Mostrar mensagens com a etiqueta Primeira invasão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Primeira invasão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (7 de Setembro de 1808)



Pela carta que acabo de receber do General em Chefe [Dalrymple], cuja cópia remeto, conheço a razão pela qual Vossa Excelência julga poder dispensar-se de comunicar[-me] as suas intenções e as suas ordens sobre este Exército e comissão de que me acho encarregado; não creio que com este método possa aproveitar o serviço, mas creia Vossa Excelência que enquanto eu me conservar no emprego que ocupo, hei de continuar a proceder como entender a minha honra e [como] a minha consciência pede, desprezando toda a intriga, e tudo o que for pessoal. Receber eu as ordens de Vossa Excelência para nomeação dos oficiais que comando pelo canal do General inglês, cuja superioridade não devo reconhecer, é militarmente um caso inteiramente novo, e que nunca pode ter lembrado como possível; contudo existe, e é de Vossa Excelência para mim que sucede.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Quartel-General de Mafra, 7 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 47 (doc. 89)].

Ordem do dia do Exército francês em Portugal (7 de Setembro de 1808)



Ordem geral do Exército, n.º 67




No Quartel-General em Lisboa, 7 de Setembro de 1808.



O Senhor Duque de Abrantes recomenda de novo a execução estrita da ordem geral do Exército do dia 6 deste mês, n.º 66
Consequentemente, ele ordena aos Senhores Oficiais superiores para observarem que não se embarque nada que provenha de qualquer Casa Real e que seja alheio às bagagens do corpo.
Sua Excelência avisa o Exército que aquele que infrinja a presente ordem será destituído provisoriamente por ter violado os artigos do Tratado de evacuação e prestará contas a Sua Majestade o Imperador.
Esta ordem será lida duas vezes pelo chefe das Companhias.


O General em Chefe do Estado-Maior-General,
Thiébault


Lista dos nomes dos indivíduos não combatentes do Exército francês aprisionados em Portugal (c. 7 de Setembro de 1808)



Carta do General Kellermann ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (7 de Setembro de 1808)




Lisboa, 7 de Setembro de 1808.



Senhores: 


Tenho a honra de remeter-vos a relação nominativa dos franceses não combatentes que fazem parte do Exército francês em Portugal, os quais, segundo os termos dos artigos adicionais à Convenção de 30 de Agosto, devem ser restituídos sem troca. Convido-vos a dar as ordens para que eles sejam postos em liberdade.
Tenho a honra de vos saudar, etc., 


O General de divisão,
Kellermann, Comissário, etc.


Carta do General Murray ao General do Exército Português (7 de Setembro de 1808)





No campo em S. Marcos [a sul do Cacém], 7 de Setembro de 1808.




Acabo de receber a carta para o sr. [D. Domingos António] de Sousa [Coutinho]*, e Vossa Excelência pode contar que ela será enviada pelo primeiro correio que se destinará à Inglaterra; dou-vos mil graças, meu General, pela confiança por me haverdes informado do seu conteúdo.
O Oficial a quem haveis tido a bondade de emprestar um cavalo acaba de me escrever que o enviou de volta ontem de manhã, que apenas o tinha retido porque não tinha ninguém para confiá-lo, e esperava que os dois Exércitos [português e britânico] se juntassem; acrescenta que a sela rompeu-se na primeira vez que a montou, e que queria repará-la antes do seu regresso; ele tem vergonha de o ter retido tanto tempo e pede mil desculpas, e espera que estas razões serão suficientes para que Vossa Excelência o desculpe. 
Deu-me bastante prazer saber que Vossa Excelência recebeu explicações do General Dalrymple sobre o Tratado, as quais vos tranquilizaram.
Vossa Excelência pode convencer-se que as intenções do General eram boas, e ademais sei que as ordens do nosso Governo são as mais positivas ao considerar como seu primeiro objecto a honra e os interesses do Príncipe e de Portugal. Aqui entre nós, estou convencido que a vontade que o General tinha de que o nosso Exército estivesse livre para agir noutro lugar foi um dos motivos mais poderosos que o levaram a apressar a conclusão do Tratado.
Provavelmente, meu General, tereis a resposta do vosso ofício de ontem durante o dia de hoje.
Como os corpos debaixo das minhas ordens estão actualmente [dispostos] em linha, fui encarregado de vos agradecer e devolver ao vosso Quartel-General os Dragões que estão comigo. Reenvio quatro, mas se Vossa Excelência o permitir, reterei ainda seis durante alguns dias, a fim de vos enviar as cartas destinadas a Vossa Excelência que me possam ser remetidas.
Disseram-me que os franceses pediram transportes para 27.000 pessoas. Não serve de nada iludir-nos, e parece que a sua força é muito maior do que pensávamos. 
Tenho a honra de ser, com a maior consideração, o criado mais humilde e obrigado de Vossa Excelência,

Murray


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 47-48 (doc. 90)].

_______________________________________________________________


Nota:

* Apesar da aludida carta não se encontrar publicada (ao que nos conste), julgamos que a mesma deveria incluir o protesto que Bernardim Freire de Andrade escreveu contra a Convenção depois chamada de Sintra e/ou a memória do mesmo general sobre o mesmo assunto.

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (7 de Setembro de 1808)





Quartel-General, Oeiras, 7 de Setembro de 1808.


Senhor:

Até hoje não tive o poder de responder àquela parte da carta de Vossa Excelência do passado dia 4, relativamente ao nosso encontro; contudo, se Vossa Excelência o aprovar, ficarei contente em ter uma conferência convosco aqui amanhã.
Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Dalrymple

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 113). Existe uma outra transcrição do original inglês, juntamente com a respectiva tradução em português, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 48-49 (doc. 91)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (7 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

A carta que venho de receber pelo meu Ajudante de Ordens, em que Vossa Excelência responde aos meus ofícios de 3, não só pede que eu acuse a recepção, mas exigem também que eu signifique a Vossa Excelência a grande satisfação que me resulta do seu conteúdo, com o qual me prometo um feliz e pronto êxito da empresa que intentamos. Estes sentimentos de consideração por Vossa Excelência irei pessoalmente protestar-lhe com brevidade; e então poderemos conferir sobre os assuntos que Vossa Excelência julgar a propósito de tratar, devendo entretanto persuadir-se de que sou com o maior respeito sou de Vossa Excelência, etc.
Quartel-General de Mafra, 7 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 49 (doc. 92). Originalmente, este documento foi publicado em inglês, in  Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 208 (doc. 110)].

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (7 de Setembro de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Já Vossa Excelência terá recebido a resposta da Junta do Governo Supremo ao seu ofício de dois do corrente, assim como a que lhe enviei respeitante ao outro ofício precedente de Vossa Excelência; respondendo agora ao que Vossa Excelência me dirigiu em data de 4 deste mês, com a cópia da carta do General Dalrymple, dos Artigos da Capitulação convencionada entre o mesmo General e o do Exército francês, e [das] protestações feitas por Vossa Excelência contra os ditos artigos na parte em que são ofensivos aos Direitos do Príncipe Regente Nosso Senhor e aos Interesses da Nação, tenho para dizer a Vossa Excelência que sendo tudo proposto por mim na Junta do Governo Supremo, e nela maduramente ponderado, se assentou que Vossa Excelência tinha obrado com muito acerto a respeito das referidas protestações, as quais portanto a mesma Junta aprovou [e] ratificou, tomando o expediente de as dirigir ao Ministro Plenipotenciário do mesmo Senhor na Corte de Londres*, para requerer com elas ante Sua Majestade Britânica o que for conveniente ao serviço do mesmo Senhor. Sobre o mais que Vossa Excelência refere na sua carta, pareceu à mesma Junta conveniente que Vossa Excelência em conferência com o General inglês procure logo ajustar-se com ele a respeito da parte que Vossa Excelência deve ter na entrada e ocupação de Lisboa, como também sobre a posição e comportamento tanto do Exército do seu comando, como de todas as mais tropas portuguesas que se acham empregadas em qualquer parte deste Reino, e principalmente dos que estão no bloqueio de Almeida; e que acomodando-se ao que convencionar com ele, assim o faça observar pelas tropas do seu comando, e expressa na mesma conformidade os ofícios necessários aos Governadores da Beira, Alentejo, Reino do Algarve, dirigindo-lhes juntamente as ordens da Junta do Governo Supremo que com esta [carta] se remetem a Vossa Excelência, para os ditos Generais haverem de cumprir os ditos ofícios. Também previno a Vossa Excelência que na madrugada do dia de amanhã parte desta cidade um Deputado da Junta Suprema munido dos poderes e instruções necessárias para conferenciar com o dito General inglês sobre os negócios da maior importância para o serviço do Príncipe Regente Nosso Senhor e [para o] sossego público, e particularmente acerca do restabelecimento do Governo; ao qual Deputado sendo preciso Vossa Excelência prestará os auxílios que por ele lhe forem requeridos. Ultimamente, recomendo a Vossa Excelência que a respeito da Capitulação e [do] procedimento dos ingleses, faça toda a diligência por mostrar a maior satisfação, e influir esta mesma em todo o Exército do seu comando.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Porto, 7 de Setembro de 1808.


Bispo Presidente Governador


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 46-47 (doc. 88)].


_____________________________________________________________

Nota: 

* Não nos consta que esteja publicado o aludido ofício dirigido a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres, a não ser que se trate da própria resolução pronunciada pela Junta do Porto no mesmo dia 7 de Setembro.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (6 de Setembro de 1808)




Quartel-General de Mafra, 6 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Ontem, pelas 10 horas da noite, recebi a carta de Vossa Excelência do 1.º do corrente, em que Vossa Excelência se faz cargo de haver recebido as minhas participações acerca do Armistício estipulado em 22 [de Agosto], e é esta a primeira carta que de Vossa Excelência ou do Governo tenho recebido há 20 dias, quando parece que os negócios mais instam, e que eu mesmo insto por instruções e respostas aos meus repetidos ofícios; vendo-me portanto em circunstâncias de obrar por meu arbítrio, o que poderá convir a quem não se quer comprometer, mas que a mim não me convém. Aqui me chegou a notícia de que se vai formar uma Legião ao serviço ou disposição de Inglaterra; declaro a Vossa Excelência que enquanto não se tratar da organização definitiva do Exército, não convém levantar novos corpos, e muito menos dispor dos indivíduos que se acham debaixo do meu comando, como talvez se intentava.
Vossa Excelência se servirá de dizer-me se lhe parece conveniente que eu mande licenciar os Corpos de Milícias de Moncorvo e Porto, que aqui se achavam servindo, e que não serão necessários para as guarnições das praças e de Lisboa, e do mesmo modo as que estão no Exército de Bacelar, o qual deve entrar comigo em Lisboa, porquanto estas Milícias estão aqui fazendo peso e despesa, e falta nas suas províncias. Consta por aqui que nas províncias do norte se tem procedido a um grande recrutamento, medida que me faz muita novidade, pois que deve ser necessitada por alguma causa urgente, e se eu tivesse sido informado dessa resolução, não teria certamente deixado de aceitar os oficiais e soldados dos antigos Regimentos que aqui se têm vindo reunir, o que tenho recusado até à organização definitiva do Exército. 
Pelo que pertence às ordenanças que requer o Coronel Pizarro, como tenho 140 cavalos reunidos ao Exército inglês, lhe mandarei ordem para que os tire daquele corpo. O General Dalrymple me pede [através do Major Aires Pinto de Sousaneste momento de remeter a inclusa com a maior brevidade, e portanto rogo a Vossa Excelência [para que] queira ordenar que ela seja prontamente entregue à sua direcção. Tenho muita razão de persuadir-me que os ingleses desejam neste momento quanto sempre desejaram, que a maior harmonia se conserve entre nós; depois de ter feito as protestações que me pareceram do meu dever, não procuro outra coisa tanto como promover e fomentar a melhor inteligência, quanto de mim depender. 
Estou certo que Vossa Excelência será da mesma opinião, persuadido sem dúvida de que o nosso mais fatal, mais funesto e mais iminente perigo, e para a causa pública, será se entre nós ou a respeito dos nossos aliados houver dissensões de que se possam aproveitar os nossos cruéis inimigos, cujos fautores e sequazes me cercam talvez, e procuram cercar todas as autoridades, e mesmo a sagrada pessoa de Vossa Excelência, de quem sou de Vossa Excelência, etc.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 45-46 (doc. 86)].

Carta de José de Abreu Campos, Juiz do Povo de Lisboa, ao General Beresford e ao Almirante Charles Cotton (6 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

O ofício de Juiz do Povo, que bem fora do meu merecimento ocupo nesta capital, põe-me na necessidade de importunar a Vossa Excelência. Eu já representei ao Excelentíssimo General em Chefe do Exército da Grã-Bretanha neste Reino, numa representação, que inclusa ponho na presença de Vossa Excelência por cópia. 
Agora, não só por obrigação de me apresentar a Vossa Excelência, mas também para suplicar a sua protecção ao mesmo fim, é que trago pessoalmente este ofício. Excelentíssimo Senhor, se o Exército britânico veio gloriosamente quebrar os grilhões que arrastava o povo português; se umas tropas de aleivosos roubadores já vai sentindo a força dos generosos vencedores do Vimeiro, fazendo restituir os roubos que se lhe reclamam; eu, em nome do povo deste Reino, reclamo perante Vossa Excelência tudo quanto estes ladrões têm, além do que trouxeram; porque tudo é roubado em Portugal; além do que já mandaram [para a França], que também exige consideração, para entrar em contas com a satisfação que a religião, o trono e a nação inteira exigem muito clamorosamente. Tudo, Excelentíssimo Senhor, se deve restituir. O miserável órfão, a viúva dos [con]fins de Portugal, não podem vir reclamar. Eu reclamo por eles. O direito deles sobre o seu pouco, não é menos que o dos grandes, sobre o seu muito. O público pois ainda deve merecer, mais que qualquer particular. É pelo público de todo o povo que o meu ofício exige que eu reclame. Tire-se tudo o que têm, e não escape o que escondem até nas marcas dos botões; e o público, vendo tudo restituído no Régio Erário (dono de tudo o que não tem outro) cantará vivas a Vossa Excelência, de quem sou o mais atento servo. 
Lisboa, 6 de Setembro de 1808. 

O Juiz do Povo 

[Fonte: Correio Braziliense, Londres, Abril de 1809, pp. 303-304; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 129-130].

Carta de José de Abreu Campos, Juiz do Povo de Lisboa, ao General Bernardim Freire de Andrade (6 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Leva-me a obrigação do honrado ofício, que indignamente ocupo, aos pés de Vossa Excelência, a render-lhe em nome do povo de Lisboa as devidas graças pelo favor de cooperar para esta cidade haver de libertar-se. Deveria fazê-lo igualmente a todos os Excelentíssimos Generais do Exército que concorrem para este obrigantíssimo benefício; porém, a incerteza do lugar e mesmo a necessidade de assistir ao desempenho deste ofício não mo permitem. Peço portanto a Vossa Excelência que, exercitando comigo a sua bondade, queira, quando a ocasião o permitir, participar aos seus Excelentíssimos colegas a intenção do Povo de Lisboa e do seu Juiz, e que todos suplicamos muito respeitosamente a Vossa Excelência e aos demais Excelentíssimos Senhores que, dignando-se de tomar em consideração a substância de um ofício que hoje apresentei ao Excelentíssimo Senhor General Dalrymple, e que a Vossa Excelência tenho a honra de oferecer em cópia, hajam de haver por bem de tomar como sua a causa da religião, da nação e da monarquia portuguesa. Todos confiamos e esperamos tudo da grandeza, virtudes e brilhantes qualidades de Vossa Excelência.
Deus Guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Lisboa, 6 de Setembro de 1808.

O Juiz do Povo

[Fonte: Correio Braziliense, Londres, Março de 1809, pp. 206-207; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 128-129].

Carta de José de Abreu Campos, Juiz do Povo de Lisboa, ao General Dalrymple (6 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Em nome de todo o Povo desta capital, o Juiz do mesmo vem à respeitável presença de Vossa Excelência para em primeiro lugar lhe agradecer e a Sua Majestade Britânica a continuação das provas de amizade, e [da] nunca interrompida aliança, que se acaba de confirmar na batalha do Vimeiro (nome memorável a todos os séculos para a glória da Grã-Bretanha e para reconhecimento de Portugal) que faz esquecer com puras realidades o que em vozes, tantas vezes mentirosas, se fazia soar dos de Marengo, Jena e Austerlitz.
Um devido sinal de voluntária submissão, uma demonstração de alegria que os corações dos portugueses, por voto unânime, publicam sem necessidade de constrangimento com que esses monstros de iniquidade arrancaram tantas condescendências; e eis aqui o que me trás à presença de Vossa Excelência, vencedor verdadeiro dos afectados invencíveis; e nela a do grande Rei, a quem Lisboa se reconhece e sobrescreve para todas as idades a pública confissão devedora da sua liberdade. Sim, Excelentíssimo Senhor, não é outro o objecto da minha vinda pessoal aos pés de Vossa Excelência; porém, já que tive a ventura de estar servindo em tal momento um lugar que no cumprimento deste dever fica ainda mais honorífico, peço a Vossa Excelência licença para misturar com este ofício outro em que toda esta capital é interessada.
Estão vencidos os chamados invencíveis, a afectada omnipotência do horroroso monstro que excede em ambição a todos os homens está mostrada tal como todos os sensatos a entenderam sempre. Nada então resta, Excelentíssimo Senhor; e a glória da Grã-Bretanha, quanto a Portugal, está completa, mas a Portugal é que resta muito. Os portugueses estão afrontados na sua religião, no seu trono, na sua honra, nas vidas e nos bens. E pode o aliado fiel permitir que isto fique sem desagravo? Os exércitos portugueses, estimulados pelos escândalos da religião, pelos insultos ao seu trono, pelas aleivosias nunca vistas, praticadas debaixo de uma proclamação que só prometia protecção e amizade, contando sempre com a Grã-Bretanha para as faltas que aquele bando de ladrões fez realizar, estavam prontos a sacudir da capital o negro véu do opróbio e da afronta que a cobre.
Eles cederam e deviam ceder a Vossa Excelência o primeiro lugar, até para assim o terem os ingleses de mostrar a estes impostores que não são só no mar terríveis guerreiros; mas não cederam nem podiam ceder o direito da nação a desanfrontar os seus altares, o seu trono, a honra e segurança portuguesa.
O nosso Monarca, ele mesmo, não poderia tirar os direitos sagrados que a nação, pela sua religião, reclama. Ele não era capaz de fazer que a sua clemência ofuscasse a sua justiça. Ele não impediria a torrente de unânimes vontades que, unindo os pastores ao rebanho, o sacerdócio ao império, a igreja à majestade, solicitam a satisfação e o exemplo. O seu auxiliador, o seu aliado, há de então deixar tudo isto sepultado nos horrores de um lábio para sempre? Primeiro, é necessário não manejar a segurança de Lisboa e a da sua liberdade. Segundo, são necessários reféns ou penhores para o que Portugal tem em França. Pois bem, sem ofender os deveres da gratidão, Portugal e Lisboa querem à custa de tudo desagravar-se.
Vossa Excelência não falta aos seus tratados; mas permita que a nação e os Generais portugueses embarguem o que respeita a salvarem estes ladrões aleivosos os seus furtos e a obterem a sua impunidade. Lisboa sacrifica tudo a Vossa Excelência, mas por isso mesmo espera que Vossa Excelência lhe conceda por si e obtenha do Excelentíssimo Almirante [Charles Cotton] que nestes dois pontos os artigos se suspendam. Um bando de ladrões aleivosos não é exército que entre em capitulação honrosa, e neste ponto a generosidade e a clemência passam, como disse o orador romano, a ser injustiça e inércia.
Deus guarde a Vossa Excelência tanto tempo quanto lhe deve desejar quem reconhece em Vossa Excelência o mais digno objecto de eternos votos e memórias.
Lisboa, 6 de Setembro de 1808.

O Juiz do Povo

[Fonte: Correio Braziliense, Londres, Março de 1809, pp. 204-206; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 126-128].

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao Bispo do Porto (5 de Setembro de 1808)



Quartel-General, Sintra, 5 de Setembro de 1808.


Senhor:

Como se estão a tomar medidas efectivas para a rápida embarcação das tropas francesas, em breve Portugal estará livre da força estrangeira que o oprimia. O Príncipe Regente será então restabelecido em todos os seus direitos; e, se não não houver uma contestação justamente fundamentada, o Conselho de Regência que ele nomeou deve obviamente retomar o exercício das suas funções.
Contudo, como alguns membros que compunham este Conselho são notoriamente suspeitos de terem estado intimamente ligados aos interesses franceses, sinto-me autorizado para declarar que, apesar do Rei meu Soberano querer interferir o mínimo possível nos assuntos internos de Portugal, será impossível que Sua Majestade [Britânica], perante as circunstâncias peculiares deste caso, venha a concordar com o regresso dessas pessoas ao poder. Sua Majestade percebe que uma disposição desta natureza seria inconsistente com a estabilidade do Governo, com a restauração da confiança pública, ou, talvez, até mesmo com a segurança desses próprios indivíduos. Em relação àqueles membros da Regência que se mantiveram afastados dos interesses do inimigo, e que conservaram tanto a sua fidelidade ao seu legítimo Soberano como a confiança da nação, serão admitidas, segundo penso, aquelas pessoas (e é certo que as há) que têm uma inquestionável pretensão aos cargos que lhes foram atribuídos pelo Príncipe, se estiverem presentemente em Portugal.
Julgando Sua Majestade [Britânica] necessário para a paz em Lisboa, e bastante conducente aos interesses do Príncipe Regente, que se estabeleça uma Regência em Lisboa, com os mesmos poderes que foram delegados pelo Príncipe Regente aquando da sua partida de Portugal, tenho autoridade (através de comunicações com aqueles principais indivíduos de Portugal que deram provas indubitáveis da sua fidelidade para com o seu legítimo Soberano) para tomar medidas para formar um Conselho de Regência assim que for possível, composto por aquelas pessoas cuja posição social, carácter e talento, possam indicar que estão prontas e qualificadas para se encarregarem duma responsabilidade tão importante; mas com uma alteração limitada das pessoas autorizadas pelo Príncipe Regente (particularmente nas secretarias subordinadas), que possa ser compatível com os interesses públicos.
Escuso de mencionar que as pessoas que serão seleccionadas e nomeadas apenas exercerão as suas diversas capacidades e funções até que a vontade do Príncipe Regente seja conhecida. A fim de cumprir o dever que assim me foi imposto, dirijo-me naturalmente ao auxílio de Vossa Excelência e dos membros da Junta Provisional de Governo a que presidis.
Já haveis dirigido os vossos pensamentos para a grande questão que agora surge, e estais sem dúvida tão preparado para propordes medidas que visam completar o Conselho de Regência, de acordo com as considerações acima desenvolvidas, como para merecerdes a confiança da nação, e para prevenirdes qualquer justa causa de descontentamento em qualquer outro Governo Provisório, ou qualquer outra representação respeitável do povo. Pela minha própria parte, apenas fui capaz, de acordo com as informações que recebi desde que cheguei a Portugal, de formar uma opinião decidida sobre este assunto, que é a infinita importância para o bem-estar público que Vossa Excelência deve suster um lugar de distinção no Conselho de Regência proposto.
A partir da devoção que Vossa Excelência já mostrou ter para com a causa do vosso país, estou convencido a animar a esperança de que completareis a grande obra que haveis começado, ao dardes a Portugal uma Regência fiel ao Príncipe, e que possua a confiança do povo; e não necessito instar quaisquer argumentos para provar a indispensável necessidade de que isto deve ser realizado sem demora.

H. W. Dalrymple, Tenente-General
Comandante das forças britânicas em Portugal

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

O ofício que acabo de receber de Vossa Excelência, com os papéis que o acompanham, tem sido para mim do maior cuidado; ainda não deve dar muito um negócio de tanta gravidade quando chega ao ponto de se não poder remediar. Eu logo o fui conferir na Junta, e desta conferência resultou o assento que se tomou, e que vai dirigido a Vossa Excelência; e nas actuais circunstâncias, que mais pode Vossa Excelência fazer, nem a Junta? Nem nós podemos exigir mais de Vossa Excelência, nem Vossa Excelência de nós. Não podia ser novo para Vossa Excelência que havendo Exércitos combinados, sempre há desunião e desordem. Queira Vossa Excelência, digo, Nosso Senhor, livrar-nos dos franceses; tudo o mais a que não pudermos acudir e a que não cheguem as nossas forças, Nosso Senhor, de quem a causa é, proverá.
As perguntas de Vossa Excelência vão satisfeitas no modo possível na conjuntura presente, e Vossa Excelência não aumente aos seus actuais trabalhos considerações que o aflijam, e que nada remedeiam.
A inclusa ficou ontem de fora quando se fixou a carta, mas eu na minha quase que dizia o mesmo.
Nosso Senhor assista e dirija a Vossa Excelência em circunstâncias tão atadas, e guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 5 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência amigo muito venerador e obsequioso,

Bispo Presidente e Governador.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 36-37 (doc. 78)].

Carta do Secretário da Junta do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

O Desembargador Luís de Sequeira da Gama Ayala, Deputado desta Junta Suprema, vai encarregado do estabelecimento da Regência na cidade de Lisboa, e por isso vai levando todos os documentos que podem acreditar esta sua comissão; é necessário que pela tropa portuguesa e por todos seus comandantes se lhe prestem os auxílios que ele pedir e lhe forem precisos; o que de ordem da mesma Junta Provisional do Governo Supremo vou participar a Vossa Excelência, para que, ficando nesta inteligência, haja de obrar na conformidade da resolução que deixo acusada.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 5 de Setembro de 1808.

Manuel Joaquim Lopes Pereira Negrão.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 39 (doc. 81)].

Carta da Junta do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)




Sendo visto nesta Junta do Governo Supremo o ofício do Marechal de Campo Bernardim Freire de Andrade em data de dois do corrente, com os mais papéis a que nele se refere, e o ofício do General inglês Dalrymple em data de 31 de Agosto, tomou a mesma Junta acerca do conteúdo neles a deliberação constante do assento de que se lhe remete a cópia inclusa. E quanto aos artigos constantes do ofício do mesmo General Bernardim Freire de Andrade, resolveu responder na forma seguinte:

1.º Se o General inglês não responder às explicações que se lhe pedem, que deveremos nós fazer? 
Deverá conformar-se com o espírito do assento incluso.

2.º Se o General inglês (o que não é natural) se prestar a não embaraçar as nossas operações separadas, se com efeito as devemos empreender?
Não havendo embaraço por parte do General inglês, e feita a necessária e prudente combinação entre as nossas forças e as do inimigo, seria muito decoroso à Nação empreender a destruição dele.

3.º Se o General inglês quiser (como é natural) sustentar a capitulação e opor-se às nossas operações, que devemos nós fazer?
Usar da moderação que exige uma força armada a que não podemos resistir.

4.º Se os corpos do Alentejo continuarem a obrar apesar da Capitulação, se devemos nós em todo o caso obrar com eles? 
Neste caso se resolve que dirija em continente uma requisição ao General inglês para que faça logo reprimir os franceses e que não o fazendo assim tome a deliberação de partir logo a defender e auxiliar os seus nacionais, e o faça com todas as forças que puder unir.

A mesma Junta, não podendo em tão grande distância e incerteza resolver as dúvidas ocorrentes em casos de conflito e que não admitem demora, autoriza o mesmo General Bernardim Freire para convocar Conselho Militar e proceder segundo as deliberações do mesmo Conselho, conformando-se sempre com as intenções desta Junta constantes do assento incluso.

Porto, 5 de Setembro de 1808.

Bispo Presidente e Governador.
Manuel Lopes Loureiro.
António da Silva Pinto.
José de Mello Freire.
José Dias de Oliveira.
Luís de Sequeira da Gama Ayala.
António Mateus de Andrada Coutinho.
Francisco Osório da Fonseca.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 37-38 (doc. 79)].

Mapa Geral dos Corpos Regulares que compunham o Exército de Operação às ordens do General Bernardim Freire de Andrade a 5 de Setembro de 1808





[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 207].

domingo, 4 de setembro de 2011

Carta do Duque de Portland, Primeiro-Ministro do Governo britânico, a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (4 de Setembro de 1808)



Bulstrode, Domingo ao meio-dia, 4 de Setembro de 1808.





Meu caro Senhor:

Não sei como expressar a minha admiração e perplexidade pelos termos do papel que passa por ser a Convenção feita por Sir Arthur Wellesley e Kellermann. Talvez sejam os termos propostos pelo último; mesmo assim, parece-me tão absurda a ideia de que foram considerados por um momento, que dificilmente consigo imaginar que um francês poderia ter segurança para os propor. Porém, é impossível que algum oficial inglês os tenha aprovado. Supor Sir Arthur Wellesley como sendo capaz de fazer um tal sacrifício do interesse, da honra e da boa fé do seu próprio país, e do seu próprio bom senso, seria um acto de injustiça que não me poderia perdoar ao culpabilizá-lo. Estou seguro que não necessito de requerer-vos, caro Senhor, a tomardes a primeira oportunidade que tiverdes para me libertardes desta cruel angústia, e a me esclarecerdes este enigma incompreensível. 
Sempre o vosso mais sincero,

Portland


[P.S.] Deverei estar na cidade amanhã à noite, depois do jantar. Pedi ao Coronel Brown e ao Capitão Campbell para jantarem comigo na Terça-feira [6 de Setembro]; se não tiverdes compromissos, ficarei muito contente em ter a vossa companhia.


P. 

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 423-424]. 

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao Brigadeiro-General Charles Stewart (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.





Meu caríssimo Charles*:

O tumulto do nosso júbilo pela conduta gloriosa e pelos sucessos de Wellesley foi perturbado cruelmente por uma comunicação de [D. Domingos de] Sousa [Coutinho] sobre uma suposta Convenção, em cuja cópia aparece inscrito o nome de Wellesley; se fosse levado a efeito, este instrumento garantiria aos franceses vantagens para além daquelas que seriam alcançadas através dos sucessos mais brilhantes, ao passo que os seus 10.000 homens estão actualmente pressionados por nada menos que 50.000 homens, entre britânicos e portugueses.
Em 1.º lugar, Bonaparte é reconhecido, à face de tal instrumento, como Imperador dos franceses.
Em 2.º lugar, providencia uma retirada segura de um corpo do inimigo destituído de quaisquer outros meios de escape.
Em 3.º lugar, dá à França a inteira graça de ter salvado para a Rússia a sua frota, quando na verdade a França não dispõe dum resto de poder para protegê-la.
Em 4.º lugar, sacrifica gratuitamente a frota dum inimigo, e, pela forma como o faz, reconhece direitos de neutralidade da parte de Portugal em relação à Rússia, os quais, se pudessem alguma vez ter subsistido num porto ocupado por um exército francês, teriam sido destruídos, mesmo em aparência, pela nomeação formal de Junot como o Tenente de Bonaparte em Portugal; e implica sobre todos nós o embaraço de observar um porto dos nossos com uma frota, enquanto devemos dar ao inimigo quarenta e oito hora de avanço, para que não possamos apanhá-lo.
Em 5.º lugar, dá à França não só o uso imediato do seu exército, o qual não poderia ter sem a nossa assistência activa, mas também o que se saqueou em Portugal, debaixo da máscara de propriedade privada.
Em 6.º lugar, dá à França toda a graça de ter protegido aqueles portugueses que traíram o seu soberano, enquanto nos implica na desgraça de expor os nossos aliados a ser posteriormente atacados por uma frota que a França teve a autoridade e meios para proteger. Acreditará a Espanha ou a Europa que isto foi antecedido por triunfos da nossa parte? E não ficará a França convencida do contrário?
Em 7.º lugar, finalmente, parece ser, no seu resultado geral, uma feliz maquinação, segundo a qual a Inglaterra teria feito um esforço poderoso apenas para tornar um Estado dependente no protector de um dos seus inimigos, enquanto [o próprio Armistício] se torna um instrumento segundo o qual o inimigo deve remover um exército duma posição que está perdida, para um onde pode recomeçar as sua operações com vantagem.
Não me posso perdoar por sentir a injustiça que é feita a Wellesley, ao supor que algum poder na terra o poderia ter induzido a ter uma parte individual em tal acordo; não imagino nenhum oficial britânico a ser capaz de fazê-lo, e muito menos aquele a quem confiámos a chefia do comando do nosso exército e marinha. [Para além disto] é uma Convenção que nenhum oficial francês honrado poderia propor por escrito, enquanto acordo racional entre as partes, e que, até enquanto esboço ou primeiro projêt [sic], para ser oferecido para consideração, necessitaria de todo o descaramento solene daquela nação.
Somente a posso entender enquanto suspensão de armas; e, se tivesse sido assinada enquanto tal, ainda que sendo politicamente desaconselhada, não estaria cheia de estipulações sobre os pontos mais importantes a ser ajustados; pois na verdade deixa para trás detalhes poucos importantes para negociar. Resumindo, é uma base falsificada algures, e nada me pode convencer a acreditar que seja genuína.
Deus vos abençoe, caríssimo Charles!
Com pressa,

Castlereagh

[P.S.] Escrevo a Dalrymple, incluindo a nota de Sousa, juntamente com a resposta de Canning, na qual se declara a total descrença do caso, bem como a indignação deste Governo perante o ataque de um poder [=Junta Suprema do Porto] que somente pôde surgir através dos nossos meios, e que tenta arrogar direitos que não tem, com o objectivo de voltá-los para a protecção de um inimigo que tem sido de facto dela, enquanto nos ajuda tanto quanto auxiliou os franceses a manterem-se em Lisboa.

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 421-423]. 

_________________________________________________________________


Nota:

Brigadeiro-General Charles Stewart (meio-irmão do próprio Lord Castlereagh), tinha partido da Inglaterra em finais de Julho com a expedição do corpo militar comandado pelo General John Moore. Como já referimos, devido a uma tempestade, as embarcações que traziam a bordo estes militares demoraram mais de duas semanas para se reunirem no ponto combinado, a oeste do cabo Finisterra. Para evitar perder mais tempo, enquanto Moore acabava de reunir a frota que trazia os seus corpos, o General Harry Burrard (segundo no comando do exército britânico destinado a Portugal), que também vinha nesta expedição, decidiu adiantar-se, a bordo duma fragata, no dia 16 de Agosto. Ao chegar ao Porto, Burrard recebeu as cartas que Wellesley lhe tinha ali deixado e decidiu partir imediatamente ao seu encontro, vendo-se no entanto impossibilitado (devido a ventos contrários) de enviar ordens a Moore para este o seguir. Depois de esperar algum tempo pelas ordens de Burrard, e apercebendo-se que estas não chegariam tão cedo devido aos referidos ventos contrários, Moore acabou por decidir partir para o sul. Charles Stewart, que, como dissemos, vinha nesta expedição, teria então avançado à frente de Moore, partindo para o Porto (no dia 17 ou 18) para entrar em contacto com Burrard, ou, se este já tivesse partido (o que realmente ocorrera, como acima ficou dito), para saber quais eram as suas ordens. Stewart desembarcou no Porto (no dia 18 ou 19), sendo então informado que Burrard partira ao encontro de Wellesley. Devido a este inesperado conjunto de circunstâncias, Stewart encontrou-se na mesma ocasião com o Brigadeiro-General Frederick von Decken, agente secreto do Governo britânico, que tinha acabado de chegar ao Porto no dia 17 de Agosto, e que logo nessa noite se encontrara com o Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto. Von Decken aproveitou assim a passagem de Charles Stewart para lhe encarregar de ser o portador da sua primeira carta a Dalrymple sobre as intenções do Bispo do Porto. Sabemos que Charles Stewart chegou ao Vimeiro no dia 24 de Agosto, antes de John Moore, com a referida carta de von Decken, mas a partir daí ignoramos o seu destino, sendo bastante provável que se tenha mantido, pelo menos até à data da carta acima traduzida, com o exército agora comandado por Dalrymple.