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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Extracto duma carta do exército comandado pelo General Dalrymple, remetida do Ramalhal a Gibraltar (25 de Agosto de 1808)



No dia 17 Sir Arthur Wellesley foi atacado pelo General Loison, o qual foi batido com poucas baixas. Marchámos então em direcção a Lisboa, e no dia 21 fomos atacados por todas as forças francesas, em número de 13.000 homens, comandadas pelo General Junot. A acção começou às nove e meia, e durou até às doze. Nunca houve vitória mais decisiva. Os franceses perderam cerca de 4.000 homens e todos os seus canhões, à excepção de 2. Tiveram dois Generais mortos, e os Generais Brenier e Pilliet, junto com muitos outros Oficiais de graduação, foram feitos prisioneiros, e enviaram-se para a Inglaterra. 
Na tarde do dia 22, o General Kellermann veio ao nosso campo, com dois Oficiais franceses; ajustou-se uma convenção, e o Coronel Murray, nosso Quartel-Mestre-General, dirigiu-se a Lisboa para avistar-se com Junot. Ajustou-se um armistício no dia 21 [sic]; mas deve terminar-se no dia 28. O Coronel Lake, do Regimento n.º 29, e o Capitão Bradford, do Estado-Maior do General Spencer, foram mortos na acção do dia 17; e o Coronel Tailor, dos Dragões n.º 20, foi morto na acção do dia 21. Estes são os únicos Oficiais de graduação que perdemos. As Brigadas que tiveram a parte principal nestas acções foram as dos Generais Ferguson, Fane, Hill e Anstruther. O Regimento n.º 50 fez prodígios de valor, e no campo de batalha receberam as graças de Sir Arthur Wellesley. 
Sir John Moore tinha chegado com 12.000 homens, e as forças agora ao mando de Sir Hew Dalrymple ascendem a 32.200 homens, exceptuando a artilharia e o Regimento n.º 42, que se esperava que chegasse enquanto se escreveu esta carta. 

[Fonte: Este documento foi publicado originalmente num número extraordinário do periódico Gibraltar Chronicle, datado de 5 de Setembro de 1808, sendo depois traduzido com o título de “Extracto de una carta del Exército baxo el mando de Sir Hugo Dalrimple fecha 25 de Agosto de 1808, de Monramal á 35 millas de Lisboa”, in Demonstracion de la Lealtad Española: Coleccion de proclamas, bandos, ordenes, discursos, estados de exercito, y relaciones de batallas publicadas por las Juntas de Gobierno, ó por algunos particulares en las actuales circunstancias – Tomo Sexto, Cadiz, por D. Manuel Ximenez Carreño, 1809, pp. 88-89].

Carta do General Wellesley ao Almirante Charles Cotton (25 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 25 de Agosto de 1808.



Meu caro Senhor: 

Recebi as vossas cartas do passado dia 22, e fico muito agradecido e altamente lisonjeado pelo gracioso modo como me felicitastes pelos nossos sucessos do dia 17. O sucesso do dia 21 foi mais completo; e o exército francês teria sido completamente derrotado se eu não tivesse sido impedido de seguir o meu golpe tal como queria.
Agradeço-vos muito pelos nomes dos oficiais em Lisboa. 
Na minha opinião, o povo de Lisboa beneficiará se ficar quieto até que estejamos entre eles e o exército francês; em todo o caso, duvido da conveniência de lhes entregar armas. Previa-se que as armas que foram enviadas comigo seriam entregues unicamente se eu estivesse seguro do grande benefício que derivaria do seu uso; e por esta razão sempre declinei entregar algo a não ser às tropas cuja perícia e conhecimento do uso de armas pudessem esperar alguma vantagem. Consequentemente, devo recomendar-vos a não entregardes armas aos habitantes de Lisboa ou aos paisanos de qualquer outra parte do país. É claro que devemos armar as tropas espanholas; mas antes que isto seja feito, será necessário libertá-las.
Concordo completamente com a vossa opinião em relação à frota russa. Não devemos permitir que os franceses interfiram de qualquer modo entre nós e os russos; e apesar de eu ter assinado o acordo para a suspensão de hostilidades conforme a vontade do Comandante em Chefe [Dalrymple], considero que foi um feliz acaso que, devido à vossa interferência, aquele artigo foi riscado; e se a Convenção chegar a ser feita, será sobre uma nova base.
Acreditai em mim, etc., 

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley a Charles Stuart (25 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 25 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Desde que vos escrevi pela última vez, estivemos ocupados muito activamente nesta parte, e com algum sucesso.
No passado dia 17, ataquei e derrotei o corpo de Laborde, que consistia em cerca de 6.000 homens, nos arredores da Roliça, a cerca de seis ou sete milhas a sul de Óbidos. No dia seguinte, as tropas francesas comandadas pelo General Junot, pelo General Loison e pelo General Laborde, reuniram-se nos arredores de Torres Vedras, chegando ao número de 12.000 a 14.000 homens. Marchei no mesmo dia em direcção à Lourinhã, para proteger o desembarque duma brigada de infantaria comandada pelo General Anstruther, brigada esta que se reuniu a mim no dia 20 no Vimeiro, perto de Maceira; e reuniu-se-me também outra brigada de infantaria debaixo das ordens do General Acland, bem cedo na manhã do dia 21, brigada esta que tinha desembarcado durante aquela noite.
O exército francês atacou-me na minha posição no Vimeiro, por volta das oito horas da manhã do dia 21; e foi completamente derrotado, com a perda de treze peças de canhão e um vasto número de mortos, feridos e prisioneiros. Sir Harry Burrard, que chegou ao ancoradouro da Maceira [= praia do Porto Novo] na noite do dia 20, desembarcou durante a acção na manhã do dia 21; e se eu não tivesse sido impedido, teria perseguido o inimigo até Torres Vedras naquela noite, e, com toda a probabilidade, a sua totalidade teria sido destruída.
Na manhã do dia 22 chegou Sir Hew Dalrymple; e na tarde veio o General Kellermann com uma proposição para suspender as hostilidades, tendo em vista fazer uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses.
No acordo que Sir Hew entrou nesta ocasião, existe um artigo que estipula que os russos poderão usar o porto de Lisboa como um porto neutro, artigo este que alude ao Almirante [Cotton], que recusou consenti-lo; e o General [Dalrymple] escreveu hoje a Junot que a suspensão de armas chegaria ao fim no dia 27 ao meio-dia, a não ser que uma se concordasse, antes desse dia, uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses, por mar. 
Este é o aspecto geral do estado das circunstâncias aqui. O corpo de Sir John Moore está no ancoradouro da Maceira [=praia do Porto Novo], e penso que está prestes a desembarcar. Para além disto, temos 6.000 tropas portuguesas na Lourinhã; e creio que um destacamento de tropas espanholas e portuguesas está à volta de Santarém e Abrantes.
Contudo, a retirada dos franceses está aberta em direcção a Elvas; e tenho poucas dúvidas que, a não ser que os retiremos de Portugal pelo mar, eles defender-se-ão em Elvas e Almeida, e teremos o prazer de atacar estas praças regularmente, ou de bloqueá-las no Outono. Se conseguirmos afastá-los por mar, será possível levar as nossas tropas para a Espanha sem demora. 
Rogo-vos para fornecerdes ao Coronel Doyle aquelas informações desta carta que achardes que lhe serão úteis.
As tropas francesas estão agora reunidos no Cabeço de Montachique, e estendem-se para Mafra. Nós estamos atrás [=a norte] de Torres Vedras, cuja cidade não está ocupada por nenhuma das partes.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley




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Nota: 


O destinatário desta carta, Sir Charles Stuart, futuro embaixador da Grã-Bretanha no Brasil, estava então na Espanha, na qualidade de agente secreto do Governo britânico (como para o Porto tinha sido enviado o barão von Decken). Aparentemente, Stuart teria desembarcado pouco antes na Galiza, onde chegou a entrar em conversações com a Junta local, dirigindo-se depois para Madrid, onde se encontrará em meados de Setembro.

Ofício do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto, sobre o armistício do dia 22 (25 de Agosto de 1808)



Senhor: 



Tendo cessado os motivos que me prendiam em Leiria, e que vejo com todo o reconhecimento e satisfação haverem merecido a aprovação de Vossa Alteza Real, continuei sem perda de tempo a marcha para Alcobaça e Caldas, e daqui a Óbidos, onde a falta de subsistências me obrigou a alguma demora. E como tivesse ali recebido um aviso do General Wellesley, participando-me que no caso de não poder seguir no dia 21 a marcha do Exército britânico, que se dirigia pela estrada de Mafra, esperasse então que o inimigo, como parece provável, se adiantasse na direcção para Lisboa, e que só depois verificasse a junção do nosso Exército com o de Sua Majestade Britância, por isso me demorei no Domingo [21 de Agosto] em Óbidos. Aconteceu porém que nesse mesmo dia foram os franceses atacar o Exército inglês, que [este] o não esperava, nem eu o podia presumir, estando a 4 léguas de distância, o que não impediu aos nossos aliados e à tropa portuguesa que dantes se lhe unira, que muito se distinguiu na acção, obterem uma muito assinalada vitória.
No dia seguinte marchei para este Quartel [da Lourinhã], que me tinha sido designado pelo General inglês, e apenas chegado me avisa de que era novamente atacado, e que marchasse a recair sobre a sua retaguarda. Marchei, com efeito; mas tendo mandado um oficial ao Quartel-General, quando estava a meia légua de distância, voltou este dizendo-me que o General desejava que eu ficasse junto à Lourinhã, e que os Esquadrões que tinham dado alarme eram os que acompanhavam o General Kellermann, que vinha como Parlamentário, e com quem o General ficava fechado. Por um Ajudante de Ordens meu me mandou o novo General em Chefe [Dalrymple] dizer que necessitava de conferir comigo no dia 23 no novo Quartel-General do Ramalhal, junto de Torres [Vedras], pela uma hora da tarde. Fui e me leu a cópia da Convenção que na véspera se tinha estipulado com os franceses; fiz as minhas reflexões; pedi [que] se me mandasse uma cópia, e retirei-me. 
Logo que aqui cheguei, recebi a carta e cópia da transacção de que remeto a Vossa Alteza Real as cópias juntas. Fiz passar em consequência imediatamente ao Quartel-General [britânico] o Major Aires Pinto de Sousa, para apresentar ali com toda a franqueza e dignidade as observações que me pareceram oportunas e indispensáveis nas presentes circunstâncias, para prevenir a má inteligência que se poderia dar a alguns artigos, e abrir caminho a quaisquer explicações convenientes, assim nas conferências preliminares como na definitiva, que vão tratar os chefes dos dois Exércitos em sentido puramente militar. Parece neste momento que a justiça das minhas reflexões, a habilidade do agente [Aires Pinto de Sousa], a boa fé do General Dalrymple e as rectas intenções do Ministério britânico conspiram de acordo a preparar-nos um futuro agradável; pelo menos, Senhor posso [as]segurar a Vossa Alteza Real que as respostas que já recebi do Major Aires Pinto me dão todo o motivo para assim o esperar*.
Quartel-General da Lourinhã, 25 de Agosto de 1808**.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 201-202 (doc. 34). Existem pelo menos outras duas transcrições deste documento, publicados por 
Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 74-75; e por Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 212-213].

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Nota: 

Ver a primeira e a segunda carta que o Major Aires Pinto de Sousa enviou ao General Bernardim Freire de Andrade no dia 24 de Agosto.


** Devemos esclarecer que este documento aparece datado de 24 de Agosto na transcrição publicada no citado volume do Boletim do Arquivo Histórico Militar, mas a sua datação correcta é 25 de Agosto, como aparece em ambas as outras duas transcrições referidas, e como se poderá ver na carta que dois dias depois Bernardim Freire de Andrade viria a escrever ao mesmo Bispo do Porto.
Este documento seria um dos vários que a Junta do Porto viria a enviar a D. Domingos de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres, o qual por sua vez os reenviou, no dia 3 de Setembro, a George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire (23 de Agosto de 1808)



Quartel-General do Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de anexar, para conhecimento de Vossa Excelência, uma cópia da suspensão de armas, acordada e assinada ontem por Sir Arthur Wellesley e pelo General Kellermann
Talvez seja necessário explicar a Vossa Excelência que o que se menciona sobre o Exército português é relativo a alguns corpos na parte do país mencionada no artigo [4.º]; mas que o exército que serve debaixo do comando imediato de Vossa Excelência, unido às tropas britânicas, está compreendido na mesma categoria destas.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais obediente e humilde servidor.

Hew Dalrymple

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 201 (doc. 95); Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 307. Existe uma outra cópia do texto original em inglês, bem como a respectiva tradução em português, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 199(doc. 32)]. Outra tradução desta carta encontra-se disponível na obra de Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 75-76]. 



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Nota:

Apesar de datada de 23 de Agosto, esta carta foi na verdade escrita a 24 de Agosto, tendo a data sido alterada em condescendência a Bernardim Freire de Andrade, como viria a referir o Major Aires Pinto de Sousa em carta do próprio dia 24 de Agosto


Carta oficial do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.



Tenho a honra de vos informar que um acordo para suspensão de hostilidades entre o exército britânico e o francês, preliminar aos preparativos duma Convenção para a evacuação de Portugal por parte do exército francês, foi assinado na noite passada segundo ordens do Comandante em Chefe [Dalrymple].
O Comandante em Chefe deseja que vos informe que ele recebeu ordens para enviar para a Inglaterra todos os transportes de cavalos que agora se encontram em Portugal, com a excepção daqueles que trouxeram o regimento n.º 18 de dragões ligeiros, deduzindo ele que recebereis ordens do Almirante [Cotton] para enviá-los para a Inglaterra sem demora. Ele deseja ainda que todos os outros transportes que estão no rio Mondego, no Porto, ou na costa da Maceira, sejam levados para a boca do Tejo imediatamente; e pediu-me para requerer que dareis ordens para que eles partam para aquele destino. 
Tenho a honra de ser, 


Arthur Wellesley

Carta privada do General Wellesley ao Capitão Pulteney Malcolm, do navio Donegal (23 de Agosto de 1808)



Ramalhal, 23 de Agosto de 1808.


Meu caro Malcolm:

Torrens escreveu-vos na noite de 21 para vos informar da completa vitória que obtivemos, tendo sido uma das suas consequências uma suspensão de armas entre os franceses e nós, preliminar à sua evacuação do país, cujas condições assinei na noite passada.
Apesar de ter assinado estas condições, peço-vos para não acreditardes que aprovei inteiramente a forma como este instrumento está escrito.
Recebereis hoje uma carta pública minha sobre este assunto, na qual vos requeiro a levardes toda a vossa frota de transportes até à boca do Tejo, exceptuando os navios que transportaram os cavalos, que devem partir para a Inglaterra.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

P.S.: Seria-nos muito conveniente que comunicásseis com o Capitão Bligh quando passardes por ele. Ficarei muito obrigado a vós se tiverdes outro barril do meu vinho engarrafado e posto em caixas, como o último, e deixar um deles com Bligh para mim. 


Memorando do General Wellesley ao General em Chefe Dalrymple (23 de Agosto de 1808)



I. Seria muito desejável instruir o Coronel Murray hoje bem cedo, para instar ao Almirante [Charles Cotton] a comunicar-se com o Almirante russo, a fim de que este último seja informado que, qualquer que seja o resultado das negociações entre Sir Hew [Dalrymple] e o Duque de Abrantes, a esquadra russa não deverá ser incomodada, se eles se comportarem como deve ser num porto neutro, e se não tomarem parte na contenda. 

II. Se o Almirante [Cotton] consentir nesta disposição a favor dos russos, e se estes ficarem satisfeitos com este ponto, o Comandante em Chefe francês deverá ser pressionado sobre os seguintes pontos na negociação para a Convenção: 

1.º O forte de Peniche será evacuado em dois dias; o forte de Elvas e de Lippe em quatro dias; o forte de Almeida em cinco dias; o exército francês atravessará o Tejo e evacuará Lisboa e todos os fortes do Tejo em quatro dias a partir da assinatura da Convenção, e preparar-se-á para embarcar em sete dias, ou logo depois que o Comandante em Chefe britânico o possa indicar. 
Entretanto, o exército britânico poderá usar o porto de Lisboa e navegar no Tejo. 

2.º Determinar-se-á o modo de pagamento do contrato dos transportes. 

3.º Determinar-se-á o porto para desembarcar os franceses; Rochefort ou Lorient serão os melhores, por estarem a grande distância da Espanha e da fronteira austríaca. 

4.º Será requerida uma garantia para os transportes que forem aos portos indicados, e para o regresso dos mesmos; pois cinquenta deles enviados com o exército [francês] do Egipto ficaram detidos na França. 

5.º Planear-se-á algum modo para fazer com que os Generais franceses restituam a prata das igrejas que tenham roubado. 

6.º Determinar-se-á uma troca de prisioneiros. 

7.º Não haverão transportes para os cavalos, e deve-se permitir que os franceses deixem aqui comissários para vender os cavalos ou para contratar embarcações para transportá-los para a França, mas certamente não a própria cavalaria. 

Ramalhal, 23 de Agosto de 1808. 


Diário do General John Moore (23 de Agosto de 1808)


A bordo da [chalupa canhoneira] Brazen, no alto mar, a 23 de Agosto.



Ancorámos o [navio] Audacious na baía do Mondego na tarde do dia 20, mas poucas foram as embarcações do comboio que conseguiram chegar naquela noite ou no dia seguinte, devido à calmaria e aos ventos fracos. Comuniquei com o Capitão Malcolm do [navio] Donegal, que estava aí estacionado como responsável pelos transportes. Malcolm não recebia informações de Sir Arthur há seis dias, mas presumia que ele tinha avançado até perto de Óbidos. Recebi uma carta de Sir Harry Burrard, que incluía correspondência que ele tinha trocado com Sir Arthur Wellesley. Burrard não tinha ainda visto Sir Arthur, cuja carta tinha sido remetida de São Martinho, no dia 19. Por outro lado, a carta de Sir Harry declarava a sua apreensão por Sir Arthur, que, segundo ele pensava, tinha avançado demais, e como a intenção de Sir Arthur, declarada na sua carta, era marchar para Lisboa por Mafra, o General [Harry Burrard] ordenou-me para desembarcar no Mondego e dirigir-me para Leiria, de forma a que, se sofrer algum revés, Sir Arthur possa ter algum recurso. 
Desembarquei no dia 21, indiquei o terreno onde as tropas se abarracariam quando desembarcassem, pois não queria usar tendas, e, depois de fazer algumas disposições, regressei a bordo. A dificuldade de um desembarque no Mondego é muito grande: somente pode ser feito em certos períodos da maré, e nunca se o tempo não estiver calmo. A barra à entrada do rio é muito má. Até então tinham chegado poucos dos navios [do comboio que transportava o corpo de John Moore], e nenhum trazia o Comissário Geral ou o Estado-Maior do exército. Durante a noite chegou uma parte considerável dos navios, e fizeram-se disposições para o desembarque, no dia seguinte, da cavalaria, da artilharia e da primeira divisão da infantaria. Quando estive em terra vi um Capitão do regimento n.º 45, que tinha deixado o exército de Sir Arthur no dia 18. Este estava então a algumas milhas adiante de Óbidos. No dia anterior, tinha tido um combate com um corpo do inimigo de cerca de 8.000 homens, que se tinham disposto na ladeira no lado oposto duma ravina sobre a qual passa a estrada. Forçámos-los a abandonar aquela posição, mas não sem a perda de 400 ou 600 homens mortos e feridos. Entre os primeiros estavam os Tenentes-Coronéis Lake do Regimento n.º 29 e Stuart do 9.º Regimento de Infantaria. 
O desembarque das tropas, tal como se tinha disposto no dia anterior, começou às oito horas do dia 22, e, depois de ter dado as minhas ordens aos oficiais Generais em relação às disposições que iriam ser levadas a cabo nos próximos dias, eu próprio desembarquei, quando me chegou uma carta, através da Brazen, da parte de Sir Harry Burrard, remetida a poucas milhas a sul de Peniche, ao entardecer do dia 20. Ele tinha tido uma entrevista nessa tarde com Sir Arthur Wellesley, cujo exército estava postado a poucas milhas daí. Junot, com toda a sua força, tinha avançado desde Lisboa, e estava em Torres Vedras. Sir Harry Burrard dizia que julgava que era importante que eu me reunisse imediatamente ali consigo, juntamente com as tropas debaixo do meu comando; e que ele devia continuar no terreno então ocupado por Sir Arthur até que eu me juntasse a ele.
Ele queria que eu partisse imediatamente com as tropas que não tinham desembarcado ainda, e que deixasse alguns oficiais Generais para reembarcar o resto e prosseguir a viagem. Foram imediatamente dadas ordens para parar o desembarque, e, apesar da maior parte da infantaria, muita artilharia, e para cima de 150 cavalos estarem então, por volta da uma da tarde, em terra, ainda assim toda a artilharia e toda a infantaria reembarcou, e uma parte dos cavalos e da frota fez-se à vela antes de anoitecer. O Capitão Malcolm, cujo empenho foi bastante grande, garantiu-me que os cavalos deveriam reembarcar na primeira maré da manhã. Como Sir Harry Burrard declarava na sua carta a vontade de que eu me juntasse consigo sem demora, passei a esta embarcação, a qual me tinha trazido a sua carta, e deixei o General Hope no Audacious para trazer o comboio. O vento, contudo, esteve contra durante toda a noite, e pouco avançámos. Vemos o comboio à distância.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Armistício para suspensão das hostilidades entre os Exércitos britânico e francês (22 de Agosto de 1808)



Suspensão de armas concordada entre o Tenente General Sir Arthur Wellesley, da Ordem de Bath, de uma parte, e o General de Divisão Kellermann, Grão Oficial da Legião de Honra, Comendador da Ordem da Coroa de Ferro, Grão-Cruz da Ordem do Leão de Baviera, da outra parte, ambos munidos de poderes dos respectivos Generais dos exércitos francês e inglês. 




Quartel-General do Exército inglês, 22 de Agosto de 1808 


Art. I. A partir desta data haverá uma suspensão de armas entre os Exércitos de Sua Majestade Britânica e de Sua Majestade Imperial e Real, Napoleão I, com o objectivo de negociar-se uma Convenção para a evacuação de Portugal pelo exército francês. 

Art. II. Os Generais em Chefe dos dois Exércitos, bem como o Comandante em Chefe da frota britânica na barra do Tejo, ajustarão um dia para se reunirem naquela parte da costa que julgarem conveniente, para negociar e concluir a dita convenção. 

Art. III. O rio Sizandro formará a linha de demarcação estabelecida entre os dois Exércitos; Torres Vedras não será ocupada por nenhum deles. 

Art. IV. O General em Chefe do Exército inglês responsabilizar-se-á por incluir os exércitos portugueses nesta suspensão de armas, e para eles será estabelecida a linha de demarcação entre Leiria a Tomar. 

Art. V. Concorda-se provisoriamente que o Exército francês não será considerado, em caso algum, como prisioneiro de guerra; e que todos os indivíduos que o compõem serão transportados à França com as suas armas, bagagens e todas as suas propriedades privadas, das quais nada se tirará. 

Art. VI. Nenhum indivíduo, seja português ou duma nação aliada da França, ou francês, será chamado para prestar contas pela sua conduta política; a sua respectiva propriedade será protegida, e ele será livre para se retirar de Portugal dentro dum prazo limitado, com as suas propriedades. 

Ar. VII. Reconhecer-se-á a neutralidade do porto de Lisboa para a frota russa, ou seja, quando o Exército ou a frota inglesa estiveram em posse da cidade e do porto, a referida frota russa não será perturbada durante a sua estadia, nem impedida quando quiser fazer-se à vela, nem perseguida quando sair do porto, senão depois do prazo fixado pelas leis marítimas. 

Art. VIII. Toda a artilharia de calibre francês, bem como os cavalos da cavalaria, serão transportados para a França. 

Art. IX. Esta suspensão de armas não se poderá romper sem um aviso prévio de quarenta e oito horas. 

Feita e concordada entre os Generais acima nomeados, no dia e ano acima mencionados. 

Arthur Wellesley 
Kellermann, General de Divisão 


Artigo adicional. As guarnições das praças ocupadas pelo exército francês serão incluídas na presente Convenção, se não tiverem capitulado antes do dia 25 deste mês. 

Arthur Wellesley 
Kellermann, General de Divisão 


[Fonte: The London Gazette Extraordinary, n.º 16182, 16 September, 1808, pp. 1257-1258. Outras traduções disponíveis in Correio Braziliense, Setembro de 1808, pp. 309-311; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 156-163 (inclui o texto original e respectiva tradução); Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 108-109; Julio Firmino Judice Biker, Suplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Publicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais potências desde 1640 – Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 30-35 (também inclui o texto original e respectiva tradução). Texto original em francês in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 199-200 (doc. 32)].

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Nota: 

Este documento foi escrito originalmente em francês, e em tal língua foi publicado pela primeira vez na Inglaterra, no citado número extraordinário da London Gazette. Apesar de logo de seguida ter sido traduzido para português e publicado também em Londres no Correio Braziliense de Setembro de 1808, este armistício (tal como o texto da Convenção definitiva, erroneamente chamada "de Sintra") tardaria bastante em ser publicado em Portugal, onde, à excepção de poucos indivíduos a quem foi remetida uma cópia (truncada ou integral) dos seus artigos, ignorava-se completamente o seu teor. 
Para uma melhor contextualização deste documento, ver o que escrevemos acerca da primeira versão (não ratificada) da Convenção Definitiva para a evacuação de Portugal pelo Exército francês.

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meu caro Senhor:

Depois de vos ter escrito na manhã passada, fomos atacados pela totalidade do exército francês, continuando Sir Harry Burrard a bordo do navio, e obtive uma vitória completa. Era impossível que tropas algumas se comportassem melhor do que as nossas; somente tivemos falta de umas poucas centenas mais de cavalaria para aniquilar o exército francês.  
Enviei o meu relatório sobre esta acção a Sir Harry Burrard, que o enviará para a Inglaterra. Vereis aí que mencionei o Coronel Burne do 36.º Regimento de uma maneira muito particular; e garanto-vos que nada me daria tanta satisfação quanto saber que algo se fez por este velho e louvável soldado. O 36.º Regimento é um exemplo para este exército.
Sir Harry desembarcou durante a tarde, já a meio do combate, e quis que eu continuasse as minhas próprias operações; e evitando-se assim algum desapontamento que poderia ter sentido se não tivesse uma oportunidade de concluir uma acção em que tanto estava empenhado, fui amplamente recompensado pela satisfação declarada pelo exército de que a segunda e mais importante vitória tinha sido ganha pelo seu velho General. Também tenho o prazer de acrescentar que isto teve mais efeito do que todos os argumentos que poderia ter usado para convencer o General [Burrard] a marchar, e creio que ele ordenará a marcha amanhã. De facto, se ele não o fizer, seremos envenenados aqui pelo fedor dos mortos e feridos, ou morreremos de fome, pois já se comeu tudo o que havia das redondezas.
Perante o número de franceses mortos sobre o terreno, e o número de prisioneiros e feridos, penso que eles perderam não menos de 3.000 homens. A força que nos atacou era bastante considerável, e provavelmente não inferior a 14.000 homens, incluindo 1.300 dragões e artilharia, e 300 caçadores a cavalo.
Sir Hew Dalrymple chegou na noite passada, e desembarcará esta manhã.
Acreditai em mim, etc., 

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao Duque de Richmond, Lord Tenente da Irlanda (22 de agosto de 1808)


Campo do Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meu caro Duque:

Sir Harry Burrard chegou aqui na noite do dia 20, mas não desembarcou, e, como sou o mais felizardo dos homens, Junot atacou-nos na manhã de ontem com toda a sua força, e nós derrotámo-lo completamente. Vereis o relatório da acção. Os franceses perderam não menos de 3.000 homens.
Desde que vos escrevi pela última vez, vim para aqui para facilitar o desembarque e reunião [do corpo] de Anstruther, o qual decorreu na manhã do dia 20. Durante a tarde chegou [o corpo de] Acland, vindo do Tejo: desembarquei-o imediatamente, e ele reuniu-se a nós antes da acção da manhã de ontem. Contudo, Sir Harry somente desembarcou quando a acção estava quase acabada. 
Apesar de termos, com a reunião de Acland, não menos de 17.000 homens, e entre 6.000 a 7.000 portugueses nas nossas vizinhanças, Sir Harry achou que estes números não eram suficientes para derrotar 12.000 ou 14.000 franceses, determinando-se a esperar pelo corpo de [John] Moore, apesar de tudo o que pude instar sobre o assunto. A acção de ontem teve, contudo, maior efeito que toda a minha eloquência, e creio que ele [= Harry Burrard] marchará amanhã. Se ele me tivesse permitido mover, na tarde de ontem, aquela parte do exército que não foi empregue na manhã, os franceses não iriam parar até que alcançassem Lisboa.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


Carta do General Wellesley ao Duque de York (22 de Agosto de 1808)





Vimeiro, 22 de Agosto de 1808



Omiti escrever a Vossa Alteza Real até que tivesse que comunicar algo que merecesse a vossa Real atenção; e espero que a acção que as tropas travaram ontem corresponda a tal descrição.
Escrevi ao Coronel Gordon no dia 18, a partir da Lourinhã, e dei-lhe um relato detalhado das ocorrências até àquela data. No dia 19 marchei para o Vimeiro, de forma a garantir uma melhor protecção ao desembarque da brigada do General Anstruther, que esperava que fosse feita na Maceira [Porto Novo]. O General Brigadeiro Anstruther desembarcou durante aquela tarde e durante a noite de 19 para 20, a cerca de oito milhas a norte da Maceira, tendo reunido-se comigo na manhã do dia 20. A minha intenção era marchar, na manhã de 21, pela estrada de Mafra, à volta da esquerda da posição do inimigo em Torres Vedras e na sua retaguarda; e pretendia que a brigada do General Brigadeiro Acland, que apareceu na costa a meio desse dia, desembarcasse na Maceira durante a tarde, e se juntasse ao exército naquela noite. O General Sir Harry Burrard, contudo, chegou à costa da Maceira na tarde do dia 20, e determinou que o exército devia permanecer no Vimeiro até que fosse reforçado pelo corpo de Sir John Moore, que estava a reembarcar na baía do Mondego.
O desembarque da brigada do General Acland efectuou-se durante a tarde e noite do dia 20, tendo juntando-se ao exército por volta das seis da manhã do dia 21.
Durante a noite de 20 para 21 as minhas patrulhas deram-me informações sobre os movimentos do inimigo; mas como éramos bastante inferiores em cavalaria, as minhas patrulhas não puderam ir muito longe, e naturalmente as suas informações eram muito vagas, e não fundadas em bases muito sólidas. Mas pensei que era provável que, se não atacasse o inimigo, ele iria atacar-me; e preparei-me para o conflito ao amanhecer, posicionando a artilharia de calibre 9 e reforçando a minha direita, por onde esperava o ataque, devido à forma como o inimigo tinha patrulhado o alinhamento naquele ponto  durante os dias 19 e 20. Contudo, ele apareceu, por volta das oito horas da manhã do dia 21, sobre a esquerda, começando-se então uma acção cujo relatório detalhado é dado na cópia inclusa duma carta que escrevi a Sir Harry Burrard sobre este assunto. Incluo igualmente um plano do terreno, que explicará mais claramente a natureza dos diferentes movimentos feitos pelo inimigo e pelas nossas tropas. 
Não posso dizer muito a favor das tropas: a sua bravura e disciplina foram igualmente notáveis; e devo acrescentar que esta foi a única acção onde estive em que tudo se passou tal como foi ordenado, e em que os oficiais encarregados da conduta das tropas não cometeram erro algum. Penso que se a brigada do General Hill e as guardas avançadas tivessem avançado para Torres Vedras, assim que se tornou óbvio que a direita do inimigo seria derrotada pela nossa esquerda, tendo esta aproveitado a sua vantagem, a retirada do inimigo para Torres Vedras seria cortada, e poderíamos estar em Lisboa antes dele; isto, na verdade, se tivesse permanecido algum exército francês em Portugal. Mas Sir Harry Burrard, que já estava neste momento sobre o terreno, continuou a pensar que era mais aconselhável que o exército não saísse do Vimeiro; e o inimigo fez uma boa retirada para Torres Vedras.
Sir Hew Dalrymple chegou esta manhã, e tomou o comando do exército.
Tenho a honra de ser, etc.,

Arthur Wellesley


Extracto duma carta privada dum militar britânico (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, a 22 milhas de Lisboa, 22 de Agosto.


No dia 17 os nossos bravos camaradas forçaram uma passagem [no alto das montanhas] sustentada por 6.000 franceses, façanha esta que somente podia ser conseguida por tropas britânicas. 
As nossas companhias ligeiras carregaram sobre os franceses, provocando-lhes uma fuga desordenada e uma matança medonha. Não podiam passar mais que dois homens ao mesmo tempo. 
Mal tenho tempo de vos informar duma acção mais gloriosa travada ontem neste lugar. Marchámos para este terreno no passado dia 18, descansámos no dia 20, e no dia 21, por volta das nove da manhã, vimos o inimigo avançar sobre as colinas, no número de cerca de 12 a 15.000 homens. Parte do nosso exército moveu-se em direcção ao mar, e a restante manteve-se nas suas linhas, esperando que o inimigo chegasse, o que este fez do modo mais determinado, impelindo os nossos pontos avançados diante dele.
Por fim, a direita do nosso exército carregou sobre o inimigo, tomando-lhe 16 peças de artilharia, carros [de munições], cavalos, etc. O inimigo pensou cortar a nossa esquerda e carregou com cerca de 5.000 homens, que no entanto foram completamente derrotados com grande matança, e perderam o seu segundo no comando*. O Regimento [britânico] n.º 82 perdeu um Oficial, o Tenente Donkin. Fomos completamente vitoriosos. O inimigo perdeu 4.000 homens; as suas mochilas estavam cheias com os seus saques: dinheiro, prata de igrejas, etc.; tenho um grande cálice, retirado de uma das suas bolsas. Há 14 dias que não tiro a roupa. O inimigo envenenou alguns poços no dia 17, e por este motivo alguns homens foram envenenados. Vi um do Regimento n.º 32 e outro do n.º 6 morrendo em agonia depois de beberem desses poços. 
Adeus! Escrevo-vos sobre o terreno.


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Nota:

* Como se depreende da carta de Wellesley a Harry Burrard sobre a batalha do Vimeiro, constava no exército britânico que Thiébault tivesse sido morto, o que não correspondia de todo à verdade.

Carta do Capitão William Warre aos seus pais (22 de Agosto de 1808)




Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meus amados pais:

Desde que vos escrevi há alguns dias atrás, através do Coronel Brown, tivemos um dia bastante glorioso e memorável para a Inglaterra. Os franceses atacaram-nos ontem na nossa posição com toda a sua força, perto de 15.000 homens. Esperava-se que o ataque fosse de madrugada, e teria-o sido, se eles não se tivessem atrasado devido ao [mau estado dos] caminhos. Repousamos as nossas armas cerca de 2 horas, depois de termos descansado antes da madrugada, como habitualmente, quando chegaram os piquetes do Regimento n.º 40, que faz parte da brigada do General Ferguson, e foram dadas ordens para se prepararem as armas.  
O nosso nobre General, sobre cuja bravura e conduta é quase impossível dar-se uma ideia, foi logo para a montanha, estando os nossos postos a cerca de meia milha de distância duma pequena aldeia, Vimeiro. Conseguimos aí perceber que o inimigo avançava para atacar o centro do exército, e uma forte coluna estava marchando para circundar a colina sobre a qual estava a brigada do General, com Cavalaria e Artilharia; mas como tiveram que dar uma volta considerável, tivemos todo o tempo para nos prepararmos. 
Sir Arthur Wellesley (que foi o comandante, pois Sir Harry Burrard ainda não tinha desembarcado) deu ordens a várias brigadas, e tomou as disposições mais magistrais. O centro do exército, do qual estávamos separados por um vale fundo, foi logo atacado vigorosamente, mas [os franceses] receberam um tal revés, que rapidamente tivemos a glória de ver os franceses a vacilar e depois a afrouxar o seu ataque. Nesta ocasião, a brigada do General Ferguson e a do General Spencer, que comandava esta ala, foi vivamente atacada, mas o nosso nobre General, cerca de meia-hora depois do fogo ter começado, ordenou à sua brigada para carregar, conduzindo-a ele próprio de uma maneira que fica além de todo o louvor (basta também dizer que o Comandante em Chefe [Dalrymple]* considera que ele contribuiu bastante para a vitória mais completa que se poderia ter obtido sem cavalaria para o seguir). Os franceses cederam, e seguiram-se três vivas exclamados por toda a brigada. Uma parte reagrupou-se, mas os Regimentos n.os 36 e 71 carregaram sobre eles com uma impetuosidade irresistível, conduzidos pelo nosso bravo General, e forçaram-os a abandonar as suas armas, das quais foram tomadas quatro [peças de artilharia], juntamente com tantos atrelados. A vitória era agora certa, apesar deles se terem reunido uma vez mais, e foram novamente dispersos pelo Regimento n.º 71. A nossa artilharia completou o triunfo deste dia glorioso. Pareceria presunçoso falar da conduta de qualquer corpo. Cada soldado parecia um herói. Em algumas vezes o fogo era tremendo, e o campo encheu-se com os nossos bravos camaradas carregando as armas. O meu cavalo, uma criatura bonita e agradável que tinha recebido poucos dias antes no Porto, a troco de 38 moidores [sic], foi atingido em diferentes parte e caiu morto. Obtive um outro que pertencia a um Dragão, mas tão cansado que não se podia mexer; e quando um tiro raspou a minha capa, pensei que seria melhor desmontar a juntar-me ao Regimento n.º 36, que estava avançando, e tive a honra de ficar com ele durante o resto da acção. As baixas dos franceses são muito grandes, para cima de 1.200 mortos e feridos deixados no campo, para além dos prisioneiros. O nosso exército perdeu cerca de 500, entre mortos e feridos, e um bom número de Oficiais. O único que conheceis é o pequeno Ewart, atingido na perna, mas espero que não seja muito grave. O exército francês era comandado por Junot, Laborde, Loison, Chalot, Brennier. Os dois últimos foram aprisionados com um grande número de Oficiais, e foram tomadas treze peças de canhão.
Podemos louvar Ferguson pela sua bravura, perícia e calma sobre um fogo como granizo. Os seus homens, uma boa tropa do 20.º Drns. [sic], foram atingidos perto de mim, e receei morrer. O meu pobre amigo Stuart do Regimento n.º9 morreu há dois dias atrás, depois da batalha na Roliça, e todos o lamentam - para mim foi uma perda da qual ainda não me recuperei. Estava muito ligado a ele. Não tenho tempo para escrever mais particularidades. Estou muito fatigado, por ter estado ontem até depois das 5 da tarde recolhendo os feridos ingleses e franceses, e conduzindo-os a um lugar em segurança dos cobardes portugueses, que não lutam um décimo dum francês com armas, mas que roubam e matam os pobres e miseráveis feridos. Se tivesse tempo poderia dizer-vos tais coisas sobre estes meus compatriotas**, que não vos admiraríeis pelo meu despeito sobre eles, e por ter desagradavelmente mudado a minha opinião sobre o seu carácter.
Estou muito contente por vos dizer que nenhum membro do nosso Estado-Maior foi morto. Sofri um bom bocado durante toda a noite e o dia de hoje devido a uma dor de intestinos, mas agora estou melhor. Desejava termos avançado hoje para continuarmos a nossa vitória, sem lhes darmos tempo para se reunirem depois de um revés a que estão pouco habituados.
Adeus; Deus vos abençoe a todos. Com o melhor amor, do vosso filho mais afeiçoado,

William Warre


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Nota: 

* O General Dalrymple tinha sido nomeado General em Chefe do exército britânico destinado à Península Ibérica, mas apenas conseguiu desembarcar na praia do Porto Novo (a 4 quilómetros do Vimeiro) no dia 22 de Agosto, ou seja, um dia depois da batalha do Vimeiro.

** Como já atrás dissemos, William Warre nasceu em Portugal. 

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, pelas 6 da manhã, 22 de Agosto de 1808.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Chegou Sir Harry Burrard, e com o maior sentimento vejo que Sir Arthur Wellesley, que com bastante sangue frio comandou a acção de ontem, em que os franceses atacando em duas colunas perderam 21 peças (julgo que os carros manchegos são incluídos neste número) de 23 que tinham; 2 Generais, vendo eu [que] Brenier e outros muitos oficiais e soldados, talvez em número de 400 a 500, foram feitos prisioneiros; a mortandade foi grande da parte dos franceses, pois que certamente tiveram 800. Os ingleses só tiveram um oficial de consideração ferido gravemente, o Coronel dos Dragões. Eu achei-me sempre no meio do fogo e das balas, e uma ainda tocou o meu cavalo e outra matou um soldado ao pé de mim. Os franceses ainda são bastantes, mas Junot não chegou ao pé das balas, e se conservou sempre em distância, reunindo-se às suas tropas depois da fugida no caminho daqui para Torres, como eu vi. Os nossos cavalos entraram na acção, morrendo o Comandante Elesiário da Polícia, um Cadete e outros feridos, mas devo dizer que de todos quem merece maior elogio foi o Tenente António Pinto. Creio que ainda hoje aqui se fica, não obstante aqui nada haver, mas penso [que os ingleses] querem desembarcar muita mais tropa, contudo aqui nada já há, nem vinho,  nem pão, nem coisa alguma. Se Vossa Excelência quiser dirigir-me a carta que há de escrever ao General novo [Sir Harry Burrard], eu lha entregarei. Esse soldado* me acompanhou sempre ontem, e poderá contar alguma coisa, mas não lhe acho inteligência para o fazer bem. Rogo-lhe [que] queira mandar logo essa carta ao seu destino.
Sou de Vossa Excelência amigo obrigado e atento criado.

Joaquim Pais de Sá

[P.S.] Agora mesmo recebo a sua carta**, mas como o General não está em casa, não lha posso entregar; logo que ele chegue o farei. Vejo o que o primo D. Miguel diz ao Huett a respeito dos mantimentos; aqui é totalmente impossível havê-los, o que será mais fácil na Lourinhã e nos povos circunvizinhos. 

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 197-198 (doc. 30)].
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Nota: 

* Alusão ao portador desta carta a Bernardim Freire de Andrade.


** A referida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley não se encontra publicada.