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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Resposta de Izquierdo a D. Pedro Cevallos (10 de Abril de 1808)



No dia 18 de Março de 1808, D. Pedro Cevallos, primeiro-ministro e Secretário de Estado de D. Carlos IV, comunicou a Eugenio Izquierdo que Godoy tinha sido demitido, depois dum motim ocorrido em Aranjuez nessa mesma madrugada: 

Ex.mo Senhor: 

Passo às mãos de V.ª Ex.ª, de acordo com as ordens do Rei [Carlos IV], uma cópia do Real Decreto que Sua Majestade me expediu na data de anteontem para os fins que nele se expressam [de tranquilizar o povo, declarando que a família Real não partiria de Aranjuez]; e outra cópia do ofício que me dirigiu o senhor Secretário dos assuntos da marinha, passando-me o Real Decreto onde Sua Majestade exonera o senhor Príncipe da Paz dos empregos de Generalíssimo e de Almirante, a fim de que V.ª Ex.ª seja informado deste sucesso, e de que esteja igualmente informado de que esta noite o povo e a tropa que havia neste Sítio [de Aranjuez] amotinaram-se pelo infundado motivo de que Suas Majestade ainda pensavam partir, o que jamais lhes tinha ocorrido. 

Como V.ª Ex.ª se achava encarregado pelo senhor Príncipe da Paz de várias comissões, devo prevenir a V.ª Ex.ª, de acordo com as ordens do Rei, que me dirija os papéis relativos a elas e as exposições que tenha que dar, num subscrito reservado para Sua Majestade, a fim de que eu possa entregar-lhe sem o abrir*

Deus Guarde V.ª Ex.ª muitos anos. 

Aranjuez, 18 de Março de 1808. 

Pedro Cevallos 

P.S.: Devo advertir a V.ª Ex.ª, para evitar quaisquer equívocos, que o motim não foi dirigido contra Suas Majestades, mas sim contra o senhor Príncipe da Paz; bem pelo contrário, Suas Majestades receberam as maiores aclamações e aplausos de todo o povo; e também que, não tendo Sua Majestade querido entrar minimamente neste acontecimento na carta que dirige a Sua Majestade Imperial nesta data, por meio do Príncipe de Maserano [embaixador da Espanha na França, e aparentemente partidário de D. Fernando], a sua Real vontade é que V.ª Ex.ª entre em conversações com o Imperador, e que lhe informe do verdadeiro objecto que ocasionou o motim. 

Cevallos 
[Fonte:  Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 63-65 (doc. CXXVIII)].




Recordemos que Izquierdo tinha estado em Aranjuez no início de Março (onde teve ocasião de conversar com Cevallos, como adiante se verá), conforme uma missão que Napoleão lhe tinha encarregadoJá em Paris, onde teria chegado por volta do dia 20 de Março, depois de novas conversações, Izquierdo escreveu no dia 24 do mesmo mês a Godoy (ignorando que entretanto este tinha sido preso) comunicando-lhe as novas propostas de Napoleão. 
Dois dias depois de ter enviado esse correio, Izquierdo recebia a carta acima transcrita. Note-se que a mesma foi escrita antes dos segundos motins (na noite de 18), provocados pela descoberta e aprisionamento de Godoy, e que conduziriam à abdicação de D. Carlos IV em função do Príncipe das Astúrias D. Fernando (no dia 19). 
A importante e reveladora resposta de Izquierdo, abaixo transcrita, só foi enviada no dia 10 de Abril, pelos motivos aí expostos, e já depois destes novos acontecimentos serem conhecidos em Paris:



Ex.mo Senhor:  

Caro senhor, às sete da manhã do dia 26 do último mês, o correio de Sua Majestade, D. Alonso Mazorrapôs nas minhas mãos o subscrito que no dia 18 V.ª Ex.ª enviou-me de Aranjuez. 

Esta carta dizia, entre outras coisas, o que se segue: "Como V.ª Ex.ª se achava encarregado pelo senhor Príncipe da Paz de várias comissões, devo prevenir a V.ª Ex.ª, de acordo com as ordens do Rei, que me dirija os papéis relativos a elas e as exposições que tenha que dar, num subscrito reservado para Sua Majestade, a fim de que eu possa entregar-lhe sem o abrir"*  

No mesmo dia 26, Sua Majestade Imperial, recebendo a carta do Rei Nosso Senhor [Carlos IV], teve por bem mandar chamar-me ao sítio de S. Cloud, admitir-me à sua presença, sentar-se comigo no seu gabinete (sem que nele houvesse príncipe, ministros, pessoas da criadagem do palácio, ou guarda alguma) e ter a sós comigo um colóquio que durou, sem interrupção, desde antes das três até depois das cinco da tarde.   

Tinha eu escrito a carta em que dava conta ao Rei Nosso Senhor deste evento, quando no dia 28 pela manhã o Príncipe de Maserano chamou-me à sua casa, e leu-me uma carta de V.ª Ex.ª para que lhe entregasse, com inventário, todos os papéis relativos às negociações de que estava encarregado nesta capital pelo senhor Príncipe da Paz. Respondi que não tinha nenhuma, e respondi a verdade. 

Era a minha intenção escrever isto mesmo a V.ª Ex.ª com o primeiro correio extraordinário que saísse; e também evidenciá-lo com explicações e provas irrefutáveis; mas o Príncipe Maserano despachou naquela mesma noite um correio do Rei (o mesmo que tinha vindo às minhas ordens) e mandou que me fosse ocultada a sua saída; despachou depois outro correio, ocultando-mo também; e este proceder tão seu retirou-me todo o meio de comunicação com V.ª Ex.ª. E fez mais: olhou-me e tratou-me desde aquele momento (e conforme o seu exemplo, todos os da embaixada) como um homem já proscrito pela sua nação. 

Ontem passou-me o ofício de que é cópia o papel adjunto n.º 1; respondi o n.º 2; e contestou-me o n.º 3, que adjunto. [Estes documentos não se encontram publicados]

Tendo isto assente, Ex.mo senhor, receba V.ª Ex.ª de mim, homem honrado, verídico e livre no seu modo de pensar, amante até ao entusiasmo da honra, esplendor e glória da sua pátria, zeloso sustentador da sua independência e posses, fiel servidor do Rei e do Estado (cuja fortaleza de alma e rectidão de coração jamais se rebaixarão, nem sequer para evitar uma morte afrontosa, não digo a negar, mas sim a deturpar a verdade): receba V.ª Ex.ª deste homem (cuja conduta política deve por justiça tornar-se pública a toda a Espanha e a toda a Europa) uma franca, espontânea e verdadeira manifestação de todas as suas relações com o senhor Príncipe da Paz, e de tudo quanto fez em Paris, referente ao que se denomina num ofício comissões, e noutro negociações encarregadas pelo dito senhor Príncipe. 
Primeiro ponto: Eu era conhecido na Espanha e no meu Governo por ter feito bons serviços ao Estado (os documentos que comprovam estes serviços conservam-se nas várias secretarias do Estado e em meu poder) antes de ter visto, escrito ou falado com o senhor Príncipe da Paz; antes mesmo de ter notícia da sua existência. 
II. O Rei resolveu [entregar-mea direcção do gabinete de História Natural durante o ministério do Marquês de Grimaldi. Várias comissões do Governo, umas públicas, outras reservadas, foram-me confiadas durante os ministérios do senhor Conde de Floridablanca, do senhor Conde de Lerena e do senhor Baylio D. Antóio Valdez: todas elas anteriores ao ano de 1789.
III. A primeira vez que falei na minha vida com o senhor Príncipe da Paz foi no ano de 1797. 
IV. Nunca houve qualquer fundamento para me que apresentasse ao público com um dos seus amigos, ou um dos que gozava do seu tratamento familiar. Fui meramente um fiel servidor do Rei que trabalhou às suas ordens [i.e., de Godoy], como o fiz sem interrupção às de muitos predecessores seus nos ministérios do nosso superior Governo.
V. Assim, não foi o favor, nem a amizade, nem a protecção do senhor Príncipe da Paz o que me conduziu aos negócios do Estado; foram os negócios do Estado e o meu desempenho neles que me valeram toda a amizade de Sua Alteza [Godoy], todo o seu favor e confiança; e esta circunstância (tão verdadeira como digna de se notar) aumentou em Sua Majestade (quando ultimamente me ouviu) o bom conceito que sempre me foi devido pela minha leal conduta a Sua Majestade.
VI. Se servi nos negócios do Estado ao lado do Príncipe da Paz, foi pela expressa vontade e ordem do Rei Nosso Senhor, recebida da própria boca de Sua Majestade várias vezes. No Escorial, antes da minha primeira vinda diplomática a Paris, falando comigo o meu Soberano, em presença de Sua Majestade a Rainha, dignou-se dizer-me: «Trabalha ao lado de Manuel [Godoy]; é o teu protector; faz quanto te diga; através dele deves servir-me». Suas Majestades confirmarão esta verdade.
VII. Durante toda a minha missão secreta em Paris, não houve correspondência minha com o senhor Príncipe da Paz que não tenha sido lida pelos Reis. Suas Majestades asseguraram-mo pessoalmente, e Suas Majestades assegurarão-lho agora. Nem poderia ter existido, porque não teria tido fundamento; pois jamais tratei de assuntos aqui que não tenham obedecido ao bem geral da monarquia e ao bem estar de toda a família real.
VIII. Se no menoscabo de um ou de outro, ou às custas ou com sacrifício de um ou de outro, isto é, do bem do Estado ou do da família real, eu tivesse dado um só passo com este Governo [francês] em utilidade e proveito do senhor Príncipe da Paz, eu (que jamais desceria ao ponto de cobrir este facto desculpando-me por ter agido a mando do ministro do Rei, a quem o próprio Rei me tinha mandado obedecer) considerar-me-ia como delinquente, e como principal cúmplice nos projectos do senhor Príncipe da Paz; mas é necessária toda a baixeza de um coração falso e abrigador de traições, e toda a perversidade duma alma atroz que as promove, para supor no senhor Príncipe da Paz tão horrível deslealdade, e na minha pessoa tão louca e tão infrutífera cumplicidade. Eu, ao fim de tantos anos de estudos e de serviços consagrados em utilidade da minha pátria, cúmplice de um traidor! Eu mesmo um traidor, com inteira certeza de não poder tirar em tempo nenhum fruto ou vantagem alguma de tão perigosa maldade! E isto eu, que nunca adulei o senhor Príncipe da Paz enquanto privado do Rei, e que nunca o vi nem servi senão como ministro do meu Soberano!
IX. Assim, em presença do Todo-Poderoso e perante todo o universo, declaro que durante a minha estadia diplomática em Paris, jamais me foi inspirada ou comunicada pelo senhor Príncipe da Paz, até ao dia de hoje, ideia oposta ao bem geral do Estado, nem ao da real família, nem ideia alguma dirigida em seu proveito, actual ou futuro.
X. A minha missão foi para que ambos os Governos se comunicassem por um conduto fiel, seguro, secreto, e de tal lealdade que jamais misturasse os seus interesses pessoais com os do Estado, como o fizeram quase todos os embaixadores de ambas as Potências nestes últimos tempos, com graves e incalculáveis prejuízos para a nossa infeliz pátria. 
XI. Em Paris não tive outra missão política do Rei Nosso Senhor ou do senhor Príncipe da Paz senão comunicar directamente a Sua Majestade o Imperador tudo quanto me era dito de Madrid, e de comunicar a Madrid tudo quanto me encarregava Sua Majestade Imperial e Real.
XII. Com ninguém na França, com ninguém (esta proposição é de rigor) tratei pública ou particularmente de assunto político algum; nem sequer de uma mera notícia, senão com as pessoas que me foram designadas pelo mesmo Imperador. Jamais vi um ministro sem ordem sua ou sem o seu beneplácito. 
XIII. Tampouco dei passo algum neste país em assuntos da Espanha, sem prévia comunicação à pessoa de Sua Majestade Imperial e sem a sua explícita anuência. Nada fiz durante a minha missão em Paris; jamais se encontrará ponto algum de que os Reis Nossos Senhores não tenham tido conhecimento. 
XIV. E quais foram os resultados e o fruto da minha missão em Paris? Não me disse ultimamente V.ª Ex.ª em Aranjuez, na sua própria Secretaria, que os acordos assinados a 27 de Outubro último pelo Grão-Marechal do Palácio Imperial, o General Duroc, e por mim, ratificados imediatamente por Sua Majestade o Imperador e pelo Rei Nosso Senhor, eram os mais vantajosos que alguma vez tinha feito a Espanha? E não me disse também que eu tinha conseguido neles o que em dois séculos a França tinha negado constantemente até à sua própria dinastia reinante na Espanha?**      
XV. A culpa é do negociador? Deve-se por acaso diminuir o serviço que fez na negociação, porque causas independentes dela impediram a execução dos tratados assinados e ratificados?
Mas, Ex.mo senhor, mais que ouvir-me falar da conduta particular do senhor Príncipe da Paz e da minha, desejará V.ª Ex.ª receber a resposta categórica ao que na data de 27 de Março último comunicou V.ª Ex.ª ao Príncipe de Maserano, a saber, que eu lhe entregasse imediatamente as instruções reservadas que me foram dadas, segundo consta por escritos do Príncipe da Paz, quando saí de Madrid, na minha última viagem.
Assegura a minha lealdade que, ao sair de Madrid nos últimos tempos, bem como durante a minha última estadia tanto naquela capital como em Aranjuez, não me foram dadas instruções reservadas; e também afirmo que tal coisa não pode constar por escritos do senhor Príncipe da Paz no sentido em que entre nós tem a palavra instruções
Direi com sinceridade e simplicidade tudo quanto sei nesta matéria. Fiz a minha última viagem a Madrid por disposição particular de Sua Majestade Imperial e Real. Levei ideias e questões por escrito, que me foram dadas em Paris. Li-as a Suas Majestade, estando presente o senhor Príncipe da Paz. Suas Majestade mandaram-me chamar; ouviram-me cheios de bondade; responderam-me; e o senhor Príncipe mal se misturou nos colóquios.  
O senhor Príncipe nada me disse em particular que alterasse ou se opusesse ao que me disseram Suas Majestades na sua presença. Nada me deu por escrito.
Na noite da minha partida (a 10 de Março último), manifestou-me Sua Alteza [Godoy] uma carta que tinha escrita para o Imperador, a qual me ia entregar. Acerca dela fiz-lhe algumas observações, e pela pressa com que estávamos, disse-me: «Leve Vossa Mercê a carta; reflexionarei sobre o que falámos e avisar-lhe-ei se a há de entregar ou não». Este é o único escrito que me deu; e que devolvi a Sua Alteza na ponte de Miranda de Ebro, onde me encontrou o enviado que veio buscá-la. 
A carta do senhor Príncipe a Sua Majestade Imperial continha algumas ideias sobre o modo de conciliar os interesses políticos entre a Espanha e a França; ideias completamente favoráveis aos Reis e à Real família; nenhuma para a pessoa do senhor Príncipe ou para os seus interesses. Lida por mim, recaiu a minha observação que fiz ao senhor Príncipe, sobre toda a nossa anterior conduta diplomática, da qual nunca nos separámos; a saber, não propor nada em momento algum; observando, como um princípio de sã e prudente política, que compete ao mais forte propor e ao menos forte limitar-se a aceitar***.
Se a esta carta (o que não posso crer) chamou o senhor Príncipe por escrito (seja naquela noite ao escrever de Madrid aos Reis, seja noutra ocasião ao escrever a outra pessoa) instruções reservadas, seria porque em vista das minhas observações acordámos que antes de eu a apresentar ao Imperador, poderia consultar com o Príncipe de Bénévent e com o Marechal Duroc, se seria conveniente ou não pô-la nas mãos de Sua Majestade Imperial; e a isto poderia fazer alusão a palavra reservadas, que neste sentido quererá dizer não ostensíveis. 
A verdade de tudo quanto exponho, a minha conduta política, o meu patriotismo, a minha lealdade e amor aos meus Soberanos, a minha perseverança em não consentir que se diminua o nosso antigo poderio nacional, a minha oposição a assinar um tratado que não seja glorioso para a Espanha; tudo isto está assente para sempre na minha carta enviada a 24 de Março último, através de Rossi, correio de Sua Majestade, ao senhor Príncipe da Paz, numa altura em que eu devia estar persuadido de que as minhas cartas não chegariam a outras mãos que não fossem as suas.
Esta carta (já sei que o correio Rossi entregou-a a V.ª Ex.ª) continha as bases propostas por este Governo para conclusão de um acordo definitivo que compreendesse todos os interesses políticos hoje existentes entre a Espanha e a França; e V.ª Ex.ª terá visto já na dita carta que tudo quanto se ia estipular era em utilidade do Estado, em esplendor da Real família, e nada em favor do senhor Príncipe da Paz, em recompensa dos seus importantes serviços, e sobretudo da sua admirável conduta política.
Mas tudo ficou já transtornado pelos últimos eventos desse país; e a minha desgraçada pátria irá ver que as causas que nenhuma conexão têm com os assuntos políticos entre a Espanha e a França influenciaram este transtorno. Irá ver também que não se pôde derrubar o homem sem derrubar ao mesmo tempo tudo quanto manejava, e que as ideias erróneas espalhadas e derramadas nesse solo acerca do actual estado político das coisas, do rumo que numa tão crítica situação se seguia, e do que devia seguir-se, produziram outras, e que (segundo prevejo) vão ser completamente funestas à pátria.
Finalizarei esta exposição, fazendo saber a V.ª Ex.ª que o senhor Príncipe da Paz comunicou-me na última noite da minha estadia em Madrid, e na sua última conversação, que um agente do Governo francês que passava a Portugal [Pierre Lagarde], tinha dito a certo ministro estrangeiro residente nessa Corte [Strogonoff, embaixador da Rússia na Espanha], que em Paris se suspeitava que o senhor Príncipe tinha uma porção do seu dinheiro colocado na Inglaterra, e outra muito maior a caminho para fora da Espanha, e que esta suspeita se desvaneceria se enviasse alguns fundos à França para comprar bens imóveis. O senhor Príncipe acrescentou-me: «Tenho em letras de câmbio na América a importância da casa que me cedeu o Rei para o Almirantado; não me encontro com outra coisa disponível; assim, se Vossa Mercê vê em Paris que as suspeitas do Imperador são efectivas (o que não creio) e que se desvanecerão se eu comprasse fazendas na França, proponha-o a Sua Majestade Imperial; receba a sua anuência, e em tal caso poder-se-ão negociar as letras de câmbio, e com o seu produto comprarei fazendas para dois filhos não legítimos que tenho, de cuja existência (assim como das minhas vistas relativas a eles) estão conscientes Suas Majestades os Reis Nossos Senhores.
Se esta pedido particular (puramente doméstico, e que nenhuma conexão tem com os negócios políticos do Estado), feito verbalmente e em mera conversa, se denominou em algum escrito pelo senhor Príncipe como instruções reservadas, isto poderia dar lugar a crer que eu as teria recebido de Sua Alteza na minha última viagem; mas a verdade é que não me deu nenhumas, excepto o que consta na minha carta citada de 24 de Março último; carta que, sozinha, basta para a inteira justificação tanto do senhor Príncipe da Paz como de mim. 
À simples exposição que acabo de fazer, acrescentarei um ponto, que diz respeito à minha pessoa. Um papel original que existe no processo formado no Sítio de S. Lorenzo e que li em Aranjuez (escrito por uma mão superior para ser dirigido ao Rei Nosso Senhor), falando de mim, qualificava-me de criação do Príncipe da Paz. Não me desdenharia de sê-lo; certamente que não; mas a justiça e a verdade exigem que combata esta falsa asserção.
Desde que conheço o senhor Príncipe da Paz que não me foi dado pelo Governo qualquer emprego, salário ou gratificação. Não recebi do Soberano mercê alguma. Ainda me é devido tudo quanto gastei durante a minha longa estadia em Paris, e nas diferentes viagens empreendidas por assuntos do Estado. Desempenhei o [trabalho] mais árduo desta embaixada, e outros desfrutaram dos salários, emolumentos, honras e prerrogativas dela. Conferiram-me as honras do conselho de Estado; mas não as vejo nem como mercê, nem como recompensa. Foi necessário darem-mas; era preciso distinguir-me com uma condecoração, para que tratasse sem desvantagem com os que aqui tinha tantas; e sobretudo para que pudesse assinar de um modo decoroso à Espanha os tratados e acordos que estava entendendo. Por esta razão observei sempre tais honras como um capuchinho observa a rica casula que veste para celebrar num dia solene, e que, acabada a missa, a retira, ficando com o seu saial; e estou pronto a executar o mesmo, porque para dizer a verdade, já me são de todo inúteis. 
A minha intenção não é queixar-me de que não tenham recompensado os meus serviços; muito menos censurar a conduta que teve comigo aquele que o próprio Rei chamava meu protector; mas sim fazer patente que não pode dizer-se de mim com verdade que sou criação sua; ainda que tenha sido a pessoa que mais distinguiu; à que deu o mais que podia dar, isto é, a sua inteira e ilimitada confiança.
Concluo esta carta pedindo a V.ª Ex.ª que para justificação do senhor Príncipe da Paz e para a minha própria, comunique-a e publique-a. Assim não me verei na triste necessidade de eu próprio publicar a defesa de Sua Alteza [Godoye a minha apologia. 
Saber que [Godoyestá oprimido! Saber que é vítima do ódio de muitos, da preocupação de todos! Saber que é inocente (pelo menos a respeito das relações políticas com este país, das que tive completo conhecimento)! Saber que foi o mais fiel apoio de toda a dinastia reinante; o que viu mais além dos demais! Isto não há de excitar a minha honradez e a minha lealdade, para que, apoiadas na verdade e na justiça, defendam a honra do que acaba de ser tão ignominiosamente ultrajado na sua pessoa, à vista e com o pesar do seu Rei, com opróbrio do Governo e desonra da minha pátria?
Nosso Senhor guarde a pessoa de V.ª Ex.ª muitos anos.
Paris, 10 de Abril de 1808.
Eugenio Izquierdo
[Fonte:  Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 66-82 (doc. CXXX)].



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Notas:


Apesar do que pedia Eugenio Izquierdo, esta carta só viria a ser publicada em 1816, já depois da sua morte, nas Memorias para la Historia de la Revolución Española, obra de Juan Llorente já aqui várias vezes citada (onde se encontram, entre centenas de outros documentos, diversos ofícios herdados pelos testamentários de Izquierdo e alusivos à sua missão em Paris). Segundo Godoy, que também inseriu esta carta nas suas memórias apologéticas, "nenhum dos meus inimigos, nem muito menos D. Pedro Cevallos, que assim fica com o carimbo do opróbrio, se atreveram a publicar esta carta ou a responder-lhe. O próprio conde de Toreno, que cita por diversas vezes na sua História vários documentos daquela colecção [publicada por Llorente], faltando-lhe a devida imparcialidade de todo o historiador, calou-se sobre esta carta" [Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 505].



* Segundo Godoy, "esta ordem foi arrancada a Carlos IV, no meio da angústia e turbação em que se encontrava, por D. Pedro Cevallos, seu primeiro-ministro, o mesmo que, dois dias depois, já como primeiro-ministro de Fernando, expediu, em nome do seu novo senhor, a segunda ordem de que fala Izquierdo mais adiante, e que deu ocasião a esta carta. Qual foi o motivo de ansiar tanto para se apoderar daqueles papéis? Fernando tinha sido instruído pelo seu augusto e bondoso pai dos termos trazidos por Izquierdo, entre os quais se encontrava aquele em que Bonaparte propunha fixar a sucessão da coroa do modo que fosse mais conveniente para a tranquilidade do Rei e para a conservação da amizade entre a Espanha e a França; por mais que os maus amigos daquele Príncipe lhe tivessem querido fazer duvidar da verdade daquela proposta, nem eles nem Fernando deixaram de recear que fosse verdadeira. Daí a ânsia para saber a realidade exacta, e o dolo e a precipitação com que Cevallos arrancou a Carlos IV, no próprio dia 18, a referida ordem, que, supondo-se que continuaria reinando (como era a sua intenção e como a manifestou, reassumindo na sua pessoa o comando do exército e da marinha), não somente não tinha motivo para dá-la, como que ademais era contrária ao objecto das conversações pendentes entre Carlos IV e o Imperador dos franceses. Os instantes pareciam séculos aos conspiradores, para saberem o que pudesse haver naquele assunto, pois aqueles ímpios não acreditavam na resposta tão favorável a Fernando que tinha dado Carlos IV, e a qual lhe tinha instruído. Rei já este Príncipe vinte e quatro horas depois, foi apertar Cevallos com uma segunda ordem e com injúrias e ameaças para recolher todos os papéis de Izquierdo. Deste modo manejou este homem de cem caras, que logo alcançou ser ministro de cinco governos diferentes e contrários: infiel a Carlos IV, infiel a Fernando, infiel ao jurado Rei intruso José, e finalmente infiel ao regime jurado do tempo da Regência e das Cortes" [Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 506-507].



**  Deve aqui notar-se que em Setembro de 1808 (ou seja, em circunstâncias bastante diversas das que aqui fazemos menção), D. Pedro Cevallos publicaria a sua Exposición de los hechos y maquinaciones que han preparado la Usurpación de la Corona de España, y los medios que el Emperador de los Franceses ha puesto en obra para realizarla. Logo nas primeiras linhas, Cevallos declarava que queria com esta obra "manifestar à Espanha e ao mundo inteiro os torpes meios que o Imperador dos franceses se serviu para aprisionar o nosso Rei Fernando VII e avassalar esta nação grande e generosa". Esta obra, que tem a particularidade de ter revelado pela primeira vez o tratado de Fontainebleau, teve uma rápida e ampla difusão: até ao fim de 1808, houve pelo menos as edições de MadridCádis, Sevilla e Valência; em Lisboa houve pelo menos mais duas, uma pela Oficina de Simão Tadeu Ferreira e outra pela Oficina de João Rodrigues Neves; também apareceram traduções na Inglaterra e na Alemanha. Nos anos seguintes seria ainda traduzida para italiano (cf. tomo I e tomo II) e para francês, e ainda publicada nos Estados Unidos
Apesar de ter o crédito de ter sido escrita por um homem que tanto foi primeiro-ministro de D. Carlos IV como de D. Fernando, e como tal certamente melhor informado do que o comum dos mortais, esta obra foi precisamente uma das que mais contribuíram para o falseamento da história da assim chamada Guerra de la Independencia, conforme já tivemos ocasião de aludir aqui.  De facto, Cevallos omitiu e deturpou diversos factos, contribuindo não só para se prejudicar ainda mais a imagem já bastante manchada de Godoy, como por outro lado para espalhar o mito do aprisionamento de D. Fernando, visto naquela época como o Rei Desejado e cuja esperança de libertação servia de fundamento à luta dos espanhóis contra os franceses.

Releia-se agora o trecho da carta de Izquierdo que conduziu a esta nota, e confronte-se com o que escreveu Cevallos na página 8 da edição de Madrid, depois de anunciar a chegada ao Escorial do tratado de Fontainebleau, assinado pelo Marechal Duroc e por Eugenio Izquierdo: "É muito digno de se notar que de nenhum dos passos dados por D. Eugenio Izquierdo em Paris, bem como da sua nomeação, correspondências, instruções e demais direcções se tinha a menor notícia no ministério de Estado a meu cargo". 
Note-se ainda que foi D. Pedro Cevallos (na qualidade de conselheiro de Estado, primeiro-ministro e secretário de Estado) quem tinha subscrito os plenos poderes dados pelo Rei Carlos IV a Izquierdo, em Maio de 1806, e posteriormente renovados a 8 de Outubro de 1807, para que este assinasse um tratado com a França [Cf. Juan Nellerto (pseudónimo de Juan Antonio Llorente), Memorias para la Historia de la Revolución Española - Tomo III, Paris, Imprenta de M. Plassan, 1816, pp. 1-3 (doc. CXVI)].




*** Segundo Godoy, "o verdadeiro fundamento daquela regra de conduta nas transacções que eu dirigi através do conselheiro Izquierdo, não está aqui bem expressado, como ele e eu o entendíamos, talvez pelo temor que Izquierdo teria que esta carta pudesse ser interceptada na França. Eu não queria que se fizessem propostas, em 1.º lugar, para evitar que, aceitando-as Napoleão, quisesse que para boa correspondência aceitássemos as suas, por mais que nos fossem prejudiciais; em 2.º lugar, para que a sua diplomacia, saciando ilações, justas ou não justas, daquilo que propuséssemos, não tentasse enredar-nos nas suas pretensões com as nossas próprias; em 3.º, porque a aceitação de uma proposta feita pelo mais forte e admitida em circunstâncias difíceis, não obriga com tanta força como aquilo que proposto ou insinuado pelo menos forte se concedeu pela outra. Nenhuma precaução me pareceu suficiente para evitar toda a espécie de compromissos deste género".  [Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, p. 515].


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Publicação da sentença do processo de El Escorial


"Ao episódio do Motim de Aranjuez foram dados eufemisticamente muitos e variados nomes: tormenta, rebelião, revolta, traição, deploráveis jornadas, catástrofe, revolução, levantamento, alvoroço, agitação, sublevação, comoção ou sucessos de Aranjuez, e assim muitos mais, e ainda que numerosos historiadores de relevante prestígio se resistem a denominá-lo pelo seu nome, esta acção só tem um: golpe de Estado". Estas palavras de José Luis Lindo Martínez (in El Motín de Aranjuez, inicio de la Guerra de la Independencia. Una historia falseada) resumem o falseamento histórico de um episódio que durante dois séculos tem vindo a ser tantas vezes considerado como um levantamento popular contra os franceses, que teria iniciado a assim chamada Guerra de la Independencia.

No entanto, basta consultar as fontes da época para ver que os franceses eram nesta altura vistos como heróis, em grande parte devido à propaganda espalhada pelos próprios partidários de D. Fernando, que afirmavam que os exércitos napoleónicos tinham entrado na Espanha com o objectivo de derrubar Godoy. De facto, a revolução ocorrida entre 17 e 19 de Março de 1808 em Aranjuez foi realmente um golpe de estado urdido pela nobreza espanhola, que usou para seu próprio proveito a ambição de poder de D. Fernando e o descontentamento do povo, contra o poder intocável de Godoy, e que teve como pretexto a iminente partida da família real para o sul da Espanha, eventualmente para depois embarcar para as colónias americanas, imitando o exemplo da Corte portuguesa. 

Costuma-se dizer que a história é escrita pelos vencedores, e foram de facto os partidários de D. Fernando que começaram por viciar a história destes acontecimentos, através de uma explicação maniqueísta onde Godoy era visto como a causa de todos os males da Espanha e D. Fernando como o único salvador possível da pátria. Consumado e consagrado em Aranjuez, D. Fernando começou logo por contribuir para que se manchasse ainda mais a imagem de Godoy, ao mesmo tempo que limpava a sua. Assim, no dia 31 de Março, um número extraordinário da Gazeta de Madrid anunciava o que se segue, antes de inserir um resumo do processo do Escorial e da sua sentença: "Ainda não se publicou o resultado do processo realizado no Escorial, apesar do que se previne no decreto de [D. Carlos IV de] 30 de Outubro do ano passado; e desejando el-Rei Nosso Senhor [D. Fernando VII] que todos os vassalos se instruam dos procedimentos contra a sua Real pessoa, vários criados seus e outros sujeitos que intervieram nas ocorrências dela, mandou fazer um breve resumo do seu conteúdo, segundo a sentença dele, achada nos papéis do Príncipe da Paz". 

Recordemos que este processo tinha chegado ao fim no dia 25 de Janeiro, embora entretanto não se tivesse publicado a sua sentença. No dia 8 de Abril, reimprimia-se o decreto de D. Carlos IV de 30 de Outubro de 1807 (onde anunciava o processo no qual o seu filho estava imputado), uma ordem de 3 de Novembro seguinte (para ser realizada uma missa de acção de graças pelo fiasco da conspiração contra Carlos IV), e finalmente o resumo do processo e a sentença (que tinha sido publicada no referido n.º extraordinário da Gazeta de Madrid de 31 de Março de 1808), para ser posta a circular entre a magistratura de Espanha: 










[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, 
ES.28079.AHN/1.1.38.1//CONSEJOS, L.1398, Exp. 100]



quinta-feira, 24 de março de 2011

Carta de Izquierdo a Godoy (24 de Março de 1808)




Atrás tínhamos indicado que depois duma rápida estadia em Aranjuez, Izquierdo regressou à França no dia 10 de Março. Já em Paris (onde teria chegado por volta do dia 20 do mesmo mês), depois das suas conversações com Talleyrand e Duroc, Izquierdo enviou a seguinte carta a Godoy, que contudo já não chegaria a recebê-la, dado que tinha sido preso cinco dias antes (informação que então ainda não tinha chegado a Paris). 
Esta carta (tal como provavelmente a carta do Conde da Ega atrás publicada) será recebida por Pedro Cevallos, Primeiro-Ministro e Secretário de Estado de Fernando VII (depois de tê-lo sido de Carlos IV).



A situação das coisas não permite referir com individualidade as conversações que desde o meu regresso de Madrid tive, por disposição do Imperador, tanto com o Grão-Marechal do Palácio Imperial, o General Duroc, como com o Vice-Grão Eleitor do Império, o Príncipe de Bénévent. Assim, limitar-me-ei a explicar os meios que me foram comunicados nestes colóquios para acordar e até para terminar amigavelmente os assuntos que existem hoje entre Espanha e França, meios esses que me foram transmitidos com o fim de que o meu Governo tome a mais pronta resolução acerca deles.  

Que existem actualmente vários corpos de tropas francesas na Espanha, é um facto constante. As consequências estão no futuro. Um acordo feito entre o Governo francês e o espanhol, com recíproca satisfação, pode deter os eventos, e elevar-se a um solene e definitivo tratado sobre as bases seguintes:  

Primeira base: Nas colónias espanholas e francesas comerciarão livremente o francês nas espanholas como se fosse espanhol, e reciprocamente o espanhol como se fosse francês nas francesas, pagando uns e outros os direitos que se paguem nos respectivos países pelos naturais. Esta prerrogativa será exclusiva, e nenhuma potência senão a francesa poderá obtê-la na Espanha, como na França nenhuma potência senão a espanhola.  

Segunda base: Portugal está hoje possuído pela França. A comunicação de França com Portugal exige uma rota militar, e também uma passagem contínua por Espanha para guarnecer aquele país e defendê-lo contra a Inglaterra. Há de causar muitos gastos e obstáculos, e talvez produzir frequentes motivos de desavenças. Poderia amigavelmente combinar-se este objecto, ficando todo o Portugal para a Espanha, e recebendo um equivalente a França nas províncias de Espanha contíguas a este Império.  

Terceira base: Acordar de uma vez a sucessão ao trono da Espanha.  

Quarta base: Fazer um tratado ofensivo e defensivo de aliança, estipulando o número de forças com que ambas as potências se hão de ajudar reciprocamente.  
Tais são as bases […] com que deve cimentar-se e elevar-se a tratado o acordo, como se indica, capaz de terminar felizmente a actual crise política em que se encontram a Espanha e a França. Em tão altas matérias eu devo limitar-me a executar fielmente o que me for dito. Quando se trata da existência do Estado, da sua honra e decoro, e do [decoro] do seu Governo, as decisões devem brotar unicamente do Soberano e do seu Conselho. Sem embargo, o meu ardente amor à pátria coloca-me na obrigação de dizer que nas minhas conversações fiz presente ao Príncipe de Bénévent o que segue:  
1.º Que abrir as nossas Américas ao comércio francês, é reparti-las entre a Espanha e o Império francês; que abri-las unicamente para os franceses, é (dado que não fique de uma vez destruída a arrogância inglesa) afastar cada dia mais a paz, e perder, até que se firme [o aludido tratado], as nossas comunicações e as dos franceses com aquelas regiões. Disse que ainda que se admita o comércio francês, não deve permitir-se que se avizinhem vassalos da França nas nossas colónias com desprezo das nossas leis fundamentais.  
2.º Em relação a Portugal, fiz menção às nossas estipulações de 27 de Outubro último; fiz ver o sacrifício do Rei de Etrúria, o pouco que vale Portugal separado das suas colónias, a sua nula utilidade para a Espanha, e fiz uma fiel pintura do horror que causaria aos povos próximos dos Pirenéus a perda das suas leis, liberdades, forais e língua, e sobretudo o passar a domínio estrangeiro. Acrescentei que não poderei eu firmar a entrega de Navarra, para não ser o objecto de execração dos meus compatriotas, como o seria se constasse que um navarro tinha firmado o tratado em que a entrega de Navarra à França estava estipulada. Finalmente, insinuei que se não houvesse outro remédio, poderia erigir-se um novo Reino ou Vice-Reino da Ibéria, estipulando que este Reino ou Vice-Reino não recebesse outras leis nem outras regras de administração que as actuais, e que os seus naturais conservassem os seus actuais forais e isenções. Este Reino ou Vice-Reino poderia dar-se ao Rei de Etrúria ou a outro Infante de Castela.  
3.º Tratando-se de fixar a sucessão de Espanha, manifestei o que o Rei nosso senhor me mandou que dissesse da sua parte, fazendo-o de modo que creio que ficam desvanecidas quaisquer calúnias inventadas pelos malévolos nesse país, e que chegaram a contaminar a opinião pública neste.  
4.º No que diz respeito à aliança ofensiva e defensiva, o meu zelo patriótico levou-me a perguntar ao Príncipe de Bénévent se se pensava em fazer da Espanha um equivalente à Confederação do Reno, e em obrigá-la a dar um contingente de tropas, cobrindo este tributo com o decoroso nome de tratado ofensivo e defensivo. Manifestei que nós, estando já em paz com o Império francês, não necessitamos de socorros da França para defender os nossos lares; que Canárias, Ferrol e Buenos Aires o testemunham; que África é nula, etc.  
Nas nossas conversações ficou já como negócio assente o do casamento. Terá efeito, mas será um acordo particular, do qual não se tratará no acordo sobre o qual se enviam as bases.  
Enquanto ao título de Imperador, que o Rei nosso senhor deve tomar, não há nem haverá dificuldade alguma. [O Príncipe de Bénévent] encarregou-me que não se deveria perder um momento em responder, a fim de precaver as fatais consequências a que pode dar origem a demora de um dia para pôr-se de acordo. 
Disse-me que se deve evitar todo o acto hostil e todas as movimentações que pudessem afastar o saudável acordo que ainda se pode fazer.  
Ao ser questionado se o Rei nosso senhor partiria para a Andaluzia, respondi a verdade: que nada sabia. Ao ser também questionado se eu julgava que ele partiria, respondi que não, dada a segurança em que se achavam (concernentes ao bom proceder do Imperador) tanto os Reis como Vossa Alteza.  
Pedi (uma vez que se medita um tratado), que enquanto se espera a resposta, se suspendesse a marcha dos exércitos franceses em direcção ao interior da Espanha. Pedi também que as tropas saiam de Castela. Nada consegui; mas presumo que se as bases vierem aprovadas, poderão as tropas francesas receber ordens para se afastarem da residência de Suas Majestades.  
Daí se escreveu que se aproximam tropas por Talavera para Madrid, e que Vossa Alteza me enviou um correio extraordinário. A tudo satisfiz, expondo com verdade o que me constava.  
Segundo se presume aqui, Vossa Alteza tinha saído de Madrid acompanhado os Reis até Sevilha; eu nada sei; e assim disse ao correio que vá até onde Vossa Alteza estiver. 
As tropas francesas deixarão passar o correio, segundo me assegurou o Grão-Marechal do Palácio Imperial.  
Paris, 24 de Março de 1808.  

Sereníssimo Senhor, de Vossa Alteza,  

Eugenio Izquierdo 




[Fonte: Cuenta dada de su vida política por Don Manuel Godoy, Príncipe de la Paz - Tomo V, Madrid, Imprenta de I. Sancha, 1838, pp. 492-504].


terça-feira, 22 de março de 2011

Carta do Conde da Ega a Godoy (22 de Março de 1808)



Sereníssimo Senhor: 

Mui Señor meu e estimadíssimo amigo; esta qualidade deve conservar e aumentar a nossa confiança e jamais afrouxar em pessoas que, como nós, sabem ser constantes quaisquer que sejam as circunstâncias que ocorram. Nesta certeza estava eu, mas faltava-me contestação a uma carta que te escrevi pouco depois da retirada da família real desta capital; mas agora sei que fora desencaminhada e que não chegara à tua mão, e por isso continuo sem sossego a buscar-te por este meio, para assegurar-te a minha verdadeira amizade. 
Uma deputação composta das primeiras pessoas da nobreza portuguesa vai apresentar-se a Sua Majestade o Imperador dos franceses; o não ser designado membro dela me privou da grande satisfação que teria de ver-te nessa Corte; mas havendo nela ocupado «só» o emprego que exercitei junto de Sua Majestade Católica*, não me era próprio a concorrência de muitos, e esta, estou seguro, será a tua opinião. 
Aqui estou e aqui conservo a memória das distintas honras que Suas Majestades Católicas me favoreceram, e que farão o meu eterno reconhecimento; rogo-te** pois que a seus augustos pés ofereças os meus respeitos e os mais sinceros votos pela sua existência, paz e felicidades. A Condessa te pede juntamente [para que] queiras ter a bondade de dizer da sua parte a Sua Majestade a Rainha que ela tem presente na sua imaginação e impresso no seu coração todos os favores e distinções que sempre devera a Sua Majestade e muito mais às expressões lisonjeiras com que a honrou quando se separou ultimamente da Sua Augusta Presença, e que espera igualmente que Sua Majestade conserva aquela benevolência que a Condessa procurou constantemente merecer-lhe, e que toma a liberdade de assegurar a seus Reais pés que tem o maior pesar de que as circunstâncias políticas a fizessem separar dessa Corte, que considera como uma nova pátria. Estes são, meu amigo, os puros sentimentos de toda esta família. 
Um amigo grato, um coração sincero e uma amizade sem interrupção me fazem apreciar sempre o tempo que tive a satisfação de achar-me mais perto de ti; de quem protesto [=declaro] ser fiel e verdadeiro amigo e respeitoso q. t. m. b. 



[Fonte: Raul Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d. p. 155-156].


_____________________

Notas:

Previamente, o Conde da Ega tinha sido embaixador de Portugal junto da Corte espanhola. 

*É óbvio que esta carta foi escrita antes que o Conde da Ega tivesse tomado conhecimento da prisão de Godoy (ocorrida apenas 3 dias antes).


sábado, 19 de março de 2011

Aranjuez, 19 de Março de 1808



Prisão de Godoy


Abdicação de Carlos IV e aclamação de Fernando VII


Gravuras de Zacarías Velázquez
[Fonte: Ilustración de Madrid (n.º monográfico «Dos de Mayo»), Ano III, n.º 7, Primavera 2008].

Relação circunstanciada da Revolução de Espanha, segundo o Correio Braziliense





[Fonte: Correio Braziliense ou Armazem Literario - Vol. I, Londres, Impresso por W. Lewis, 1808, pp. 10-14; p. 91].

Manifesto imparcial y exacto de lo mas importante ocurrido em Aranjuez... (atribuído a Juan de Arias)

Acontecimentos memoráveis do Reinado de Carlos IV desde o ano de 1806 até 19 de Março de 1808, relativos ao Príncipe da Paz



O seguinte texto provém dum manuscrito da época, da autoria de José de Ascutia, o Guarda Real várias vezes citado por Ronald Fraser. Trata-se de um texto anti-godoyista que oferece uma visão algo tendenciosa sobre os acontecimentos de Aranjuez, precedidos por uma pequena contextualização. Certas passagens do texto induzem-nos a pensar que teria sido escrito logo após os motins de Aranjuez, possivelmente antes mesmo dos franceses entrarem em Madrid (no dia 23 de Março). Por esse motivo, vale pelo testemunho da confiança cega que então muitos espanhóis depositavam em boatos e rumores sobre as intenções de Napoleão em relação à deposição de Godoy e ao suposto apoio a Fernando, Príncipe das Astúrias, agora Fernando VII. Como testemunho anti-godoyista, apesar de deixar transparecer várias incoerências e incongruências, revela que havia um plano da alta nobreza espanhola para forçar a destituição de Godoy, cuja ocasião perfeita foi dada no momento em que Carlos IV decidiu partir para Cádis ou Sevilha. 



Acontecimentos memoráveis do Reinado de Carlos IV 
desde o ano de 1806 até 19 de Março de 1808, 
relativos ao Príncipe da Paz 


Na grave doença que padeceu Carlos IV no ano de 1806, Soler fez presente a Sua Majestade que era necessário fazer um testamento. Convencido disto, [Carlos IV] disse que esta disposição seria ordenada pela Rainha e pelo Príncipe da Paz, os quais assim o fizeram; e entre as suas cláusulas havia a seguinte: 

"Deserdo da Coroa o meu filho mais velho, D. Fernando, por [ser] fátuo; e pela menoridade do meu filho o Infante D. Carlos, nomeio o Príncipe da Paz como regente do Reino".

Uma boa pessoa que tomou conhecimento desta negociação artificiosa, participou-a sigilosamente ao Príncipe das Astúrias. Este, vencendo mil dificuldades, como carecia de liberdade escreveu uma carta ao cónego Escoiquiz, na qual lhe perguntava o que devia fazer nas actuais circunstâncias, ao ver-se tratado com o maior desprezo e tendo sido deserdado pelo seu pai, o que é que lhe aconselhava, como o esperava do seu carinho e talento. O cónego respondeu-lhe que aquilo requeria um conselho verbal, e doutro modo não podia responder-lhe. 

Continuou o Príncipe das Astúrias experimentando o maior rigor, sendo privando até de poder falar com o seu irmão Carlos. 

O Rei volta a ter o peito atacado em Janeiro de 1807, e vendo o Príncipe das Astúrias que o ocaso se aproximava, volta a escrever ao cónego, vencendo mil dificuldades para consegui-lo, e valendo-se do mesmo portador que tinha levado a carta anterior. Nesta nova carta, pressionava-lhe fortemente para que lhe desse o ditame. O cónego respondeu, dizendo-lhe que ele não era fátuo, e que estava jurado como Príncipe das Astúrias; e que pelas leis do Reino, não podia ser privado da Coroa; que procuraria falar com o duque del Infantado, a pessoa mais recomendável para o assunto, e de acordo com ele disporiam o que fosse conveniente. Através do mesmo portador que levava a carta, foi chamado o duque del Infantado. Este, tendo sido instruído, ordenou que o Príncipe das Astúrias lhe desse um decreto, nomeando-o General de Castela, e vários ofícios assinados em branco, para o duque preencher as nomeações, no caso de faltar o Rei, para fazer as eleições correspondentes para todas as Capitanias-Gerais e demais empregos entre pessoas idóneas, e outro decreto para prender o Príncipe da Paz. Este papéis foram conservados pelo duque, unidos ao seu próprio corpo, e assim foram salvos. 

Formado todo o plano pelo duque del Infantado e pelo cónego, determinaram prestar contas ao Imperador dos franceses, juntando uma carta do Príncipe das Astúrias, na qual lhe informava tudo o que tinha acontecido, mostrava-lhe o plano que estava feito e rogava-lhe que o protegesse, e que se o plano não estava bem feito, que [o Imperador] alterasse o que lhe parecesse [mais conveniente]. Esta carta foi para a Etrúria e daí em correio [...] para Paris através do marquês de la Romana, com conhecimento de O'Farril e da própria Rainha da Etrúria. 

Tendo isto transparecido nalguma parte, o Príncipe da Paz teceu intrigas, através do embaixador, para desacreditar O'Farril e Romana, e daqui principiou a revolução de Florença. O Imperador dos franceses, pelo mesmo portador, respondeu ao Príncipe das Astúrias, assegurando-lhe a sua protecção e que o plano estava muito bem formado. Neste estado deixa Napoleão este negócio, e parte para a Polónia, encarregando muito particularmente a Talleyrand acerca deste assunto, e sobre o que devia fazer se ocorresse alguma novidade na Espanha, e com o maior sigilo que tentasse ver se por algum meio podia conduzir o Príncipe das Astúrias a casar-se com algumas das pessoas reais daquela Corte [francesa]. 

O Príncipe da Paz, por algumas suspeitas que teve, escreveu a Izquierdo, que estava em Paris, para que procurasse tentar perceber se Talleyrand tinha correspondência com o Príncipe das Astúrias. Este intrigante finge com o ministro francês ser inimigo de Godoy e afeiçoado ao Príncipe das Astúrias; o ministro, de boa fé, disse supor que sabia já da íntima união do Imperador com o dito Príncipe das Astúrias. De boa fé, o ministro confiou-lhe algumas coisas, que foram bastantes para Izquierdo ter uma ideia. Este avisa o Príncipe da Paz que está perdido, pois o Imperador protege o das Astúrias. Quando Godoy recebeu esta carta, tentou sublevar o Reino, alucinar os Reis e declarar guerra à França, como de facto esteve algumas horas declarada, e se não tivesse sido Gil de Lemos, a declaração tinha sido levada a cabo. 
Volta o Imperador a Paris depois de tratada a Paz de Tilsit, fala com Talleyrand sobre a Corte de Espanha, e este conta e refere o episódio com Izquierdo. Penetra Napoleão na intriga, chateia-se com Talleyrand, e dispõe que se dirija a Madrid como embaixador o Ex.mo Sr. D. Beauharnais, a quem deu umas instruções muito particulares. Chama Izquierdo, e pergunta-lhe com que ordem se introduzia nos negócios de Estado, e este presta-lhe satisfações assumindo as ordens que tinha da sua Corte; não obstante, [Napoleão] manda-o sair imediatamente dos seus domínios. [Izquierdo] vem em diligência para Madrid, e diz a Godoy que está perdido, que o Príncipe das Astúrias tem a protecção de Napoleão, as tropas à sua disposição, e que se casa em Paris. De facto, adiou-se o casamento, houve mil dificuldades, e finalmente, depois da Rainha e Godoy terem resistido, respondeu-se afirmativamente.

Vendo Godoy que já não havia remédio, trama a atroz calúnia de difamação do Príncipe das Astúrias, com o fim de lhe cortar a cabeça ou pelo menos deixar-lhe desacreditado, quer para que não reinasse e para que a deserdação fosse levada a cabo, quer para que não se verificasse o casamento em Paris depois de estar  com esta nódoa. 

O Imperador, muito bem informado de todas estas tramas, tanto pelo duque de Frías como pelo embaixador, para preservar o Príncipe das Astúrias dos riscos que o ameaçavam, nomeou-o de Generalíssimo das tropas francesas e espanholas que se haviam de reunir para certos fins, para assim retirá-lo da Corte; ao que a sua mãe respondeu que não o queria para guerreiro.

Napoleão, quer pela palavra dada de protecção ao Príncipe das Astúrias, quer pela estima que sempre tem tido pela paz com a Espanha (e nestas actuais circunstâncias ainda mais), quer pela penetração na bastarda conduta de Godoy, da qual tinha os maiores testemunhos pela correspondência que tinha interceptado com os ingleses, [...] vê-se obrigado a mandar as suas tropas para a Espanha, e a vir pessoalmente derrubar este colosso, aparentando outros desígnios para que não se lhe escapasse. 

Vendo o traidor que todas as suas maquinações estavam descobertas, apela à última para pôr-se a coberto do tecido de maldades que a sua vida envolve, ao que muito contribuiu a muita vontade do Rei, que julgava que Manuel era impecável, chegando a tanto a confiança de Sua Majestade, que se o embaixador da França não o pedisse no próprio acto da prisão, a pessoa do Príncipe das Astúrias tinha sido decapitada, como igualmente teria se não tivesse intervido na causa que se lhe tinha formado um atroz sumário que teria privado da vida muitos homens verdadeiramente ilustres e virtuosos, não tendo bastado nem a clareza com que o Infante D. António falou ao seu irmão [Carlos IV] para desfazer a falsa impressão que tinha formado, nem outras várias sessões[?], tendo chegado a tal a cegueira do tirano, que fez o fiscal Viegas assinar sem ler a resposta na qual lhe pedia monstruosidades. Obrigado à França por tudo! Os espanhóis, muito capazes de qualquer obra grande, estavam atados, não podiam respirar, e assim, quando viram um pouco de claridade, empreenderam a brilhante acção que ocorreu por consequência desta última trama, e é como se segue: 

Dado tudo o que anteriormente foi dito (e manifestado nos papéis públicos), tentou Godoy abandonar este Reino à sorte. Tratou com os ingleses para lhes entregar algumas praças de Espanha e a esquadra de Cartagena, dispôs-se a levar consigo para a América os velhos Reis, e na confusão que daqui infalivelmente resultaria, extinguir o resto dos Borbons. 

Para realizar este iníquo plano, deu, como [chefe] absoluto do Governo, todas as ordens oportunas para o desígnio: repartiu o seu quantioso tesouro nos bancos da Europa [...]. Ordenou que o exército que estava em Portugal, passasse rapidamente, sem ordem do Rei, a Toledo, a fim de entreter o exército francês, obrigando-o a opor-se e empenhando-o tanto com este exército como com as tropas inglesas e as argelinas (que tinham combinado com a Inglaterra), qu entrariam na Espanha apoderando-se de Ceuta e Cádis; e entretanto Godoy fugia com os velhos Reis. Igualmente meditava coroar-se no México, ou imediatamente, como ficou manifestado quando foram encontradas (segundo se afirma) moedas cunhadas em seu nome como Rei de Espanha e Imperador do México*, ou somente depois de mortos os velhos Reis. 

Não pôde dispor este plano sem que se apercebessem tanto os leais espanhóis como a Corte da França, que era contrário a outros fins anteriormente concertados pelas duas Cortes. Ordena Napoleão para que os exércitos se dirijam à Espanha para estorvar esta cruel cena, separar Godoy do Governo e coroar Fernando VII. Os Generais e as tropas francesas ignoravam qual era o objectivo principal que tinham. [Napoleão] deu ao embaixador que residia na Corte de Espanha as ordens convenientes para tudo, instruindo-lhe até ao mais ínfimo pormenor. Ao Almirante da esquadra francesa que estava no porto de Cádis deu-lhe ordens para não permitir, mesmo que isso implicasse sacrificar a sua esquadra, que saísse do dito porto embarcação alguma. Toda esta inaudita maldade [isto é, o plano de fuga de Godoy] estava combinada entre Godoy e os ingleses para o dia 27 de Março; estava também composta a proclamação que fariam os velhos Reis, da urgente necessidade de saírem da Espanha para salvar as suas vidas da ira dos franceses, que enquanto isto não se acalmava e voltassem ao seu trono, deixavam como regente em Espanha o Ex.mo Sr. Duque de Almodovar del Campo [irmão de Godoy]. Foi já depois de organizado este suposto plano, sem esperar outra coisa do que a chegada do referido dia 27, assinalado pelos ingleses, que Godoy o propôs ao Rei (com quem contava como coisa segura), quando já tinha armado todo o Reino espanhol contra os franceses, espalhando rumores vis e vagos que a sua malignidade fazia publicar, dando ordens e contra-ordens para desconcertar os franceses.  

Nestas circunstâncias, (pela providência de Deus) foi desfeita toda esta máquina, por uns poucos vassalos leais e fiéis militares organizados pelos grandes do Reino, apoiados no sempre recomendável Conselho de Castela, sem que os franceses tenham tido mais arte nesta gloriosa acção do que terem provocado a antecipação do projecto pela entrada das suas tropas, tanto pelo medo que teve o tirano, desconcertando-lhe o movimento das tropas francesas, como pelos remorsos da sua péssima consciência. 
O conde de Teba estava em Portugal com o seu Regimento, sem poder entrar em Madrid por ser um dos desterrados. O duque del Infantado encontrava-se em Écija cumprindo o seu desterro. Por certa pessoa foi este último instruído de toda a maquinação, a fim de que, como cabecilha de toda esta história, desse as ordens oportunas. Pensou sobre qual sujeito seria mais apropriado para executar o que tinha meditado. Elege [o conde de] Teba e manda chamá-lo a Portugal; Teba vem imediatamente a Écija em diligência, e apresenta-se ao duque del Infantado, que pergunta-lhe se se atrevia a ir a Madrid para dar parte ao Conselho da trama que estava urdida e reunir toda a grandeza para impedir a saída dos Reis de Espanha. Responde-lhe Teba que se atrevia, e recebendo as instruções de Infantado, disfarça-se em traje de manchengo [natural de La Mancha] e parte para a Corte em diligência. Com aquele traje vai à casa de Sierra, fiscal do Conselho, e diz-lhe que é necessário que o Conselho se reúna, e que se oponha a todo o plano que medita Godoy. O fiscal responde-lhe que juntar o Conselho é o menos, mas para que formule um decreto é necessário que se faça uma representação na qual se exponha tudo o que ele dizia. Sierra pergunta-lhe se via algum inconveniente em que se fizesse a representação em seu nome, ao que Teba respondeu que não o via, e nem mesmo em apresentar-se pessoalmente ao Conselho. Ali fez-se a representação, e ali a jurou Teba. Com isto se convocou o Conselho, que foi perfeitamente instruído pela representação, e decretou com firmeza que não tendo o Rei motivos para sair de Espanha, não se lhe permitiria de modo algum a saída. 
O manchego [conde de Teba], tendo recolhido o decreto do Conselho, convocou uma junta de grandes de Espanha, à qual concorreram 19. Concordaram e comprometeram-se todos com as suas rendas e pessoas não só a impedir a saída dos Reis, mas também a aniquilar o traidor Godoy; acordaram igualmente que era indispensável que alguém se dirigisse ao sítio para entregar a representação e o decreto do Conselho ao Rei. Nisto houve muitas dificuldades, mas resolveu-se que fosse o marquês de Castelar, o qual partiu e falou com o Rei, cujo medo que tinha dos franceses se desvaneceu, e cujo resultado foi a proclamação que trouxe a Gazeta**. 
Neste mesmo dia 13 pela tarde, voltou Godoy ao sítio, propôs aos Reis que era preciso sair para Cádis ou Sevilha para estarem mais próximos para o embarque, que assim convinha para evitar que Napoleão lhes usurpasse o trono, pois aproximava-se a sua chegada, e as tropas estavam já em cima. O Rei respondeu a isto não só manifestando-lhe o decreto do Conselho mas também lendo-lhe uma carta de Napoleão na qual lhe dizia que vinha à Espanha para o seu bem. Pede o traidor ao Rei que junte ali mesmo um Conselho, que Sua Majestade veria como o que ele propunha era conveniente, e que não devia ter confiança nem na carta de Napoleão, nem no decreto do Conselho; e que ele amava o seu Rei. Formou-se um Conselho com os ministros patriarcas e outros, à excepção do Ministro da Guerra e de Caballero, que estavam passeando, e pelo Conselho determinou-se a fuga, assinando todos a resolução. 
A assinatura de Caballero era indispensável para a solenidade desta determinação. Godoy recolheu os papéis para que Caballero os assinasse na noite daquele dia 14. Ao entrar [no Palácio] Caballero, vindo do passeio, encontra Godoy, que lhe diz "tem ali aqueles papéis, assine-os que tem ali um tinteiro". Caballero disse-lhe que não os assinava sem ler, e impôs-se. [Disse Godoy:] "pois bem, leia-os Vossa Mercê, e eu espero ali". Caballero aproximou-se dum candeeiro que estava por perto, e ficou a lê-los; [depois,] volta-se para Godoy, e diz-lhe que não assinava, e [perguntando] quem tinha aconselhado o Rei (desentendendo-se que tinha sido ele) a semelhante traição e vileza, que aquilo era enganar o Rei sacrilegamente e que, assim, ali tinha os papéis [não assinados]. Godoy, que encontrou esta resposta com um valor e firmeza como jamais tinha experimentado, saca da espada, mas antes que a acabasse de desembainhar, já lhe tinha posto Caballero uma pistola junto ao peito, dizendo-lhe que se acabasse de sacar a espada, acabaria com a sua vida com um tiro. Deteve-se Godoy, e com a disputa sobre a assinatura, chegam ao quarto do Rei. Godoy, cheio de cólera, vendo-se desobedecido e ultrajado em termos que jamais poderia ter imaginado, queixou-se ao Rei de que Caballero não queria assinar o que tinha sido acordado por Sua Majestade e pelo Conselho. O Rei censurou docemente Caballero, perguntando-lhe que motivos tinha para não assinar, ao que respondeu ele que amava verdadeiramente a Sua Majestade, que não era falso traidor como era o que lhe tinha aconselhado um absurdo como o que lhe tinham proposto, que não havia porquê temer os franceses, como muito bem constava a Sua Majestade, ao Conselho de Castela, e à maior parte da nação, e que não havia a menor suspeita para uma tão atroz determinação; e voltando-se para Godoy, disse-lhe que "quando Caballero diz que não convém uma coisa, é porque sabe o que diz e porque pode sustentá-lo; e assim, antes darei a vida com gosto, do que assinar a maior maldade que se inventou". Vendo o Rei esta discórdia, e convencido por Caballero, mandou ali mesmo juntar o Conselho por uma segunda vez, cujos membros foram convocados. Caballero foi o primeiro a faltar, e dirigindo a sua palavra ao Rei, disse: "Senhor, já é tempo de falar abertamente a Vossa Majestade; as tristes circunstâncias que nos rodeiam o requerem. O senhor (apontando para Godoy) é um traidor, é quem formou esta trama para os seus fins particulares, a vida do sr. é esta"; e fez ao Rei um retrato muito vivo de Godoy, e volta-se para ele ainda conservando o calor que pelo episódio antecedente se pode calcular, e disse "se Vossa Mercê quer partir, vá, que é um favor que faz ao Reino. Você não sabe o que é um Reino, não sabe mais do que entrar e sair do Palácio". Com isto, os demais ministros tomaram asas e disseram ao Rei o que tinham calado durante mais de 15 anos. Sua Majestade, completamente confuso, mandou que imediatamente se consultasse o Conselho de Castela. Mandou Caballero consultá-lo, que chegou a Madrid no dia 15 de Março às 9 da manhã.  
Juntou-se o Conselho imediatamente, e às 3 da tarde, concluiu-se já quase com as rédeas do Governo nas suas mãos, determinando repetir o decreto anteriormente referido, que se despachou em seguida, mandando o Conselho por si que as tropas de Madrid fossem ao amanhecer ao sítio para impedir qualquer alvoroço. Decretou igualmente a prisão do Príncipe da Paz, entregando este decreto ao marquês de Castelar, fundando-o o Conselho no conhecimento que já tinha de tudo desde a primeira representação que lhe foi feita. 
O manchego [conde de Teba], ao ter tido conhecimento de que na noite do dia 15 tinha Godoy voltado ao Palácio, e com novas intrigas feito vacilar ao Rei, e quase convencendo-o; e entre as muitas coisas com que intimidava Sua Majestade, era que a Corte de Madrid estava sublevada contra ele, e como [Teba] não duvidava que o Rei, apesar do que se tinha passado, havia de seguir o ditame de Godoy, dispôs juntamente com Castelar para que este fosse a Madrid formar uma junta sob a determinação do Conselho, enquanto aquele ia convocar gente em seu auxílio, e para que tudo fosse disposto do melhor modo.  
Teba, disfarçado, dirigiu-se a todas as povoações da comarca, fingindo ser uma vez de tal parte, e noutras vezes de outra, e que vinha pedir que os leais manchegos [naturais de La Mancha] o acompanhassem para impedir que os Reis fugissem e os deixassem desamparados; com estas proposições, trouxe consigo até os velhos, determinados a morrer antes de permitirem que Suas Majestades se fossem embora. Ao regressar desta expedição, já estava ali Castelar, e determinaram não só exigir palavra de honra mas também juramento formal aos chefes das tropas convocadas a defender a saída dos Reis, e não somente não obedecer às ordens do Generalíssimo [Godoy], mas também prendê-lo pelo decreto do Conselho de Castela, que Castelar já tinha entregado ao manchego, depois da consulta feita pelo Rei no dia 15. No dia 16 estava já Godoy completamente desconcertado, e naquela noite volta ao Palácio, e forma as últimas tropas, pois na noite do dia 17 levaria os Reis ocultos, e juntos fugiriam; para cujo fim comunicou as devidas ordens, para que no mesmo dia partissem (como se verificou) a Tudó, [o padre] Duro e outros, para se reunirem em Cádis. Neste momento, tudo estava já bem claro para o Conselho e para os grandes, que tinham previsto todos os pontos, e nada se lhes escapava. 
Chega com efeito a noite de 17, na qual devia realizar-se o último dos atentados, e em que tudo estava disposto, tanto por parte do Almirante [Godoy] para a sua fuga, como da parte dos opositores deste horroroso desígnio. 
Por volta da uma da madrugada dispara-se uma pistola dentro do Palácio Real, e logo a seguir saiu o Príncipe das Astúrias com uma luz do seu quarto, acompanhado de alguns guardas que diziam "traição, traição"; seguem-no outros muitos; deixou todas as portas do Palácio bem custodiadas, para não deixar sair pessoa alguma, voltando depois ao seu quarto. Os paisanos e a tropa que estavam na parte de fora acudiram prontamente ao ouvir o tiro, cercaram o Palácio e aumentaram as guardas nas suas portas, no lado de fora, ficando de tal modo que que nem por portas nem varandas podia escapar quem tentasse sair. Depois deste alvoroço, uma guarda de honra que se dirigia a uma porta falsa do Palácio Real, teve contestações e contendas com outras guardas valonas que estavam antecipadamente a guardar a dita porta. A este barulho acudiu o manchego [conde de Teba], com um grande número de paisanos, que se lançaram à guarda de honra (comandada por Osório, que era carabinero) com paus e pedradas, arrojando-os e perseguindo-os até à porta do Palácio de Godoy. Este foi cercado imediatamente, saindo à sua porta D. Diego Godoy aos gritos, mandando a tropa da guarda abrir fogo; põe-se à frente o chefe das guardas valonas que ali iam e diz a [Diego] Godoy que se a sua tropa abre fogo a sua também o fará, mas que ele não traz a sua tropa para fazer isso, a não ser para aqueles que resistam e que se oponham às ordens que tem. Volta D. Diego a mandar abrir fogo, e o oficial da sua guarda, longe de obedecer, manda descansar sobre as armas, não podendo conter o impulso dos paisanos; atropelam estes a guarda de honra, entram no Palácio, D. Diego resiste e manda usar as armas; dão-lhe duas fortes pancadas com a culatra, atiram-no ao chão, e levam-no ao quartel, mas da guarda espanhola; aqui não o querem receber, e mandam-no ao das valonas. 
A tropa e a paisanagem passam a revistar todo o Palácio, em busca do Príncipe da Paz; não o encontram, mas sim a Princesa, em trajes menores. O manchego [conde de Teba] diz-lhe para não se assustar e para se vestir; e com toda a honra levam-na ao Palácio Real e entregam-na aos Reis, sem se terem apresentado a estes mais do que os manchegos, deixando entretanto tudo bem custodiado, para que não fugisse o réu. No dormitório da Princesa da Paz encontrou-se um papel do marido, em que a encarregava que tivesse cuidado com a sua filha, que ele, para salvar a vida, partia. 
Volta como um raio o manchego ao Palácio de Godoy, e vendo que não o encontrava, julga que fugiu, e apesar de ter tomado todos os caminhos e saídas com a tropa e paisanos, põe-se a caminho de Ocaña. Aí apresenta-se ao Corregedor, pergunta-lhe se o conhece, e diz-lhe o Corregedor que não; dá-se a conhecer ligeiramente, e informa-o acerca do objectivo da sua comissão, do estado em se encontrava o sítio, e que era preciso assim que lhe dissesse se tinha passado por ali Godoy, ao que o Corregedor lhe afirmou que não, e que se necessitava gente, garantia que um grito bastaria para ter todo o povo armado. Disse o manchego que ele não queria alvoroço, e que se passasse por ali Godoy, que o prendesse porque havia ordem para isso, lendo-lhe o decreto do Conselho, que levava prevenido. E feita esta diligência não se apeou nem se deteve até chegar a Madridejos; e aí repete com o alcaide as mesmas palavras que tivera com o corregedor de Ocaña, mas este diz-lhe que na pousada há uns coches e carruagens de personalidades, e que ele não conhece Godoy. O manchego faz a sua descrição, e roga-lhe para passar pela pousada para reconhecer aquelas pessoas, e ver se entre elas vem Godoy, enquanto ele fica à espera. O alcaide foi à pousada, e pela descrição que trouxe de volta percebeu o manchego que eram as senhoras Tudó e o padre Duro. Disse que nada queria com senhoras, e mandou emissários com avisos para Écija, e outros para o sítio. Daqui passou a reconhecer os apeadeiros, e à distância de 5 léguas encontrou um guarda com outros que regressavam depois de terem executado essas mesmas diligências; ficando assim convencido de que o pássaro não tinha saído da Corte. Determinou voltar e não descansar enquanto não se repetissem no sítio as mais escrupulosas revistas de toda a vizinhança e das paragens onde se supusera que se podia ocultar; alimentou-se um pouco e sem se despir descansou num aposento, deixando fechado o Palácio de Godoy e dando as devidas ordens para tudo o que pudesse ocorrer. 
No dia 19, por volta das 9 da manhã, dois soldados da guarda valona, um chamado Rodríguez e outro Aillon, reparam que um soldado sobe pelas últimas escadas com uma taça de chocolate: chamam-no e perguntam-lhe para quem é que é aquele chocolate. O homem, meio perturbado, respondeu-lhes que era para um enfermo, mas aqueles replicam-lhe "que enfermo, quando não há um cristão em toda a casa?" Já desconfiado, determina Aillon que o seu companheiro faça a guarda àquele homem, e este continuou subindo as escadas com a taça de chocolate, afirmando que quem o esperava, sairia ao sentir os passos; com efeito, saiu Godoy com duas pistolas nas mãos, de calças negras e chapéu de copa alta e um casacão, e perguntou muito desfalecido ao soldado se queria trocar a casaca, ao que o soldado, sem se intimidar, respondeu que a casaca não era sua, que era do Rei; desceu um pouco o soldado e deu gritos; sobem os demais e encontram-no num desvão, envolto numa esteira e as pistolas numa pouca cinza. Alvoroça-se a casa, comunica-se ao povo o alvoroço, acode uma numerosa multidão carregando sobre ele, e comunica-se ao Rei. Este, aturdido por este barulho e algazarra, manda o seu filho, e autoriza-o para que fosse e fizesse tudo quanto podia fazer. Saiu o Príncipe com 4 guardas, e metido entre o povo, levando empurrões, encontrou o réu, que era trazido preso e vinha ferido e feito numa miséria. Ordenou o Príncipe que o deixassem, pois convinha que falasse, e apesar de tudo era tal o encarniçamento do povo que mesmo na sua presença maltrataram-no. Deste modo foi conduzido ao quartel das guardas reais, e ali disse ao Príncipe:"perdão, Senhor! Misericórdia, misericórdia!" Respondeu-lhe o Príncipe que todos os ultrages e atentados cometidos contra a sua pessoa estavam perdoados, mas que o Conselho era quem o havia de julgar. Continuando o alvoroço, sem afastar-se o povo do quartel, determinaram os Reis que o réu passasse a Alhambra de Granada. Estava já o coche pronto, cresceu o alvoroço do povo, pedindo aos gritos a cabeça de Godoy, e tirando as mulas desfizeram o coche em mil pedaços. O Rei, o Príncipe e Caballero, estavam atrás dos vidros de uma varanda vendo esta tragédia: diz o Rei ao seu filho, todo comovido: "a ti te querem, Príncipe, tu dispõe, que eu não estou para isto, vai e sossega essa gente". Caballero disse ao Rei que não podia o Príncipe fazer coisa alguma, que para isso era indispensável um decreto de abdicação da coroa. Livre e espontaneamente, disse o Rei no mesmo instante: não tinha acabado Sua Majestade de pronunciá-lo, quando já o ministro estava compondo-o, de modo que ali mesmo foi assinado pelo Rei, sem a Rainha o saber nem perceber, pois fugindo dos gritos tinha ido para os quartos opostos.
Caballero, já com o decreto assinado, juntou o Conselho imediatamente, publicou-o, e foi Fernando VII aclamado no sítio. 
Uma dama, tendo ouvido a aclamação de Fernando VII, avisou a Rainha: vem esta já feita uma víbora, mas já não há remédio, sem demora passaram-se os decretos ao Conselho de Castela, e por uma rara providência do Céu, organizou-se numa hora sem derramar uma gota de sangue o que não tinha podido verificar-se em muitos anos.
[Fonte: A. Rodríguez Moñino, "Relato de la caida de Godoy por un testigo presencial", in Revista de Estudios Extremeños, Tomo XIV, n.º III, Badajoz, Septiembre-Diciembre 1958, pp. 3-16].



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Notas:


* Ver o que ficou dito atrás sobre um boato semelhante.


** Deve notar-se que a proclamação de Carlos IV (aqui traduzida) data somente de 16 de Março.