segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Proezas dos ingleses junto à foz do Tejo



Segundo o historiador Rui Prudêncio, autor do blog-de-historia.blogspot.com, "Eusébio Gomes, almoxarife do palácio de Mafra durante a primeira metade de oitocentos, foi um observador privilegiado da vida social e política da corte de D. João VI. Privilegiado porque sendo um alto funcionário administrativo palaciano tinha acesso à observação dos círculos sociais e políticos da corte e do convento que não estavam acessiveis à maioria dos portugueses. Assim, Eusébio Gomes regista episódios da vivência dos cortesãos enquanto a corte permanecia em Mafra e dos frades franciscanos no interir do espaço palaciano e conventual, provavelmente testemunhados por muito poucos. Além disso, no seu manuscrito regista notícias do conhecimento geral como a presença de membros da familia real no palácio, festividades e celebrações religiosas, eventos sociais e políticos de Mafra e de Portugal, o evoluir da Guerra Peninsular, movimentações de tropas, preço dos víveres, produção agrícola, terramotos, etc... As memórias manuscritas de Eusébio Gomes estão depositadas na biblioteca do palácio de Mafra". 

Como não temos intenção de publicar integralmente este importante documento, os interessados podem consultá-lo na íntegra a partir do blog do próprio Rui Prudêncio (ver aqui), ou parcialmente na obra El-Rei Junot de Raul Brandão, que copiou apenas as passagens relativas à chamada primeira invasão francesa. Contudo, devemos referir que, entre os trechos que são comuns a ambas as transcrições, existem diversas variantes, e algumas notas somente aparecem numa das versões. É possível assim que exista (ou tenha existido) mais de uma cópia deste diário. 

Feitas estas apresentações, citaremos em seguida as anotações de Eusébio Gomes no seu diário, entre o início e meados de Fevereiro de 1808:



2 de Fevereiro - Faz-se reconhecer Junot Governador de Lisboa, e aboliu a Regência. 

11 de Fevereiro - Hoje cercou o Maneta Loison o Regimento do Porto nas Caldas, desarmou-o e deu-lhe baixa, e [anteriormente] fez arcabuzar 9 portugueses inocentes. 

12 de Fevereiro - Morre o Patriarca. 

14 de Fevereiro - Esta madrugada apresaram os ingleses uma das canhoeiras com 60 homens da guarnição que estava defronte de S. José de Ribamar, e a levaram sem serem pressentidos. 

16 de Fevereiro - Fundearam em Cascais onze navios ingleses. 

[apud Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d. p. 152].



Os dois últimos episódios anotados demonstram bem a audácia dos ingleses, pois a foz do Tejo (sobretudo na sua margem norte) estava coberta de dezenas de baterias e fortalezas muito próximas umas das outras. A maioria destas construções tinha sido erguida na época da Guerra da Restauração, precisamente com o fim de defender Lisboa dum ataque costeiro. 


Mapa da foz do Tejo (1811)
com indicação de algumas das fortificações defensivas da entrada do Tejo


Com estes exemplos, e segundo o Bispo do Rio do Janeiro, era natural que as esperanças dos portugueses no auxílio dos ingleses não fossem "mal fundadas, por serem as forças britânicas as únicas que podem apoiar a sua existência marítima e comerciante; os mesmos franceses em Lisboa têm experimentado a superioridade de seus rivais nesta parte, quando não puderam defender duas barcas canhoneiras que aqueles lhes vieram buscar por diversas vezes mesmo dentro ao Tejo; nem tampouco embaraçar-lhe as repetidas aguadas que vêm fazer nos portos da costa, e os víveres e refrescos que deles levam, como de Sintra, Colares, Sesimbra, Ericeira, etc". [Memoria Historica da Invasão dos Francezes em Portugal no anno de 1807, Rio de Janeiro, Impressão Regia, 1808, p. 44].

Vejamos finalmente uma carta que o Capitão James Lucas Yeo enviou ao Almirante Charles Cotton, comandante da esquadra que bloqueava a foz do Tejo, narrando-lhe o episódio da madrugada de 14 de Fevereiro:

H.M.S. Confiance, ancorado na barra do Tejo, 14 de Fevereiro de 1808.  
Sir,
Tendo sido informado dum rumor que circulava em Lisboa, segundo o qual a esquadra russa estava prestes a fazer-se à vela, enviei na noite passada o cúter e o escaler às ordens de Mr. Robert Trist, acompanhado por Mr. Largue, ambos sub-mestres, para guardarem a boca do Tejo. Mr. Trist, ao se dar conta de uma embarcação de guerra ancorada diante do forte de S. Pedro [em Paço d'Arcos], entre os fortes de Belém e de S. Julião, abordou-a subitamente da maneira mais brava, e depois de uma resistência ineficaz do inimigo, capturou-a. Verificou-se que esta embarcação era a Canonier n.º 1, comandada pelo ensign de vaisseau [sic] Gaudolphe, e guarnecida com um canhão de calibre 24 e outros dois de bronze, de calibre 6, com cem conjuntos de armas e quinze homens.
É devido um grande louvor a Mr. Trist e ao seu pequeno destacamento pela intrepidez que demonstraram, quando se tem em consideração que os nossos barcos tinham apenas dezasseis homens no total, ao contrário da força superior que estava dentro das fortalezas, tendo chovido pedras e fogo muito antes de terem chegado à dita embarcação. […] Estou satisfeito por acrescentar que isto foi realizado sem nenhuma perda do nosso lado. O inimigo teve três mortos e nove gravemente feridos. 
J. L. Yeo   
[Fonte: The London Gazette, n.º 16130, p. 417-418; republicado em The Naval Chronicle, for 1808 - Vol. XIX (from January to June), London, Printed and Published by and for Joyce Gold, 1808, pp. 81-82].

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A morte do Cardeal Patriarca



Como atrás indicámos, o Cardeal Patriarca de Lisboa foi o primeiro clérigo (e precisamente o mais alto da hierarquia eclesiástica portuguesa) a emitir uma pastoral apelando à boa recepção e harmonia entre os portugueses e as tropas napoleónicas, poucos dias depois de Junot ter entrado em Lisboa. Pouco mais de dois meses depois, este Patriarca falecia. Segundo o diário de Fr. Inácio de S. Carlos, originalmente publicado no vol. XIII das provas da História Orgânica e Política do Exército Português de Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, “o Patriarca era maior de 80 anos, muito doente, e tão devoto e português como tímido e condescendente; crê-se, não sem fundamento, que tendo-se mais maduramente considerado e combinado mexer as coisas em vista do Decreto de Junot do 1.º de Fevereiro de 1808, em que se declarou por Soberano deste Reino o Tirano do Mundo, o Patriarca se penetrou de [tal] modo, que abreviou o resto dos seus dias” [apud João Francisco Marques, "O clero nortenho e as invasões francesas - patriotismo e resistência regional", in Revista de História, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n.º 9, 1989, pp. 165-246, p. 174]
Por outro lado, num manuscrito de um funcionário anónimo da Cúria Patriarcal de Lisboa pode ler-se a seguinte nota referente à morte do Cardeal Patriarca, que tem a particularidade de indicar a data exacta deste falecimento:

5.ª feira, 11 de Fevereiro de 1808 – morreu o Ex.mo Sr. Patriarca José 2.º, por as onze horas e 45 minutos da noite. Se deu à sepultura em o dia de sábado às 9 horas da noite, defronte do altar de N.ª Sr.ª sua madrinha, onde se abriu a sepultura, que custou muito a abrir por ter encontrado com uma rocha. E em 4.ª feira, 17 do mesmo mês, se fez o funeral na Santa Igreja Patriacal, por mando do Ex.mo Colégio [isto é, o Colégio dos Cónegos chamados Principais], Sé vacante. Assistiu todo o corpo da Relação Patriarcal. 
[Fonte: Isaías da Rosa Pereira, “Pastorais de alguns bispos portugueses por ocasião das invasões francesas”, in Revista de História das Ideias, vol. 10, 1988, pp. 327-346, p. 335].


O próprio Junot, numa carta a Napoleão datada de 14 de Fevereiro de 1808, também referiu este acontecimento:

Morreu anteontem, com mais de 80 anos de idade, Sua Excelência o Cardeal Patriarca. Era um homem muito considerado no país, e o seu posto era o único no género na Europa. Ao dar ao Papa quantias imensas, D. João V, esse Rei tão rico, tinha comprado o direito de ter um patriarca. A patriarcal tem rendimentos de, pelo menos, 3 milhões, e os Reis de Portugal já de há muito atacavam esses rendimentos; tinha-se por certo que este patriarca seria o último e que se deixaria desaparecer os indivíduos que actualmente constituem o Colégio da Patriarcal. Suponho ser essa também a intenção de Vossa Majestade; mas, de contrário, esses lugares, que são de grande importância, deveriam ser ocupados por nomeação de Vossa Majestade. A autoridade do Patriarca reside provisoriamente no Colégio, e eu não julguei dever modificar nada a esse respeito. Aguardarei as ordens de Vossa Majestade Imperial sobre este assunto. 

[Fonte: Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 144].


Em relação aos rendimentos do Patriarcado, deve-se ter em conta que Junot tinha ordenado que todo o ouro e prata de todas as igrejas, capelas e confrarias de Lisboa e seu termo ingressassem na Casa da Moeda até 15 de Fevereiro, e que até Março o clero lisboeta deveria pagar o primeiro terço (aplicado, no caso do Patriarcado, sobre dois terços dos seus rendimentos anuais) da contribuição extraordinária decretada por Napoleão (segundo o artigo IV e IX do decreto sobre esse efeito). Ainda a este respeito, conta Luz Soriano que “uma considerável porção de prata da igreja patriarcal, que carregou catorze carros, não tendo chegado a tempo ao cais de Belém para embarcar para bordo da esquadra [que levara a Corte para o Brasil], voltara do dito cais outra vez para a tesouraria da dita igreja. Jufre [cunhado de Junot, tendo-o este nomeado de administrador geral dos domínios reais] não se demorou em lhe lançar a mão, juntando aos quatorze carros mais uma rica e majestosa banqueta do altar do Santíssimo, que era uma das mais preciosas peças que no seu género se conhecia em Portugal e que fora mandada fazer por um dos mais célebres artistas da França” [Fonte: Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Epocha – Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1870, p. 46]. Apesar de Simão Luz Soriano dar a entender que este caso foi praticado pouco depois dos franceses terem chegado a Lisboa, julgamos no entanto que ocorreu entre 4 e 15 de Fevereiro (ou seja, entre a data de publicação do decreto indicado e o prazo assinalado no início deste parágrafo), sem sabermos precisar se foi antes (o que daria mais razão à primeira referência aqui citada) ou depois da morte do Patriarca. Recordemos que até então o exército invasor continuava a apresentar-se como amigo; ou seja, o roubo mencionado por Simão Luz Soriano deve ter sido realizado e "justificado", muito provavelmente, pela referida contribuição extraordinária. 


Finalmente, já um mês depois da morte do Patriarca, era publicado o seguinte aviso na Gazeta de Lisboa:


A 17 do corrente mês [de Março], de tarde, se hão de vender nas cavalariças do Palácio em que residiu o Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, defunto, as bestas [=cavalgadura] que ali se acham. 
[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 11, 15 de Março].

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Carta da Câmara de Faro ao Cabido da mesma cidade (8 de Fevereiro de 1808)


No dia 8 de Fevereiro de 1808, o senado da Câmara de Faro reuniu-se para remeter uma carta de repreensão ao Cabido da Sé, em virtude deste ainda não ter preparado alojamento decente para quinze oficiais estrangeiros (que julgamos que fossem franceses) que eram esperados na cidade. A mesma Câmara intimava assim o Cabido a obedecer a esta ordem, sendo que, em caso contrário, seriam os mesmos membros daquela corporação religiosa obrigados a alojar nas suas próprias casas esses estrangeiros. Vejamos então a transcrição da referida carta, que se encontra nas actas da Câmara de Faro disponíveis no Arquivo Histórico-Militar, e cujo transcritor refere que "não consta das actas seguintes qualquer resposta do Cabido, nem providências tendentes ao alojamento dos 15 oficiais esperados ou tropas do seu comando":


Il.mo e Rev.mo Sr. Cabido: 
Considerando-se madura e seriamente neste Senado o arranjo que Vossa Senhoria tem preparado para o alojamento de quinze oficiais da tropa estrangeira que se espera, e [como] sem dúvida que nem as casas da Fábrica nem os locais são lugares para [o] referido alojamento, nem tão pouco os quartos onde estão as camas nas casas da propriedade do Il.mo Sr. Conselheiro Horta* têm suficiência alguma para o dito fim, não correspondendo nada nem à dignidade de Vossa Senhoria nem ao carácter dessa oficialidade, sem reflectir que cada um dos alojados se deve considerar como em casa adequada a um dos particulares que constituem a Corporação do mesmo Il.mo Cabido. Portanto, o mesmo Senado participa que não sendo o dito aquartelamento na forma referida com toda aquela decência que a mesma oficialidade pede, o que assim deve estar pronto à chegada da mesma tropa, então passará a aquartelar por casa de cada um dos mesmos Senhores Capitulares aquela oficialidade que corresponder, visto que tanto tempo que tem havido sem o ter dado a providência necessária que se ofertara, e isto com a decência e gravidade correspondente a uma Corporação tão nobre como é o Il.mo e Rev.mo Cabido.
Deus Guarde a Vossa Senhoria.
Faro, 8 de Fevereiro de 1808. 

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 186, doc. 24].
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* [Nota do transcritor]: “Onde está hoje o Governo Civil – dos Condes de Alte. A Ermida da Senhora do Ó era capela do Palácio”.




Desenho de Luís Filipe Rosa Santos, baseado numa gravura do século XVIII
Antiga Praça da Rainha (actual Praça D. Francisco Gomes), podendo ver-se ao centro a Ermida de Nossa Senhora do Ó (com o arco da porta da vila), 
e imediatamente à direita, no rés do chão, a cadeia de Faro, e no primeiro andar, as referidas casas do Conselheiro Horta Machado, futuro primeiro Conde de Alte.



Postal de inícios do século XX, já depois da reforma da ermida e da reconstrução do palácio dos Condes de Alte, 
que, desde finais do século XIX até aos nossos dias, continua a albergar a sede do Governo Civil de Faro.

Aviso circular para os magistrados irem cumprimentar Junot (8 de Fevereiro de 1808)



José António de Sá, magistrado que em 1810 mandou publicar anonimamente uma Demonstração analítica dos bárbaros e inauditos procedimentos adoptados como meios de justiça pelo Imperador dos franceses para a usurpação do trono da Sereníssima e Augustíssima Casa de Bragança..., abordava num dos capítulos desta obra o "comportamento altivo de todos os funcionários do Governo intruso", referindo que a primeira demonstração deste comportamento foi preconizada quando Junot, "logo na sua entrada e ainda antes de declarar-se Governador de Portugal e Duque de Abrantes, recebia de pé as visitas de maior graduação". Posteriormente, já depois da instalação do Governo intruso, o mesmo Junot "obrigou por ordens circulares a todas as repartições a prestarem-lhe, em forma cerimonial, cortejos só devidos à primeira soberania". [in Demonstração analytica dos barbaros e inauditos procedimentos adoptados como meios de justiça pelo Imperador dos francezes para a usurpação do throno da Serenissima e Augustissima Casa de Bragança, e da Real Coroa de Portugal, com o exame do Tratado de Fontainebleau, Exposição dos Direitos Nacionais e Reaes, e da informe Junta dos Tres Estados para supprir as Cortes. Offerecida ao Juizo imparcial das Nações Livres, Lisboa, Impressão Regia, 1810, p. 20].

As ordens circulares mencionadas anteriormente são as seguintes:


Sua Excelência o Governador de Paris, Primeiro Ajudante de Campo de Sua Majestade Imperial e Real, e General em Chefe do Exército francês em Portugal, manda participar a tal tribunal que no dia de terça-feira, 9 do corrente, receberá sem precedência das 2 horas da tarde até às 5 os cumprimentos dos ministros de que se compõe o mesmo tribunal, ao qual Vossa Senhoria fará presente para sua inteligência e cumprimento. 
Deus Guarde a Vossa Senhoria. 
Secretaria de Estado do Interior, 8 de Fevereiro de 1808. 
Francisco António Herman [sic
[Fonte: Op. cit., p. 280]

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Carta de abertura dos portos às nações amigas


A 28 de Janeiro de 1808, seis dias depois de chegar a S. Salvador da Bahia, o Príncipe Regente D. João respondia por escrito a uma representação que lhe fizera o Conde da Ponte, Governador da Capitania da Bahia, escrito este que logo tomaria a forma de lei. Foi este o primeiro acto oficial de D. João no Brasil e um dos mais importantes - senão mesmo o mais importante - desde que aquele vasto território se tornara propriedade de Portugal:


Fonte: Wikipédia
Carta original

Conde da Ponte, do Meu Conselho, Governador, Capitão General da Capitania da Bahia, Amigo. Eu o Príncipe Regente vos Envio muito saudar, como aquele que Amo. Atendendo à representação que fizestes subir à Minha Real Presença, sobre se achar interrompido e suspenso o comércio desta Capitania com grave prejuízo dos Meus Vassalos e da minha Real Fazenda, em razão das críticas e públicas circunstâncias da Europa; e Querendo dar sobre este importante objecto alguma providência pronta e capaz de melhorar o progresso de tais danos: Sou Servido Ordenar interina e provisoriamente, enquanto não Consolido um Sistema geral que efectivamente regule semelhantes matérias, o seguinte. 
Primo: Que sejam admissíveis nas Alfândegas do Brasil todos e quaisquer Géneros, Fazendas e Mercadorias transportados ou em Navios Estrangeiros das Potências que se conservam em Paz e Harmonia com a Minha Real Coroa, ou em Navios dos Meus Vassalos, pagando por entrada vinte e quatro por cento; a saber: vinte de Direitos grossos, e quatro do Donativo já estabelecido, regulando-se a cobrança destes direitos pelas Pautas ou Aforamentos, por que até o presente se regulam cada uma das ditas Alfândegas, ficando os Vinhos, e Aguardentes, e Azeites doces, que se denominam Molhados, pagando o dobro dos Direitos que até agora nelas satisfaziam. 
Secundo: Que não só os Meus Vassalos, mas também os sobreditos Estrangeiros possam exportar para os Portos que bem lhes parecer, a beneficio do Comércio e Agricultura que tanto Desejo promover, todos e quaisquer Géneros e Produções Coloniais, à excepção do Pau Brasil, ou outros notoriamente estancados, pagando por saída os mesmos Direitos já estabelecidos nas respectivas Capitanias, ficando entretanto como em suspenso e sem vigor, todas as Leis, Cartas Régias ou outras Ordens, que até aqui proibiam neste Estado do Brasil o recíproco Comércio e Navegação entre os Meus Vassalos e Estrangeiros. O que tudo assim fareis executar com o zelo e actividade que de vós espero. 
Escrita na Bahia aos vinte e oito de Janeiro de mil oitocentos e oito. 
Príncipe

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Hissope, poema heróico-cómico publicado em Portugal durante o Governo de Junot



Estampa inserida na 3.ª edição d'O Hissope


Em 1768, o bispo de Elvas, D. Lourenço de Lencastre, e o deão do cabido, José Carlos de Lara, tiveram um arrufo que pôs fim ao costume que o último tinha em obsequiar o hissope (ou aspersório, instrumento utilizado para aspergir água benta) ao bispo, sempre que este se dirigia à sé. Ofendido, D. Lourenço de Castro conseguiu que o cabido emitisse um acórdão para obrigar o deão a continuar a executar o antigo costume. O deão protestou ao cabido, ao bispo e até ao metropolita de Évora, vendo sempre baldados os seus esforços e acabando mesmo por morrer, poucos meses depois, sem ver alterada a sentença. Sucedeu-lhe no cargo um seu sobrinho, ao qual também se exigiu o mesmo, sob pena de repreensão e multa. Sem se deixar intimidar, o novo deão apelou desta vez à Coroa. Prevendo um desfecho malogrado, o bispo e o cabido acabaram por riscar os acórdãos do respectivo livro e negar tudo o que se tinha passado. 
Este caso, que durou à volta de dois anos, foi acompanhado de perto pelos habitantes de Elvas, entre os quais se encontrava António Diniz da Cruz e Silva, exercendo funções de magistratura junto do exército da cidade. Tendo sido um dos fundadores da Nova Arcádia, Diniz aproveitou os seus dotes poéticos para caricaturizar esta "bagatela", compondo assim uma obra intitulada O Hissope, que começava com os seguintes versos: 

Eu canto o Bispo e a espantosa guerra
Que o hissope excitou na Igreja d'Elvas.

Fonte: Arpose
Folha de rosto da 1.ª edição


O Hissope tem a particularidade de ter sido o primeiro poema heróico-cómico criado em Portugal, género hoje desaparecido que se caracterizava por celebrar (e de igual forma satirizar) em tom épico um acontecimento sem qualquer importância, como era o presente caso. A crítica incisiva que Diniz fazia às vaidades eclesiásticas (retratando um clero ignorante, mundano e soberbo) não agradou à censura da Intendência Geral da Polícia – note-se que a Inquisição, apesar de continuar a existir, tinha perdido muita da sua força desde o tempo do Marquês de Pombal – , que proibiu a obra de ser publicada em Portugal. Contudo, não se conseguiu impedir que proliferassem e circulassem diversas cópias manuscritas. Francisco Augusto Martins de Carvalho, na obra abaixo mencionada, catalogou 54 exemplares manuscritos, com algumas variantes entre si, que se encontravam recolhidos em bibliotecas nacionais (embora possivelmente existam ou tenham existido muitos mais). As variantes aludidas entre estes exemplares derivam provavelmente do facto de António Diniz da Cruz e Silva ter ido aumentando, corrigindo e retocando O Hissope quase até 1799, ano em que morreu. Somente três anos depois é que finalmente era publicada a primeira versão impressa. Talvez para desviar a atenção da censura da Intendência da Polícia, que controlava de forma cerrada tudo o que vinha da França desde os tempos da Revolução, esta primeira edição saiu à estampa com a menção de ter sido publicada em Londres, como se pode ver à esquerda, apesar de na verdade ter sido impressa em Paris. Contudo, de pouco serviu esta dissimulação, pois logo em 1803, o Intendente Geral da Polícia, Pina Manique, mandava afixar em edital um aviso proibindo a venda ou divulgação em Portugal de O Hissope.


Foi assim preciso esperar até ao ano de 1808 para esta obra sair da ignomínia da censura portuguesa, quando o Governo de Junot deu permissão para se publicá-la em Portugal. É possível que uma das razões para essa autorização fosse a semelhança entre esta obra e Le Lutrin de Nicolas Boileau, obra de idêntico teor que já circulava na França há mais de cem anos, e que o próprio autor português tomara confessadamente como modelo de inspiração (embora alguns autores, entre os quais Almeida Garrett, garantam que Diniz ultrapassou a obra de Boileau). Também se deve notar que a iniciativa da publicação de um livro que desmascarava o absurdo e a hipocrisia de certas convenções religiosas era conforme àquela afirmação de Junot, na sua proclamação de 1 de Fevereiro, quando dizia aos portugueses que "a religião de vossos pais [...] será protegida e socorrida [...], mas livre das superstições que a desonram". Num país onde o clero tinha um poder enorme, esta obra caía como uma bomba, e os franceses deviam ter plena consciência disso. Por outro lado, O Hissope continha passagens que se encaixavam perfeitamente naqueles tempos, como a seguinte:

Ao pé de cada esquina, hoje, sem pejo,
Se tratam de Monsieur os portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir; e sobretudo,
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

Na verdade, esta segunda edição é hoje raríssima, pois logo que os franceses saíram do país (em Setembro de 1808), mandaram-se recolher os seus exemplares, e novamente foi proibida a venda e divulgação desta obra. Só depois da implantação do regime liberal é que se permitiu que O Hissope fosse novamente publicado em Portugal, embora entretanto se tivessem publicado diversas edições em Paris. 

Apesar desta censura de quase meio século, O Hissope, a "verdadeira coroa poética" de António Diniz da Cruz e Silva, no entender de Almeida Garrett, não perdeu a sua força e vivacidade, pois só contando até ao ano de 1921, foi editado pelo menos vinte e quatro vezes, três das quais traduzido para o francês. Uma média invejável, tendo em conta o perfil da obra. Note-se que, ainda até aquele ano, o poema também já tinha sido alvo de outras traduções (embora parciais) em inglês e alemão. De 1921 para cá foi publicado pelo menos mais cinco vezes em Portugal, a última das quais através de uma nova edição crítica de Ana María García Martín e Pedro Serra (O Hissope. Poema Herói-Cómico, Coimbra, Angelus Novus Editora, 2006).

Os interessados poderão consultar abaixo o texto da terceira edição:


O Hyssope, Poéma Heroi-Comico (Nova edição correcta, com variantes, Prefacio e Notas), Paris, Officina de A. Bobée, 1817



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Outras edições disponíveis on-line:

- Le Gouppilon (O Hyssope) - Poème Héroï-Comique d'Antonio Diniz traduit du portugais par J.-Fr. Broissonade. Deuxième édition revue et précédée d'une noticie sur l'auteur par Mr. Ferdinand Denis, Paris, Imprimerie Jouaust, 1867.

-  O Hyssope (Edição critica, disposta e annotada por José Ramos Coelho), Lisboa, Edição da Empreza do Archivo Pittoresco - Typographia Castro Irmão, 1879.


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Bibliografia consultada:

- Almeida Garrett (org.), Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos auctores portuguezes antigos e modernos... - Tomo I, Paris, Casa de J. P. Aillaud, 1826, pp. xl e seguintes.

- Almeida Garrett (org.), Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos auctores portuguezes antigos e modernos... - Tomo II, Paris, Casa de J. P. Aillaud, 1827, pp. 168 e seguintes.

- A. A. P. de Vasconcellos, "Litteratura Nacional - Poémas Heróe-Comicos", in Chronica Litteraria da Nova Academia Dramatica, n.º 5, Coimbra, Imprensa da Universidade, 28 de Março de 1840, pp. 69-73.

- António Cardoso Borges de Figueiredo, Bosquejo Historico da Literatura Classica, Grega, Latina e Portugueza, para uso das escholas [2.ª ed.], Coimbra, Imprensa da Universidade, 1846, p. 193.


- Francisco Freire de Carvalho, Lições Elementares de Poética Nacional [2.ª ed.], Lisboa, Typographia Rollandiana, 1851, pp. 114-116.

- L. A. Rebello da Silva, "Poetas da Arcadia Portugueza: Antonio Diniz da Cruz e Silva. Na Arcadia - Elpino Nonacriense. 1731-1779", in O Panorama, Volume XIII (Quinto da Terceira Série), n.º 37, Lisboa, Typographia de A. J. F. Lopes, 1856, pp. 290-295.


Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Primeiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858, pp. 123-127.

- Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Oitavo, Lisboa, Imprensa Nacional, 1867, pp. 128-129.

- Francisco Augusto Martins de Carvalho, As edições do "Hyssope" - Apontamentos bibliographicos (Tiragem limitada, só para offertas), Coimbra, Edição de autor - Casa Tipográfica, 1921.

- Alberto Pimentel, Poemas Herói-Cómicos Portugueses (Verbêtes e apostilas), Porto, Renascença Portuguesa, 1922, pp. 67-76.

- B.N.N.F., "O Hyssope. Como surgiu o poema heróico-cómico", in Jornal Linhas de Elvas, n.º 2.274 – 18 – XI, 1994.

- Ana María García Martín, "Claves del Género Heroico-Cómico en O Hissope", in Professor Basilio Losada: ensinar a pensar con liberdade e risco, Barcelona, Publicacions de la Universitat de Barcelona, 2000, pp. 402-408 [texto parcialmente truncado].

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O fuzilamento de nove portugueses nas Caldas da Rainha (9 de Fevereiro de 1808)



E não há remédio

Gravura que faz parte da série Desastres de la Guerra de Goya 
(executada entre 1810-1815)

*


Em finais de Janeiro de 1808 (ou inícios de Fevereiro, conforme as versões), alguns soldados franceses que se achavam na então vila das Caldas da Rainha foram insultados e feridos pelos populares. Nestes desacatos participaram ainda alguns soldados portugueses do 2.º Regimento do Porto, que também se encontravam nas Caldas.  Recordemos que Junot, antes de entrar em Portugal, proclamara que puniria qualquer violência praticada sobre os franceses, repetindo-o depois de uma pequena revolta ocorrida a 13 de Dezembro do ano anterior, em Lisboa. De facto, assim se mandou executar, e de uma maneira bastante ostensiva: talvez para mostrar de forma exemplar o que se faria a quem não se submetesse ao recém instaurado Governo francês, no dia 5 de Fevereiro apareceram nas Caldas os General de Divisão Loison e o General de Brigada Thomières, secundados por mais de 4 mil soldados, que se espalharam pelas ruas, assestando peças de canhão, e dispondo a vila num autêntico estado de sítio. 
Já antes disto o Juiz de Fora da vila tinha ordenado um inquérito para se averiguarem os culpados dos desacatos (que pareciam ser os próprios franceses). Porém, Thomières ordenava  agora uma segunda devassa, que se caracterizou pela arbitrariedade dos procedimentos e pela sua rápida conclusão, pois logo no dia 8 de Fevereiro foram sentenciados quinze homens à pena de morte, embora só se tenham conseguido prender dez, uma vez que os outros tinham conseguido fugir. No dia seguinte, este dez homens foram conduzidos a um campo perto da vila a fim de serem fuzilados, sendo forçados a assistirem ao acto os camaristas e cerca de uma dezena de pessoas "de distinção", entre os quais se encontrava, também obrigado, o tio duma das vítimas. Um dos dez presos, cirurgião do referido Regimento do Porto, teve a sorte de conseguir escapar à morte por ter uma perna fracturada. Ao ver o estado em que se encontrava este réu, um oficial do exército francês, o Príncipe de Salm-Kirburg1, condescendeu-se e alargou a execução da pena até que este se recuperasse (vindo posteriormente a conseguir fugir). 

Foram assim nove as vítimas que perderam a vida às mãos dos franceses (três civis e seis militares): Pedro José Pedrosa, escrivão da Câmara das Caldas da Rainha, e João de Proença, filho do Correio Mór (ambos jovens de vinte anos); Casimiro José Henriques, padeiro da vila; Manuel Joaquim, Tenente do 2.º Regimento do Porto; e um Cadete, três Soldados e um Tambor, todos do mesmo Regimento.
Finalmente, para não haver dúvidas da exemplaridade que se queria deixar patente, no dia seguinte (10 de Fevereiro) os franceses licenciaram o referido Regimento do Porto, retirando às suas tropas as suas fardas e armas.



Como atrás se procedeu em relação à morte de Jacinto Correia, indicam-se em seguida vários  relatos coetâneos sobre estes acontecimentos, tendo-se em conta que todos as versões divergem em alguns pormenores. Note-se que corrigimos os nomes dos Generais Thomières (que ora aparece Thomiers, ora Taunier) e Loison (que numa das versões aparece como Loioson).

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A primeira versão que transcrevemos sobre este acontecimento é do incontornável Acúrsio das Neves: 


Fonte: Cavacos das Caldas
"Grassava entre os soldados franceses uma sarna impertinente, doença muito frequente nos exércitos, e muito mais num exército tão atenuado de fadigas e misérias como se achava o francês, quando entrou em Portugal. Para se curarem dela os doentes da guarnição de Peniche e demais destacamentos daqueles sítios, estabeleceu-se um hospital na vila das Caldas; e foi em 28 do mesmo Dezembro [de 1807] que nele entraram os primeiros. Ainda eles não se achavam restabelecidos das fomes, frios e demais calamidades e privações que haviam sofrido na sua penosa marcha, o que, tudo junto, os desfigurava de tal modo que excitavam nuns a piedade, e noutros o escárnio e o desprezo; sendo estes últimos sentimentos os mais gerais, por serem os que a natureza inspira aos oprimidos, quando são espectadores da fraqueza e do abatimento dos seus opressores. Queixaram-se ao General Thomières, comandante daquela brigada, de que os paisanos daqueles contornos os desprezavam e insultavam, o que ofendia altamente o seu natural orgulho; e Thomières, para os despicar e proteger, mandou 7 resolutos granadeiros do Regimento n.º 58, que a 26 de Janeiro foram dormir às Caldas. 
No dia seguinte, passearam pela vila, ora juntos, ora separados, entraram nos cafés, beberam e continuaram a sua ronda com aquela altivez que lhes inspirava o presumido título de conquistadores. Um paisano, que também tinha bebido bastante, vendo passar 3 ou 4 daqueles campeões, diz para outro paisano que ali se achava: daqueles matava eu 7. Um dos franceses, que entendeu a expressão, tira a espada da bainha e investe no paisano, o qual, posto que casado e morador em diferente rua, se achava junto à casa de sua mãe, e foge para esta, gritando para uma irmã que estava na porta: acode-me Francisca. Francisca deixa-o entrar, e fechando por fora a porta, oculta a chave debaixo da saia que tinha vestida. Mas a decência não lhe vale; os franceses atiram-se a ela e, lançando-a sobre um monte de esterco, forcejam por lhe tirar a chave. Os gritos de Francisca são ouvidos num bilhar vizinho, e o animoso cadete Vasconcelos, do 2.º Regimento do Porto, que nele se achava com outras mais pessoas, salta por uma janela, e lançando mão ao primeiro pau que encontra, investe com ele aos franceses. O cirurgião e outros militares do mesmo Regimento, então aquartelado naquela vila, seguem-o; mas o cadete não precisa de ajuda para desembaraçar a mulher dentre os agressores, resultando ficarem levemente feridos dois ou três dos mesmos, e Francisca com os peitos todos negros e contusos de pancadas que um deles lhe tinha dado com o punho da espada. 
Achava-se à porta do hospital o capitão francês de caçadores Favet, com 100 soldados que chegavam para se curarem da sarna, e corre ao tumulto; mas tendo-se já a este tempo ajuntado muito povo, como era natural, uma pedra que saiu do monte dá no braço do capitão e lhe faz cair a espada, que depois se achou retorcida; e correria risco a sua vida, se um sargento português não gritasse [para] que o deixassem, que era um oficial francês. Neste momento, os cem franceses põem-se em armas, e um oficial do Regimento do Porto faz também tocar a rebate e formar o Regimento, o que deu motivo a se lhe incorporarem os soldados dispersos que iam correndo para o motim, e serenar este, sem mais desordens.
De tudo foi logo informado Thomières, e o primeiro passo que deu foi mandar ir à sua presença o Comandante e quatro oficiais do Regimento do Porto. Foram, e aí encontraram o Juiz de Fora das vilas das Caldas e Óbidos, António Amado da Cunha Vasconcelos, com os seus juízes da vintena, os quais tinham recebido uma ordem semelhante para darem conta do acontecimento de um soldado espanhol que poucos dias antes aparecera ferido, queixando-se de que o tinham atacado, para ocultar a sua fraqueza, como depois se verificou; porque, embriagando-se e precipitando-se, tinha sido o próprio e único agressor de si mesmo.
Pareceu que Thomières se interessava em salvar o Regimento do Porto e o povo das Caldas, ordenando ao Juiz de Fora que lhe remetesse imediatamente presos quatro homens maus da vila, para conservar os demais. Os que tinham concorrido ao tumulto puseram-se em pronta fugida; e foi portanto necessário ao Juiz de Fora escolher quatro homens dos mais mal conceituados na terra, e contra os quais tinham tido queixas de suas próprias mulheres, mas absolutamente inocentes nos factos de que era questão. Foram com efeito os presos que ao depois se soltaram; mas tudo inutilmente, porque fossem quaisquer as primeiras ideias de Thomières, a atroz política francesa pedia sangue e com abundância.
Fonte: allworldwars.com
Granadeiro da Guarda Imperial,

(ilustração originalmente publicada na 
Histoire de Napoléon de Laurent de l'Ardèche, de 1843)
O Juiz de Fora procedeu a uma devassa [=inquérito], na qual aparecia como culpado e principal motor da desordem o granadeiro francês que tinha corrido sobre o paisano e se havia lançado com os companheiros sobre Francisca; dentre os paisanos não se mostrou culpa, senão contra o cirurgião do Regimento do Porto, se era culpa acudir a um motim para arrancar uma vítima inocente das mãos de algozes que a estavam imolando. A vítima também aparecia com as contusões e nódoas nos peitos que deixo notadas, e [que] se verificaram na mesma devassa, por inspecção ocular.
A 5 de Fevereiro, apareceram nas Caldas Thomières e Loison com a sua Divisão. Thomières era o executor; Loison, o mesmo que poucos dias antes fizera assassinar com solenidade um português em Mafra [Jacinto Correia], por um indiscreto desafogo de palavras proferidas contra os franceses diante duma autoridade portuguesa que não praticou a virtude de ocultá-las, ia autorizar o juízo com a força armada. Tinham-se pedido rações para 10.000 infantes e 2.000 de cavalo, mas somente se apresentaram 4 a 5 mil homens de ambas as armas; número muito mais que bastante para espalhar o terror por aqueles contornos e dar a conhecer a horrorosa cena que se preparava. A vila foi posta em rigoroso sítio, embocaram-se peças [de artilharia] pelas ruas, tudo foi ocupado de tropa armada, e tudo tremeu de susto.
Avocada por Thomières a devassa do Juiz de Fora, principiou aquele General uma outra à sua feição, a qual consistia em apontamentos que ia fazendo em bocadinhos de papel avulsos do que lhe diziam ou [do que] fazia dizer às testemunhas. Também fez vir à sua presença a pobre Francisca e os 7 granadeiros franceses, para que ela dissesse qual era o que a tinha maltratado; ela o apontou, mas não se viu que daí resultasse coisa alguma contra ele. Os oficiais do Regimento do Porto, aterrados com ameaças de serem quintados[=castigados], foram as testemunhas e ao mesmo tempo os executores que iam prendendo todos aqueles contra quem depunham. 
Apenas concluída esta devassa, convocou Thomières um Conselho Militar, composto de 6 vogais e um presidente, para sentenciarem os culpados. É digna de saber-se a formalidade deste processo:
O presidente e vogais, assentados à roda de uma mesa, interrogavam os réus, e depois procediam a votos; entretanto, Thomières entrava e saía para dirigir as operações do Conselho. O Juiz de Fora e o escrivão da sua devassa, gelados de medo, assistiam até certo ponto em banco separado, longe da mesa. Entrava um réu, e presentes também as testemunhas, perguntava-se-lhes se tinham alguma coisa contra elas; e respondendo que não, como todos responderam, replicava-se-lhe: pois são eles os que depuseram contra vós de tal e tal facto. Consequentemente, era interrogado pelos mesmos factos e escritas, bem ou mal, as suas respostas, levantava-se dentre os vogais um relator, que expondo o resultado do interrogatório, concluía que aquele réu estava incurso na pena de morte, na forma da lei de tal. Era então que saíam da sala o Juiz de Fora e o seu escrivão, o réu e as testemunhas, ficando somente o Conselho em acção de votarem. 
Merece especial menção o caso de três paisanos que apareceram como réus perante aquele tribunal de sangue: Um padeiro, ouvindo tocar a rebate, pegou numa espingarda e foi até ao lugar do tumulto, mas voltou sem fazer uso dela; o escrivão da Câmara e um sujeito de distinção, por sobrenome o Proença, que estavam ambos em casa do mesmo escrivão quando  ouviram aquele sinal, também foram vistos duma casa fronteira pegar cada um em sua espingarda e escorvá-las, mas não praticaram outra alguma acção, nem mesmo saíram à rua. Foram todos presos, e depois de terem confessado estes factos, o relator tirava a conclusão: que pois confessavam terem pegado em armas no dia do tumulto, era de presumir que fosse com ânimo de fazerem uso delas contra as tropas francesas, e como tais estavam incursos na pena de morte. Que terrível lógica, que bárbara jurisprudência a destes cruéis assassinos! Os três infelizes aumentaram o número dos condenados à pena última, que foram 15; destes se achavam presos 10; os outros tinham fugido.
Tanta foi a rapidez destes procedimentos, que no dia 8 estavam todos sentenciados. Nesse dia à noite um oficial francês foi à cadeia ler a sentença aos presos; mas na língua francesa, de forma que nada perceberam dela. A 9, pelas 10 horas da manhã, teve ordem o Juiz de Fora para aprontar 6 padres para irem à cadeia, 3 carros e alguns homens de enxada; então ficou removida toda a dúvida. Não apareceram senão 4 padres, os quais chegaram à cadeia depois das 11 horas, quando os presos já vinham saindo, de modo que só os puderam ir confessando pelo caminho até ao campo de burlão, próximo à vila, onde foram fuzilados estes infelizes, na presença da Divisão francesa postada em armas e do Regimento português sem elas. Os carros foram para conduzirem os cadáveres; os homens de enxada para os enterrarem.
Não se limitou a isto a barbaridade daqueles monstros. Obrigaram o Juiz de Fora, os camaristas e 9 ou 10 pessoas das principais da terra, a que fossem assistir àquele horroroso acto. Um dos camaristas era tio direito do escrivão da Câmara, e foi tal o terror ou a violência, que não pôde dispensar-se de presenciar em cerimónia o fim trágico do seu inocente e desgraçado sobrinho. [...]
Ainda que eram 10 os presos, foram somente 9 os fuzilados: um feliz acaso salvou o cirurgião do Regimento do Porto, depois de sucessos bem extraordinários. Um capitão do mesmo Regimento tinha sido encarregado de o prender, e, conduzindo-o à cadeia, o deixa numa sala, enquanto se preparava uma prisão inferior. Era quase noite e o preso, aproveitando o momento, se precipita de uma janela bastantemente elevada; com a violência da queda ele despedaça uma perna, mas assim mesmo consegue, antes de ser visto, o arrastar-se para uma casa vizinha, e dela, por um quintal, a uma cavalariça. O capitão participa a Thomières esta fugida, e recebe dele uma resposta positiva: que procure o réu e que ficará no lugar dele, se não o apresentar. Visitam-se as casas, fazem-se pesquisas as mais exactas; e contudo, o réu não aparece; mas o capitão faz a sua diligência, como quem tratava de salvar a própria vida, e consegue o saber que um outro cirurgião fora convidado para lhe ir curar a perna; este é interrogado e confessa ser verdadeiro o facto, mas que não aceitara o convite. É necessário procurar e ouvir ainda vários sujeitos, por cuja intervenção passara de boca em boca o recado; e finalmente descobre-se o triste numa manjedoura quase rasteira, onde tinha passado 24 horas, sem outro alimento que um bocado de pão que uma alma caritativa lhe tinha levado, e já meio morto, com a perna muito inchada e negra, com sinais de gangrena. Naquele mísero estado foi conduzido ao hospital, e bem guardado. Curou-se-lhe a perna; mas por muitos dias esteve sem esperanças de vida.
Assim mesmo o levaram numa paviola ao lugar do suplício, coberto com uma serapilheira; já ele ouvia os tiros disparados sobre os seus companheiros, e o coração lhe estremecia, pensado ser aquele o momento em que as balas o trespassavam, quando o Príncipe de Salm-Kirburg1 lhe trouxe o resgate. Este moço, ainda imberbe, posto que alistado ao soldo francês, não tinha ainda o espírito afeito à crueza e à maldade; viu aquele embrulho, examinou o que era, e não pôde resistir ao espectáculo que se lhe oferecia aos olhos, que não clamasse que era uma impiedade conduzirem à morte um homem em semelhante estado; que o curassem primeiro, e depois lhe fizessem o que quisessem. O cruel Thomières e o bárbaro Loison anuíram às súplicas do Príncipe. O infeliz foi reconduzido ao hospital, onde se lhe continuou o curativo, sempre debaixo de guarda; e passados dois meses, tendo-se relaxado o rigor da sua custódia, porque este sucesso foi caindo em esquecimento, teve meios de escapar; e vive hoje [1810], sem maior incómodo no corpo que o de algum defeito na perna, mas com o espírito atribulado, ressentindo-se ainda das comoções que o abalaram em tão apertados lances. [...]
Os oficiais portugueses do Regimento do Porto, de que Thomières tanto se tinha servido para esta acção, não deviam ficar sem recompensa. As tropas francesas pegaram novamente em armas no dia 10, conservando-se sempre a vila em sítio; fez-se juntar aquele Regimento no mesmo campo da carniçaria, e tendo-se-lhe feito uma ignominiosa fala, foi ignominiosamente desarmado e dissolvido, intimando-se aos oficiais e soldados um breve espaço para saírem da vila. 
Dois dias se demorou ainda na mesma posição a Divisão francesa; mas chegando aos Generais a notícia de se terem os ingleses apoderado das Berlengas, pequenas ilhas, ou, para melhor me explicar, pontas de rochedos fronteiras a Peniche, onde não havia senão um pequeno destacamento de portugueses, que era fácil de prever [que] não lhes fariam resistência, deixaram somente uma companhia de guarnição nas Caldas, e tudo o mais marchou precipitadamente para guarnecer Peniche, Torres-Vedras e outros ponto que se viam ameaçados de uma invasão de ingleses, e todos tinham ficado quase sem gente [desde que os militares franceses tinham ido para as Caldas].
[Fonte: Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo II, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1810, pp. 64-79].


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O Bispo do Rio de Janeiro, como já deixámos indicado, encontrava-se em Lisboa nesta época, conseguindo fugir para o Brasil a 4 de Março de 1808. Foi precisamente nesta viagem que começou a escrever uma Memória sobre a invasão dos franceses, donde extraímos o seguinte excerto sobre os factos aqui indicados: 



"Não há um facto que melhor dê a conhecer o espírito dos vândalos modernos, que se chamam nossos protectores, do que a trágica cena que aconteceu na vila das Caldas [da Rainha] nos fins de Janeiro. Parece que o céu tinha destinado aquele desditoso país para sentir os mais feros golpes da tirania e barbaridade francesa. Havia mais de um mês que no Régio Hospital daquela vila se achavam quatrocentos franceses, comendo todos os mantimentos que havia de sobressalente, e consumindo as suas rendas futuras, de maneira que por muitos anos não podem prestar o costumado socorro e curativo aos pobres; e estes hóspedes não estavam tão doentes que não tivessem cometido várias desordens e distúrbios na terra, e indisposto contra si ânimos dos moradores; até que finalmente apareceram um dia sete granadeiros moços e robustos, que se julgaram mandados de propósito da Praça de Peniche a insultar as pessoas mais pacíficas que encontravam e a desatender algumas mulheres na sua própria casa. 
Numa destas casas, que fica na rua do Olival, ouviram-se altos gritos de uma mulher, que se queixava dos franceses; acudiu a vizinhança e vários cadetes e soldados do segundo Regimento do Porto, que então ali se achava aquartelado; travou-se uma rixa em que ficaram feridos alguns franceses. 
Não deve dissimular-se que o povo apareceu quase todo armado no meio das ruas, porque os franceses saíram a formar-se todos em Batalhão cerrado e armas carregadas; mas é certo e verdade pura que os portugueses não deram um só tiro, nem houve uma só morte, nem mesmo ferida perigosa. Mas o Brigadeiro Thomières não satisfeito ainda com as extorsões e despotismos que já tinha praticado na terra, sequioso de dar um exemplo de sangue e de terror, pintou este caso a Junot com as mais vivas cores que lhe sugeriu a sua natural ferocidade. A consequência foi aparecer dentro de poucos dias rodeada a vila das Caldas de um pé de Exército de quase seis mil homens de Infantaria, de Cavalaria, e nove peças de Artilharia. No mesmo dia em que chegaram [5 de Fevereiro], começou uma horrorosa pilhagem nas casas e nos campos, que não cessou em todos os seis dias que ali estiveram, e a que não escapou gado, pão, vestidos, trastes, vinho, azeite, dinheiro do rico e do pobre.
No dia seguinte, que era um Sábado, prenderam-se perto de vinte pessoas, paisanos e soldados do Porto; no Domingo e na Segunda-feira se inquiriram e acariaram muitas pessoas, a que assistia o Juiz de Fora da terra, António Amado, na presença do General Loison, Chefe do Exército, e da comissão mandada por Junot; e finalmente, na Terça-feira [9 de Fevereiro] pela manhã, sem mais processo nem figura de juízo, mandaram-se sair da prisão Pedro José Pedrosa, escrivão da Câmara, João de Proença, filho do Correio Mór, ambos rapazes de vinte anos, um padeiro da vila chamado Casimiro, um Tenente do Regimento do Porto chamado Manuel Joaquim, um Cadete, três Soldados e um Tambor do mesmo Regimento. Três ou quatro clérigos acompanharam estes nove desgraçados desde a cadeia até um campo que fica nos arrebaldes da vila; e este foi todo o tempo e todo o socorro espiritual que lhes foi concedido. Foram notificadas todas as pessoas de alguma representação da vila para assistirem; e no meio do Exército e da Artilharia, que formava os três lados duma grande praça vazia, todos os nove padecentes foram arcabuzados com poucos tiros, que ainda lhes deixaram alguns momentos de vida, para lançarem pungentes gritos de agonia e horríveis gestos de morte. Em todo aquele dia um terror inexplicável se apoderou dos moradores, que se fecharam em casa. Na Quarta-feira seguinte, no mesmo sitio e no meio do mesmo bélico aparato, mandou-se formar o segundo Regimento do Porto, e com a maior infâmia, se lhe despiram as fardas, e se lhe tiraram as armas, lançando-se com desprezo as reais bandeiras sobre os tambores; e dissolvido o corpo, na mesma hora se dispersaram os soldados para fora da vila. Deste modo se vingaram de um Regimento que na Guerra do Rossilhão lhes fez sentir os golpes da sua bravura". 
[Fonte: José Caetano da Silva Coutinho, Memoria Historica da Invasão dos Francezes em Portugal no anno de 1807, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1808, pp. 50-53].



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Uma outra versão sobre estes acontecimentos consta num documento manuscrito existente na Biblioteca Nacional, no qual se faz um historial das vítimas da "justiça" dos franceses. De autor anónimo, pelo seu contexto percebe-se que foi escrito após a primeira invasão e antes da segunda (ou seja, entre Setembro de 1808 e Março de 1809): 


Uma pequena causa produz efeitos de consequências funestíssimas: ociosos e lascivos franceses ofendem com suas maneiras pouco comedidas a certas mulheres da plebe da vila das Caldas da Rainha; ainda que desta condição, todavia honestas e de bom porte, as quais estavam lavando as suas roupas; pelo acaso, ou por fatalidade imprevista, alguns naturais presenciaram as palavras dos franceses, e vão de encontro a estes atalhando outros procedimentos. Escandalizados os soberbos invasores (que já nos reputavam seus escravos e do sofrimento dos efeminados italianos) intentam repelir com força as repreensões verbais. Os nossos, que não sofrem descomedimentos, pois seus peitos conservam os espíritos de Lopo Barriga preso em Fez, com denodo brioso rebatem os fracos franceses; e a não serem alguns oficiais e soldados do Regimento português de Linha n.º 2, então estacionado naquela vila, decerto maior desordem brotaria, e só com feridos e mortes calmaria; porém, nenhum resultado de consequência houve para com os nossos invasores. Os nossos tanto têm de ardidos e castigadores de desatenções, como de generosos e obedientes às vozes de seus superiores, que, tranquilizando-os, se serenou a desordem; porém, os franceses, mortificados em seu amor próprio, desacreditados em seu valor austerlício e friedlândico, premeditaram a ruína de sem número de inocentes nacionais. Dão parte ao Quartel-general os comandantes franceses acantonados na dita vila, e pintam a rixa casual como uma batalha campal, e a moção de alguns homens como uma perfeita e completa sublevação.

Acreditam-se as notícias oficiais, o medo e susto as engrandece, julgam-se perdidos e tratam de segurar o solo que ocupavam ainda com trémulos e mal seguros passos, bem como a sua segurança pessoal, que se lhes representava em perigo iminente, o qual crescia se não se ultrajasse a sua humanidade com algumas execuções cruéis do número daquelas dos dias procelosos de Toulon e Paris.
Fonte: allworldwars.com
Dragão da Guarda Imperial,
segundo o referido Hippolyte Bellangé
Expedem-se ordens aos Generais Loison e Thomières para marcharem com as suas Divisões e Artilharia sobre a vila das Caldas e, informando-se dos factos, procederem militarmente contra os culpados. Recebem-se as ordens, marcham os cruéis dragões contra a inocente e incauta vila, que não esperava semelhante procedimento; e chegam a ela, no dia 5 de Fevereiro, no número de 4.000 a 5.000, suposto que de antemão tivessem espalhado o boato de marcharem 10.000 de Infantaria e 2.000 de Cavalaria para que pediram rações, e tomam quartéis.
Cresce então o susto e pavor nos moradores, lembrando-se da proclamação de Junot e vendo 4.000 a 5.000 homens de tropa e artilharia dentro da vila. O bacharel António Amado da Cunha Vasconcelos, actual Juiz de Fora, mais apto para governar em tempos sossegados do que em crises delicadas, assustado ou iludido, começou os procedimentos inquisitórios sobre o facto e pronunciou, o que fizesse sem assaz discrição e prudência, segundo dizem, e alguns afirmavam ser ele a próxima causa daquela desgraça por adulação aos invasores, ou falta de talentos, segundo outros: os juízes são muitos e eu a nenhum me encosto; tão somente avanço que na época da invasão do inimigo poucos eram os magistrados subalternos capazes de desempenharem os seus deveres; e os que o eram, foram respeitados dos malvados.
Aquartelados Generais, oficiais e soldados, começam os procedimentos inquisitórios, pospostos do Juiz de Fora que tinham avocados; chamam-se testemunhas, conduzem-nas a uma sala cercada de tropa, interrogam-nos com reganho militar; tremendo de medo, balbuciantes, depõem; e mal entendidos se lhes escrevem seus ditos. Destes mal combinados e pior deduzidos inferem a imposição da pena de morte a quinze desgraçados, deste número só escapam seis, cinco fugindo e um pela fractura da perna e rogos do bom Príncipe de Salm-Kirburg1.
Decretada a morte, surpreendem-se as vítimas, e nesta prisão se houveram alguns nacionais com tal sofreguidade, ou por satisfazerem rancores antigos, ou por medo, ou por adulação aos franceses, que nenhum dos pronunciados que esteve ao alcance escapou. Cumpre dizer o seguinte: o Juiz de Fora tinha bastante confiança com o padeiro Casimiro, a quem encomendou umas perdizes para obsequiar Thomières; saiu o homem à caça e matou as perdizes; e no caminho, recolhendo-se a casa, soube do que se passava na vila, e foi dissuadido [para] que não voltasse a ela; assim o fez, e remeteu as perdizes ao Juiz de Fora, que, apesar da encomenda e oferta, não as aceitou desta vez, e mandou-lhe dizer que viesse debaixo de palavra de honra falar-lhe. Recebe o recado, não duvida o bom velho (tinha 50 anos) de comparecer perante o dito magistrado, que o mandou logo prender aleivosamente; e depois da morte deste, a viúva, passados 3 meses, casou-se com José António, escudeiro do referido ministro.
Este lisonjeava-se de ter ascendente com Thomières e Loison, por os ter em sua casa para obter o perdão dos capturados; porém, miseravelmente se enganou; pois que o dia 9 se destinou para o suplício dos infelizes.
Amanhece o dia infausto de 9 de Fevereiro, bate-se a caixa em toda a vila, põe-se armada a tropa francesa, acende-se o morrão, ataca-se o bronze atroador, e reúne-se a Divisão para marchar à primeira voz. A palidez apodera-se do rosto dos moradores da vila, o medo gela-lhes o sangue nas veias, e o terror, espalhando-se por toda parte, embarga as vozes para queixar, os suspiros para aliviar, lágrimas para regar dor, aflição e eterna saudade.
Movem-se as tropas, desfilando para o campo de Burlão nas vizinhanças da vila, e conduzem as vítimas pálidas e macilentas ao sacrifício; acompanhando Thomières e ordenando que a Câmara em corpo diplomático assistisse ao acto; e como faltasse o escrivão, que ia a morrer, fizeram substituir o lugar deste por um tio, que presenciou a trágica cena o sobrinho. Assistiram mais algumas pessoas das principais da vila, e dez homens por companhia, com a oficialidade respectiva do Regimento do Porto, desarmados e todos violentamente obrigados.
Notificaram ao Juiz de Fora que aprontasse seis padres para confessarem os padecentes, indo estes já de caminho; a ordem foi comunicada pelo Ajudante de Ordens do General Thomières. Dos seis pedidos só três se puderam encontrar, que foram o Reverendo Vigário da povoação, o Padre Nicolau Veloso e o Padre Manuel Francisco, que arrebatadamente os conduziram ao lado dos infelizes, a quem foram consolando, confortando e ouvindo de confissão de caminho para o cadafalso; até nisto tiveram desdita, pois dando-se aos nossos réus três dias para se prepararem a morrer helenisticamente[?], segundo as nossas leis, do benefício destas por outras do despotismo estrangeiro não gozaram.
Enfim, chegam ao lugar do suplício, postam-nos defronte de um valado com os rostos para ele e as costas viradas para a tropa, que os cerca de um e outro lado, ficando no meio a Câmara e Nobreza, e o Regimento dito; assestam a artilharia nas bocas das ruas e lugares donde se receavam [tumultos]. Às onze [horas] do dia deram uma descarga de mosquetaria os soldados destinados à execução, e caindo todos os nove no chão, depois cada cadáver levou mais um tiro para se certificarem mais os algozes de que a execução estava bem feita. Puseram-nos em carros descobertos que, atravessando a vila, conduziram os cadáveres para o cemitério público, onde uma comum sepultura os uniu a todos, onde esperam a ressureição dos mortos, para então o Ente Supremo lhes administrar melhor justiça do que lhes não fizeram os homens.
Toda a vila chorou esta desgraça, a uns como filhos dela, e a outros como portugueses; e só [a]o malfadado Casimiro José Henriques nada foi carpido por sua mulher, que nessa noite a passou, com as visitas que lhe deram os pêsames, a gabar as boas qualidades de José António, escudeiro do ministro e hoje seu marido; não sei se a morte daquele se premeditou para que se pudesse verificar o consórcio deste; Deus Grande, só tu podes penetrar o âmago destes factos!
Os franceses bons magoaram-se destas crueldades, e notaram-nas como efeito de ordens do Governo, a fim de conter pelo terrorrismo os portugueses.
Não houve saque como se esperava, nem contribuição, só sim alguns pequenos roubos nas casas situadas fora da vila; nesta se conservaram com boa ordem e tranquilidade sem opressão dos moradores dela: confissão que eles mesmos fizeram. O Juiz de Fora pediu 40 camas, não menos, para os Generais, que eram só dois, e nenhuma se entregou completa a seus donos, e os franceses não levaram o que faltou, mas sim os oficiais de justiça (dito pelos naturais) e o dito ministro nem se purificou a si nem aos seus oficiais, nem tampoco satisfez a seus donos. Destes procedimentos houveram muitos no tempo da invasão, e eu os presenciei; e hoje muitos daqueles que furtaram à sombra dos franceses são os patriotas e o que medram em despeito da virtude e dos bons cidadãos, que em segredo lamentam esta desgraça.
No dia dez desarmaram o Regimento e receberam-lhe as fardas (que foram para Peniche, onde Thomières vendeu parte, e outra se estragou nos armazéns) e o dissolveram juntamente com a sua oficialidade. A 12, sairam os franceses para Peniche mas não todos; porém, marchavam em pequenos corpos; e por último, deixaram uma guarnição que se revezava pelo seu turno, e onde existiu até à Restauração; eis aqui a história deste facto segundo o pude coligir.
Não individuei nomes, idades, naturalidade de todos os padecentes, porque não me souberam responder a estes quesitos pessoas a quem preguntei e que presenciaram a catástrofe; digo isto para que não se me impute omissão ou culposo descuido.

[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., p. 322 e ss. (compilação de vários textos impressos e manuscritos desta época)].




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Finalmente, cumpre também a dar a palavra aos franceses. Logo no dia 14 de Fevereiro, Junot informou Napoleão "que, nos primeiros dias de Fevereiro, 100 soldados franceses doentes que se dirigiam ao hospital das Caldas foram insultados por alguns portugueses aos quais se juntou o Regimento de Infantaria de Linha do Porto; não houve mortos, apenas alguns feridos. Enviei imediatamente ao local o General Loison com ordens para cumprir o decreto que segue em anexo [é possível que se refira à proclamação de 14 de Dezembro ou talvez a algum decreto sobre licenciamento, como a seguir se percebe] depois de apurar com exactidão a verdade dos factos; este General comunicou-me hoje que o Regimento foi licenciado e os seus oficiais e soldados enviados para suas casas sob a vigilância das autoridades civis e militares, e que a comissão militar nomeada ad hoc condenou à morte 15 indivíduos dos quais foram executados 3, pois os outros andam fugidos.
Este terrível exemplo ensinará aos portugueses o que devem recear quando ousarem insultar os soldados franceses" [Junot, Diário da I Invasão Francesa, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, p. 144]


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Já alguns anos mais tarde, o General Thiébault, por sua vez, afirmou na sua Relation de l'expédition du Portugal: faite en 1807 et 1808, par le 1er Corps d'observation de la Gironde, devenu Armée de Portugal [Paris, Chez Magimel, Anselin et Pochard, 1817, p. 84] que "o Regimento do Porto [...] ocupava as Caldas; uma companhia francesa passa por aí e arrisca-se a ser assassinada por esse Regimento. Este delito não fica impune: os oficiais culpados foram julgados, e o Regimento foi dizimado e licenciado". 
(Deve notar-se que, para além dos habituais significados de destruirexterminar ou diminuira palavra "dizimar", em sentido militar, tanto no francês décimer como em português, pode significar a punição de morte aplicada a uma por cada dez pessoas ao acaso).


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Ao contrário de Junot, que indicara a Napoleão que tinham sido três os fuzilados (embora se deva entender que apenas referia o número dos civis, e não dos militares mortos), o General Foy apresentou somente o número destes últimos, embora se tenha enganado ao dizer que eram habitantes das Caldas. Apesar desta imprecisão, este General, que como os dois anteriores, também se encontrava em Portugal quando se deram estes acontecimentos, indica talvez da forma mais ponderada que "uma rixa ocorrida na pequena cidade [sic: ville] das Caldas da Rainha, entre um destacamento do 58.º Regimento [francês] e militares do 2.º Regimento do Porto, foi apresentada ao General em Chefe, por relatórios infiéis, como uma revolta premeditada, na qual os habitantes teriam tomado parte. O Regimento do Porto foi desfeito e licenciado de uma maneira ignominiosa. Seis habitantes das Caldas foram fuzilados com um aparato calculado, que pesa mais dolorosamente no imaginário português do que se tivesse executado a matança tumultuosa de toda a população duma localidade" [Histoire de la guerre de la Péninsule sous Napoléon - Tome III, Paris, Baudouin Frères Éditeurs, 1827, p. 37].




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Por último, transcrevemos um soneto de António José Xavier Monteirofeito "quando os franceses na vila das Caldas mandaram arcabuzar seis indivíduos do Regimento de Infantaria n.º 18, segundo do Porto":


          Essa Nação, há pouco sublevada,
          Que a Lusa terra pisa impaciente,
          Exibindo com ânimo insolente
          A substância para outros reservada.


          Com indómita mão, de força armada,
          Tinta a vimos no sangue do inocente,
          Q'rendo roubar à volorsa gente
          A glória que lhe estava destinada.


          Monstro feroz, que o corpo mais luzido
          Separar o fizeste em um instante,
          Porque dele não fosses perseguido.

          Mas ah! que um coração nobre e constante

          Em Amor Patriótico incendido,
          Mostrará seu valor 'inda distante.


[Fonte: Jornal de Bellas Artes ou Mnémosine Lusitana. Redacção Patriotica, n.º XIX, Lisboa, Impressão Régia, 1816, p. 315].



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Nota:


1   O Príncipe de Salm-Kirburg era Frederick IV, Ajudante de Ordens de Napoleão desde 30 de Maio de 1807Não sabemos em que circunstâncias veio este jovem oficial (tinha apenas 18 anos) a Portugal, se acompanhando o exército de Junot ou se enviado posteriormente a mando do Imperador. Deve notar-se que o principado de Salm-Kirburg era um dos muitos territórios que faziam parte da Confederação do Reno, "protegida", como se sabe, por Napoleão.