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domingo, 4 de setembro de 2011

Notícias sobre os acontecimentos em Portugal, publicadas no periódico The National Register (4 de Setembro de 1808)



Acontecimentos políticos da semana.

Vitórias britânicas sobre as tropas francesas.


Temos hoje a inexprimível satisfação de anunciar a informação há muito esperada duma assinalada vitória do nosso exército em Portugal*. Seja qual for o modo como contemplamos esta importante ocorrência, sentimos tanta exultação quanto prazer. No meio de tais sensações misturadas, não sentimos surpresa, pois o valor impassível, determinado e perseverante dos nossos soldados nunca foi dúbio. Este é um daqueles acontecimentos grandes e abrangentes que atinge o peito de todos os britânicos, e que será sentido tão entusiasticamente sobre o rio Shannon como no Thames. Graças, sincera e inexprimivelmente, ao nosso exército e ao seu bravo Comandante! Eles cumpriram gloriosamente os deveres que o seu país esperava que cumprissem. O seu país confiou-lhes o glorioso penhor da sua glória e reputação; e a sua confiança não foi desapontada. A impetuosa bazófia e a destreza táctica dos invencíveis franceses foram incapazes de resistir ao impulso irresistível do patriotismo britânico, secundado pelas baionetas britânicas. Guerreiros distinguidos! Dignos descendentes dos heróis de Agincourt, Cressy, Blenheim e Minden! Haveis iniciado gloriosamente uma campanha cujo objectivo é nada menos que a emancipação da Europa do despotismo mais repugnante e perigoso que alguma vez flagelou a humanidade. Haveis sido enviados para resgatar o país do mais fiel dos nossos aliados, das presas dos monstros que há muito atacavam os seus órgãos vitais; e depois de terdes acabado esta gloriosa façanha, estais apressando-vos para cooperar com um povo distinguido, cujo anais são apenas recapitulações de vitórias; cujos campos, cujas montanhas e cujas cidades apresentam monumentos eternos de vitórias contra os cartagineses, romanos e mouros. Cujo sentido de honra é igual à sua bravura, e cuja integridade apenas rivaliza com o seu patriotismo. Enquanto toda a Europa está tremendo e amedrontada aos pés dum aventureiro implacável e arrogante, esta nação generosa repeliu com desprezo qualquer tipo de compromisso com o ousado facínora, e formou unanimemente a resolução de preferir cobrir os seus próprios campos com os seus cadáveres, e com os dos seus pais, suas mulheres e suas crianças, do que consentir a escravidão do seu país. Os seus sucessos foram correspondentes à sua determinação e à santidade da sua causa. Estais prestes a ver não tanto como eles libertam o seu país dos seus infames invasores - eles próprios já alcançaram este feito - mas sim como rivalizam e participam nas suas futuras proezas, naquele mesmo país onde há mais de dezasseis anos miríades de harpias voaram para saquear e profanar os templos, as casas, e os campos das nações vizinhas. O vosso país seguir-vos-á incessantemente nesta assinalada carreira. A sua gratidão será até superior às vossas façanhas; e quando regressardes, coroados com vitórias e com as bendições do universo, encontrareis nos aplausos dos vossos conterrâneos e nas lágrimas de alegria dos vossos parentes e amigos uma ampla compensação pelos vossos honrosos serviços. 
Tais são as efusões agradecidas de todos os britânicos ao lerem estas importantes notícias. Nenhuma das nossas vitórias, quer no mar, quer em terra, distinguidas como têm sido, desde que começou a Guerra Revolucionária, excitou um maior entusiasmo universal. A nossa superioridade naval era reconhecida universalmente. Mas estes acontecimentos removeram qualquer dúvida da mente dos mais cépticos, qualquer partícula de ansiedade do peito dos mais receosos, que a bravura e disciplina dos nossos exércitos terrestres  não é apenas igual, mas infinitamente superior às de qualquer povo existente. Que sensações orgulhosas deve esta convicção excitar nos nossos peitos! Que campo ela abre a uma comunidade aspirante e opulenta! A história menciona que somos o único povo que o comércio e as riquezas do mundo não foram capazes de corromper. Se algo excede as nossas riquezas naturais, é a nossa energia nacional. Que nenhuma falsa impressão de mal-estar e que nenhum falso brilho de moralidade política da parte dos homens de estado metódicos nos impeça de perseguir a nossa carreira de engrandecimento, que é indicada pelos nossos recursos morais e físicos. Nada é estável neste mundo. Se um Estado não avança, necessariamente tem que recuar. Este é um axioma moral e político. Multipliquemos os nossos exércitos nesta crise portentosa. As notícias da nossa vitória espalhar-se-ão rapidamente duma ponta do Continente à outra. Haverá mais efeito em estimular [agora] as suas energias dormentes do que em qualquer outra circunstância que alguma vez ocorreu. Guiemos e encorajemos os seus esforços contra o inimigo comum; e quando eles [=os europeus] virem uns cem mil soldados britânicos, não engaiolados vergonhosamente na sua ilha - os descendentes dos Eduardos e dos Henriques confinados às suas praias!! - mas sim acampados nos planícies da Picardia, irão recordar o que os seus esforços unidos já fizeram, guiados por um Marlhorough. É esta linguagem demasiado arrojada? É esta opinião infundada por antecedentes, ou invalidada pelos acontecimentos e sentimentos presentes? Não. Na confusão universal que em breve ocorrerá no Continente, na fricção geral, moral e nacional, outra nação mais ousada pensará assim. Retomemos o nosso antigo lema: que nem um só canhão seja disparado na Europa sem a nossa permissão! Coitado do povo que não agarrar as vantagens da situação e do momento! Coitado do homem de Estado que receia perseguir um grande objectivo, devido aos escrúpulos do cioso ou à resistência duma facção! Na política, a moralidade dum povo é segurança e grandeza; a sua imoralidade nasce da fraqueza e da letargia. A mesma regra moral é aplicável aos Estados enquanto indivíduos - somente a acção e a iniciativa desenvolvem aquelas grandes virtudes que levantam Estados e indivíduos até ao topo da grandeza e do vigor; enquanto a inacção engendra todos aqueles vícios repugnantes e paixões desagradáveis que produzem uma moral vergonhosa e uma debilidade física.  


***

Foi recebida uma carta no Lloyd's, remetida do Porto no dia 28 de Agosto, que declara que o exército francês comandado por Junot evacuou Lisboa, depois de ali pilhar vinte e três carros cheios de objectos de valor, e que no dia 24 tinha tido uma acção contra o exército britânico, na qual tinham sido mortos o General Loison e 5.000 franceses, enquanto Junot e o resto do seu exército tinham sido aprisionados. Quando os franceses evacuaram Lisboa, a frota russa hasteou as cores portuguesas. 

A gloriosa notícia da vitória obtida por Sir Arthur Wellesley foi levada pelo Capitão Campbell ao gabinete de Lord Castlereagh por volta das oito horas da noite de Quinta-feira [1 de Setembro]. Pouco depois Sua Senhoria comunicou-a ao Lord Mayor



Assim que o General Spencer se reuniu a Sir Arthur Wellesley, este último não perdeu tempo em avançar para dentro do país. No dia 15, os exércitos opostos aproximaram-se tanto um do outro, que ocorreu uma acção entre os postos avançados nesse mesmo dia, perto de Óbidos. No dia 17, as nossas tropas bateram-se com os corpos avançados dos franceses, que chegavam a 6.000 homens de infantaria e a 800 de cavalaria. Eles estavam postados com vantagens nas passagens [no alto das montanhas], mas como Sir Arthur caiu sobre a sua linha de marcha, teve a necessidade de atacá-los, apesar do outro lado ter melhores vantagens. Só foi empregue uma parte da nossa força, principalmente os Regimentos n.os 5, 9, 29, 60 e 95; destes, o 29.º e o 95.º suportaram o peso da batalha. Nada pode exceder a firme disciplina e a impassível e determinada coragem com que as nossas tropas avançaram para o ataque. Foi um conflito bastante severo, mas deve-se assinalar que a nossa artilharia foi infinitamente melhor empregue que a francesa, supostamente a melhor da Europa. Por fim, o inimigo rendeu-se ao valor dos nossos compatriotas, e retirou-se em confusão, com a perda de 1.500 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros. Nos dias 18 e 19 Sir Arthur continuou em perseguição do inimigo. No dia 20, parou e afastou-se para perto do mar, a fim de proteger o desembarque da divisão do General Anstruther. Quando esta junção se realizou, todo o exército estava revigorado, depois das fatigas que tinha suportado. No dia 21, Sir Arthur viu que os inimigos estavam determinados em lutar. Começaram a atacar no Vimeiro, muito antes do que se esperava, e com a maior bravura e boa ordem. A sua impetuosidade foi extrema, como habitualmente; esperavam que assim lançariam os nossos soldados na confusão, e obteriam a vitória. Mas eram britânicas as tropas contra as quais tinham que lutar; e o nosso bravo exército, nada desencorajado pela violência da investida ou pelo furioso fogo que eles disparavam, avançou sem disparar um tiro, com as baionetas fixadas. Em breve, o inimigo desanimou-se perante esta impassibilidade e frieza, e foi forçado a recuar. O conflito começou então a tornar-se mais severo e sanguinário - porém, o inimigo, apesar de ter combatido com grande bravura e determinação, nunca foi capaz de provocar uma sensação de desvantagem nas nossas tropas. Por fim, a vitória foi decidida a nosso favor, sendo o inimigo completamente derrotado, e dispersando-se para os bosques contíguos ao cenário da acção. Junot comandava pessoalmente, e o seu ataque central foi sobre o nosso centro e esquerda - a nossa direita, que era composta por cerca de 7.000 homens, não foi esteve tão comprometida como as outras duas divisões. Dois regimentos de granadeiros, a nata do exército francês, foram completamente cortados aos pedaços. Depois da batalha, 300 deles foram encontrados mortos no mesmo lugar onde tinham sido dispostos. A batalha durou cerca de três horas, e o resultado geral foi a derrota completa e a fuga do inimigo, com a perda de cerca de 4.000 homens; o que eleva as perdas totais em ambas as acções para cima dos cinco mil homens. Proporcionalmente, as perdas dos britânicos foram pequenas. 
O veterano General Ferguson estava entre aqueles que lideraram o ataque [da batalha do Vimeiro]. Ia acompanhado pelo seu Ajudante de Campo, o Capitão Mellish, célebre desportista; e ao avançar para a carga, à frente da sua brigada, tirou o seu chapéu e acenou-o para encorajar os homens, de forma, em primeiro lugar, para que em toda a parte o reconhecessem, e em segundo lugar para assim poderem inspirar-se a imitar a sua calma e o domínio de si mesmo. O Coronel Lake caiu muito nobremente [na batalha da Roliça], enquanto conduzia os seus granadeiros por uma das passagens [no alto das montanhas], cuja dificuldades desafiam qualquer descrição. O Regimento n.º 36, comandado pelo Coronel Burns, efectuou prodígios [na batalha do Vimeiro]. Parece que este último ordenou aos seus homens para conterem o seu fogo; porém, como o inimigo continuava a abrir fogo com grande efeito, um ou dois jovens soldados descarregaram os seus mosquetes. O Coronel Burns gritou imediatamente: Se souber quem foi que disparou, eu próprio o abato. Esta observação, num momento em que tantos deles estavam a ser abatidos pelas balas do inimigo, excitou um enorme regozijo entre os seus homens, apesar da seríssima solenidade do cenário em que estavam a actuar. 
A carga do Regimento n.º 20 de Dragões foi a mais magistral; se houvesse uma força maior de cavalaria, a totalidade da força do inimigo teria sido aniquilada; apesar disto, os Generais franceses acharam-se que estavam completamente em Hors de combat [sic]. Disto ficou tão convencido pelo menos o General Brenier, que foi feito prisioneiro, e que de facto requereu a um dos oficiais do Estado-Maior britânico para tomar conta das suas propriedades (a sua parte da pilhagem), as quais estavam, segundo lhe disse, em Torres Vedras, tendo descrito a casa onde estavam escondidas.  
Quando se concluiu a batalha do dia 21, tal era o entusiasmo que o resultado tinha excitado entre os nossos Generais, que todos eles, sem excepção, foram até Sir Arthur Wellesley, dando-lhe os parabéns pelo seu sucesso, e exclamando: General, tudo isto é vossa obra! Os homens simpatizaram com os seus líderes, e expressaram em alta voz a sua satisfação pelo seu velho General, como lhe chamavam, ter vencido a batalha.
Depois da batalha decisiva, Sir Arthur propôs enviar a ala direita do seu exército, que tinha sido menos comprometida do que as outras duas divisões, para avançar em direcção a Lisboa, e interpor-se entre essa cidade e a retirada do exército do inimigo. Entendemos que esta medida foi adoptada, e as nossas tropas tomaram a estrada costeira, por Torres Vedras e Mafra. 
As negociações para a capitulação do exército francês continuavam à data dos ofícios de Sir Arthur. Diz-se que nos termos que propôs, o inimigo queria estipular que levaria os seus saques, cuja quantidade é imensa; mas é claro que isto não lhe foi garantido; e não pode haver dúvidas que, muito longe disto, o exército francês e a frota russa estão em nossa posse.
O General Kellermann, que veio propor os termos da capitulação, reconheceu que apesar da artilharia francesa ser observada até aqui como a primeira da Europa, a artilharia britânica na batalha do dia 21 serviu com uma perícia e destreza muito superior. Ao mesmo tempo, é justo dizer que o avanço em coluna das tropas francesas nesta ocasião foi considerado como um dos melhores movimentos que alguma vez foi executado. Ouvimos descrevê-lo como a visão mais sublimemente terrível.
Junot discursou para as suas tropas na manhã [de 21 de Agosto], e imediatamente antes da batalha, disse-lhes: Camaradas, aí estão os ingleses, e atrás deles o mar - ficai calmos e firmes, somente tendes de empurrá-los para o mar! A ordem emitida por Sir Arthur Wellesley às suas tropas era breve e simples: Meus bravos compatriotas! Expulsai os franceses das passagens a caminho de Lisboa; e a sua ordem foi plena e prontamente executada. O General francês Thiébault foi morto**, e o General Brenier foi ferido e feito prisioneiro. Loison estava desaparecido, e supostamente entre os mortos.
Quando o General Brenier foi capturado por um dos nossos granadeiros, ofereceu-lhe a sua bolsa [de dinheiro] e o seu relógio para o deixar partir; mas o granadeiro repeliu a oferta com desprezo, trouxe o General ao seu Coronel, e foi recompensado por Sir Arthur Wellesley com uma bolsa. O General francês expressou ao Coronel inglês muita surpresa pelo desinteresse do granadeiro. Não vos surpreendais, disse o Coronel, nós não viemos como ladrões. Brenier, dirigindo-se então a Sir Arthur Wellesley, disse: pela maneira como combatestes, suponho que tendes os homens escolhidos do exército da Inglaterra. Sir Arthur replicou: De forma alguma, estes são apenas uma amostra do resto.


[seguiam-se as seguintes ordens emitidas pelo General Arthur Wellesley:


O Capitão Campbell trouxe para a Inglaterra, a bordo do [navio] Kangaroo, cerca de vinte guardas de Junot, como amostra dos homens contra os quais lutámos. O General Brenier também estava ansioso para visitar imediatamente a Inglaterra, mas o General Kellermann aconselhou-o a ficar para assistir os seus compatriotas a traçar os termos da capitulação.
O Duque de Abrantes (Junot) e o seu Secretário [Hermann?] enviaram para a Inglaterra cartas abertas para as suas Duquesas, para que possam ser enviados para a França nalguma ocasião. Estas epístolas são muito breves. Apenas asseguram às suas senhoras que gozam de perfeita saúde; e expressam o desejo de que elas também a gozem. Não há uma só palavra sobre batalhas, e muito menos sobre derrotas.






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Notas:

 Neste mesmo número do The National Register foram transcritos todos os documentos relativos a Portugal que o periódico The London Gazette tinha publicado um dia antes.

** Constava no exército britânico (o próprio Wellesley reportou o boato) que Thiébault tinha sido morto na batalha do Vimeiro, o que não correspondia à verdade.

sábado, 3 de setembro de 2011

Carta de D. Domingos António de Sousa Coutinho, Embaixador de Portugal em Londres, a George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico (3 de Setembro de 1808)



O abaixo assinado já comunicou à Secretaria da Guerra a cópia por ele rubricada dos artigos da suspensão de armas assinada a 22 de Agosto por Sir Arthur Wellesley e pelo General francês Kellermann; e remeteu a Mr. Hammond a tradução do ofício que o abaixo assinado recebeu do Governo Supremo do Porto, com os sentimentos do qual não pode deixar de concordar nem de pedir a Sua Excelência [para que] queira fazer-lhe saber a resolução que o Governo britânico tiver tomado a respeito desta infeliz transacção, tão pouco conforme aos direitos de Sua Alteza Real, aos esforços dos seus vassalos para lhe restituir o reino completamente, aos sentimentos expressos por Sir Arthur Wellesley na sua proclamação, quando desembarcou em Portugal, e tão pouco análoga à brilhante e gloriosa vitória que acabava de alcançar em 21 de Agosto.
O abaixo assinado aproveita esta ocasião para repetir a Sua Excelência a segurança da sua subida consideração.

O Cavalheiro de Sousa Coutinho

Londres, 3 de Setembro de 1808.


Resposta do General Wellesley à oferta dos Generais que desembarcaram com as tropas britânicas no Mondego (3 de Setembro de 1808)



Zambujal, 3 de Setembro de 1808.



Cavalheiros:

Tive a honra de receber a vossa carta de hoje, e garanto-vos que é uma fonte de grande gratificação ver que vos satisfez a minha conduta no comando com que fui nos últimos tempos investido por Sua Majestade.
Ao dirigir os meus esforços para a concretização do serviço em que estávamos empregados, nunca deixei de receber o vosso apoio e assistência; e é ao apoio cordial e aos amigáveis conselhos e assistência que invariavelmente recebi de vós, colectiva e individualmente, que atribuo o sucesso do nosso empenho em levar o exército ao estado em que se formou para encontrar-se com o inimigo, naqueles dias em que a bravura dos oficiais e soldados foi estimulada pelo vosso exemplo, e a sua disciplina ajudada e orientada pela vossa experiência e habilidade.
Perante estas circunstâncias, a minha tarefa foi proporcionalmente leve, e imagino que as dificuldades do exército foram sobrestimadas pela vossa parte; mas orgulho-me ao pensar que, mesmo que não a mereça, não possuiria a vossa estima se não tivesse cumprido o meu dever; e com estes sentimentos, e aqueles de respeito e afeição por todos vós, aceito esse testemunho da vossa estima e confiança com que agradavelmente me presenteastes. 


[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 122-123].

Carta dos Generais que desembarcaram com as tropas britânicas no Mondego ao General Wellesley (3 de Setembro de 1808)



Campo de S. Antão de Tojal, 3 de Setembro de 1808.




Meu caro Senhor:

Ansiosos por manifestar a alta estima e respeito que vos temos, e a satisfação que deveremos sempre sentir ao termos tido a boa sorte de servir debaixo do vosso comando, ordenámos hoje a preparação duma peça de prata, avaliada em 1.000 guinéus*, para vos ser oferecida.
A inscrição inclusa, que ordenámos que fosse gravada nela, expressa os nossos sentimentos nesta ocasião.
Temos a honra de ser, etc., 

B. Spencer, Major General.
R. Hill, Major General.
R. Ferguson, Major General.
M. Nightingall, Brigadeiro General.
B. F. Bowes, Brigadeiro General.
H. Fane, Brigadeiro General.
J. Catlin Crauford, Brigadeiro General.



Inscrição 


Dos Oficiais Generais servindo no exército britânico que originalmente desembarcou na Figueira, em Portugal, no ano de 1808, ao Tenente-General o Muito Honorável Sir Arthur Wellesley, K. B., etc., etc., seu Comandante.
O Major General Spencer, segundo no comando, os Majores Generais Hill e Ferguson, os Brigadeiros Generais Nightingall, Bowes, Fane, e Crauford, oferecem este presente ao seu líder, em testemunho do alto respeito e estima que sentem por ele enquanto homem, e pela confiança ilimitada que lhe têm enquanto oficial.



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* Nota do editor desta carta: O valor desta peça foi posteriormente aumentado pelas subscrições adicionais dos Generais Anstruther e Acland, e pelos Oficiais de Campo do Exército que serviram debaixo das ordens do General Sir Arthur Wellesley na batalha do Vimeiro.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Resposta do Rei George III aos avisos de Lord Castlereagh (2 de Setembro de 1808)


Windsor Castle, 2 de Setembro.


O Rei recebeu com grande satisfação os ofícios que Lord Castlereagh lhe enviou da parte de Sir Harry Burrard e Sir Arthur Wellesley, com as notícias de duas acções bem sucedidas travadas em Portugal, que são tão honráveis para os oficiais e para as tropas que estiveram envolvidas. Sua Majestade considera tais acções como um início muito feliz, e confia que o serviço será concluído da mesma maneira. O Rei aprova o que foi sugerido na carta de Lord Castlereagh sobre a aplicação posterior da força à disposição aqui reunida e em Portugal, quando aquele Reino estiver limpo do inimigo, e das instruções que em consequência foram preparadas para Sir Hew Dalrymple.

[Fonte: A. Aspinall (ed.), The Later Correspondence of George III - Volume Five (1808-1810), London, Cambridge University Press, 1970, p. 119 (doc. n.º 3711)].

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Carta de Lord Castlereagh ao Rei George III (1 de Setembro de 1808)


Coombe Wood, Quinta-feira, 12 horas da noite.


Lord Castlereagh, ao submeter a Vossa Majestade os ofícios adjuntos do Tenente-General Sir Harry Burrard e do Tenente-General Sir Arhur Wellesley*, tem a humilde satisfação de informar Vossa Majestade que antes do Capitão Campbell (encarregado de trazer os ofícios) ter partido no dia 22 [de Agosto], o General Kellermann tinha chegado [ao Quartel-General britânico] com uma bandeira de tréguas para tratar a capitulação do exército francês em Portugal. 

[Fonte: A. Aspinall (ed.), The Later Correspondence of George III - Volume Five (1808-1810), London, Cambridge University Press, 1970, p. 119 (doc. n.º 3711)].


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Nota:


* Os ofícios aludidos deveriam ser todos, ou pelo menos alguns, daqueles que viriam a ser publicados dois dias depois num número extraordinário do periódico The London Gazette.

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao Lord Mayor de Londres (1 de Setembro de 1808)





Downing Street, 1 de Setembro de 1808.




Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que o Capitão Campbell chegou hoje à noite com ofícios do Tenente-General Sir Arthur Wellesley, remetidos do Vimeiro, a 22 de Agosto, dando conta de duas vitórias obtidas sobre o Exército francês, em Portugal; a primeira, no dia 17, na Zambujeira, sobre os corpos avançados dos franceses, que consistiam em 6.000 homens comandados pelos Generais Laborde e Brenier, na qual os franceses foram batidos, com a perda de 1.500 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros; a segunda, sobre a totalidade do Exército francês em Portugal, constituído por 14.000 homens, comandados pelo General Junot, na qual os franceses foram completamente derrotados, com a perda de treze peças de canhão, vinte e três carros de munições e cerca de 3.500 homens mortos, feridos e prisioneiros.
Em consequência desta acção, o General Kellermann chegou ao Quartel-General [britânico], com uma bandeira de tréguas, para tratar os termos [da capitulação].
O Tenente-General Burrard desembarcou e chegou ao campo da acção no passado dia 21, depois da batalha ter começado; porém, generosamente declinou tomar o comando de Sir Arthur Wellesley. No dia 22, o Tenente-General Sir Hew Dalrymple desembarcou, e tomou o comando.
Tenho a honra de ser, etc.

Castlereagh

[Fonte: The Times, London, September 3, 1808; The National Register, n.º 36, September 4, 1808, p. 571; Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, pp. 312-313; outra tradução disponível no Correio Braziliense, Londres, Setembro de 1808, pp. 294-295]. 

Carta do General Wellesley a Charles Stuart (1 de Setembro de 1808)




Sobral [de Monte Agraço], 1 de Setembro de 1808.


Meu caro Senhor:

Creio que na última carta que vos escrevi informei-vos das nossas acções dos dias 17 e 21 de Agosto; e que o Comandante em Chefe [Dalrymple] tinha acordado uma suspensão de hostilidades com os franceses, a fim de ser negociada uma Convenção para a sua retirada completa de Portugal. 
Depois de ter escrito tal carta, recebi a vossa, segundo penso, no dia 19 de Agosto, que dei a Sir Hew Dalrymple, e ele certamente ter-vos-á escrito. Somente vos incomodo agora porque a partida de Sir Robert Wilson oferece uma oportunidade favorável para enviar uma carta, e porque considero que é desejável que sejais informado do estado das circunstâncias aqui.
O acordo para a suspensão de hostilidades, concluído na noite de 22 de Agosto, culminou com uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses, assinada no dia 30 daquele mês. Tanto quanto fui informado, a Convenção não contém nada de grande importância, exceptuando que os franceses serão levados para um porto na França; que até embarcarem ficarão em posse de Lisboa, e de duas léguas à sua volta; e que devemos ter o forte de São Julião, em Cascais, e todos os fortes da costa e no interior, depois da ratificação da Convenção.
Eles libertarão os prisioneiros espanhóis perante o comprometimento do General [Dalrymple] em usar os seus bons ofícios para que sejam igualmente libertados os franceses que foram aprisionados na Espanha, e que não se tenham envolvido em hostilidades.
Segundo fui informado, não existe nada mais na Convenção que tenha qualquer importância. Os russos, dinamarqueses, etc., ficam à nossa mercê.
Por aquilo que pude conhecer destes acordos, tenho muitas objecção tanto em relação ao Acordo para a suspensão de hostilidade como à Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses. Aprovo, contudo, o principal ponto da última, a saber, que se permita a sua evacuação; e é inútil incomodar-vos com as minhas objecções sobre o modo como se decidiu executar tal ponto.
As razões que tenho para pensar que fizemos o que era certo ao permitirmos a sua evacuação são as seguintes:
Primeira: Sir Harry Burrard e Sir Hew Dalrymple, ao determinarem que levariam o corpo de Sir John Moore para Lisboa, em vez de o colocarem numa posição onde teria meios para cortar a retirada do inimigo através do Tejo, permitiram que o inimigo se pudesse defender em Elvas e Almeida, e a campanha teria sido gasta no cerco ou bloqueio de tais praças. Admitindo que o exército que evacuará Lisboa passaria imediatamente às fronteiras da Espanha, concebo que era melhor ter tal exército nessa posição, e o nosso exército agindo na Espanha, em cooperação com as tropas espanholas, do que ter as tropas francesas ocupando praças-fortes em Portugal, e o nosso exército ocupado com o seu cerco ou bloqueio.
Segunda: O Comandante em Chefe [Dalrymple] e aqueles que o rodeiam pareceram muito relutantes em avançar para Lisboa, mesmo depois da nossa vitória de 21 de Agosto, sem a assistência do corpo de Sir John Moore; e como era muito incerto o momento da sua chegada à Maceira [=praia do Porto Novo], que era o lugar de desembarque, e como os atrasos nesta estação do ano eram muito perigosos, e já tinha havido bastante mau tempo no dia 22 de Agosto, que se esperava que se prolongasse no início deste mês, tendo que abandonar a costa a frota de transportes, cuja comunicação nos era também tão necessária naqueles dias, considerei que a única chance de alcançar Lisboa seria através duma negociação.
Se não tivéssemos negociado, não poderíamos ter avançado antes do dia 30, pois o corpo de Sir John Moore somente ficou pronto naquele dia. Os franceses teriam ao mesmo tempo fortificado as suas posições perto de Lisboa, o que possivelmente impediria que estivéssemos em situação de atacá-los antes do fim da primeira semana deste mês. Assim, tendo em conta a hipótese do mau tempo nos privar de comunicarmos com a frota de transportes e provisões, atrasando e tornando mais difíceis e precárias as nossas operações terrestres, que depois de tudo acabariam por não conseguir cortar a retirada dos franceses através do Tejo para o Alentejo, fui claramente da opinião que a melhor coisa a fazer era consentir uma Convenção e permitir que evacuassem Portugal.
Os detalhes desta Convenção, bem como os do acordo para suspensão de hostilidades, são questões doutro tipo, sobre as quais escuso de vos incomodar; e escrevi o que acima ficou escrito apenas para que estejais consciente das bases gerais pelas quais aquiescei com a Convenção, em virtude do seu ponto principal, parte do qual, segundo penso, induziu o próprio General [Dalrymple] a consenti-la.
Não sei o que é que Sir Hew Dalrymple está disposto a fazer, ou como foi instruído, mas se eu estivesse na sua posição teria 20.000 homens em Madrid dentro de menos de um mês.
Tenciono recomendar-lhe a armar e a vestir as tropas espanholas, e a enviá-las para a Espanha.
Nós, ou seja, o meu corpo, estamos apenas a vinte e quatro milhas de Lisboa, e creio que o exército está à mesma existência, no lado de Mafra.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao Duque de Richmond, Lord Tenente da Irlanda (1 de Setembro de 1808)




Sobral [de Monte Agraço], 1 de Setembro de 1808.



Meu caro Duque

Anteontem foi assinada uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses, que estarão fora do país em sete dias. Não vi a Convenção, mas sei que contém alguns pontos que desaprovo tanto quanto desaprovei o acordo para suspensão das hostilidades; porém, é inútil incomodar-vos com as minhas objecções à Convenção. Disse-vos na minha última carta que pensei que era justo concordar com o ponto principal da Convenção, a saber, a evacuação; e o modo este ponto como foi posto em execução não tem grande importância.
Os exércitos estão agora posicionados como se segue: o meu corpo está à esquerda, a cerca de vinte e quatro milhas de Lisboa, e deverei marchar amanhã para Bucelas e [Santo Antão do] Tojal, onde ficarei a cerca de vinte milhas de Lisboa; e o exército que consiste no corpo de Moore e nas brigadas de Anstruther e Ackland está hoje em Mafra, e amanhã estará em Sintra. Este exército ocupará o forte de S. Julião e Cascais, e devemos ficar nessas posições até que os franceses evacuem. Através da ratificação da Convenção, ficámos imediatamente com os fortes do interior e da costa.
Devo esperar até ver os franceses abandonarem completamente o país, em cujo momento deverei saber se os ministros querem que regresse ao meu ofício*. Se assim o quiserem, estarei convosco sem demora; e garanto-vos que, considerando a forma como as coisas serão provavelmente levadas a cabo aqui, não me arrependerei de partir.
Dai sinceras lembranças minhas à Duquesa e às crianças.
Acreditai em mim, etc., 

Arthur Wellesley

P.S.: Lord Fitzroy regressou de Lisboa, e apresentou uma boa descrição de Junot, que foi muito polido consigo.


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Nota: 

* Imediatamente antes de ser nomeado para partir ao comando do exército britânico destinado a Portugal, Wellesley era chefe da Secretaria da Irlanda, servindo como secretário do Duque de Richmond (destinatário desta carta), para além de ser igualmente conselheiro privado do Governo britânico.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico (30 de Agosto de 1808)



No campo a norte de Torres Vedras, 30 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Ontem de manhã foi aqui trazida uma Convenção assinada pelo General Kellermann e pelo Coronel Murray, sobre a evacuação de Portugal pelas tropas francesas; mas não foi ratificada pelo General [Darlymple], em consequência de ter achado algumas falhas na mesma. A Convenção foi alterada, mas não como eu pensava que deveria ter sido, e devolvida a Junot na tarde de ontem. Entretanto, o exército [britânico] continua parado na sua posição; com a única diferença que temos um corpo em Torres Vedras, em vez de a três milhas daquela vila. Resumindo, dez dias depois da acção do dia 21, não avançámos muito; de facto, penso que avançámos aquilo que poderíamos e deveríamos ter avançado na noite do dia 21.
Garanto-vos, meu caro Senhor, que as circunstâncias não estão a prosperar aqui; e sinto o mais sincero desejo de deixar o exército. Tive demasiado sucesso com este exército para passar a servi-lo numa posição subordinada, com satisfação para a pessoa que o comande, e certamente não para mim próprio. Contudo, farei o que o Governo desejar.
Sempre, meu caro senhor, o vosso mais sincero 

Arthur Wellesley


[P.S.] Temos ordens para marchar nesta manhã, mas não ficaria surpreendido se não o fizéssemos.

Carta do Bispo do Porto ao General Dalrymple (30 de Agosto de 1808)




Porto, 30 de Agosto de 1808



Muito Ilustríssimo e muito Excelentíssimo Senhor:

Tendo sido informado da chegada de Vossa Excelência, para continuar a protecção que até agora temos recebido do muito ilustre e muito excelente General Sir Arthur Wellesley, eu, com grande satisfação, apresento-me a Vossa Excelência, felicitando a vossa chegada segura, e rogando a Vossa Excelência os bons ofícios da vossa protecção; ao mesmo tempo, garantindo-vos o meu respeito e gratidão.
Tenho a honra de ser, etc., etc., etc., 

Bispo e Presidente,
Governador

domingo, 28 de agosto de 2011

Diário do General John Moore (28 de Agosto de 1808)



Vimeiro, 28 de Agosto.


Cheguei à Ericeira na manhã do dia 24, onde encontrei o [navio] Alfred, comandado pelo Capitão Bligh, com alguns transportes fundeados. Através do Capitão Bligh fui informado que o exército [britânico] tinha marchado para a Batalha, a cerca de onze milhas dali, na estrada para Torres Vedras, e que os franceses tinham atacado o exército, no dia 21, no Vimeiro, onde foram completamente derrotados. Sir Harry Burrard desembarcou durante a acção, e Sir Hew Dalrymple chegou no dia seguinte.
Desembarquei e vi o General Brigadeiro Crauford, que tinha ficado para trás com a sua brigada quando o exército empreendeu a sua marcha dois dias depois da acção. Através dele recebi uma ordem de Sir Hew para desembarcar as tropas debaixo do meu comando e dirigir-me pessoalmente até ele, que estava ansioso por me ver. Um dia depois da acção do dia 21, veio o General Kellermann com uma bandeira de tréguas da parte do General Junot, com uma oferta para fazer um tratado, acordando-se então uma suspensão de armas.
Geralmente, a arrebentação desta costa é grande, por não haver parte alguma protegida dos ventos de oeste, e só ocasionalmente é que se pode fazer um desembarque. Deixei ordens com o General Fraser relativas ao desembarque das tropas, etc., quando o tempo o permitisse, e desembarquei no dia 25 com o General Hope, tendo dirigido-me com ele ao Quartel-General, onde cheguei na tarde. Fiquei triste por encontrar tudo na maior confusão, existindo um geral e grande descontentamento. Sir Hew, embora já tivesse sido anunciado ao exército [como General em Chefe do mesmo], ainda não tinha tomado o seu comando; muito continuava a ser feito por Sir Arthur Wellesley, e o que não era feito por ele pura e simplesmente não se fazia. A acção do dia 21 tinha sido bastante bem concluída; os franceses atacaram o nosso centro e esquerda e foram completamente derrotados. Supõe-se que a sua força seria entre 12.000 a 13.000 homens, enquanto que a nossa seria cerca de 17.000 ou 18.000. As nossas baixas alcançam o número de cerca de 800 mortos e feridos; supõe-se que os franceses perderam cerca de 2.000.
Sir Arthur tinha a intenção de persegui-los, em cujo caso creio que estaria em Lisboa no dia seguinte; mas Sir Harry Burrard não o permitiu. Da mesma forma, Sir Harry Burrard impediu-o de atacar os franceses no dia seguinte em Torres Vedras. As considerações de Sir Arthur eram extremamente correctas em ambas as ocasiões; não dependia de nós a opinião de se combater ou não. Junot tinha marchado de Lisboa com a determinação de nos atacar; a questão resumia-se a atacar ou a ser atacado. Depois do sucesso do Vimeiro não restam dúvidas que os franceses deviam ter sido perseguidos. Várias das nossas brigadas não entraram na acção; as nossas tropas estavam bastante animadas, e os franceses estavam tão abatidos que provavelmente teriam fugido. De vinte e três peças de canhão tomámos-lhes quinze.
Junot pedia a condição dos franceses não serem considerados prisioneiros de guerra e de embarcarem com armas e bagagens para a França. Estipulava-se algo sobre a frota russa no Tejo, mas tal foi recusado, porque não se admitiu que os franceses tivessem direito algum a negociar pelos russos. O nosso Almirante, Sir Charles Cotton, seria quem negociaria com o Almirante russo. Junot concordou com isto, e espero que as negociação terminarão favoravelmente. É evidente que se alguma operação for levada a cabo relativamente a este assunto, será miseravelmente conduzida, e que a Lista dos oficiais mais antigos do Exército é um mau guia para a escolha dum comandante militar. Parece que Sir Arthur Wellesley conduziu as suas operações com uma grande habilidade, e que estas foram coroadas com sucesso. É pena, quando tanto foi feito pelas suas mãos, que não se tenha permitido que ele o conclua, sendo até certo ponto absurda a conduta do Governo nesta ocasião. Referi, tanto a Sir Hew como a Sir Arthur, que não queria interferir; que se as hostilidades recomeçassem, Sir Arthur já tinha feito tanto, que julgava que seria justo que ele devia ter o comando até um brilhante final. Renunciei a todas pretensões da minha antiguidade. Considerei que esta expedição é sua. Ele deve ter o comando para o qual foi destacado. Pela parte que me toca, queria poder afastar-me de tudo isto; mas devo ajudar tanto quanto possa a bem do serviço, e, sem interferir com Sir Arthur, deverei tomar qualquer parte que me for atribuída. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (23 e 27 de agosto de 1808)



Campo do Ramalhal, 23 de Agosto de 1808


Meu caro Senhor:

Tereis sido informado que uma das consequências da nossa vitória do dia 21 foi um acordo para suspensão das hostilidades entre nós e os franceses, acordo este preliminar à negociação duma convenção para os franceses evacuarem Portugal. Apesar do meu nome ter sido inscrito neste documento, rogo para não crerdes que o negociei, que o aprovei, ou que o redigi. Ele foi negociado pelo próprio General [Dalrymple], na minha presença e na de Sir Harry Burrard, e, depois de ter sido esboçado pelo próprio Kellermann, Sir Hew Dalrymple quis que eu o assinasse. Contestei ao seu palavreado; não concordei com uma suspensão indefinida de hostilidades; ela devia ter sido estabelecida para apenas quarenta e oito horas. Mas como está agora, os franceses terão quarenta e oito horas para preparem a sua defesa, depois de Sir Hew Dalrymple pôr um fim à suspensão.
Aprovei que se permitisse que os franceses evacuassem Portugal, sobretudo porque parece que seria impossível mover o corpo de Sir John Moore para Santarém, a fim de cortar a retirada do franceses em direcção a Elvas. Eles poderiam instalar-se em Elvas, nos fortes de la Lippe, de Almeida e Peniche, cujas praças seríamos obrigados a bloquear ou a atacar regularmente na pior estação do ano em Portugal, a saber, os meses de Setembro e Outubro; e a marcha do exército [britânico] para a Espanha teria de ser adiada para depois desse momento. A causa comum tira melhor proveito de 30.000 ingleses na Espanha, com 10.000 ou 12.000 franceses adicionais na fronteira do norte da Espanha, do que com os franceses em Portugal e os ingleses ocupados no bloqueio ou cerco de praças-fortes. Se se permitir que eles evacuem [Portugal], deverão fazê-lo com as suas propriedades; mas devia ter conseguido que se adoptasse algum modo de fazer com os que Generais franceses restituam a prata roubada das igrejas.
Não tenho nada a contestar em relação ao que foi feito em relação aos russos; de facto, se os russos continuarem até ao fim da contenda na neutralidade que observaram desde o seu começo, e se os oficiais portugueses quiserem que o seu porto seja respeitado como o duma potência em estado de neutralidade entre a Rússia e a Inglaterra, poderíamos ter algumas dificuldades para atacar a frota russa. Mas não se devia ter permitido que os franceses fizessem qualquer estipulação relativa à frota russa; e esta é a grande falha de todo o acordo. Contudo, ainda que isto seja mau, felizmente não é o pior; e facilmente acreditareis que fiz tudo o que estava ao meu alcance para persuadir o General [Dalrymple] para alterar o acordo, persistindo nesta opinião apesar das suas objecções. 
Não ocultar-vos-ei, contudo, meu caro Senhor, que a minha situação neste exército é bem delicada. Nunca tinha visto Sir Hew Dalrymple até ontem; e não é uma tarefa muito fácil dar conselhos a um homem no primeiro dia que o conhecemos. Ele devia pelo menos estar preparado para receber conselhos. Acontece que tive sucesso com o exército, e não me parece que este irá gostar de receber ordens ou instruções sobre qualquer assunto por parte de qualquer outra pessoa. Esta é outra circunstância embaraçosa que não pode acabar bem; e para vos dizer a verdade, preferia regressar a casa do que ficar aqui. Contudo, se a vossa vontade é que fique, assim o farei: somente rogo que não me culpeis se as circunstâncias não forem como vós  e os meus amigos em Londres querem. Parece que o General Spencer e Sir Hew não se deram muito bem quando estiveram juntos em Gibraltar; e o pobre Spencer está de facto muito desanimado. Gostava que lhe conferísseis algum sinal do favor do Rei. Nunca houve um oficial mais corajoso, ou um que o merecesse mais. 
Incluo um memorando que enviei a Sir Hew em relação à convenção que ele negociará pessoalmente com Junot. Através dos correios franceses, Kellermann protestou contra eu ir até ao Almirante [Cotton], por ter achado que eu tinha contestado tão fortemente contra o acordo; e no entanto foi ele próprio quem propôs originalmente a Sir Hew que eu deveria assinar o acordo que ele próprio ia assinar. 
Sempre, etc., 

Arthur Wellesley







27 de Agosto.


Charles [Vane] ter-vos-á informado do estado das circunstâncias aqui desde a [primeira] data desta carta. O Almirante desembaraçou-nos da dificuldade que nos tinha envolvido o artigo 7.º do acordo, relativo aos russos, ao recusar concordar com tal; e Murray foi enviado anteontem para informar Junot desta recusa do Almirante, e para negociar a Convenção se Junot estivesse inclinado a negociar sobre a restante parte das bases propostas, e para em todo o caso concluir a suspensão das hostilidades às 12 horas de amanhã. Junot consentiu em negociar, e Murray está autorizado a continuar a suspensão por vinte e quatro horas mais, se necessário, de forma a completar o tratado. Entretanto, marcho amanhã (e Sir John Moore com uma parte do seu corpo no dia seguinte) se a Convenção não estiver concluída, e as hostilidades não deverão ser mais suspendidas. Murray foi instruído para insistir sobre os pontos do memorando incluso na negociação da Convenção. Apesar dos erros estúpidos, penso que ainda levaremos os nossos negócios neste país a uma feliz conclusão.


Carta do General Wellesley ao Duque de Richmond, Lord Tenente da Irlanda (27 de Agosto de 1808)






Ramalhal, 27 de Agosto de 1808.



Meu caro Duque

Escrevi-vos depois da batalha do dia 21. No dia 22, chegou Sir Hew Dalrymple pela manhã; e de tarde o General Kellermann veio pedir uma suspensão de hostilidades, para haver tempo para se negociar uma Convenção para os franceses evacuarem Portugal pelo mar. Sir Hew consentiu esta proposta, e quis que eu a assinasse, apesar de eu não a ter negociado ou aprovado.
Este acordo contém muitas estipulações inconvenientes; entre outras, permite que os franceses disponham de quarenta e oito horas depois de serem informados que [a suspensão de armas] chegou ao fim. Igualmente contém uma estipulação em relação aos russos que nunca deveria ter sido admitida; e, noutros aspectos, era censurável pelo seu palavreado francês. Não tenho uma cópia deste acordo. Contudo, as objecções que foram feitas acabaram por ser consideravelmente removidas, quando o Almirante [Charles Cotton] se recusou a consentir as estipulações relativas aos russos, determinando-se então que a suspensão de hostilidades acabará amanhã às 12 horas, a não ser que Murray, que está negociando a Convenção, seja da opinião de que é necessário um período adicional de vinte e quatro horas para realizar a sua tarefa. Estou pronto a marchar ao entardecer, e Sir John Moore marchará amanhã; e, haja Convenção ou não, espero estar em Lisboa no início de Setembro.
Aprovo que se permita que os franceses evacuem o país, pois estou convencido que, se não o fizerem, seremos obrigados a atacar regularmente Elvas, o forte de la Lippe, Almeida, e Peniche, ou a bloquear estas praças, e assim passará o Outono; e é melhor ter 10.000 ou 12.000 franceses adicionais nas fronteiras do norte da Espanha, e o exército inglês na Espanha, do que ter os franceses em Portugal, e os ingleses a bloqueá-los em praças-fortes. Esta necessidade teria sido evitada, se Sir Harry Burrard tivesse ou pudesse ter levado a cabo as operações em Santarém com o corpo de Sir John Moore, as quais lhe recomendei, medidas estas que certamente cortariam a retirada dos franceses para Elvas e Almeida.
Os franceses tiveram uma derrota terrível no dia 21. Não perderam menos, segundo creio, de 4.000 homens; e teriam sido completamente destruídos, se Sir Harry Burrard não me tivesse impedido de os perseguir. Na verdade, desde que chegaram os grandes generais, parece que estamos paralisados, e tudo tem corrido mal.
Estou a arranjar planos feitos para vós sobre ambas as batalhas dos dias 17 e 21, e escrever-vos-ei sobre qualquer coisa que possa acontecer. Aqui entre nós, não estou muito agradado pela forma como as circunstâncias neste país estão a ser conduzidas, e não terei pena de regressar para casa, se o puder fazer com propriedade, em cujo caso ver-vos-ei em breve. Porém, não gosto de querer partir, para que não me seja imputado que não estou disposto a servir onde não comando.
Acreditai em mim, etc., 

Arthur Wellesley

P.S.: Não recebo notícias da Irlanda desde que a deixei. Dai lembranças minhas à Duquesa e Louisa, etc., e a Lady Edward. Lord FitzRoy tem-me sido bastante útil, e hoje emprestei-o a Sir H. Dalrymple, a fim de ir até ao Quartel-General francês.