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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ordem de Junot a Domingos Vandelli, Director do Gabinete de História Natural da Ajuda (3 de Junho de 1808)



O Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, autoriza o Sr. Geoffroy, membro do Instituto de França enviado pelo Ministro do Interior para fazer pesquisas sobre os objectos de História Natural existentes em Portugal e úteis ao Gabinete de Paris, a levar e mandar encaixotar para serem transportados para França os objectos especificados na presente, [...] compreendendo 65 espécies e 76 exemplares de mamíferos, 238 espécies e 384 exemplares de aves, 25 espécies e 32 exemplares de répteis e 89 espécies e 100 exemplares de peixes. O Director do Gabinete [da Ajuda], Sr. Vandelli, dará ao Sr. Geoffroy todas as facilidades que dependerão de si em relação aos objectos, e a presente ordem ficará na posse do sr. Vandelli, como recibo.
Lisboa, 3 de Junho de 1808.

O Duque de Abrantes

[Fonte: Carlos França, "Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815). História de uma missão scientifica ao Brasil no século XVIII", in Boletim da Sociedade Broteriana - Vol. 1 (II Série), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1922, pp. 65-123, p. 112 (com 12 estampas). Diz o autor que "este documento foi conservado pelo Prof. Barbosa du Bocage e a cópia existe na Biblioteca do Museu Zoológico de Lisboa, hoje Museu Bocage"].

sábado, 28 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Cuvier, Director do Museu de História Natural de Paris (28 de Maio de 1808)




Lisboa, 28 de Maio [de 1808].

Meu caro amigo:

Procedi à escolha dos répteis e dos peixes; os répteis são muito abundantes em indivíduos, mas não em espécies. Existem apenas duas espécies de crocodilos*, ambas da vossa divisão dos caimões, sendo uma nova do Brasil e a outra de uma das vossas espécies com pálpebras ossificadas. Vós as tereis, assim como um esqueleto da primeira, proveniente dum indivíduo de maior tamanho**.
Os peixes são de uma riqueza que vos fascinará, sobretudo a família dos siluros.
Frei Veloso, sobre o qual o Sr. Correia me tinha falado, produziu imensos trabalhos de história natural, e não estou a exagerar quando digo isto. Ele foi responsável por iniciar uma descrição das produções do Brasil e ensinou desenho a muitos brasileiros, que, sob a sua direcção, desenharam [as ditas produções] muito bem, segundo as vistas dos naturalistas; estão aqui muitas dessas colecções. Vandelli, inimigo do frade, tem-nas à sua disposição. Frei Veloso ainda é vivo, e deram-lhe aqui uma pensão bem merecida; encorajaram-no então a publicar, mas ele não se encontra em estado de o fazer. Foi já tarde quando ele pensou em ser naturalista; para obedecer ao ministro, foi a Veneza para obter gravuras, e regressou com 300 caixas de pranchas gravadas relativas a plantas, etc.
Ireis ter as produções do Brasil, mas muitas vezes tereis dificuldades em relação ao clima correspondente a cada objecto, porque raramente aparece indicado nas etiquetas: as colecções de desenhos de Veloso resolveriam este problema. É assim muito importante que tenhais estes objectos; mas poder-se-ão arrancar essas pranchas a um homem tão invulgar?
É possível, dado que ele as cedeu ao Príncipe [D. João] e que já não estão nas suas mãos. Já submeti ao General em Chefe [Junot] esta questão delicada, o qual, por sua vez, confiou-a ao meu tacto. Verei o Padre Veloso e darei o meu melhor para conciliar os interesses da ciência e da honra.
Decidi o diferendo entre Vandelli e o Sr. Sieber***, e espero bem que não me acusem de apenas ter dado restos a cada parte; ambos estiveram de acordo comigo. 
O Sr. conde de Hoffmansegg tinha obtido permissão para expedir [as suas caixas] na condição de dar os seus duplicados ao gabinete da Ajuda; a condição foi esquivada em relação à grande maioria das caixas, enviadas directamente para o Báltico. Duas foram apreendidas na alfândega [de Lisboa] e ficaram retidas como garantia da palavra e dos compromissos do Sr. Hoffmansegg; decidi que os dois caixotes seriam restituídos com a condição de que o Sr. Sieber daria duplicados destas caixas ou das seis que tem na sua casa: obterei esses duplicados; ainda não os tenho, mas ao menos o Sr. Hoffmansegg não ficará privado de nenhuma peça única e terá 49 duplicados dos 50 que lhe foram destinados.
[...]
Adeus, abraço-vos com todo o coração. Para sempre todo vosso,


Geoffroy Saint-Hilaire.

[P.S.] Fazei-me o favor de comunicardes ao Instituto aqueles parágrafos das minhas cartas que sejam do seu interesse, para que não fique esquecido nesse lugar. 
Nos relatórios que transmito ao ministro sobre as minhas despesas, não posso entrar nos mesmos detalhes que vos relato: desejo que queirais aproveitar o envio da minha folha de despesas de viagem para lhe apresentardes um relatório sobre tudo o que vos informei.


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 48-49].


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Notas: 


* Já depois ter escrito esta carta, Geoffroy Saint-Hilaire teve conhecimento que existiam exemplares de outras duas espécies destes animais em Lisboa, pelo que anotou a este respeito seguinte post-scriptum: "Há aqui, muito seguramente, quatro espécies da vossa divisão de caimões, todas do Brasil. Acabo de ver mais duas num depósito que ainda não tinha visitado. Disponho de exemplares de cada espécie com idades diversas, e podeis contar com este resultado [ou seja, o seu transporte para a França]. Lamento não ter a vossa memória à vista. Por aqui possuem os Annales só até o 8.º volume [publicado em 1806]. Poderia ter-vos descrito os caracteres desses crocodilos diferentes dos das espécies de que já dispondes, mas não ireis perder nada, pois ficareis com todos esses animais". [N.B.: Saint-Hilaire alude ao artigo de Cuvier intitulado Mémoire sur les différentes espèces de crocodiles vivans et sur leurs caractères distinctifs", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dixième, Paris, Chez Tourneisen fils, 1807, pp. 8-66].

** Segundo o editor do artigo onde a carta acima traduzida apareceu originalmente publicada, o primeiro parágrafo do manuscrito consultado continha "muitas palavras ilegíveis".

*** Sieber era o agente que Hoffmansegg enviou ao Brasil, sobre o qual já adiantámos alguns dados nas nossas anotações à carta do General Margaron a Geoffroy Saint-Hilaire datada de 10 de Dezembro de 1807.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (27 de Maio de 1808)



Lisboa, 27 de Maio [de 1808].


Meus caros e respeitáveis colegas:

Vou continuar a manter-vos ao corrente das minhas operações. Fiz os catálogos e numerei todos os mamíferos e aves que foram postos de parte para [serem expedidos para] o vosso museu. As vossas colecções crescerão um décimo, visto que tenho 60 mamíferos para [os vossos] 600 e 300 aves para [as vossas] 3.000 1.
Conto com um resultado igual relativamente aos outros ramos da história natural.
Ontem não fizemos nada na Ajuda por causa da festa da Ascensão 2mas ocupei o dia em visitas às colecções do Sr. conde de Hoffmansegg, da Academia [de Ciências de Lisboa], do convento de [Nossa] Senhora de Jesus e do duque de Cadaval.
Apenas permanece em Lisboa a menor parte do que foi recolhido pelo Sr. conde de Hoffmansegg. Porém, vi aí uma caixa cheia de magníficos insectos, dos quais existem 10, 30 ou 50 duplicados. Vi também aí uma dúzia de aves que não vos serão concedidas pelas colecções da Ajuda, e uma quinta espécie de cuáta.
Por momentos receei que as reclamações do Sr. Sieber, agente do Sr. Hoffmansegg, incluíam a maior parte das caixas quase completas dos depósitos da Ajuda. Mas fui informado que, pelo contrário, ele reclama apenas duas caixas que ainda não vi. Em breve, ele irá à Ajuda, e poderei ocupar-me em lhe fazer prestar justiça 3.
As colecções da Academia [de Ciências de Lisboa] estavam descuidadas e não me despertaram interesse algum; as [do convento] de Nossa Senhora de Jesus vão proporcionar-vos algumas petrificações [=fósseis], alguns minerais e sobretudo um móvel onde se dispõem com elegância umas amostras de diversas espécies de madeiras do Brasil. Cada amostra leva indicada a [respectiva] área de proveniência 4.
Assisti a uma sessão da Academia [de Ciências de Lisboa]. O padre Fóios leu um fragmento da tradução de Xenofonte em português, e o Doutor Tavares uma memória sobre a natureza e as propriedades de algumas águas minerais 5.
Apresentei a Sua Excelência o Duque de Abrantes a memória do bom Sr. Brotero, e tenho razões para esperar que o seu pedido será acolhido favoravelmente 6.
O meu amigo General Loison insistiu para que o acompanhasse até Coimbra, mas por mais vantajosa que esta proposição pudesse ser, julguei que nas circunstâncias presentes não podia ausentar-me da Ajuda por um só momento. Portugal terá um Rei daqui a três semanas ou um mês: o general Loison vai recebê-lo na fronteira. Se bem que tive a felicidade de conhecer esse Príncipe no Egipto 7, quando ele aí servia sob as ordens do seu ilustre cunhado, pareceu-me que o interesse das minhas operações impedia que delas me afastasse por um momento.
Alguns livros e manuscritos do duque de Cadaval são as únicas coisas que ficaram na sua biblioteca: fui espreitá-los, embora me tivessem assegurado que não havia senão papéis para queimar. A biblioteca encontra-se no sótão, precisamente acima do aposento dos lacaios, o que leva a supor que o duque nunca ia à sua biblioteca. O primeiro manuscrito que me veio parar às mãos trata da história natural duma província do Brasil, e está acompanhado de desenhos bastante correctos. Existem muitos outros, e no próximo Domingo passarei ali todo o dia 8.
Não esqueci a recomendação do Sr. Faujas. Pedi ao General Kellerman para me destacar o jovem Bonnard 9, ao serviço na província dos Algarves; mandei preparar-lhe um alojamento adequado aqui.
Vou ter necessidade de fundos para as despesas das caixas, encaixotamento e transporte. Lisonjeio-me que o ministro tenha querido acolher favoravelmente o pedido de 2.508 francos que tive a honra de lhe fazer, enquanto reembolso das minhas despesas de viagem de Paris a Madrid, e que ele queira, ao mesmo tempo, concordar com o pedido de 1.188 francos que lhe faço na presente correspondência, relativo às minhas despesas de viagem de Madrid a Lisboa. Viajei em circunstâncias tão infelizes que esta soma total de 3.696 francos é insuficiente para cobrir todas as despesas que fiz. Todavia, não faço pedidos a não ser baseando-me da remuneração que Sua Excelência me atribuiu.
É preciso, caros colegas, que saibam que tomei a única estrada praticável, utilizada e ordenada pelos regulamentos militares, e que fiz o pedido de acordo com esses mesmos regulamentos [...]. 
Peço-vos, meus caros colegas, que queirais aceitar a homenagem da minha respeitosa estima.
Lalande encontra-se de boa saúde.

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 46-48].

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Notas:


1. Estes números eram provisórios. Em 1809, Geoffroy Saint-Hilaire viria a publicar um relatório actualizado onde indicava que o Museu de História Natural de Paris dispunha de 1.026 mamíferos e 3.411 aves, incluindo os 66 mamíferos e as 275 aves que no ano anterior recolhera na sua missão a Portugal. Cf. Geoffroy Saint-Hillaire, "Sur l'accroissement des collections des Mammifères et des Oiseaux du Muséum d'histoire naturelle", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome treizième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1809, pp. pp. 87-88. 


2. Recordemos que, uma semana antes, Geoffroy Saint-Hilaire deixara o seu assistente Delalande (ou Lalande) na Ajuda.


3. Sobre este caso ver o que já anotámos na carta do General Margaron a Geoffroy Saint-Hilaire de 10 de Dezembro de 1807.


4. Tratava-se duma das quatro xilotecas que o Príncipe Regente tinha encomendado ao marceneiro José Aniceto Raposo, conforme se explica na seguinte nota:


A xiloteca a que alude Geoffroy Saint-Hilaire não chegou a ser transportada para a França, tendo permanecido até aos nossos dias no convento de Nossa Senhora de Jesus, alocado desde 1834 à Academia das Ciências de Lisboa. Pertencem à mesma as seguintes fotografias:

[Fonte: Alberto da Costa e Silva, "O Império de D. João", in Revista Brasileira, Fase VII, Ano XIV, n.º 54, Janeiro-Fevereiro-Março 2008]. 



5. Alguns anos antes, o citado Dr. Francisco Tavares tinha publicado umas Advertencias sobre os abusos e legitimo uso das Agoas Mineraes das Caldas da Rainha (Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1791). Dois anos depois da invasão de Junot, viria ainda a publicar, sobre este mesmo assunto, umas Instrucções e cautelas practicas sobre a natureza, differentes especies, virtudes em geral, e uso legitimo das aguas mineraes, principalmente de Caldas: com a noticia daquellas, que são conhecidas em cada huma das provincias do Reino dePortugal, e o methodo de preparar as aguas artificiaes (Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1810). Curiosamente, em 1795, a Academia de Ciências de Lisboa tinha também publicado uma edição bilingue de uma obra de um correspondente inglês sobre o mesmo assunto: William Withering, Analyse Chimica da Agoa das Caldas da Rainha [A Chemical Analysis of the Water at Caldas da Rainha], Lisboa, Officina da Academia, 1795.




7. Geoffroy Saint-Hilaire alude a Joachim Murat, Grão-Duque de Berg, o qual conhecera na campanha do EgiptoComo acima se percebe, havia então o rumor em Lisboa que Murat (ao qual Napoleão nomeara dois meses antes Comandante em Chefe dos seus exércitos na Espanha) seria entronizado como Rei de Portugal. Note-se que a chegada de Geoffroy Saint-Hilaire a Lisboa quase que coincidiu com a publicação da carta da deputação portuguesa, cuja recepção produziu as consequências que já atrás indicámos. 



8. O palácio do duque de Cadaval estava então ocupado pelo General Travot (cf. Charles-Vicent d'Hautefort, Coup-d'oeil sur Lisbonne et Madrid, en 1814, Paris, Chez Delaunay, 1820, p. 17).


9. Bonnard era, como Lalande, um jovem "preparador" (cujas funções anotámos aqui), aparentemente conhecido dos administradores do Museu de História Natural de Paris.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (24 de Maio de 1808)




[Lisboa], 24 de Maio [de 1808]



Meus caros e respeitáveis colegas:

Tenho, desde o dia 23, condições perfeitas para agir, estando autorizado, como pretendia, pelo General em Chefe [Junot]; e estou satisfeito pela volta que deram as coisas. Confesso que as aparências tinham-me inquietado um pouco. Vi que tinham sido semeados alguns espinhos no meu caminho, mas agora já não os encontro.
Vandelli excede tudo o que poderia desejar; todas as caixas dos seus depósitos [isto é, do Gabinete de História Natural da Ajuda, do qual Vandelli era director] acabam de me ser abertas; ele dá aos seus subordinados todas as ordens que me convêm. 
Vi muitos herbários, uns da costa de Angola, outros de muitas outras costas de África e das Índias, herbários do Pará, do Maranhão, do Rio Negro, etc. São todos virgens, ninguém se deu ao trabalho de os abrir: deles não saiu nem uma planta, nem uma ideia botânica.
[O referido Gabinete] dispõe também duma minerologia bastante ampla das colónias portuguesas. Vandelli empenhou-se bastante em dispor em partes separadas tudo o que proveio duma [mesma] região. Darei informações ao sr. Haüy sobre aqueles minerais cuja origem seja conhecida com exactidão.
Também existem produções de vários tipos que se fornecerão às investigações dos senhores Fourcroy e Vauquelin.
Já vos elogiei, meus caros colegas, o Gabinete [da Ajuda], e ainda persisto nessa opinião, agora que o examinei mais detalhadamente; mas [o que está à vista] não é nada, de forma alguma, em comparação com os depósitos. Existe um grande número de caixas com os seus diferentes compartimentos cheios, uns de insectos, outros de aves; aqueles de herbários, estes de minerais, de produtos químicos, etc.
Já fiz o catálogo dos mamíferos; posso falar-vos destes com mais segurança. Enviar-vos-ei os macacos que não tendes. Apenas possuís cinco dos que aqui estão, mas estes diferem muito dos seus semelhantes da Guiana, os quais haveis aprovado que vos levasse. A nossa família de cuátas será completada pelo exemplar castanho acinzentado que está aqui; o mesmo se pode dizer da família dos  urradores, com três espécies vulgares do Brasil; a família dos saguis será aumentada consideravelmente, e enfim, também as famílias dos sakis e sapajous.
Envio-vos duas espécies novas de lori, duas preguiças e o mirmecófago com duas faixas escapulares, muito bem figurado por Marcgrave, e que não pertencem a nenhuma das espécies determinadas por Lineu. 
Considero que o [animal] mais interessante é uma preguiça aparentada do unau pelo seu tamanho, aspecto e focinho, a qual tem três dedos e um colar negro de pelos muito compridos. Levo também esqueletos do peixe-boi, e do enorme crocodilo do Brasil, de uma espécie não determinada pelo Sr. Cuvier*, etc.
Também farão parte da minha remessa: quatro novos tatus, o lagomys ogotoua [sic] que foi para aqui enviado por Pallas, ratos, esquilos, uma terceira espécie de paca, doninhas, mefitídeos, no total de sessenta exemplares de mamíferos.
Todos os ramos da história natural renderão outro tanto.
A [remessa] da ictiologia será talvez a mais rica; a entomologia também o será bastante.
Ademais, existem caixas em depósito que contêm entre 50 a 100 exemplares de uma só espécie de insecto ou de ave.
Ainda não me pude encontrar com o correspondente do Sr. conde de Hoffmansegg; receio que não haja em todos estes depósitos caixas que pertençam a este naturalista; o General Margaron disse-me alguma coisa [sobre este assunto]. 
Vandelli, com o qual falei sobre isto, sustenta que antes da partida do Sr. Sieber tinha sido feito um acordo, segundo o qual haveria uma partilha, quando Sieber regressasse; assim, uma metade seria expedida para o Mar do Norte, ficando a outra metade em Lisboa. Esclarecerei este assunto, porque é preciso que ele seja justo, antes de ser rico**.
Vi o Sr. Brotero, que está aqui: há um atrás, deixou Coimbra devido a uma injustiça, cuja reparação veio solicitar a Lisboa. O bispo [de Coimbra], observando que o jardim botânico estava situado entre o seu palácio [actualmente sede do Museu Nacional de Machado de Castro] e o seu seminário, achou que era conveniente apropriar-se da maior parte e de todo o meio [do jardim] para fazer uma rua, através da qual pudesse ir pelo caminho mais curto até aos seus alunos. Em virtude deste motivo, o seminário e os alunos do Sr. Brotero ficaram transtornados. Ele quis reclamar, na sua qualidade de inspector, mas o bispo, que ocupa o cargo de reitor, retirou-lhe a sua inspecção e deu-a ao professor de matemática***.
Farei o meu melhor, como bem podeis imaginar, meus caros colegas, para socorrer o Sr. Brotero. Ele julga que posso [fazer] tudo, no que muito se engana, e nesse entender esperava-me como um restaurador da botânica e benemérito daqueles que dela se ocupam; não obstante, farei alguma coisa sobre este assunto.
Não podeis fazer a mínima ideia das esperanças que os portugueses têm na figura do General em Chefe [Junot]. Ele ameaça muito e muitas vezes, [mas apenas] para não ter que punir. Os franceses dizem que ele é severo somente com eles próprios. Ele gosta de praticar o bem e que isto se comente à sua volta. Devido a esta conhecida característica sua, não deixará o Sr. Brotero em trabalhos!
Poderei partir dentro de oito dias para Coimbra, para aproveitar a companhia do General Loison, que vai ocupar uma posição militar mais longe. Neste caso, o Sr. Brotero iria comigo; levantaríamos a planta do seu jardim, ele traçaria um perfil, e eu o submeteria ao General em Chefe.
Recebi do Ministro uma carta onde me testemunha a sua satisfação pelas contas que lhe prestei em Madrid, e onde me insta a aproveitar a minha estadia nesse país para incrementar as vossas colecções. Isto é o que eu contava fazer. Sejam quais forem os ajustes que se acordem, enviar-vos-ei o Megatherium****; estou certo disto.
Por outro lado, protegei-me, meus colegas, junto do Ministro, enquanto eu faço um serviço tão bom aqui. Fui informado, com desgosto, que, tendo-lhe enviado no mesmo envelope duas cartas, uma onde prestava contas, e a outra com um pedido para despesas de viagem, ele reprovou esta última.
Recebei as minhas muito respeitosas saudações.


Geoffroy Saint-Hilaire


[P.S.] Três outras colecções estão em Lisboa à minha disposição; diz-se que uma é mais considerável do que a da Ajuda. Como será então? 



[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 44-46].
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Notas:


* Geoffroy Saint-Hilaire alude a um artigo que Georges Cuvier tinha publicado no ano anterior: Mémoire sur les différentes espèces de crocodiles vivans et sur leurs caractères distinctifs", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dixième, Paris, Chez Tourneisen fils, 1807, pp. 8-66


** Sobre este caso, ver as nossas anotações à carta do General Margaron a Geoffroy Saint-Hilaire datada de 10 de Dezembro de 1807.


*** Como atrás indicámos, o aludido bispo (e reitor da Universidade) de Coimbra deixara Portugal em meados de Março de 1808, depois de ter sido uma das personalidades "convidadas" por Junot para fazer parte da chamada deputação portuguesa enviada a Napoleão, tendo regressado da França somente em 1814. Curiosamente, anos mais tarde, e já num contexto completamente diferente, o despotismo e a arbitrariedade do bispo, nomeadamente no seu cargo de reitor da Universidade, levaram ao ponto de vários membros das Cortes Constituintes, entre os quais o próprio Brotero, requererem a sua remoção daquele cargo, como consta na sessão das Cortes de 7 de Abril de 1821: "O Sr. Brotero fez menção de ter proposto já em outro tempo a Sua Majestade o ser incompatível que o Bispo de Coimbra fosse juntamente Reitor da Universidade, e motivou esta opinião com as razões com que o propusera; concluindo que ele devia ser expulso daquele lugar" [Fonte: Diario da Regencia, n.º 85, 9 de Abril de 1821].


**** Saint-Hilaire refere-se ao esqueleto dum Megatherium, quase completo, existente no Real Gabinete de História Natural de Madrid, e que Georges Cuvier fora precisamente o primeiro a descrever, em 1796, num artigo intitulado "Notice sur le squelette d'un très-grande espèce de quadrupède inconnue jusqu'à présent, trouvé au Paraguay, et déposé au cabinet d'Histoire naturelle de Madrid" (publicado in Magasin Encyclopédique, ou Journal des Sciences, des Lettres et des Arts - Tome premier, Paris, Imprimerie du Magasin Encylopédique, 1796, pp. 303–310). Nesse mesmo ano, o espanhol D. Joseph Garrida traduziu e corrigiu a descrição de Cuvier num pequeno opúsculo, ilustrado com gravuras de D. Juan Bautista Bru (dissecador do próprio Gabinete de Madrid), intitulado Descripcion del esqueleto de un quadrúpedo muy corpulento y raro, que se conserva en el Real Gabinete de Historia Natural de Madrid, Madrid, Imprenta de la viuda de Don Joaquin Ibarra, 1796. Alguns anos mais tarde, com base neste último texto, Cuvier voltou a escrever um novo artigo, também ilustrado, sobre o mesmo assunto, ao qual intitulou "Sur le Megatherium. Autre animal de la famille des Paresseux, mais de la taille du Rhinocéros, dont un squelette fossile presque complet est conservé au cabinet royal d'histoire naturelle à Madrid" (publicado in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dixième, Paris, Chez Levrault, Schoell et Compagnie Libraires, 1804, pp. 376-387). 
Devemos acrescentar que a montagem do aludido esqueleto, em 1788, foi precisamente a primeira reconstrução dum vertebrado fóssil em toda a Europa, pelo que se percebe o interesse do Museu de História Natural de Paris (do qual, recordemos, Cuvier era director) em obtê-lo. Contudo, ao contrário do que acima assegurava Saint-Hilaire, este esqueleto não chegou a sair de Madrid, onde ainda hoje se conserva, mais particularmente no Museo Nacional de Ciencias Naturales.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Salvo-conduto passado pelo General Junot ao naturalista Geoffroy Saint-Hilaire, permitindo-lhe a entrada em todos os estabelecimentos científicos de Portugal (23 de Maio de 1808)



Nós, Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal, ordenamos a todos os curadores de museus, gabinetes de história natural, bibliotecas e outros estabelecimentos de ciências que tanto pertençam ao Governador como a instituições religiosas ou a particulares que tenham emigrado, para que permitam a visita e o reconhecimento dos seus estabelecimentos pelo senhor Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto da França, abrindo-lhe todos os armários e caixas que ele queira ver. Ficam todos expressamente proibidos de perturbar o sr. Geoffroy na execução da missão que lhe foi encarregada por Sua Majestade o Imperador, e são expressamente ordenados a ajudá-lo em tudo o que lhe seja necessário. 
Dado no Palácio do Quartel-General em Lisboa, 23 de Maio de 1808. 

O Duque de Abrantes

[Fonte: Jacques Daget & Luiz Saldanha, Histoires Naturelles Franco-Portugaises du XIXe Siècle, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação das Pescas, 1989, apud Maria Estela Guedes, "De como o lagarto é envolvido nas invasões francesas", in Dois Casos Secretos em Ciências Naturais (Trabalho apresentado para concurso a Assessor no Museu Bocage), Lisboa, 1994].

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (19 de Maio de 1808)





Lisboa, 19 de Maio de 1808.


Meus respeitáveis e caros colegas:

Acabei de visitar as colecções de história natural da Ajuda, e o que vi ultrapassou todas as minhas expectativas. Não vos arrependereis nada por terdes expedido um comissário, pois o vosso comissário desfruta de toda a liberdade que exigem as suas operações.
Metade da colecção é composta por animais brasileiros, e toda essa metade falta-vos [ao Museu de História Natural de Paris, entenda-se]. A principal riqueza das colecções da Ajuda é formada por mamíferos, aves e insectos. Como já tive a honra de vos contar, meus caros colegas, vi alguns animais novos nos gabinetes de Madrid, e [agora] reencontrei-os nos da Ajuda. Temos grandes motivos de satisfação, sobretudo porque todos estes animais estão perfeitamente conservados. Disseram-me o motivo: quase todos provêem duma remessa que foi feita há dois anos atrás*.
Vi estas colecções como um simples amador, pois ainda não recebi uma autorização formal para agir em vosso nome e em nome do Ministro. Desta forma, não conheci senão o que está exposto. Fiz algumas perguntas, e informaram-me que tinham muitas outras coisas em depósito, mas que a falta de espaço e de preparação era o motivo pelo qual não se expunham ao público.
A colecção que mais vos interessará será sobretudo a dos macacos: é bastante considerável. Exceptuando quatro ou cinco, os restantes são novos. Levar-vos-ei finalmente o verdadeiro Simia belzebuth [segundo a denominação de Lineu] ou Guaribu de Marcgrave**; ou melhor, erro ao particularizar, pois levar-vos-ei todos os animais que este antigo naturalista nos deu notícias curtas e até agora insuficientes.
Deixei o gabinete da Ajuda com a maior satisfação: ter-me-ia sido bastante penoso empreender uma viagem tão longa e tão fatigante se não tivesse chegado a um resultado importante, e ao resultado que havíeis prometido a vós mesmos.
Uma sala considerável é consagrada à mineralogia. Peço perdão ao sr. Haüy por não ter nada para lhe dizer hoje, porém, fosse pela minha ignorância sobre esse assunto, fosse por me entreter bastante com os objectos que estão ligados mais directamente aos meus estudos, passei ao de leve pela [sala da] mineralogia; tudo o que percebi é que todas as amostras são muito pequenas.
Ainda não vi as colecções botânicas. Na minha próxima carta informarei os senhores Desfontaines, Jussieu e Thouin [acerca deste assunto], pois hei-de conseguir saber alguma coisa daqui a dois dias.
Vou jantar hoje à casa do General em Chefe [Junot]; espero determinar com ele a maneira como me apropriarei de tantas riquezas.
É essencial para a minha missão que não faltem os objectos que vos devem ser levados. Espero, ademais, que o poder [dos franceses] prevalecerá sobre o querer [dos portugueses].
O General em Chefe aprecia as ciências e tudo o que possa engrandecer o domínio do espírito humano; tenho muita confiança no que ele achará adequado ordenar.
Assim que os meus [próximos] passos estejam traçados, escreverei a Sua Excelência o Ministro do Interior para lhe prestar contas; e para que sejais, meus caros colegas, mantidos perfeitamente ao corrente das minhas operações, enviar-vos-ei cópias dos meus ofícios a Sua Excelência.
Aceitai, caros e respeitáveis colegas, os meus ternos sentimentos e saudações respeituosas.

Geoffroy St-Hilaire.

[P.S.] Lalande apresenta-vos os seus respeitos; vamos separar-nos. Ele continuará junto das colecções da Ajuda, a fim de não perder nenhum tempo. No que me diz respeito, ocupo um magnífico aposento na casa dum escanção da Inquisição, um ex-negociante condecorado com a Ordem de Cristo. É o melhor dos Inquisidores, dado que tem para comigo uma bondade e uma complacência infinita.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 43-44].

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Notas:

* Segundo o autor do artigo onde foi publicada originalmente esta carta, Geoffory Saint-Hilaire alude aqui muito provavelmente às colecções de animais, plantas e minerais recolhidas pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que tinha estado durante quase dez anos no Brasil. [Cf. Manuel José Maria da Costa e Sá, "Elogio do Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo V. Parte II, Lisboa, Na Typografia da mesma Academia, 1818, pp. LVI-LXXX, sobretudo a partir da p. LXV; "Notícia dos Escritos do Senhor Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in id., ib., pp. LXXXI-LXXXIX].
Algumas das caixas que Alexandre Rodrigues Ferreira tinha remetido para Portugal continuavam em 1808 por abrir, facto que muito impressionou Geoffroy Saint-Hilaire, quando finalmente lhe foi concedido o acesso aos depósitos do "gabinete" da Ajuda. Em cartas que posteriormente viria a escrever aos seus colegas do Museu de História Natural de Paris, anotou a este respeito que muitos herbários com plantas do Brasil, de África ou da Índia estavam ainda virgens, precisamente porque ninguém se tinha dado ao trabalho de os abrir. Um deles, feito em 1785, foi encontrado por Geoffroy Saint-Hilaire bastante devorado por insectos. Tal desleixo impressionou tanto Saint-Hilaire que, já depois da Convenção chamada de Sintra, pressionado pelos ingleses para devolver as caixas com os materiais que entretanto tinha recolhido em Portugal, viria a apelar ao naturalista Sir Joseph Banks, presidente da Royal Society, escrevendo-lhe uma carta onde dizia preferir entregar-lhe as ditas caixas do que deixar que o seu conteúdo permanecesse assim desprezado e ignorado pela ciência, pois tinha a convicção de que "depois de mim, estas caixas não serão abertas"... 
Curiosamente, e fazendo justiça às palavras de Geoffroy Saint-Hilaire, algumas das caixas que em 1808 continuavam virgens, assim permaneceriam por mais  200 anos, como foi o caso da recente "descoberta", na Universidade de Coimbra, de uma colecção de peixes do Brasil, recolhida nos finais do século XVIII pelo citado Alexandre Rodrigues Ferreira. [Cf. André Jegundo, "Colecção raríssima do séc. XVIII de peixes do Brasil encontrada na Universidade de Coimbra", in Público, 17 de Janeiro de 2011; "Colecção rara de peixes do século XVIII descoberta na UC", Ciência Hoje, 18 de Janeiro de 2011; "Colecção de peixes do século XVIII encontrada em Coimbra", in Super Interessante].

*Geoffroy Saint-Hilaire viria a descrever este e outros símios do Brasil no seu artigo "Tableau des quadrumanes, ou des Animaux composant le premier Ordre de la Classe des Mammifères", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dix-neuvième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1812, pp. 85-122, p. 108.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Georges Cuvier, Director do Museu de História Natural de Paris (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio*.




Meu digno amigo:


Ia informar-vos da minha chegada a este país quando recebi a carta que me haveis dado o prazer de me escreverdes para Madrid. Os conselhos que me nela me dais sobre as dificuldades que teria nesta última cidade permitir-me-iam conhecer, se não tivesse já milhares de outras provas, toda a previdência do vosso espírito e toda a vossa amizade para comigo. Dado que estou em Lisboa, devo dizer-vos que tinha considerado perfeitamente o meu terreno.  
Já estive aqui com o Excelentíssimo Governador-Geral [Junot], que me recebeu da forma mais gentil. Ainda não sei se vos poderei servir relativamente à relação das massas**; tenho exactamente as mesmas ideias que vós e podeis estar seguro que farei o meu melhor.
Ainda não tive tempo para ver as colecções; assim, não tenho nada para vos dizer sobre este ponto.
Encontrei aqui um dos meus amigos, o General Loison, que desempenha o papel de segunda personalidade do exército; ele está intimamente ligado ao General Comandante em Chefe [Junot]. Quando saí da casa deste último, Loison foi visitar um amigo seu que estava doente, em cuja casa me encontrava. A conversa tornou-se mais íntima, e aproveitei algumas disposições que eu via que eram favoráveis para o nosso caro Correia, a fim de lhe preparar o restabelecimento da sua pensão; pedi-lhe que cresse que tem aqui um correspondente cheio de zelo e devoção, e pedi-lhe a graça de não ser parcimonioso comigo. 
Haveis-me dado um grande prazer ao me anunciardes um trabalho sobre as aves da colecção: tentarei retribuir [com um trabalho sobre os] moluscos o que haveis feito sobre aquela parte da minha administração.
Não foi sem trabalhos, meu caro amigo, que aqui cheguei: o que bem vejo pelos termos da vossa carta, que haveis receado por mim, acabou por me acontecer!
No dia 2 de Maio, foi dado um correctivo à populaça em Madrid. Um alcaide, a três léguas, exagerando esses acontecimentos, espalhou falsas notícias, alarmes e gritos de vingança por todo o reino (parte oeste e sul), através de mensageiros enviados por todas as estradas: num instante, o reino sublevou-se. Eu estava então a meio caminho entre Madrid e Lisboa. Ao receber tais notícias, vi-me rodeado, assim como o meu companheiro Lalande, por uma populaça em efervescência. Pronto para fugir à noite por caminhos desviados, a fim de evitar um grupo que vinha ao nosso encontro para nos desfazer aos bocados, fui preso pelos magistrados de Mérida, os quais tinham destacado cavaleiros que nos alcançaram em San Pedro. O povo esperava-nos às sete horas da tarde, porém foi enganado pelo nosso plano de fugir mais tarde: chegámos perto da uma da madrugada, mas encontrámos ainda bastante povo para provarmos todas as angústias e os combates mais penosos. Apedrejado por duas vezes, foi um milagre que tenha podido escapar [com vida] nessa ocasião. Entrei por fim num asilo que se tornou para mim num porto de salvação: era a prisão dos criminosos de Mérida. Fomos aí misturados com eles. Fomos severamente revistados e despojados. Encontrámos-nos na situação de invejar os miseráveis cujo alojamento partilhávamos, os farrapos sobre os quais repousavam a sua cabeça; os grilhões de um deles foram a minha almofada. 
Para cúmulo da desgraça, esses prisioneiros partilhavam o patriotismo dos homens livres; tínhamos assim inimigos nesse lugar, embora depressa os tenhamos conquistado pela nossa liberalidade. Ainda que seguros no interior [da prisão], estávamos bastante preocupados em relação ao seu exterior. No dia seguinte, um grupo mais numeroso de populares tentou por duas vezes assaltar a prisão, para invadi-la ou para nos extrair dela. Por fim, o objectivo foi tentado através dum incêndio. A guarda repeliu com bastante energia os nossos inimigos, mas um só homem fez mais do que todos, o alguazil mayor [sic(chefe dos oficiais de justiça), homem extremamente forte, o qual nos tinha também maltratado enquanto o pôde fazer dentro [da prisão], mas que ainda que estivesse confiante de ter bem servido a causa dos espanhóis nesse ponto, defendeu-nos corajosamente no exterior. O seu bastão, que golpeava a cada momento, teve mais efeito que as baionetas.
Assim que soube da nossa aventura, o General de Badajoz ordenou que fossemos libertados. Essa ordem chegou no quarto dia [cerca de 8 de Maio]. O que ganhámos com isso foi irmos ocupar a cela das mulheres ou o primeiro andar da prisão, cuja porta era vigiada pelo povo, bem como as estradas por onde poderíamos fugir: foi preciso continuarmos presos mais quatro dias.
Toda esta efervescência derivava duma notícia falsa, e tudo cessou quando se soube melhor o que tinha acontecido. O receio sucede hoje ao furor; a vergonha está em todos os espíritos. Lança-se sobre o alcaide, autor da notícia, a causa de tantas desgraças; ele é acusado pelos seus com um encarniçamento que demonstra o seu arrependimento. Como o que aconteceu não voltará certamente a acontecer, pude contar-vos a nossa aventura.
O pior foi o rombo na minha carteira; foi preciso pagar todos os serviços que me foram prestados, os guardas, os carcereiros, os prisioneiros, as notícias verdadeiras ou falsas que nos vinham trazer, as mulas da carruagem que havíamos alugado a 100 francos por dia, outras mulas que se mantinham prontas para fugir por caminhos desviados, e os nossos víveres a preços 20 vezes superiores ao seu valor habitual. Encontrei-me assim na situação de ter que pedir emprestado a Lalande o seu pouco dinheiro e depois a dois outros companheiros*** que, como iam na nossa viatura, partilharam a nossa detenção.
Aqui [em Lisboa] não passo necessidades. As bolsas de Loison e Margaron abriram-se para mim, e Loison acaba de pôr à minha disposição os bens dum homem que teria uma fortuna de 40 milhões. Ou seja, vou viver em casa dum banqueiro que  dispôs toda a casa ao serviço do seu hóspede.
Contudo, caro amigo, peço-vos que queirais pedir ao Sr. Thouin para continuar a reembolsar as minhas despesas de viagem, que são contabilizadas na base de 308 postos a partir de Paris, dado que cada légua do país conta como um posto no serviço militar. Enviei de Madrid um pedido para [pagamento das despesas] de Paris a Madrid visado pelo Inspector dos Correios e pelo Intendente-Geral sob o ponto de vista da distância; vou enviar um outro para o resto do caminho.
O General Margaron empenhou-se para ter perto dele o vosso enteado, a título de Ajudante de Campo****; ele fez diligências nesse sentido que devem ter sido seguidas pelo nosso amigo o Sr. Lebreton. Se ele estava prestes a partir, que venha até aqui sem receio. A Espanha e Portugal estão na mais profunda paz: um homem sozinho pode atravessar sem riscos agora esses dois países. Ademais, ambos países estão perfeitamente observados. 
Como receio que não haveis recebido os pedidos do General Margaron, vou fazer com ele façum duplicado, que vos remeterei sem demora. 
[Espero que] queirais, meu caro amigo, continuar a dar-me notícias vossas; não podeis ter uma ideia do prazer que elas me deram.
Apresentai os meus respeitos às vossas senhoras e recordai-me também à lembrança dos nossos colegas, tanto do Museu de História Natural [de Paris] como da sociedade do chá*****.
O vosso todo dedicado e eterno amigo,

Geoffroy Saint-Hilaire


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 41-43].

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Notas:


* Esta carta foi lida a 15 de Junho de 1808 em sessão do Museu de História Natural de Paris.


** O termo francês masses (em itálico no texto original), que traduzimos literalmente, é demasiado ambíguo (tanto em francês como em português) para podermos determinar com precisão a que se referia Geoffroy Saint-Hilaire.


**Alusão aos dois soldados franceses que tinham passado (aparentemente em Madrid) a acompanhar Geoffroy Saint-Hilaire e o seu assistente Lalande na sua viagem até Portugal. Ver a este respeito a carta de Saint-Hilaire ao seu sogro, datada de 29 de Abril de1808.


**** Tratava-se de Thélème Duvaucel, um dos quatro filhos das primeiras núpcias de Madame Duvacel, a qual enviuvara e casara por segunda vez em 1804 com Georges Cuvier, que naturalmente adoptara os seus filhos. Depois de regressar à França na sequência da Convenção chamada de Sintra, Thélème voltaria a Portugal e aí acabaria por morrer, em 1809, durante a retirada do exército francês do norte do país. Curiosamente, um dos irmãos de Thélème era Alfred Duvaucel, que além de naturalista como o seu padrasto, foi também um reconhecido explorador. [Cf. Mrs. R. Lee, Memoirs of Baron Cuvier, London, Printed for Longman et al., 1833, pp. 29-30; trad. francesa: Mémoires du Baron Georges Cuvier, Paris, H. Fournier Libraire, 1833p. 31].


****Denominação duma sociedade, promovida por Georges Cuvier, que se reunia aos Sábados