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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta de William Warre à sua mãe (8 de Agosto de 1808)



Campo de Lavos, perto da Figueira, 8 de Agosto de 1808.


Minha queridíssima Mãe:

Aproveito algum tempo livre para lhe escrever algumas linhas, apenas para lhe dizer que estou muito bem, embora bastante fatigado e queimado por estar constantemente exposto ao sol, devido às actividades que o meu conhecimento da língua [portuguesa] e da nossa situação tornam indispensáveis; contudo, sinto o prazer mais sincero por ser de qualquer modo útil ao meu país ou ao serviço, e por isso sinto-me recompensado por cada fadiga.
Desembarcámos no primeiro dia deste mês. O desembarque de todo o exército demorou três dias, e, se tivéssemos sido contrariados por alguma resistência na costa, estou seguro que nunca o conseguiríamos ter efectuado, tão grande é a arrebentação na costa e na barra. Contudo, graças a Deus, todo o exército desembarcou sem mais baixas que um ou dois cavalos, e ocupamos por agora uma posição neste lugar, mais precisamente com a aldeia [de Lavos] à nossa esquerda e o mar à direita, onde esperámos pela chegada do General Spencer e do seu corpo, que acabou por desembarcar ontem e hoje, penso que sem baixas, apesar da arrebentação estar muito forte.
Iremos avançar para atacar Monsieur Junot depois de amanhã; a guarda avançada sob o comando do General Fane partirá amanhã. Serão vários dias de marcha. A parte mais severa deste desígnio está nestas estradas infames e no sol abrasador, que, juntamente com o enorme trem de artilharia e da bagagem, irão obrigar-nos a mover-mo-nos muito devagar. Junot tem um total de cerca de 14.000 homens, mas não poderá resistir durante muito tempo, estando prestes a ser rodeado por nós, que totalizamos cerca de 13.000 a 15.000, vindos do norte, e por um corpo de cerca de 6.000 portugueses; e ainda, na margem norte do Tejo, pelo lado de Badajoz, por um corpo de 10.000 homens do exército do General Castaños na Espanha, que se ouve dizer que são os melhores camaradas possíveis, tal como o seu General, e certamente como a totalidade dos espanhóis em armas. Nada pode exceder a sua coragem e animosidade em relação aos franceses. Até agora a sua conduta tem sido bastante notável, e todas as bocas os elogiam. A Andaluzia está livre de franceses. Dupont e o seu exército capitularam para serem enviados para a França com as suas armas, concessão curiosa da parte dos espanhóis, visto estarem muito necessitados de armas. Três exércitos dos franceses foram aprisionados ou destruídos, e Castaños está a marchar rapidamente para Madrid, e todos esperam celebrar o seu sucesso. Entre os franceses que se renderam, 8.000 foram massacrados pelos paisanos espanhóis, tão grande é a sua animosidade. Todas estas informações são certas. Castaños tem 45.000 homens, entre os quais 4.000 de uma excelente cavalaria, e 23.000 de infantaria regular. Ele é um homem muito brando, mas sempre foi um excelente camarada; a sua conduta é a mais nobre, sendo louvado por todo o exército. Nomearam-no como Coronel ao serviço da Espanha, como prova da estima que sustenta. O exército português tem cerca de 28.000 homens em todo o reino, em todos os ramos [infantaria, cavalaria e artilharia], mas todos estão muito mal armados, e receio que não estejam tão entusiasmados (embora se vangloriem muito) como os seus vizinhos espanhóis. Assim, não acredites em nenhuma palavra dos jornais ingleses. Nunca li tantos disparates. 
O Estado-Maior do General Ferguson ocupa aqui a casa de um velho camarada, onde estamos bastante confortáveis, devido à atenção da senhora William Archer da Figueira, que nos enviou tudo o que podemos necessitar. De outra forma não sei o que deveríamos ter feito, estando a Figueira a quatro milhas e meia de distância, e sem encontramos nada para comer ou para beber (aparte das rações) mais perto. Levantamo-nos às 3 da manhã, e, depois de termos visitado os postos avançados, a linha ou os guardas, montados num cavalo ou numa mula durante 7 ou 8 horas por dia, estamos prontos para nos deitarmos 3 num pequeno quarto (cujo luxo não invejamos), às nove da noite, e dormir como se estivéssemos nas melhores camas do mundo; embora às vezes tenha de me levantar durante a noite, para traduzir ou para fazer alguma outra ninharia, porque à excepção de mim, ninguém fala português na Brigada; esta consiste agora nos Regimentos 66.º, 40.º, 71.º Highlanders, todos eles com experiência no serviço, e ansiosos por se encontrarem com estes franceses tão gabarolas.
Do vosso filho sempre mais afeiçoado,

William Warre

[P.S.] O General envia-lhe as melhores saudações.
Ele é o melhor homem que alguma vez conheci.


Carta do General Arthur Wellesley ao General Harry Burrard, sobre o estado das circunstâncias em Espanha e Portugal (8 de Agosto de 1808)



Lavos, 8 de Agosto de 1808



Senhor:

Como recebi instruções da Secretaria de Estado que me informam que estais quase a chegar à costa de Portugal com um corpo de 10.000 homens, que tinha estado empregado nos últimos tempos no norte da Europa debaixo das ordens de Sir John Moore, apresento-vos agora aquelas informações que recebi relativas ao estado geral da guerra em Portugal e na Espanha, bem como o plano de operações que estou prestes a pôr em execução, em obediência às ordens da Secretaria de Estado*.
A força do inimigo actualmente em Portugal consiste, tanto quanto sou capaz de formar uma opinião, entre 16.000 a 18.000 homens, dos quais cerca de 500 estão no forte de Almeida, mais ou menos o mesmo número em Elvas, cerca de 600 ou 800 em Peniche, e 1.600 ou 1.800 na província do Alentejo, em Setúbal, etc.; o resto está disposto para a defesa de Lisboa, encontrando-se nos fortes de S. Julião e Cascais, nas baterias ao longo da costa até ao Cabo da Roca, e na velha cidadela de Lisboa, na qual o inimigo fez algumas obras nos últimos tempos.
Nos últimos tempos, o inimigo destacou, da força disponível para a defesa de Lisboa, um corpo de cerca de 2.000 homens sob as ordens do General Thomières, sobretudo, segundo julgo, para observar as minhas movimentações, corpo este que agora está em Alcobaça; e um outro corpo de 4.000 homens sob as ordens do General Loison atravessou o Tejo, no dia 26 do passado, para passar para o Alentejo; este destacamento tinha como objectivo dispersar os insurgentes portugueses naquela parte, forçar a retirada do corpo espanhol composto por cerca de 2.000 homens que tinha avançado desde a Extremadura até Évora, e por conseguinte conseguir incrementar a força destinada para a defesa de Lisboa com os corpos das tropas francesas que têm estado estacionados em Setúbal e na província do Alentejo. Em todo o caso, o corpo de Loison regressará a Lisboa, e os corpos franceses disponíveis para a defesa deste lugar deverão andar provavelmente à volta dos 14.000 homens, dos quais pelo menos 3.000 devem permanecer de guarnição e nos fortes na costa e no rio.
O exército francês na Andaluzia, comandado por Dupont, rendeu-se, no dia 20 do passado mês, ao exército espanhol comandado pelo General Castaños; e por isso não existem agora tropas francesas no sul da Espanha. 
O exército espanhol da Galiza e de Castela, no norte, foi posto em xeque em Rioseco, na província de Valladolid, no dia 14 de Julho, por um corpo francês supostamente debaixo do comando do General Bessières, que avançou de Burgos.
As tropas espanholas retiraram-se no dia 15 para Benavente, e julgo que houve desde então alguma contenda com os postos avançados naqueles arredores; mas não estou certo disto, nem tenho conhecimentos da posição do exército espanhol, ou do francês, desde o dia 14 de Julho. Depois de estardes pouco tempo neste país e observardes o grau de deficiência das informações autênticas, produzido pela circulação de notícias infundadas, não vos surpreendereis da minha falta de conhecimentos exactos sobre estes assuntos.
No entanto, é certo que nada de importante aconteceu naquela parte desde o dia 14 de Julho, e por esta circunstância concluo que o corpo do Marechal Bessières atacou o exército espanhol em Rioseco somente para proteger a marcha do Rei José Bonaparte para Madrid, onde chegou no dia 21 de Julho.
Para além da derrota na Andaluzia, é provável que tenhais ouvido dizer que o inimigo foi batido num ataque que fez em Zaragoza, em Aragão; também foi batido sobre a cidade de Valencia (diz-se que em ambas as acções perdeu bastantes homens); e relata-se que na Catalunha dois destacamentos franceses foram desbaratados, que o inimigo tinha perdido o forte de Figueras nos Pirenéus, e que Barcelona estava sitiada; não vi quaisquer notícias oficiais das últimas acções e operações mencionadas, mas todos acreditam no relato delas, que circula por todo o lado. Em todo o caso, sejam estas notícias fundadas ou não, é evidente que a insurreição contra os franceses é geral por toda Espanha; que grandes corpos de espanhóis estão em armas (entre outros, em particular, um exército de 20.000 homens, incluindo 4.000 de cavalaria, em Almaraz, sobre o Tejo, na Extremadura); e que os franceses não conseguem levar a cabo as suas operações através de pequenos corpos. Pela sua inacção e pelas desgraças que sofreram, imagino que não têm meios para reunir uma força suficientemente forte para contrariar o progresso da insurreição e os esforços dos insurgentes, bem como para sustentar os destacamentos dos seus diferentes corpos; ou que percebem que não podem levar a cabo as suas operações sem depósitos de abastecimentos suficientes para um exército tão grande quanto achassem necessário empregar.
Em relação a Portugal, todo o reino, exceptuando os arredores de Lisboa, está num estado de completa insurreição contra os franceses; contudo, os seus meios de defesa são menos poderosos do que os que têm os espanhóis. As suas tropas foram completamente dispersas, os seus oficiais foram para o Brasil, e os seus arsenais foram pilhados ou estão em poder do inimigo. Nas circunstâncias em que foi feita, a sua revolta é ainda mais admirável do que a da nação espanhola. 
Os portugueses devem ter, nas províncias setentrionais do reino, cerca de 10.000 homens em armas, dos quais 5.000 marcharão comigo em direcção a Lisboa; os restantes, juntamente com um destacamento de 1.500 homens que vieram da Galiza, estão ocupados em bloquear Almeida à distância e em proteger a cidade do Porto, que é presentemente a sede do Governo. 
A sul, a insurreição é geral por todo o Alentejo e Algarve, e a norte, em Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes e Beira; contudo, devido à falta de armas, o povo nada pode fazer contra o inimigo.
Depois de consultar Sir Charles Cotton, pareceu-nos a ambos que o ataque proposto sobre a baía de Cascais era impraticável, porque a baía é bem defendida pelo forte de Cascais e pelas outras obras construídas para sua defesa, e os navios de guerra não poderiam aproximar-se até uma distância suficiente para os fazer calar. O desembarque em Paço d'Arcos, no Tejo, não poderia ser efectuado sem calar o forte de S. Julião, mas aqueles que iriam executar essa operação acharam que isto seria impraticável. 
Existem pequenas baías a sul e a norte do cabo da Roca, que talvez pudessem permitir o desembarque das tropas; contudo, todas elas são defendidas por fortes que primeiro tinham que ser calados; são pouco amplas, e apenas poucos homens poderiam desembarcar de cada vez; há nelas uma arrebentação contínua que afecta de tal modo o desembarque que se duvidava que as tropas que chegassem primeiro à costa poderiam ser sustentadas a tempo pelas outras que se lhes seguissem; e inclusive se os cavalos para a artilharia e cavalaria, bem como os abastecimentos e provisões necessárias, conseguiriam mesmo desembarcar.
Estes inconvenientes relativos ao desembarque em qualquer uma das baías perto do cabo da Roca seriam agravados pela proximidade do inimigo em relação ao lugar do desembarque, e pelos poucos recursos do território onde as tropas deveriam desembarcar.
Por estes motivos, o melhor plano era desembarcar na parte mais a norte de Portugal, e acabei por fixar-me na baía do Mondego, por ser o lugar mais próximo [de Lisboa] que oferecia mais facilidades para o desembarque, à excepção de Peniche; contudo, o lugar de desembarque desta península é defendido por um forte ocupado pelo inimigo, que teria de ser necessariamente atacado com regularidade, a fim de dispor os navios em segurança.
Um desembarque a norte era mais recomendado, porque garantiria a cooperação das tropas portuguesas na expedição para Lisboa. Tendo desembarcado a totalidade dos corpos dispostos debaixo do meu comando, incluindo o comandado pelo General Spencer, tenciono começar a marchar na Quarta-feira [10 de Agosto]. Devo tomar a estrada por Alcobaça e Óbidos, tendo em vista manter a minha comunicação pela costa, e examinar a situação de Peniche; e irei para Lisboa pela estrada de Mafra e pelas colinas a norte daquela cidade.
Como fui informado pelo Secretário de Estado que um corpo de tropas debaixo do comando do Brigadeiro General Acland deve chegar à costa de Portugal antes da vós, escrevi-lhe desejando que se dirija daqui para o sul, ao longo da costa de Portugal; e propus comunicar-me com ele através do Capitão Bligh, do Alfred, que seguirá os movimentos do exército, com uns poucos navios-transportes que têm a bordo as provisões e as dispensas militares. Tenciono ordenar ao Brigadeiro General Acland para atacar Peniche, se achar necessário obter a posse dessa praça; em caso contrário, proponho ordenar-lhe a se juntar à esquadra estacionada na foz do Tejo, com o objectivo de desembarcar numa das baías próximas do Cabo da Roca, logo que eu me aproxime o suficiente para permitir-lhe que efectue essa operação.
Se imaginasse que o corpo do General Acland estava equipado de tal modo que lhe fosse permitido mover-se a partir da costa, deveria ter-lhe dado ordens para desembarcar no Mondego e marchar até Santarém, a partir donde poderia dar assistência às minhas operações ou impedir a retirada do inimigo, se esta fosse feita pelo norte do Tejo em direcção a Almeida, ou pelo sul do Tejo em direcção a Elvas. Mas como estou convencido que se espera que o corpo do General Acland forme parte de algum outro corpo que seja provido dum comissariado, pois ele não terá nenhum consigo, e, consequentemente, que o seu corpo deverá depender do país; e como nada se pode garantido a partir dos recursos deste país, considerei que é melhor que o General dirija a sua atenção sobre a costa marítima. 
Se, contudo, o comando do exército continuar nas minhas mãos, devo certamente mandar desembarcar no Mondego o corpo que tem estado ultimamente sob o comando de Sir John Moore, movendo-o para Santarém.
Tenho a honra de incluir uma relação das tropas debaixo do meu comando, bem como a cópia duma carta que escrevi ao Capitão Malcolm, do Donegal, na qual se refere o modo de disposição dos transportes.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 53-57. Encontra-se outra tradução disponível na obra de Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 85-91].


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Nota: 

*  Recordemos que, de acordo com a lista definitiva das forças britânicas enviadas para a Península Ibérica, enviada a Wellesley a 15 de Julho por Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, o General Hew Dalrymple passava a ser o Comandante-em-Chefe das referidas forças, com o General Harry Burrard como segundo no comando e o General John Moore como terceiro. 
Wellesley endereçou a carta acima transcrita a Harry Burrard e não a Dalrymple (apesar de lhe ter remetido uma cópia da mesma), porque sabia que Burrard chegaria à costa portuguesa muito antes de Dalrymple. De facto, ao passo que Dalrymple só viria a partir de Gibraltar (praça que até então governava) no dia 13 de Agosto, Harry Burrard tinha embarcado em Portsmouth no dia 22 de Julho, a bordo do navio Audacious, o mesmo que trazia o General Moore. Contudo, o mau tempo atrasou a viagem destes últimos para o dia 31 de Julho, continuando a prejudicar de tal modo a trajectória do comboio que acompanhava o Audacious (onde vinham os cerca de 10.000 homens comandados por Moore na sua recente expedição à Suécia), que os transportes tardaram mais de duas semanas para se reunirem junto ao Cabo Finisterra. Sem aguardar a dita reunião, Burrard deixou Moore no dia 16 de Agosto e rumou para o Porto, onde soube que Wellesley já tinha desembarcado no Mondego, para onde partiu, e onde finalmente chegou no dia 18.


Carta do General Dumouriez a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico (8 de Agosto de 1808)




Broadstairs, Kent, 8 de Agosto de 1808


Meu Senhor:

Os patriotas provam as desgraças que eu tinha previsto e predito, porque fazem a guerra sem um plano geral e sem conjunção. Lamentar-se-ão ainda mais dos seus defeitos consideráveis antes de se corrigirem. Mas como o sul continuará livre, conservando-se a comunicação entre a Andaluzia e a Galiza através de Portugal, a residência do Rei José em Madrid será bastante precária, e mais de metade da Espanha continuará por conquistar, o que não se pode fazer numa só campanha.
A sorte da Espanha, e por consequência a nossa e a da Europa, depende portanto da conduta dos ingleses em Portugal. É lá que eles se devem concentrar, unindo-se aos portugueses, e organizando-os em corpos, para formarem um exército de 70 a 80.000 homens. Com uma força destas, Portugal não só ficará impenetrável, como também não será atacado, podendo este exército avançar para a guerra ofensiva na Extremadura e em Castela, combinando os seus movimentos com os do General Castaños pela direita, e com os do General Blake pela esquerda. 
Os aragoneses, os catalães e os valencianos serão provavelmente batidos, mas se forem obrigados a abandonar as planícies do belo reino de Valença, retirar-se-ão seguramente para a cadeia de montanhas de Alpujarras, que cobre Múrcia e Granada, e que está ligada à Sierra Morena. 
A reunião das tropas nesta posição estará sustentada pela sua esquerda à direita do exército do Andaluzia, por sua vez apoiado pela sua esquerda pelo exército anglo-português, e este pelo da Galiza. O Rei José ficará bastante embaraçado por ter esta posição à sua volta. Faltar-lhe-ão víveres, e como não tem mar à sua volta, será obrigado a mandar vir qualquer tipo de assistência às costas de mulas, através dos Pirenéus, que serão obstruídos pelo inverno e pelos Miquelets no final de Outubro, e então, quanto maior for o seu exército, maior será a sua ruína.
Mas para que tudo isto se realize, como será indubitável se a guerra for feita sobre um plano geral bem entendido, é necessário:
1.º Que o vosso exército chegue a Portugal inteiro, e tenha o número de 40.000 homens, dos quais pelo menos um quinto deve pertencer à cavalaria;
2.º Que o exército seja comandado por qualquer General em Chefe que se disponha a cooperar de acordo com o plano geral, e a modificar apenas meros detalhes, se as circunstâncias o exigirem;
3.º Que este plano geral seja adoptado pela Junta Geral, comunicado às diferentes Juntas das diversas províncias, e em seguida aos respectivos Comandantes dos diversos exércitos;
4.º Que o Ministério inglês tenha perto da Junta Geral em Sevilha um General hábil e duma qualificação superior, que esteja ao corrente deste plano, e que o possa dirigir em todas as partes, mudando os detalhes segundo as circunstâncias – que este General seja agradável aos espanhóis, e, se possível, escolhido por eles, de acordo com a indicação do Ministério inglês. Ele não deverá enviar em seu nome instruções ou ordens aos Generais dos diferentes exércitos, para evitar ressentimentos, sobretudo do General ou dos Generais ingleses. A própria Junta não deverá enviar instruções ou ordens ao exército inglês, mas somente a comunicação do plano geral e as alterações que as circunstâncias obriguem a se fazer, segundo o seu maior ou menor progresso, para que o exército inglês possa combinar os seus movimentos o mais regularmente possível dentro do plano geral.
Eis como concebo a conduta desta guerra, antes mesmo dela começar. Consequentemente, meu Senhor, enviei-vos um plano geral para o Conselho, bem como para a Junta Geral. A minha experiência leva-me a crer que ele é bom porque está modelado sobre aquele que já conhecia e que executei na França em 1792. Ele tem pelo menos o mérito de ser o único. Talvez seja seguido, ou talvez não; mas fico com a satisfação de ter cumprido o meu dever, ou até ultrapassado-o. Se o Conselho aprovar a minha conduta ou as minhas ideias, testemunhar-me-eis na vossa resposta.
Tenho a honra de ser com respeito, etc.,

General Dumouriez


[Fonte:Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 396-398]. 

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Nota:

Charles François Dumouriez, que ao lado da carreira militar desempenhara também o papel de agente secreto de Luís XV da França, viria mais tarde a aderir aos ideais da revolução francesa, tendo participado com distinção em várias das suas primeiras campanhas, e tendo sido inclusive (ainda que brevemente) ministro dos negócios estrangeiros e da guerra dos primeiros governos revolucionários. Contudo, pouco depois de Luís XVI ter sido executado pelos jacobinos, Dumouriez acabou por desertar e abandonar a França, e depois de ter passado por vários países, acabou em 1804 por se instalar definitivamente na Inglaterra, como tantos outros realistas defensores do futuro Luís XVIII. Neste país, a troco de uma abastada pensão, serviu secretamente como conselheiro valioso da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra do Governo britânico, na sua luta contra Napoleão. 
Curiosamente, entre muitas outras, Dumouriez mandou publicar a seguinte obra, composta segundo as impressões que teve quando veio a Portugal em 1766, na qualidade de agente secreto: État présent du royaume de Portugal, en l'année MDCCLXVI, Lausanne, Chez François Grasset & Comp., 1775 (duas décadas mais tarde, esta edição foi revista, corrigida e consideravelmente aumentada, tendo sido publicada em 1797, em Hamburgo, sendo igualmente traduzida e publicada em Londres no mesmo ano). É também da sua autoria uma obra intitulada Juizo sobre Bonaparte dirigido pelo General Dumouriez a' Nação Franceza e a' Europa [sic], sobre as alterações provocadas por Napoleão na Europa, em 1807, que foi publicada em Lisboa, pela Impressão Régia, no ano seguinte, certamente depois dos franceses se retirarem do país.

sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (6 de Agosto de 1808)



Lisboa, 6 de Agosto 


Não há coisa mais adequada para ilustrar os portugueses rebeldes sobre os resultados da sua monstruosa associação com os rebeldes espanhóis, que o medo com que estes se houveram em Évora.
Já os tratavam os espanhóis como futuros Vassalos, pois que a bandeira e a divisa de Fernando VII é que tremulava sobre as muralhas daquela cidade; os portugueses não estavam nisso mais que pelo sangue que vertiam a favor de senhores, logo ao princípio arrogantes; e que, depois de terem entrado na contenda, e me breve previsto o seu funesto êxito, fugiram a tempo com o seu Chefe Moretti; e não cuidaram mais que em salvar, à custa de seus supostos aliados, uma parte das suas tropas e algumas das suas peças de artilharia. Esta lição aproveitou à vila de Estremoz, de que tanto se blasonava há alguns dias como Quartel-General dos espanhóis e centro do pretendido governo! Os habitantes de Estremoz conheceram que não tinham outro recurso senão na clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe; e eles a invocaram por meio do Senhor General Loison, Conde do Império.
Portanto, a sua vila fica em sossego, restituída ao dever e à submissão; e a 2 deste mês passaram por ali, como por uma terra amiga, as nossas tropas, encaminhando-se na maior rapidez a outras vitórias.
Em Montemor[-o-Novo], os espanhóis é que, ao retirar-se, deram saque aos próprios habitantes, de quem não tinham recebido ofensa alguma. Em Arraiolos, cujos moradores ficaram sossegados, cometeram eles excessos quase semelhantes; e na própria cidade de Évora se deliberaram a outros muito mais atrozes, pois que espingardeavam eles mesmos os que não obedeciam aos seus caprichos.
No dia depois da batalha, se acharam cem dos ditos espanhóis escondidos em subterrâneos, e foram tratados como o mereciam.
O General Loison, por dar uma prova da consideração do Governo ao Clero, quando este procede bem e segue os princípios de paz do Evangelho, confiou a principal autoridade de Évora ao Senhor Arcebispo [Frei Manuel do Cenáculo], um dos Prelados os mais sábios e os mais distintos do Reino; e igualmente nomeou um Pároco em qualidade de Corregedor.

Para aperfeiçoar cada vez mais as nossas tropas em todo o género de exercícios militares em que tanto sobressaem já, ordenou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que houvesse exercícios de fogo que se executam, [desde] há vários dias a esta parte, no Campo de Ourique, à vista do Senhor General Delaborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno.
O dito espectáculo fez acudir um muito grande número de curiosos; Sua Excelência o General em Chefe o tem também honrado com a sua presença; e pessoalmente anunciou às tropas assim reunidas a nova que acabava de receber da vitória de Évora.

As folhas que aparecem em algumas das cidades rebeldes de Espanha estão cheias de imposturas, que um dos seus correspondentes se viu obrigado a escrever-lhes para convidá-las a que também inserissem nelas algumas verdades, a fim de que a multidão não percebesse tão depressa que se zombava dela; e que a iludiam para sacrificá-la e vendê-la em breve. Portanto, a vão dispondo pouco a pouco para saber que não está longe o instante em que será preciso depor as armas diante das colunas francesas que se avançam, e implorar a clemência do Rei legítimo, José Napoleão, cujo coração, tão cheio de bondade, não ficará fechado ao arrependimento daqueles que o tiverem momentaneamente desconhecido.
Vê-se, por exemplo, segundo as próprias folhas espanholas, que as tropas francesas chegam sucessivamente, e em grande número, ao norte da Espanha, pois que aqueles diários são constrangidos a reconhecer positivamente, em data de 6 de Julho, que a tomada de Santader pelas sobreditas tropas é indubitável; que há naquela cidade e em Torrelavega mais de 8 mil homens, que ameaçam as Astúrias; e que, a 25 daquele mês, deviam achar-se em Oviedo. O Bispo inutilmente se pôs na frente dos rebeldes; mais acostumado a dizer missa do que a dirigir tropas, conduziu as suas por uma parte diametralmente oposta àquela por onde se avançava o exército francês. 
Outro corpo se apoderou de Valladolid; e como achasse naquela cidade uma resistência criminosa, a puniu, como nós punimos Évora, e como parece que o General Dupont, pouco antes, tratara Córdoba, igualmente criminosa.
O Senhor Marechal Moncey, à testa de 12.000 homens de infantaria e duma quantidade proporcionada de cavalaria, se achava, a 2 de Julho, em Cuenca, e marchava sobre Valencia para atacar aquela cidade, e vingar a matança de 240 franceses, que ali se achavam estabelecidos havia muito tempo, e que foram indignamente assassinados por uma multidão furibunda, à voz de um cónego de Santo Isidoro de Madrid, por nome Baltasar Calvo; os próprios cúmplices daquele monstro, espantados dos seus crimes, acabaram por lançá-los ao mar. Na cidadela onde eles se achavam detidos é que um Sacerdote fizera tirar a vida àqueles infelizes!
O General Dupont, a quem as mesmas folhas espanholas, depois de o terem dado por morto, são obrigadas a fazer reviver, segundo elas dizem, se achava ainda a 15 de Julho nas margens do Guadalquivir, para a parte de Andújar; e uma prova de não ter ele padecido revés algum é que nessa época se esperava que houvesse uma importante batalha entre eles e os rebeldes, capitaneados por mrs. Coupigny e Reding.
Os rebeldes de Badajoz vão a achar-se em breve desconcertados, pelo muito que confiavam numa aliança que pretendiam ter feito com a província do Alentejo, representada por alguns facciosos de Évora que tinham prometido morrer por eles, e que talvez haverão estimado mais viver e fugir.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].

Carta do General Wellesley para o Tenente Coronel Nicholas Trant (6 de Agosto de 1808)



Lavos, 6 de Agosto de 1808 


Meu caro Senhor: 

Recebi às três da manhã a vossa carta do dia 5. Deverei encontrar-me amanhã às doze horas com o General Freire, em Montemor[-o-Velho]. 
Tive receio que os espanhóis que estavam no Alentejo iriam sofrer, por ter sido informado que um destacamento francês atravessara o Tejo, embora ao mesmo tempo tivesse a esperança de que este não conseguisse fazer nada de importante; mas depois fui informado que o mesmo destacamento afinal regressou antes do dia 31. Espero agora que os espanhóis se tenham retirado a tempo, e que tenham perdido somente a sua retaguarda. 
Não há nada tão insensato como fazer avançar estas tropas [portuguesas] semi-disciplinadas, pois a consequência inevitável seria a sua retirada antecipada e precipitada, se o inimigo avançasse, ou mesmo a sua inevitável destruição. Estou determinado a não mover um homem do meu exército até que esteja completamente preparado para sustentar qualquer destacamento que possa enviar para diante; e, por esta razão, recuso-me a enviar quaisquer tropas para Leiria, como resposta a várias requisições que me foram feitas por um comissário português, que as pediu para protecção, e que seriam utilizadas, como disse ele, para reunir os abastecimentos para as tropas britânicas, que provavelmente cairiam nas mãos do inimigo, se não fossem sustentados. 
Recusei-me terminantemente a enviar para diante qualquer destacamento ou qualquer pessoa até que seja capaz de garantir a sua protecção, e deverei mandar alguém com tempo suficiente para assegurar tudo o que exército possa necessitar, ou o que Leira possa fornecer. É assim lamentável que este senhor tenha sido enviado até mim, particularmente se a consequência for a perda dos abastecimentos que, doutra forma, Leiria poderia fornecer. 
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, p. 50].

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley para o Almirante Charles Cotton (4 de Agosto de 1808)




Quartel-General de Lavos, 4 de Agosto de 1808 


Senhor: 

Acabei de ter a honra de receber os vossos ofícios dos dias 29 e 31, através do Scout
Na carta que tive a honra de vos enviar a 31 de Julho, pedia que se chegasse ao Tejo a frota que tem a bordo o General Spencer, ou a que tem os reforços vindos da Inglaterra, daríeis ordens para virem para a Figueira; deduzo assim que ordenastes à frota de transportes que tem a bordo o General Spencer para vir para aqui imediatamente. Considerando todas as informações que trocámos sobre o assunto do desembarque na baía de Lisboa, ou mais para norte, nos arredores do cabo da Roca, convenci-me que seria uma empresa perigosa para aqueles que o tentassem, tal como para aqueles que dependeriam da assistência e da cooperação das tropas que desembarcassem aí, como previsto. Em relação ao desembarque no território a sul do Tejo, pareceu-me que provocaria uma divisão da nossa força, possivelmente com más consequências para uma ou mesmo para ambas as partes; e por isso, perante todas as circunstâncias, pensei que seria melhor concentrar a nossa força sem demora e desembarcar tudo aqui, que em todos aspectos é o melhor lugar que se pode escolher para executar o ataque sobre a força do inimigo em Portugal. Com estes fundamentos, pedi-vos para enviardes o General Spencer para aqui, e, esperando pela sua chegada, desembarquei o meu próprio corpo, e espero apenas pela sua junção para começar as minhas operações. 
Estou plenamente consciente da vantagem que teremos ao desviarmos a atenção do inimigo sobre a baía da Lisboa, durante a minha marcha até essa cidade; e proponho, com o vosso acordo, enviar para a esquadra um batalhão que não é muito competente para fazer uma marcha activa, mas que pode permitir-vos, com a assistência dos soldados da marinha da esquadra, que façais uma diversão muito oportuna a meu favor. 
Tinha ouvido um rumor sobre um destacamento do exército francês que atravessara o Tejo, e receei pelo destino do destacamento espanhol no Alentejo; e fico contente em saber agora, através duma boa autoridade, que esse destacamento [francês] regressou para o norte [do Tejo]. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 48-49].

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Brobdignags of Bayonne peeping over the Pyrenean Mountains at the Lilliputian Spanish Army, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Agosto de 1808)




Brobdingnagianos de Bayonne espreitando sobre as montanhas dos Pirenéus o exército liliputiano da Espanha.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Agosto de 1808



Isaac Cruikshank recorreu ao mundo imaginado por Jonathan Swift, na sua famosa obra Viagens de Gulliver, para representar nesta caricatura uma sátira sobre as primeiras derrotas de Napoleão na Espanha. 
Entre Brobdingnag, terra dos gigantes, "transportada" aqui para Bayonne (à direita) e os Pirenéus (ao centro) encontram-se dois gigantes, Napoleão e José Bonaparte, que observam com preocupação o cenário à esquerda, na Espanha-Liliput, em cujo horizonte se vêem várias bandeiras espanholas, arvoradas nos picos das montanhas. 
Depois de abandonarem o seu enorme acampamento, diversas linhas de infantaria espanhola perfeitamente formadas avançam sobre as tropas francesas, que lutam desordenadamente e começam a ser desbaratadas. No lado francês do campo da batalha (ver pormenor abaixo), vêem-se vários militares mortos, bem como um cavalo, em cuja sela aparecem as letras NB (iniciais de Napoleão Bonaparte e da expressão latina nota bene). Entre os que fogem precipitadamente, vê-se ainda um francês sem chapéu, que reza ajoelhado
Perante este cenário, Napoleão, com o chapéu depenado, exclama: Misericórdia de mim! Quem poderia ter pensado isto de um conjunto de tais liliputianos? Porque estão eles arruinando o nosso exército brobdingnagiano?! José Bonaparte, ostentando a coroa espanhola, replica ao seu irmão: Nap, digo-te que podes colocar também a minha coroa no teu bolso, para que não me surpreendam tais camaradas com rostos de assassinos.



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Outra digitalização: The British Museum

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carta da Junta de Governo de Sines ao Almirante Charles Cotton (2 de Agosto de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Representamos a Vossa Excelência as tristes circunstâncias em que actualmente nos achamos. Hoje aparece aqui um emissário, que na maior aflição nos faz ver que a cidade de Évora, capital do nosso Alentejo, se acha possuída por 6.000 homens franceses: acometeram o corpo das nossas tropas que guarneciam a mesma cidade, ficando muitas destas destruídas. Diz mais, que os inimigos têm degolado muitos dos habitantes, e que os principais destes estão debaixo de prisão tratados desumanamente. Portanto de novo imploramos o socorro de Vossa Excelência, para que sem perda de tempo nos queira subministrar as munições de que tanto carecemos, e agora mais do que antes, em virtude deste acontecimento, que acresce. Rogamos, além do que tínhamos pedido a Vossa Excelência, e para o que aí se acha ainda um emissário nosso, mais 390 clavinas, 400 pistolas, 500 espadas, e fuzis mais os que puder dispensar depois dos 400 que já exigimos, e junto a isto toda as munições que possa liberalizar-nos.
Consta-nos que em Mértola, 9 léguas distante de Beja, se tem desembarcado as bagagens de 3.000 homens espanhóis, cuja chegada ansiosamente esperamos, assim como a das tropas inglesas, para mais brevemente nos desafrontarmos do inimigo comum. Desejávamos que o porto de Setúbal nos ficasse livre dos ditos franceses, para que fazendo-nos ali reforço, obstássemos à retirada dos que estão em Évora para Lisboa, mas isto só nos parece que será favorável com a mediação de Vossa Excelência, que Deus guarde muito anos.
Sines, em Junta do Governo de 2 de Agosto de 1808.

[seguiam-se as assinaturas do Presidente e dos Deputados].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 43-44].

Boletim n.º 6 do Exército [francês] de Portugal (2 de Agosto de 1808)



[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].


sábado, 30 de julho de 2011

Memória de Frei Manuel do Cenáculo, Arcebispo de Évora, sobre os antecedentes e consequências dos combates de Évora



Primeiro fólio da memória
Julgo ser do meu ofício conservar uma memória exacta e individual dos acontecimentos nesta cidade de Évora, principalmente relativos à minha pessoa, que sucederam desde a intrusão dos franceses neste reino; e tomo por época o dia 13 de Julho do ano [...] passado [de] 1808.
Tendo-se recebido neste dia uma carta oficial, escrita de Juromenha pelo comandante das forças espanholas naquela praça, D. Federico Moretti, dirigida à Câmara e Povo de Évora, propondo-lhe uma declaração contra o intruso governo, foi necessário proceder ao convocamento [sic] das três ordens, Nobreza, Clero e Povo, a que eu presidi; e foi o meu voto que, visto o estado da cidade, sem tropa, nem munições, não estava em estado de aceitar proposta alguma, no que todos concordaram, e se fez [um] termo, em virtude do qual foi a resposta de que se junta cópia debaixo do n.º 1; e dela se julgaram os magistrados obrigados a dar conta ao General Junot para evitar algum rompimento violento, e me foi participado pelos mesmos ministros a boa aceitação com que foi recebido este novo arbítrio.
Continuou esta cidade a sofrer pacificamente, obedecendo às ordens do governo intruso, sujeitando-se a executar as disposições dos ministros que administravam as secretarias e tribunais na Corte, e as expediam com cominações, para evitar as quais entretinha eu com respostas que acautelassem a esta minha diocese as cruéis hostilidades que sofreram tantos povos desta perseguida nação, e até me preparei com uma Pastoral que fiz imprimir, e é a que vai junta [com o] n.º 2; a qual cuidadosissímamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808*.
Assim permanecemos, até que não sei porque clandestina diligência se convocou o mesmo Coronel [Moretti] com alguma pequena escolta a vir a esta cidade incorporar-se com o General da província [do Alentejo, Francisco de Paula Leite], para se repetir a gloriosa aclamação do nosso Amável Príncipe, tornando a governar-nos na sua feliz obediência pelas Leis Pátrias, o que com efeito se praticou, apresentando-se ao Povo na varanda das casas da Câmara o retrato do mesmo Senhor pelos dois chefes português e espanhol, sendo inexplicável a alegria de todo o Povo, com que repetia vivas, repicando-se todos os sinos e desafogando todos os seus prazeres em mil demonstrações. Fiz eu logo que na Sé se cantasse [um] soleníssimo Te Deum, se celebrasse grande festa em acção de graças, renovando eu e todos nas minhas mãos o juramento de Fidelidade ao nosso Legítimo e Saudoso Soberano.
Recebi e hospedei no Palácio Arquiepiscopal o Coronel espanhol e grande número de oficiais e tropa que com ele concorriam. Estabelecemos um Governo de Regência, do qual eu era o Presidente com o General da província. Continuámos por poucos dias neste feliz estado, deliberando quanto nos pareceu a bem da nossa segurança e comodidade pública, quando no dia fatal de 29 de Julho fomos atacados pelo numeroso exército de nove para dez mil homens franceses, comandados pelo General em Chefe, Conde do Império Loison, e por dois outros Generais de Divisão, Solignac, e Margaron; o qual exército deixava já saqueada a vila de Montemor[-o-Novo] e feita grande mortandade, apesar da vanguarda de oitocentos homens e quatro bocas de fogo que ali tínhamos para defender o passo, a qual, à vista da desproporção com o inimigo, se retirou sem alguma operação de defesa.
Chegado este exército inimigo às vizinhanças da cidade, saíram ao campo os dois chefes com o Regimento de Estremoz, o de Voluntários Estrangeiros de Moretti, os artilheiros que serviam as quatro peças espanholas, alguma Cavalaria [espanhola] de Maria Luisa, e alguma outra do dispersado Regimento desta mesma cidade [de Évora], a que juntos os Caçadores da Ordenança, formaria um total de mil e oitocentos homens. Não há palavras para explicar o valor, a intrepidez, o patriotismo e o amor do seu Príncipe com que esta desproporcionadíssima tropa, principalmente os paisanos, arrostou o inimigo, distinguindo-se muito o Regimento de Estremoz, que investia com tanta intrepidez que o mesmo General Loison me disse que eram bravos soldados; e foi tanto o estrago feito no inimigo que, passadas duas horas de combate, à vista de terem feito a mortandade de três para quatro mil homens inimigos, mandaram os comandantes vários oficiais ao Palácio de minha residência participar-me que a vitória era nossa; o que foi por mim celebrado com graças particulares dadas ao Deus dos Exércitos, que tão visivelmente nos favorecia, e cuidei em prontamente acudir com refeição aos que julgava debilitados com o trabalho da nossa defensa. 
Quando isto celebrava vejo voltarem os mesmos e mais oficiais numa fuga debandada, e passados poucos momentos chega Moretti e me diz: Está a acção perdida; se Vossa Excelência não quer morrer às mãos dos franceses, fuja e esconda-se. Eu, que tenho em meu coração as minhas ovelhas, não julguei desampará-las em perigo tão evidente: corri para a minha Catedral, e no meio do confuso alarido do estrondo dos canhões mandei propor [a] capitulação; mas já em hora que estava entrada a cidade, desamparada de defensores, pois que toda a tropa tinha fugido em desordem, e quando já entravam pela Sé disparando tiros que mataram o meu Capelão da Cruz, que com ela e com a pequena comunidade que a mim se agregou, tinha mandado para a porta da Igreja; rebentando sobre a abóbada granadas que também mataram e feriram algumas pessoas, e fizeram cair aos meus pés estilhaços e pedaços de pedra; e quando já os oficiais vencedores e soldados, apontando-me baionetas ao peito, gritavam por dinheiro, ameaçando de morte e saque violento, eu desci do sólio, suplicando-lhes humildemente pela vida deste pobre povo. Então foi que eles à vista das minhas humilhações e súplicas deram indícios de que mudavam o parecer em que vinham de que eu era o cabeça da que eles chamavam revolução desta cidade; pois que eu era o Presidente do Governo estabelecido em nome de Sua Alteza Real. 
Eu não tinha feito acto algum positivo em obséquio da sua nação, e nem sendo insinuado tinha feito a publicação de uma só pastoral, e tanto deram disto indício que o General Loison, tendo dado ordem de entrar o exército na cidade a ferro e fogo, o que foi observado de sorte que a primeira casa em que entraram saqueando foi o Palácio Arquiepiscopal; para ele disparam muitos tiros, acometendo entretanto a casa e matando o meu Bispo Provisor, e penetrando o Convento de Santa Mónica, da jurisdição ordinária, no qual entrou o mesmo General e ordenou que dentro nele seria o seu quartel, dispondo-se as aflitas religiosas com cama e mesa, até que, informado do meu comportamento humilde e pastoral, me mandou dizer à Sé pelo seu ajudante e língua[=tradutor], o português Freitas, que se queria aquartelar no meu Palácio.
Recebi este aviso com demonstrações de satisfação e até de agradecimento, e com permissão da tropa feroz que nos tinha como prisioneiros na Sé, e com o pretexto de ir preparar a hospedagem, que logo me foi recomendada que devia ser decente e abundante para um General e quarenta oficiais; isto quando a minha família estava toda dispersa, não havendo na casa provisões algumas, e até sendo já morto por eles o meu cozinheiro. Fui neste aperto para casa acompanhado de alguns eclesiásticos e diocesanos que, por carinho, por medo e para refugiarem-se me acompanharam. Entrei em casa rodeado de militares destemidos, animados com a glória do triunfo e com o arrojo de inimigos cruéis, trazendo as espadas nuas, espingardas e pistolas empunhadas, vendo-me na necessidade de os hospedar sem faltas; para o que nunca podia estar provido, e naquela ocasião muito menos. Então entra, penetrando o interior das casas, o General Loison, com a carranca de triunfador, com a soberba de tirano, e, confrontando-se comigo, me disse, com gesto feroz e ameaçador: Monsenhor Arcebispo é réu de morte; assinou um decreto contra a França; é réu de morte. Ao que eu (graças a Deus) sem o mais pequeno soçobro, e apesar do alarido com que todos os oficiais circunstantes repetiam é verdade que é réu de morte, correspondi abaixando humildemente a cabeça, e o General continuou, apartando-se de mim com gesto e passos furiosos: Ao menos devia ter dado parte.
Comecei a dispor a hospedagem e a sofrer os insultos mais humilhantes de se deitarem sobre a minha mesma cama, de penetrarem e esquadrinharem os quartos particulares; de quererem ser servidos das coisas mais esquisitas e com a maior prontidão, até obrigando alguns criados que foram aparecendo, os clérigos e frades, como também alguns senhores que se refugiaram no Palácio, o qual tive aberto e franco para refúgio dos meus diocesanos, obrigando, digo, a que os servissem de pronto, e isto com pontapés, bofetões e ameaços de espadas e pistolas.
Foram com efeito hospedados à sua vontade com tudo quanto indiscretamente pediram, e eu lhes assistia à mesa, sem embargo do perigo a que me arriscava, pois o General ia para ela com um grande punhal que punha junto a si, e os oficiais que estavam a ela e os muitos que tumultuosamente saíam e entravam, todos armados de espadas e pistolas, ameaçando todos à mais pequena falta de prontidão. À vista de todos estes sofrimentos com paciência e humildade, se resolveu o General a dizer-me que a minha casa era livre de saque, e começou a tratar-me ele e mais alguns poucos oficiais maiores com menos desprezo e tirania; mas não foi a sua palavra observada, porque por ele mesmo General foi a minha casa saqueada excessivamente; não ficou quase nada da prata de que o meu antecessor se tinha provido; fiquei sem anel episcopal; todo o copioso monetário que a tanto custo tinha juntado para deixar, juntamente com a grande livraria que tenho edificado (a qual por si só dá tanto a ver a grande despesa que tenho feito para a instrução do Clero e Fiéis deste Rebanho, que um dos oficiais de grande patente, Mr. Pillet, disse ao vê-la: eis aqui porque o Arcebispo não tem dinheiro; pois o tem gastado nisto)**Tudo quanto era ouro e prata foi saqueado, como também rasgados os livros e feitos em pedaços os manuscritos, quebrando as mais pequenas e delicadas peças do museu natural e artificial, unicamente para levarem alguns pequenos remates de prata e oiro, fazendo em pedaços imagens de Cristo e Santos, enfim, reduzindo tudo a um estado de fazer lástima ainda a quem não é curioso.
Entretanto era aturdida toda a cidade com repetidos tiros, [e] alaridos dos desenfreados saqueadores e dos miseráveis que eram feridos e mortos e que presenciavam os desacatos feitos nos templos, o forçamento das donzelas, a entrada nos conventos dos Frades e Freiras, porque quase não houve Igreja onde não obrassem o insolentíssimo sacrilégio de arrombar o Santo Tabernáculo, espalharem pelo pavimento o Sacrossanto Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado, para roubarem os vasos sagrados, até chegando a levar alguns com o mesmo Santíssimo Sacramento que derramaram no campo; profanando os mesmos Templos com homicídios e forçamentos a mulheres de todo o estado e idade.
Passada assim a tarde e noite de sexta-feira 29, fui na madrugada de Sábado rodeado pelo General e mais oficiais, mandando-me que fizesse uma exortação ao meu povo para que obedecesse à autoridade francesa, e que ordenasse o desarmamento do clero. Não tive mais remédio do que pegar na pena e com o socorro do Espírito Santo fazer as duas pequenas pastorais de que junto cópias (n.os 3 e 4); as quais, sendo por eles lidas, me ordenaram que prontamente lhe apresentasse vinte cópias delas; como também que mandasse logo cuidar em enterrar os muitos mortos de que estavam juncadas as ruas e cheias as casas; acrescentando que queriam estabelecer um Governo francês do qual seria eu o Presidente, e que lhe indicasse os membros de que se havia compor a Junta; tudo isso com sinais de que a minha vida responderia pela falta de sujeição, quando não havia na cidade pessoas de quem me lembrasse, as quais não estivessem mortas, como era o meu saudoso Bispo Provisor, os Desembargadores Manuel Simões e Fernando Silveira, e outros dispersos e fugidos. Tudo fiz auxiliado do meu clero exemplar, que com todo o fervor me ajudaram num tal aperto e aflição.
Então se seguiu que o General me tratasse com mais benignidade, protestando-me respeito, e que por mim perdoava as mortes que se haviam de seguir, como também dava a liberdade a inumeráveis prisioneiros que tinha dentro da Sé e nas cadeias, entre os quais eram muitos Frades e Clérigos, duzentos homens do Regimento de Estremoz e muitos paisanos; levando-me para isso à Igreja, e fazendo dizer pelo seu língua [=tradutor] a todos que em obséquio e respeito ao seu Prelado lhes perdoava a morte e dava a liberdade, do que resultou que esta aflitíssima cidade rompesse nos clamores de que era a mim que eles deviam a vida e o resto dos bens que lhes ficaram (veja-se a cópia junta n.º 5***). Gozava eu desta pequena respiração, quando ouço rodar quatro peças, e postarem-se na frente da minha casa, e um alvoroço e tumulto dentro nela, entrando de repente no meu quarto o general, e deixando-se cair com todo o peso num canapé, me diz: Monsenhor, eu não posso com os franceses; eu não posso conter os soldados. Ao que lhe respondi que não havendo subordinação na tropa nada se conseguia. Era o caso que acabando os oficiais de fazer uma resenha (posto que inexacta) da sua tropa e achando que os mortos lhe passavam de três mil, instavam a ele General que fosse queimada e arrasada a cidade, principiando pelo Palácio Arquiepiscopal. Acudiu Deus, e passada meia hora mandou retirar as peças, repetindo a fineza de que por mim perdoava tudo.
Passado o Sábado e o Domingo entre estas angústias e perigos próximos e evidentes de vida, é incrível quanto sofri por mim e pelos meus; choviam as ordens para desarmar (veja-se a cópia n.º 6), para aprontar rações, para arrasar muros, para franquear cofres, para mandar vir Cónegos que lhes abrissem as suas oficinas, de onde tiraram que havia de prata e dinheiro; como também de todos os depósitos públicos e particulares até que na madrugada de segunda-feira mandou o General dizer-me pelo seu Secretário, estando eu ainda na cama, que ele com o exército fazia uma digressão que duraria quatro dias; que me recomendava o governo da cidade, intimando-me mil ordens impossíveis de praticar-se, das quais ele viria saber a execução.
Dei graças a Deus por esta respiração que me concedia, e continuei com a Junta a cuidar no sossego e cómodo dos desolados habitantes desta triste cidade. Dei ordens para haver provisão de mantimentos e para que os dispersos e fugitivos se restituíssem às suas casas, e isto fiz unicamente para que o Povo deixado a si não se desordenasse e se acrescentassem os males uns aos outros.


[...]


Frei Manuel, Arcebispo de Évora

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls 82-95 (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo). Esta memória manuscrita (bem como os documentos citados) foi publicada originalmente por António Francisco Barata, com o título Memoria Descriptiva do Assalto, Entrada e Saque da Cidade de Évora pelos Francezes, em 1808, impressa a expensas do municipio em gratidão e lembrança do Arcebispo D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Évora, Minerva Eborense, 1887. Existe uma edição mais recente, cópia da anterior, com apresentação de Celso Mangucci, publicada in Cenáculo (Boletim on line do Museu de Évora), n.º 3, Setembro de 2008, pp. 3-22].


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Notas:


* Ou seja, precisamente um dia depois de se ter mandado publicar a carta da chamada deputação portuguesa. Apesar de não conhecermos cópia alguma do citado aviso de Hermann, sabemos que nesse mesmo dia 13 de Maio Lagarde enviou um ofício ao Juiz de Fora de Vila de Franca de Xira (ofício esse que possivelmente seria uma carta-circular destinada a todas as autoridades camarárias do país), no qual também se recomendava que fossem dadas ordens para que os párocos locais lessem a referida carta da deputação portuguesa na missa do "domingo seguinte ao dia da sua recepção". Nos dias seguintes, alguns bispos publicaram inclusiva cartas pastorais com agradecimentos a Napoleão por ter permitido que Portugal continuasse a ser um país independente... Já atrás inserimos duas pastorais compostas na sequência da publicação da carta da deputação portuguesa: uma do bispo do Algarve, de 21 de Maio (um mês antes de ser "eleito" vice-presidente da Junta do Algarve); e outra do próprio Frei Manuel do Cenáculo, datada de 20 de Maio (devendo-se notar, repetimos aqui, que esta última não se mandou publicar).



*"Para Frei Manuel, a Biblioteca de Évora  surge como corolário de toda uma vida em que a colecção e aquisição de livros, raridades, obras de arte e peças naturais foi uma constante, tendo sempre em vista criar bibliotecas e museus para instruir o maior número possível de pessoas, através da leitura e da observação de obras de arte ou da natureza. A criação de uma biblioteca pública era, portanto, o ponto mais alto de toda a sua actividade e gosto pelas colecções, tanto mais que vinha dotar a cidade de Évora, com uma instituição onde queria reunir o que considerava importante para o progresso do saber. Por isso, foi uma dos primeiros actividades em que se envolveu logo após a chegada. O seu Diário dá conta que os trabalhos de instalação iam a bom ritmo, sobretudo a partir de 1805. Para a biblioteca escolheu a ala ocidental do palácio episcopal, que tinha sido destinada por um dos seus antecessores para Colégio dos Meninos do Coro da Sé e que estava ligado por um passadiço ao resto do edifício, onde instalou o Gabinete, que posteriormente seria o Museu Regional. 
Os fundos bibliográficos  eram, nesta primeira fase, provenientes dos livros deixados pelo seu antecessor, Frei Joaquim Xavier Botelho de Lima e dos muitos milhares que o próprio Cenáculo trouxera de Beja que, de acordo com o inventário feito após a sua morte em 1814, seriam 50.000 volumes. As invasões e o saque de que foi alvo a cidade, pelos franceses em 1808, bem como a prisão do Arcebispo pela Junta Revolucionária, atrasaram todo o processo e a perda de parte do valioso espólio". 
[Fonte: Francisco António Lourenço Vaz, "As Bibliotecas e os Livros na obra de D. Frei Manuel do Cenáculo", in La Memoria de los Libros. Estudios sobre la historia del escrito y de la lectura en Europa y America, Salamanca, Instituto de Historia del Libro y de la Lectura- Fundacion Duques de Soria, 2004, t. II, p. 483-498].



*** (Documento n.º 5):

Nós, as pessoas da Nobreza e Povo desta cidade de Évora, fazemos saber por esta nossa atestação, a todos os senhores a quem ela for apresentada que é ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, nosso Arcebispo Metropolitano, a quem devemos as vidas que temos e as casas que habitamos; pois que sendo entrada à escala esta cidade no dia 29 de Julho passado pelos franceses e recebendo a tropa do seu General Loison a ordem de entrar a ferro e fogo, começou a executá-la disparando peças de metralha pelas ruas, matando a tiro de fuzil e à espada quantas pessoas encontravam, sem distinção de sexo, estado e idade, até entrando pela Santa Sé atirando tiros de bala, dos quais houveram vários mortos e feridos, sendo um deles o Sacerdote Capelão que estava com a Santa Cruz alçada, junto à porta, e foi morto pelo estrago dos tiros; e seria total a mortandade se o nosso Santo Prelado com virtuosa intrepidez (depois de amedrontado com baionetas apontadas ao seu peito, com alfanges desembainhados, e com o estrago de uma bomba que rebentou no tecto da Capela mor sobre a sua cabeça e arrojou próximo a ele porções de metralha e pedaços de pedras) não se prostrasse humildemente ante os Oficiais Generais, pedindo o perdão para as suas aflitas ovelhas, hospedando na sua casa o General e quarenta Oficiais, doentes uns, importunos e absolutos todos; sujeitando-se a quantas extravagantes hostilidades lhe faziam, roubando-lhe o seu copioso e rico monetário, levando-lhe todas as cavalgaduras do serviço de sua pessoa e casa, e roubando-lhe até o seu anel episcopal; pretendendo dele ordens, Pastorais, até que se sujeitasse a ser Governador da cidade; e tudo isso com pistolas na mão e espadas nuas, dando toda a certeza de que qualquer repugnância seria causa da sua morte e do estrago e ruína total desta nossa cidade, o que o mesmo General Loison manifestou publicamente na igreja, quando publicou o perdão que dava por sua intercessão não só à cidade senão ainda a duzentos prisioneiros que tinha dentro na mesma Sé; pelo que é geral a confissão que todos os que ficámos com a vida fazemos de que é ao nosso Prelado que a devemos. Isto sabemos porque o presenciámos e outros porque achámos esta notoriedade quando nos recolhemos da fuga em que andámos desterrados, por isso em obséquio da verdade e [em] sinal do nosso agradecimento o atestamos com todas as asseverações de honra e Religião.
Évora, 30 de Setembro de 1809.
Seguem-se as assinaturas da Nobreza e Povo, com o reconhecimento em forma.