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domingo, 11 de setembro de 2011

Anedotas relativas à campanha do exército britânico em Portugal, segundo o periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808



Na batalha do dia 21 [de Agosto de 1808], os franceses tinham no campo cerca de 15.200 homens, dos quais 1.200 compunham a cavalaria. Esta última força não teve a oportunidade de se distinguir, pois não fez sequer uma só carga durante todo o dia; contudo, a sua posição e número era formidável, o que contribuiu para manter embaraçado um corpo considerável de tropas britânicas, ocupado a observar os seus movimentos. Os seus uniformes eram verdes. 
As munições Shrapnel (assim chamadas devido ao seu inventor, o Coronel de artilharia Shrapnel) fizeram, por si só, uma matança terrível entre as fileiras francesas. Elas contêm cerca de 100 balas de mosquete, e são calculadas para explodir a uma determinada distância, espalhando instantaneamente a morte e a devastação em seu redor. 


Fonte: Wikipedia
Exemplo do efeito de metralha
 provocado pelas munições Shrapnel 


A maneira científica segundo a qual o Comandante em Chefe [Wellesley] enfrentou o ataque dos franceses contribuiu materialmente para a derrota destes. O exército francês avançou em três grandes colunas, de forma a carregarem todas elas sobre a esquerda e centro do exército britânico. À medida que cada uma destas colunas avançava, invariável e independentemente da resistência que encontrava pela frente, sofria um ataque em ambos os flancos pelo fogo dos corpos avançados para tal objectivo, através duma pequena mudança das suas posições; desta forma os franceses perderam um surpreendente número de homens antes de poderem usar as baionetas. Em caso algum os franceses chegaram a recorrer a esta última arma, pois cada vez que carregavam, eram instantaneamente batidos. 
O avanço do inimigo para o ataque foi impetuoso e até furioso. À medida que se aproximava, o inimigo saudava os ingleses com todos os epítetos injuriosos que são tão férteis na sua língua, ao passo que, pelo contrário, os ingleses, escarninhamente, davam vivas à sua aproximação. O uniforme do inimigo era singular: azul e com adornos brancos, sobre o qual levava um sobretudo branco de lã, um pouco parecido à bata dum condutor de carroças; o seu chapéu era quadrado, como o dos ulanos [lanceiros polacos]; e as mochilas eram de pele de cabra. A sua mosquetaria foi completamente formidável, particularmente a de dois Regimentos suíços ao seu serviço, que se comportaram com a maior bravura. Os seus atiradores [voltigeurs] foram, em geral, bons, mas muito inferiores em actividade e real serviço aos caçadores [riflemen] ingleses. Proporcionalmente, o número das forças sobre o campo era muito favorável aos ingleses, não se podendo dizer o mesmo acerca do número que realmente participou na acção. Resumindo, a batalha do Vimeiro foi decidida pela superior habilidade militar do Líder e pela bravura superior do soldado; todas as manobras praticadas surgiram dos vários e combinados movimentos de ataque e defesa; ocorreram em ambos os lados repetidas mudanças de posição; e finalmente, a palma da vitória foi o prémio para quem melhor mereceu portá-la, depois duma longa e árdua luta de quase quatro horas.
Em relação aos Generais franceses comprometidos naquele dia, umas poucas palavras não serão desinteressantes. Da conduta pessoal de Junot, que comandou o exército francês na batalha do Vimeiro, pouco se sabe. Os seus Oficiais capturados, e até aqueles de alta graduação, falaram muito superficialmente, e até em termos de reprovação, em relação às suas manobras durante a acção. Pouco se fala do General Loison, apesar deste ter, contudo, a reputação de ser um homem hábil. O General Laborde distinguiu-se na Roliça no dia 17, quando contestou aos ingleses, de forma tão hábil, os passos da montanha. Tem a reputação de oficial experimentado, mas possui um carácter muito feroz. O General Brenier também se distinguiu na batalha da Roliça. Por três vezes conduziu o ataque que resultou tão destrutivo para os Regimentos os 9 e 29 de infantaria a pé, cobrindo assim a retirada de Laborde com o corpo principal do exército, e retirando-se depois em boa ordem, apesar de com muitas baixas. Foi aqui que pereceram os Coronéis Lake e Stewart. Ele não foi, contudo, tão feliz no dia 21, sendo aprisionado na brava carga da brigada do General Ferguson, que rompeu a coluna direita do inimigo, à frente da qual combatia Brenier. É impossível não noticiar aqui algumas circunstâncias relacionadas com a captura deste Oficial. Ele rendeu-se, quando a coluna cedeu, ao Cabo Ross*, do Regimento n.º 71, e imediatamente tirou o seu relógio e dinheiro, que, juntamente com a sua espada, dragonas e faixa, ofereceu ao seu capturador: este nobre homem, contudo, recusou tudo o que lhe foi oferecido, trazendo o General em segurança ao Coronel Pack, e entregando-o a este Oficial. Brenier, espantado, não pôde deixar de exclamar: Que tipo de homem é este; ele prestou-me o maior dos serviços: trouxe-me para aqui em segurança, arriscando a sua vida, e ainda assim recusa tomar-me todas as recompensas que lhe posso oferecer! A esta exclamação observou secamente o Coronel Pack: Nós somos soldados britânicos, Senhor, não saqueadores. Os nossos leitores ficarão contentes, contudo, em saber que tal conduta não deixou de ser recompensada: assim que Sir Arthur Wellesley foi informado deste caso, pediu ao Coronel Pack o favor de graduá-lo sargento no campo de batalha (o que foi cumprido imediatamente pelo Coronel), e deu do próprio bolso uma boa gratificação ao seu generoso camarada. A conduta, nesse dia, dum primo deste mesmo Cabo Ross, que era tocador de gaita de foles do mesmo regimento, é também demasiado notável para ser passada em silêncio. Ao avançar até às suas fileiras, combatendo com bravura enquanto os seus músicos ficaram para trás, foi ferido gravemente na sua perna por uma bala de mosquete; vendo-se incapaz de prosseguir, sentou-se deliberadamente no chão, e tirando as correias do seu instrumento, gritou [no seu gaélico nativo]: Camaradas, não posso mais combater convosco, mas constante será a minha alma se quereis música, e imediatamente começou a tocar a sua música mais bélica com o seu máximo poder e na maior descontracção**
O General Kellermann, que foi enviado por Junot para tratar os termos sobre os quais capitularia o seu exército, comandava a reserva francesa na acção do dia 21. Foi ele que se esforçou para recuperar os canhões tomados pela brigada do General Ferguson, num desesperado ataque sobre os Regimentos n.os 71 e 82, que tinham parado no vale onde os franceses tinham perdido as ditas peças. Contudo, este ataque foi repelido através duma brilhante manobra do Comandante em Chefe, que, posicionado sobre um terreno alto, vendo a desvantagem que estes corpos teriam se fossem atacados no vale, deu-lhes ordens para se retirarem para as alturas, medida esta que foi obedecida muito relutantemente. Chegando às alturas, pararam, dispararam e, descendo a colina, carregaram sobre o inimigo, que a este tempo tinha chegado ao fundo do vale, com tal impetuosidade e efeito, que o derrotaram e o obrigaram a retirar-se completamente com muitas baixas, deixando as seis peças de canhão para trás. Este Oficial é o filho do célebre Marechal do mesmo nome. Ao chegar ao Quartel-General britânico no dia 22, ele não parecia minimamente abatido pelos acontecimentos desastrosos dos dias 17 e 21, nem mostrava o menor sentimento ou compaixão pela desgraça de muitas centenas dos seus camaradas soldados que estavam mortos e morrendo devido às suas feridas por toda a parte. Ao jantar à mesa do General, para a qual foi naturalmente convidado, pareceu surpreendido pelos biscoitos duros que aí havia, e disse: Sinceramente, General, se soubesse que estáveis tão mal providos, ter-vos-ia trazido algum pão fresco!



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Notas:


* Tratava-se na realidade do Cabo Angus Mackay.


** O aludido tocador de gaita de foles escocesa, que se tornou algo famoso por este feito, chamava-se George Clark (ou Clarke).

Plano da batalha do Vimeiro, publicado no periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808






Uma relação da Batalha do Vimeiro
servindo de explicação ao plano da batalha


A Batalha do Vimeiro iniciará uma época importante na nossa História. É um daqueles acontecimentos decisivos que não só terminam uma campanha e aniquilam os recursos do inimigo naquela região, mas que produzem uma superioridade decidida nas operações posteriores dos vitoriosos. Neste aspecto, apresenta uma forte semelhança com as batalhas de Marengo, Ulm e Jena. Ela mudou completamente as características da guerra. Os franceses, que têm tido durante tantos anos o hábito de abrirem fogo e devastarem os Estados dos seus inimigos, e dos seus exércitos subsistirem às custas destes últimos, estarão agora limitados à necessidade de defenderem as suas próprias fronteiras contra uma força invasora. A relação transmitida por Sir Arthur Wellesley é tão clara e judiciosa que seria presunçoso acrescentar-lhe algo.

[Seguia-se um excerto da citada carta de Wellesley a Sir Harry Burrard]


sábado, 10 de setembro de 2011

Carta da Junta de Beja ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)





Beja, 10 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Comandante em Chefe do Exército britânico:

A Junta Suprema desta cidade e província, reconhecendo em Vossa Excelência todas as qualidades e virtudes capazes de suportar o carácter duma nação verdadeiramente grande (a generosa Inglaterra), verdadeira amiga do nosso amado Soberano, tem a satisfação de manifestar a Vossa Excelência os nossos sentimentos mais puros de amizade e de gratidão.
Até agora, nenhuma circunstância desconcertou o patriotismo da cidade de Beja ou das povoações dos arredores, que têm todas, como a própria cidade, continuado a ser subordinadas e unidas, para dar a maior prova do seu amor e fidelidade pelo seu legítimo Soberano, em cujo coração habitam as virtudes.
Todos têm conhecimento da assistência que nos foi enviada pela Grande Nação (pelos generosos ingleses) tal como pelos nossos amigos fraternos, os espanhóis.
Portugal mereceu isto; e as três nações unidas protegerão a religião, restaurarão os Soberanos, e aliviarão os sofrimentos do país. E chega agora o tempo dos opressores experienciarem não só o que merecem enquanto inimigos, mas mais ainda enquanto delinquentes. Vossa Excelência sabe que eles não foram simples intrusos, mas que a sua audácia ilimitada lançava-se contra a dignidade da Casa de Bragança, o que feriu os corações dos portugueses, e que somente pode ser curado pela destruição destes inimigos. Começando por ofender a Sua Majestade humana, eles elevaram os seus insultos até mesmo contra a Divina Majestade, cujos altares saquearam. Os portugueses, fiéis cristãos, e a província do Alentejo, provaram ser homens dignos, unidos à Junta Suprema, estando perfeitamente dispostos a derramar a última gota do seu sangue em defesa da sua religião, do seu Soberano e do seu país. O povo de Lisboa é irmão do povo do Alentejo; e ele irá, em companhia com este, procurá a vitória, ou morrer gloriosamente na batalha contra o vil inimigo, ao qual não se pode dar permissão para deixar a capital sem impunidade, quando eles, pelos seus crimes, ofenderam tanto a religião como a humanidade.
A Junta Suprema tem liberdade de sentimentos, estando segura que Vossa Excelência a receberá favoravelmente, pelos ditos sentimentos estarem em consonância com os vossos. Vossa Excelência, que se uniu a nós para vencer, unir-se-á também para punir.
A Junta Suprema é sensível do pouco uso da vida, quando esta não é arriscada durante algum tempo em defesa da nossa religião ou do nosso Rei. Morrer como mártir pela religião ou pelo patriotismo é, em ambos os caso, morrer com glória, quando a ocasião o requer. E requeremos que Vossa Excelência permitir-nos-á tomar uma oportunidade de digna emolução da nação portuguesa.
Esta Junta Suprema ama, no mais alto grau, a nação britânica; e por Vossa Excelência, o seu valoroso General, eles têm a mais alta consideração.


D. João José Mascarenhas de Azevedo.
D. Silvestre dos Santos Chaves.
D. António Joaquim d'Oliveira.
D. Diego da Buenha Sotto, Major.
D. Manuel do Cabo de Arcez.


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 214 (doc. 127)].

Notícias publicadas na Minerva Lusitana (10 de Setembro de 1808)



Lisboa, 10 de Setembro, pelas 5 horas da tarde. 

A Fundição, [o] Arsenal, e dizem também que o Castelo, estão já guarnecidos pelos nossos aliados ingleses; de que já entrou um grande número em Lisboa com o General Beresford. O forte do Exército português ainda está hoje em Mafra; mas assegura-se que fará a sua entrada amanhã.
Quase todos os franceses estão, há dias, abarracados no Terreiro do Paço, Rossio, Campo de Santana [actual Campo dos Mártires da Pátria], e no largo de São Paulo; e começaram já hoje a embarcar.
Ontem apresentaram-se no Quartel-General inglês muitas pessoas constituídas em autoridade, e entre as quais alguns dos Governadores do Reino.
O Tejo não oferece, há muitos anos, mais vistoso e lisonjeiro espectáculo, pelo considerável número de embarcações que têm entrado.

[Fonte: Minerva Lusitana, 12 de Setembro de 1808]. 

Proclamação dos Comissários britânicos (Proby e Beresford) e francês (Kellermann) encarregados da execução da Convenção de 30 de Agosto (10 de Setembro de 1808)



Proclamação dos Comissários britânicos e francês encarregados de fazer executar a Convenção ajustada entre os respectivos Comandantes em Chefe


Para cumprimento das estipulações feitas na Convenção ajustada para a evacuação de Portugal pelo exército francês*, assentámos que toda a qualidade de propriedade confiscada ou usurpada dos vassalos ou outras pessoas residentes em Portugal, ou dos Palácios Reais, Bibliotecas Públicas e Museus, ou de outras pessoas, ainda existente em Portugal, deveria ser restituída. 
Nós, os Comissários encarregados da execução da dita Convenção, visto que Sua Excelência o Comandante em Chefe do Exército francês o tem já feito saber ao seu Exército**, houvemos também por justo e conveniente fazer publicar o mesmo, para instrução de todos os que nisto forem interessados; e para facilitar a restituição ou o recebimento de tais propriedades, julgámos conveniente nomear uma Comissão composta de três pessoas, a saber: o Senhor Tenente-Coronel Trant, o Senhor António Rodrigues de Oliveira, e Mr. Debluir, Comissário de Guerra, que se juntarão no Largo do Loreto n.º 8, os quais são nomeados a fim de receber, inquirir e julgar de todas as reclamações desta natureza; devendo receber a devida execução as suas ordens de restituição de propriedade, seja quem for a pessoa a quem elas forem dirigidas. 
A fim de [as]segurar a conservação dos objectos ou móveis que foram tirados das casas Reais ou públicas, para uso e cómodo de quaisquer Generais, Administradores ou outros indivíduos do Exército francês, declaramos que as pessoas que possuírem propriedades sequestradas ou usurpadas ficam responsáveis por elas, seja qual fora a casa ou lugar para onde ou donde tenham sido removidas. 
Estes mesmos possuidores devem trazer a descrição de todos os móveis, com o nome de seus proprietários, ficando obrigados a todo o seu conteúdo; o que será entregue somente depois da prova legal do direito de propriedade. Os possuidores dos artigos acima mencionados deverão apresentar nesta Comissão uma relação exacta de tudo quanto possam ter em seu poder das referidas propriedades. E todas as pessoas poderão dirigir-se seguramente a este Tribunal.
Julgámos igualmente necessário fazer saber a todos aqueles a quem pertencer, que toda a compra dos artigos tirados de Arsenais públicos ou armazéns desde o dia 30 de Agosto, ou [de] qualquer objecto que legalmente se provar haver sido ilegitimamente vendido ou distraído em qualquer tempo ainda anterior ao dia 30 de Agosto, será nula e de nenhum efeito; e os artigos usurpados e os compradores sujeitos à pena decretada pelas Leis. 
A Comissão empregada para receber as reclamações e facilitar a restituição das propriedades terá as suas sessões em casa do Senhor António Rodrigues de Oliveira, n.º 8 no Largo do Loreto. 
Lisboa, 10 de Setembro de 1808. 

O Comissário francês para a execução do Tratado de 30 de Agosto, 
O General Kellermann. 

W. C. Beresford, Major General 
Proby, Tenente Coronel. 
Comissário britânicos.


[Fonte: Esta proclamação foi publicada originalmente no dia 11 de Setembro, através dum edital que continha tanto a versão original em inglês como a respectiva tradução em português, que acima transcrevemos. Curiosamente, consta na última página (de 3) do edital original que o mesmo tinha sido impresso na Impressão Régia (título que, como já referimos, o Governo francês chefiado por Junot tinha substituído pelo de Impressão Imperial e Real), sendo assim, pelo menos aparentemente, o primeiro documento que foi publicado novamente com o seu antigo título. A referida versão em inglês foi publicada posteriormente in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 195 (doc. 86). Em português, a proclamação foi também publicada no Correio Braziliense, Londres, Outubro de 1808, pp. 408-409; e posteriormente, em pelo menos outras duas fontes: Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 241-243 (contém o texto original em inglês e a tradução em português); e Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 120-121. Finalmente, devemos mencionar que no Arquivo Histórico Militar encontra-se uma cópia manuscrita deste documento traduzido para o francês (cota: PT AHM/DIV/1/14/162/41)]. 

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Notas:

Deve notar-se que, nesta data, apesar de já terem começado a surgir rumores sobre a Convenção (só depois chamada de Sintra) que os franceses tinham assinado com os britânicos, o grande público ignorava completamente o conteúdo exacto dos artigos da dita convenção, que eram então conhecidos, em toda a sua extensão, por pouquíssimas pessoas (entre as quais se contavam o General Bernardim Freire de Andrade, o seu Ajudante de Ordens, e todos ou pelo menos alguns dos membros da Junta de Governo do Porto. 

*Através das ordens publicadas no dia 6 de Setembro e no dia seguinte

Edital da Junta do Porto sobre a organização do Corpo de Cavalaria da Guarnição do Porto (10 de Setembro de 1808)





Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Mafra, 10 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Acabo de receber ordens da Junta do Governo Supremo Provisional estabelecida na cidade do Porto, que determinam [que] combine com Vossa Excelência a parte que devo ter na entrada e ocupação de Lisboa, como também sobre a posição e comportamento, tanto do Exército do meu comando, como de todas as mais tropas portuguesas que se acham empregadas em qualquer parte deste Reino, e principalmente das que estão [empregadas] no bloqueio de Almeida; e que em consequência do que ajustar com Vossa Excelência, assim o faça observar pelas sobreditas tropas, expedindo para isso as ordens necessárias. E como tudo isto exige detalhes e combinações que se devem prosseguir sem interrupção, torno a enviar junto a Vossa Excelência o Major Aires Pinto, oficial da minha particular confiança, e a quem encarrego de tratar sobre os mesmos assuntos, e de me comunicar o que se ajustar, para que eu possa expedir as ordens convenientes da forma que pela sobredita Junta de Governo se me determina.
Deus guarde Vossa Excelência.
Quartel-General de Mafra, 10 de Setembro de 1808.
Muito atento e respeitoso servidor,

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 58 (doc. 101). Este texto foi originalmente publicado em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 210 (doc. 117)].

Instruções do General Bernardim Freire de Andrade ao Major Aires Pinto de Sousa (10 de Setembro de 1808)



O Senhor Major Aires Pinto de Sousa Coutinho passará imediatamente ao Quartel-General do Exército inglês, estabelecido em Oeiras, a fim de tratar com o General em Chefe do sobredito Exército, e na conformidade do que se me determina pela Junta do Governo Supremo Provisional estabelecido na cidade do Porto, dos seus objectos:


1.º Combinar a parte que devo ter na entrada e ocupação de Lisboa: sobre este este assunto deve o Sr. Aires Pinto saber que, tendo-me requerido o General em Chefe do Exército inglês um destacamento de três mil homens, que deveria entrar em Lisboa com outro destacamento maior, que comanda o Tenente-General inglês Hope, se mandou reunir este Corpo em Bucelas, aonde deve ficar hoje; que este Corpo, que será comandado pelo Brigadeiro Manuel Pinto Bacelar, se compõe de um Batalhão de Infantaria escolhida dos três Regimentos de Almeida, Penamacor e Bragança, da força de quinhentos homens; de outro Batalhão espanhol de igual força; dos Corpos que comanda o Brigadeiro Marquês de Valladares; de um Batalhão de igual força do Regimento n.º 18, ou 2.º do Porto; de outro de igual força do Corpo do Regimento de Infantaria n.º 21, ou Valença; e de toda a Infantaria da Guarda Real da Polícia, que aqui se tem juntado, e que se mandou logo organizar do mesmo modo que o estava antes de abandonar Lisboa, a fim de poder ser logo empregada, como parece conveniente a todos os respeitos, no mesmo serviço que fazia naquela capital; fazendo-se muito necessário que se mande logo incorporar a este Corpo uns cento e tantos soldados que se farão reunir a Sintra ao Exército inglês, e que ainda ali se conservam. O Corpo de Cavalaria se compõe de toda a Cavalaria da Polícia, que se manda reorganizar do mesmo modo e com as mesmas vistas; de dois esquadrões completos do Regimento de Cavalaria n.º 6; de uma Companhia de Cavalaria espanhola que nos tem acompanhado; e de oitenta cavalos do Exército do Brigadeiro Bacelar; o que fará ao todo uns quatrocentos e tantos cavalos; [e] finalmente de um destacamento de Artilharia, com 2 peças de 6 e 4 de 3. Sobre este objecto há [ade]mais que considerar que este destacamento não deve entrar em Lisboa antes da evacuação do Exército francês; mas que logo que ela se fizer, parece conveniente que o comando militar da cidade de Lisboa se incumba a um General português.


2.º Quanto às participações relativas às guarnições das praças de Almeida, Peniche, Elvas, etc., e sua ocupação, que deve lembrar-se, que todas estas coisas devem ser feitas pelo General em Chefe do Exército inglês e por tropas inglesas, em virtude do que se acha estipulado na Convenção definitiva, e que a nós só nos pode pertencer avisar as tropas que as bloqueiam, do que se acha estipulado; porém, lembra-me a necessidade que há de não retardar a ocupação de Almeida, não só pelo perigo que há de que alguma divisão francesa vinda de Espanha, visto que este país se acha ainda ocupado por eles, se dirija para ali, como pela necessidade que há por este motivo de aprovisionar logo, e guarnecer convenientemente esta praça, que eles hão de deixar no maior abandono, como fazem em toda a parte; não serão precisas grandes forças para esta ocupação, e as mesmas tropas destinadas para esta diligência poderiam servir de escolta à guarnição que, conforme os termos do Tratado, deve ir embarcar no Porto, fazendo-se substituir por tropas portuguesas, que se poderiam pôr ao seu alcance para este efeito, logo que isto se combine e ajuste com o mesmo General em Chefe inglês, como agora se pretende. 


Quartel-General de Mafra, 10 de Setembro de 1808.


Muito atento e respeitoso servidor,

Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 59-60 (doc. 102)].

Carta do General Wellesley ao Brigadeiro Manuel Pinto Bacelar (10 de Setembro de 1808)




Lisboa, 10 de Setembro de 1808.


Senhor:


Recebi ordem do Comandante em Chefe do Exército inglês de marcar um lugar no qual podeis tomar [o] vosso terreno na vizinhança das tropas inglesas debaixo do meu comando, que estão em Santo António do Tojal; parece-me que a mais conveniente posição que vos podeis tomar é na vizinhança do Zambujal, com a vossa direita para a parte do rio Trancão.


P.S. O Quartel-Mestre-General do Departamento irá consequentemente para marcar o terreno aonde vos deveis mandar um oficial para o ver.
Eu tenho a honra de ser vosso obediente e mais humilde criado.


Wellesley




Está conforme com o original, 
Agostinho António da Fonseca e Costa,
Sargento mor de Infantaria, Secretário do Exército de Observação.

[Fonte: O texto original desta carta não se encontra na correspondência publicada de Arthur Wellesley, pelo que transcrevemos a tradução publicada por Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 58 (doc. 100)].

Carta do General Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (10 de Setembro de 1808)



10 de Setembro de 1808.


Senhor:


Tenho a honra de vos informar que, segundo ordem do Comandante em Chefe, determinei que o corpo português comandado pelo Brigadeiro-General Bacelar esteja posicionado no Zambujal, perto de St. António do Tojal, antes da sua marcha para Lisboa.
Tenho a honra de ser o vosso mais obediente e humilde servidor,


Arthur Wellesley

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 57 (doc. 99)].

Notícias publicadas no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro (10 de Setembro de 1808)



Rio de Janeiro, a 10 de Setembro de 1808.


A Europa devia prever há muito a sorte do Sumo Pontífice, especialmente desde que foi obrigado a ir a Paris e a assinar a Concordata. O Santo Padre viu enfim que nada conseguia pela moderação evangélica que até aqui o caracterizava, e que a causa da religião exigia a nobre resolução que tomou. O capitólio tão celebrado na História não podia escapar por mais tempo aos desígnios do Imperador dos franceses. Roma deve suscitar-lhe muitas lembranças. A divisa do povo italiano acha-se neste verso de Alfieri!

Siam servi si, má servi ognor frémenti. 
[Sejamos servos, sim, mas servos sempre trémulos].

Ainda que estivéssemos preparados para acontecimentos desta natureza, quase que não pensávamos ver derrubar ao mesmo tempo o trono dos Papas, e roubar o da Espanha, a mais antiga Dinastia da Europa. O Governo francês ainda há pouco engodava a Prússia enquanto atacava a Áustria, enganava a Áustria enquanto combatia com a Prússia e Rússia, fazia protestações de amizade a Portugal, e disfarçava com a Espanha enquanto tinha a contender com as principais Potências do Norte, mandava a Rússia invadir a Suécia enquanto se apoderava da Dinamarca; mas agora empreende juntamente a conquista do Indostão, a ocupação da Pérsia, a desmembração do Império Otomano, a invasão da Sicília, da Suécia, da Espanha, a sujeição de Portugal, a usurpação dos bens e privilégios da Igreja, a protecção da América espanhola. Se ainda pudesse haver uma só pessoa que acreditasse de boa fé a doutrina francesa, bastariam estes factos para lhe abrir de todo os olhos; mas a rebelião de Constantinopla, os levantamentos e emigrações continuadas dos leais portugueses, a resistência de todos os espanhóis, cujo carácter sério e persistente é bem conhecido, a magnânima resolução de Sua Santidade, e o procedimento da Casa de Áustria são provas evidentes de que a Europa não crê mais em enganos.
Monitor continua de vez em quando a ameaçar os incrédulos. Não há muito tempo que dizia que brevemente não restaria outro recurso a El-Rei de Suécia senão de ir reinar para alguma parte da América. Se esta frase do Monitor envolvesse alguma insinuação a nosso respeito, responder-se-lhe-ia: "Reinamos na melhor porção da América, e a prova disso são os sábios Actos do Governo do Nosso Amado Soberano. O Príncipe Regente Nosso Senhor imediatamente depois da sua chegada mandou abrir os portos destes seus Domínios ao Livre Comércio de todas as Nações Amigas, e declarou guerra àquela que invadiu aleivosamente o património que transmitiu o primeiro dos nossos Reis à sua Augusta Família Real, na cessão da qual jamais consentirá, e sobre o qual conservará sempre os mesmos direitos que tem ao vasto Império que herdou do Senhor Rei D. Manuel.
Entrou neste porto a 19 do passado [mês] uma fragata inglesa, vinda de Gibraltar, que trouxe as importantes notícias que se seguem. Em Cádis, depois de um renhido fogo das barcas canhoeiras e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais se comprehendem muitos Oficiais. Murat acha-se cercado no sítio do Bom Retiro [sic]. Todas as províncias da Espanha têm pegado em armas contra a tirania do Perturbador do Género Humano. As tropas francesas, que se acham dispersas, estão na maior consternação. O nosso fiel Aliado El-Rei da Grande [sicBretanha tem prestado todos os socorros aos espanhóis. A Junta do Governo Provisório estabelecida em Sevilha declarou guerra à França, e ajustou um armistício com os Chefes ingleses. Os nossos leais compatriotas manifestam o mesmo espírito, e já recobraram a importante posição de Elvas. O General Junot refugiou-se no Castelo de S. Jorge e dali oferece capitular. A cidade do Porto arvorou a Bandeira portuguesa.
Correu aqui notícia vinda por pedestres de Goiazes [sic], que os franceses, tendo feito um desembarque no Pará com aparências de amizade, o Capitão General os rechaçara completamente, ficando vivos só os prisioneiros; porém, isto ainda merece confirmação.
Igualmente correu voz que um corsário francês desembarcara 20 homens na costa do Pará ou Maranhão para procurar à força mantimentos, e que toda essa gente fora morta, ou feita prisioneira; tendo-se feito à vela o corsário bem embaraçado no porto em que tocaria, pois Caiena se diz bloqueada por duas fragatas inglesas.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta do Tenente-Coronel Murray ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro 1808)



No campo, 9 de Setembro de 1808.




Estou bastante triste, meu General, por não ter sabido que Vossa Excelência foi ao Quartel-General [britânico] ontem, pois teria tido um verdadeiro prazer em vos rever, e não teria deixado de aproveitar uma ocasião tão boa para voltar a assinalar o meu respeito por vós.
Podereis esperar, meu General, que em tudo o que dependa de mim, a boa inteligência entre as duas Potências será mantida. Eu não sei fazer muito, mas deve-se esperar que não serão necessários grandes esforços. Por aquilo que se diz, as nossas tropas deverão entrar em breve na capital. 
Duas divisões já receberam ordens para estarem prontas a marchar. Espero que cheguem a tempo de secundar os esforços louváveis de Vossa Excelência, porque seria uma verdadeira infelicidade se ocorressem tumultos na capital. 
Creio que as nossas tropas reunir-se-ão com prazer aos habitantes, a menos que estes estejam sob as armas.
Tenho a honra de ser, meu General, o vosso servidor mais humilde e mais obediente,


Murray.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 57 (doc. 98)].

Explicação e ajustes sobre diferentes artigos da Convenção de 30 de Agosto (9 de Setembro de 1808)



N.º 1. Entende-se que o exército [francês] não conservará no seu tesouro mais prata ou moeda para além da necessária para três meses de soldo dos oficiais Generais, oficiais, suboficiais, e soldados, administradores e empregados militares, conforme o último relatório da revista do mês de Agosto, feito pelo senhor inspector em chefe das revistas; a prata em barra proveniente das contribuições extraordinárias do reino será aplicada no pagamento das dívidas do exército relativas aos fornecimentos das suas subsistências até ao dia de partida da última divisão, e todo o excedente, seja em barra, seja em moeda cunhada, que reste no tesouro do exército para além do dito soldo do exército, será vertido no Erário do Reino.
O senhor inspector em chefe das revistas e os senhores recebedores e pagadores gerais do exército entender-se-ão com o senhor Drummond, comissário das contas, e entre este último e o senhor Frousset, ordenador em chefe, para verificarem a liquidação da subsistência do exército, e seu embarque definitivo.

N.º 2. Entende-se que todos os efeitos provenientes dos armazéns ou depósitos públicos que tenham sido comprados por particulares [do exército francês], sem que estes possam justificar a legalidade da venda por actos públicos de autoridade francesa anteriores à ratificação da Convenção, serão retirados das mãos dos compradores, que perderão o dinheiro que pagaram.

N.º 3. Entende-se que todos os indivíduos pertencentes ao exército francês executarão fielmente a devolução daqueles objectos móveis ou de arte subtraídos dos estabelecimentos públicos e particulares que ainda não tenham sido enviados para fora de Portugal, e que todos os que forem convencidos de transgredirem as disposições das ordens do dia relativas de 6 e 7 de Setembro não desfrutarão das estipulações da Convenção de 30 de Agosto.

N.º 4. Entende-se que para assegurar a conservação dos bens móveis ou de arte retirados das Casas Reais, particulares ou outras, para utilidade, embelezamento ou agrado dos Generais, administradores ou outros indivíduos do exército que as ocuparam ou que as ocupam, os zeladores das ditas casas estabelecerão guardiões e tornar-se-ão responsáveis por elas, para que depois da partida daqueles que as habitaram ninguém possa levar nada sem ter justificado [a origem] da propriedade; e requer-se-á aos ditos zeladores para que, sem demora, preparem relações com os bens dos diversos proprietários, para que os seus móveis sejam devolvidos a tempo e no devido lugar.
Estas relações serão enviadas aos Generais [sic] escolhidos pela Comissão encarregada da execução da Convenção de 30 de Agosto, os quais terão o poder de receber e verificar as pretensões e reclamações que lhes forem transmitidas sobre o que se menciona no parágrafo anterior, e de aplicarem a justiça em tudo o que seja possível.
Excluem-se de toda a restituição todos os cavalos ou mulas que, através de ordem regular, saíram das Cavalariças da Coroa antes da ratificação da Convenção de 30 de Agosto.
Oeiras, 9 de Setembro de 1808.

W.C. Beresford, Major-General.
Proby, Tenente-Coronel.


O General de Divisão, 
Comissário francês,
Kellermann.

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 200 (doc. 94). Existe uma outra tradução deste documento, cujo original é em francês, publicada por Acúrsio das Neves, na sua Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, 1811, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, pp. 248-255].

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Depois de haver estado esta manhã com Vossa Excelência, recebi os ofícios da Junta Suprema de Governo [do Porto], e não se fazendo neles menção da marcha de um destacamento deste Exército [português], que deva entrar em Lisboa enquanto os franceses a ocupam, e ao mesmo tempo reflectindo que as tropas do Exército que comando não serão de modo algum próprias para calmar uma comoção popular, porque na alternativa de obrar contra os franceses ou contra os habitantes de Lisboa, seguramente tomariam o partido de seus compatriotas; desejando evitar toda a ocasião de comprometer as minhas tropas, estou decidido a não fazer entrar na capital destacamento algum português enquanto nela existirem tropas franceses; logo porém que os franceses evacuem Lisboa, estará pronto o destacamento que Vossa Excelência me requereu, e que nesse caso poderá servir utilmente para manter a polícia e tranquilidade da capital; e para estar à mão de poder logo entrar para esse fim, oo mando reunir em Bucelas, de donde com aviso do General Hope marchará. Espero da prudência de Vossa Excelência que aprovará esta minha resolução, como a mais própria para evitar os males que mais devemos recear; o que acabo de expor a Vossa Excelência e outras muitas considerações me obrigam a lembrar a Vossa Excelência o que já hoje tive a honra de dizer-lhe, que seria de muitíssima conveniência a pronta saída dos franceses de Lisboa, para qualquer parte aonde embaraços de vexar os povos, ficassem cobertos pelas forças inglesas. Aproveito esta mesma ocasião de remeter Vossa Excelência a carta inclusa da Junta do Governo Supremo.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 49-50 (doc. 93). Este documento foi publicado originalmente em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 114)].

Assento do Conselho Militar do Exército comandado por Bernardim Freire de Andrade (8 de Setembro de 1808)



Tendo o Senhor General Comandante do Exército português feito convocar em Conselho os Oficiais abaixo assinados, a quem comunicou as ordens que hoje recebeu da Junta Suprema do Governo, em data de 5 do corrente, que vão adiante copiadas, e comparando-se neste Conselho as mesmas ordens com os ofícios e procedimentos que já tinha feito o Senhor General, e perguntando-se se o que estava feito era o que se devia fazer a elas mais completamente:
Assentou-se unanimemente que se tinha feito tudo quanto se podia fazer, vistas as instruções que o Senhor General tinha recebido do Governo de obrar de acordo com o Exército inglês, e a resposta que o General deste Exército tinha dado às instâncias que oficial[mente] lhe fizera o Major Aires Pinto de Sousa de sustentar a Capitulação [tantoquanto a sua influência ou poder se pode supor [que] se estenda pelas Leis ordinárias e sabidas da Guerra, o que unanimemente se entendeu por obstar com mão armada às operações que tentássemos em contravenção da mesma Capitulação; não restando outra coisa senão reiterar as instâncias a fim de minorar os males que pode sofrer o povo de Lisboa, acelerando a evacuação da mesma cidade.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire d'Andrada [sic].
D. Miguel Pereira Forjaz.
Nuno Freire d'Andrada.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca.
Filipe de Sousa Canavarro.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 55 (incluído no doc. 95)].

Carta do General Dalrymple ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (8 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 8 de Setembro de 1808.




Senhores: 


De acordo com o relato do Tenente-Coronel Murray sobre aquela parte da Convenção relativa às barras ou lingotes de prata, a oferta do General Kellerman parece justa, e podemos aceder à mesma.
A ordre du jour [sic] do Comandante em Chefe do Exército francês também é satisfatória, caso se torne pública em Lisboa; e deve-se ter em conta que as reclamações são apoiadas por nós, e que os reclamantes estão protegidos do insulto e serão compensados.
O Tenente-General Hope partiu ou está partindo para Lisboa; ele terá plenos poderes para fazer aquilo que seja necessário, seja pela persuasão, seja pela força, para manter a paz pública. 


H. W. Dalrymple


Diário do General John Moore (8 de Setembro de 1808)



Paço de Arcos, 8 de Setembro de 1808.


No dia 5, todo o exército marchou em diversas colunas e tomou esta posição, com a ala direita sobre o mar junto a este lugar, estendendo-se o centro ao longo duma ravina íngreme e acidentada até onde a mesma termina, e onde está postado o corpo do Major-General Paget. Em geral, as tropas formam uma longa linha, com grandes intervalos entre as divisões. O exército reunido nesta posição está dividido, de acordo com a nova organização, em quatro divisões, cada uma delas comandada por um Tenente-General, ademais dum Corpo Ligeiro, comandando pelo Major-General Paget, e dum corpo chamado de Reserva, comandado pelo Major-General Spencer. A cavalaria é comandada pelo Brigadeiro-General Charles Stewart; a divisão de Sir Arthur Wellesley está no outro lado de Lisboa. Desembarcaram-se as tendas, e agora, pela primeira vez desde que desembarcaram, as tropas estão abrigadas. Estamos a cerca de seis milhas de Lisboa, e os navios de guerra e os transportes estão no porto. A confusão que existe nos diferentes departamentos excede tudo o que já tinha testemunhado.
Sir Hew, como nunca teve experiência de comando, parece muito desorientado em relação à forma como deve trabalhar com os diferentes chefes dos departamentos; e a tropa sofre. Entretanto, ele está ocupado com a sua correspondência com o Governo, com os portugueses, e com os franceses, que têm dado grandes problemas aos Comissários [Proby e Beresford] enviados a Lisboa para supervisionar a execução do tratado, devido à sua má fé e às suas disposições astutas, que, se não lhes eram naturais antes da Revolução, têm sido características suas desde então. Quando ontem conversei com Sir Hew, este falou-me sobre o que poderão ser as nossas operações futuras. Mostrou-me um ofício de Lord Castlereagh, que, como é habitual, era um palavreado sem sentido aparente, propondo que os britânicos deveriam agir, como ele dizia, sobre o flanco e retaguarda dos franceses de Santander a Gijón, enquanto os espanhóis os pressionariam pela frente. Este é um tipo de linguagem sem nexo utilizado por homens que, nos seus escritórios, supõem ser militares, mas que não sabem até que ponto tais medidas são susceptíveis de ser postas em prática. Parece que os nossos ministros não têm comunicado com os líderes na Espanha, nem estão informados sobre os seus recursos ou planos. Sem um conhecimento disto, e sem uma combinação com os espanhóis, não posso ver como é possível determinar onde e como vamos agir. 


Carta do Bispo do Porto ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)





Porto, 8 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Já tive a honra de oferecer à vossa presença os meus devidos sentimentos de respeito e gratidão à pessoa de Vossa Excelência, pelas gloriosas medidas através das quais Vossa Excelência efectuou a restauração deste reino; e devo agora repetir os meus agradecimentos com uma obrigação muito maior, por ver Vossa Excelência tão interessado na restituição da Regência instituída por Sua Alteza.
Excelentíssimo Senhor, este governo [=Junta Suprema do Porto], que não desmereceu a sua consideração de governo provisório nacional, foi instituído apenas para expelir deste reino um tirano usurpador, tão inimigo da Inglaterra como de Portugal, e que usou como pretexto para uma invasão e usurpação iníqua deste reino, uma objecção à fiel e indispensável correspondência que o Príncipe Regente mantinha e que deve manter com a sua mais antiga aliada, a Grã-Bretanha.
Este glorioso fim, planeado por esta Junta de governo provisório, foi declarado logo no início da sua instituição original, e tem sido provado por numerosos documentos sobre as suas operações públicas e privadas, faltando somente aquele último que sirva para suplicar a Vossa Excelência, como prova maior, que sejais servido a auxiliar, tanto quanto for possível, a rápida restituição da Regência. E para tal propósito, há três dias partiu uma deputação deste governo para requerer a Vossa Excelência, como o maior dos favores, a vossa ajuda ao encaminhamento das nossas vontades, que devem corresponder com as de Vossa Excelência. A dita deputação está autorizada e instruída para, tanto quanto for possível, ajustar imediatamente este negócio, e para explicar, tão plenamente como eu o faria, todas as informações que podem ser necessários a Vossa Excelência; e prontamente aquiescerei a todas as resoluções, exceptuando aquela que me nomeia como membro do conselho da Regência, pois sei, melhor que qualquer pessoa, que é necessário, tanto para o bem da causa pública e daquelas províncias do norte, como para a manutenção da boa harmonia com as nações aliadas, que não me mova donde estou colocado, tanto por Deus como por Sua Alteza Real o Príncipe Regente.
Tenho a honra de ser, com as declarações mais sinceras de respeito,
O mais obsequioso e fiel servidor de Vossa Excelência,


Bispo, Presidente e Governador. 


Pastoral do Arcebispo do Évora (8 de Setembro de 1808)



Dom Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Arcebispo Metropolitano de Évora, com Jurisdição Eclesiástica nesta Diocese de Beja, etc., etc., etc. etc. 

A todos os Fiéis da mesma Diocese, Saúde e Bênção. 

Salvo dos fatais destroços da capital da minha metrópole, Évora, facilmente aproveito esta graça para repetir as observações necessárias na outra minha antiga e agora canonicamente por mim administrada capital do Bispado de Beja. Moisés temeu os destroços dos seus irmãos no Egipto, e protestou a Deus visitar e observar os que ainda viviam – Vadam et revertar ad fratres meos, ut videam si adhuc vivunt [Deixai-me voltar a meus irmãos, para ver se ainda vivem]. Esta imponderável Graça de achar os bejenses sãos e salvos da tristíssima ruína, comove a entranha para agradecer a Deus tão sensível benefício. Seus efeitos devem ser tocados em particular para animar os povos. Ainda vivemos, amados bejenses. Ainda nos resta o mesmo espírito de vida e doutrina. Ainda a Graça Divina nos fez superiores à turbulenta animosidade que se atreveu contra as nossas respirações e alento. Sim, é favor extraordinário da Providência que nos vejamos e escutemos uns aos outros, dizendo-nos: a força bruta dos Demónios, que tanto mal sugeriram aos homens e fizeram; mas achou de encontro a Dominação Celeste para nos proteger e defender, como respeitamos no Bem-aventurado Arcanjo que neste feliz território por nós intercede e nos defende, agora mais do que nunca verificou a sua denominação: Michael quis ut Deus. Sim: a Omnipotência Divina ainda foi servida conservar nestes lares as demonstrações da sua Virtude Infinita. Ainda mostra querer a continuação de seus auxílios para connosco. Ainda faz enternecer vosso Pastor à vista da vossa Religiosa Piedade; à vista da vossa resignação para com as permissões da Sua Justiça; e à vista, digo, de vossas carinhosas e constantes afeições para a vossa antiga devoção ao Senhor Sacramentado. Não é possível que vos depreendam desta filial afeição quaisquer outros cuidados temporais. Nem o necessário emprego para as coisas da Milícia, nem os cuidados económicos e domésticos, nem o estudo, nem as letras tenho conhecido serem capazes de vos desviarem e separar do Sacramento, que em boa hora penetrou vossos corações na adoração da Santíssima Eucaristia. A este Maior dos Mistérios atribuo a preservação de maiores males, a conservação da vida nas instantes angústias, sabendo entreter-se judiciosamente com as temporalidades indispensáveis nos ofícios da vida, nos empregos honrados que a distinguem, no amor da Pátria que a coonesta. Alegre com a invenção deste Tesouro, com a animação dos vossos espíritos e constância de vossos propósitos pela Religião, pela Justiça e Lei; vendo-vos interessados pelo Amado Príncipe e pela Pátria, enquanto me não repito a vós e a vossos festivos clamores de alegria, volto a outros indispensáveis ofícios, tendo presentes a minha Palavra e a vossa Fé.
Dada em Beja sob o nosso sinal e selo das nossas armas aos oito de Setembro de mil oitocentos e oito.

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls. 100-100v (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo)].

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Nota: 

No dia 13 de Agosto de 1808, Frei Manuel do Cenáculo foi preso em Évora, segundo ordens da Junta de Beja, acusado de colaboracionismo com os franceses, os quais, de facto, segundo as suas próprias palavras, tinham-lhe recomendado que governasse Évora na sua ausência (o exército francês abandonara a cidade no dia 1 de Agosto, depois de ter assassinado pelo menos 220 pessoas). Recordemos que Cenáculo já era presidente da Junta de Governo de Évora (juntamente com o General Paula Leite) antes dos franceses entrarem na cidade; não obstante, foi decretada a sua prisão, como acima dissemos. Foi transportado para Beja, onde chegou a 16 de Agosto, tendo depois a Junta de Beja declarado que lhe concederia a libertação se ele dirigisse aos povos uma pastoral "análoga às circunstâncias". A pastoral acima transcrita foi precisamente a sua resposta; contudo, não se chegou a publicar, pois, segundo as suas próprias palavras, a mesma "foi à censura, e lida no consistório disse o Presidente: Está muito escura. O Arcebispo não quer desenganar-se em falar claro a favor desta Regência?". (Por Regência entenda-se aqui a Junta de Beja, e faça-se aqui um aparte para acrescentar que estas lutas de poder e pela primazia foram nesta época bastante comuns e constantes em toda a Península Ibérica, que podia ter sido palco de várias guerras civis, se a mesma não tivesse entretida, pelo menos por enquanto, com um "inimigo comum"...). 
Como muitas outras vítimas do maniqueísmo político das auto-apelidadas Juntas (Supremas e/ou Provisórias) de Governo, na maior parte das vezes impelido pelo próprio povo, Cenáculo, ao não se pronunciar explicitamente contra os franceses, e, sobretudo, como lhe apontou o censurador, nem sequer a favor da Junta de Beja, acabaria por permanecer preso até ao início da segunda semana de Outubro do mesmo ano, já depois dos próprios Governadores da Regência terem instado à dita Junta para o libertar. Veja-se ainda, a este propósito, a segunda parte da sua memória sobre estes acontecimentos, adiante publicada.