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domingo, 4 de setembro de 2011

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Hew Dalrymple (4 de Setembro de 1808)





Esboço*.



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.



Senhor:

Não posso permitir que a minha carta oficial de hoje parta sem incomodar-vos com algumas linhas, a fim de declarar confidencial e privadamente o estado sincero dos sentimentos do Governo sobre a comunicação do senhor Sousa.
Não podemos certamente dar qualquer crédito aos papéis que ele transmitiu**; e ainda estamos incapazes de compreender a ideia errada que lhe foi imposta. O acordo parece-nos muito mais vantajoso para os franceses do que alguma vez poderiam pretender reivindicar;  ainda que seja este o caso, estamos inclinados a não lhe dar crédito; porém, os termos, tal como se referem a Portugal, bem como ao sacrifício gratuito da frota russa, não para a Rússia, mas para a França - pois só a França poderia tirar proveito de tal estipulação - tornam improvável, no nosso julgamento, que [os ingleses] tenham anuído a tais proposições; e apenas podemos supor que o General Kellermann talvez tivesse avançado com tal papel enquanto primeiro projecto, e que, enquanto tal, pudesse ter sido autentificado pelas assinaturas que nele estão inscritas. Resumindo, é difícil pensar sobre este assunto na sua forma actual, e espero que em breve sejamos libertados da tarefa de nos esforçarmos para resolver este enigma, que o ministro português [D. Domingos de Sousa Coutinho], com a declaração das pretensões mais injustificáveis da parte da sua corte, induziram-me a transmitir-vos, juntamente com a resposta que ele recebeu do senhor Canning
Tenho a honra de ser, etc.,

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, p. 425]. 


_______________________________________________________________

Notas:

Na edição que consultámos para a presente tradução, indica-se que este documento é um esboço [draft], e assim sendo ignoramos se Castlereagh o chegou a enviar, ipsis verbis, ao seu destinatário. 

** Como se percebe pela nota oficial de D. Domingos de Sousa Coutinho a George Canning e pela resposta deste último, entre os diversos documentos que o referido embaixador de Portugal em Londres apresentou à Secretaria dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, no dia 3 de Setembro, encontravam-se pelo menos os seguintes (aqui ordenados por ordem cronológica):

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Harry Burrard (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Recebi, através do Capitão Campbell, ajudante de campo do Tenente General Sir Arthur Wellesley, o vosso ofício de 21 do passado mês, que incluía a notícia que aquele General vos tinha dirigido sobre a assinalada vitória obtida pelas forças de Sua Majestade debaixo das suas ordens, ao ser atacada, no Vimeiro, pela totalidade da força francesa em Portugal, comandada pessoalmente pelo General Junot. 
Depois de transmitir o mesmo ofício a Sua Majestade, recebi ordens de Sua Majestade para que declareis ao Tenente General Sir Arthur Wellesley que a disposição que ele tomou para receber o inimigo, bem como a perícia e valor que ele demonstrou ao conseguir derrotá-lo completamente, proporcionaram a Sua Majestade a mais alta satisfação.
A conduta do Major General Spencer e dos outros Generais e Oficiais que tão habilmente executaram as ordens que receberam, demonstrando tantos exemplos de discernimento e de valor, é altamente honorável para eles próprios e satisfatória para Sua Majestade.
Tereis o prazer de comunicardes a satisfação que Sua Majestade sentiu perante a bravura deliberada e firme pela qual as suas tropas se distinguiram, reflectindo ao mesmo tempo igual honra perante o carácter e disciplina do seu exército, qualidades que por si só permitem contemplar permanentemente o sucesso na guerra.
A delicadeza e a honorável paciência que vos determinou, apesar de presente na acção, a não interferirdes com as disposições previamente tomadas pelo Tenente General Sir Arthur Wellesley, que estavam então a ser executadas, foram observadas por Sua Majestade com aprovação.
Tenho a honra de ser, etc., 

Castlereagh

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 123-124].

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Wellesley (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Recebi, através do Capitão Campbell, vosso Ajudante de Campo, os vossos ofícios de 16 e 17 de Agosto, contendo o primeiro o relato da acção em Alcobaça [sic], que obrigou o inimigo a retirar os seus postos avançados; e contendo o do dia 17 o relato do vosso ataque, com as tropas debaixo do vosso comando, sobre os corpos avançados do inimigo na sua posição formidável perto de Óbidos [sic], e da sua completa derrota.
Estes ofícios foram comunicados a Sua Majestade, e transmito-vos por este meio a plena satisfação de Sua Majestade perante a conduta hábil, sensata e decisiva que haveis demonstrado, através da qual as armas de Sua Majestade reflectiram tanto crédito, e que tanto facilitou o avanço do exército no sentido de reduzir completamente o inimigo.
Sua Majestade também manifestou que é do seu real agrado que transmitais a sua mais grata aprovação ao Major General Spencer e aos Generais e outros Oficiais debaixo do vosso comando, pela perícia, valor e perseverança que revelaram, e às tropas em geral, pela coragem, frieza e determinação que parece que marcaram a sua conduta.
Tenho a honra de ser, etc., 

Castlereagh


Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Arthur Wellesley (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Meu caro Wellesley:

Acreditareis facilmente que poucos acontecimentos na minha vida, na verdade posso dizer nenhum, deram-me mais gratificação que as notícias das vossas duas esplêndidas vitórias, às quais dificilmente sei dar a preferência. A do dia 21 [batalha do Vimeiro] foi certamente a mais importante em todos os seus resultados, e teve certamente mais características de uma grande vitória; mas existem aspectos na primeira [batalha da Roliça], que não necessito particularizar, que a tornam, como feito militar, não menos merecedora de aplauso. Houve algo caprichosamente providencial no ataque que o inimigo fez sobre vós, no preciso momento que o vosso comando estava passando (e de facto passou formalmente) para outras mãos a glória dos vossos sucessos, ataque esse que a vossa moderação pessoal e o sentido de dever vos induziram a não provocar por qualquer aceleração extraordinária das vossas operações.
Haveis recebido a recompensa dos princípios que governaram a vossa conduta, numa ascensão importante de reputação militar, e haveis sulcado os fundamentos, segundo espero, duma sucessão de triunfos, tão frequentes quanto possamos levar as tropas britânicas a contactar com o inimigo em termos justos. 
Não vejo o Rei desde que o Capitão Campbell chegou. A nota que me enviou assinala como desfrutou dos vossos serviços; e soube que ele ouviu os detalhes das vossas cartas com tanto interesse e atenção que as sabe quase de cor.
Qualquer outro assunto não me pode incomodar, ao misturar-se com os indivisos sentimentos de gratidão e admiração com que vos dou os meus agradecimentos e parabéns pelos serviços que prestastes ao exército, tal como aos interesses imediatos do vosso próprio país; e estou convencido que, seja qual for o lugar que ocupeis agora no exército, as vossas qualidades enquanto oficial serão reveladas com um zelo igual como enquanto estivestes encarregado do comando supremo.
Reservo-me a escrever sobre outros pontos até uma nova ocasião. 
Sempre, meu caro Wellesley, o vosso mais sincero

Castlereagh


Ofício confidencial de George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico, a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres (4 de Setembro de 1808)



Confidencial




Ministério dos Negócios Estrangeiros, 4 de Setembro de 1808.


O abaixo assinado, Primeiro Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Sua Majestade, tem a honra de acusar a recepção da nota oficial do Cavalheiro de Sousa Coutinho, incluindo a cópia de uma Convenção que se supõe ter sido concluída entre os Comandantes dos exércitos britânico e francês em Portugal, juntamente com as observações do General Bernardim Freire de Andrade e do Bispo do Porto a seu respeito, assim como a cópia de uma carta dirigida pelo Bispo do Porto ao Comandante da esquadra russa no Tejo.
Quanto ao primeiro destes documentos, cumpre ao abaixo assinado certificar ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que não foi transmitido ao Governo de Sua Majestade; que a suposta Convenção parece apresentar bastantes razões de dúvida na sua autenticidade, e que se deve nutrir firme esperança de que ou a sua substância virá provar que foi erradamente anunciada, ou que o seu intento e natureza foram expressos de um modo inexacto.
O abaixo assinado deseja com sinceridade que possa haver dúvidas da mesma espécie quanto à autenticidade da carta do Bispo do Porto ao Almirante russo, escrita, como parece, a 22 de Agosto, e, por conseguinte, ainda antes que a suspeita da Convenção (tal como é representada) pudesse chegar ao Porto.
Mas, se esta carta se considerar genuína, e se pela sua comunicação ao Governo britânico se pretendeu intervir para proteger a esquadra russa, o abaixo assinado tem ordem de notificar imediatamente ao Cavalheiro de Sousa Coutinho o modo por que tal intervenção seria olhada por Sua Majestade.
Sua Majestade manda um exército para libertar Portugal do domínio da França e para se apoderar de uma esquadra inimiga ancorada num porto ocupado pelos exércitos franceses e inteiramente debaixo da sua autoridade.
As armas de Sua Majestade ganham uma vitória sobre as da França, o que promete a realização de um dos fins indicados.
Com tanta surpresa como indignação saberia Sua Majestade que o primeiro uso que faziam da vitória aqueles em cujo proveito se deu a batalha, era assumirem o exercício dos direitos de independência e neutralidade para proteger contra os conquistadores a esquadra de outro inimigo de Sua Majestade, aliado e confederado da França.
O abaixo assinado tem ordem de protestar com a maior energia contra uma pretensão tão absolutamente injustificável, e de negar autoridade ao Bispo do Porto ou a qualquer outro Governo Provisório para se interpor entre as armas vitoriosas de Sua Majestade e as consequências naturais da vitória.
Se tal pretensão fosse mantida em nome do Príncipe Regente pelo Ministro acreditado de Portugal, cumpria a Sua Majestade pensar seriamente qual a consideração que merecia um país cujo livramento as armas de Sua Majestade empreenderam e que convertia esse benefício em vantagem dos inimigos de Sua Majestade.
O abaixo assinado tem além disto ordem de Sua Majestade para recomendar à atenção do Cavalheiro de Sousa Coutinho a parte da carta do Bispo do Porto em que se menciona um «Tratado de aliança ultimamente concluído entre Sua Majestade Fidelíssima e o Imperador da Rússia», e de pedir ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que o informe de qual é o Tratado a que se alude.
O abaixo assinado pede ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que aceite os protestos da sua subida consideração.


George Canning


[Fonte: Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 86-91 (texto original e tradução portuguesa - itálicos conforme o original)]
 

Protesto do General Bernardim Freire de Andrade contra a Convenção de 30 de Agosto (4 de Setembro 1808)






PROTESTAÇÃO
que faz Bernardim Freire de Andrada [sic], General Comandante das Tropas Portuguesas, 
contra os Artigos da Capitulação convencionada e assinada entre o Exército Inglês e o Francês para a evacuação de Portugal.


Protesto em geral pela falta de contemplação que se teve neste Tratado com Sua Alteza Real o Príncipe Regente, ou o Governo [=Junta Suprema do Porto] que o representa; por tudo o que pode ser atentatório à Autoridade Soberana e [à] independência do mesmo Governo; por tudo o que pode ser contrário à Honra, Segurança e Interesses da Nação, e particularmente contra o que se acha estipulado nos seguintes artigos:


Artigos 1.º, 4.º e 12.º: Na parte em que determina a entrega das Praças, Armazéns e Navios portugueses às Forças inglesas, sem declarar por algum modo obrigatório que esta entrega é interina, e que intenta restituí-las logo ao Príncipe Regente de Portugal ou ao Governo que o representar, a quem pertencem, e a quem as Forças inglesas vieram auxiliar.
Artigo 16.º: Na parte em que permite a demora em Portugal aos indivíduos nele mencionados.
Artigo 17.º: Na parte em que se pretende ligar o Governo deste Reino a não inquirir e castigar por algum modo aqueles indivíduos que notória e escandalosamente foram desleais ao seu Príncipe e à sua Pátria, servindo o partido francês; e quando a protecção do Exército inglês os salve da pena que mereciam, não os deve livrar de um extermínio que isente este país de ser por eles outra vez atraiçoado.
Artigo 1.º dos artigos adicionais: Que não pode por modo algum ser obrigatório para o Governo deste Reino sem uma reciprocidade que não se estipula.
Finalmente, protesto pela falta de contemplação que se teve com os habitantes da capital e suas vizinhanças, deixando de se estipular a seu favor a segurança de que não seriam vexados durante o tempo que os franceses ainda ali se conservassem, ao menos como uma reciprocidade do que se estabelecia nos artigos 16.º e 17.º a favor dos franceses e seus sequazes.
E limito aqui os meus protestos, para não aumentar a lista, deixando de fazer menção de outros objectos de menos consideração, tais como a concessão de 800 cavalos, sem se atender que eles são quase todos tirados de Portugal, e não devem ser por isso considerados como propriedade francesa; e a [concessão] dos armazéns de víveres fornecidos à custa do país, e por isso só pertencentes de facto, mas não de direito, aos injustos possuidores do mesmo país. 
Quartel-General da Encarnação, 4 de Setembro de 1808.

Bernardim Freire de Andrade


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 28-29 (doc. 75). Este documento aparece ligeiramente truncado in  Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 103-104; Raul Brandão, El-Rei JunotLisboa, IN-CM, s.d., p. 251. Este texto tornou-se público em inglês apenas duas semanas depois de ter sido composto [cf., por exemplo,  Bell's Weekly Messenger, London, 21th September 1808 (apud doc. manuscrito disponível no Arquivo Histórico Militar com a cota PT AHM/DIV/1/14/005/02); The Edinburgh Annual Register for 1808. Vol. First - Part Second, Edinburgh, Printed by James Ballantyne and Co, 1810, pp. 204-205; Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 207 (doc. 108)]. Em português, este documento apareceu originalmente publicado também em Londres, aparentemente (re)traduzido a partir do inglês, no Correio Braziliense de Setembro de 1808 (pp. 325-326), embora com a data errónea de 14 de Setembro de 1808, lacuna com que também apareceu estampado na própria imprensa britânica. Com tal erro foi também publicado, com algumas variantes (provavelmente derivadas doutra tradução do texto em inglês) por Simão José da Luz Soriano, na sua História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 118-119. Sobre a data errónea de 14 de Setembro, com a qual este documento, como dissemos, apareceu estampado no Correio Braziliense, veja-se ainda o que escreveu Joaquim de Santo Agostinho de Brito França Galvão, logo em 1809, nas suas Reflexões sobre o Correio Braziliense (Lisboa, Impressão Régia, 1809, p. 55)]. 


Carta de D. Miguel Pereira Forjaz, Brigadeiro Ajudante General do Exército Português, ao General Dalrymple (4 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Chegando a esta vila [de Mafra] com uma comissão do General Comandante do Exército português, Bernardim Freire de Andrada [sic], me consta que por equivocação dum oficial português se denunciará ao General Murray, que aqui se acha com a sua Brigada, um depósito de farinhas, cevadas e outros géneros que os franceses haviam ultimamente obtido por requisição ao país, de que o mesmo General Bernardim Freire estava ciente pelas participações que lhe havia feito o Juiz de Fora da mesma vila, e com que contava para a subsistência das suas tropas. Estou certo de que nem as intenções do General Murray nem as de Vossa Excelência são de privar as tropas portuguesas destas subsistências, havidas violentamente no seu país; porém, como o General Murray me [as]segura ter já participado a Vossa Excelência este acontecimento, e depender da sua decisão esta entrega, que ele desejaria fazer imediatamente.
Conhecendo por outra parte a necessidade que haverá de que ela não se retarde, apreço-me em solicitar de Vossa Excelência as ordens necessárias para que ela se verifique, aproveitando igualmente esta ocasião de presentar a Vossa Excelência os meus respeitos, e que tenho a honra de me assinar. De Vossa Excelência o mais atento e fiel servidor.

D. Miguel Pereira Forjaz

Mafra, 4 de Setembro de 1808.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 33-34 (doc. 76)].

Carta do Almirante Charles Cotton ao irmão mais velho do General Wellesley, William Wellesley-Pole, Secretário do Almirantado britânico (4 de Setembro de 1808)



Hibernia, na barra do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de vos incluir com esta carta, para conhecimento dos Lordes Comissários do Almirantado, uma cópia da Convenção que acordei com o Vice-Almirante Séniavin, comandante da frota russa no Tejo, pela qual pelo qual Suas Senhorias verão que esta esquadra rendeu-se a mim, a fim de ser guardada por Sua Majestade como depósito, até seis meses depois da conclusão de uma paz entre a Rússia e a Inglaterra.
Encarreguei o Capitão Halsted, Primeiro-Capitão do Hibernia, e Capitão da frota, para entregar este ofício a Suas Senhorias; como o enviei para negociar a Convenção com o Vice-Almirante Séniavin, será assim capaz de explicar todos os detalhes.
Sinto-me em grande dívida com o Capitão Halsted, pelos seus talentosos conselhos e assistência em todos os objectivos da missão; o seu zelo e diligência foram exemplares, e autorizo-o à minha alta recomendação.
Contra-Almirante Tyler recebeu ordens para supervisionar a primeira divisão da frota russa, que propus que partisse debaixo da sua protecção para Spithead imediatamente; devo bastante (desde que está comigo) a toda a sua assistência, e aos Capitães, Oficiais e tripulação dos navios que têm estado ocupados no bloqueio prolongado e tedioso (através dos quais todos esforços foram feitos com um grau de boa vontade que lhes dá uma infinita honra). Sinto-me extremamente agradecido e julgo que tal é o meu dever; oferecei qualquer testemunho possível da minha aprovação a seu favor.
Tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton


Carta do Almirante Charles Cotton ao Vice-Almirante Séniavin (4 de Setembro de 1808)




Hibernia, defronte do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de acusar a recepção da carta de Vossa Excelência na data de hoje, e permiti-me que vos assegure que, considerando o acto de rendimento da frota do vosso comando e o modo de o fazer, [como] objectos da mais delicada natureza, ambos foram deixados à vossa escolha, na maneira que pareceu menos provável o ferir a vossa sensibilidade; mas vós deveis conhecer, Senhor, que algum acto de rendimento é absolutamente necessário.
Eu não respondi às vossas duas cartas de 21 de Agosto – 2 de Setembro porque, sabendo que mr. Sass tem a vossa confiança, os pontos a que nelas se alude foram plenamente discutidos antes que ele desse o seu consentimento por vossa parte à convenção que eu assinei ontem, e que eu então esperava [que] não achasse objecção à vossa assinatura na contra-cópia, visto que a bandeira inglesa está actualmente arvorada nos fortes sobre os bancos do Tejo.
De ontem para cá me ocorreu que seria mais conforme aos vossos sentimentos que qualquer acto de rendimento (o modo ainda assim se deixa à vossa adopção) se fizesse na presença de um oficial de grau superior ao Tenente Bellamy, e que para isto mando a Vossa Excelência o Contra-Almirante Tyler, o segundo oficial no comando desta frota, o qual tomou sobre si ser o portador desta carta, e apresentará a Vossa Excelência as minhas sinceras seguranças de estimação e respeito, e da alta consideração com que tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton

Carta do Vice-Almirante Séniavin ao Almirante Charles Cotton (4 de Setembro de 1808)



A bordo do Tuerdoi, 23 de Agosto – 4 de Setembro de 1808*.


Senhor Almirante:

Os oficiais que deputei a Vossa Excelência ontem para concluir a convenção voltaram a meu bordo e me trouxeram esta convenção assinada de vossa parte em duas cópias. Deram-me conta do que Vossa Excelência lhes fez entender, a respeito do cerimonial que vos parece conveniente ser observado na ocasião da entrega a Sua Majestade Britânica da esquadra imperial que tenho a honra de comandar. Este artigo, sendo um dos mais delicados, eu me reservo a honra de vos fazer saber os meus sentimentos; entretanto rogo-vos que me queirais responder às duas cartas que vos dirigi na data de antes de ontem**; e particularmente sobre o artigo que diz respeito à bandeira portuguesa ou inglesa, e sobre a neutralidade deste porto, da maneira que houvestes por bem dizer verbalmente aos meus sobreditos deputados. Logo que receber esta resposta não deixarei de assinar a cópia da convenção, e de a fazer remeter a Vossa Excelência com as observações relativas à bandeira de Sua Majestade Imperial [russa].
Tenho a honra de ser, etc.

De Séniavin


____________________________________________________________

Notas:

* Sobre as duas diferentes datas ver a explicação dada numa nota a uma anterior carta do mesmo remetente ao mesmo destinatário.

** Os dois documentos aludidos foram publicados aqui e aqui.

Notícias sobre os acontecimentos em Portugal, publicadas no periódico The National Register (4 de Setembro de 1808)



Acontecimentos políticos da semana.

Vitórias britânicas sobre as tropas francesas.


Temos hoje a inexprimível satisfação de anunciar a informação há muito esperada duma assinalada vitória do nosso exército em Portugal*. Seja qual for o modo como contemplamos esta importante ocorrência, sentimos tanta exultação quanto prazer. No meio de tais sensações misturadas, não sentimos surpresa, pois o valor impassível, determinado e perseverante dos nossos soldados nunca foi dúbio. Este é um daqueles acontecimentos grandes e abrangentes que atinge o peito de todos os britânicos, e que será sentido tão entusiasticamente sobre o rio Shannon como no Thames. Graças, sincera e inexprimivelmente, ao nosso exército e ao seu bravo Comandante! Eles cumpriram gloriosamente os deveres que o seu país esperava que cumprissem. O seu país confiou-lhes o glorioso penhor da sua glória e reputação; e a sua confiança não foi desapontada. A impetuosa bazófia e a destreza táctica dos invencíveis franceses foram incapazes de resistir ao impulso irresistível do patriotismo britânico, secundado pelas baionetas britânicas. Guerreiros distinguidos! Dignos descendentes dos heróis de Agincourt, Cressy, Blenheim e Minden! Haveis iniciado gloriosamente uma campanha cujo objectivo é nada menos que a emancipação da Europa do despotismo mais repugnante e perigoso que alguma vez flagelou a humanidade. Haveis sido enviados para resgatar o país do mais fiel dos nossos aliados, das presas dos monstros que há muito atacavam os seus órgãos vitais; e depois de terdes acabado esta gloriosa façanha, estais apressando-vos para cooperar com um povo distinguido, cujo anais são apenas recapitulações de vitórias; cujos campos, cujas montanhas e cujas cidades apresentam monumentos eternos de vitórias contra os cartagineses, romanos e mouros. Cujo sentido de honra é igual à sua bravura, e cuja integridade apenas rivaliza com o seu patriotismo. Enquanto toda a Europa está tremendo e amedrontada aos pés dum aventureiro implacável e arrogante, esta nação generosa repeliu com desprezo qualquer tipo de compromisso com o ousado facínora, e formou unanimemente a resolução de preferir cobrir os seus próprios campos com os seus cadáveres, e com os dos seus pais, suas mulheres e suas crianças, do que consentir a escravidão do seu país. Os seus sucessos foram correspondentes à sua determinação e à santidade da sua causa. Estais prestes a ver não tanto como eles libertam o seu país dos seus infames invasores - eles próprios já alcançaram este feito - mas sim como rivalizam e participam nas suas futuras proezas, naquele mesmo país onde há mais de dezasseis anos miríades de harpias voaram para saquear e profanar os templos, as casas, e os campos das nações vizinhas. O vosso país seguir-vos-á incessantemente nesta assinalada carreira. A sua gratidão será até superior às vossas façanhas; e quando regressardes, coroados com vitórias e com as bendições do universo, encontrareis nos aplausos dos vossos conterrâneos e nas lágrimas de alegria dos vossos parentes e amigos uma ampla compensação pelos vossos honrosos serviços. 
Tais são as efusões agradecidas de todos os britânicos ao lerem estas importantes notícias. Nenhuma das nossas vitórias, quer no mar, quer em terra, distinguidas como têm sido, desde que começou a Guerra Revolucionária, excitou um maior entusiasmo universal. A nossa superioridade naval era reconhecida universalmente. Mas estes acontecimentos removeram qualquer dúvida da mente dos mais cépticos, qualquer partícula de ansiedade do peito dos mais receosos, que a bravura e disciplina dos nossos exércitos terrestres  não é apenas igual, mas infinitamente superior às de qualquer povo existente. Que sensações orgulhosas deve esta convicção excitar nos nossos peitos! Que campo ela abre a uma comunidade aspirante e opulenta! A história menciona que somos o único povo que o comércio e as riquezas do mundo não foram capazes de corromper. Se algo excede as nossas riquezas naturais, é a nossa energia nacional. Que nenhuma falsa impressão de mal-estar e que nenhum falso brilho de moralidade política da parte dos homens de estado metódicos nos impeça de perseguir a nossa carreira de engrandecimento, que é indicada pelos nossos recursos morais e físicos. Nada é estável neste mundo. Se um Estado não avança, necessariamente tem que recuar. Este é um axioma moral e político. Multipliquemos os nossos exércitos nesta crise portentosa. As notícias da nossa vitória espalhar-se-ão rapidamente duma ponta do Continente à outra. Haverá mais efeito em estimular [agora] as suas energias dormentes do que em qualquer outra circunstância que alguma vez ocorreu. Guiemos e encorajemos os seus esforços contra o inimigo comum; e quando eles [=os europeus] virem uns cem mil soldados britânicos, não engaiolados vergonhosamente na sua ilha - os descendentes dos Eduardos e dos Henriques confinados às suas praias!! - mas sim acampados nos planícies da Picardia, irão recordar o que os seus esforços unidos já fizeram, guiados por um Marlhorough. É esta linguagem demasiado arrojada? É esta opinião infundada por antecedentes, ou invalidada pelos acontecimentos e sentimentos presentes? Não. Na confusão universal que em breve ocorrerá no Continente, na fricção geral, moral e nacional, outra nação mais ousada pensará assim. Retomemos o nosso antigo lema: que nem um só canhão seja disparado na Europa sem a nossa permissão! Coitado do povo que não agarrar as vantagens da situação e do momento! Coitado do homem de Estado que receia perseguir um grande objectivo, devido aos escrúpulos do cioso ou à resistência duma facção! Na política, a moralidade dum povo é segurança e grandeza; a sua imoralidade nasce da fraqueza e da letargia. A mesma regra moral é aplicável aos Estados enquanto indivíduos - somente a acção e a iniciativa desenvolvem aquelas grandes virtudes que levantam Estados e indivíduos até ao topo da grandeza e do vigor; enquanto a inacção engendra todos aqueles vícios repugnantes e paixões desagradáveis que produzem uma moral vergonhosa e uma debilidade física.  


***

Foi recebida uma carta no Lloyd's, remetida do Porto no dia 28 de Agosto, que declara que o exército francês comandado por Junot evacuou Lisboa, depois de ali pilhar vinte e três carros cheios de objectos de valor, e que no dia 24 tinha tido uma acção contra o exército britânico, na qual tinham sido mortos o General Loison e 5.000 franceses, enquanto Junot e o resto do seu exército tinham sido aprisionados. Quando os franceses evacuaram Lisboa, a frota russa hasteou as cores portuguesas. 

A gloriosa notícia da vitória obtida por Sir Arthur Wellesley foi levada pelo Capitão Campbell ao gabinete de Lord Castlereagh por volta das oito horas da noite de Quinta-feira [1 de Setembro]. Pouco depois Sua Senhoria comunicou-a ao Lord Mayor



Assim que o General Spencer se reuniu a Sir Arthur Wellesley, este último não perdeu tempo em avançar para dentro do país. No dia 15, os exércitos opostos aproximaram-se tanto um do outro, que ocorreu uma acção entre os postos avançados nesse mesmo dia, perto de Óbidos. No dia 17, as nossas tropas bateram-se com os corpos avançados dos franceses, que chegavam a 6.000 homens de infantaria e a 800 de cavalaria. Eles estavam postados com vantagens nas passagens [no alto das montanhas], mas como Sir Arthur caiu sobre a sua linha de marcha, teve a necessidade de atacá-los, apesar do outro lado ter melhores vantagens. Só foi empregue uma parte da nossa força, principalmente os Regimentos n.os 5, 9, 29, 60 e 95; destes, o 29.º e o 95.º suportaram o peso da batalha. Nada pode exceder a firme disciplina e a impassível e determinada coragem com que as nossas tropas avançaram para o ataque. Foi um conflito bastante severo, mas deve-se assinalar que a nossa artilharia foi infinitamente melhor empregue que a francesa, supostamente a melhor da Europa. Por fim, o inimigo rendeu-se ao valor dos nossos compatriotas, e retirou-se em confusão, com a perda de 1.500 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros. Nos dias 18 e 19 Sir Arthur continuou em perseguição do inimigo. No dia 20, parou e afastou-se para perto do mar, a fim de proteger o desembarque da divisão do General Anstruther. Quando esta junção se realizou, todo o exército estava revigorado, depois das fatigas que tinha suportado. No dia 21, Sir Arthur viu que os inimigos estavam determinados em lutar. Começaram a atacar no Vimeiro, muito antes do que se esperava, e com a maior bravura e boa ordem. A sua impetuosidade foi extrema, como habitualmente; esperavam que assim lançariam os nossos soldados na confusão, e obteriam a vitória. Mas eram britânicas as tropas contra as quais tinham que lutar; e o nosso bravo exército, nada desencorajado pela violência da investida ou pelo furioso fogo que eles disparavam, avançou sem disparar um tiro, com as baionetas fixadas. Em breve, o inimigo desanimou-se perante esta impassibilidade e frieza, e foi forçado a recuar. O conflito começou então a tornar-se mais severo e sanguinário - porém, o inimigo, apesar de ter combatido com grande bravura e determinação, nunca foi capaz de provocar uma sensação de desvantagem nas nossas tropas. Por fim, a vitória foi decidida a nosso favor, sendo o inimigo completamente derrotado, e dispersando-se para os bosques contíguos ao cenário da acção. Junot comandava pessoalmente, e o seu ataque central foi sobre o nosso centro e esquerda - a nossa direita, que era composta por cerca de 7.000 homens, não foi esteve tão comprometida como as outras duas divisões. Dois regimentos de granadeiros, a nata do exército francês, foram completamente cortados aos pedaços. Depois da batalha, 300 deles foram encontrados mortos no mesmo lugar onde tinham sido dispostos. A batalha durou cerca de três horas, e o resultado geral foi a derrota completa e a fuga do inimigo, com a perda de cerca de 4.000 homens; o que eleva as perdas totais em ambas as acções para cima dos cinco mil homens. Proporcionalmente, as perdas dos britânicos foram pequenas. 
O veterano General Ferguson estava entre aqueles que lideraram o ataque [da batalha do Vimeiro]. Ia acompanhado pelo seu Ajudante de Campo, o Capitão Mellish, célebre desportista; e ao avançar para a carga, à frente da sua brigada, tirou o seu chapéu e acenou-o para encorajar os homens, de forma, em primeiro lugar, para que em toda a parte o reconhecessem, e em segundo lugar para assim poderem inspirar-se a imitar a sua calma e o domínio de si mesmo. O Coronel Lake caiu muito nobremente [na batalha da Roliça], enquanto conduzia os seus granadeiros por uma das passagens [no alto das montanhas], cuja dificuldades desafiam qualquer descrição. O Regimento n.º 36, comandado pelo Coronel Burns, efectuou prodígios [na batalha do Vimeiro]. Parece que este último ordenou aos seus homens para conterem o seu fogo; porém, como o inimigo continuava a abrir fogo com grande efeito, um ou dois jovens soldados descarregaram os seus mosquetes. O Coronel Burns gritou imediatamente: Se souber quem foi que disparou, eu próprio o abato. Esta observação, num momento em que tantos deles estavam a ser abatidos pelas balas do inimigo, excitou um enorme regozijo entre os seus homens, apesar da seríssima solenidade do cenário em que estavam a actuar. 
A carga do Regimento n.º 20 de Dragões foi a mais magistral; se houvesse uma força maior de cavalaria, a totalidade da força do inimigo teria sido aniquilada; apesar disto, os Generais franceses acharam-se que estavam completamente em Hors de combat [sic]. Disto ficou tão convencido pelo menos o General Brenier, que foi feito prisioneiro, e que de facto requereu a um dos oficiais do Estado-Maior britânico para tomar conta das suas propriedades (a sua parte da pilhagem), as quais estavam, segundo lhe disse, em Torres Vedras, tendo descrito a casa onde estavam escondidas.  
Quando se concluiu a batalha do dia 21, tal era o entusiasmo que o resultado tinha excitado entre os nossos Generais, que todos eles, sem excepção, foram até Sir Arthur Wellesley, dando-lhe os parabéns pelo seu sucesso, e exclamando: General, tudo isto é vossa obra! Os homens simpatizaram com os seus líderes, e expressaram em alta voz a sua satisfação pelo seu velho General, como lhe chamavam, ter vencido a batalha.
Depois da batalha decisiva, Sir Arthur propôs enviar a ala direita do seu exército, que tinha sido menos comprometida do que as outras duas divisões, para avançar em direcção a Lisboa, e interpor-se entre essa cidade e a retirada do exército do inimigo. Entendemos que esta medida foi adoptada, e as nossas tropas tomaram a estrada costeira, por Torres Vedras e Mafra. 
As negociações para a capitulação do exército francês continuavam à data dos ofícios de Sir Arthur. Diz-se que nos termos que propôs, o inimigo queria estipular que levaria os seus saques, cuja quantidade é imensa; mas é claro que isto não lhe foi garantido; e não pode haver dúvidas que, muito longe disto, o exército francês e a frota russa estão em nossa posse.
O General Kellermann, que veio propor os termos da capitulação, reconheceu que apesar da artilharia francesa ser observada até aqui como a primeira da Europa, a artilharia britânica na batalha do dia 21 serviu com uma perícia e destreza muito superior. Ao mesmo tempo, é justo dizer que o avanço em coluna das tropas francesas nesta ocasião foi considerado como um dos melhores movimentos que alguma vez foi executado. Ouvimos descrevê-lo como a visão mais sublimemente terrível.
Junot discursou para as suas tropas na manhã [de 21 de Agosto], e imediatamente antes da batalha, disse-lhes: Camaradas, aí estão os ingleses, e atrás deles o mar - ficai calmos e firmes, somente tendes de empurrá-los para o mar! A ordem emitida por Sir Arthur Wellesley às suas tropas era breve e simples: Meus bravos compatriotas! Expulsai os franceses das passagens a caminho de Lisboa; e a sua ordem foi plena e prontamente executada. O General francês Thiébault foi morto**, e o General Brenier foi ferido e feito prisioneiro. Loison estava desaparecido, e supostamente entre os mortos.
Quando o General Brenier foi capturado por um dos nossos granadeiros, ofereceu-lhe a sua bolsa [de dinheiro] e o seu relógio para o deixar partir; mas o granadeiro repeliu a oferta com desprezo, trouxe o General ao seu Coronel, e foi recompensado por Sir Arthur Wellesley com uma bolsa. O General francês expressou ao Coronel inglês muita surpresa pelo desinteresse do granadeiro. Não vos surpreendais, disse o Coronel, nós não viemos como ladrões. Brenier, dirigindo-se então a Sir Arthur Wellesley, disse: pela maneira como combatestes, suponho que tendes os homens escolhidos do exército da Inglaterra. Sir Arthur replicou: De forma alguma, estes são apenas uma amostra do resto.


[seguiam-se as seguintes ordens emitidas pelo General Arthur Wellesley:


O Capitão Campbell trouxe para a Inglaterra, a bordo do [navio] Kangaroo, cerca de vinte guardas de Junot, como amostra dos homens contra os quais lutámos. O General Brenier também estava ansioso para visitar imediatamente a Inglaterra, mas o General Kellermann aconselhou-o a ficar para assistir os seus compatriotas a traçar os termos da capitulação.
O Duque de Abrantes (Junot) e o seu Secretário [Hermann?] enviaram para a Inglaterra cartas abertas para as suas Duquesas, para que possam ser enviados para a França nalguma ocasião. Estas epístolas são muito breves. Apenas asseguram às suas senhoras que gozam de perfeita saúde; e expressam o desejo de que elas também a gozem. Não há uma só palavra sobre batalhas, e muito menos sobre derrotas.






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Notas:

 Neste mesmo número do The National Register foram transcritos todos os documentos relativos a Portugal que o periódico The London Gazette tinha publicado um dia antes.

** Constava no exército britânico (o próprio Wellesley reportou o boato) que Thiébault tinha sido morto na batalha do Vimeiro, o que não correspondia à verdade.

sábado, 3 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (3 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Ontem comuniquei a Vossa Excelência quanto se havia resolvido em Conselho dos Oficiais Superiores deste Exército sobre as espinhosas circunstâncias a que nos conduziu a precipitada e extraordinária Convenção dos nossos aliados. Agora tenho a honra de pôr na presença de Vossa Excelência a cópia da mesma Convenção traduzida do inglês e da carta com que o General Dalrymple acompanhava esta remessa - n.º 1, como também as respostas n.º 2 e n.º 3 que ele deu aos ofícios do Major Aires Pinto de Sousa e aos que ele dirige sobre os roubos dos franceses em Lisboa e o bloqueio de Peniche, de que remeti a Vossa Excelência a cópia (n.º 3 e seguintes) na carta de ontem, sendo muito para admirar que, fazendo-se cargo de haver recebido os dois ofícios últimos, não respondeu ao que fazia parte do Conselho, e era o de maior importância, contentando-se em dizer vocalmente ao oficial que lho levou que, quando se encontrasse comigo, se trataria do seu conteúdo. Na resposta ao ofício do Major Aires Pinto certamente se falta à verdade; pois que não pode [que] se lhe comunicaram as minhas observações sobre o Armistício, a que ele satisfez vocalmente, prometendo modificá-los, e a algumas delas até me respondeu na carta que antedatou, para condizer com a comunicação do tal Armistício
Enfim, eu não sei o que se deva pensar, muito mais vendo agora que o General pretende na carta dita n.º 3 que eu passe as ordens necessárias ao Exército português para cessarem as hostilidades diante de todas as praças, e que faça com que o mesmo seja intimado aos comandantes franceses dela; pois que isto parece comprometer-me dum ou doutro modo, e algumas delas, como a de Elvas, não estão sujeitas às minhas ordens. 
Eu lhe respondo pela carta que Vossa Excelência verá na cópia n.º 4, e como em todo o caso pareça muito conveniente que este Exército todo, ou parte dele, comigo entre em Lisboa, não obstante os meus protestos sobre a capitulação eu me presto à requisição do General, e vou ter com ele uma conferência logo que chegue a Mafra, para onde movo parte do Exército amanhã.
Nesta conferência lhe farei sentir melhor o mesmo que se trata na Memória que acompanha a dita carta e cópia n.º 4, sobre a impolítica e mau efeito que pode produzir o que se acha estipulado, e pretenderei que se ponham por escrito as suas proposições.
Se a completa evacuação dos franceses der tempo a que chegue a decisão que espero de Vossa Excelência sobre o ofício de ontem, eu me referirei em tudo ao que Vossa Excelência resolver com a Junta do Governo; se porém ela se demorar como se demorou a resposta à carta sobre o Armistício, que ainda não recebi de Vossa Excelência, tendo-a solicitado com tanta instância, nesse caso eu julgo indispensável aparecer na capital com o Exército inglês. Permita-me Vossa Excelência lembrar-lhe que os objectos desta natureza, para nós os mais importantes talvez que se têm tratado depois da maldita Revolução Francesa, pedem uma pronta resolução, e que a demora de resposta pode ser da mais fatal consequência e de uma enorme responsabilidade para com o Príncipe Nosso Senhor e a Nação; não me podendo também esquecer de que realmente eu não estou autorizado pela Junta para entrar em tais negociações; excedem as força das minhas instruções; pois que se trata de mais do que a capitulação; mas não posso fazer outra coisa, uma vez que tem tanta demora em chegar um delegado que se me fez esperar para este caso, cuja presença me livraria dos maiores embaraços. Repetirei a Vossa Excelência que a falta de instruções em tais circunstâncias faz a minha posição por extremos espinhosa, e com a maior instância lhe suplico [que] mande alguém encarregado destas negociações, uma vez que me falta as noções por que deva dirigir-me; o qual pode já vir instruído vocalmente por Vossa Excelência de mil circunstâncias a que o papel e a pena não oferecem a mesma facilidade.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Encarnação, 3 de Setembro de 1808.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 26-27 (doc. 72)].

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Nota: 

Apesar de composto no dia 3 de Setembro, este documento foi enviado ao Bispo do Porto com a data de 4 de Setembro, como se pode ver na sua resposta de 7 de Setembro.