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sábado, 14 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire às senhoritas Petit, tias-avós da sua esposa (14 de Maio de 1808)



Venda do Duque, 14 de Maio.


Excelentes e caras tias:

O meu jantar está a ser preparado pelos meus companheiros num albergue bastante mau dum lugar chamado Venda do Duque; aproveito o tempo livro que me é permitido para vos escrever. Bem sabeis, minhas boas tias, que sou ternamente afeiçoado a vós, e podeis assim ter uma ideia da satisfação que tenho em consagrar-vos todos os meus pensamentos durante o descanso das pessoas e animais que nos acompanham e conduzem.
No dia 30 de Abril, encontrámos um grupo de frades e duas viajantes no albergue do pequeno lugar de Ventas del Malcaso, que tinha somente dois quartos. Os frades, que lisonjeei da melhor forma que pude ao falar-lhes em latim, e sobretudo aparentado ser partidário da revolução que tinha estabelecido Fernando VII sobre o trono, recusaram-se a emprestar-me o seu quarto para aí tomarmos a nossa refeição: precisavam de dormir. As duas viajantes indignaram-se com tal egoísmo e convidaram-nos a usar o seu quarto. Uma dessas senhoras, esposa de um oficial superior, disse-nos: «Não há que esperar desta canalha senão procedimentos indignos: são a lepra da Espanha; espero que o meu caro Bonaparte nos livre deles. Eis o meu herói - acrescentou ela - , contemplo o [seu] retrato sempre que tenho oportunidade. Como ele é o ser pelo qual me apaixonei excessivamente, digo francamente os erros que lhe conheço. Havíamos destruído o tirano na pessoa do Príncipe da Paz [Godoy]. Porque é que ele permite a existência desse monstro? Sabei que aspirei por um momento a  ser a Judite de Espanha: vedes-me fresca e dotada de algum charme, a crer nos cumprimentos dos cavalheiros. O monstro tinha como única ocupação desonrar os leitos conjugais das famílias mais estimáveis de Madrid. Vou vos dizer que também procurei agradar-lhe: se fosse necessário, teria sofrido a mácula do meu inimigo para assegurar-me melhor do golpe que teria desembaraçado a Espanha deste outro Holofernes. Mas devo confessar que, para minha vergonha, o meu charme não surtiu efeito e, se interiormente fiquei corada por não ser a mais bela das espanholas, é porque não me foi possível fazer a       mais bela e a mais útil das acções».
Ainda que eu não aprovasse esta efervescência, estas palavras ditas com energia e com uma calma que anunciava uma mulher superior, levaram-nos a estimar a bela espanhola. Tudo o que tínhamos de precioso em vinho de Bordéus e em provisões foi desempacotado; e demos-lhe uma refeição perfeita para a circunstância, o que fez enraivecer os frades, que viram que com um pouco de complacência teriam podido regalar-se com os nossos víveres.
Não foi este o nosso único encontro com uma senhora espanhola: ao termos que atravessar um bosque durante quatro horas, entre San Pedro e Mérida, conhecido pelo nome de Confessionário [Confessonario(ou seja, o lugar onde os ladrões fazem os viajantes confessar o que possuem para lho roubar), bosque esse onde se tinha cometido um roubo três dias antes da nossa passagem, julgámos que era apropriado irmos pedir a um oficial espanhol que estava encarregado do cofre do seu regimento e que, por consequência, tinha escolta, para permitir que marchássemos juntamente com ele. No seu carro estava a sua mulher amamentando um bebé e uma filha de cinco anos. Não tínhamos percorrido uma légua quando os cavalos da sua viatura fizeram uma travagem brusca, provocando um grave acidente. Recolhemos na nossa carruagem a senhora e as crianças com tanta cortesia e cuidados que ela não sabia como nos demonstrar toda a sua gratidão. Dois dias mais tarde, ficámos muito felizes por termos prestado esse serviço, porque recebemos um pagamento cem vezes maior; beneficiámos pela nossa parte das boas graças dos naturais da região, e a pronta gratidão da nossa senhora granjeou-nos partidários calorosos e úteis entre a boa sociedade de Mérida. 
Outro caso que não vos dará uma ideia nobre da Espanha: A justiça está excessivamente corrompida, e eis uma prova. O juiz – prefeito da cidade de Trujillo – não permite que nenhum cidadão tenha um albergue; possui uma casa grande que está convertida num estabelecimento desse género, fazendo-a explorar por alguns infelizes hipotecados, enquanto ele fica numa casinha perto da casa grande. O viajante é forçado a utilizar o seu albergue; ele aluga-o muito caro e refaz o arrendamento semanalmente, esperando ganhar cada vez mais. O arrendatário não dispõe de móveis, de provisões, enfim, de nada para uso dos viajantes. Se quer jantar, dizem-lhe: dai-nos dinheiro para comprar pão, vinho, sal, vinagre, ovos, etc., etc., e para o aluguer dos utensílios de cozinha. Quando acaba de jantar, tudo isso é contado pelo quádruplo do que pagaria se o tivesse comprado ele próprio, e depois pedem-lhe dinheiro pelo trabalho da patroa, dinheiro pelo quarto, dinheiro pelo barulho que se fez e, se é de noite, dinheiro para a luz, dinheiro para a cama… tal é o costume. As despesas que já eram muito exageradas nos outros albergues do caminho elevaram-se ao quádruplo em Trujillo; quisemos regatear: «Vós não saireis, responderam-nos. – Mas vamos até à casa do juiz-prefeito. – Fazei-o, responderam, ele é o dono do albergue; vai pedir-vos dinheiro para fazer as facturas, e pronunciar-se-á a nosso favor; porque tal é a condição do contrato que fizemos com ele!». Como demos dinheiro pelo barulho feito na casa, quisemos que esse dinheiro fosse ao menos bem adquirido pelo dono do albergue, e fizemos bastante barulho; mas como era preciso prosseguir o caminho, pagámos.
Já não tenho espaço, minhas caras tias, para começar a contar-vos um quarto episódio; além do mais, escuso de gastar todas as minhas provisões de uma só vez. Quando estiver reunido convosco, contar-vos-ei tanto quanto fordes pacientes para me ouvir. Infelizmente, estou demasiado longe para desfrutar da felicidade de vos rever [nos próximos tempos]. Há dois meses que estou afastado de vós e da vossa querida e boa sobrinha; mas enfim, paciência! até àquele momento feliz de vos beijar e de vos fazer ver todo o afecto vivo, sincero e respeitoso que tenho por vós. 

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 39-41].

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire ao seu sogro, Isidore-Simon Brière de Mondétour (29 de Abril de 1808)

Talavera de la Reina, 29 de Abril [de 1808].


Meu caro pai*:

Aqui estamos a caminho de Lisboa, a duas jornadas de Madrid, numa bonita cidade chamada Talavera de la Reina. Na véspera da minha partida jantei na casa do Sr. Dennié [Intendente-Geral do Exército francês], que me disse que a sua mulher não tinha recebido nenhuma das suas cartas, ainda que ele tenha tido o cuidado de enviá-las pelo correio dos despachos [ou seja, o correio oficial]: ele supunha que este meio era o menos seguro, por causa de algumas medidas policiais que são usuais em certas épocas de operações militares. Eu tinha feito uso dos mesmos meios, e portanto fiquei preocupado em relação ao destino das cartas que escrevi à minha mulher**. Preocupa-me pensar que ela pode ter receado de tal modo a minha sorte que não sai da cama, o que acontecerá se não lhe chegar nenhuma das minhas cartas: é para evitar este inconveniente que arrisco [enviar] esta carta, ignorando se ela vos alcançará.
Estou numa estrada bem tranquila, cujos únicos inconvenientes são os maus albergues: seja como for, fiz-me acompanhar por dois militares que regressavam a Lisboa, os quais alimento com as minhas provisões. Estas precauções são inúteis; não as vou ostentar, para não ter de revelar demasiada pusilanimidade; contudo, participo-vos isto para vos tranquilizar acerca do meu caminho e para vos provar que sou exagerado em todos os meios que me devem permitir uma viagem feliz.
Também tomei precauções contra os maus albergues: trago comigo uma cama completa, madeiras de cama dobráveis, etc., por isso encontro-me bastante bem. Temos também bastantes provisões, nas quais não tocamos a não ser nos casos em que não encontramos absolutamente nada. Congratulamo-nos por estas precauções, dado que se pedimos alguma coisa, respondem-nos: Dai-nos o dinheiro, vamos comprar os ovos na casa deste, o vinho na daquele, etc., e a maior parte das vezes voltam dizendo que os comerciantes estão sem mercadorias. A Espanha está verdadeiramente na barbárie mais vergonhosa em relação a muitas coisas.
Não é que entre os espanhóis não haja muitos homens instruídos; os camponeses que sabem ler são proporcionalmente mais numerosos do que na França, e todos os estadistas um pouco relevantes são latinistas muito bons. Todos os notários do campo conversam admiravelmente em latim, o que se deve sem dúvida ao seu zelo pela religião; queremos conhecer a língua com a qual damos graças a Deus.
O General Leroy veio ver-me à cama, na véspera da minha partida, para me trazer uma carta para o seu cunhado, o General Kellermann, que exerce o comando a seis horas de Lisboa, em Setúbal. O General Loison está a quatro horas dessa capital e não no Porto, como me tinham inicialmente assegurado, e o General Margaron está na própria cidade de Lisboa.
Acabo de ser informado destes detalhes por um francês que regressava de Lisboa e que encontrei ao jantar.
Apressam-me para partir; termino esta carta pedindo-vos que apresenteis os meus respeitos à Sra. Martin, às senhoras da rua Monsieur-le-Prince*** , e, sobretudo, que não vos esqueçais de falar de mim a certos habitantes do Jardim das Plantas, sempre presentes no meu espírito.
Aceitai toda a minha devoção e os meus respeitos,

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 38-39].

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Notas:

* Geoffroy Saint-Hilaire tinha casado em 1804 com Angélique Jeanne Louise Pauline Brière de Mondétour, filha de Isidore-Simon Brière de Mondétour, antigo recebedor-geral dos economatos no tempo de Luís XVI, que se tornara em 1801 presidente [maire] do 2º arrondissement de Paris, cargo que viria a conservar até 1808, quando Napoleão, a 16 Setembro desse mesmo ano, tornaria-o membro da comissão de finanças do Governo francês (curiosamente, 15 dias antes fora nomeado como cavaleiro do Império). 

*Segundo o editor da carta acima traduzida, a aludida correspondência de Geoffroy Saint-Hilaire à sua esposa, eventualmente de grande interesse, não foi encontrada após a morte desta última, em 1873.

*** As "senhoras da rua Monsieur-le-Prince" eram as Mesdemoiselles Petit, duas tias-avós da esposa de Geoffroy Saint-Hilaire. A 14 de Maio (já no Alentejo) e a 11 de Outubro de 1808 (depois de regressar à França), Geoffroy Saint-Hilaire escreveria-lhes pessoalmente.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (26 de Abril de 1808)



Madrid, 26 de Abril de 1808.

Meus caros Colegas:

Tenho a honra de vos informar que a minha partida está marcada para amanhã, 27 de Abril. Uma carruagem de Barcelona foi a única oportunidade que surgiu [para partir] desde que estou aqui. Negociei-a no momento da sua chegada, e como a paguei por um preço mais alto do que outros interessados, obtive a preferência. Tudo estava pronto para que partisse hoje mesmo; não o pude fazer porque a minha viatura foi imediatamente embargada pelas autoridades espanholas; [mas] consegui ultrapassar este obstáculo. 
Não cessei de trabalhar no Gabinete de Madrid; precisava de dois ou três dias a mais para não deixar nada para trás, mas tive que aproveitar a primeira ocasião para partir, e foi o que fiz.
Estive rodeado e acompanhado constantemente por naturalistas espanhóis: às suas atenções penhorantes para comigo, somaram a mercê de me deixar escolher nas suas colecções o que faltasse às nossas.
Aceitei esses presentes e empacotei-os numa caixa, que deixei na casa do Sr. Dennié, Intendente-Geral do Exército [francês], para que vos seja enviada na primeira ocasião que surja. 
Há nessa caixa 17 ou 18 aves, um grande e belo exemplar de osga [conservada] em licor e uma concha abundante na Espanha, mas apresentada pelos autores como autóctone unicamente na Índia, onde, segundo dizem, é bastante rara. Envio-vos duas variedades.
Ficarei agradecido, meus caros colegas, em receber notícias vossas, ou espero pelo menos ter esse prazer em Lisboa. Não tenho outras notícias do Museu [de História Natural de Paris] senão a da morte da zebra. Se houver um meio de a substituir, fá-lo-ei.
Queirais aceitar, meus caros Colegas, esta nova garantia da minha respeitosa amizade.

Geoffroy Saint-Hilaire

[P.S.] Lalande tem-se portado sempre bem. Ele pede ao Sr. Jacques Thouin [chefe da administração do Museu de História Natural de Paris] para dar notícias suas ao seu pai.



[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 37-38].


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Jacques Thouin, chefe da administração do Museu de História Natural de Paris (22 de Abril de 1808)



[Madrid], 22 de Abril.

Senhor:

[...]

Estamos muito tranquilos por aqui. Chegou o momento em que posso pensar em partir, e estou a preparar-me seriamente para o fazer.
Obtive permissão para descrever os objectos do Gabinete de Madrid; as ordens muito penhorantes que foram solicitadas pelo Sr. Angulo dão-me todas as facilidades. Este favor que desfruto é tão singular como muitas outras coisas que se passam aqui, o que se deve à nossa superioridade moral que nos é reputada. 
Empreguei todo este dia a descrever; continuarei amanhã e depois de amanhã, e depois, segundo creio, dirigir-me-ei para Lisboa. 
Saúdo-os com boa e franca amizade,

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, p. 37].


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (20 de Abril de 1808)




Madrid, 20 de Abril de 1808*.




Meus caros Colegas:


Estou em Madrid há vários dias; não sei quando partirei. Vim para aqui em circunstâncias bastante singulares, as quais me obrigam a nunca deixar o grosso do exército francês. Por outro lado, não encontraria nenhum meio de transporte, pois todos estão a ser conduzidos para Bayonne, transportando a comitiva dos príncipes espanhóis. 
Forçado a ficar aqui, tenho ocupado o tempo livre para visitar os sábios e os objectos de história natural.
Os sábios encontram-se na pobreza mais extrema; o Príncipe da Paz não pagava ninguém há 10 meses. Fez melhor, o seu agente financeiro apoderou-se duma soma de 4.000 pesos duros [piastres fortes], que um americano rico tinha legado para a continuação da flora dos Srs. Ruiz e Pavón**
Existem outros sábios, os Srs. Sessé e Mociño, que são dignos da maior benevolência, e seria conveniente encorajá-los: são aqueles que foram encarregados da expedição ao México. Percorreram todo esse [vice-]reino durante 5 anos, onde recolheram um número bastante considerável de desenhos de quadrúpedes, de aves, de répteis, de peixes, de insectos e de plantas; mas como não tinham consigo senão a 12ª edição de Lineu, a maior parte das suas determinações está errada. Eles crêem ter diversas espécies de animais sedentários da Europa, da África e da Ásia, e é muito provável que se tratem de outras espécies novas; por fim, possuem 4 a 5 géneros [novos] bem distintos de aves. Eles não podem trabalhar convenientemente senão forem a Paris para comparar o que possuem com as nossas colecções; mas estão longe de poder empreender uma semelhante viagem. Frustrados nas suas esperanças desde que há três anos atrás regressaram à Europa, vivem mediocremente e já têm uma idade avançada, de modo que bem se pode recear que o fruto duma tão longa e perigosa viagem será quase completamente perdido. 
Vi o Gabinete apenas uma vez. Em geral, é pouco rico; no entanto, de tempos a tempos encontram-se novidades importantes: um novo mirmecófago, vários tatus também novos, todos os crocodilos de Havana e de outros rios das duas Américas, o veado do Canadá que trouxeram do México, e muitos outros.
A mineralogia parece cuidada: contudo, foi composta por amostras mais destinadas a brilhar do que a instruir: encontra-se aí um número enorme de fluoretos calcários, carbonatos calcários, carbonatos de bário, etc., sem que esses objectos apresentem diferenças de cristalização.
O Sr. Izquierdo, que é o Director do Gabinete, está em Paris, e fará bem em permanecer por aí: o Príncipe da Paz é visto aqui como um outro Robespierre, e o seu agente é igualmente perseguido pela vingança pública. O vice-director está na Alemanha; as chaves do Gabinete estão na posse do Sr. Angulo, que tem a grande honra de corresponder-se com o Sr. Haüy. De resto, o Gabinete está sob a direcção de um funcionário dos Negócios Estrangeiros.
Pedi que me facilitassem o acesso às colecções; este assunto está pendente ainda. Contudo, se mo negam, como espero, empregarei meios que farão cessar todas as chicanas que me fazem. Sou apoiado por alguns espanhóis que me acompanham a todos os lados que vou, e que tinham sido repelidos do Gabinete devido a uma reles inveja.
Agradecer-vos-ei muito, meus caros colegas, que façam o Ministro aprovar a minha conduta, segundo o relatório da minha permanência em Madrid.
Para vos explicar o motivo [desta conduta], necessitariam de um relato dos acontecimentos políticos, sobre os quais creio que é prudente que me cale. Acreditai que quando chegar o momento, avançarei com toda a diligência possível.
Vi muitas vezes o Sr. Lagasca, professor de matérias medicinais; dei-lhe os livros e os herbários que o Sr. de Candolle me tinha encarregado de lhe entregar.
Jardim botânico está melhor mantido do que o Gabinete: utilizam-se algumas práticas nas estufas e laranjais que creio serem boas para pôr em uso em Paris; hei-de submetê-las ao Sr.  Thouin no meu regresso.
Empreendi um grande encargo: o Sr. Faujas, que tinha manifestado alguns pontos de vista acerca do que aconteceria neste caso, vai perfeitamente ao encontro do que eu estou a suportar. Lalande, na sua qualidade de noviço, acha que esta viagem é muito singular, para não dizer de outro modo. Assusta-se facilmente e não consegue acostumar-se à comida espanhola, tal como se serve nos albergues, ao vinho que tem o sabor do odre, etc. Contudo, estou muito satisfeito com ele: recolheu insectos, preparou duas cotovias que nos faltam e ocupa-se dando o seu melhor. 
Adeus, meus caros colegas, queirais aceitar a garantia da minha mais afectuosa amizade.

Geoffroy Saint-Hilaire

[P.S.] Dou conta do que fiz até agora ao Ministro do Interior em carta que segue pelo mesmo estafeta que esta.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 34-36].


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Notas:



Esta carta foi lida em sessão do Museu de História Natural de Paris a 4 de Maio de 1808.


*Os botânicos espanhóis Hipólito Ruiz e José Antonio Pavón (juntamente com o seu colega francês Joseph Dombey) tinham estado, entre 1777 e 1788, no vice-reino do Peru (que compreendia não só o actual território do Peru, mas também o actual Chile). Dessa importante expedição botânica resultou, entre outras obras, a produção da Flora Peruviana et Chilensis, cujo primeiro tomo foi publicado em 1798, o segundo em 1799, e o terceiro em 1802. Contudo, parece que a falta de fundos inviabilizou a continuação da publicação da obra, que, como refere Geoffroy Saint-Hilaire, continuava incompleta em 1808 (e que permaneceria em grande parte inédita até meados do século XX, quando finalmente se concluiu a sua publicação, com o primeiro e o segundo tomos de mais de três centenas de estampas que ilustravam a obra).

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (8 de Abril de 1808)



Vitoria, 8 de Abril*.


Senhores e caros Colegas:


Encaminho-me para Madrid. Não há nenhuma estrada cómoda e, ademais, não há viaturas que sigam para Lisboa em linha recta. Só havia uma hipótese [ou seja, partir para Madrid], e aproveitei-a, ou melhor, paguei-a por um grande preço. Fiquei feliz por sair de Bayonne, cidade que está a abarrotar e onde todos os viajantes encontram-se mal e têm grandes despesas.
O Imperador determinou que no dia 10 de Abril receberia uma deputação portuguesa na cidade de Bayonne, e na estrada de Madrid estão preparadas as mudas de cavalos para a sua passagem, donde resulta que estarei em Madrid ao mesmo tempo que Sua Majestade. 
É possível que, com ordens do Governo francês, consiga obter duplicados das colecções do Príncipe da Paz**, ou encontre, ao longo do caminho, outra ocasião para fazer uma colheita abundante para o nosso Museu [de História Natural de Paris]; aguardo a oportunidade e darei o meu melhor para que tireis proveito da minha passagem por Madrid. 
Caso se proporcione tal ocasião [ou seja, caso o Governo francês envie as respectivas ordens], terei necessidade do Sr. Tondi; [mas] não sei onde encontrá-lo, nem para onde lhe poderia escrever. Imaginei pedir-vos, meus caros colegas, que tenhais a bondade de me enviardes para Madrid, sem demora, um aviso sobre o caminho que ele prossegue***. Estou assegurado que, caso me honreis com uma resposta, ela chegará às minhas mãos, mesmo que já não me encontre em Madrid.
Encontram-se semeados arcos de triunfo em todo o caminho que percorro, não somente nas principais cidades, mas também nas mais pequenas aldeias.
Os espanhóis estão encantados com a revolução que ocorreu no seu país e vêem os franceses com tanto prazer quanto antes os viam com repugnância.
O exército [francês] é tratado com consideração e melhor do que na França; são os administradores espanhóis que suprem, conforme as ordens do Rei, todas as necessidades dos soldados, que, avaliando a sua sorte através da qualidade do pão, julgam-se num país de Cocanha [pays de Cocagne].
Todas as províncias limítrofes dos Pirenéus enviam deputações ao Imperador: todos os magistrados, análogos pelo valor das funções aos nossos subprefeitos, querem ser [membros] das deputações, de modo que estas são muito numerosas. O infante de Espanha dormirá esta noite em Tolosa e esperará aí por Sua Majestade. Todos os monges saem dos seus conventos e enchem as casas onde estão as mudas de cavalos, na esperança de verem o Imperador no momento em que ele troque as suas mulas.
Adeus, meus caros Colegas, terei o dever de escrever-vos de Madrid: peço-vos que me conservem na vossa benevolência e de me crer 
Vosso todo dedicado e afectuoso colega,

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 33-34].


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Notas:

* Esta carta foi lida aos professores do Museu de História Natural de Paris em sessão de 20 de Abril, e respondida por Cuvier, seu director, três dias depois.

** É possível que Geoffroy Saint-Hilaire já tivesse tomado conhecimento tanto da prisão de Godoy como das subsequentes ordens de apreensão de todos os seus bens (emitidas a 22 de Março de 1808).

*** Numa nota manuscrita à margem desta carta, René Haüyprofessor de minerologia no Museu de História Natural de Paris, escreveu que "tinha recebido no dia 16 deste mês uma carta do  Sr. Tondi, remetida de Múrcia com a data de 1 de abril. [Tondi] dispôs-se a seguir para Málaga, e parece que daí partirá para Madrid, porque tem cartas para alguns sábios que habitam nessa cidade".

quarta-feira, 9 de março de 2011

Carta com instruções de Emmanuel Crétet, Ministro do Interior do Governo francês, a Geoffroy Saint-Hilaire, membro do Instituto da França e administrador do Museu de História Natural de Paris (9 de Março de 1808)




Paris, 9 de Março de 1808.


Como Sua Majestade o Imperador se dignou a autorizar-me a enviar um naturalista a Portugal para recolher nos gabinetes e jardins botânicos de Lisboa e de Coimbra objectos dos três reinos [animal, vegetal e mineral] que possam ser úteis ao Muséum d'Histoire Naturelle*, decidi confiar-vos esta missão.
Os votos dos vossos colegas e a confiança que vos outorgo fazem-me esperar que a cumprireis com todo o zelo que tendes.
Encontrareis inclusas, Senhor, as instruções segundo as quais deveis regular justamente todas as vossas operações. Envio uma cópia ao Senhor Governador de Portugal [Junot]. Convido-o a dar-vos todas as facilidades possíveis para que possais cumprir convenientemente a missão que vos é confiada.
Tenho a honra, etc., 



Instruções 


1.º As investigações relativas às ciências e especialmente à história natural são o principal objectivo da missão do sr. Geoffroy. Assim, antes da sua partida para Portugal, recolherá todas as informações que lhe possam fornecer os seus colegas do Muséum e da primeira classe do Institut sobre os objectos e colecções que merecem mais particularmente fixar a sua atenção.
Como o  Muséum d'Histoire Naturelle tem estado até agora privado de relações com o Brasil, é nas produções deste país que o sr. Geoffroy deverá preferencialmente fixar a sua atenção. Em geral, as suas escolhas focar-se-ão sobre as produções minerais, vegetais e animais de todas as espécies que faltem no  Muséum d'Histoire Naturelle ou que não existam senão num grau de inferioridade pouco digno deste belo estabelecimento.
Assim, o sr. Geoffroy deverá trazer o magnífico bloco de cobre nativo das colecções da Ajuda** e a pedra magnética que está nas de Coimbra***, o espécime mais considerável e com mais energia que se conhece, etc.
Diz-se que o antigo governo depositou em alguns conventos e em diferentes épocas caixas [com objectos] de história natural e, em particular, uma colecção feita na costa de Moçambique; e o sr. Geoffroy fará todas as pesquisas convenientes a este respeito.
Se, como se assegura, existem na colecção de animais [ménagerie] do Príncipe uma avestruz de três dedos**** e um grande leopardo da África central, ambos vivos, e cuja existência é aqui problemática, o sr. Geoffroy poderia ordenar o seu transporte, dada a importância destes dois objectos, reunindo-lhes mais animais raros e muitas aves inexistentes na colecção de animais [ménagerie] do Muséum. Contudo, neste caso, tomará medidas para que tal transporte seja efectuado com os menores gastos possíveis.
O zelo do sr. Geoffroy pelo progresso das ciências naturais é demasiado conhecido para que seja útil instá-lo a aproveitar a sua estadia em Portugal para recolher as produções particulares [do país]. As pesquisas que se farão a este respeito terão assim o fim de enriquecer o Muséum d'Histoire Naturelle daquelas espécies de coisas que carece. A embocadura do Tejo é sobretudo célebre pela grande quantidade de peixes e moluscos que aí chegam, vindos de diferentes rios, ou do mar alto, no tempo da desova. 
As plantas dos arredores de Lisboa são muito belas e muito variadas. O sr. Geoffroy tomará todas as medidas necessárias para obter do Museu as plantas que lhe possam faltar.

2.º Um segundo objectivo da missão do sr. Geoffroy é a recolha de informações sobre os livros e manuscritos, medalhas [entenda-se também moedas] e pedras gravadas, mapas, etc., que possam conter as bibliotecas e outros estabelecimentos públicos de Portugal.
Encontrará esses objectos nas bibliotecas da Corte, na Cartuxa de Évora, no mosteiro dos cónegos de São Vicente de Fora, no convento de São Francisco da cidade de Coimbra, e na casa do emigrado Duque de Cadaval.
As informações que mais particularmente se recomendam ao seu cuidado compreendem as viagens manuscritas dos navegadores e missionários portugueses nas diversas partes do mundo, sobretudo antes de 1500, bem como os mapas manuscritos, recaindo a sua atenção essencialmente nos portulanos que remontem à mesma época.
Deve existir em Portugal um grande número de memórias e de correspondências manuscritas sobre viagens nos arquivos públicos e nos depósitos dos mosteiros, sejam dos ex-Jesuítas, relativos às expedições marítimas, sejam dos Dominicanos, obtidos pelas missões. Recomenda-se que centre as suas pesquisas nas memórias muito antigas que devem existir sobre a Abíssinia. 
Os mapas manuscritos devem-se encontrar nos mesmos depósitos. Supõe-se aqui que as ricas colecções de Vila Viçosa foram levadas [para o Brasil?]. Encontrará também mapas preciosos relativos a bosques e cobre. Tomará todo o cuidado em descobrir o que é feito dos mapas cujos Mouros se serviam para os seus cursos nos mares da Índia e da África.
Copiará, ou fará copiar, as inscrições latinas ou outras que veja nos diversos monumentos, e trará fac-similes. Coimbra apresentar-lhe-á uma grande colecção.
Recolherá tantas informações quanto lhe sejam possíveis sobre as medalhas púnicas, árabes, dos reis godos e outras cunhadas em Espanha [em toda a Península, entenda-se] e chamadas medalhas coloniais. Porém, é inútil que fixe a sua atenção nas medalhas imperiais cunhadas em Roma e que teriam sido enviadas para Portugal.
Se encontrar pedras gravadas, sejam que forem, tomará notas, indicando os respectivos assuntos.
Tentará obter catálogos impressos de livros portugueses, e, se possível, cópias dos catálogos das bibliotecas públicas, enviando-as para a Paris, a fim de que se possa examinar quais são aqueles que faltam na Biblioteca imperial.
Está convidado a prestar uma atenção particular sobre todos esses livros anteriores a 1500.

3.º As estátuas, baixo-relevos, quadros, etc., serão ainda um dos objectivos das pesquisas do sr. Geoffroy.
É possível que encontre em Lisboa e em Coimbra algumas produções de escultura antiga.
Em relação aos quadros, ainda que não tenham existido escolas portuguesas, os palácios e alguns estabelecimentos públicos podem conter obras de mestres portugueses que mereçam ser conhecidas fora do seu país.


Disposições gerais


O sr. Geoffroy está autorizado a fazer-se ajudar em todas as suas pesquisas pelas pessoas que lhe pareçam reunir conhecimentos relativos a qualquer um dos objectivos da sua missão. Mas será necessário que Sua Excelência o Governador Geral [Junot] reconheça e aprove esses assistentes. 
Entenda-se que as pesquisas do sr. Geoffroy só deverão ser feitas nos estabelecimentos públicos. Quando lhe pareça que alguns objectos serão assinaladamente úteis para as colecções da França, o sr. Geoffroy pedirá a Sua Excelência o Senhor Governador Geral para tomar medidas de salvaguarda, através dum sequestro ou de outra forma, para que os objectos permaneçam em segurança até que se estabeleçam as medidas definitivas a tomar. 
Depois de ter visitado cada estabelecimentos público, com o consentimento de Sua Excelência o Senhor Governador Geral, o sr. Geoffroy enviará duas listas de objectos que julgue, segundo estas instruções, que têm um particular interesse para a França. Uma dessas listas será remetida ao Senhor Governador Geral, a fim de ser munida com a sua autorização, e a outra será enviada directamente para nós
As pesquisas do sr. Geoffroy sobre estes diversos pontos não devem passar da recolha de informações.  Em nenhum caso retirará ou enviará estes objectos sem ordem especial de Sua Excelência o Governador Geral.
O senhor Geoffroy terá o cuidado de corresponder-se connosco com a maior frequencia possível, comunicando todos os detalhes necessários sobre os diversos objectivos da sua missão.
Dado em Paris, 9 de Março de 1808.

O Ministro do Interior,
Crétet.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 29-31].


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Notas:


* Mantivemos as referências ao Museu de História Natural de Paris conforme o seu nome original em francês. 

** Este bloco, descoberto em 1782 no Brasil, e recolhido depois no Museu de História Natural da Ajuda, era então o maior exemplar de cobre nativo conhecido no mundo inteiro, e tornara-se famoso no estrangeiro sobretudo devido à publicidade que lhe tinha sido dada numa obra do naturalista alemão Heinrich Friederich Link, que estivera em Portugal entre 1797 e 1799. A referida obra, que teve bastante sucesso na sua época, e que ainda hoje pode considerar-se como uma referência, tinha sido publicada originalmente no ano de 1801, em alemão (Bemerkungen auf einer Reise durch Frankreich, Spanien, und vorzüglich Portugal), aparecendo estampada ainda no mesmo ano em inglês, um ano depois em sueco, e depois em francês. Segundo a tradução portuguesa, publicada mais de dois séculos depois, Link descrevia da seguinte maneira o dito bloco: "Extraordinário é o espécime de cobre puro aqui guardado [i.e., no Real Gabinete de História Natural na Ajuda], encontrado no Brasil, num vale a duas léguas da Cachoeira e a 14 léguas da Baía. Segundo Vandelli, o seu peso chega às 2616 libras, o comprimento máximo é de três pés e duas polegadas, a largura máxima de dois pés e meia polegada, e a espessura máxima de meio pé e quatro polegadas. A superfície é irregular, aqui e ali coberta de malaquite e ocre ferroso, de um lado tinha sido estupidamente polida e tinha gravada uma inscrição. Por aqui os mineralogistas poderão ver como esta peça é única no seu género" [Cf. Heinrich Friedrich Link, Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2005, p. 140]. Note-se que Link baseia parte da sua descrição desta peça de cobre num pequeno apontamento que o próprio director do Museu da Ajuda tinha anteriormente publicado [Cf. Domingos Vandelli, "Varias Observações de Chimica, e Historia Natural", in Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I (desde 1780 até 1788), Lisboa, Typografia da Academia, 1797, pp. 259-261, p. 261]. Porém, deve acrescentar-se que se nesse artigo Vandelli dizia que a peça pesava 2616 arráteis (cerca de 1.200 quilos), noutro manuscrito escreveu que a mesma pesava 2619 arráteis [Cf. "Memoria sobre o cobre virgem ou nativo da Capitania da Bahia, descoberto no anno de 1782", transcrição parcial in Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro - Vol. XXXII (1910), Rio de Janeiro, Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional, 1914, ms. 11. 463, p. 551]. É certo que a diferença é mínima, mas noutro artigo, mais antigo, o mesmo Vandelli referira que o pedaço de cobre pesava 1.666 arráteis, o que, fosse como fosse, já era bastante considerável, "não havendo até agora outro de tão avultado peso em nenhum Museu da Europa" [Cf. "Memoria sobre algumas producções naturaes das Conquistas, as quaes ou saõ pouco conhecidas, ou naõ se aproveitam", in Memorias Economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I, Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias, 1789, pp. 187-206, p. 204]. Devido ao pedestal de mármore onde se embutiu esta peça, é difícil calcular-se actualmente qual seria o seu peso original.
Como mais adiante se verá, apesar do interesse de Geoffroy Saint-Hilaire nesta peça, Domingos Vandelli conseguiu fazer prevalecer as suas instâncias, segundo as quais este era precisamente o objecto mais importante do Museu da Ajuda, evitando assim a sua remoção para a França.
No 2.º Colóquio sobre «Discursos e Práticas Alquímicas» (Lisboa, 2000), esta pedra de cobre deu muito que falar, como se pode confirmar pelos textos publicados nas respectivas actas (Discursos e Práticas Alquímicas - Vol. II, Lisboa, Hugin Editores, 2003), que estão disponíveis online
Ver ainda, sobre este mesmo assunto, o artigo Relatório de uma missão no Brasil - A pedra de cobre nativo da Cachoeirade Maria Estela Guedes; e o artigo O Gaio Método da mesma autora e de Nuno Marques Peiriço; e ainda uma entrevista a Orlins Santana, donde extraímos as seguintes fotografias, da autoria de Ana Luísa Janeira.


A aludida peça de cobre nativo, actualmente disposta no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.


Pormenor da inscrição gravada no próprio cobre.




*** Tratava-se do chamado "magneto chinês", uma poderoso pedra magnética oferecida pelo Imperador da China a D. João V, que foi posteriormente oculto numa armação concebida por um joalheiro e cientista escocês chamado William Dugood (ver as ilustrações abaixo). Deve notar-se que Dugood, que chegou a ser considerado na sua época como o melhor joalheiro da Europa, parece ter aproveitado bem o tempo que passou a fazer a dita armação,  pois chegou a escrever uma dissertação sobre o magnetismo. Curiosamente, na sua passagem por Lisboa, Dugood fundou, em 1727 ou 1728, a primeira loja maçónica portuguesa, intitulada Hereges protestantes (como o nome indica, de tendência protestante) [Cf. Bruce B. Hogg & Diane Clements, Freemasons and The Royal Society - Alphabetical List of Fellows of the Royal Society who were Freemasons, London, 2010, p. 32]. 
Em 1768, o rei D. José I ofereceu esta pedra, juntamente com a sua armação, ao Régio Gabinete de Física Experimental do Colégio dos Nobres, onde leccionava o italiano Giovanni Antonio Dalla Bella, que, como Domenico Vandelli, viera para Portugal a convite do Marquês de Pombal (sendo anteriormente professor de Física Experimental na Universidade de Pádua). Quando pouco depois foram extintos os estudos científicos no Colégio dos Nobres, os objectos do Gabinete de Física Experimental passaram para a Universidade de Coimbra, onde Dalla Bella passou a leccionar, continuando as experiências que há já alguns anos vinha levando a cabo com esta e outras pedras magnéticas. Posteriormente, essas experiências viriam a ser amplamente descritas num estudo intitulado "Memoria sobre a força magnética", apresentado por Dalla Bella à Academia Real das Ciências de Lisboa em 1782 e publicado pela mesma instituição sete anos depois [Cf. Memorias Economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo I, Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias, 1789, pp. 85-199].
Nesse estudo, Dalla Bella descrevia o aludido íman como "uma pedra de forma irregular, cujo volume tenho achado ser de 262 11744055 polegadas cúbicas; o seu peso é de 38 libras e 7 onças e ½; e a sua gravidade específica é 4055. A linha do seu meridiano é de 6 polegadas e 10 linhas; e a do seu equador é 8 polegadas e ½; pela parte inferior, em que estão os seus pólos, é esta pedra cortada e lisa, para poder armar-se como convém; o pólo austral dista do equador 4 polegadas e 7 linhas; e o setentrional 2 polegadas e 3 linhas" [id., p. 88]
Segundo as investigadoras Ermelinda Ramos Antunes e Catarina Pires, parece que algumas das conclusões deste estudo de Dalla Bella antecipam a definição da lei das acções magnéticas, "actualmente atribuída a Coulomb", quando, no entanto, os estudos deste "foram realizados três anos depois. Entre os autores que abordaram este assunto (Giovanni Constanzo, "Fisice italiani in Portogallo", in Relazioni storiche fra l'Italia e il Portogallo, Roma, Reale Accademia d´Italia, 1940-XVIII), destacamos o Professor Mário Silva ("A actividade científica dos primeiros directores do gabinete de Física que a reforma pombalina criou em Coimbra em  1772", in Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol. IX, n. 1, 1940) que, quando nas suas aulas ensinava esta lei, a atribui a dalla Bella. Rómulo de Carvalho ("A Pretensa Descoberta da Lei das Acções Magnéticas por dalla Bella, em 1781, na Universidade de Coimbra", in Revista Filosófica, n. 11, Set. 1954, p. 311) coloca reservas aos resultados obtidos por dalla Bella. A discussão deste assunto está fora da finalidade deste trabalho" [Fonte: Ermelinda Ramos Antunes; Catarina Pires, "O Gabinete de Física da Universidade de Coimbra", in Coleções Científicas Luso-Brasileiras: patrimônio a ser descoberto, Rio de Janeiro, Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2010, pp. 173-174. Ver ainda, sobre esta polémica, o artigo de Ricardo Monteiro, "Dalla Bella e a Lei das Acções Magnéticas", in Gazeta de Física (Volume 24 - fascículo 4), Lisboa, Sociedade Portuguesa de Física,  Outubro/Dezembro de 2001, pp. 4-10; e ainda o artigo de João Silva "Sobre a Polémica acerca da Descoberta em Portugal da Lei das Acções Magnéticas"].
Apesar da relativa importância do chamado "magneto chinês", Geoffroy Saint-Hilaire viria a entreter-se de tal modo com as colecções dos museus de Lisboa e da Ajuda, que não chegaria a deslocar-se a Coimbra, e assim, este objecto não correu o risco de ir parar à França (ao contrário de milhares de outros), podendo ainda hoje ser visto nas valiosas colecções do Museu de Física da Universidade de Coimbra

[Tesouros533.jpg]

Fonte: Blog Pedra Formosa.
Fonte: Carlota Simões, Paulo Gama Mota e Pedro Casaleiro, Museu da Ciência - Universidade de Coimbra (apresentação realizada no VIII Congresso Internacional de Cidades e Entidades do Iluminismo, Vila Real de Santo António, 2011).










**** Tratava-se da então denominada thouyoutouyou ou avestruz da América, hoje conhecida, em português, como ema. Curiosamente, nesse mesmo ano de 1808, já após o regresso de Geoffroy Saint-Hilaire a Paris (depois de ter cumprido com sucesso a missão que lhe foi incumbida nestas instruções, inclusive no que diz respeito ao transporte para a França dum exemplar - ignoramos se vivo ou embalsamado - desta ave), os Anais do Museu de História Natural de Paris publicavam um artigo sobre esta ave, embora o seu autor se tivesse baseado num exemplar observado dois anos antes em Estrasburgo: F-L- Hammer, "Observation sur le Touyou ou Autruche d'Amérique (Struthio americanus. Lin.), faites à Strasbourg en janvier 1806", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome douzième, Paris, Chez Tourneisen fils, 1808, pp. 427-433. A gravura ao lado encontra-se precisamente no artigo citado.