tudo o que pudesse ocorrer. 
No dia 19, por volta das 9 da manhã, dois soldados da guarda valona, um chamado Rodríguez e outro Aillon, reparam que um soldado sobe pelas últimas escadas com uma taça de chocolate: chamam-no e perguntam-lhe para quem é que é aquele chocolate. O homem, meio perturbado, respondeu-lhes que era para um enfermo, mas aqueles replicam-lhe "que enfermo, quando não há um cristão em toda a casa?" Já desconfiado, determina Aillon que o seu companheiro faça a guarda àquele homem, e este continuou subindo as escadas com a taça de chocolate, afirmando que quem o esperava, sairia ao sentir os passos; com efeito, saiu Godoy com duas pistolas nas mãos, de calças negras e chapéu de copa alta e um casacão, e perguntou muito desfalecido ao soldado se queria trocar a casaca, ao que o soldado, sem se intimidar, respondeu que a casaca não era sua, que era do Rei; desceu um pouco o soldado e deu gritos; sobem os demais e encontram-no num desvão, envolto numa esteira e as pistolas numa pouca cinza. Alvoroça-se a casa, comunica-se ao povo o alvoroço, acode uma numerosa multidão carregando sobre ele, e comunica-se ao Rei. Este, aturdido por este barulho e algazarra, manda o seu filho, e autoriza-o para que fosse e fizesse tudo quanto podia fazer. Saiu o Príncipe com 4 guardas, e metido entre o povo, levando empurrões, encontrou o réu, que era trazido preso e vinha ferido e feito numa miséria. Ordenou o Príncipe que o deixassem, pois convinha que falasse, e apesar de tudo era tal o encarniçamento do povo que mesmo na sua presença maltrataram-no. Deste modo foi conduzido ao quartel das guardas reais, e ali disse ao Príncipe:"perdão, Senhor! Misericórdia, misericórdia!" Respondeu-lhe o Príncipe que todos os ultrages e atentados cometidos contra a sua pessoa estavam perdoados, mas que o Conselho era quem o havia de julgar. Continuando o alvoroço, sem afastar-se o povo do quartel, determinaram os Reis que o réu passasse a Alhambra de Granada. Estava já o coche pronto, cresceu o alvoroço do povo, pedindo aos gritos a cabeça de Godoy, e tirando as mulas desfizeram o coche em mil pedaços. O Rei, o Príncipe e Caballero, estavam atrás dos vidros de uma varanda vendo esta tragédia: diz o Rei ao seu filho, todo comovido: "a ti te querem, Príncipe, tu dispõe, que eu não estou para isto, vai e sossega essa gente". Caballero disse ao Rei que não podia o Príncipe fazer coisa alguma, que para isso era indispensável um decreto de abdicação da coroa. Livre e espontaneamente, disse o Rei no mesmo instante: não tinha acabado Sua Majestade de pronunciá-lo, quando já o ministro estava compondo-o, de modo que ali mesmo foi assinado pelo Rei, sem a Rainha o saber nem perceber, pois fugindo dos gritos tinha ido para os quartos opostos.
Caballero, já com o decreto assinado, juntou o Conselho imediatamente, publicou-o, e foi Fernando VII aclamado no sítio. 
Uma dama, tendo ouvido a aclamação de Fernando VII, avisou a Rainha: vem esta já feita uma víbora, mas já não há remédio, sem demora passaram-se os decretos ao Conselho de Castela, e por uma rara providência do Céu, organizou-se numa hora sem derramar uma gota de sangue o que não tinha podido verificar-se em muitos anos.
[Fonte: A. Rodríguez Moñino, "Relato de la caida de Godoy por un testigo presencial", in Revista de Estudios Extremeños, Tomo XIV, n.º III, Badajoz, Septiembre-Diciembre 1958, pp. 3-16].



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Notas:


* Ver o que ficou dito atrás sobre um boato semelhante.


** Deve notar-se que a proclamação de Carlos IV (aqui traduzida) data somente de 16 de Março.

Os acontecimentos de Aranjuez, segundo Godoy

sexta-feira, 18 de março de 2011

Memória sobre a revolução de Aranjuez, segundo Théodore Chemineau


O texto seguinte é um excerto dumas Memorias históricas sobre as dissensões domésticas da família real da Espanha, sobre os acontecimentos do Escorial, em 1807, sobre a revolução de Aranjuez e sobre as cenas de Bayonne em 1808. O seu autor foi Théodore Chemineau, agente secreto francês, homem viajado e capaz de se expressar com igual facilidade em alemão, italiano e espanhol. Michel Duroc, Grão-Marechal do Palácio Imperial (recorde-se que tinha sido quem assinara, da parte da França, o tratado de Fontainebleau), encarregou Chemineau de ir para Madrid para informá-lo directamente sobre tudo o que se passava na Corte espanhola. Chemineau chegou à capital espanhola no fim de Janeiro de 1808, encontrando logo então a cidade "num estado de inquietação e até mesmo de fermentação", motivado sobretudo pelo final do processo de El Escorial (concluído no dia 25 de Janeiro), que se espalhava ter sido forjado e maquinado por Godoy, para retirar o Príncipe herdeiro do seu caminho. 
A importância deste excerto (que se situa pouco depois do seu autor referir o alarme que provocou a chegada de Izquierdo a Aranjuez,  que aparentemente teria impulsionado a decisão da fuga da família real) reside no facto do seu autor ser testemunha ocular de muitos dos acontecimentos que a partir do dia 15 de Março de 1808 começaram a exaltar os ânimos em Aranjuez e Madrid, e que levariam à demissão do favorito Godoy, à abdicação de Carlos IV e à entrega da coroa ao seu filho D. Fernando. 


[...] Estava em Madrid há um mês, sobretudo devido ao favor duma senhora ligada à marquesa de Musquiz, dama da Corte, que me dava as informações mais exactas e mais circunstanciadas sobre os passos do Príncipe da Paz, e sobre as vistas do herdeiro da coroa. Já referi os principais autores desse drama curioso [o autor refere-se aos sucessos e ao processo de El Escorial], e não tenho necessidade de repetir aqui os nomes dos conselheiros íntimos de Fernando. A desgraça e o exílio deles tinham-nos recomendado ao próprio povo; mas houve outros que se tinham subtraído ao ressentimento de Godoy; e rapidamente fui informado, de uma maneira segura, que, entre os ministros, o Príncipe [D. Fernando] tinha apoios seguros, e o favorito inimigos escondidos; que o próprio D. Pedro Cevallos, ministro dos negócios estrangeiros, e ligado até então ao Príncipe da Paz por laços de reconhecimento, tinha-se desligado dele à medida que a opinião pública manchava os seus actos e a sua pessoa; que o ministro Caballero opunha-se no conselho, por vias tortas, a todas as suas resoluções; e que o príncipe herdeiro do trono poderia contar não somente com a maior parte dos ministros, mas com a afeição das Guardas Reais e com o amor do povo. 
Mas o hábito de ver a autoridade nas mãos do Príncipe da Paz, e o longo exercício dum poder que ele tinha até então abusado sem contrariadores, não podiam admitir que pudesse ser removido de outra maneira que não fosse através de uma revolução. Tal era o espírito dos partidários do Príncipe das Astúrias. Mas nem o embaixador da França nem o Gabinete das Tulherias pressentiam a sua possibilidade, por crerem que a nação espanhola tinha perdido o vigor e estava degradada. Napoleão, contudo, gozava de um tal renome e exercia um tal ascendente de glória e de potência, que ele, os seus ministros e os seus principais favoritos se julgavam já senhores da Espanha tão somente pela presença das suas tropas e pela desorganização do Governo. Eu não partilhava esta opinião; e na minha correspondência com o Marechal do Palácio, Duroc, esforçava-me para dar a conhecer a verdade e precaver o Governo francês da disposição natural dos espanhóis contra qualquer ocupação ou invasão estrangeira.  
Assinalava muitas e repetidas vezes (contra a minha vontade, sem dúvida, mas o meu dever mo prescrevia) as condutas secretas dos principais partidários do Príncipe das Astúrias, que, aproveitando a indignação do povo contra o Generalíssimo Almirante [Godoy], procuravam uma ocasião para induzir uma revolução na Corte, cujo resultado fosse a sua ruína. Sei com todas as certezas que o Capitão das guardas de infantaria, D. Manuel Francisco Jauregui, preparava os soldados da guarda e fazia excursões combinadas com o conde de Montijo, que percorria La Mancha recrutando paisanos. Eu tinha recebido ordens para seguir os rastros de todas essas intrigas; mas logo reconheci a sua impossibilidade, dado que os espanhóis eram discretos nas suas coligações secretas. Tinha assim apenas alguns indícios ou alguns dados, que me mantinham continuamente em alerta; não podia continuar a viajar frequentemente de Madrid a Aranjuez, onde então estava a Corte; pois não queria despertar suspeitas sobre mim. Foi através do disfarce de uma espécie de revendedor de jóias e pedras preciosas que consegui introduzir-me em algumas casas, para retomar as minhas aproximações e comunicar com um número muito grande de espanhóis. Encontrava em todos eles a mesma disposição de espírito contra o Príncipe da Paz, e ainda cheios de confiança em relação aos franceses. Via somente que, nas altas classes, esta confiança começava a dar lugar à inquietação. Se esta não era partilhada pelo povo, é porque ele não tinha um igual conhecimento dos acontecimentos.  
O Príncipe da Paz, fosse porque trocava correspondência secreta com o Grão-Duque de Berg, tal como muitas pessoas o garantiam, fosse por outros motivos, persistia na opinião de que, para salvar a pessoa do Rei e a família real, não restava outro meio senão retirar-se para Sevilha. Começando finalmente a convencer essa ideia a Carlos IV, todas as tropas espanholas que se encontravam em Portugal e na Extremadura receberam ordens reiteradas para se dirigirem para as montanhas de Córdova e de Sevilha, e todas as da Casa Real para se dirigirem para Aranjuez, onde estava então a família real. 
Inicialmente, fizeram-se esforços para manter secretas essas disposições; mas o projecto acaba por passar a ser do conhecimento público. O povo de Madrid fica alarmado, julgando-se abandonado pelo seu rei, e deixado à mercê dos Generais das tropas franceses, como tinha acontecido com os habitantes de Lisboa e do resto de Portugal. 
Os ânimos públicos estavam violentamente agitados; acusa-se novamente o Príncipe da Paz de concertar com a Rainha a ruína do Príncipe das Astúrias e de estar à cabeça duma trama para destronar o Rei. Neste estado de coisas, espalhou-se o rumor, no dia 15 de Março, que Carlos IV tinha a intenção de se retirar de Aranjuez para Sevilha; que um grande conselho reunido no Palácio o tinha assim decidido, mas que os avisos se tinham espalhado; que a Rainha e o Príncipe da Paz queriam partir, mas que o Príncipe das Astúrias e o seu irmão, o infante D. Carlos, queriam ficar. A inquietação tornou-se geral quando se soube que as tropas que estavam em Madrid tinham recebido ordem de partir, que as guardas espanholas iam dirigir-se para Aranjuez, e que ficariam em Madrid apenas dois Regimentos suíços [Reding n.º 2 e Preux n.º 6], corpos que não eram muito apreciados. Perante esta notícia, a multidão correu para o caminho que conduzia a Aranjuez gritando: «Espanhóis, abandonareis o vosso país? Protegereis a fuga dum Príncipe que sacrifica os seus vassalos e que vai trazer a desordem nas nossas colónias? Também teremos pouca coragem, como os habitantes de Lisboa?». 
Instruído sobre o que passava e da violenta fermentação que reinava em Aranjuez, dirigi-me pela terceira vez àquela residência Real. Cheguei muito cedo na quarta-feira, dia 16 de Março, e encontrei tudo numa espécie de tumulto e desordem. O caminho de Madrid estava coberto de tropas, a maior parte da guarda real, o que retardou a minha chegada a Aranjuez, onde se tinha reunido um grande número de espanhóis das vizinhanças e, especialmente, de Madrid. Tive bastantes problemas para encontrar uma pousada; os arredores do Palácio estavam cheios de povo. Acabava o Rei de publicar a proclamação através da qual se esforçava para tranquilizar os espanhóis. Contudo, a aparente calma que tinha sucedido à agitação cessou de repente pela tarde, e correu de novo a notícia de que tudo estava disposto para a marcha da família real. Soube que vários dos ministros que se opunham à partida tinham enviado cartas-circulares aos lugares próximos, para advertir o povo acerca do que se passava e do perigo iminente que corria a pátria. Com efeito, já estavam estabelecidos as mudas [de cavalos ou gado para carga] no caminho de Sevilha e as bagagens da Corte estavam empacotadas em todas as divisões do palácio. Alguns homens (que eu tinha alguma razões para supor que eram emissários), tendo-se espalhado pelos grupos e pelas tabernas, asseguravam por toda a parte que era certa a evasão da Corte, e que Fernando, que se opunha a ela, tinha dito a um guarda real: «A viagem está decidida para esta noite; mas eu não partirei»; e que o guarda real tinha repetido aquelas palavras a todos aqueles que o quisessem ouvir. Este rumor difundiu-se com uma rapidez extraordinária e deu ocasião a um grande boato. Ninguém se atrevia a entregar-se ao sono. Os soldados abandonariam os seus quartéis e os burgueses começariam a patrulhar sem estarem autorizados. O Palácio do Príncipe da Paz estaria defendido pelos seus próprios guardas, que tinham uma ordem particular; a guarda do Palácio Real teria outra. Por volta da meia-noite, ouviram-se dois tiros de espingarda. No estado da fermentação em que se encontravam os ânimos, a menor chispa bastava para produzir um incêndio. A desordem tornou-se extrema; as tropas que tinham chegado pela tarde começaram a misturar-se com o povo, e uns e outros, encorajando-se mutuamente, tornaram geral a insurreição, cujo objecto era claramente o Príncipe da Paz. Misturei-me entre alguns grupos e ouvi distintamente gritos que ameaçavam Godoy à morte. Alguns homens, mais animados que outros, conseguiram por fim arrastar a multidão até ao seu Palácio, que foi atacado imediatamente. Os hussardos da sua guarda dispararam sobre os primeiros grupos que se apresentaram, o que, longe de desanimar os amotinados, não fez senão inspirar-lhes maior atrevimento. Os gritos de «Viva el-Rei! Viva a Rainha! Morte a Godoy!» ouviam-se por todas as partes, e os soldados e vários guardas reais começaram a liderar o movimento. Os guardas do Palácio de Godoy foram dispersados e massacrados. Os amotinados espalharam-se pelos quartos procurando o objecto do ódio público com um furor tão violento quanto tinha estado contido durante vários anos. Mas a resistência da guarda tinha dado tempo a Godoy para escapar do furor da populaça. Estava na sua cama no momento em que o seu palácio foi atacado, e levantou-se precipitadamente. Com a ajuda de alguns dos seus criados e com um disfarce que lhe fazia parecer da classe do povo, atravessou o telhado do seu palácio e refugiou-se no sótão duma casa vizinha com um dos seus criados. Depois ficou sozinho e, enrolado numa esteira, continuou agachado durante mais de trinta e duas horas. Os insurrectos, vendo que eram infrutíferas as suas buscas, começaram a partir os móveis mais preciosos; as próprias jóias foram entregues às chamas, como testemunhos odiosos de uma grandeza mal adquirida. Mas ninguém se aproveitou de uma ocasião tão favorável para o roubo e para a ganância; as condecorações, os colares e os sinais distintivos que pela sua riqueza poderiam tentar o povo ou provocar a sua indignação por terem servido ao esplendor de um homem poderoso e detestado, foram conservados com cuidado e enviados no dia seguinte ao próprio Rei. Caixas cheias de diamantes e lingotes de ouro e prata foram levados à Casa da Moeda com a exactidão mais escrupulosa. O povo, que nesta horrível noite, desencadeado, parecia não conhecer nem travão nem dever, teve para a esposa e filha do favorito todas as mostras de respeito e consideração que merecia o seu estatuto: elas foram não só respeitadas, mas também conduzidas como que triunfalmente até ao Palácio Real. O Rei e a Rainha estiveram de pé durante toda a noite. O Rei tinha-se mostrado ao povo na varanda do Palácio, tranquilizando-lhe e oferecendo-lhe a garantia de que não empreenderia nenhuma viagem. Carlos e a Rainha, tendo visto que o Príncipe das Astúrias se tinha tornado no objecto do amor do povo, suplicaram ao seu filho para que interpusesse a sua autoridade a favor de Godoy, convencidos de que apenas a sua mediação bastaria para o salvar. Depois de receber as primeira notícia daqueles sucessos, o embaixador da França chegou de Madrid às cinco da manhã, dirigindo-se imediatamente para junto de Suas Majestades. 
Entretanto, não se tinha saciado o furor do povo, que estava impaciente para afogar a sua raiva no sangue de Godoy. Todas as casas vizinhas ao seu palácio foram sucessivamente revistadas. Não se sabia como acalmar a multidão. O Rei Carlos IV e a Rainha mantinham-se na maior ansiedade: aquela terrível noite tinha sido para eles uma espécie de suplício; mas preocupavam-se se menos com a sua própria segurança do que com a sorte do seu indigno favorito. A Rainha, sobretudo, enviava a cada quarto de hora alguém para saber o que se passava e o que era feito de Godoy. Convencido de que nada podia acalmar o povo, Carlos IV, de acordo com a Rainha, teve de recorrer de novo ao Príncipe das Astúrias, por ser o único que poderia apaziguar o tumulto; e às cinco e meia da manhã apareceu o Príncipe na varanda do Palácio anunciando que o Rei participava da indignação geral contra o primeiro-ministro [Godoy]; e instantaneamente o furor do povo cessou, dando lugar a manifestações do seu amor mais ardente pelo herdeiro da coroa. Os soldados regressaram às suas bandeiras; duas companhias de guardas espanholas e valonas ocuparam a porta do Palácio do Generalíssimo Almirante [Godoy]; dispuseram-se alguns piquetes de soldados nas avenidas do Palácio Real, para dispersar a multidão e restabelecer a ordem, que pareceu restabelecer-se pouco a pouco. Às sete horas da manhã, publica-se o decreto seguinte:  
«Querendo comandar pela minha própria pessoa o exército e a marinha, resolvo exonerar D. Manuel Godoy, Príncipe da Paz, dos empregos de Generalíssimo e Almirante, concedendo-lhe o seu retiro onde lhe for mais cómodo». 
Esta declaração, assinada pela mão do Rei, era uma espécie de adesão aos excessos cometidos durante a noite contra o próprio favorito: causou a maior satisfação no povo, que via nela uma espécie de deferência à sua vontade, e a queda dum poder que, durante tantos anos, tinha oprimido e escandalizado a nação. No arrebatamento do seu entusiasmo, os habitantes de Aranjuez e todos os estrangeiros que aí se encontravam, em número de mais de dez mil, a maior parte vindos dos campos vizinhos, correram em massa até ao Palácio, pedindo para ver Suas Majestades e os Príncipes e Princesas, que apareceram nas varandas no meio das mais vivas explosões de aclamação e gratidão públicas. 
A tranquilidade reinou durante todo o dia 18: a desgraça do favorito pareceu uma garantia suficiente para que ela não fosse mais perturbada; só o foi, ligeiramente, pela prisão de D. Diego Godoy, irmão do Príncipe da Paz e Coronel das Guardas espanholas, que foi conduzido às casernas, depois de lhe terem sido arrancadas as condecorações e as marcas distintivas da sua graduação. 
Contudo, o partido do herdeiro da coroa começava a pesar no interior do gabinete do Rei; e as mutações seguintes que ele sugerirá nos comandos do palácio foram indicadas ao Rei como indispensáveis no estado em que se encontravam as circunstâncias. O Rei confia ao Príncipe de Castel-Franco [até então Comandante das Guardas valonas] o comando de todas as tropas confiadas à guarda do monarca. Esse General, o Conde de Villarieso, o Marquês de Albudeyete, Capitão das Guardas Reais e o Marquês de Caballero, ministro da graça e da justiça, formaram o conselho particular do rei. Mandou-se sondar o espírito das tropas e dos habitantes, para se assegurar se existiam ainda alguns vestígios de descontentamento, e para se prevenir as desordens que daí poderiam resultar. 
Contudo, os acontecimentos já se tinham sabido em Madrid, onde o povo imitou, na noite de 18, o exemplo do que se tinha passado em Aranjuez. Numerosos bandos de sediciosos dirigiram-se às casas de Godoy, da sua mãe, do seu irmão, Duque de Almodobar del Campo, da sua irmã D. Ramona, esposa do Conde de Fuente Blanca, da sua segunda irmã D. María Antónia, esposa do Marquês de Branciforte, e de diversas personalidades e empregados que eles supunham ser amigos íntimos, parentes ou confidentes do objecto da sua cólera; tornaram-se senhores das suas casas e queimaram os móveis, gritando sempre «Viva o Rei! Morra Godoy!». 
Estas notícias, ao chegarem à Corte [em Aranjuez] durante a noite, fizeram uma profunda impressão e agitaram o espírito do Rei e da Rainha Carolina, ainda vivamente perturbados por tudo o que acabava de acontecer. Entretanto, na manhã do dia 19, a descoberta e a prisão de Godoy deram novos tormentos a Carlos IV e à Rainha. Depois de trinta e seis horas, o favorito deposto e proscrito pelo povo não tinha nada para comer, e estava morrendo de sede. Exausto ademais pela insónia, arrisca-se a sair do refúgio que até então tinha estado garantido. Um faccioso das Guardas valonas foi o primeiro que o surpreendeu, no momento em que saía do esconderijo para espreitar a situação e procurar fugir. Felizmente, as tropas cercaram-no antes do povo, que, tendo já proferido gritos de vingança e morte, poderia lançar-se sobre ele. Um piquete de Guardas Reais levava-o como prisioneiro; mas junta-se tanta gente na sua passagem, que a escolta, ainda que numerosa, não pôde evitar que o insultassem, e que fosse ligeiramente ferido na cabeça. A sua aparição incendiou a tal ponto o furor popular que ele receava que a escolta, que era insuficiente, seria imolada por querer salvá-lo. O Rei e a Rainha, nas mais cruéis inquietações, ao serem instruídos da terrível situação em que se encontrava Godoy, apenas suplicaram ao Príncipe das Astúrias para tomá-lo debaixo da sua protecção. 
Assim, nada falta a este grande exemplo das vicissitudes humanas: Godoy humilhado, despojado do seu poder e das suas honras, prestes a morrer pelos golpes dum povo irritado, deve a conservação da sua vida àquele que ele próprio tinha mais oprimido, durante o curso da sua prosperidade. O herdeiro do trono vem até ao meio dos radicais que queriam imolar o favorito; encontra-o num estado deplorável: as suas roupas estavam em farrapos, os seus cabelos arrancados, a sua face ferida e coberta de sangue. Vendo o Príncipe, Godoy, ajoelhando-se, implora a sua clemência. Fernando, voltando-se para a multidão, diz: «Meus amigos, retirai-vos: Godoy será posto num lugar em segurança; ele é depositário de segredos importantes, e é necessário que ele mos revele». Perante a voz de Fernando, cessam os clamores e os braços levantados. Fui testemunha dessa cena memorável; vi o Príncipe que, tal como um Deus salvador, chegava para que o sangue da vítima não manchasse o seu triunfo; vi os guardas e o povo obedecer com um respeito religioso àquele que eles pareciam reconhecer já como seu monarca; mas que, nesta circunstância, não tinha outro Império para além do que exercia sobre o coração dos espanhóis. 
Fernando somente deixa Godoy aquando da sua chegada à caserna dos guardas, e quando estava ao abrigo de todo o perigo. Dirigindo-se então à imensa multidão espalhada pela praça, assegura, em nome do seu augusto pai, que o acusado seria julgado e punido segundo o rigor das leis. Esta promessa solene é suficiente para apaziguar o povo, que pouco a pouco se retira.  
Tudo parecia reentrar na ordem, quando, à meia-noite, uma viatura atrelada com seis mulas foi vista à porta da caserna dos guardas, ; rapidamente espalha-se o boato que o prisioneiro vai ser transferido para Granada. O povo agrupa-se novamente; os mais arrojados lançam-se sobre a carroça, e, depois de terem cortado as rédeas, despedaçam-na. O Príncipe das Astúrias, informado desta nova cena, aparece de novo, por ordem do Rei, e reitera, em seu nome, a promessa de fazer julgar e punir o ministro prevaricador. O povo, sempre dócil à voz de Fernando, acalma-se e dispersa-se.  
Mas Carlos IV crê não poder reinar sem o seu favorito. Fatigado então pelas emoções dolorosas que lhe tinham causado os acontecimentos abruptos e tempestuosos, enfraquecido pelas suas enfermidades, impressionado pelo desencorajamento e pela aflição da Rainha, e ainda mais impressionado pela afeição do povo pelo seu filho, Carlos IV chama até si, às sete horas da tarde, os ministros e os principais oficiais da sua Corte, e abdica espontaneamente da coroa a favor do Príncipe das Astúrias, acrescentando que nunca tinha feito nada com tanto agrado e mais conforme aos seus desejos e às suas intenções. 
E ainda disse que os direitos do Príncipe eram incontestáveis, pois convém relembrar que os prelados eleitos para representar o clero, que os grandes de Espanha e os titulares de Castela, deputados da nobreza, e aquelas cidades com voz nas Cortes e que representavam o povo espanhol, tinham prestado juramento ao Príncipe das Astúrias, desde 1789, como sucessor do trono. 
Eis o texto do decreto da abdicação de Carlos IV: 
«Como os achaques que padeço não me permitem suportar por mais tempo o grave peso do governo dos meus reinos, e para reparar a minha saúde me seja necessário desfrutar do clima mais moderado da tranquilidade da vida privada; determinei, depois da mais séria deliberação, abdicar a minha coroa no meu herdeiro e muito caro filho, o Príncipe das Astúrias. 
Portanto, a minha Real vontade é que seja reconhecido e obedecido como Rei e senhor natural de todos os meus reinos e domínios. E para que este meu Real decreto de livre e espontânea abdicação tenha o seu exacto e devido cumprimento, haveis de o comunicar ao conselho e demais pessoas a quem corresponda. 
Dado em Aranjuez, a 19 de Março de 1808. 
Eu o Rei»
A notícia da abdicação, inicialmente contida dentro do Palácio, foi anunciada ao povo por um guarda real, e, no mesmo momento, começa a circular com uma rapidez incrível. O povo acorre em massa até à praça do Palácio, para se assegurar da realidade do facto, e para ver o novo Rei, que, apresentando-se na varanda, recebe as mais explosivas manifestações de amor e de entusiasmo dos seus vassalos. 
É preciso ter sido testemunha da alegria dos espanhóis no mês de Março de 1808, desse delírio universal que produziu por toda a parte a notícia da desgraça de Godoy e a da elevação de Fernando ao trono, para julgar qual deve ser e qual foi com efeito a actividade dos espíritos, a exaltação das imaginações, e a força surpreendente que a opinião pública adquiriu naquele momento, cuja voz tinha sido durante tanto tempo abafada. 
A juventude do novo Rei, a sua amabilidade, a generosidade a que se tinha exposto para salvar o seu mais cruel inimigo, o interesse que a sua perseguição e as suas desgraças tinham inspirando, tornavam-no tão caro aos espanhóis, que o seu amor se tinha transformado em idolatria e adoração. 
Desde que a vontade de Carlos IV de ceder a coroa ao seu filho primogénito foi solenemente conhecida, no dia 19 de Março, o novo soberano dirigiu-se até ao seu pai para realizar a cerimónia do beija-mão, que, na Espanha, é uma prova de respeito e de vassalagem. Logo de seguida, o jovem Rei entra nas salas onde recebe as homenagens dos chefes do Palácio, dos ministros, e dos grandes do Reino que se encontravam em Aranjuez. Durante a tarde, Fernando assina os decretos que chamavam de volta aqueles seus fiéis servidores que tinham partilhado os perigos e a amargura da sua perseguição. 
O Duque do Infantado, chamado do exílio, foi nomeado Coronel das Guardas espanholas, e, pouco tempo depois, presidente do Conselho Supremo de Castela. O Duque de San Carlos obteve o cargo de Grã-Mestre do Palácio. Escoiquiz, Orgaz e todos aqueles que tinham sido arbitrariamente proscritos pelos sucessos de El Escorial, readquiriram os seus empregos e foram satisfeitos com as manifestações do afecto e do favor do jovem Rei. O General O'Farril foi chamado para o Ministério da Guerra; Mazaredo para o da Marinha; M. Azanza, que, durante a sua longa carreira, tinha mostrado, nas finanças, uma habilidade pouco comum, foi nomeado Ministro do Tesouro; confiou-se ao Conde de Ezpeleta a direcção geral da artilharia, e a da engenharia ao Marquês de la Romana. Cabarrus, Urquijo, Jovellanos, Hermida e outros homens eminentes, que, em diversas partes, se tinham distinguido durante o reinado de Carlos IV, e que se tinham afastado devido às intrigas da Corte, foram chamados de volta. 
Enquanto o novo Rei tratava de empregar e de distinguir aqueles seus vassalos que a opinião pública designava como os mais capazes, uma punição legal ameaçava a cabeça de Godoy. No dia 23 de Março, às sete horas da manhã, foi transferido para Villaviciosa; dois oficiais da Guarda Real subiram com ele na sua viatura, que foi escoltada por fortes piquetes do mesmo corpo, comandados pelo Marquês de Castellar, Capitão da companhia de alabardeiros, comissionado da guarda do prisioneiro. A ordem do Rei para meter Godoy em julgamento era assim concebida: 
«O Rei decidiu que D. Manuel Godoy, Príncipe da Paz, será julgado por causa das suas faltas, excessos e apropriação de bens públicos, e outros agravos que tanto poderão resultar das informações conhecidas até este dia, como das peças relativas aos acontecimentos do Escorial encontradas em Aranjuez, em número de nove, na sua secretária, tal como um telégrafo com muitas cifras». 
Esta ordem foi comunicada ao presidente do Conselho de Castela, por ordem do Rei; e na execução da decisão do Conselho, Godoy não foi o único a ser levado a julgamento: também é levado o seu irmão, D. Diego Godoy, Duque de Almodovar del Campo, tal como o ministro das finanças Soler; Vigury, ex-intendente de Havana; Sexto Espinosa, director da caixa de consolidação; Noriega, tesoureiro-geral; Marquina, corregedor ou prefeito de Madrid; de Viegas, primeiro advogado do rei no Conselho de Castela; e o padre Estala; todos acusados de terem cooperado nos excessos públicos e apropriações de bens públicos que se imputava ao favorito, e todos designados pela opinião pública como seus fiéis e seus instrumentos. 
O Conselho anuncia em seguida o novo reinado, ordenando a suspensão da venda de bens do clero, abolindo as contribuições odiosas que vexavam infinitamente o povo, e suprimindo a superintendência da polícia geral de Madrid, que era detestada pelos habitantes. Pode dizer-se que a popularidade foi a característica que distinguia a nova administração. 
Todas as cidades do Reino, e particularmente Madrid, manifestaram subitamente os mesmos sentimentos, à medida que se ia conhecendo com exactidão tudo o que se tinha passado. Em Salamanca, o povo tocou os sinos, e mais de seiscentos monges e idêntico número de licenciados foram vistos a dançar na praça pública; as mulheres, as jovens filhas e os velhos associaram-se a essas manifestações da alegria nacional. O povo estava como que numa espécie de frenesim. Os Te Deum foram cantados nas principais cidades da Espanha, para celebrar a queda do favorito. 
Em Madrid, logo no dia 19 à tarde, os retratos de Godoy, os seus brasões de armas, e em geral todos os sinais da sua opressão foram por todo o lado lançados ao fogo, e os retratos do novo rei levados em triunfo e colocados num pálio. Uma guarda cívica, formada voluntariamente, impedia os malévolos de se aproveitarem das manifestações da alegria pública para cometer excessos. 
Em Sanlúcar de Barrameda, no Reino de Sevilha, perto da embocadura do Guadalquivir, o povo, odiando o Príncipe da Paz e revoltado contra ele, antes mesmo que Fernando se sentasse no trono, devasta o jardim botânico que o favorito caído tinha fundado. Um barco duma invenção particular, nomeado Salvavidas [sic], destinado a salvar os náufragos, e que Godoy tinha mandado construir, tornou-se também num objecto do furor do povo, que destruía assim as suas próprias vantagens, para que ninguém pudesse recordar doravante o homem detestado. 
Os papéis espanhóis, que começaram a ser impressos com uma liberdade nunca vista, cobriam D. Manuel com os epítetos mais injuriosos: Chamavam-lhe o príncipe da injustiça; o generalíssimo da infâmia; o grande-Almirante da traição; a ruína da nação espanhola; resumindo, duma ponta à outra da Espanha, a animosidade contra o favorito foi levada ao mais último grau. 
A 20 de Março, foram publicadas, em Madrid, as proclamações da renúncia de Carlos IV à coroa e da elevação de Fernando VII. A alegria foi universal, e os sentimentos manifestaram-se até ao delírio. Algumas pessoas espantaram-se da Rainha não ter usado o ascendente que tinha sobre o espírito do velho Rei, para evitar essa renúncia, que a despojava a si mesma de todo o seu poder, e sujeitava-a àquele dos seus filhos que ela amava menos. Também se acreditou muito em geral que a resolução de Carlos IV tinha sido mais efeito do medo do que da sua vontade livre, apesar de ninguém indicar que ele tinha agido contra a sua vontade. Nem sequer se imaginava que poderia algum dia vir a protestar contra a sua abdicação.
Contudo, quando ela foi comunicada oficialmente ao Conselho de Castela, este impediu os três fiscais, ou seja, os três defensores do direito público, de darem o seu aviso sobre a execução desse grande acto da Majestade soberana. O impedimento desagradou à nova Corte de Aranjuez; e em consequência, o Conselho recebe, a 21, a imposição urgente de fazer publicar a abdicação, sem demora, e sem esperar que os fiscais enunciassem a sua opinião particular. O Conselho de Castela obedece. Noticia-se somente que a abdicação não foi feita nas mesmas formas que a de Juan I, de Carlos I e de Filipe V; que o velho Rei não tinha enunciado a renda que reservava para sustentar a sua casa e a da Rainha, nem quais eram as províncias da Espanha que serviriam de hipotecas como garantia da indemnização; em tudo nesse ofício sentia-se a precipitação e a crise que não tinha permitido amadurecer uma deliberação tranquila. Dois anos mais tarde, Bonaparte, no seu Moniteur, que, depois de ter sido o receptáculo de todos os actos revolucionários, se tornou o depósito  de todos os actos do seu domínio, esforça-se por mirrar com o nome de sedição e de revolta o movimento de Aranjuez, que toda a Espanha considerava como o efeito dum impulso espontâneo do povo. Ele insinua mesmo que o Príncipe das Astúrias não lhe era alheio; e que se serviu do nome da Rainha sua mãe para fortificar essa injuriosa asserção, que nem nem a Rainha, nem o Príncipe, então cativo, poderiam desmentir. Mas não se encontra nada em qualquer das numerosas memórias publicadas sobre estes acontecimentos que possa acusar Fernando de ter tido a menor parte directa nas cenas tumultuosas de 17 e de 19 de Março. Uma testemunha nada suspeita, o marquês de Caballero, ministro da Graça e da Justiça, que Carlos IV honrava com a sua confiança, e cuja probidade não pode ser posta em causa, que esteve presente em todos os acontecimentos, e que deixou de ser ministro pouco tempo depois da consagração de Fernando, escrevendo no estrangeiro, sem medo e sem esperança, diz claramente «que o príncipe das Astúrias estava de tal modo oprimido e numa tão grande dependência que lhe teria sido impossível combinar um plano, para além de que o seu amor pelo seu pai teria sido suficiente para o evitar; amor que há muitas provas para não o poder duvidar, apesar dos esforços que fazia Godoy para obscurecê-las». O mesmo ministro acrescenta, numa outra passagem (e isto foi escrito em 1815): «Agora, tal como então, não estou nada convencido que o plano tenha sido combinado, e vejo-o como inverosímil e até mesmo como impossível». 
Um outro testemunho da inocência de Fernando encontra-se nas suas cartas ao seu pai, escritas em Bayonne, no mês de Maio de 1808. [...]
Enfim, Carlos IV, ao avisar o Imperador Napoleão da sua renúncia, não informou qualquer causa duma resolução oposta à que tinha tomado dois dias antes, mas sim que as suas enfermidades não lhe permitiam encarregar-se do peso do Governo, e que tinha o projecto de se retirar, para acabar os seus dias num clima melhor. É certo que, em geral, aprova-se o resultado da revolução de Aranjuez; pois todos estavam cansados do grande poder do favorito, desejando ver o ceptro nas mãos de Fernando. 
Mas já se ouvia a tormenta. O novo rei e o seu povo iam experimentar a violência duma dessas tempestades políticas, que derrubam ao mesmo tempo o trono e as instituições sociais. Bonaparte, cujas tropas inundavam o norte da Espanha, ia aproveitar os acontecimentos de Aranjuez para antecipar a execução do seu plano. [...]

[Fonte: Théodore Chemineau, "Mémoires historiques sur les dissensions domestiques de la famille royale d'Espagne, sur l'affaire de l'Escurial, en 1807, sur la révolution d'Aranjuez et sur les scènes de Bayonne en 1808", in Collection des mémoires relatifs aux révolutions d'Espagne, mis en ordre et publiés par M. Alphonse de Beauchamp - Tome Premier, Paris, Chez L.-G. Michaud Libraire-Éditeur, 1824, pp. 57-251, pp. 103-127].