quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A passagem das tropas de Junot pela Espanha



As tropas de Junot começaram a entrar na Península Ibérica a 18 de Outubro, ou seja, alguns dias antes do Tratado de Fontainebleau ter sido assinado. Recordemos que a convenção secreta anexa ao referido tratado previa, entre outros termos, que "as tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha". 
Pois bem, logo no dia 3 de Novembro, Junot escrevia a Napoleão, em Vitoria, dizendo que algumas ligeiras discussões que resultavam da diferença das moedas francesa e espanhola "teriam sido evitadas se o Príncipe da Paz nos tivesse querido ajudar com todo o seu poder, mas parece que o seu zelo tem abrandado bastante de há tempo a esta parte; apesar disso, tudo correrá bem". 
Tudo correrá bem... bem cedo perceberia Junot o quanto estava enganado... Nessa mesma carta, como que prenunciando o que viria a acontecer, dizia ele que "tivemos alguns dias maus à partida, mas agora estamos na planície, e espero que haja melhor tempo; faltam-nos capotes na maioria dos Regimentos das 2.ª e 3.ª divisões; é de certo um erro dos majores, que os não mandaram dar aos seus Regimentos na ocasião da partida para Bayonne ". Ainda assim, rematava: "Não é possível ver soldados mais bem dispostos nem oficiais mais ávidos de merecer a confiança que receberam de Vossa Majestade Imperial e Real". 
No dia 6 de Novembro, em Pancorbo, Junot recebia uma carta do imperador, que lhe ordenava que estivesse em Alcántara, junto à fronteira portuguesa, no dia 20 do mesmo mês. Na resposta a Napoleão, Junot diz que "ouso assegurar-vos que ela [i.e., a primeira divisão do exército] lá estará e que toda a segunda [divisão] se lhe terá reunido, quando muito, no dia 23 e que não perderei um minuto para entrar em Portugal. Sinto muito bem a importância que há em me apoderar de Lisboa para descuidar o que quer que seja que Vossa Majestade se digna dar-me, seriam precisos acontecimentos imprevisíveis, e que me não fosse possível evitar, para que eu falhasse o objectivo que V.M. se propõe. Estamos agora na estação das chuvas, e desde a nossa partida elas não nos deixaram nem por um instante, mas os soldados marcham com coragem e em boa ordem".



Percurso das tropas francesas no território espanhol (a azul).
A vermelho indicam-se os pontos de aquartelamento das tropas espanholas antes de invadirem Portugal.



Na cidade espanhola de Irun (fronteiriça com a França), publicou-se no dia 8 de Novembro a seguinte lista, referente à entrada das tropas de Junot na Espanha: 







Regressando à correspondência de Junot para Napoleão, entre os dias 6 e 19 de Novembro, verifica-se um novo hiato. (Seria a chuva que empapava o papel?)... 
Nesse dia 19, junto à fronteira portuguesa (mais precisamente em Alcántara), Junot confessava a Napoleão os sofrimentos que tinham decorrido dessa árdua viagem. Pelo seu conteúdo ser bastante esclarecedor, transcrevemos um grande excerto dela: 
"A 3.ª divisão e a cavalaria, bem como a artilharia das 2.ª e 3.ª divisões [isto é, grande parte do seu corpo, e talvez a mais importante, em caso de resistência dos portugueses] e todos os trens do exército, foram detidas a 2 dias daqui pelo súbito engrossamento de várias torrentes; na travessia de uma delas, afogaram-se-me 5 homens da 1.ª brigada da 2.ª divisão que nela se meteram muito imprudentemente. Apesar destes atrasos, espero que a 3.ª divisão chegue ao Rosmaninhal no dia 22 ao meio-dia, o mais tardar, e que a cavalaria, que tem ordens para forçar a marcha, esteja na mesma data em Idanha-a-Nova e possa chegar ao Zêzere ao mesmo tempo que as duas primeiras divisões; quanto aos trens e aos transportes militares, seguirão como puderem. Morreu parte dos cavalos e partiu-se grande número de caixões.
A artilharia da 2.ª divisão está neste momento praticamente toda sem condições para marchar. O estado de ruína em que ela se encontra resulta de ter sido conduzida por bois e gente do campo, por de outra maneira não ter sido possível; por isso agreguei a esta divisão 6 peças pertences à primeira [divisão], cuja artilharia, conduzida por cavalos do trem e dirigida pelo infatigável e excelente capitão Hulos, do 6.º Regimento de artilharia apeada, não sofreu praticamente quaisquer danos. 
Soube agora mesmo que toda esta artilharia atravessou as torrentes, com a única excepção de 9 caixões e carroças de munições, o que dará à minha primeira divisão 3 peças de 8 lb. e 3 peças de 4 lb. com munições e me permitirá acrescentar 2 peças de 4 lb. à minha vanguarda.
Vossa Majestade não pode fazer uma ideia da estrada que o meu exército teve de percorrer de Ciudad Rodrigo até aqui; não passa de uma sucessão de rochedos empilhados uns sobre os outros, que a minha artilharia teve de transpor; esta má estrada é cortada em vários locais por torrentes que em uma hora crescem três pés e, além de tudo isto, uma neve espantosa no alto da serra e uma chuva que nos fustiga continuamente quando chegamos ao lado que dá para a Extremadura. No entanto, Sire, o meu exército não se queixava destas dificuldades; mas, depois de percorrer 15 léguas por dia [± 60 km/dia, valor certamente exagerado] nestes horríveis caminhos, chegava a aldeias sem recursos onde não lhe tinham preparado qualquer subsistência.
Não devo deixar no desconhecimento de Vossa Majestade que desde Salamanca até aqui não tinha sido dada qualquer ordem para a nossa passagem e que em nenhum lado estava pronta qualquer ração de pão. Estou em Alcántara há dois dias, mandei reunir todos os meios de subsistência e, apesar disso, as tropas não puderam receber mais que a sua meia-ração. O Governador de Alcántara escreveu-me, dizendo positivamente que não tinha recebido da sua corte, nem também de Ciudad Rodrigo, nenhum aviso sobre a nossa passagem; que não tinham recebido nem um soldo, e eu fui testemunha de o Capitão General Carrafa, que deve comandar as tropas espanholas sob as minhas ordens, se ter visto obrigado a pedir emprestado à custa do seu próprio crédito para poder mandar fazer em Alcántara o pouco pão que ali tivemos.
Nenhum dos empregados do Governo espanhol acredita na nossa entrada em Portugal, e o próprio Carrafa (criatura do Príncipe da Paz) tinha ordens para reunir a sua divisão em ValladolidSalamanca. Felizmente, eu previra que isto ia acontecer e tinha-lhe enviado com antecedência um dos meus ajudantes de campo para que ele mandasse parar nos arredores de Alcántara as tropas que trazia e que me deram


                 1500 homens (Regimento de Maiorca)
                   400 homens (Dragões da Rainha)
                   150 mineiros
                        2 companhias de artilharia ligeira com 12 peças


O Capitão General Carrafa seguirá pessoalmente o meu quartel-general e deixa ordens para que os Regimentos constitutivos da sua Divisão que aqui deverão chegar o sigam imediatamente. 
O caminho que vamos percorrer até Abrantes é extremamente mau e as estradas são pouco menos que impraticáveis, já pelo pelo próprio terreno já pelas torrentes, que nesta estação engrossam tão depressa; vamos encontrar grandes dificuldades para aqui viver, mas isso será mais um motivo para que nos apressemos a entrar em melhor região. Cheguei aqui sem chefe de estado-maior, sem ordenador e sem pagador, pois nenhum deles me pôde acompanhar, mas tenho, pelo menos, a felicidade de ter conseguido activar todas as coisas e serei recompensado disso se assim tiver realizado as intenções de Vossa Majestade. Seriam precisos grandes obstáculos que eu não pudesse prever para não estar em Lisboa a 1 de Dezembro; teria, ao menos, feito para isso tudo o que humanamente era possível. Posso assegurar a Vossa Majestade que de Salamanca a Alcántara são 55 léguas de caminhos horrorosos e um tempo assustador, mas as minhas tropas percorreram percorrem esse trajecto em cinco dias [a uma velocidade média de 44 km/dia].
Não tive possibilidade de obter aqui a mínima informação sobre Portugal. O Governador de Alcántara nem sequer sabe de que lado está a fronteira, apesar de estar a apenas uma légua dela [1 légua francesa = ± 4 km]; não há aqui um único homem que fale português, e eu não consegui arranjar um guia que fosse à primeira aldeia; enviei ontem um reconhecimento até ao Rosmaninhal. Para lá chegar daqui, são precisas 8 horas; o melhor mapa é muito inexacto. Os habitantes das diversas aldeias que o meu destacamento atravessou receberam-no bem e disseram ter ouvido falar de um exército francês, mas ainda o supunham muito longe; também se tinha falado da guerra com os ingleses, mas nada mais sabiam acerca disso. São extremamente miseráveis e a sua região não oferece, praticamente, quaisquer recursos".


Se a corte portuguesa soubesse do estado destas tropas que começavam a passar a fronteira, talvez tivesse ordenado a defesa do país. Mas como se pensava na época, as tropas napoleónicas eram invencíveis...
 Seriam?

Cf. Jean-Andoche JUNOT (intr. António Ventura), Diário da I Invasão Francesa, Livros Horizonte, 2008 [tradução portuguesa do copiador da correspondência de Junot a Napoleão, entre 26 de Julho de 1806 e 7 de Junho de 1808, apreendido pelos portugueses na sequência da batalha do Vimeiro].


Ver também: Sargento-Ajudante José Luís ASSIS, Reunião do Corps D’Observation de La Gironde em Bayonne e Marcha Sobre a Espanha: Análise dos Relatos do Tenente-General Thiébault



Vincent BERNARD, Situation du 1er corps d’observation de la Gironde (Corps d’invasion du Portugal) 1er novembre 1807

Portugal entre a espada e a parede: venha o diabo e escolha...

A seguinte caricatura de Charles Williams é bem curiosa, em primeiro lugar porque demonstra que os ingleses conheciam melhor as intenções de Napoleão do que os próprios portugueses, uma vez que foi publicada a 10 de Novembro de 1807, ou seja, poucos dias antes das tropas de Junot entrarem em Portugal (em Lisboa a corte só soube que os franceses estavam invadido o país quando estes já se encontravam em Abrantes, no dia 24 de Novembro)... Em segundo lugar, porque retrata o que realmente se passará em Portugal: os franceses ocupam o país, enquanto os ingleses, aos poucos, vão abrindo o bloqueio que fizeram na costa, permitindo quer a importação, quer a exportação de bens e mercadorias. Ingleses e franceses sairão a lucrar desta história (Napoleão é que não gostará muito disto, segundo cartas reprovadoras que enviará a Junot). O povo português, como sempre, é que verdadeiramente se lixou...






Descrição: Um pequeno Napoleão, sentado numa pipa de vinho do Porto (envelhecido e genuíno), interpola John Bull:  “E agora, mestre John Bull, mais notícias para ti. Em breve estarás fora do Porto”.
Um português aproxima-se de John Bull, de chapéu na mão, dizendo: “Sou, como vê, um pobre português. Mas ele refere-se ao vinho do Porto; ele ficaria contente por trocá-lo aí pela sua grande bolsa de moedas – mas ela pertence-me, aqui entre nós”.  
John Bull, sentado e fumando um cachimbo, com um jarro de cerveja e uma enorme bolsa de moedas ao seu lado, replica: “Que se lixe ele e o seu Porto. Estou bem acomodado de Porto, e enquanto for abrindo os meus muros de madeira [i.e., o bloqueio instaurado pela esquadra britânica], e tiver um copo de uma cerveja feita na minha terra, as suas conquistas nunca me preocuparão”.

Ordens secretas de Napoleão a Junot: "uma peça curiosa para a história"

O seguinte excerto foi publicado pela esposa de Junot, num dos volumes da sua obra Mémoires de Madade la Duchesse d'Abrantès
Como escreveu ela a respeito deste documento,


 


Trata-se duma carta remetida pelo ministro da guerra francês a Junot, de acordo com as intenções de Napoleão para a ocupação de Portugal:








Segundo a mesma autora (p. 303), o próprio Napoleão escrevera pessoalmente uma carta a Junot, na qual ordenava que prendesse não só o príncipe regente, como algumas pessoas a ele ligadas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tratado de Fontainebleau (27 de Outubro de 1807)




Havia já vários anos que Napoleão tentava seduzir Godoy com a oferta duma parte de Portugal. Em Outubro de 1807, a ocasião era de se aproveitar, e o engodo foi engolido através do Tratado de Fontainebleau, que, entre outros termos, prometia todo o território do Alentejo e Algarve para Godoy. O Príncipe da Paz teria assim um domínio a condizer com o seu título, o denominado Principado dos Algarves. Por outro lado, a região de Entre-Douro e Minho seria passada às mãos da rainha da Etrúria, que até poucos dias antes dominava em nome do seu filho menor esse pequeno território situado na actual Itália (tendo esse território sido conquistado por Napoleão, o novo reino da Lusitânia Setentrional era assim uma espécie de indemnização). A zona intermédia seria inicialmente ocupada por forças francesas, sendo posteriormente decidido a quem se entregaria definitivamente.
Para além destas garantias, o objectivo aparente do tratado (e sobretudo da convenção secreta assinada no mesmo dia), assinado por um enviado de Napoleão e por outro de Godoy, era estipular as condições e a forma como entrariam e passariam as tropas francesas pela Espanha, como se pode ver através da transcrição de ambos os documentos:




TRATADO DE FONTAINEBLEAU

Nós, Napoleão, pela graça de Deus e da Constituição, Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, tendo visto e examinado o tratado, concluído, arranjado e assinado em Fontainebleau, a 27 de Outubro de 1807, pelo general-de-divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Nosso Palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra, etc., em virtude de plenos poderes conferidos por nós para este fim, com D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra de Sua Majestade o Rei de Espanha, o qual também estava munido com plenos poderes pelo seu soberano, o qual tratado é na forma seguinte:

Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, e Sua Majestade Católica o Rei da Espanha, desejando regular por comum com sentimento o interesse dos dois estados, e determinar a futura condição de Portugal, de maneira que seja consistente com a boa política de ambos os países; tem nomeado para seus ministros plenipotenciários, a saber: Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, ao general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Palácio, grão-cavaleiro da Legião de Honra; e Sua Majestade Católica o Rei da Espanha, a D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra, os quais ministros, havendo ambos mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram no seguinte:

Artigo 1. — A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para Sua Majestade o Rei da Etrúria, com o título de Rei da Lusitânia Setentrional.

Artigo 2. — A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o Príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do título de Príncipe dos Algarves.

Artigo 3. — As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstâncias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.

Artigo 4. — O Reino da Lusitânia Setentrional será tido pelos descendentes de Sua Majestade o Rei da Etrúria, hereditariamente e conforme as leis da sucessão, estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.

Artigo 5. — O Principado dos Algarves será tido pelos descendentes do Príncipe da Paz hereditariamente e conforme as leis de sucessão estabelecidas na família que ocupa o trono da Espanha.

Artigo 6. — Se não houver descendentes ou herdeiros legítimos do Rei da Lusitânia Setentrional ou do Príncipe dos Algarves, se disporá por investidura do Rei de Espanha, de maneira que nunca se unirão debaixo de uma só cabeça, nem se anexarão à coroa de Espanha.

Artigo 7. — O Reino da Lusitânia Setentrional e o Principado dos Algarves reconhecerão como protector Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, e em nenhum caso os soberanos destes países farão paz ou guerra sem o seu consentimento.

Artigo 8. — No caso de que as províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, tidas em sequestro, se devolvam na paz geral à Casa de Bragança, em troca de Gibraltar,Trindade e outras colónias, que os ingleses têm conquistado à Espanha e seus aliados, o novo soberano destas províncias terá, relativamente a Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, as mesmas obrigações que tem o Rei da Lusitânia Setentrional e o Príncipe dos Algarves, e as terá debaixo das mesmas condições.

Artigo 9. — Sua Majestade o Rei da Etrúria, cede o Reino da Etrúria em plena propriedade e soberania a Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália.

Artigo 10. — Assim que as províncias de Portugal forem definitivamente ocupadas, os diferentes príncipes que as devem possuir nomearão mutuamente comissários para verificar os seus limites naturais.

Artigo 11. — Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália, garante a Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, a posse dos seus domínios no continente da Europa, situados ao sul dos Pirenéus.

Artigo 12. — Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei da Itália obriga-se a reconhecer a Sua Majestade Católica o Rei da Espanha como Imperador das Duas Américas, quando tudo estiver pronto para Sua Majestade assumir este título, que pode ser, ou ao tempo da paz geral, ou o mais tardar três anos depois daquela época.

Artigo 13. — As duas altas partes contratantes concordam mutuamente em uma igual divisão das ilhas, colónias e outras possessões ultramarinas de Portugal.

Artigo 14. — O presente tratado será tido em segredo. Será ratificado e trocado em Madrid dentro de vinte dias, o mais tardar, da data da sua assinatura.

Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807.

(assinaturas) Napoleão

O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Champagny

O Secretário de Estado, Maret. 



CONVENÇÃO SECRETA CONCLUÍDA EM FONTAINEBLEAU, ENTRE S. M. O IMPERADOR DOS FRANCESES, E EL-REI DE ESPANHA, PELA QUAL AS DUAS ALTAS PARTES CONTRATANTES AJUSTAM TUDO O QUE DIZ RESPEITO À OCUPAÇÃO DE PORTUGAL 

Napoleão, pela graça de Deus e da Constituição, Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno; tendo visto e examinado a convenção concluída, arranjada e assinada em Fontainebleau, aos 27 de Outubro de 1807, pelo general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Nosso Palácio, grão-cordão da Legião de Honra, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que nós lhe conferimos, de uma parte; e da outra parte D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lezaun, Conselheiro Honorário de Estado e da Guerra de Sua Majestade o Rei de Espanha, igualmente munido com plenos poderes pelo seu soberano, o teor da qual convenção era o seguinte: Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, e Sua Majestade o Rei de Espanha, desejando entrar em um acordo relativamente à ocupação e conquista de Portugal, conforme as estipulações do Tratado assinado na data de hoje, têm nomeado, a saber: 

Sua Majestade o Imperador dos Franceses, Rei da Itália e Protector da Confederação do Reno, ao general de divisão Michel Duroc, Grão-Marechal do Seu Palácio, grão-cordão da Legião de Honra, e Sua Majestade Católica o Rei de Espanha, D. Eugénio Izquierdo de Ribera y Lezaun, seu Conselheiro de Estado Honorário e da Guerra, os quais, depois de haverem mutuamente trocado os seus plenos poderes, concordaram nos seguintes artigos:

Artigo 1 — Um corpo de tropas imperiais francesas de 25 000 homens de infantaria e 3 000 de cavalaria entrará em Espanha e marchará directamente para Lisboa; unir-se-ão a estas um corpo de 8 000 homens de infantaria espanhola, e 3 000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia.

Artigo 2 — Ao mesmo tempo uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10 000 homens, tomará posse da província de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6 000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves.

Artigo 3 — As tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha, e o seu pagamento providenciado por França, durante o tempo empregado na sua marcha por Espanha.

Artigo 4 — Ao momento em que as tropas combinadas entrarem em Portugal, o governo e administração das províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa (que devem ficar em estado de sequestro), serão investidos no general comandante das tropas francesas, e as contribuições impostas nas mesmas províncias serão em benefício da França. As províncias, que devem formar o Reino da Lusitânia Setentrional e o Principado dos Algarves, serão administradas e governadas pelos generais comandantes das divisões espanholas que entrarem nas mesmas, e as contribuições impostas nelas serão a benefício da Espanha.

Artigo 5 — O corpo central estará debaixo das ordens do comandante das tropas francesas, a quem também obedecerão as tropas espanholas unidas a este exército. Contudo se o rei da Espanha, ou o Príncipe da Paz, julgar conveniente ir ao exército, as tropas francesas com o general que as comandar, ficarão sujeitas as suas ordens.

Artigo 6 — Outro corpo de 40 000 homens de tropas francesas se ajuntará em Baiona, cerca dos 20 de Novembro próximo futuro ao mais tardar, estando pronto para entrar na Espanha, para o fim de marchar para Portugal, no caso em que os ingleses lá mandassem reforços, ou ameaçassem com um ataque. Este corpo adicional porém não entrará em Espanha até que as duas altas partes contratantes tenham concordado sobre este ponto.

Artigo 7 — A presente convenção será ratificada, e as ratificações trocadas ao mesmo tempo que o tratado desta data.

Dado em Fontainebleau, aos 27 de Outubros de 1807.

(Assinaturas) Duroc

E. lzquierdo.


Preparativos para a invasão a Portugal



Napoleão não via grandes problemas na ocupação de Portugal. De facto, mesmo antes de saber se o príncipe regente D. João aceitava ou não os termos do ultimato que determinava que os portos portugueses deviam ser fechados aos ingleses até ao dia 1 de Setembro de 1807 e apreendidas as mercadorias e bens britânicos em Portugal, o imperador francês ordenou a criação de um exército de 25.000 homens na cidade de Bayonne, junto à fronteira com a Espanha. Sendo que a Espanha era então aliada da França, o objectivo desse corpo, nomeado de Corpo de Observação da Gironda, era óbvio (como perceberá o embaixador português na França, D. Lourenço de Lima, quando por aí passa a caminho de Portugal, em finais de Outubro, depois de ser obrigado a afastar-se da França)...
Talleyrand, ministro dos negócios estrangeiros, sempre se opôs ao plano de Napoleão, que apelidou de "imoral e perigoso", e que, ademais, visava a conquista da Espanha e o afastamento dos Bourbons. Segundo Talleyrand, que apesar de ter sido afastado do seu cargo a 9 de Agosto sabia muito bem as intenções de Napoleão, o pretexto da invasão a Portugal não era mais que uma forma de introduzir na Espanha, "sob o disfarce da amizade, forças suficientes para evitar ou reprimir qualquer resistência". Portugal, ao hesitar perante o ultimato de Napoleão, servia de perfeito álibi para a concretização desse plano.
O Corpo de Observação da Gironda tardou, no entanto, mais a preparar do que se esperava. De facto, Junot só é nomeado General em Chefe do dito Corpo no dia 5 de Setembro, enquanto que outros Generais franceses só chegam a Bayonne já em meados de Outubro. Por outro lado, de acordo com uma carta que Junot escreveu a Napoleão, na data de 10 de Outubro, ainda faltavam então alguns milhares de homens para completar o dito Corpo. O imperador francês aproveita este atraso e a indecisão da corte portuguesa para alargar o prazo de cumprimento do ultimato, alargamento este que também foi motivado pelas desconfianças que tinha em relação a Godoy. Relembremos que, em 1801, Godoy tinha invadido Portugal sem esperar pelas tropas de Napoleão (fazendo logo um acordo de paz que não foi ratificado pelo imperador). Em 1806, perante uma iminente derrota de Napoleão na zona da actual Alemanha (contra a coligação russa-prussa-britânica), Godoy tinha apressadamente chamado às armas todo o povo espanhol (sem no entanto nomear quem era o inimigo). Perante um aliado destes, Napoleão não sabia muito como agir.
Uma invasão terrestre a Portugal tinha obrigatoriamente que passar pelo território espanhol, mas como fazê-lo sem obstáculos?





segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A importância do poderio naval no quadro do bloqueio continental

A intenção de Napoleão dominar toda a costa europeia, determinada pelo bloqueio continental e reforçada através dos Tratados de Tilsit, tinha no entanto um forte entrave:
Desde 21 de Outubro de 1805, dia duma humilhante derrota na costa do cabo de Trafalgar (considerada a última das grandes batalhas navais da idade moderna), com muitos dos seus navios destruídos ou capturados, a frota francesa (e a da aliada Espanha) era uma miragem do que havia sido. Como defender então a imensa costa europeia, a fim de se respeitar o bloqueio continental, se o poderio naval britânico era maior? Melhor dizendo, o número de navios de linha ingleses (103) era igual à soma das frotas francesa, espanhola, holandesa e russa, todas juntas. Se Napoleão queria ter vantagem numérica, e assim dominar a costa europeia, era necessário o apossamento dos navios suecos (12), dinamarqueses (20) e portugueses (13).

Fonte: Wikimedia

O domínio marítimo dos britânicos não era nenhuma novidade, como bem demonstra esta caricatura de James Gillray, publicada a 24 de Outubro de 1798, onde se representava um John Bull tragando os navios franceses, de acordo com as grandes vitórias da época de Nelson...


Numa tentativa de acabar com este poderio, Napoleão começa a atacar a Suécia no final de Julho de 1807, ou seja, logo após os Tratados de Tilsit. Algumas possessões suecas perdem-se a favor da França, embora o mesmo não tenha acontecido com a sua frota, que se manteve nos seus mares. Por outro lado, com o fim de destruir as intenções do imperador francês, o governo britânico enviou para Copenhaga uma esquadra que, nos primeiros dias de Setembro de 1807, bombardeou a dita cidade e confiscou a frota naval dinamarquesa.

Restava a frota de Portugal...

Tratados de Tilsit






A 14 de Junho de 1807, Napoleão vencia os russos na batalha de Friedland, depois de 23 horas de combate. Cinco dias depois, o Imperador russo, Alexandre I, decide estabelecer um acordo de paz. Finalmente, após vários dias de conversações, é assinado o Tratado de Tilsit (7 de Julho), onde se determinava o apogeu da política napoleónica.





Encontro dos dois imperadores no meio do rio Neman, onde foi acordado oTratado de Tilsit
(pintura de Adolphe Roehn)
Fonte: Wikipedia




Entre outros termos, previa-se o fim das monarquias ibéricas reinadas pela Casa de Bragança e pelos Bourbons:


Art.º 1º - A Russia tomará posse da Turquia na Europa e levará as suas conquistas pela Ásia dentro até aonde lhe fizer conta.
Art.º 2º - Cessarão de existir as dinastias dos Bourbon em Espanha e dos Bragança em Portugal: um príncipe da família do Imperador Napoleão, será revestido da Coroa destes Reinos.
Art.º 3º - A autoridade temporal do Papa cessará, e Roma com as suas dependências, será unida ao Reino de Itália.
Art.º 4º - A Rússia obriga-se a ajudar a França em conquistar Gibraltar.
Art.º 5º - As cidades de África, a saber: Tunis, Argel, etc, ficarão possuídas pela França, e depois da paz geral, todas as conquistas que a França tiver feito em África durante a guerra, serão dadas como indemnização aos reis de Sardenha e Sicília.
Art.º 6º - Malta será ocupada pelos franceses e a França jamais fará a paz com Inglaterra sem que ela lhe ceda esta Ilha.
Art.º 7º - O Egipto será ocupado pelos franceses. A França, Rússia, Espanha e Itália terão o direito de navegação no Mediterrâneo - todos os outros serão excluídos.
Art.º 8º - Não se declara o seu conteúdo.
Art.º 9º - A Dinamarca será indemnizada no Norte de Alemanha, e nas cidades Hanseáticas se ela ceder a sua Esquadra à França.
Art. 10º - Suas Majestades de França e Rússia, farão um ajuste, pelo qual, nenhuma Potência para o futuro terá direito de fazer navegar embarcações mercantes, excepto mandando-lhes um certo número de navios de guerra.
(in Cristovão Aires de Magalhães Sepulveda, História orgânica e política do Exército Português, Provas, Volume XVII, Invasão de Junot em Portugal, I, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, pp. 92-93)

Dois dias depois (9 de Julho) a França assina um outro Tratado de Tilsit com a Prússia, que perde então cerca de metade do seu território, que por sua vez dá origem ao Reino de Westphalie, um dos quatro reinos da Confederação do Reno, espécie de Estado-satélite do Império francês.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Bloqueio Continental instaurado pelo Decreto de Berlim (21 de Novembro de 1806)


Com a Europa quase toda a seu lado (através da ocupação militar ou de alianças forçadas), Napoleão, a 21 de Novembro de 1806, em Berlim, decretava o bloqueio continental, com o qual visava impedir todo o comércio e comunicação da Europa continental com a Inglaterra. Portugal, mantendo o compromisso com a aliança inglesa, mas sem querer levantar problemas ao imperador francês, assume-se como uma nação neutra, embora continue a acolher embarcações e mercadorias inglesas nos seus portos.


O sistema continental (1806-1810)



Decreto de Berlim

Campo Imperial de Berlim, 21 de novembro de 1806

Napoleão, Imperador dos Franceses, Rei da Itália etc. [...] Considerando,
1º. Que a Inglaterra não admite o direito da gente universalmente observado por todos os povos civilizados;
2º. Que esta considera inimigo todo indivíduo que pertence aum Estado inimigo e, por conseguinte, faz prisioneiros de guerra não somente as equipagens dos navios armados para a guerra mas ainda as equipagens das naves de comércio e até mesmo os negociantes que viajam para os seus negócios;
3º. Que ela estende às embarcações e mercadorias do comércio e às propriedades dos particulares o direito de conquista que só se pode aplicar àquilo que pertence ao Estado inimigo;
4º. Que ela estende às cidades e portos de comércio não fortificados nas embocaduras dos rios, o direito de bloqueio que, segundo a razão e o costume de todos os povos civilizados, só se aplica às praças fortes; que ela declara bloqueadas as praças diante das quais não há sequer uma única embarcação de guerra; que ela até mesmo declara em estado de bloqueio lugares em que todas as suas forças reunidas seriam incapazes de bloquear, costas internas e todo um império;
5º. Que este monstruoso abuso do direito de bloqueio tem por objetivo impedir as comunicações entre os povos, e erguer o comércio e a indústria da Inglaterra sobre as ruínas da indústria e do comércio do continente;
6º. Que sendo este o objetivo evidente da Inglaterra, qualquer indivíduo, que faça sobre o continente o comércio de mercadorias inglesas, por este meio favorece os seus desígnios e dela se torna cúmplice;
[...]
8º. Que é de direito natural opor ao inimigo as armas de que faz uso, e de combatê-lo do mesmo modo que este combate, quando desconhece todas as idéias de justiça e todos os sentimentos liberais, resultado de civilização humana;

Por conseguinte, temos decretado e decretamos o que segue:

Artigo 1º. As Ilhas Britânicas são declaradas em estado de bloqueio.
Artigo 2º. Qualquer comércio e qualquer correspondência com as Ilhas Britânicas ficam interditados [...].
Artigo 3º. Qualquer indivíduo, súdito da Inglaterra, qualquer que seja sua condição, que for encontrado nos países ocupados por nossas tropas ou pelas tropas de nossos aliados, será constituído prisioneiro de guerra.
Artigo 4º. Qualquer loja, qualquer mercadoria, qualquer propriedade pertencente a um súbdito da Inglaterra será declarada boa presa.
Artigo 5º. O comércio de mercadorias inglesas é proibido, e qualquer mercadoria pertencente à Inglaterra, ou proveniente de suas fábricas e de suas colónias é declarada boa presa.
[...]
Artigo 7º. Nenhuma embarcação vinda directamente da Inglaterra ou das colónias inglesas, ou lá tendo estado, desde a publicação do presente decreto, será recebida em porto algum.
Artigo 8º. Qualquer embarcação que, por meio de uma declaração, transgredir a disposição acima, será apresada e navio e sua carga serão confiscados como se fossem propriedade inglesa.
[...]
Artigo 10º. Comunicação do presente decreto será dada por nosso ministro das relações exteriores aos reis de Espanha, de Nápoles, da Holanda e de Etrúria e aos nossos aliados, cujos de súbditos são vítimas, como os nossos, da injustiça e da barbárie legislação marítima inglesa.

Napoleão

[Fonte:  Luiz ARNAUT, Bloqueio Continental (1806-1807)].
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Nota: Como adiante se verá, Napoleão viria a reforçar estas medidas com o chamado Decreto de Milão (17 de Dezembro de 1807), imediatamente depois de saber que Junot ocupara a cidade de Lisboa.

A Inglaterra e a França dividindo o mundo



Fonte: Wikimedia


Nesta caricatura de James Gillray, datada de 26 de Fevereiro de 1805, vê-se o primeiro-ministro inglês William Pitt e o entretanto auto-aclamado Imperador da França dividindo um globo entre si. Como o artista bem soube reproduzir, Napoleão preparava-se para se apoderar do continente europeu; no entanto, o inglês ficava com o Oceano, pedaço bem maior...

Chorando por um novo brinquedo


Fonte: Wikimedia

Caricatura atribuída a Isaac Cruickshank, onde se representa um Napoleão-criança ameaçando que começará a chorar se a mãe não lhe dá a coroa que ostenta nas mãos. Foi publicada a 25 de Janeiro de 1803, ou seja, pouco antes de se romper a paz de Amiens, que pacificou durante menos de um ano a Inglaterra e a França (entre os anos de 1793 e 1815, foi este o único período em que ambos os países declararam um armistício).

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Olivença



Praça de Olivença (c. 1700)



Mapa de Portugal incluindo o território perdido de Olivença
Fonte



Ainda hoje se pode ver em mapas oficiais que Portugal não reconhece (embora seja dos poucos casos em que o demonstra) a soberania espanhola sobre os territórios perdidos em 1801. De facto, podem-se ver na página do Instituto Geográfico Português, por exemplo, algumas cartas de Portugal onde as fronteiras com a Espanha na zona de Olivença encontram-se indefinidas... 

Godoy pintado por Goya

Manuel Godoy, Príncipe da Paz
(Goya, 1801)

Este quadro foi encomendado pelo próprio Godoy, logo após a Guerra das Laranjas. Nele se retrata o Príncipe da Paz com um traje de Capitão-General, secundado pelo seu Ajudante de Ordens. A alusão à dita guerra é feita indirectamente, através da bandeira portuguesa disposta em contraponto a Godoy.
O quadro pode ser visto no Museu da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando (Madrid), onde ingressou em 1808, junto com outras obras apreendidas no decorrer da prisão de Godoy, depois dos motins provocados em Aranjuez, em Março desse mesmo ano.

 


Circular do Tribunal Supremo de Espanha determinando 
a apreensão de todos os bens, posses, acções e direitos de Godoy 
(22 de Março de 1808)

Uma nota acerca das "invasões francesas". A chamada "guerra das laranjas"


Na verdade, como se pode ver através do Tratado de Fontainebleau, a invasão a Portugal verificada em 1807 servia-se de forças espanholas, devendo-se por isso, em termos mais rigorosos, denominar-se por invasão franco-espanhola.

Uma invasão deste tipo já tinha sido efectuada em 1801, levando pessoas como António João Teixeira Marques a considerar que foi nesse ano que houve a primeira invasão francesa. De facto, ainda que em 1801 as tropas francesas não tenham chegado a entrar em Portugal, o exército espanhol, impelido e forçado precisamente por Napoleão, penetra a fronteira e conquista em poucos dias parte do Alto Alentejo. Tendo à testa o mal afamado Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, privado da corte espanhola com bastante poder de decisão sobre a mesma, ficou este episódio conhecido por Guerra das Laranjas. O número de espanhóis que penetrou no país era cerca do dobro de todos os portugueses que compunham o exército nacional, sendo a resistência destes quase nula.
Em Junho desse ano, burlando Napoleão, Godoy assina em Badajoz uma paz à pressa, na qual se determinava a perda de Olivença, entre outros termos: "Y su Majestad católica conservará en calidad de conquista, para unirlo perpetuamente á sus dominios y vasallos, la plaza de Olivenza, su territorio y pueblos desde el Guadiana; de suerte que este rio sea el limite de los respectivos reinos en aquella parte que únicamente toca al sobredicho territorio de Olivenza" (artigo III do Tratado de Badajoz).
O imperador, assim que sabe do sucedido, decidiu não ratificar o acordo com se tinha estabelecido, julgando que era muito brando para Portugal. Contudo, Olivença tinha sido irremediavelmente perdida neste laranjal, que era ao mesmo tempo um prelúdio do que viria a ocorrer em 1807...



Caricatura inglesa de autoria de Charles Williams (publicada a 22 de Julho de 1801) onde se satiriza Godoy, denominado Príncipe da Paz mas armado até aos dentes, forçando os portugueses a assinarem a paz de uma guerra que tinha ele iniciado...
Tendo como pano de fundo uma fortaleza ardendo, Godoy, protegido por soldados espanhóis prontos para dispararem, obriga dois portugueses a assinarem o tratado de paz que se encontra debaixo do seu pé direito. Ironicamente, a ponta da espada crava o mesmo documento precisamente no sítio em que se encontra o seu título: Príncipe da Paz. Godoy, que empunha dois mosquetes, tem no cinturão quatro pistolas e uma faca atravessando o seu chapéu, diz: “Vá, Senhor, rápido, ou passarei todo o país à espada. Homens, mulheres e crianças, não pouparei ninguém! Recordai que sou o Príncipe da Paz”. Ao que lhe responde um dos portugueses ajoelhados: “Por amor de Deus, detenha esta efusão de sangue, que já bastam três cidades destruídas. Os gritos e choros obrigam-me a... sim, eu o reconheço como sendo o Príncipe da Paz”.

Ascensão de Napoleão Bonaparte

No dia 18 de Brumário do Ano VIII, segundo o calendário revolucionário (ou seja, 9 de Novembro de 1799), o General Napoleão, reputado comandante do Exército francês, entra em Paris e dissolve o Directório, incapaz de governar um país perturbado social e politicamente. Tendo do seu lado a maior parte do exército, Bonaparte auto-proclama-se então Primeiro Cônsul da França, começando assim todo um período que alterá irremediavelmente o curso da história.

Na caricatura ao lado (publicada a 21 de Novembro de 1799), podemos ver uma sátira do inglês James Gillray ao referido Golpe do 18 de Brumário.

Fonte: Wikimedia




No que se refere à política externa, um dos primeiros acordos que fez o Primeiro Cônsul foi com a Espanha, que mantinha uma aliança com a França desde o fim da Guerra do Rossilhão, depois da Paz de Basileia (assinada em 1795). Estes dois países voltam em 1800 e 1801 a assinar uma série de acordos que estarão por trás da chamada Guerra das Laranjas, visto que Portugal não obedecia à determinação de Napoleão ou de Carlos IV para que se fechassem os portos nacionais aos barcos ingleses.


Bonaparte, Primeiro Cônsul (c. 1802)
Litografia de autoria de Belliard e Delpech
Fonte: NYPL

Campanha do Rossilhão (1793-1795) e suas consequências



Em 1793, a França revolucionária, mais radical que nunca, decapita Luís XVI. Depois de quatro anos assistindo passivamente aos avanços dos radicais franceses, a Europa decide intervir. A Espanha, sob a iniciativa de Godoy, tenta vingar o sangue derramado da família real francesa, ligada por matrimónios a muitas casas outras reais europeias. Portugal junta-se à causa, enviando para o Rossilhão (região assinalada a vermelho no mapa abaixo) um corpo de cerca de 5.000 homens liderados por um General inglês, John Forbes Skellater (gravura à direita).

Ainda que num primeiro momento os aliados ganhem terreno, a França acaba por batê-los. Ao fim de dois anos de guerra, sem conhecimento de Portugal ou da Inglaterra, a Espanha opta por acordar a paz com os franceses. Manuel Godoy, que fora quem começara por declarar a guerra, é premiado então, pelo rei espanhol D. Carlos IV, com o título de Príncipe da Paz, apesar da Espanha ter saído bastante prejudicada por tal acordo, assinado em Basileia a 22 de Julho de 1795.
A aliança daqui resultante terá consequências nefastas para Portugal....
A Espanha começa por declarar guerra à Inglaterra a 5 de Outubro de 1796, mas obtém como resposta o bloqueio dos seus portos pelas esquadras navais britânicas. Portugal, apesar de se fazer aparentar como país neutro, vai apoiando e mantendo a sua aliança com a Inglaterra, o que lhe deixa entre a espada e a parede...


Apresentação

Em 1807, a intenção de Napoleão conquistar a Península Ibérica vem perturbar a pacatez de um país à beira-mar plantado.
Os acontecimentos que então se produzem viriam a alterar, directa ou indirectamente, toda a futura vida social e política dos portugueses e espanhóis.

Este blog visa contribuir (com algumas notas soltas, bibliografia, documentos escritos e iconográficos) para se relembrar o que então se passou...

Estejam à vontade para me corrigirem ou darem sugestões:
edgarcavaco@gmail.com