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sexta-feira, 22 de julho de 2011

The Beast as described in the Revelations, Chap. 13. Resembling Napolean Bounaparte, caricatura de Thomas Rowlandson (22 de Julho de 1808)





Fonte: Brown University Library

A Besta como descrita no livro do Apocalipse, Cap. 13.
Semelhante a Napoleão Bonaparte.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 22 de Julho de 1808.




E vi subir do mar uma besta que tinha [...] sete cabeças, [...] e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia. [...] E a besta que vi era semelhante a um leopardo [...] e a sua boca como a de um leão. [...] E vi uma das suas cabeças como que ferida mortalmente [...]. 
(Ap., 13: 1-3).


Inspirando-se, como indica o título, no 13.º capítulo do livro do Apocalipse, esta caricatura representa a besta de sete cabeças erguida do mar (neste caso, a Córsega natal de Napoleão), a qual ostenta o número 666 no seu corpo de leopardo (semelhante ao do "tigre" que o mesmo autor já tinha representado duas semanas antes, na caricatura intitulada The Corsican Tiger at Bay). Esta besta monstruosa é atacada por um guerreiro que representa a Espanha, inclusive na sua própria pose (reforçada pela capa), que se assemelha aos contornos geográficos do dito país. A mitra que ostenta (também presente noutras caricaturas, como por exemplo The Noble Spaniards..., King Joes Reception at Madrid, ou Sancho alias Joe Butt's...), portando as inscrições S. Pedro e Roma, alude ao facto dos monarcas espanhóis serem conhecidos como os Reis Católicos, enquanto a lâmina da sua espada representa um verdadeiro espanhol [de] Toledo, o seu escudo a Catalunha, o seu braço direito o Patriotismo espanhol e o antebraço as Astúrias, o seu boldrié Madrid e a sua coxa esquerda Córdova. O seu pé direito, que representa Cádis, pisa uma serpente, em alusão à rendição incondicional da esquadra de Rosily, reforçada pela presença, ao fundo, da esquadra do Almirante Purvis. Este personagem, vestido como um nobre espanhol, declara que O verdadeiro Patriotismo é subjugar assim a besta monstruosa e acalmar a fúria da Guerra!!!





Este herói deu um golpe certeiro numa das cabeças da besta (precisamente a de Napoleão), a qual está presa por um fio, se bem que continuando a largar chamas da boca. As outras seis cabeças da Besta ostentam caretas selvagens e arreganham os dentes. As suas coroas indicam que são os monarcas da Rússia, Prússia, Dinamarca, Holanda, Nápoles e Áustria. 



Da cabeça quase completamente decepada de Napoleão caiem quatro coroas (duas da França, uma de Portugal e outra da Espanha). A Esperança, representada por uma mulher com uma âncora, corre nesse momento para tentar apanhá-las com o seu avental. 


 


Finalmente, ademais de aparecer inscrito no corpo da besta, o número 666 aparece também associado ao próprio nome de Napoleão (aqui chamado de Napolean), através da correspondência entre as letras e a sua correspondência numérica. Note-se que esta associação entre Napoleão e a Besta do Apocalipse não era nova (ver por exemplo, a cores ou a preto e branco, a caricatura intitulada An hieroglyphic, describing the state of Great Britain and the continent of Europe, for 1804):



[...] A marca que é o nome da besta ou o número do seu nome. [...] 
E o seu número é seiscentos e sessenta e seis 
(Ap. 13: 17-18).


Outras digitalizações:


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (18 de Julho de 1808)



Lisboa, 18 de Julho


Havendo muitos mancebos que se acham em Lisboa pedido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que lhes permitisse armar-se, equipar-se à sua custa e servir junto da sua pessoa como voluntários de ordens, anuiu Sua Excelência ao seu pedimento. Portanto, o dito corpo, comandado por mr. Bastia, militar que fora, se apresentou já a Sua Excelência, por quem foi acolhido dum modo muito afável e benigno.
O General em Chefe lhe prometeu fornecer-lhe ocasião de distinguir-se, combatendo, se o caso o pedisse, a seu lado contra todos e quaisquer inimigos de Sua Majestade o Imperador e Rei.

O corpo de tropas que se expedira para varrer a costa desde Peniche até acima de Leiria não pôde achar aí nem inimigos que combater, nem rebeldes que punir; o que tão somente se encontrou foram alguns indivíduos semelhantes que se atreveram a esperar no forte da Nazaré, à roda do qual se dissera que se tinha efectuado um desembarque, que nunca existiu. Aquele forte foi tomado num instante, ficando prisioneiro o pequeno número dos que nele se achavam. Os ingleses, na persuasão de que os indivíduos que seduzem para conduzi-los à morte estavam nessas paragens em grande número, puseram ali em terra poucos dias antes alguns morteiros e obuses duma forma particular, os quais não deixarão de nos ser úteis; deles nos apoderámos, em vez de deixá-los ir à sua destinação.

Lisboa continua a gozar duma grande tranquilidade, apesar do vão terror que certos indivíduos, que se conhecem e sobre os quais se vigia de perto, procuram espalhar; e apesar das exagerações que a malevolência divulga ou que a inadvertida crueldade adopta cegamente sobre a entrada de alguns pequenos corpos de paisanos espanhóis em algumas partes das fronteiras. Sem dúvida é esse um mal momentâneo a que certas combinações de uma ordem superior não permitem dar remédio tão prontamente como se desejara, porque convém esperar que se desenvolva um plano geral ditado pela mais profunda sabedoria. Que são porém algumas partidas espanholas contra um exército tal como o do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, pronto a esmagá-las a elas e aos seus cúmplices, quando menos o esperarem? Como é possível que se deixe de ver por outra parte que esses espanhóis, afora qualquer outra causa coactiva, terão de voltar precipitadamente à sua pátria, à medida que as tropas francesas, que se vão adiantando, submeterem o interior do seu país, assim como já têm submetido o norte e a capital do mesmo; e que então, ao mais tardar, abandonarão aqueles dos portugueses que tiverem desatinadamente abraçado a sua causa à animosidade de um vencedor justamente irritado?
Para ajuizar do resultado dos acontecimentos actuais, não se deve fugir deste pensamento decisivo e bem próprio para conter na ordem e no dever todos os homens de razão: Que pode a Espanha, que poderiam até mesmo algumas províncias revoltadas de Portugal, quando, em vez de estarem sem chefes, sem concentração, sem interesses comuns, se vissem reunidas contra aquele gigante da França tantas vezes vitoriosa da Europa e dirigida pelo Grande NAPOLEÃO?

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].

terça-feira, 12 de julho de 2011

The Corsican Spider in his Web!, caricatura de Thomas Rowlandson (12 de Julho de 1808)



A aranha corsa na sua teia!
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 12 de Julho de 1808.


No centro da sua teia, a aranha-Napoleão (em cujo dorso tem a inscrição ambição ilimitada) está prestes a engolir um par de moscas espanholas (Carlos IV e Fernando VII), enquanto reserva para melhor ocasião todas as outras moscas que se deixaram agarrar: umas são moscas pequenas e inumeráveis (alusão à Confederação do Reno?), enquanto outras, maiores, representam a Áustria, Holanda, Hanover, Prússia, Hamburgo, Veneza, Itália, Etrúria... A "mosca" portuguesa, que se encontra afastada do centro da teia, é nada menos do que uma garrafa (de Porto?) com asas... A mosca papal, também na periferia, afirma que tem medo de ser arrastada para o interior da teia... A mosca russa, presa somente pelas suas patas dianteiras, declara que já estava semi-agarrada quando se apercebeu... As únicas moscas que ainda não caíram na teia são a turca, que diz que tem medo de ser a próxima, e a inglesa, que se dirige em tom provocatório à aranha-Napoleão, afirmando que esta poderá observá-la, mas não a conseguirá agarrar

The Corsican Nurse soothing the Infants of Spain, caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward (12 de Julho de 1808)





O aio corso acalmando os "Infantes" de Espanha.

Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 12 de Julho de 1808


Esta caricatura representa Napoleão acalmando momentaneamente as "birras" da família real espanhola, cujos membros aparecem aqui infantilizados, de acordo com a legenda. Devemos salientar que o título nobiliárquico de Infante, vulgarmente dado aos filhos não primogénitos dos Reis das monarquias ibéricas, não existe (a não ser por adaptação) na língua inglesa, onde o termo infant significa, antes de mais, "bebé", "criança" (nos primeiros anos de vida) ou "menor". Assim, o título da gravura não se refere exclusivamente a nenhum Infante em particular, senão aos vários membros da família real espanhola aqui representados como crianças, em alusão à sua falta de astúcia política e à sua condescendência a Napoleão, o qual segura ao colo os Infantes (estes sim de título) D. Carlos e D. António (cujas golas estão fechadas com cadeados), enquanto utiliza os seus pés para embalar os berços imperiais onde repousam o Príncipe das Astúrias e o bom velho Rei e a sua amável consorte (esta última "criança" é a única que não deixa ver o seu rosto, pois está de costas para o marido). Apesar de não ter mãos (nem pés) a medir, Napoleão sorri maliciosamente, enquanto canta uma canção de embalar onde promete às cinco crianças o seguinte: tereis as vossas coroas de novo - mas não sei quando! 

Outras digitalizações:


segunda-feira, 11 de julho de 2011

The Spanish Bull-fight or the Corsican-Matador in Danger, caricatura de James Gillray (11 de Julho de 1808)



A tourada espanhola ou o matador-corso em perigo.
Caricatura de James Gillray, publicada a 11 de Julho de 1808.

A arena do Theatre Royale de l'Europe é o palco de uma tourada à espanhola (com matador, representado por Napoleão), à qual assistem, da esquerda para a direita, o Rei da Grã-Bretanha, que empunha um tridente numa mão (símbolo da sua supremacia sobre os mares) e um monóculo na outra, através do qual observa atentamente o espectáculo; o Imperador da Áustria; o Príncipe Regente de Portugal, acompanhado com uma garrafa de vinho de Brasil; o Imperador Alexandre "o Grande" da Rússia; o Rei da Prússia; o Rei da Suécia; o Papa Pio VII, que exibe uma bula para excomungação do corso usurpador; e por último, o Sultão da Turquia e o Dey de Argel, que aparentemente se tentam esconder detrás do Papa. 
Depois do matador-Napoleão acabar de deixar três touros (que representam a Prússia, a Holanda e a Dinamarca) agonizando e mugindo por ajuda, dá-se uma reviravolta súbita, com a entrada de rompante do touro espanhol, que quebrou a corrente corsa que o agrilhoava. José Bonaparte (com um papel assinado pelo seu irmão, o qual tem a inscrição Coroação de Joseph Bonaparte Rex Espagnol Gibralter et...) foi o primeiro a ser derrubado, jazendo debaixo do touro espanhol, que lhe urina para a cara enquanto ao mesmo tempo investe sobre o matador-Napoleão, que não conseguiu dar-lhe uma estocada certeira, partindo a espada ao desferir o golpe. Neste instante, Napoleão é lançado ao ar pelos chifres do touro espanhol, que lhe ferem a nádega esquerda, deixando cair o seu chapéu e um plano para submeter o mundo... Por cima da plateia, a legenda informa que o espírito do touro espanhol é tão notável que, a menos que o matador lhe dê uma estocada mortal à primeira investida, o touro seguramente o destruirá. 
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Outras reproduções digitalizadas desta mesma caricatura (com algumas variantes nas cores):


domingo, 10 de julho de 2011

Billingsgate at Bayonne or the Imperial Dinner!, caricatura de Thomas Rowlandson (10 de Julho de 1808)



Peixeirada em Bayonne ou o Banquete Imperial!
Caricatura de Thomas Rowlandson (publicada a 10 de Julho de 1808)


Esta sátira sobre a desunião entre a família real espanhola foi concebida na sequência da publicação em Londres (apenas uma semana antes) duma suposta carta particular remetida de Bayonne a 8 de MaioDeve notar-se que o título da caricatura, que traduzimos livremente por peixeiradaé inspirado no mercado de Billingsgatesituado nos subúrbios de Londres, que era então o maior mercado de peixe do mundo.
A cena passa-se em Bayonne, no dia 5 de Maio, num banquete presidido por Napoleão. À esquerda, a Rainha D. Maria Luísa e o seu filho D. Fernando, ambos de pé e com as mãos nos quadris, enfrentam-se um ao outro, gritando a primeira: Agora vou vos dizer, vilão, cara a cara e diante do meu querido amigo Boney: Não sois filho dos Reis; então podeis fechar a loja [=calar-vos]. Replica Fernando: Madame, eu conheço todos os vossos truques e os do seu Príncipe da Paz. Godoy, o único que se vê a comer, contrapõe: Gostaria que eles me deixassem em paz. Atrás de Fernando e diante de Godoy estão os dois filhos mais novos dos Reis (os Infantes Carlos María Isidro e Francisco de Paula), sentados no mesmo banco, dizendo Carlos a Fernando: Irmão, não se importe com o que ela diz, nós os Infantes o reconhecemos. Ao lado destes, encontra-se Pedro Cevallos (primeiro-ministro de Carlos IV e depois de Fernando VII), que, farto da conversa, pergunta: Não sou eu o grande Cevallos? Vocês calam-se? Diante deste, D. Carlos IV, com um gorro de dormir e tocando violino, diz: Gostaria que eles deixassem um pobre e velho Rei tocar tranquilamente o seu violino. Finalmente, Napoleão levanta-se e diz, de punhos cerrados: Vou vos dizer o que farei se fazem um tumulto destes na minha mesa. Ficarei danado se não vos mandar a todos para prisão [sic: Round House].

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Existe uma outra digitalização desta caricatura disponível no site do British Museum.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

The Corsican Tiger at Bay, caricatura de Thomas Rowlandson (8 de Julho de 1808)




O Tigre Corso em apuros.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 8 de Julho de 1808.


Traduzimos livremente o título desta caricatura, que baseia-se na expressão inglesa at bay, que por sua vez vem do francês aux abois, que significa "numa situação desastrosa". No vocabulário da caça, a expressão refere-se à posição dum animal acuado que, perseguido por uma matilha, vê-se incapaz de continuar a fugir, virando-se então para enfrentar os cães que o acossam. É possível que Thomas Rowlandson se tenha inspirado em algumas das ilustrações que Samuel Howitt concebeu para uma obra de caça intitulada Oriental Field Sports, cujo primeiro volume, publicado em Londres em 1807, incluía diversas gravuras representando a caça aos tigres, entre as quais se encontrava uma intitulada precisamente The Tiger at Bay, ao lado de outras com alguns motivos semelhantes aos representados na caricatura acima inserida, como por exemplo A Tiger seizing a Bullock in a Pass, Shooters coming by surprise upon a Tiger, ou ainda A Tiger hunted by wild Dogs.
Napoleão é assim representado como um "tigre da Córsega", ainda que, na verdade, as manchas do seu corpo mais se assemelhem à de um leopardo, possivelmente para o associar à carga simbólica da besta descrita numa passagem do livro do Apocalipse (13: 2), a qual, aliás, seria representada alguns dias mais tarde pelo mesmo caricaturista. O dito "tigre" arreganha ferozmente os dentes a dois galgos patriotas, que disputam os quatro galgos reais (alusão a Carlos IV, à sua esposa D. María Luisa, a Fernando VII e a Godoy, então supostamente presos na França) que domina com as suas patas dianteiras, enquanto que, à esquerda da imagem, uma matilha dos mesmos galgos patriotas corre impetuosamente ao seu encalço
Esta cena aparece separada por água de outros três cenários, à direita da gravura. Em primeiro plano vê-se o sapo holandês, que fuma um cachimbo enquanto observa o "tigre" acossado pelos cães espanhóis, o qual diz que será "o próximo a dar-lhe uma bofetada". Ao fundo vê-se o urso russo agrilhoado pelo pescoço e ligado por uma corrente ao pescoço duma das três cabeças coroadas da águia austríaca, a qual declara: "Chegou o tempo, mano urso, de quebrarmos os nossos grilhões". Entre o sapo e os outros dois animais, aparentemente sobre a posição defensiva natural de White Cliffs of DoverJohn Bull aponta uma espingarda ao "tigre", enquanto canta o início duma canção infantil ("Havia um homem pequeno, e ele tinha uma arma pequena, e as suas balas eram feitas de chumbo"), que subitamente interrompe para declarar "vamos tratar dele entre nós". 

Existem duas versões espanholas desta caricatura, uma intitulada El Tigre Corso en su último ataque, e outra reproduzida a partir das chapas originais, com o título espanhol El Tigre Corso Atacado, com traduções das inscrições originais em inglês, onde John Bull aparece como Juan Toro, como se pode ver abaixo:



El Tigre Corso Atacado.



Outra digitalização: 


domingo, 26 de junho de 2011

Resposta do padre algarvio Frei José do Sacramento Pessoa à proclamação de Junot de 26 de Junho





Junot!

Não é o teu Exército, nem o desse a que chamas o Grande Napoleão; [e] não são os teus, nem os seus capciosos proclamas capazes de assustar os valorosos habitantes do Algarve, que, lembrados ainda de haverem ganhado o seu país à custa de suas vidas, lançando fora dele outros mais temíveis, mais guerreiros soldados, a quem nem tu nem os teus jamais igualarão, os Maometanos, digo, resolveram de uma vez mostrar-te que eles são ainda os mesmos, fazendo desaparecer de entre si a infame raça francesa, bem como aconteceu à Mauritânia gente, e aclamando ao mesmo tempo o Príncipe Regente de Portugal, bem como aclamaram o primeiro Afonso.
Tu foras talvez temido, se o teu Exército justamente merecera a grande fama que tu e teus subalternos têm feito voar pelo mundo inteiro; mas o vil procedimento das tropas francesas e os seus estratagemas cavilosos têm desmentido essa fama. Hoje é assaz conhecida por todas as potências beligerantes a cobardia de semelhantes tropas. Portugal, tendo apenas cem soldados ainda bisonhos, não teme com mil versados na guerra.
As tropas francesas não são mais do que um agregado de saqueadores, de pérfidos, de traidores nutridos com o leite desse monstro desgraçado que a mesma natureza arrependida e envergonhada de o haver produzido, ainda que por descuido, degrada da sua origem: um agregado de gente pior que o Sol cobre.
É contra este Exército que tomamos armas, e contra ti mesmo. Os portugueses deixariam de o ser, se assim não obrassem. Verás tu agora qual é o valor dos nossos braços: sobre ti e o teu exército lá vamos frente a frente os golpes descarregar; será mais esta outra vitória que faça respeitar o Nome Luso de um a outro hemisfério; nós te faremos ver que sabemos conservar a nossa independência, a integridade do nosso país, que tu julgas perdida sem a tua protecção. Portugal é, e será sempre, a mesma antiga Lusitânia governada pelos seus Príncipes.
Porventura dependemos de ti ou do teu infeliz Amo?
Queres persuadir-nos que, sem a tua tantas vezes apregoada protecção ficaremos sendo uma província da Espanha? Não tem Portugal conservado a sua independência?
Acaso ignoras que não sofre jugo alheio? Não tens exemplos? Que te importa a desgraça que julgas consequente da sujeição espanhola? Porventura te rogámos auxílio? É forte mania! Acaso procedem os espanhóis como os franceses? Acaso têm usurpado alheios Ceptros? Acaso destronizaram o seu Rei para aclamarem um estranho homem, cingindo-lhe essa vacilante fronte com o Diadema Imperial? Não! Estes atentados, odiosos ao Mundo todo, só a França é capaz de cometer; só ela é capaz de sofrer. Se a Espanha disputasse o Direito de Sucessão a Portugal, poderia a França articular preferência?
Alma invejosa e ambiciosa, desengana-te, desengana o teu abatido Napoleão. A Europa saiu do letargo; já não dorme, nem dormirá. Não te canses em persuadir-nos da sua alta protecção, ela está bem conhecida por todos os povos a quem ele a tem prometido! Perfídias, traições, eis aqui a grande protecção! E quais serão as felicidades consequentes!
Diz-nos: Que felicidade trouxeste a Portugal?
Oprimir os povos com pesadas contribuições para resgate dos nossos bens, que não estavam cativos; reduzir à indigência famílias inteiras, tirando-lhes o pão que os seus chefes ganhavam pelos seus empregos públicos; sacrificar a virtude à necessidade; exterminar as nossas melhores tropas; extinguir o resto; desarmar as cidades e povoações com o frívolo e manhoso pretexto de manter a segurança pública, quando só por medo que te resistam deste esse errado passo; pôr finalmente a nação indefesa, pobre, sem comércio, sem erário; é porventura tudo isto alguma sombra de felicidade? Eis aqui os efeitos dessa protecção! Itália, fala tu, diz quais são os benefícios que tens recebido da mão daquele que tudo promete e nada faz; que tudo promete para enganar! Ah! Tu não respondes? A escravidão e o medo te embarga a voz! Não importa: Nós o sabemos, o Mundo o conhece, e tu em tempo o dirás. E sobre estes males intentava o Déspota da Europa dar-nos um Padrasto, escolhido por ele, da sua mesma raça, igual a ele? Com que Direito? Com o da guerra? Não. Com o da conquista? Não: ele mesmo já confessou não ter conquistado este Reino. Logo, com que Direito nos dava um Rei que as nossas Leis fundamentais excluem de governar estes Reinos? Sair o Príncipe para Estados seus será crime? E contra quem o cometeu? Não, não é este facto criminoso: é sim um efeito do seu paternal amor para com os seus fiéis vassalos, cujo sangue quis poupar, salvando igualmente a sua Real Pessoa, contra quem os pérfidos atentavam; ele se entrega às ondas dos vastos mares, e deixa-nos a última prova do seu paternal amor, recomendando-nos a obediência ao poder francês, a fim de evitar a efusão do nosso sangue. Que amor! Que heroísmo!
Ah! Se assim não fizeras, Príncipe Amado, a soberba capital veria o sangue dos seus filhos correr pelas suas ruas, e em caudalosos rios o de todos os franceses; cada um procurando seu diferente leito, porque a honra e a virtude não podem unir-se à insídia e à aleivosia. Lisboa veria tão triste cena; mas o triunfo também veria: Lisboa seria Bayonne, mas a presa não sairia. 
Se Portugal te pediu um Rei, obrou tão livre nessa rogativa como os Soberanos de Espanha, na abdicação de seus Estados a favor de um ambicioso até dos atributos da Divindade. Estranhas que Portugal agora proceda assim, e não te lembras que prometendo tu proteger-nos, ias a fazer-nos desgraçados?
Não dizes tu que te imitem? Pois que outra coisa fazemos? Tal é a tua política!
Recorda, Emissário do Despotismo, a infame traição praticada com a Família Real dos Bourbons: vê-te nesse espelho da maior perfídia, e sabe que nenhum Monarca até hoje cometeu acção tão execranda. Não, não; porque o Sangue Régio não produz acções vis. Este sangue não gira nas veias do teu Napoleão! Circula sim um amargoso fel, que a natureza por diferença lhe deu em vez de sangue, compostos dos líquidos mais venenosos de todas as Hidras, de todas as Serpes, cujo leite bebeu na sua desgraçada infância. E vassalos de um tal Rei deveriam entre nós viver? Que valorosas façanhas, que heroísmos têm feito? Acaso é valentia vencer numa batalha, havendo comprado o plano do ataque e o Ministro da Guerra ou Generais da Coroa contra quem marchavam? Não, isto não é heroísmo, é vileza. É com estes Soldados que pretendes vencer-nos?
O Egipto, a Rússia, Alemanha e Itália estão semeadas de frios e mirrados esqueletos franceses sacrificados à ambição das ambições. Espanha e Portugal sepultarão o resto. Aqui mesmo desaparecerá de uma vez essa estrela de Napoleão, que tu crês impossível desmaiar no meio de uns poucos facciosos; aqui mesmo amortecerá com todo o corpo esse braço do mais valente dos seus Generais, como te inculcas nos papéis públicos; aqui mesmo será o termo de tantas glórias ganhadas por traições, perfídias e compras. É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome e tão guerreiras temem guarnecer uma Bateria na Barra Nova da cidade de Faro, só porque imaginavam ser possível cruzar aqueles mares algum batel inglês?
É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome e tão guerreiras são espectadores indiferentes ao combate de dois brigues ingleses com quatro barcas espanholas, na Barreta da mesma cidade*, olhando atemorizados, uns fugindo, outros vendo de suas janelas, como praticou o General Maurin, hoje nosso prisioneiro? E que não acodem aos seus aliados, que foram vítimas? É com estes soldados que pretendes vencer-nos?
Umas Tropas de tanto nome saqueiam os móveis que se lhe davam para alojamento, praticando esta feia e vil acção os seus mesmos Comandantes?
Ah! a antiga França já não existe: esta é hoje a nova França! É com estes soldados que pretendes vencer-nos? Pérfido! São estes os Soldados do bravo Exército da Gironda, do Marengo, de Austerlitz, de Friedland? Envergonha-te! Se são os mesmos, então a perfídia ou a compra venceram as batalhas.
Junot, General por momentos, nós conhecemos a tua triste situação; tu também a conheces: diga-o a carta que dirigias a Napoleão, recomendando-lhe a tua família. E ainda ostentas ameaças?
Onde tens, ou donde te virão essas Tropas para mandares ao saque das nossas cidades, a destruí-las totalmente, e passar ao fio da espada os seus habitantes?
Virão por mar? E que dirá Neptuno a isso? Virão por Espanha? Desgraçadas! Infelizes vítimas!
Não, tu não te podes salvar; tu não tens Soldados: eles te abandonam. Se por algum tempo te seguiram, outro chegou de conhecerem a sua desgraça; de conhecerem, tornamos a dizer, que o homem só deve entrar no estado de guerra para defender a Religião, o Rei e a Pátria. Mas os teus Soldados conhecem que só defendem o capricho de um usurpador de alheias coroas, em que não interessam, porque não são seus irmãos ou parentes. À natureza aborrece o estado de guerra. Ah! Junot, que verdades estas! Afinal recorres às excomunhões e aos anátemas fulminados nessa involuntária pastoral do colégio patriarcal, como que se tu acreditaras esses castigos, ou se Deus punisse quem defende a sua causa.
Cessa de publicar punições; perde, louco, a louca ideia de vir a Portugal esse Eugénio; não exacerbes a nossa cólera; considera o trágico fim das Tropas francesas na Espanha. Esse grande Exército de Dupont, onde está? Que é feito dele? Colunas cortadas, Batalhões assassinados; eis aqui a sua sorte! Saragoça, diz tu, se desses 18 mil franceses que passaste à espada, restou um só? Bravo furor espanhol, conta as tuas vitórias, e continua sempre valoroso, intrépido e honrado. Lembre-te, Junot, o furor português, e persuadir-te-ás com os teus Generais e Soldados que serão todos pequeno pasto para os embravecidos Leões da Lusitânia triunfante, o Algarve. Nós defendemos uma causa justa; tu porém defendes a traição. E como não será assim se tu mesmo nascido em Portugal** vieste invadir a tua pátria! Olha a tua pátria; pensa os teus deveres; ouve a pátria que te fala:

Traidor parricida! Porque assim maltratas tua Mãe? Não distribuí eu igualmente contigo e teus irmãos o mesmo leite, os mesmos costumes, as mesmas inclinações, a mesma honra, a mesma virtude? Porventura ensinei-te a perfídia? Que motivos tens para rasgar as entranhas que te conceberam? Esqueceram-te os deveres sagrados? Ah! Ingrato! Desengana-te. Envergonha-te, entra em tua mesma consciência, lerás nela o teu castigo: sim, o sacrifício a que te expôs Napoleão, entregando-te à raiva portuguesa, faminta de sangue francês.
Estás sacrificado, e pelo teu grande amigo bem protegido: receberás o prémio.

A pátria acabou de falar. E que respondes? Nada... Ímpio, se a verdadeira Religião morasse em teu coração, outro serias qual nós somos. Não, nós não violamos a Religião, como tu dizes; este crime só a nova França comete. Lembre-te um Berthier entrando em Roma, o qual mandando oferecer ao Santíssimo Padre Pio VI o tope da liberdade, e uma certa pensão, recebeu a resposta seguinte:

Não conheço mais que um uniforme, que é aquele com que me decorou a Santa Igreja. Podeis, se quiserdes, destruir o meu corpo; a alma não. Eu conheço o açoite que castiga as ovelhas e o pastor, e a vingança Divina pelas culpas de todo o rebanho; louve a tua mão Soberana; não necessito de pensão; um cajado e um alforge bastam para quem deve acabar a vida debaixo da cinza e do cilício; roubai, saqueai e incendiai ao vosso uso; arruinareis os Templos; porém, o Culto durará assim depois, como durou antes de vós-outros, e permanecerá até a consumação dos Séculos – Pio VI.

Lembre-te o sacrílego procedimento das tuas Tropas na vila de Mértola há poucos dias. Saiba o Mundo que semelhantes Tropas mancharam os altares sagrados, servindo-se deles como de um cepo para cortarem a carne, e da pia baptismal para salgarem a mesma carne. Não mais, não mais nos arguas. 
Essa contribuição perdoadaesse plano de pagar às nossas Tropas, não são bastantes para nos voltarem à obediência das tuas ordens. Nós te agradecemos as belas searas que a Providência nos deu; nós te rendemos graças por nos preservares de uma terrível fome; se tu não foras, certamente não comeríamos.
Graças... mas a quem? A um Deus, que sofre a um mortal tanta ousadia; um mortal, que julga estar em sua mão a prodigiosa produção das nossas searas, e que nos livrou da fome; como que se ele fizera entrar em Portugal alguns víveres para o nosso sustento.
Ah! miserável General! Basta de liberalizar tantas Graças! A contribuição está por nós mesmos perdoada! Os soldos serão pagos, não por tua ordem, pois que o Erário está saqueado, segundo o uso da nova França. Nós te concedemos ainda um momento para te salvares; nisto conhecerás a nossa gratidão. Bem sabes que se nunca tememos Exércitos guerreiros, [nunca] temeremos uns vis cobardes. Se continuas, pagarás com a vida: no teu sangue e no de teus Soldados cevaremos a nossa ira; aproveita; não ouças os teus Subalternos, que não duvidam derramar com o teu o seu sangue; aproveita enquanto é tempo, depõe as armas. Aliás, eis aqui a punição que te espera:

Capitulação não será recebida. As nossas armas serão depostas sobre gargantas francesas. O sangue de um só português será vingado com o de toda a França.

Em obséquio da Religião, do Príncipe e da Pátria.

[Fonte: Proclamação que o general em chefe do exercito de Portugal dirigio aos portuguezes em consequencia da sublevação do Algarve e resposta à mesma, Lisboa, 1808, apud Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve, Lisboa, s. ed., 1941, pp. 334-340, pp. 336-340].

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Notas: 

Segundo Alberto Iria, antes mesmo do Algarve se revoltar, o autor desta proclamação (resposta a uma outra de Junot datada de 26 de Junho), Frei José do Sacramento Pessoa, padre franciscano de Tavira, tinha composto e feito divulgar uma outra proclamação de incentivo à restauração, para além de ter sido um dos responsáveis pelo armazenamento e ocultação, naquela mesma cidade, de cento e setenta armas. No dia 3 de Julho, já com os franceses definitivamente expulsos do Algarve, foi um dos encarregados pelo conde de Castro Marim para a redacção de uma constituição provisória que procurasse reunir os esforços das várias localidades algarvias e dissipar alguns conflitos de poder que então ocorreram, facto aliás comum por todo a Península Ibérica... Na sequência desta constituição, Frei José foi nomeado vogal da Junta Provisional de Tavira. Marchou depois com o chamado Exército do Sul em direcção ao Alentejo, donde passaria a Lisboa, acompanhando o conde de Castro Marim, quando a capital ficou despojada de franceses. Regressou então ao Algarve para comunicar à Junta da província a restauração do reino e da Regência estabelecida pelo Príncipe (com algumas alterações) antes da partida deste para o Brasil. Será, assim, através dele, que o Bispo do Algarve viria a receber a carta que o Governo de Lisboa lhe enviou no dia 20 de Setembro, reconhecendo os feitos do povo algarvio e particularmente o de Olhão, como mais adiante veremos. 
Ainda que desconheçamos o resultado das suas petições, sabemos ainda que tanto em 1809 como em 1814 (vivendo nesta última data no Convento de S. Francisco de Beja) solicitou licença para passar ao Rio de Janeiro, provavelmente para pedir alguma benesse ao Príncipe, em função dos seus feitos em defesa dos interesses da monarquia portuguesa [Cf. Biblioteca Virtual do Projeto Resgate: Colônia/Capitania - Rio de Janeiro, 1809 e 1814].



** Na verdade, Junot nasceu na comuna francesa de Bussy-le-Grand. Desconhecemos donde proveio a confusão do autor desta proclamação. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Manifesto da Junta Suprema de Sevilha (17 de Junho de 1808)



Manifesto ou declaração dos principais factos que motivaram a criação desta Junta Suprema de Sevilha que, em nome do senhor Fernando VII, governa os Reinos de Sevilha, Córdova, Granada, Jaén e as províncias da Extremadura, Castela-a-Nova e as demais que forem sacudindo o jugo do Imperador dos franceses 



A Espanha descansava na sua própria grandeza, por tantos séculos conservada, e contava com a aliança e com as forças da França. Logo que fez a paz com esta em 1795, abraçou os seus interesses e entregou-lhe navios, dinheiro, tropa, e quantos auxílios foram exigidos. Até os próprios reis de Espanha pareciam feudatários da França; e pode-se dizer que a França deve os seus triunfos e progressos a esta união com Espanha. 
Entretanto, dominava a Espanha com império absoluto e despótico o perverso Godoy, que, abusando da excessiva bondade do nosso Rei Carlos IV, apropriou-se, em dezoito anos de favor, dos bens da Coroa, dos interesses dos particulares, dos empregos públicos que distribuía infamemente, de todos os títulos, honras, e até do tratamento de Alteza, com as dignidades de Generalísimo e Almirante, e com direitos aumentados sobre imensas e escandalosas quantias, que faziam transbordar a nossa miséria. 
Como parece que aspirava ao trono real e tinha como obstáculo o Príncipe das Astúrias D. Fernando, acometeu directamente à sua sagrada pessoa: atribuiu-lhe conspirações contra o seu augusto pai, e sob este pretexto o fez prender e expediu a horrível circular de 30 de Outubro de 1807 e a propriamente ridícula de 5 de Novembro seguinte. Os povos viram uma e outra com espanto. Não lhe deram fé alguma, e o Conselho de Castela, chamado ao conhecimento desta causa, unanimemente declarou que o Príncipe das Astúrias era inocente
O Rei pai não se conformou com esta providência e fez castigar com dureza os supostos cúmplices do Príncipe das Astúrias. Bastava ao povo espanhol o nome do seu Rei para obedecer e sofrer com silêncio; durou assim até ao mês de Março deste ano de 1808, quando o perigo do mesmo Rei e da pátria converteram a sua paciência em furor. Entretanto, os reis de Portugal tinham-se vistos obrigados a abandonar a Europa, passar à América, e mandar os seus vassalos a não levantarem resistência com armas ao exército francês que entrava no seu território. Tanta moderação não moderou nem acalmou a ambição de Napoleão. As suas tropas apoderaram-se de Portugal e fizeram nele estragos que estremecem a humanidade. Napoleão agregou ao seu império este Reino, e impôs-lhe contribuições duríssimas, quais não teria sofrido pelo mais feroz conquistador. 
A Espanha viu neste exemplo que se os seus reis a abandonavam, padeceria da mesma sorte que Portugal; ademais, que nem o nome espanhol, nem o amor que tem aos seus reis, nem outras mil razões podiam permitir que os espanhóis vissem com indiferença o transtorno das suas leis fundamentais e a aniquilação da sua monarquia, a mais gloriosa de toda a terra. 
Nesta conjuntura, torna-se público e dão-se provas de que os reis pais e toda a real família iriam abandonar a capital, passar à Andaluzia, e viajar para as Américas em embarcações inglesas. Estas vozes irritam extremamente o povo contra D. Manuel Godoy, único e solitário autor deste abandono. Todas as tropas da Casa Real, as demais do exército, e todos os habitantes honrados unem-se em Aranjuez para impedir a sua execução, o que conseguem. O infame privado excita a sua justa violência, e fica a dever a vida à generosidade do Príncipe das Astúrias. O Rei Carlos renuncia à Coroa, e remete ao Conselho o instrumento mais autêntico desta livre abdicação. Em sucessos tão extraordinários não se derrama uma gota de sangue em Aranjuez. Tal é a lealdade inaudita do povo espanhol. 
Em Madrid, o Conselho tornou pública a abdicação de Carlos IV e proclamou como Rei o seu filho mais velho, o senhor D. Fernando VII, Príncipe jurado das Astúrias. O povo da capital e o de toda a nação recebeu esta notícia com um júbilo nunca visto, e declarou o seu amor, a sua obediência e a sua fidelidade ao seu novo Rei com uma união, ardor e demonstrações tão novas que são desconhecidas na história da fidelíssima nação espanhola. Os exércitos franceses não puderam deixar de ver atónitos tão estranhos sucessos; e o próprio incêndio dos móveis de algumas casas suspeitas de Madrid foi executado com tal ordem, com tanto cuidado para que não padecesse o público, e sem derramamento de sangue, que se pode dizer que só a nação espanhola é capaz de semelhante circunspecção num tumulto popular. 
Todos acharam que os franceses se uniriam aos espanhóis para celebrar o feliz facto de se ter impedido que os seus reis abandonassem a Espanha e embarcassem na esquadra inglesa. Mas qual foi a sua admiração, quando viram que este mesmo sucesso, que devia ser tão agradável aos franceses, foi precisamente o pretexto que abraçaram para nos perseguir, destruir os nossos reis, acabar com a monarquia, e cometer horrores de que a história não fala nem pode falar. Foram estes tão multiplicados que será muito difícil, para não dizer impossível, pôr alguma ordem na relação dos que vamos indicar. 
Foi o primeiro [horror] a entrada do exército francês em Madrid, fixando artilharia em vários sítios públicos, e usando da autoridade como nunca o tinha feito monarca algum da Espanha; entretanto, continuavam as aclamações de Fernando VII, mas Carlos IV, enganado tantas vezes, fazia o seu protesto contra a abdicação anterior e enviava-o a Napoleão, pondo a sua sorte nas mãos deste. 
Fernando VII foi pessoalmente receber o próprio Napoleão, que tinha prometido e feito anunciar, através do duque de Berg, que vinha à Espanha no prazo de quatro dias. Fernando VII enviou diante de si o seu irmão, o infante D. Carlos, que, não tendo encontrando Napoleão, entrou na França. Seguiu-se-lhe o Rei Fernando até Vitória, e nesta cidade, o povo, a quem o seu coração terno e leal lhe fazia pressagiar o triste destino que Fernando esperava na França, impediu-o de sair, cortou os tirantes do coche, e gritou para que não se entregasse a Napoleão. O Rei, confiado na sua própria generosidade e na grandeza da sua alma, fez-se de surdo a estes clamores e continuou a sua viagem, entrando em Bayonne para abraçar Napoleão, que o tinha chamado a si com mil carícias e seguranças fingidas, dando-lhe nas suas cartas o tratamento de Rei de Espanha. 
Antes de se prosseguir, regressemos a Madrid e aos horríveis factos a que assisti. Fernando VII tinha criado uma Junta Suprema de Governo, cujos membros indicou, nomeando para Presidente o seu tio, o infante D. António. Era preciso destruir esta Junta e consumar os projectos de iniquidade que estavam tramados: para este fim fez-se sair de Madrid e passar à França a Família Real, sem exceptuar aqueles infantes que, pela sua tenra idade, deviam aparentemente inspirar alguma compaixão. O povo de Madrid enfureceu-se vendo este acontecimento, e o exército francês tomou daí o pretexto para entrar armado e com artilharia a 2 de Maio, guerreando raivosamente com aquele pobre povo, e cometer nele uma carnificina que ainda hoje faz tremer a sua memória. O débil governo espanhol, oprimido pelo duque de Berg, depois de ter proibido às tropas espanholas que saíssem para ajudar os seus irmãos, apresentou-se em público nas ruas de Madrid, e à sua vista o povo deixou as armas e acalmou o seu furor. 
Esta obediência, este respeito próprio do povo espanhol, em vez de aplacar irritou o ferocíssimo Murat, e sob o pretexto de que os populares levavam armas (o que só será proibido por uma lei posterior), ordenou que fossem fuzilados a sangue frio. Sofreram a morte, assim, sacerdotes que só levavam consigo um aparador de penas para escrever, artesãos que traziam navalhas ou instrumentos dos seus ofícios, e todo o tipo de pessoas, pelo simples capricho dum exército furioso, sem honra, sem religião e sem considerações. 
Seguidamente, o infante D. António foi obrigado a dirigir-se para Bayonne. Fernando VII tinha nomeado os vogais da Junta de Governo e ninguém podia agregar outros; não obstante, o estrangeiro Murat não teve vergonha em obrigar estes vogais a elegerem-no Presidente na sua própria presença, circunstância que, por si só, basta para convencer a horrível violência com que se procedia; no entanto, todos os vogais da junta assinaram este decreto e publicaram-no. 
Pretendia-se entretanto, através dos franceses, a formação dum partido em Madrid e no Reino por Carlos IV, valendo-se de proclamações capciosas e de outros meios indecentes, mas nada se pôde conseguir. Os autores destas tramas ficaram sem castigo, mas a nação, a Europa e o mundo todo viram que os franceses faltaram à verdade descaradamente, quando publicaram que na Espanha há divisões e partidos. Não os há, e para perpétua ignomínia dos que espalharam o contrário, a nação inteira grita que não deseja, não ama e não é de outro rei senão do senhor Fernando VII. Apareceu por fim no Conselho de Castela o protesto de Carlos IV enviado por Napoleão a Murat, e este tribunal, dominado por um terror que será a sua eterna deshonra, decidiu que não era Rei de Espanha Fernando VII, mas sim Carlos IV, pela nulidade da sua abdicação. Que reflexões se apresentam de tropel aqui, quando se considera que o Conselho é o primeiro tribunal de justiça do Reino, e os seus ministros os ministros das leis! Mas continuemos. 
Em virtude de Carlos IV ter reassumido a coroa, entrou outra vez na potestade de eleger um governador do Reino; e afectando o espírito e a linguagem francesa até nas palavras, indicou para este emprego, com o título de Lugar-Tenente, Murat, ou seja, o duque de Berg. Até aqui parecia que se tinham guardado as formas, mas muito rapidamente acabou-se até com a aparência delas. A 4 de Maio, em Bayonne, Carlos IV declarou-se rei, dizendo que queria consagrar os últimos dias da sua vida ao governo e felicidade dos seus vasalos. Pois no dia 8 do mesmo mês o rei Carlos esqueceu-se de tudo isto e renunciou à Coroa de Espanha a favor do Imperador Napoleão, com a faculdade expressa de que este a pudesse pôr em quem quisesse, segundo a sua vontade. Que contradições! Que insensatez! 
A monarquia de Espanha não era de Carlos IV, nem este a tinha por si mesmo, mas sim por direito de sangue, segundo as nossas leis fundamentais; e o mesmo Carlos IV acabava de assentá-lo e dizê-lo ao reassumir o Reino. Com que autoridade e com que direito aliena a coroa de Espanha e trata os espanhóis como rebanhos de animais que pastam nos campos? Com que poder priva da monarquia os seus filhos e descendentes e todos os herdeiros dela pelo nascimento e pelo sangue? 
Será certamente uma prova autêntica da cegueira espessíssima a que conduz a ambição, o facto de que Napoleão, com o seu ponderado talento, não tenha conhecido estas verdades, lançando sobre si a infâmia eterna de ter recebido a monarquia espanhola de quem não tinha nenhum direito e poder para dá-la. E a mesma nulidade haveria se conseguisse realizar os seus infames desígnios de entronizar como Rei de Espanha o seu irmão José Napoleão; pois nem este nem Napoleão I podem ser nem serão reis de Espanha, senão pelo direito de sangue que não têm, ou por eleição unânime dos espanhóis, que jamais a farão - saibam-no assim desde agora e para sempre. 
Quiseram-se autorizar estas violências com o nome e assinatura de Fernando VII e para isto se publicou primeiramente a sua renúncia a favor do seu pai Carlos IV, e depois uma outra, desta vez a favor de Napoleão, a qual, violentados, assinaram Fernando, o seu irmão o infante D. Carlos, e o seu tio o infante D. António. Há motivos gravíssimos para se presumir que estas duas renúncias são supostas; mas ainda que sejam verdadeiras, nelas mesmas está evidente a violência com que se fizeram e a sua completa nulidade. A 4 de Maio, Carlos IV reassumiu o trono, e com a data de 6 aparece a renúncia de Fernando VII. Se Carlos IV podia por si mesmo reassumir o trono, para quê a renúncia de Fernando VII? Se esta renúncia era de todo necessária, com que autoridade Carlos IV reassumiu o trono antes dela? * 
O mesmo argumento, e ainda com mais força, aplica-se à renúncia do domínio de Espanha a favor de Napoleão. Carlos IV fê-la em 8 de Maio, e Fernando VII em 12. Não foi pois válida a de Carlos IV em 8 porque faltava a de Fernando VII, e se foi válida, para quê se exigia esta outra? 
Numa e noutra, a violência que se fez a todos é manifesta e não tem exemplo igual. Fernando VII foi tratado, logo que entrou em França, com um desprezo que não podia imaginar-se. Está rodeado de guardas franceses; foi separado da sua comitiva; foi reduzido a um estado miserável; e ainda lhe ameaçaram de morte **. O mais estranho é que Napoleão não alcançou o seu fim com toda esta ignomínia. Depois de Fernando VII, o seu irmão o infante D. Carlos, toda a Família Real e a sua descendência ficam com um direito inviolável ao trono de Espanha. Causará admiração à posteridade que o próprio Conselho de Castela se tenha prestado a tantas e tão horríveis usurpações, e que as tenha autorizado com o seu nome, o qual enganou a alguns pouco reflexivos. É mais claro que a luz que o Conselho de Castela não tem poder algum para mudar a dinastia reinante e transtornar as leis fundamentais na ordem da sucessão. As consequências horríveis de terem sidos obrigados a derrogar o poder que não têm trouxeram males gravíssimos à nação inteira. 
Foi pois por toda a necessidade e para remédio daqueles [males] que se criou a Junta Suprema de Governo de Sevilha, a instâncias do povo, e que no uso das suas faculdades se tenha declarado independente, desobedecendo ao Conselho e Junta Superior, cortando toda a comunicação com Madrid, levantando exércitos, e fazendo-os marchar para guerrearem com os franceses. Deus lançou a sua santa bênção sobre nós e sobre as nossas puras intenções. Dos dias 23 a 27 de Maio toda a nação se levantou em massa a proclamar o seu Rei e defender a sua pátria. Elegeram-se Capitães-Generais e chefes do exército. Estes foram organizados, correndo os povos com ardor às armas, e as classes e corpos poderosos fazem abundantes donativos. 
A Andaluzia era acometida por um exército francês [comandando pelo General Dupont] no mesmo momento em que levantou a voz pela sua religião, pelo seu Rei e pela sua pátria, e em menos de quinze dias temo-lo já cercado e não poderá escapar de se render ou de se retirar vergonhosamente. A esquadra francesa ancorada em Cádis acaba de arrear a sua bandeira e sensatamente entrega-se a nós. As províncias de Espanha vão reconhecendo nesta Suprema Junta o fiel depósito da autoridade real e o centro da união, sem o qual expor-nos-íamos a guerras internas ou civis que arruinariam completamente a nossa santa causa. 
Tratámos um armistício com os ingleses e temos livre comunicação com eles. Ofereceram e deram-nos muitos auxílios, e esperamos outros maiores. Desembarcaram parte das suas tropas, e lutam já em alguns dos nossos pontos ***; estão em Cádis prontos a embarcar três enviados nossos ao Rei da Grã-Bretanha, que tratarão e ajustarão uma paz durável e vantajosa com a nação inglesa. Portugal está em comoção e pronto a sacudir o seu vergonhoso jugo. 
As Américas, tão leais ao seu Rei como a Espanha europeia, não podem deixar de se unir a ela numa causa tão justa. Uno será o esforço de ambas pelo seu rei, pelas suas leis, pela sua pátria e pela sua religião. Ameaçam também as Américas, se não se reúnem a nós, os mesmos males que sofreu a Europa, a destruição da monarquia, a mudança do seu governo e das suas leis, o desregramento horrível dos costumes, os roubos, os assassinatos, a perseguição dos sacerdotes, a violação dos templos e das virgens consagradas a Deus, a extinção quase total do culto e da religião; em suma, a escravidão mais bárbara e vergonhosa, sob o jugo dum usurpador que não conhece nem piedade, nem justiça, nem humanidade, nem até sinal algum de vergonha. 
Burlaremos as suas iras uma vez reunidas a Espanha e as Américas espanholas. Esta Junta Suprema cuidará de tudo com um zelo infatigável. As Américas sustentarão-na com quanto abunda no seu fértil solo tão privilegiado pela natureza, enviando imediatamente os fundos reais e todos quantos possam adquirir-se por donativos patrióticos dos corpos, comunidades, prelados e particulares. O comércio voltará a florescer com a liberdade da navegação e com os favores e graças oportunas que lhe dispensará esta Junta Suprema, de que podem estar certos os nossos compatriotas. 
Somos todos espanhóis. Sejamo-los, pois, verdadeiramente reunidos na defesa da religião, do rei e da pátria. 
Palácio Real do Alcázar de Sevilha, a dezassete do mês de Junho do ano de mil oitocentos e oito. 

Francisco de Saavedra, Presidente. 
El arzobispo de Laodicea, coadministrador do desta diocese 
Fabián de Miranda y Sierra. 
Francisco Cienfuegos. 
Vicente Hore. 
Francisco Díaz Bermudo. 
Juan Fernando Aguirre. 
El conde de Tillí. 
El marqués de Grañina. 
El marqués de las Torres . 
Andrés de Miñano y las Casas. 
Antonio Zambrana Carrillo de Albornoz. 
Andrés de Coca. 
Josef de Checa. 
Eusebio Herrera. 
Adrián Jacome. 
Antonio Zambrano. 
Manuel Peroso. 
Josef Morales Gallego. 
Víctor Soret. 
Celedonio Alonso. 
Manuel Gil. 
Josef Ramírez. 

Por mandado de Sua Alteza Sereníssima, 
Juan Bautista Pardo, secretário, 
Manuel María Aguilar, secretário.


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Notas:

* Deve-se aclarar que, aparentemente, a Junta de Sevilha somente tinha conhecimento da renúncia anunciada numa carta de 6 de Maio de Fernando VII ao seu tio o infante D. António (presidente do Governo provisório criado pelo sobrinho), desconhecendo um facto anterior: Fernando VII tinha renunciado à coroa no dia 1 de Maio (embora condicionalmente), conforme ele próprio o atestou novamente numa carta de 6 de Maio, enviada a seu pai, carta esta onde fica finalmente assente a sua renúncia incondicional.

** Como se vê, o mito do "rapto" e da "prisão" de D. Fernando foi construído pouco depois de chegarem à Espanha as notícias da sua abdicação (e pouco faltaria para que o começassem a apelidar de Desejado). Na verdade, em troca da sua abdicação, D. Fernando passou a viver no château de Valençay com o seu irmão D. Carlos e com o seu tio D. António (entre outros membros da sua comitiva), à custa de largas rendas provenientes dos cofres franceses. Contudo, a mitificação já estava consumada: "Na guerra da independência os espanhóis improvisaram tudo, começando pelo mito preciso, e que sempre lhes foi necessário para prosseguirem em diante. Aqui o mito foi o próprio Fernando, idealizado no seu Palácio-prisão de Valençay como modelo de virtudes, como acumulado de sofrimentos, como protótipo de integridade. O amado  Rei Fernando era como o príncipe encantado pelo qual combatia a Espanha inteira" [Fonte: Fernando Solano Costa, "Influencia de la Guerra de la Independencia en el pueblo español", in Revista de Historia Jerónimo Zurita, n.º 3, 1952, pp. 103-121, p. 108].

*** Na verdade, apesar de ser certo que algumas tropas inglesas tinham desembarcado perto de Cádis, nenhumas delas se tinham ainda envolvido, aquando da redacção deste manifesto, em qualquer tipo de luta no território espanhol.