Mostrar mensagens com a etiqueta Motins. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Motins. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Proclamação do Grão-Duque de Berg aos espanhóis, em virtude dos incidentes de Madrid (2 de Maio de 1808)




Quartel-General de Madrid, 2 de Maio de 1808 


Valorosos espanhóis! 

O dia dois de Maio será um dia de luto tanto para mim como para vós. 
Os nossos inimigos comuns, havendo-me provocado, ao princípio, de maneira que me esgotassem toda a paciência, concluíram depois excitando uma parte do povo de Madrid e das aldeias adjacentes a tais excessos que, por fim, foi necessário empregar a força irresistível confiada ao meu comando. 
Eu tive prévia informação dos esforços que faziam os mal intencionados, mas ainda assim quis-me persuadir que nada poderia perturbar a tranquilidade pública. Preparei-me para o pior, esperando contudo que as minhas precauções seriam supérfluas. 
Esta manhã rebentou a tempestade que havia muito tempo que eu temia. Preparam-me para ela grande número de circunstâncias e de libelos incendiários, pelos quais me informaram dos meios que se tinham adoptado. O sinal da revolta foi a partida da Rainha da Etrúria e do Infante D. Francisco, que foram chamados a Bayonne por El-Rei seu pai. Um dos meus Ajudantes de Campo, que se achava então no Palácio, estava ao ponto de perecer às mãos dos sediciosos, ao mesmo tempo que todos os franceses que se achavam sós nos diferentes bairros de Madrid foram assassinados. Vi-me por fim obrigado a dar ordens para castigar tão enormes crimes. 
Com que horrível alegria contemplarão os inimigos da França e da Espanha o dia em que os generosos franceses se viram obrigados a ferir os espanhóis iludidos! Os inimigos comuns de ambos os países continuarão a usar os seus esforços para obter outros triunfos não menos horríveis em outras partes deste belo Reino. Suas fúteis esperanças serão frustradas pela minha franqueza e pelo vosso sólido juízo. Valorosos espanhóis, falo com a vossa sinceridade sobre um acontecimento não menos penoso aos vossos corações do que ao meu; e ao mesmo tempo, eu vos explico a vossa situação: 
Carlos IV e seu filho estão agora em Bayonne com o Imperador Napoleão para ajustar o destino da Espanha. O Imperador não pensa que é conveniente esperar o resultado de tão importante decisão para vos fazer conhecer os sentimentos que o animam a favor de uma nação magnânima, que ele deseja livrar de uma crise revolucionária e trazê-la ao estabelecimento daquelas instituições políticas que são mais acomodadas ao seu carácter. 
Ele pois vos assegura e me encarrega de vo-lo repetir, que ele deseja manter e segurar a integridade da monarquia espanhola, cujo território não será desmembrado nem na menor parte; não perderá sequer uma aldeia, nem padecerá contribuições algumas; cuja imposição autorizam as leis da guerra nos países conquistados, mas que somente pessoas mal intencionadas suporão aplicáveis a um aliado. 
Acaso não vos unireis comigo, valorosos espanhóis, para prevenir que os malévolos disturbem tão feliz prospecto? Eu não vos suporei capazes de tanta cegueira, que sofrais serdes desencaminhados por vis perturbadores que desejam conduzir-vos à vossa ruína. E pois o sossego público é o objecto do nosso cuidado, não será certamente o interesse do exército que eu comando, o mesmo de todos aqueles que gozam dignidades e têm propriedade que conservar? Não ameaçam a ambos os tumultos da multidão que insultam a Majestade das Leis? 
Nobres proprietários, mercadores, fabricantes: usai da vossa maior influência para prevenir toda a espécie de sedição; este exercício de Magistratura é direito e dever da vossa situação. 
Ministros da religião: o vosso dever vos chama a fazer cessar a ilusão do povo; porque vós sabeis os segredos de suas consciências, que as vossas vozes dirigem com tanta autoridade. 
Depositários do poder civil e militar: em vós reside a mais directa responsabilidade se vos descuidareis de exercitar o vosso poder com vigor, de sufocar a sedição no seu berço ou de a cortar nos seus primeiros movimentos. Se outra vez se derramar o sangue francês, vós, em particular, responderei ao Imperador Napoleão, cuja ira ou clemência ninguém provoca em vão. A vossa fraqueza seria tanto mais inescusável, depois de eu vos ter trazido à lembrança, com a maior diligência e intimativa, este importantíssimo dever que tendes a preencher. 
Mas lisonjeio-me com a esperança de melhor futuro, confiando em que os ministros da religião, os magistrados espanhóis da mais alta graduação, numa palavra, todas as classes, trabalharão por evitar os distúrbios que podem ser prejudiciais ao melhoramento da Espanha. A todos os oficiais Generais e pessoas militares empregadas nas diferentes províncias da monarquia, servirá de modelo digno de imitação, nesta lamentável ocasião, o comportamento que tiveram as tropas da Casa Real e a guarnição de Madrid, e as tropas espanholas aquarteladas na Corte. Se as minhas esperanças ficarem frustradas, será a minha vingança verdadeiramente tremenda; porém, a serem realizadas, serei verdadeiramente feliz em anunciar ao Imperador que o seu juízo relativamente aos naturais de Espanha (a quem ele estende a sua estima e afeição) não foi errado. 

Joachim 


Por Sua Alteza Imperial e Real, o General do Estado Maior 

Agustin Belliard



[Fonte: Correio Braziliense - Agosto de 1808, pp. 168-171]. 

Ordem do dia do Grão-Duque de Berg ao exército francês em Madrid (2 de Maio de 1808)




Ordem do dia

A população de Madrid sublevou-se, e provocou assassinatos. Sei que os bons espanhóis gemeram por causa destas desordens; estou muito longe de confundi-los com aqueles miseráveis que não querem senão o crime e a pilhagem. Mas o sangue francês foi derramado e pede vingança; e por conseguinte ordeno o seguinte:

Artigo 1.º O General Grouchy convocará esta noite a comissão militar.

Art. 2.º Todos os que foram presos na desordem e com as armas na mão serão fuzilados.

Art. 3.º A Junta de Estado vai fazer desarmar os habitantes de Madrid. Todo os habitantes que depois da execução desta ordem forem encontrados armados ou que conservem armas sem uma licença especial, serão fuzilados.

Art. 4.º Todo o lugar onde seja assassinado um francês será queimado.

Art. 5.º Toda a reunião de mais de oito pessoas será considerada como uma associação sediciosa, e desfeita a tiros de espingarda.

Art. 6.º Os amos ficarão responsáveis pelos seus criados; os chefes de oficinas, artesãos e afins, pelos seus empregados; os pais e as mães pelos seus filhos; e os prelados dos conventos pelos seus religiosos.

Art. 7.º Os autores, vendedores e distribuidores de libelos impressos ou manuscritos que provoquem a sedição, serão considerados como agentes da Inglaterra, e fuzilados.

Dada no nosso Quartel-General de Madrid, a 2 de Maio de 1808.

Joachim

Por ordem de Sua Alteza Imperial e Real

O chefe do Estado-Maior, General Belliard


[Fonte: Conde de Toreno, Historia del Levantamiento, Guerra y Revolución de España - Tomo I, Madrid, Imprenta de Don Tomas Jordan, 1835, pp. 67-69 (apéndices)]


Os motins de 2 de Maio de 1808 segundo Goya



El dos de mayo de 1808, o La lucha con los mamelucos.
"O dois de Maio de 1808, ou a luta com os mamelucos".
Quadro de Francisco de Goya (1814)

Memoria histórica dos principais acontecimentos do dia 2 de Maio de 1808 em Madrid, por Emilio de Tamarit

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ordem de Lagarde motivada por uns incidentes em Lisboa (29 de Abril de 1808)



O Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino de Portugal, participou a Sua Excelência o Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército, os excessos recentemente cometidos no dia Sábado, 23 deste mês, nas Ruas Suja, da Amendoeira, da Mouraria, e Arco do Socorro. Sua Excelência, que tanto deseja fazer justiça ao bom espírito de que é animada a cidade de Lisboa, ouviu com o mais vivo desprazer que um ajuntamento tumultuoso que houve nestas quatro ruas tomara parte numa rixa particular entre alguns militares  (actualmente entregues a um Conselho de Guerra), donde resultaram violências culpáveis contra cinco soldados franceses, alheios daquela rixa, que pacificamente por ali transitavam; me encarregou de declarar que, no caso de se repetirem semelhantes delitos, serão deles responsáveis os bairros da cidade em que acontecerem, e que punirá grave e exemplarmente o menor atentado contra os soldados do seu Exército. E querendo Sua Excelência prevenir desde já o perigo de tumultos desta natureza, me ordenou que publicasse e fizesse executar as providências seguintes:

Art. I. Dos habitantes ou moradores nas Ruas Suja, da Amendoeira, da Mouraria, e Arco do Socorro, serão logo presos doze dos de pior fama e mais suspeitos pela sua anterior conduta, e conservados em prisão por três meses, caso não se declarem os verdadeiros instigadores e autores das desordens cometidas nas mesmas ruas no dia 23 deste mês.

Art. II. Todas as meretrizes que moram nestas quatro ruas serão obrigadas a evacuá-las inteiramente dentro de quatro dias, o mais tardar, depois da afixação da presente ordem, sob pena de serem logo presas, rapadas e desterradas de Lisboa e seu termo, no caso de se encontrarem depois daquele prazo.

Art. III. Todas as baiucas, tabernas ou casas de povo das quatro ruas acima referidas serão fechadas dentro de 48 horas, sem poderem tornar a abrir-se antes de passarem 6 meses, salvo se o dono denunciar alguns dos que tiverem tido parte nos excessos cometidos. Esta denúncia deverá fazer-se na Intendência Geral da Polícia do Reino (no Rossio) ou perante o Corregedor ou  Juiz do Crime do bairro.

Art. IV. Em caso de rixas, desordens ou qualquer tumulto nas praças públicas e ruas desta capital, é proibido a todo o habitante sair de casa ou loja com qualquer arma ofensiva ou defensiva, ou entrar em algum ajuntamento; a guarnição, a Guarda Militar da Polícia e outros oficiais de justiça ou agentes da polícia são os únicos encarregados de manter a ordem e tranquilidade em semelhantes ocasiões.

Art. V. Fica expressamente proibido na cidade de Lisboa e seus arrebaldes conservar em casa, trazer, fabricar ou vender espécie alguma de armas proibidas, entre as quais se contaram desde este momento os paus com ferrões, vulgarmente conhecidos pelo nome de chuços e cajados. Os que ainda os conservarem serão obrigados a entregá-los dentro de 48 horas na Intendência Geral da Polícia ou ao Corregedor ou Juiz do Crime do seu respectivo bairro; os quais os receberão, fazendo uma lista que me será remetida, o mais tardar, dentro de 8 dias, para eu determinar o lugar onde definitivamente devem depositar-se.

Art. VI. Aqueles em cuja casa, 4 dias depois da afixação do presente [edital], se acharem em Lisboa e seus arrebaldes chuços e cajados, serão condenados, por cada um deles, além de um mês de prisão, em 16.000 réis de multa para o denunciante.

Art. VII. Fica igualmente proibido conservar em casa, por qualquer motivo que seja, trazer, fabricar ou vender espécie alguma de punhal, estoque, ou espingarda de vento, ou outras armas proibidas pelas leis anteriores, sob pena de serem entregues à Comissão Especial [sic] estabelecida pelo decreto de 8 deste mês, para serem julgados conforme as Leis do Reino, e além disso condenados a uma multa de 48.000 réis para quem denunciar a existência de tais armas, onde quer que estiverem, depois do prazo de 6 dias fixado para o depósito, seja na Intendência Geral, seja perante o Corregedor ou Juiz do Crime do distrito do possuidor.

Art. VIII. Todos os que, não sendo funcionários militares ou civis, actualmente empregados, se acharem pelas ruas de Lisboa ou seus arrebaldes com armas ocultas, menos que não sejam munidos de uma licença formal e posterior à entrada do Exército francês, serão presos e levados à Intendência Geral para serem conduzidos perante a Comissão Especial, e julgados segundo o rigor das Leis contra os que usam de armas proibidas.

Art. IX. O artigo VII da presente ordem sobre punhais, estoques, espingardas de vento e outras armas proibidas é igualmente aplicável às províncias, e aí receberá a sua execução perante os Corregedores mores, Corregedores ordinários, Juízes de Fora e Juízes ordinários, doze dias, quanto muito, depois da sua publicação na capital de cada província.

ART. X. Todas as autoridades ligadas à polícia, especialmente a Guarda Militar de Lisboa, ficam encarregadas de concorrer, cada uma pela parte que lhe toca, para a mais severa execução da presente ordem, que será impressa, publicada e afixada em toda a parte onde preciso for. 

Lisboa, 29 de Abril de 1808. 

P. Lagarde. 



[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º XVIII, 3 de Maio de 1808].


__________________________________


Nota:

Na última folha da versão desta ordem publicada em edital, acima inserida [e extraída da compilação Discurso do Imortal Guilherme Pitt...], pode ser lida a seguinte anotação manuscrita: “Estes grandes excessos foram que na Rua Suja correram [?] a facadas quantos soldados franceses ali apareceram – morrendo alguns deles”.

Acúrsio das Neves conta outra versão: “Aconteceu nesta mesma ocasião [da tentativa de captura do brigue Gaivota] uma desordem nas ruas Suja, da Amendoeira e vizinhas, que não teve outro princípio que o de uma pendência particular entre alguns soldados das três nações [portuguesa, espanhola e francesa], de que resultou ficarem mortos um português e um francês, sem outra consequência que a de concorrer ao motim uma grande parte do povo daquelas ruas, como era de esperar. Lagarde, de acordo com Junot, figurou disto uma sublevação, mandou prender doze homens dos mais suspeitos pela sua anterior conduta (como se a sua anterior conduta os fizesse responsáveis por crimes em que não tiveram parte), dentre os habitantes das mesmas ruas, para serem conservados por três meses na prisão, caso não declarassem os verdadeiros autores ou instigadores daquela desordem. Mandou fechar todas as tabernas, baiucas e casas de pasto daqueles sítios, por tempo de seis meses, salvo se o dono denunciasse algum que tivesse tido parte no motim. Isto é conhecer as verdadeiras regras da jurisprudência criminal, e uma bela teoria em matéria de delações! Tomou daqui pretexto para fulminar novas proibições sobre o fabrico, uso e conservação de todo o género de armas ofensivas e defensivas em Lisboa e seus arrebaldes, compreendendo até os cajados. Ainda falta o mais galante: mandou despejar das mesmas ruas todas as meretrizes, dentro de quatro dias, [sob] pena de serem presas, rapadas e desterradas. Podem ver-se estes chefes de obra [=obras-prima] da polícia francesa no edital de 29 de Abril[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo II, Lisboa, 1810, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, pp. 229-230].


quarta-feira, 9 de março de 2011

Ofício de Lagarde a Junot relativo a dois incidentes ocorridos em Lagos (9 de Março de 1808)





O Corregedor de Lagos participa, na data de 24 do corrente [seria Fevereiro], que naquela cidade houveram nos dias 11 e 12 de Fevereiro dois motins contra o Governador daquela Praça, e outro contra o Coronel do Regimento n.º 2. 

Procedeu o primeiro de proibir o Governador que os pescadores saíssem ao largo: então, privados do meio da sua subsistência, levantaram-se em massa, fazendo alaridos, aos quais o Governador pôs termo facultando-lhes licenças. 

Procedeu o segundo de querer o Coronel do dito Regimento que, nas guias passadas aos soldados a quem deu baixa, se declarasse que iam satisfeitos do soldo, pão, e fardamento, quando não era assim. E porque o coronel mandou prender um soldado que fez esta representação, outros soldados dispersaram a patrulha que conduzia o preso e o puseram em liberdade, formando depois corpo de delito o Coronel. Este lhe mandou então entregar as fardas vencidas, e se dissipou o tumulto. Não houve em uma e outra desordem mais do que o facto insubordinado. 


[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 12-13 (apud António Ferrão, A I.ª Invasão Francesa, p. 256)].


__________________________

Nota: 

Em Milão, pouco depois de ser informado da entrada das tropas de Junot em Lisboa, Napoleão tinha escrito a Junot, no dia 23 de Dezembro de 1807, que o Ministro da Polícia lhe enviaria um "agente para colocar à testa da vossa polícia". Este agente era Pierre Lagarde, que então exercia as funções de Director Geral da Polícia do Estado de Veneza, o que talvez justifique o motivo pelo qual tardou tanto tempo para chegar a Portugal. De facto, a sua partida de Paris somente foi anunciada no dia 29 de Janeiro [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 13, 12 de febrero de 1808, p. 152], ainda que seja possível que tenha partido antes. O que é certo é que no dia 14 de Fevereiro, como Junot indicou a Napoleão, Lagarde ainda não tinha chegado a Lisboa. 
Confrontando esta última informação com o documento acima transcrito, deduzimos que Lagarde teria chegado a Lisboa na segunda quinzena de Fevereiro, começando desde logo a exercer as funções que Napoleão lhe tinha ordenado, apesar de, oficialmente, só vir a ser nomeado Intendente Geral da Polícia do Reino de Portugal no dia 25 de Março. Juntamente com este cargo, Lagarde viria a acumular o de Conselheiro do novo Governo e o de redactor da coluna sobre Lisboa publicada na Gazeta de Lisboa (facto que se torna evidente a partir do número do dia 5 de Abril). Em Lisboa, Lagarde assentou os seus aposentos no Palácio da Inquisição de Lisboa, onde antes se congregavam, como já referimos, os membros do Governo da Regência instituído pelo Príncipe regente D. João, até à sua dissolução por Junot, no dia 1 de Fevereiro. 


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os primeiros motins na capital e as reações de Junot


Nota: O texto que abaixo se transcreve provém da obra manuscrita de Domingos Alves Branco Muniz, Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa..., fls. 32-35. A nota com a letra é do autor, as restantes (numeradas) são nossas.



"Quando o povo de Lisboa estava persuadido de que o Exército francês e o seu General em Chefe tinha entrado no Reino de Portugal para o proteger, como tinha proclamado debaixo das ordens do Governo provisional que V.A.R. [Vossa Alteza Real] deixou, pelo contrário se viu no dia 13 de Dezembro, logo ao romper do dia, içar-se [a] bandeira francesa no castelo de Lisboa, firmada com uma salva de 21 tiros, o que imitaram as torres e fortalezas, e igualmente todos os navios de guerra portugueses correspondendo com iguais salvas.
Amotinou-se o povo, como era de  [se]  esperar com este inesperado sucesso1, e por todos foi inteiramente desaprovado.
Já no dia antecedente tinha determinado o General em Chefe que se juntasse no dia seguinte de manhã toda a tropa francesa, tando de Cavalaria como de Infantaria, para se lhe passar revista no largo do Rossio, para onde se encaminhou o mesmo General em Chefe pelas onze horas da manhã, vestido de grande e rico uniforme, e acompanhado por todos os Generais seus imediatos; pelos Generais de Divisão, e Oficiais maiores, e pelo Conde de Novion, que era inseparável do lado do General em Chefe.
A guarda que nesta ocasião o acompanhou era composta de um Esquadrão de Cavalaria francesa e outro Esquadrão do Corpo da Polícia. Eu fui assistir a esta revista pela curiosidade de orçar o número de tropa de que ela se compunha, e achei ser de oito mil homens pouco mais ou menos, inclusive o Corpo de Artilhariaa.
Logo que o General em Chefe chegou ao largo do Rossio, depois de receber as continências que lhes eram devidas, ordenou ao General Delaborde que mandasse formar um quadrado, o que, executando com toda a destreza, se foi o mesmo General postar no seu centro com todo o seu Estado Maior, e aí, em nome do Imperador e Rei, fez à mesma tropa a fala seguinte:




Gravura representando Junot 
a passar revista às suas tropas no Rossio




Fala

Soldados franceses, bravo Exército de Gironda:
Da parte do Grande Napoleão vos agradeço a constância com que tendes sofrido todos os trabalhos e fadigas da nossa marcha. O céu protege o fim a que nos propusemos, de salvar a mais bela cidade da opressão dos ingleses e da desordem; finalmente temos a glória de vermos arvorada a bandeira francesa neste posto. Soldados, oficiais e Generais, eu estou contente do vosso comportamento. O Grande Imperador Napoleão 1.º saberá compensar os vossos trabalhos e conduta, e por isso é preciso que digamos todos:
Viva o Imperador Napoleão.



Assim se executou porque logo que o General em Chefe finalizou aquela fala, tirou o chapéu, e levantando-o muito acima, foi ele o primeiro que deu três vivas ao Imperador e Rei, ao que todo o Exército correspondeu com iguais vivas, concluído o que tornando à forma de batalha, se retiraram os Corpos para os seus quartéis, e igualmente o General para o da sua residência, acompanhado com a mesma pompa, a esperar as pessoas que no dia antecendente tinham sido convidadas para nesse dia jantar com ele, e para o que se preparou uma mesa de cem talheres, com muita profusão e delicadeza; e aonde jantaram os membros do Governo da Regência, o Núncio2o Almirante russo, a maior parte da grandeza do Reino e alguns tribunalistas, menos o Intendente da Polícia, que não foi convidado.
É digno de notar-se que sendo o General em Chefe hóspede do Barão de Quintela, e sendo este o que fez toda a despesa deste jantar, assim como fazia a diária dos demais dias, foi convidado por uma carta para jantar com o General Mr. Junot na sua casa. Assim o dizia a carta.

Acabando de jantar às oito horas da noite, se encaminharam alguns Generais franceses para o Teatro de S. Carlos [gravura à direita], que nessa noite estava ricamente adornado, e com grande iluminação. A tribuna de V.A.R. foi prostituída aos Generais que tiveram o desacordo de nela se assentarem. Logo que na mesma tribuna apareceu o General em Chefe, deram os franceses três vivas ao Imperador e Rei, outros três ao General em Chefe, que retumbaram porquanto o sobredito General tinha com antecipação disposto tudo, mandando comprar 400 bilhetes de plateia e 60 de camarotes, que foi tudo distribuído pelos Generais, Oficiais maiores e Oficiais subalternos do Exército.

Findo o primeiro acto da ópera, e antes de se dar princípio à dança, mandou o General em Chefe subir a [banda de] música do Regimento de que ele é Coronel ao anfiteatro que se acha por cima da real tribuna, a qual, rompendo uma sinfonia harmoníaca e análogo ao lugar, ao mesmo tempo se viu tremular por cima das Armas Reais de V.A. uma grande bandeira francesa, repetindo todos os Oficiais franceses nesta ocasião três vivas ao Imperador e Rei, e outros três ao General em Chefe, conservando-se a mesma bandeira até finalizar a ópera.
O comportamento que nesta ocasião tiveram os portugueses que desgraçadamente ali se achavam foi qual se podia esperar de uma nação sempre fiel aos seus soberanos. Não houve uma só pessoa que acompanhasse aquela vozaria, e nem que tirasse o chapéu da cabeça, ou se pusesse de pé, estando sentado, mostrando de improviso nos seus tristes semblantes a mágua que lhe ocupava o coração e os desejos de despicar semelhante afronta, contentando-se então por desabafo em saírem como sairam para fora do Teatro, deixando ficar unicamente nele aos mesmos franceses.
Se por todos aqueles anteriores acontecimentos se achava o povo indiposto e descontente, em ponto tão visível que até as prostitutas mais corruptas não lhes abriam a porta, muito mais se aumentou a indisposição pelo inesperado acontecimento de arvorarem a bandeira francesa, produzindo isto um grande ajuntamento no Terreiro do Paço e Rossio, a que se uniram muitos rapazes que gritavam em alta voz: Viva o Príncipe Regente. E como acudisse a guarda francesa a sossegar o tumulto, foram de tal modo apedrejados pelos rapazes que, deixando armas, desamparam a guarda.
Tocou-se a rebate e acudiram todas as tropas francesas a esta desordem, desfilando pelas ruas e por todas as entradas das ruas da cidade baixa um piquete de Cavalaria, e o Corpo da polícia foi encarregado de sossegar o povo, que de novo se mostrou inquieto, quando o Conde de Novion apareceu no Terreiro do Paço, o qual sofreu muitos e justos impropérios do povo, que a uma vós bradavam: Fora traidor3.

Continuou esta desordem toda a noite e parte da manhã do dia seguinte, e o povo cada vez mais cheio de entusiasmo, não era nada equívoco o que eles pretendiam: que era o sinal dum chefe que os dirigisse. E suposto que o General Mr. Junot afectou que semelhante sucesso não lhe dera cuidado, e que nem tinha merecido o trabalho dele calçar as botas; contudo, isto se desmente, porque quem não tem receio não manda dobrar as guardas; nem destaca patrulhas de Cavalaria por todas as ruas; e menos manda guarnecer a entrada do palácio da sua residência com duas peças de artilharia do calibre de 8, com destacamento de artilheiros, e com morrões efectivamente acesos, como ele pôs em prática, e por muitos dias.







Fonte: BND
Guarda da Cavalaria da Polícia de Lisboa,
comandada pelo Conde de Novion





Foram mortos nesta pequena insurreição sete pessoas, a saber: três franceses e quatro portugueses, o que tudo deu motivo à seguinte proclamação do General em Chefe:



Proclamação


O Governador de Paris, Primeiro Ajudante de Campo de S. M. o Imperador e Rei, General em Chefe:

O maior de todos os crimes é a Rebelião

Vós vos deixastes arrastar ontem por alguns maus indivíduos que para vos comprometer se atreveram a atirar às minhas tropas, estando entre vós. Eu os conheço; eles pagarão com a sua cabeça o insulto que se atreveram fazer à bandeira francesa; mas eu não confundo entre os maus os honrados habitantes de Lisboa; e pela segurança dos bons cidadãos é que eu determino o que se segue:
Todo o ajuntamento de qualquer natureza que ele seja, é proibido.
Todo o indivíduo que se encontrar armado num ajuntamento será conduzido à Comissão Militar criada pelo meu decreto da data de hoje, para ser julgado, e sentenciado a três meses de prisão, se ele se não serviu das suas armas, e no caso de ter feito uso delas, contra quem quer que for, será condenado à morte.
Todo o indivíduo que for preso num ajuntamento, convencido de ser um dos chefes, ou cabeça de motim, sofrerá a pena de morte.
Dado no Palácio do Quartel-General em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1807.
Junot






Como em todo o tempo daquele movimento tumultuoso não tinha aparecido o Intendente Geral da Polícia [Lucas de Seabra da Silva], foi chamado à presença do General em Chefe, que depois de o fazer esperar na sala vaga perto de três horas, lhe apareceu perguntando-lhe, sem lhe fazer cortejo algum, o que tinha sucedido nos dois dias antecedentes e aonde se tinha ele achado; ao que respondeu o Intendente que «não sabia»; e Mr. Junot lhe replicou: «Logo vós sois um mau Intendente da Polícia». «Não duvido», respondeu Lucas de Seabra, «e tão mau que quanto Sua Alteza Real me quis conferir este cargo, eu lhe apresentei a minha insuficiência; e agora que o Sr. General em Chefe a reconheceu, eu peço a minha demissão». «Não aceito», respondeu Mr. Junot, «pode continuar».
Tendo o General em Chefe, havia dias, mandado chamar o Marquês de Vagos4, que por muito doente não pôde cumprir a ordem, no dia 15 de Dezembro, porém, em que se achava melhor, apresentou-se ao referido General. Foi recebido com muita atenção e benevolência, sistema que adoptam os franceses do crocodilo, que afaga quando quer engolir, e lhe propor que era melhor reunir a tropa portuguesa com a francesa, para fazerem um só corpo, e mesmo usando todos do mesmo laço do Imperador no chapéu. Ouviu o Marquês de Vagos esta proposição sisudamente e sem interromper ao General francês; ao que respondeu: que ele não considerava o Reino de Portugal conquistado, mas que se o estava, então ele e todos os militares portugueses eram prisioneiros de guerra; mas que se não era conquista, como estava claro, e sem embargo disso Sua Excelência quisesse teimar na sua proposição e constrangê-lo, que ele lembrava que o mês de Janeiro era em Portugal o mais funesto para os velhos, e que nesta consideração lhe era indiferente morrer no mês de Dezembro em que se achava, ou no outro que se lhe seguia, e com esta resposta se despediu de Mr. Junot".


____________________________________________________



a. [Nota do autor] "O Exército francês de Portugal compunha-se de 8 mil homens em Lisboa; e 5 mil guarnecendo Mafra e seus distritos na borda d'água; as torres, fortalezas e navios".

1. O autor deste texto diz que tal acontecimento foi inesperado; mas deve estar referindo-se ao hastear da bandeira no castelo de São Jorge. De facto, Junot tinha escrito a Napoleão, no dia 2 de Dezembro, referindo-lhe que "o Pavilhão francês flutua sobre o porto de Lisboa há dois dias [ou seja, desde o dia 30 de Novembro]; foi saudado por cem tiros de canhão, e ninguém o retirará sem antes passar sobre os corpos do exército de Vossa Majestade e do seu General em Chefe" [JUNOT, Diário da I Invasão Francesa, p. 109].


2. Referência ao Arcebispo de Nisibi (actual cidade turca de Nusaybin), D. Lourenço de Caleppi (ou Callepi), que se encontrava em Lisboa na qualidade de Núncio Apostólico (cargo para o qual tinha sido nomeado em 1801). Apesar do príncipe regente tê-lo convidado para o acompanhar na viagem para o Brasil, o Núncio foi obrigado a ficar em Lisboa, pois chegando ao cais no dia do embarque, com a pressa e confusão já descritas, ninguém lhe tinha guardado um lugar nas embarcações... Mais adiante daremos algum destaque à sua atribulada evasão de Lisboa.

3. O Conde de Novion era um oficial francês que fugira à revolução francesa. Exilando-se em Portugal, o príncipe regente confiara-lhe desde 1801 o cargo de Comandante da Guarda Real da Polícia. Daí que o povo lhe chamasse traidor, por agora aparentemente estar a servir a Junot.


4. D. Nuno da Silva Telo e Menezes Côrte-Real (1746--1813). Era o  Comandante das Armas da província da Estremadura, como já baixo foi referido.