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sábado, 10 de setembro de 2011

Notícias publicadas no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro (10 de Setembro de 1808)



Rio de Janeiro, a 10 de Setembro de 1808.


A Europa devia prever há muito a sorte do Sumo Pontífice, especialmente desde que foi obrigado a ir a Paris e a assinar a Concordata. O Santo Padre viu enfim que nada conseguia pela moderação evangélica que até aqui o caracterizava, e que a causa da religião exigia a nobre resolução que tomou. O capitólio tão celebrado na História não podia escapar por mais tempo aos desígnios do Imperador dos franceses. Roma deve suscitar-lhe muitas lembranças. A divisa do povo italiano acha-se neste verso de Alfieri!

Siam servi si, má servi ognor frémenti. 
[Sejamos servos, sim, mas servos sempre trémulos].

Ainda que estivéssemos preparados para acontecimentos desta natureza, quase que não pensávamos ver derrubar ao mesmo tempo o trono dos Papas, e roubar o da Espanha, a mais antiga Dinastia da Europa. O Governo francês ainda há pouco engodava a Prússia enquanto atacava a Áustria, enganava a Áustria enquanto combatia com a Prússia e Rússia, fazia protestações de amizade a Portugal, e disfarçava com a Espanha enquanto tinha a contender com as principais Potências do Norte, mandava a Rússia invadir a Suécia enquanto se apoderava da Dinamarca; mas agora empreende juntamente a conquista do Indostão, a ocupação da Pérsia, a desmembração do Império Otomano, a invasão da Sicília, da Suécia, da Espanha, a sujeição de Portugal, a usurpação dos bens e privilégios da Igreja, a protecção da América espanhola. Se ainda pudesse haver uma só pessoa que acreditasse de boa fé a doutrina francesa, bastariam estes factos para lhe abrir de todo os olhos; mas a rebelião de Constantinopla, os levantamentos e emigrações continuadas dos leais portugueses, a resistência de todos os espanhóis, cujo carácter sério e persistente é bem conhecido, a magnânima resolução de Sua Santidade, e o procedimento da Casa de Áustria são provas evidentes de que a Europa não crê mais em enganos.
Monitor continua de vez em quando a ameaçar os incrédulos. Não há muito tempo que dizia que brevemente não restaria outro recurso a El-Rei de Suécia senão de ir reinar para alguma parte da América. Se esta frase do Monitor envolvesse alguma insinuação a nosso respeito, responder-se-lhe-ia: "Reinamos na melhor porção da América, e a prova disso são os sábios Actos do Governo do Nosso Amado Soberano. O Príncipe Regente Nosso Senhor imediatamente depois da sua chegada mandou abrir os portos destes seus Domínios ao Livre Comércio de todas as Nações Amigas, e declarou guerra àquela que invadiu aleivosamente o património que transmitiu o primeiro dos nossos Reis à sua Augusta Família Real, na cessão da qual jamais consentirá, e sobre o qual conservará sempre os mesmos direitos que tem ao vasto Império que herdou do Senhor Rei D. Manuel.
Entrou neste porto a 19 do passado [mês] uma fragata inglesa, vinda de Gibraltar, que trouxe as importantes notícias que se seguem. Em Cádis, depois de um renhido fogo das barcas canhoeiras e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais se comprehendem muitos Oficiais. Murat acha-se cercado no sítio do Bom Retiro [sic]. Todas as províncias da Espanha têm pegado em armas contra a tirania do Perturbador do Género Humano. As tropas francesas, que se acham dispersas, estão na maior consternação. O nosso fiel Aliado El-Rei da Grande [sicBretanha tem prestado todos os socorros aos espanhóis. A Junta do Governo Provisório estabelecida em Sevilha declarou guerra à França, e ajustou um armistício com os Chefes ingleses. Os nossos leais compatriotas manifestam o mesmo espírito, e já recobraram a importante posição de Elvas. O General Junot refugiou-se no Castelo de S. Jorge e dali oferece capitular. A cidade do Porto arvorou a Bandeira portuguesa.
Correu aqui notícia vinda por pedestres de Goiazes [sic], que os franceses, tendo feito um desembarque no Pará com aparências de amizade, o Capitão General os rechaçara completamente, ficando vivos só os prisioneiros; porém, isto ainda merece confirmação.
Igualmente correu voz que um corsário francês desembarcara 20 homens na costa do Pará ou Maranhão para procurar à força mantimentos, e que toda essa gente fora morta, ou feita prisioneira; tendo-se feito à vela o corsário bem embaraçado no porto em que tocaria, pois Caiena se diz bloqueada por duas fragatas inglesas.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Spanish Joke!!!, caricatura de George Cruickshank (5 de Setembro de 1808)




Uma brincadeira espanhola!!!
Caricatura de George Cruickshank publicada a 5 de Setembro de 1808.


Tal como tinha feito o seu pai poucos dias antes (ver Sancho alias Ioe Butts...), George Cruickshank concebeu esta caricatura baseando-se num episódio da obra O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, segundo o qual D. Quixote, depois duma breve discussão com o dono da estalagem onde repousara, foge no seu cavalo Rocinante sem pagar a sua conta, e sem se aperceber que o seu escudeiro Sancho Pança não o seguia. Segundo Cervantes,
Quis a desventura que entre a gente que se achava na estalagem estivessem quatro tosadores de Segóvia, três fabricantes de agulhas de Córdova, e dois vizinhos da feira de Sevilha, gente alegre, bem intencionada, corrompedora e brincalhona, os quais, como instigados e movidos de um mesmo espírito, chegaram-se a Sancho, e apeando-o do burro, um deles foi buscar uma manta; e deitando-o todos nela, levantaram os olhos, e viram que o tecto era alguma coisa mais baixo do que se necessitava para a sua obra, e determinaram sair para o pátio, onde tinham altura de mais. Aí, deitado Sancho no cobertor, entraram a atirar com ele ao alto, e a brincar com o pobre como quem brinca com um cão. Os gritos que dava o miserável manteado foram tais que chegaram às orelhas do seu Amo; o qual, parando para escutar atentamente, julgou que nova aventura se lhe oferecia, até que claramente conheceu que seu Escudeiro era o que gritava. Mete logo o seu Rocinante a todo o galope para a estalagem, e achando-a fechada, dá volta para ver se achava por onde entrar. Mas como as paredes do pátio não eram muito altas, viu o brinco que faziam com seu Escudeiro, o qual subia e descia pelo ar com tanta graça e ligeireza que, a não estar tão irado como estava, não deixaria de rir. Uma e muitas vezes fez toda a diligência para ver se podia subir de cima do cavalo ao muro, mas estava tão moído e quebrantado que nem apear-se pôde; e assim, em pé como estava sobre o cavalo, entrou a dizer tantas injúrias aos que jogavam com o pobre Sancho, e a desafiá-los por tal maneira, que não é possível explicá-lo. Mas nem por isso deixavam eles de continuar a rir e jogar o seu jogo, e o triste Sancho a voar e a queixar-se, já ameaçando, já pedindo que o deixassem; mas de nada lhe valiam seus ameaços e rogos [...].
[Fonte: Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha - Tomo I, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1794, pp. 212-213 (cap. XVII)]. 

Servindo-se assim deste episódio, George Cruickshank representa Napoleão, qual D. Quixote, do outro lado do muro (alusão aos Pirenéus), vendo o seu irmão José Bonaparte, qual Sancho Pança, a ser lançado para o ar pelos espanhóis, aos quais injuria e ameaça: Vis cobardes, como ousais tratar o meu escudeiro desse modo tão descortês? Sabei que se for desafiado a pular o muro, eu o farei; sim, o farei. Um dos espanhóis vira-se para Napoleão e replica-lhe: Não damos a mínima para vós ou para semelhantes vilões. Declara outro: Isto é por roubardes a estalagem e fugirdes sem pagardes a vossa conta. Do outro lado, diz uma freira: Um arremesso pelo nosso FernandoEm pleno ar, José perde a sua coroa e roga para acabarem com tal brincadeira: Ah! Misericórdia [pelo] Rei Zé [King Jo]este é um mau momento para brincadeiras [Jo-King]John Bull, ou melhor, Don Bull, é representado como o dono da estalagem, à porta da qual aparece exibindo uma gazeta com o título Rendição de Junot e incentivando os espanhóis: Essa é a vossa qualidade, meus camaradas, para cima com ele, minhas galinhas de caça! Urra! Eis mais navios, colónias e comércio, mas não para o irmão de Napoleão!!! 
Finalmente, repare-se que à esquerda da gravura encontra-se a sacola de Sanchocarregada de ouro e prata: trata-se de mais uma alusão à obra de Cervantes, o qual conclui este episódio com a fuga de Sancho deixando para trás os seus alforges, ficando o estalajadeiro em sua posse como forma de pagamento do que se lhe devia...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d, caricatura de Charles Williams (Agosto de 1808)






Em Outubro de 1806, Ansell (pseudónimo de Charles Williams) compôs a caricatura acima publicada, na qual dispunha dois grupos de figuras entretidas a jogar uma partida de quadrilha, antigo jogo de cartas a quatro mãos (curiosamente, de origem espanhola). À volta da mesa da esquerda aparecia Jorge III da Grã-Bretanha, Carlos IV da Espanha, Frederico III da Prússia e Alexandre I da Rússia, enquanto na noutra mesa estava Napoleão, Francisco I da Áustria, um burguês gordo representando a Holanda, e o Papa Pio VII, cuja tiara e cruz estavam no chão, sendo esta última pisada por Napoleão. Note-se que Carlos IV, com ar desconsolado, referia que tinha sido obrigado a jogar uma carta do naipe de espadas, já que fora traído pela sua rainha, embora acrescentasse que mesmo que tivesse perdido todos os seus dólares não podia abdicar dos seus Ases [Aires, literalmente em espanhol], em alusão à primeira invasão britânica a Buenos Aires.

Menos de dois anos depois, a irrupção da Espanha na luta anti-napoleónica levou o mesmo autor a publicar a sequela que apresentamos de seguida. Aparte do tom satírico, trata-se de uma interpretação brilhante - e em alguns casos profética - das consequências dos levantamentos populares espanhóis no cenário da política europeia:



Quadrilha política - O fim do jogo. (Gravura 2.ª)
Caricatura de Charles Williams, publicada em Agosto de 1808

Apesar da confusão ilustrada nesta segunda caricatura, os personagens encontram-se mais ou menos nos mesmos sítios que ocupavam na primeira, exceptuando Carlos IV, que desapareceu da sala de jogo (estando supostamente encarcerado por Napoleão), vendo-se apenas a sua cadeira, vazia, com o brasão da Espanha. Em compensação, aparece um novo personagem representando a Espanha, o qual parece que acaba de descobrir a batota que Napoleão estava a fazer, provocando em consequência um enorme tumulto. Agarrando Bonaparte pelo colarinho, faz-lhe a seguinte ameaça: Digo-vos que sois um canalha, e que se não restaurais o meu Rei, o qual roubastes da outra mesa, e que se não restabeleceis o Ás [alusão à carta e ao Papa, derrubado no chão], pela honra dum patriota espanhol, estrangular-vos-ei! Napoleão, apanhado de surpresa perante a irrupção deste espanhol, perdeu o chapéu e está numa posição bastante complicada, apenas com um pé no chão, podendo cair com um simples empurrão. Ainda assim, dá ao espanhol uma resposta que não convence: Não sejas tão turbulento, tomei-o emprestado apenas para completar o baralho [a quadrilha era jogada com 40 cartas]. Interrompidas ambas as partidas perante esta confusão, os restantes personagens observam atentamente a cena, fazendo alguns comentários. Jorge III da Grã-Bretanha, na extrema esquerda, levanta-se para observar a briga com o seu monóculo, e parece admirado: O quê! Mas que confusão, não? Melhor ainda. Bonaparte ficou com o pior do jogo, devo dar uma mão. Note-se que a sua posição é a mesma como foi representado por James Gillray na caricatura The Spanish Bull-Fight... (por sua vez inspirada numa outra intitulada The King of Brobdingnag and Gulliver, do mesmo Gillray), com a excepção que, em vez do tridente, Jorge III sustenta agora uma clava com a inscrição Heart of Oak (literalmente, Coração de Carvalho), nome da marcha oficial da marinha real britânica. O Imperador Alexandre da Rússia, sentado entre o monarca britânico e Napoleão, parece reavaliar a aliança que formara em Tilsit com este último: Agora é a hora de raspar a ferrugem de Tilsit. Frederico III da Prússia, talvez a maior vítima da dita aliança, levanta-se para ver a bulha, e parece determinado a tirar proveito da desordem: Se não aproveitar a oportunidade presente, serei realmente um bolo prussiano (já na primeira das caricaturas acima inseridas o mesmo monarca usava esta expressão, a qual voltara a ser utilizada pelo mesmo autor em 1807, na caricatura intitulada The Imperial embrace - on the- raft - or Boneys new drop). Francisco I da Áustria, atrás do espanhol, levanta-se também e agarra no seu chapéu e na sua espada: Ah! Ah! O jogo tomou um rumo diferente do que esperava, não devo ficar parado. O burguês holandês, na extrema direita da gravura, apesar de sentado, afirma que também chegou a sua hora de abandonar o jogo e de se levantar: Raios e trovões! Estou bastante farto do jogo. Uau, uau, agora  ​é tempo de me levantar. Abaixo deste último encontra-se o Papa Pio VII, derrubado no chão, em aparente alusão à ocupação napoleónica de Roma desde Fevereiro de 1808
Concluindo, note-se que o subtítulo desta caricatura (The Game Up) tanto pode significar o fim do jogo ou o jogo terminado, como o jogo exaltado/agitado/revoltoso, sendo que o termo up, no sentido de movimento ascendente, também alude aos "levantamentos" ilustrados na caricatura. Por outro lado, a expressão the game is up (ou the game's up), para além do seu sentido literal de o jogo terminou, também é usada na língua inglesa para se dar a entender a alguém que as suas actividades ou planos secretos estão ao descoberto, e que por isso não podem continuar: precisamente o sentido daquilo que o espanhol diz a Napoleão...


Outras digitalizações:

1. Political Quadrille (1806):
    b) British Museum.

2. Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d (1808):
    b) British Museum.


Spanish flies or Boney takeing an imoderate dose, caricatura atribuída a Charles Williams (Agosto de 1808)



Moscas-espanholas ou Boney tomando uma dose imoderada.
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Agosto de 1808.


Aludindo à retirada do exército francês de Madrid, esta caricatura representa um enxame enorme de moscas-espanholas (Lytta vesicatoria), que cobrindo o céu desde a capital da Espanha (à direita), persegue e provoca a debandada do exército francês pela passagem do caminho dos Pirenéus para Bayonne (à esquerda). Em primeiro plano, Napoleão, a cujos pés encontra-se (ao lado duma bandeira e de espadas destroçadas) um papel parcialmente rasgado, onde se pode ler Decretos da Junta em Bayonne e Joseph Bonaparte Rex Espagnol [sic], tenta livrar-se  destes insectos, que o envolvem e assediam. O seu esforço é infrutífero, pelo motivos que o próprio afirma: "Morbleu - quão fraco e tonto estou, estas moscas costumavam ter uma grande utilidade para mim, mas receio que este seu uso descuidado vai causar uma mortificação, a menos que Doutor Tall[e]y[and] possa aliviar-me". De facto, o subtítulo da caricatura revela que Napoleão foi imprudente em abusar dos espanhóis, representados aqui como insectos que eram utilizados como uma espécie de viagra da época, visto que "uma dose muito grande de Cantáridas, ou moscas espanholas, provoca desmaios, delírios, tonturas, loucura e morte. Vide [The NewDispensatory de Lewis". 



Pormenor 


Outras digitalizações:

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sancho alias Ioe Butt's entertainment on taking possession of his new Government!, caricatura de Isaac Cruikshank (30 de Agosto de 1808)




Distracções de Sancho, também conhecido por Zé Pipa, na tomada de posse do seu novo Governo!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 30 de Agosto de 1808.



Esta caricatura alude à tomada de posse do novo governo de José Bonaparte (que abdicara do trono de Nápoles para reger a Espanha, segundo a nomeação do seu irmão Napoleão), que, ao chegar a Madrid, no dia 20 de Julho de 1808, viu-se cercado por diversas províncias rebeladas. O governo de José não foi reconhecido na maior parte dessas províncias, que bloquearam Madrid à distância, impedindo o acesso a víveres que faltavam na capital. A manutenção do exército francês tornou-se rapidamente insustentável, e, ao tomar conhecimento da derrota de Dupont em Bailén, José Bonaparte viu-se obrigado a dar ordens, logo no dia 30 de Julho, para o seu exército evacuar Madrid. Significativamente, Isaac Cruikshank chama Sancho ao monarca, aludindo assim à tomada de posse do efémero governo da ínsula da Bataria por parte de Sancho Pança, o escudeiro realista e prático do idealista D. Quixote (que seguindo a analogia, seria Napoleão*). 
O título da caricatura diz ainda que Sancho tem um outro pseudónimo, Joe Butt, sendo que butt, entre outros, tem o significado de "pipa de vinho", referência à alcunha com que o monarca ficou conhecido na Espanha, Pepe Botella ("Zé Garrafa", em português). Este sentido é reforçado pela imagem que encima o trono de José Bonaparte, no meio de parras e cachos de uvas: um pequeno Baco, de taça e garrafa nas mãos, sentado precisamente sobre uma pipa. 
Sancho, ou Zé Pipa, está sentado no centro da mesa, de babete ao peito e de faca e garfo nas mãos, mas tem o prato vazio. Como não há cadeiras para todos, parece que os espanhóis que aparecem na sala não foram convidados para a refeição, e irromperam na cena somente para esvaziar a mesa do monarca. Um bispo retira do alcance de José um prato de "galo bravo das Astúrias", e, com o braço estendido ameaçadoramente em direcção ao monarca, diz-lhe: "Não toqueis - não proveis - vil usurpador - desaparecei - ide-vos embora - ou então provareis dez mil mortes em cada prato, tudo preparado para vós e para o vosso bando de assassinos sacrilégios". O prato de "galo bravo das Astúrias" é passado a um outro espanhol, em cujo chapéu está inscrito F[ernando] VII, o qual afirma: "Por Santander! Isto será suficiente para o rei Fernando, ele adora a cozinha asturiana". José Bonaparte, nitidamente irritado, vira-se para o Bispo e diz: "Oh Diabo! Dom Bispo, não me dais um pouco? Rogo que me deis algo"**
Aproveitando a distracção momentânea do monarca, o espanhol que está imediatamente à sua direita retira da mesa um prato de "ganso de Madrid", enquanto atrás deste vê-se um outro saindo com um prato de "bife de Lisboa", o qual, virando-se para trás, diz ao monarca: "Sim, canalha, dar-vos-ei algo: viestes aqui para roubar a Coroa de Fernando - agora dar-vos-ei uma coroa [moeda britânica] para comprardes um cabresto". À esquerda deste espanhol vêm-se outros a levar mais pratos: "pudim da Catalunha", "tartes da Extremadura", um prato não identificado da Biscaia e outro de Leão, e "nozes de Barcelona". 
À frente da mesa, entre outros três espanhóis que levam pratos de "sopa da Andaluzia", "laranjas de Sevilha", e "guisado de Burgos", está uma pilha de "saques para Paris", onde  se vê uma coroa, dois crucifixos, alfaias religiosas de ouro e prata e sacos com dólares. Em cima da mesa somente resta um galheteiro com "vinagre de Bayonne", um saleiro com "sal de Minorca", um prato com "presunto de Múrcia", e outro com um "caboz de Portugal", que está prestes a ser retirado pelo personagem que está atrás do Bispo. 

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Notas:

* A propósito da analogia entre D. Quixote e Napoleão (aqui aludida apenas indirectamente; ver a este propósito a caricatura A Spanish Joke!!!, publicada poucos dias depois), recordemos um trecho duma carta que o Imperador francês escreveu no dia 5 de Novembro de 1807 ao seu ministro da Guerra, mandando-lhe dizer a Junot (que então marchava em direcção a Portugal) o seguinte: "não entendo que, sob o pretexto de falta de víveres, a sua marcha seja retardada um dia; esta razão somente serve para homens que não querem fazer nada; 20.000 homens vivem em qualquer lugar, inclusive no deserto"... [Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 165 (n.º 13327)].


** Traduzimos por "não me dais um pouco" a expressão vont you give me von little bit, frase feita com que os ingleses (bem alimentados) gozavam com os franceses (que tinham a reputação de passar fome). Existem expressões semelhantes em diversas caricaturas, veja-se por exemplo: BM Satires 5790BM Satires 8650BM Satires 9996BM Satires 10597BM Satires 11579. Ver ainda a este respeito a caricatura que aqui introduzimos.

sábado, 27 de agosto de 2011

King Joe on his Spanish Donkey, caricatura de Thomas Rowlandson (27 de Agosto de 1808)




O Rei Zé montado no seu burro espanhol.
Caricatura de Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 27 de Agosto de 1808.



Nesta caricatura alusiva à retirada de José Bonaparte de Madrid, o novo monarca aparece montado sobre um burro espanhol indomável, de cujo ânus saem vários papéis, enrolados ou rasgados, onde estão escritas as seguintes frases: "Todos os que forem encontrados com armas serão fuzilados"; "Anjinhos para os prisioneiros"; "nenhuma liberdade para os espanhóis"; "Notícias francesas"; "O caminho para a fortuna"; "Proclamação"; "José Rei da Espanha"; "sem quartel"... Os coices do burro já fizeram saltar a sua carga - "um alforje para os espanhóis" -, e José, apesar de agarrar-se para não cair, deixa cair o seu ceptro e a sua coroa. Perante este comportamento do burro, afirma: "Que animal rebelde é este! Pensava que ele seria tão dócil quanto um pónei francês... e que seria domado tão facilmente quanto um galgo italiano".

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

The oven on fire - or Boneys last Batch entirly spoiled!!!, caricatura de Isaac Cruikshank (24 Agosto de 1808)




O forno em chamas - ou a última fornada de Boney completamente estragada!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 24 Agosto de 1808.


A fim de representar as dificuldades que Napoleão começou a sentir perante o alastramento das revoltas anti-francesas na Península Ibérica, Isaac Cruikshank concebeu uma espécie de sequela duma das caricaturas mais conhecidas de James Gillray, na qual o Imperador era representado como um padeiro a fazer fornadas de monarcas*. Contudo, dois anos e meio depois da primeira ter sido executada, o cenário alterou-se. Napoleão aparece agora vergado, de braços no ar, surpreendido pelas labaredas que irromperam do forno da Espanha e Portugal (este último nome mal se deixa ver devido ao fogo). Da boca do forno, também tapada pelas chamas, surge a expressão Um povo unido jamais pode ser conquistado, enquanto nas labaredas aparecem outras inscrições, a saber (no sentido dos ponteiros do relógio): Legiões das Astúrias, Exército de Portugal, Biscaia, Exército catalão, Exército da Galiza, Exército andaluz, Exército de Castela Velha e Nova, Exército e frota britânicaExército da Extremadura, Leão, Exército de ValenciaMúrciaExército de Granada. Perante estas chamas, Napoleão largou a pá com a qual queria meter o seu irmão José Bonaparte dentro do forno. Desequilibrado e prestes a cair como já caiu o seu ceptro, José grita ao seu irmão: "Oh Nap, Nap! O que é isto! Em vez de me tornardes um Rei, apenas me enganastes"**. Significativamente, também já caída sobre o chão debaixo de José, encontra-se uma pá em cujo cabo está inscrito o nome do General francês DupontNapoleão, que usa um avental de padeiro por cima do seu uniforme militar, bem como um chapéu bicorne exageradamente grande, exclama: "Raios, serei dominado por estas malditas chamas patrióticas; pensava que não restava uma única, mas acho que há ali mais chamas do que as que podem ser extintas por todos os meios da França". 
Na direita da imagem aparece Tayllerand, representado como assistente de padeiro, de mangas arregaçadas e avental. Observando o cenário, declara ironicamente a Napoleão: "Ai Ai! Eu disse-vos que queimaríeis os dedos nessa fornada de bolo de gengibre. Mas não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um carcereiro, por isso toda a minha glória chegou ao fim". Tayllerand está encostado a um móvel que ostenta a inscrição Prisão do Estado, sobre o qual aparecem as cabeças de Carlos IV, da sua esposa, de Fernando VII e seus irmãos***

Outras digitalizações:

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

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Notas: 

* Aludimos à caricatura intitulada Tiddy-Doll, the great French-Gingerbread-Baker; drawing out a new Batch of Kings, publicada originalmente a 28 de Janeiro de 1806:



** " [...] Instead of a King you've only made me a Dup - ont", no original. Trata-se de um trocadilho difícil de traduzir, entre o nome do General Dupont (que fora derrotado na batalha de Bailén), e a palavra inglesa dupe, sinónimo dos termos "ingénuo", "crédulo", "incauto" (e por extensão, "otário", "tolo", "parvo"), e dos verbos "enganar, ludibriar, lograr, iludir", sendo que a expressão be the dupe of someone significa "deixar-se enganar por alguém", enquanto que make a dupe of someone, tem o sentido de "trapacear ou enganar alguém".

*** O autor da caricatura alude ao facto de Fernando VII, o seu irmão D. Carlos, o seu tio D. António e diversas outras personalidades da alta nobreza e do alto clero espanhol terem ido viver, depois das chamadas abdicações de Bayona (e durante os 5 anos seguintes), para o Château de Valençay, propriedade do próprio Tayllerand. (Carlos IV e a sua esposa, por outro lado, foram primeiro para Compiègne, depois para Marselha, e finalmente para a Itália, acabando ambos por morrer em Roma, com poucos dias de diferença, em Janeiro de 1819). 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Almirante Cotton à Junta de Sines (22 de Agosto de 1808)


A bordo da nau de Sua Majestade Britânica a Hibernia, fora da barra do Tejo, 22 de Agosto de 1808.


Meus Senhores:

Tenho a honra de reconhecer o recebimento da sua carta com data de 16 do corrente, pedindo-me que deixasse a fragata Comus para guardar a costa de Sines. O Capitão Smith, Comandante da dita fragata, é despachado agora por mim expressamente para informar a Vossas Excelências das várias causas que motivam a sua retirada por breve tempo daquele serviço, em que tem sido tanto tempo, e tão bem empregado, a principal das quais causas é ajudar efectivamente a bloquear o Tejo e impedir que o comum inimigo já quase reduzido à última extremidade, não escape com os tesouros que tem roubado neste país; para efeito de semelhante serviço, pequenas fragatas, da natureza da Comus, são da primeira utilidade.
Além disso, tenho bem fundadas esperanças que nada tem que temer semelhante à horrível calamidade que Vossas Excelências dizem ter acontecido em Évora, pois que toda a força do inimigo está actualmente dirigida contra o exército britânico ao norte do Tejo.
O Capitão Smith os informará duma gloriosa batalha dada em Roliça entre os franceses e ingleses, auxiliados estes pelos portugueses, aos 17 do corrente, no qual a divisão do General Delaborde ficou totalmente destroçada, como também da derrota do General Junot no dia 21 seguinte. Tenho esperado com ansiosa expectação ouvir que os leais habitantes das vilas e lugares se têm unido aos de Sines e se têm aproximado a Setúbal, aonde entendo que ficam poucos ou nenhuns franceses, e onde está ancorado um navio de guerra para cooperar com os valorosos sujeitos que determinam esforçar-se para manter a sua independência, ou mesmo a sua existência.
Parece-me supérfluo repetir a Vossas Excelências que, para serem bem sucedidos, é preciso que sejam unânimes, nem intimidados por ameaços, nem seduzidos com promessas, e que a cordial e enérgica cooperação de todos os estados [=classes sociais] é necessária para sustentar uma causa tão grande e gloriosa qual é a em que todo o verdadeiro e leal português está actualmente empenhado.
Tenho a honra de ser, etc.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 46-47].

domingo, 21 de agosto de 2011

King Joes Reception at Madrid, caricatura de Thomas Rowlandson (21 de Agosto de 1808)




A recepção do Rei Zé em Madrid.
Caricatura de Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 21 de Agosto de 1808.


No centro, José Bonaparte, recém-coroado rei da Espanha, vira-se em atitude suplicante para a esquerda, onde estão dois espanhóis e duas espanholas, aos quais declara: "Muito obrigado por esta gentil e lisonjeadora recepção. Contemplai o irmão do grande Napoleão que veio para reinar sobre vós pelos vossos bens". Virado de costas para José, o espanhol que ostenta uma espada longa comenta ao que porta uma adaga, a propósito da declaração do monarca: "Sim camarada, e sobre os nossos bens imóveis também, se penso correctamente". Na extrema esquerda da imagem, uma espanhola, que segura um punhal, diz à outra: "Fizeram-no estudar para advogado e em breve iremos expulsá-lo da Espanha". A outra espanhola responde-lhe que "apesar de ser uma mulher, estou determinada a resistir". No lado direito, atrás de José, um oficial francês segura uma bandeira com a inscrição Vive le Roi [sic], e exclama com raiva: "Será que ninguém grita Viva, será que ninguém repica os sinos? Se não fazeis barulho caíreis todos pela Baioneta Real". A multidão que está atrás de si, armada com chuços e alabardas, responde então com o grito "Viva o Rei, Urra!".


Outras digitalizações: 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Auto da Câmara de Abrantes, por ocasião da restauração da dita vila (17 de Agosto de 1808)



Ano do nascimento do nosso Senhor Jesus  Cristo de 1808, aos 17 dias do mês de Agosto do sobredito ano, nesta notável vila de Abrantes e casas da Câmara, onde se achava em auto de Câmara o Juiz pela Ordenação o Capitão mor Álvaro Soares de Castro e Ataíde, e os Vereadores José, Francisco Xavier Burgueta de Oliveira, e os Oficiais da Câmara, todos abaixo assinados, e Procurador da mesma, aí com o povo e nobreza desta vila e o clero, em presença de todos compareceu Manuel de Castro Correia de Lacerda, natural de Monforte de Rio Livre, Capitão de cavalaria novamente organizada em Coimbra, e depois de ter entrado à testa de 80 homens de caçadores paisanos das companhias de Salvaterra e Monsanto, e alguns homens armados de chuços do termo da Cortiçada, se dirigiu pelas seis horas da manhã deste dia a expulsar a tropa francesa que se achava nesta vila de guarnição, e depois de dirigir o ataque e haver um aturado fogo de parte a parte, pelas nove horas e meia se achavam cento e doze prisioneiros franceses, que se tinham fortificado no castelo, e mais de cinquenta mortos e alguns feridos, acontecendo pelas sábias disposições do dito Capitão comandante e [pelo] valor dos oficiais e soldados que atacaram não haver um só morto nem ferido dos portugueses, cuja heróica acção, para que fique de eterna memória, se mandou lavrar este auto, em que se deve acrescentar que o mesmo Capitão comandante enviou destacamentos de ordenanças para as bordas do Tejo, para aprisionar os fugitivos, e que naquele mesmo rio foram apresados dois barcos de trigo, seis fardos de roupa e a botica, assim como muitas armas e toda a cavalaria que aqui tinham, cuja soma era de quarenta e tantos cavalos, que logo depois da acção se dirigiu a casa do Corregedor mor, acompanhado do escrivão da mesma vila e de outros oficiais de ordenanças, onde se apreendeu toda a secretaria e correspondência com o Governo francês, e até os planos da guerra actual; mandando depois disto pôr travessas nas portas, para se fazer sequestro, quando o tempo o permitisse, reconhecendo todos a supremacia da Suprema Junta do Porto. E logo pelos Vereadores e [de]mais oficiais, e pela nobreza e povo desta mesma vila se deram os agradecimentos a ele, dito comandante, de tão heróica acção de os livrar com tanto valor, e prudência da escravidão em que o Governo francês tinha posto esta vila, e passaram eles Vereadores a mandar descobrir as armas e içar a bandeira de Sua Alteza Real com muitos vivas e repiques de sinos, para mostrarem quanto era do gosto de todos sues habitantes o estarem restituídos à sua antiga liberdade e a um Governo do seu antigo e amado Soberano D. João, Príncipe do Brasil, legítimo Soberano do Reino de Portugal e seus domínios; porque suposto que ausente, sempre os moradores desta vila em seus corações lhe guardaram fidelidade e amor, suspirando que se achasse o tempo de poderem respirar e declararem-se, como agora fazem; e concluíram e determinaram que por este auto haviam por aniquilados e por nulos e sem efeito todos os decretos, decisões e determinações emanadas do Governo francês, quaisquer que eles fossem, e quaisquer que fossem as autoridades donde venham, pois não queriam que desde hoje em diante tivessem vigor, e determinaram finalmente que hoje de tarde se corresse ao Altíssimo a ir prestar-lhe graças por um benefício tão inesperado, que acabavam de receber da sua Mão Omnipotente. E por haverem assim ordenado, mandaram fazer este auto, que todos assinaram com o referido comandante, e eu Anastácio José Libano de Araújo, escrivão da Câmara, o escrevi.


[seguiam-se as assinaturas do Comandante, Câmara, clero, nobreza e povo].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 105-108].

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Discurso de Sebastião Martins Mestre às tropas do Exército do Sul (15 de Agosto de 1808)




Companheiros, amigos e camaradas (ditoso o que merece este nome):
Já não vamos a proteger Évora (como nos tinham ordenado). Eu que tenho a honra de ser vosso chefe e companheiro, acabo de receber ordem da Junta Suprema de Beja e do nosso Marechal de Campo José Lopes de Sousa para retroceder a nossa marcha, para ir atacar o inimigo que se acha na vila de Alcácer do Sal debaixo das ordens do General Kellermann, para saquear e incendiar esta vila, e depois passar aos mais povos da província. 
Vós, meus Soldados, não me negareis que, debaixo das ordens do nosso Marechal de campo José Lopes de Sousa, eu, com um punhado de pescadores, fizemos abater o orgulho da Legião do Meio-dia, no lugar de Olhão, tanto na abordagem que lhe demos no mar no dia 17 de Junho, como na tarde do mesmo dia na ponte de Quelfes*; para cada um destes pescadores o inimigo tinha dez vencedores do Marengo, Jena e Friedland, contudo o que não foi morto foi posto em fuga ou [feito] prisioneiro. Vós sois igualmente Algarvios, sois Soldados Generosos que sem mais auxílio do que o vosso valor fizestes afugentar do Algarve o inimigo, e com o mesmo valor e inexplicável generosidade vos oferecestes voluntários para defender a província do Alentejo, e a mesma capital de Lisboa. Pois companheiros, amigos e Irmãos, estes que vamos combater e vencer são os mesmos cobardes que nos fugiram do Algarve. É verdade que os vereis vestidos de Tigres, mas é porque estão salpicados com o sangue dos inocentes e impossibilitados moradores de Beja e Évora, de cuja maldade, se não tomarmos vingança, aquelas mesmas vítimas inocentes, se as não vingais no sepulcro, os seus ossos rechaçarão os nossos com desprezos, estas honradas palavras não vo-las digo como vosso chefe, se não como um Soldado, como um vosso companheiro que aspira a conduzir-vos à glória: ver-me-eis entrar por entre os inimigos desprezando as suas baionetas, e comendo a morte aos bocados.
Aguiar, 15 de Agosto de 1808, à uma hora da tarde.

Sebastião Martins Mestre, Tenente-Coronel.
Comandante

[Fonte: Continuação da narração dos acontecimentos que occorrerão na vanguarda do Exercito do Algarve comandada pelo Tenente Coronel Sebastião Martins Mestre, apud Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 329-334, pp. 330-331 (Doc. 6)].

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Notas:

Este discurso foi pronunciado na vila de Aguiar (actualmente pertencente a Viana do Alentejo), precisamente antes do chamado Exército do Sul rumar a Alcácer do Sal. Sebastião Martins Mestre, um dos comandantes do dito exército, incentivava os seus soldados com o exemplo dos confrontos que, com escassos meios, venceu em Olhão. Pelos seus feitos desde que tinha começado a rebelião algarvia, a Junta Governativa de Beja tinha-o entretanto condecorando com a patente de Tenente-Coronel (e a José Lopes de Sousa com a referida patente de Marechal de Campo). 


* Sebastião Martins Mestre, ou a pessoa que fixou o texto, equivocou-se quando assentou que os dois citados confrontos ocorreram no dia 17 de Junho, quando os mesmos se passaram na verdade no dia 18 de Junho de 1808, como se poderá confirmar nas fontes sobre a restauração do Algarve principiada em Olhão.

domingo, 14 de agosto de 2011

Carta do Juiz Vereador do Alandroal para Lagarde, sobre o restabelecimento da tranquilidade naquela zona do Alentejo (14 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conselheiro do Governo e Intendente Geral da Polícia do Reino: 

Recebi seis ofícios de V.ª Ex.ª com algumas gazetas dos acontecimentos e notícias de Portugal e da Espanha, que tudo se achava demorado nos correios por causa da revolta do Alentejo. 
Agora não tenho a noticiar a V.ª Ex.ª senão que depois do acontecimento e exemplo da cidade de Évora estamos restituídos ao antigo sossego. 
Deus Guarde a V.ª Ex.ª 
Alandroal, 14 de Agosto de 1808 

O Juiz Vereador José António Paiva[?] 

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 175, doc. 32].

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta do General Dumouriez a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico (8 de Agosto de 1808)




Broadstairs, Kent, 8 de Agosto de 1808


Meu Senhor:

Os patriotas provam as desgraças que eu tinha previsto e predito, porque fazem a guerra sem um plano geral e sem conjunção. Lamentar-se-ão ainda mais dos seus defeitos consideráveis antes de se corrigirem. Mas como o sul continuará livre, conservando-se a comunicação entre a Andaluzia e a Galiza através de Portugal, a residência do Rei José em Madrid será bastante precária, e mais de metade da Espanha continuará por conquistar, o que não se pode fazer numa só campanha.
A sorte da Espanha, e por consequência a nossa e a da Europa, depende portanto da conduta dos ingleses em Portugal. É lá que eles se devem concentrar, unindo-se aos portugueses, e organizando-os em corpos, para formarem um exército de 70 a 80.000 homens. Com uma força destas, Portugal não só ficará impenetrável, como também não será atacado, podendo este exército avançar para a guerra ofensiva na Extremadura e em Castela, combinando os seus movimentos com os do General Castaños pela direita, e com os do General Blake pela esquerda. 
Os aragoneses, os catalães e os valencianos serão provavelmente batidos, mas se forem obrigados a abandonar as planícies do belo reino de Valença, retirar-se-ão seguramente para a cadeia de montanhas de Alpujarras, que cobre Múrcia e Granada, e que está ligada à Sierra Morena. 
A reunião das tropas nesta posição estará sustentada pela sua esquerda à direita do exército do Andaluzia, por sua vez apoiado pela sua esquerda pelo exército anglo-português, e este pelo da Galiza. O Rei José ficará bastante embaraçado por ter esta posição à sua volta. Faltar-lhe-ão víveres, e como não tem mar à sua volta, será obrigado a mandar vir qualquer tipo de assistência às costas de mulas, através dos Pirenéus, que serão obstruídos pelo inverno e pelos Miquelets no final de Outubro, e então, quanto maior for o seu exército, maior será a sua ruína.
Mas para que tudo isto se realize, como será indubitável se a guerra for feita sobre um plano geral bem entendido, é necessário:
1.º Que o vosso exército chegue a Portugal inteiro, e tenha o número de 40.000 homens, dos quais pelo menos um quinto deve pertencer à cavalaria;
2.º Que o exército seja comandado por qualquer General em Chefe que se disponha a cooperar de acordo com o plano geral, e a modificar apenas meros detalhes, se as circunstâncias o exigirem;
3.º Que este plano geral seja adoptado pela Junta Geral, comunicado às diferentes Juntas das diversas províncias, e em seguida aos respectivos Comandantes dos diversos exércitos;
4.º Que o Ministério inglês tenha perto da Junta Geral em Sevilha um General hábil e duma qualificação superior, que esteja ao corrente deste plano, e que o possa dirigir em todas as partes, mudando os detalhes segundo as circunstâncias – que este General seja agradável aos espanhóis, e, se possível, escolhido por eles, de acordo com a indicação do Ministério inglês. Ele não deverá enviar em seu nome instruções ou ordens aos Generais dos diferentes exércitos, para evitar ressentimentos, sobretudo do General ou dos Generais ingleses. A própria Junta não deverá enviar instruções ou ordens ao exército inglês, mas somente a comunicação do plano geral e as alterações que as circunstâncias obriguem a se fazer, segundo o seu maior ou menor progresso, para que o exército inglês possa combinar os seus movimentos o mais regularmente possível dentro do plano geral.
Eis como concebo a conduta desta guerra, antes mesmo dela começar. Consequentemente, meu Senhor, enviei-vos um plano geral para o Conselho, bem como para a Junta Geral. A minha experiência leva-me a crer que ele é bom porque está modelado sobre aquele que já conhecia e que executei na França em 1792. Ele tem pelo menos o mérito de ser o único. Talvez seja seguido, ou talvez não; mas fico com a satisfação de ter cumprido o meu dever, ou até ultrapassado-o. Se o Conselho aprovar a minha conduta ou as minhas ideias, testemunhar-me-eis na vossa resposta.
Tenho a honra de ser com respeito, etc.,

General Dumouriez


[Fonte:Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 396-398]. 

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Nota:

Charles François Dumouriez, que ao lado da carreira militar desempenhara também o papel de agente secreto de Luís XV da França, viria mais tarde a aderir aos ideais da revolução francesa, tendo participado com distinção em várias das suas primeiras campanhas, e tendo sido inclusive (ainda que brevemente) ministro dos negócios estrangeiros e da guerra dos primeiros governos revolucionários. Contudo, pouco depois de Luís XVI ter sido executado pelos jacobinos, Dumouriez acabou por desertar e abandonar a França, e depois de ter passado por vários países, acabou em 1804 por se instalar definitivamente na Inglaterra, como tantos outros realistas defensores do futuro Luís XVIII. Neste país, a troco de uma abastada pensão, serviu secretamente como conselheiro valioso da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra do Governo britânico, na sua luta contra Napoleão. 
Curiosamente, entre muitas outras, Dumouriez mandou publicar a seguinte obra, composta segundo as impressões que teve quando veio a Portugal em 1766, na qualidade de agente secreto: État présent du royaume de Portugal, en l'année MDCCLXVI, Lausanne, Chez François Grasset & Comp., 1775 (duas décadas mais tarde, esta edição foi revista, corrigida e consideravelmente aumentada, tendo sido publicada em 1797, em Hamburgo, sendo igualmente traduzida e publicada em Londres no mesmo ano). É também da sua autoria uma obra intitulada Juizo sobre Bonaparte dirigido pelo General Dumouriez a' Nação Franceza e a' Europa [sic], sobre as alterações provocadas por Napoleão na Europa, em 1807, que foi publicada em Lisboa, pela Impressão Régia, no ano seguinte, certamente depois dos franceses se retirarem do país.

sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (6 de Agosto de 1808)



Lisboa, 6 de Agosto 


Não há coisa mais adequada para ilustrar os portugueses rebeldes sobre os resultados da sua monstruosa associação com os rebeldes espanhóis, que o medo com que estes se houveram em Évora.
Já os tratavam os espanhóis como futuros Vassalos, pois que a bandeira e a divisa de Fernando VII é que tremulava sobre as muralhas daquela cidade; os portugueses não estavam nisso mais que pelo sangue que vertiam a favor de senhores, logo ao princípio arrogantes; e que, depois de terem entrado na contenda, e me breve previsto o seu funesto êxito, fugiram a tempo com o seu Chefe Moretti; e não cuidaram mais que em salvar, à custa de seus supostos aliados, uma parte das suas tropas e algumas das suas peças de artilharia. Esta lição aproveitou à vila de Estremoz, de que tanto se blasonava há alguns dias como Quartel-General dos espanhóis e centro do pretendido governo! Os habitantes de Estremoz conheceram que não tinham outro recurso senão na clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe; e eles a invocaram por meio do Senhor General Loison, Conde do Império.
Portanto, a sua vila fica em sossego, restituída ao dever e à submissão; e a 2 deste mês passaram por ali, como por uma terra amiga, as nossas tropas, encaminhando-se na maior rapidez a outras vitórias.
Em Montemor[-o-Novo], os espanhóis é que, ao retirar-se, deram saque aos próprios habitantes, de quem não tinham recebido ofensa alguma. Em Arraiolos, cujos moradores ficaram sossegados, cometeram eles excessos quase semelhantes; e na própria cidade de Évora se deliberaram a outros muito mais atrozes, pois que espingardeavam eles mesmos os que não obedeciam aos seus caprichos.
No dia depois da batalha, se acharam cem dos ditos espanhóis escondidos em subterrâneos, e foram tratados como o mereciam.
O General Loison, por dar uma prova da consideração do Governo ao Clero, quando este procede bem e segue os princípios de paz do Evangelho, confiou a principal autoridade de Évora ao Senhor Arcebispo [Frei Manuel do Cenáculo], um dos Prelados os mais sábios e os mais distintos do Reino; e igualmente nomeou um Pároco em qualidade de Corregedor.

Para aperfeiçoar cada vez mais as nossas tropas em todo o género de exercícios militares em que tanto sobressaem já, ordenou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que houvesse exercícios de fogo que se executam, [desde] há vários dias a esta parte, no Campo de Ourique, à vista do Senhor General Delaborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno.
O dito espectáculo fez acudir um muito grande número de curiosos; Sua Excelência o General em Chefe o tem também honrado com a sua presença; e pessoalmente anunciou às tropas assim reunidas a nova que acabava de receber da vitória de Évora.

As folhas que aparecem em algumas das cidades rebeldes de Espanha estão cheias de imposturas, que um dos seus correspondentes se viu obrigado a escrever-lhes para convidá-las a que também inserissem nelas algumas verdades, a fim de que a multidão não percebesse tão depressa que se zombava dela; e que a iludiam para sacrificá-la e vendê-la em breve. Portanto, a vão dispondo pouco a pouco para saber que não está longe o instante em que será preciso depor as armas diante das colunas francesas que se avançam, e implorar a clemência do Rei legítimo, José Napoleão, cujo coração, tão cheio de bondade, não ficará fechado ao arrependimento daqueles que o tiverem momentaneamente desconhecido.
Vê-se, por exemplo, segundo as próprias folhas espanholas, que as tropas francesas chegam sucessivamente, e em grande número, ao norte da Espanha, pois que aqueles diários são constrangidos a reconhecer positivamente, em data de 6 de Julho, que a tomada de Santader pelas sobreditas tropas é indubitável; que há naquela cidade e em Torrelavega mais de 8 mil homens, que ameaçam as Astúrias; e que, a 25 daquele mês, deviam achar-se em Oviedo. O Bispo inutilmente se pôs na frente dos rebeldes; mais acostumado a dizer missa do que a dirigir tropas, conduziu as suas por uma parte diametralmente oposta àquela por onde se avançava o exército francês. 
Outro corpo se apoderou de Valladolid; e como achasse naquela cidade uma resistência criminosa, a puniu, como nós punimos Évora, e como parece que o General Dupont, pouco antes, tratara Córdoba, igualmente criminosa.
O Senhor Marechal Moncey, à testa de 12.000 homens de infantaria e duma quantidade proporcionada de cavalaria, se achava, a 2 de Julho, em Cuenca, e marchava sobre Valencia para atacar aquela cidade, e vingar a matança de 240 franceses, que ali se achavam estabelecidos havia muito tempo, e que foram indignamente assassinados por uma multidão furibunda, à voz de um cónego de Santo Isidoro de Madrid, por nome Baltasar Calvo; os próprios cúmplices daquele monstro, espantados dos seus crimes, acabaram por lançá-los ao mar. Na cidadela onde eles se achavam detidos é que um Sacerdote fizera tirar a vida àqueles infelizes!
O General Dupont, a quem as mesmas folhas espanholas, depois de o terem dado por morto, são obrigadas a fazer reviver, segundo elas dizem, se achava ainda a 15 de Julho nas margens do Guadalquivir, para a parte de Andújar; e uma prova de não ter ele padecido revés algum é que nessa época se esperava que houvesse uma importante batalha entre eles e os rebeldes, capitaneados por mrs. Coupigny e Reding.
Os rebeldes de Badajoz vão a achar-se em breve desconcertados, pelo muito que confiavam numa aliança que pretendiam ter feito com a província do Alentejo, representada por alguns facciosos de Évora que tinham prometido morrer por eles, e que talvez haverão estimado mais viver e fugir.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].