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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro de 1808)





Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Tenho de requerer a Vossa Excelência para dardes ordens expressas ao corpo comandado pelo General Bacelar, destinado a entrar em Lisboa, para não se mover do ponto onde está reunido até que receba ordens do General Hope.
Em qualquer caso, a reserva britânica entrará primeiro em Lisboa, e, caso se torne necessário empregar um número ainda maior de tropas para conter a populaça enquanto os franceses permanecerem na cidade, o reforço deverá ser britânico, pois vejo que poderiam surgir grandes inconvenientes se quaisquer outras tropas fossem empregadas naquele específico serviço.
Tenho a honra de ser o mais obediente e mais humilde servidor de Vossa Excelência.

Hew Dalrymple


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 210 (doc. 116). Existe uma outra transcrição do original inglês, juntamente com a respectiva tradução, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 56 (doc. 97)].

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Tenho a honra de reconhecer o recibo da carta de Vossa Excelência do passado dia 8, e aprovo completamente os movimentos que propondes para as tropas portuguesas destinadas a entrar em Lisboa, depois dos franceses a evacuarem inteiramente.

Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Hew Dalrymple


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 210 (doc. 115). Existe uma outra tradução em português, juntamente com o original inglês, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 55-56 (doc. 96)].

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Depois de haver estado esta manhã com Vossa Excelência, recebi os ofícios da Junta Suprema de Governo [do Porto], e não se fazendo neles menção da marcha de um destacamento deste Exército [português], que deva entrar em Lisboa enquanto os franceses a ocupam, e ao mesmo tempo reflectindo que as tropas do Exército que comando não serão de modo algum próprias para calmar uma comoção popular, porque na alternativa de obrar contra os franceses ou contra os habitantes de Lisboa, seguramente tomariam o partido de seus compatriotas; desejando evitar toda a ocasião de comprometer as minhas tropas, estou decidido a não fazer entrar na capital destacamento algum português enquanto nela existirem tropas franceses; logo porém que os franceses evacuem Lisboa, estará pronto o destacamento que Vossa Excelência me requereu, e que nesse caso poderá servir utilmente para manter a polícia e tranquilidade da capital; e para estar à mão de poder logo entrar para esse fim, oo mando reunir em Bucelas, de donde com aviso do General Hope marchará. Espero da prudência de Vossa Excelência que aprovará esta minha resolução, como a mais própria para evitar os males que mais devemos recear; o que acabo de expor a Vossa Excelência e outras muitas considerações me obrigam a lembrar a Vossa Excelência o que já hoje tive a honra de dizer-lhe, que seria de muitíssima conveniência a pronta saída dos franceses de Lisboa, para qualquer parte aonde embaraços de vexar os povos, ficassem cobertos pelas forças inglesas. Aproveito esta mesma ocasião de remeter Vossa Excelência a carta inclusa da Junta do Governo Supremo.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 49-50 (doc. 93). Este documento foi publicado originalmente em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 114)].

Assento do Conselho Militar do Exército comandado por Bernardim Freire de Andrade (8 de Setembro de 1808)



Tendo o Senhor General Comandante do Exército português feito convocar em Conselho os Oficiais abaixo assinados, a quem comunicou as ordens que hoje recebeu da Junta Suprema do Governo, em data de 5 do corrente, que vão adiante copiadas, e comparando-se neste Conselho as mesmas ordens com os ofícios e procedimentos que já tinha feito o Senhor General, e perguntando-se se o que estava feito era o que se devia fazer a elas mais completamente:
Assentou-se unanimemente que se tinha feito tudo quanto se podia fazer, vistas as instruções que o Senhor General tinha recebido do Governo de obrar de acordo com o Exército inglês, e a resposta que o General deste Exército tinha dado às instâncias que oficial[mente] lhe fizera o Major Aires Pinto de Sousa de sustentar a Capitulação [tantoquanto a sua influência ou poder se pode supor [que] se estenda pelas Leis ordinárias e sabidas da Guerra, o que unanimemente se entendeu por obstar com mão armada às operações que tentássemos em contravenção da mesma Capitulação; não restando outra coisa senão reiterar as instâncias a fim de minorar os males que pode sofrer o povo de Lisboa, acelerando a evacuação da mesma cidade.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire d'Andrada [sic].
D. Miguel Pereira Forjaz.
Nuno Freire d'Andrada.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca.
Filipe de Sousa Canavarro.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 55 (incluído no doc. 95)].

Carta do General Beresford e do Tenente-Coronel Proby ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)



Lisboa, 8 de Setembro de 1808.




Senhor: 


Temos a honra de reconhecer o recibo da carta de Vossa Excelência, acedendo à proposição do General em Chefe francês em relação à disposição da restante prata e ouro, derivada das contribuições sobre o país, e notificamos a Vossa Excelência o consentimento dos Comissários franceses.
Ontem, logo depois de escrevermos a Vossa Excelência, pedimos por carta ao General Kellermann para que se tornasse pública a intenção de restituir toda a propriedade privada, assim como a das livrarias e museus públicos e reais, convidando-o a indicar como se executaria este objectivo com o menor perigo para a tranquilidade da cidade; e segundo a sua resposta, recebida esta manhã, ele pensa que a ordre du jour [sic] é suficiente; contudo, reforçámos novamente que o General [Dalrymple] observou que ambas as partes, e não somente as tropas francesas, devem ser informadas sobre aquilo que diz respeito a ambas. O General em Chefe repetiu as proibições, com as ordens que agora enviamos cópias.
Temos a honra de ser, etc.,


W. C. Beresford, Major-General.
Proby, Tenente-Coronel.

Carta do General Dalrymple ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (8 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 8 de Setembro de 1808.




Senhores: 


De acordo com o relato do Tenente-Coronel Murray sobre aquela parte da Convenção relativa às barras ou lingotes de prata, a oferta do General Kellerman parece justa, e podemos aceder à mesma.
A ordre du jour [sic] do Comandante em Chefe do Exército francês também é satisfatória, caso se torne pública em Lisboa; e deve-se ter em conta que as reclamações são apoiadas por nós, e que os reclamantes estão protegidos do insulto e serão compensados.
O Tenente-General Hope partiu ou está partindo para Lisboa; ele terá plenos poderes para fazer aquilo que seja necessário, seja pela persuasão, seja pela força, para manter a paz pública. 


H. W. Dalrymple


Carta do Tenente-Coronel Murray ao General Wellesley (8 de Setembro de 1808)


Quartel-General, Oeiras, 8 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de vos informar que o oficial que está comandando em Torres Vedras deu ordens para que um destacamento do 45.º Regimento ocupasse Peniche, e que obrigasse a guarnição francesa que evacuasse aquela praça a marchar através de Montachique para Lisboa, a fim de embarcar. Uma companhia do 45.º acompanhará as tropas francesas, e o Tenente-Coronel Gerard foi informado que um destacamento das tropas debaixo do vosso comando irá render tal companhia naquele ponto que possais achar apropriado, antes deles alcançarem Montachique; e ele dar-vos-á o aviso necessário para a sua marcha para esse destino.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais obediente e humilde servidor,

George Murray


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Carta do General Beresford e do Tenente-Coronel Proby ao General Dalrymple (7 de Setembro de 1808)




Lisboa, 7 de Setembro de 1808.




Senhor: 


Temos a honra de declarar que esta manhã tivemos novamente uma audiência de algumas horas com o General Kellermann, sobre os pontos relacionados com a devida execução do tratado, os quais foram por ele acedidos, à excepção daquele sobre a restituição da prata não cunhada em moeda; ele informou-nos ainda que o General em Chefe do Exército francês publicou uma ordem do dia ordenando que qualquer pessoa que tivesse em sua posse pinturas ou outros bens móveis, deveria devolvê-los imediatamente aos seus proprietários; e informou-nos que será devolvida qualquer coisa que ficar retida, se os proprietários o indicarem.
Em relação à prata em barras e não cunhada, tivemos uma longa discussão, algumas vezes acalorada, e o General Kellermann insistiu tenazmente, na maior parte das vezes, que a Convenção garantia-lhes tudo aquilo que estivesse na sua posse antes do primeiro dia de tréguas; e separámos-nos finalmente quando ele declarou da forma mais categórica que os franceses não cederão sobre este ponto. Expusemos-lhe as nossas razões para diferir da sua opinião, fundadas no artigo da Convenção que lhes limita a levar somente bagagens militares e pessoais, e naquilo que foi tratado entre o General Kellermann e o Tenente-Coronel Murray; sobre este último ponto, Kellermann declarou que apesar de ter assentido com a substância daquilo que refere o Tenente-Coronel Murray, não fazia nem podia fazer qualquer referência àquilo que [o exército francês] tinha recebido antes do começo das tréguas. Assim, como não conseguimos que o General Kellermann concordasse com o que nos parecia tão claro e razoável, partimos, não sem lhe declarar que o Comandante em Chefe britânico nunca consentiria com qualquer outra interpretação sobre a Convenção. 
Já escrevi a Vossa Excelência parte do que se passou na nossa entrevista, quando o General Kellermann anunciou que o General Junot consentia que, devido às queixas que fizemos sobre o facto dos depósitos de vários tipos estarem a ser dispostos duma maneira bastante inconsistente com o tratado, estes seriam todos postos no estado que estavam no começo das tréguas, racionando apropriadamente os gastos justos; que se deveria devolver tudo o que pertencia às casas, livrarias e museus reais, e todos aqueles que artigos que se tinham tirado a indivíduos, e que ainda permaneciam no país; e que consentiam em não levar para fora do país as barras da prata proveniente das igrejas, ainda que não reconhecessem qualquer obrigação para fazê-lo, segundo o tratado; que pagariam as dívidas do exército com tal prata, o que sempre tinha sido expressamente o seu planeado fim; e que, se depois de pagarem as suas dívidas restasse alguma prata, esta seria devolvida. Respondemos que como isto não era propriamente o que tínhamos sido instruídos a requerer, não poderíamos dar qualquer resposta, mas iríamos transmitir a proposta a Vossa Excelência, o que temos agora a honra de fazer; e o General Kellermann, declarou que se a isto não se acedesse, ele próprio dirigir-se-ia, amanhã de manhã, ao Quartel-General de Vossa Excelência. Devemos reconhecer que pareceu-nos que, segundo a Convenção, mal podemos pedir mais; porém, submetemos isto a Vossa Excelência, requerendo ordens sobre o assunto.
Temos a honra de ser os mais obedientes e humildes servidores de Vossa Excelência,


W. C. Beresford, Major-General.
Proby, Tenente-Coronel.


Ordem do dia do Exército francês em Portugal (7 de Setembro de 1808)



Ordem geral do Exército, n.º 67




No Quartel-General em Lisboa, 7 de Setembro de 1808.



O Senhor Duque de Abrantes recomenda de novo a execução estrita da ordem geral do Exército do dia 6 deste mês, n.º 66
Consequentemente, ele ordena aos Senhores Oficiais superiores para observarem que não se embarque nada que provenha de qualquer Casa Real e que seja alheio às bagagens do corpo.
Sua Excelência avisa o Exército que aquele que infrinja a presente ordem será destituído provisoriamente por ter violado os artigos do Tratado de evacuação e prestará contas a Sua Majestade o Imperador.
Esta ordem será lida duas vezes pelo chefe das Companhias.


O General em Chefe do Estado-Maior-General,
Thiébault


Lista dos nomes dos indivíduos não combatentes do Exército francês aprisionados em Portugal (c. 7 de Setembro de 1808)



Carta do General Kellermann ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (7 de Setembro de 1808)




Lisboa, 7 de Setembro de 1808.



Senhores: 


Tenho a honra de remeter-vos a relação nominativa dos franceses não combatentes que fazem parte do Exército francês em Portugal, os quais, segundo os termos dos artigos adicionais à Convenção de 30 de Agosto, devem ser restituídos sem troca. Convido-vos a dar as ordens para que eles sejam postos em liberdade.
Tenho a honra de vos saudar, etc., 


O General de divisão,
Kellermann, Comissário, etc.


Carta do General Murray ao General do Exército Português (7 de Setembro de 1808)





No campo em S. Marcos [a sul do Cacém], 7 de Setembro de 1808.




Acabo de receber a carta para o sr. [D. Domingos António] de Sousa [Coutinho]*, e Vossa Excelência pode contar que ela será enviada pelo primeiro correio que se destinará à Inglaterra; dou-vos mil graças, meu General, pela confiança por me haverdes informado do seu conteúdo.
O Oficial a quem haveis tido a bondade de emprestar um cavalo acaba de me escrever que o enviou de volta ontem de manhã, que apenas o tinha retido porque não tinha ninguém para confiá-lo, e esperava que os dois Exércitos [português e britânico] se juntassem; acrescenta que a sela rompeu-se na primeira vez que a montou, e que queria repará-la antes do seu regresso; ele tem vergonha de o ter retido tanto tempo e pede mil desculpas, e espera que estas razões serão suficientes para que Vossa Excelência o desculpe. 
Deu-me bastante prazer saber que Vossa Excelência recebeu explicações do General Dalrymple sobre o Tratado, as quais vos tranquilizaram.
Vossa Excelência pode convencer-se que as intenções do General eram boas, e ademais sei que as ordens do nosso Governo são as mais positivas ao considerar como seu primeiro objecto a honra e os interesses do Príncipe e de Portugal. Aqui entre nós, estou convencido que a vontade que o General tinha de que o nosso Exército estivesse livre para agir noutro lugar foi um dos motivos mais poderosos que o levaram a apressar a conclusão do Tratado.
Provavelmente, meu General, tereis a resposta do vosso ofício de ontem durante o dia de hoje.
Como os corpos debaixo das minhas ordens estão actualmente [dispostos] em linha, fui encarregado de vos agradecer e devolver ao vosso Quartel-General os Dragões que estão comigo. Reenvio quatro, mas se Vossa Excelência o permitir, reterei ainda seis durante alguns dias, a fim de vos enviar as cartas destinadas a Vossa Excelência que me possam ser remetidas.
Disseram-me que os franceses pediram transportes para 27.000 pessoas. Não serve de nada iludir-nos, e parece que a sua força é muito maior do que pensávamos. 
Tenho a honra de ser, com a maior consideração, o criado mais humilde e obrigado de Vossa Excelência,

Murray


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 47-48 (doc. 90)].

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Nota:

* Apesar da aludida carta não se encontrar publicada (ao que nos conste), julgamos que a mesma deveria incluir o protesto que Bernardim Freire de Andrade escreveu contra a Convenção depois chamada de Sintra e/ou a memória do mesmo general sobre o mesmo assunto.

Carta do General Dalrymple ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (7 de Setembro de 1808)



Quartel-General, Oeiras, 7 de Setembro de 1808.


Senhores:



Depois de reconhecer [o recibo das] vossas cartas de ontem*, e de declarar a obrigação que sinto que deveis ter em relação ao modo próprio e firme com que estais executando a vossa importante missão, resta-me responder à proposta do General Kellermann, sobre as cópias extraídas do Museu, que devem ser decididas pela negativa. Não sendo meus esses tais artigos para deixá-los à disposição, não consentirei que sejam removidos.


Hew Dalrymple,
Tenente-General.


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 191 (doc. 78)].


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Nota:


Foram duas as cartas remetidas por Proby e Beresford a Dalrymple no dia anterior: veja-se a primeira e a segunda carta.

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (7 de Setembro de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Já Vossa Excelência terá recebido a resposta da Junta do Governo Supremo ao seu ofício de dois do corrente, assim como a que lhe enviei respeitante ao outro ofício precedente de Vossa Excelência; respondendo agora ao que Vossa Excelência me dirigiu em data de 4 deste mês, com a cópia da carta do General Dalrymple, dos Artigos da Capitulação convencionada entre o mesmo General e o do Exército francês, e [das] protestações feitas por Vossa Excelência contra os ditos artigos na parte em que são ofensivos aos Direitos do Príncipe Regente Nosso Senhor e aos Interesses da Nação, tenho para dizer a Vossa Excelência que sendo tudo proposto por mim na Junta do Governo Supremo, e nela maduramente ponderado, se assentou que Vossa Excelência tinha obrado com muito acerto a respeito das referidas protestações, as quais portanto a mesma Junta aprovou [e] ratificou, tomando o expediente de as dirigir ao Ministro Plenipotenciário do mesmo Senhor na Corte de Londres*, para requerer com elas ante Sua Majestade Britânica o que for conveniente ao serviço do mesmo Senhor. Sobre o mais que Vossa Excelência refere na sua carta, pareceu à mesma Junta conveniente que Vossa Excelência em conferência com o General inglês procure logo ajustar-se com ele a respeito da parte que Vossa Excelência deve ter na entrada e ocupação de Lisboa, como também sobre a posição e comportamento tanto do Exército do seu comando, como de todas as mais tropas portuguesas que se acham empregadas em qualquer parte deste Reino, e principalmente dos que estão no bloqueio de Almeida; e que acomodando-se ao que convencionar com ele, assim o faça observar pelas tropas do seu comando, e expressa na mesma conformidade os ofícios necessários aos Governadores da Beira, Alentejo, Reino do Algarve, dirigindo-lhes juntamente as ordens da Junta do Governo Supremo que com esta [carta] se remetem a Vossa Excelência, para os ditos Generais haverem de cumprir os ditos ofícios. Também previno a Vossa Excelência que na madrugada do dia de amanhã parte desta cidade um Deputado da Junta Suprema munido dos poderes e instruções necessárias para conferenciar com o dito General inglês sobre os negócios da maior importância para o serviço do Príncipe Regente Nosso Senhor e [para o] sossego público, e particularmente acerca do restabelecimento do Governo; ao qual Deputado sendo preciso Vossa Excelência prestará os auxílios que por ele lhe forem requeridos. Ultimamente, recomendo a Vossa Excelência que a respeito da Capitulação e [do] procedimento dos ingleses, faça toda a diligência por mostrar a maior satisfação, e influir esta mesma em todo o Exército do seu comando.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Porto, 7 de Setembro de 1808.


Bispo Presidente Governador


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 46-47 (doc. 88)].


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Nota: 

* Não nos consta que esteja publicado o aludido ofício dirigido a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres, a não ser que se trate da própria resolução pronunciada pela Junta do Porto no mesmo dia 7 de Setembro.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (6 de Setembro de 1808)




Quartel-General de Mafra, 6 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Ontem, pelas 10 horas da noite, recebi a carta de Vossa Excelência do 1.º do corrente, em que Vossa Excelência se faz cargo de haver recebido as minhas participações acerca do Armistício estipulado em 22 [de Agosto], e é esta a primeira carta que de Vossa Excelência ou do Governo tenho recebido há 20 dias, quando parece que os negócios mais instam, e que eu mesmo insto por instruções e respostas aos meus repetidos ofícios; vendo-me portanto em circunstâncias de obrar por meu arbítrio, o que poderá convir a quem não se quer comprometer, mas que a mim não me convém. Aqui me chegou a notícia de que se vai formar uma Legião ao serviço ou disposição de Inglaterra; declaro a Vossa Excelência que enquanto não se tratar da organização definitiva do Exército, não convém levantar novos corpos, e muito menos dispor dos indivíduos que se acham debaixo do meu comando, como talvez se intentava.
Vossa Excelência se servirá de dizer-me se lhe parece conveniente que eu mande licenciar os Corpos de Milícias de Moncorvo e Porto, que aqui se achavam servindo, e que não serão necessários para as guarnições das praças e de Lisboa, e do mesmo modo as que estão no Exército de Bacelar, o qual deve entrar comigo em Lisboa, porquanto estas Milícias estão aqui fazendo peso e despesa, e falta nas suas províncias. Consta por aqui que nas províncias do norte se tem procedido a um grande recrutamento, medida que me faz muita novidade, pois que deve ser necessitada por alguma causa urgente, e se eu tivesse sido informado dessa resolução, não teria certamente deixado de aceitar os oficiais e soldados dos antigos Regimentos que aqui se têm vindo reunir, o que tenho recusado até à organização definitiva do Exército. 
Pelo que pertence às ordenanças que requer o Coronel Pizarro, como tenho 140 cavalos reunidos ao Exército inglês, lhe mandarei ordem para que os tire daquele corpo. O General Dalrymple me pede [através do Major Aires Pinto de Sousaneste momento de remeter a inclusa com a maior brevidade, e portanto rogo a Vossa Excelência [para que] queira ordenar que ela seja prontamente entregue à sua direcção. Tenho muita razão de persuadir-me que os ingleses desejam neste momento quanto sempre desejaram, que a maior harmonia se conserve entre nós; depois de ter feito as protestações que me pareceram do meu dever, não procuro outra coisa tanto como promover e fomentar a melhor inteligência, quanto de mim depender. 
Estou certo que Vossa Excelência será da mesma opinião, persuadido sem dúvida de que o nosso mais fatal, mais funesto e mais iminente perigo, e para a causa pública, será se entre nós ou a respeito dos nossos aliados houver dissensões de que se possam aproveitar os nossos cruéis inimigos, cujos fautores e sequazes me cercam talvez, e procuram cercar todas as autoridades, e mesmo a sagrada pessoa de Vossa Excelência, de quem sou de Vossa Excelência, etc.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 45-46 (doc. 86)].

Ordem do dia do Exército francês em Portugal (6 de Setembro de 1808)




Ordem geral do Exército, n.º 66




No Quartel-General em Lisboa, 6 de Setembro de 1808.



Em execução do artigo 15.º da Convenção definitiva, o General em Chefe ordena a todos os indivíduos que fazem parte do Exército ou da Administração francesa que tenham subtraído quaisquer efeitos pertencentes aos estabelecimentos públicos ou particulares para os restituírem no prazo de 24 horas, sejam os bens móveis ou da classe das artes.

O General Thiébault


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico (5 de Setembro de 1808)




Zambujal, 12 léguas a norte de Lisboa, 5 de Setembro de 1808.


Meu caro Senhor:

O vosso irmão Charles transmitiu-me a vossa carta de 20 de Agosto a Sir Hew Dalrymple, a qual o próprio Sir Hew comunicou-me diferentes partes ontem, e passo a dar-vos a minha opinião sobre os pontos que a mesma refere. Devo declarar-vos, contudo, que as informações que dispomos aqui sobre o estado das circunstâncias na Espanha são muito imperfeitas; que nós, ou pelo menos eu, desconhecemos quais são as posições, números, meios, ou quais são os objectivos do exército francês na Espanha; e ignoro igualmente qual é o estado da força dos espanhóis.
Assim, creio que o exército francês na Espanha consiste actualmente em cerca de 40.000 homens, em cujo número se incluem 5.000 de cavalaria, que são comandados pelo Marechal Bessières, e estão estacionados algures à volta de Vitória, na Biscaia. A probabilidade deles serem reforçados deve depender do estado das circunstâncias nas outras partes da Europa, das quais não tenho qualquer tipo de conhecimento; mas se a atenção do Governo francês não for distraída para outras partes, devemos esperar que o exército francês na Espanha será elevado em breve a um número muito grande.
A quantidade da força com a qual se podem levar a cabo as operações na Espanha é uma outra consideração muito material que pesa sobre toda a questão; e a partir das informações do estado dos recursos no país, duvido que seja praticável executar operações na Espanha com um corpo maior do que 40.000 homens. Pode haver outro corpo de reserva, empregado em operações na mesma ou noutras linhas, protegendo transportes para a França, etc., etc.; mas não é provável que o corpo na fronte exceda os 40.000 homens. Deveis considerar isto, no entanto, como uma mera opinião, fundada em informações gerais do estado dos recursos na Espanha, sobre as quais posso estar enganado.
O seguinte ponto para consideração diz respeito à força dos espanhóis: desconheço se têm um exército formal, capaz de se enfrentar aos franceses, para além daquele que é comandado pelo General Castaños. O General Cuesta tem alguma cavalaria em Castela; o General Galluzo tem alguma mais na Extremadura; e o exército de Blake na Galiza pode tornar-se num corpo eficiente a tempo. Mas aqueles exércitos de paisanos que cortaram os franceses em Múrcia, em Valencia e na Catalunha não podem ser considerados como exércitos eficientes para se enfrentarem às tropas francesas num campo de batalha. É muito provável que eles não irão nem de facto poderão deixar as suas províncias, e, mesmo que o possam, nenhum oficial poderá planear uma grande operação com aqueles corpos.
Não duvido que, se se puder fazer um relatório preciso sobre o seu estado, eles quererão armas, munições, dinheiro, vestuário e equipamentos militares de qualquer tipo; e embora tais corpos sejam muito formidáveis e eficientes nas suas próprias regiões, e provavelmente iguais nas suas defesas, não se deve contar com eles fora das suas mesmas regiões; e em qualquer caso é impossível calcular o efeito dos seus esforços. Em alguns casos, [os espanhóis] enfrentar-se-ão com sucesso contra um número idêntico de tropas francesas; noutros, 1.000 franceses com cavalaria e artilharia dispersarão milhares deles, e assim sendo, não podemos ter qualquer confiança neles no seu actual estado.
Assim, o resultado das informações que disponho sobre o presente estado da força espanhola oposta aos franceses é que estão actualmente prontos cerca de 25.000 homens comandados por Castaños, e mais ou menos o mesmo número comandado por Blake na Galiza, os quais podeis contar como tropas eficientes. Todo o resto pode tornar-se também eficiente, e tornar-se útil em diferentes modos até mesmo no momento presente, mas não deveis fundar os ajustes duma grande operação militar sobre a sua utilidade ou eficiência. Estou informado que o Governo [britânico] prometeu 10.000 homens a Castaños, e não tenho qualquer tipo de dúvida que um corpo bem equipado, consistindo em cerca de 15.000 homens, incluindo a devida proporção de cavalaria e artilharia britânica, ser-lhe-á altamente útil. Esta medida elevaria o seu exército a 40.000 homens, dos quais o corpo britânico seria a melhor tropa que ele pode encontrar em qualquer sítio; e este exército, auxiliado pela insurreição noutros reinos da Espanha, seria o exército de operações que agiria contra o que suponho que seja o exército de operações francês. Este corpo britânico avançaria a partir de Portugal, em cujo reino estaria entretanto empregado na defesa.
Deveis deixar em Portugal um corpo britânico de 5.000 homens, para ficar estacionado em Lisboa e nos seus arredores, talvez com uma pequena guarnição em Elvas. O objectivo de estacionar este corpo em Portugal é dar força ao governo que estabelecereis aqui, e para torná-lo independente das facções e intrigas que o criticarão por todos os lados.
Deveis enviar para Lisboa, na qualidade de Embaixador do Rei, uma pessoa discreta que supervisione a administração dos negócios deste país, particularmente a expedição do dinheiro que deveis suprir para as suas necessidades, e a sua aplicação para os fins para os quais foi cedido, a saber, providenciar uma defesa militar.
A próxima consideração é o emprego da restante parte do exército actualmente em Portugal, estimado em cerca de 10.000 [sic] homens, com um corpo adicional de 10.000 homens reunidos e prontos na Inglaterra, e alguma cavalaria. Reconheço que não penso que o estado dos acontecimentos na Espanha sejam tão prósperos para que possais crer que toda a força que a Inglaterra possui possa agir dentro daquele reino, sem que sejam adoptadas medidas de precaução, que assegurem a sua retirada para a costa. Para além disto, não vos ocultarei que os nossos homens têm tão pouca experiência de campo, que não conheço pessoa alguma que seja capazes de o suprir, ou que, mesmo que o consiga, que consiga distribuir os suprimentos a um exército de 40.000 homens (tropas britânicas) agindo juntos como um todo. Mesmo que se possa esperar que haverá abundância de suprimentos, morreremos de fome no meio das operações, por falta das devidas disposições. Porém, a primeira objecção é conclusiva. Devemos depender dela, pois sempre que reunamos um exército, os franceses considerarão a sua derrota e destruição como o seu primeiro objectivo, em particular se o próprio Bonaparte estiver à frente das tropas francesas; e se as operações do nosso exército chegarem perto da fronteira francesa, ele terá meios de se multiplicar, e multiplicará tanto os seus números sobre os do nosso exército, que poderá conseguir tirar o melhor proveito deles. Assim, no que diz respeito ao exército britânico, devemos ter uma retirada aberta, e a retirada deve ser por mar.
As nossas operações levadas a cabo a partir de Portugal e sobre o norte da Espanha envolver-nos-iam, como de facto observais, numa linha de operações demasiado longa. A retirada seria difícil, se não mesmo impossível. Esta objecção, direis vós, aplica-se igualmente ao corpo de 15.000 homens que se propõe ser empregue com Castaños. Em primeiro lugar, concebo que há uma grande diferença entre o risco da perda de um corpo como este, e o da perda de toda a força disponível da Grã-Bretanha. Em segundo lugar, daqui não se segue que, ainda que todo o exército britânico não consiga retirar-se para Portugal, um corpo de 15.000 não o conseguiria. Em terceiro lugar, não se segue que este corpo de 15.000 homens teria necessariamente que retirar-se por Portugal; ao ser uma parte do exército de Castaños, poder-se-ia retirar com as suas tropas para a Andaluzia, deixando a defesa das fronteiras de Portugal aos portugueses e ao corpo britânico de 5.000 homens, até que aqueles, ou uma parte deles, pudesse atravessar novamente o Tejo, ou pudesse entrar em Portugal pelo Algarve. Concluo assim que, apesar de se poder arriscar este corpo, podendo considerar-se a sua retirada para o mar de algum modo fundada no ar, toda a força disponível da Grã-Bretanha deve ser e tem de ser salvaguarda.
O único plano eficiente de operações em que as tropas britânicas podem ser empregues, de acordo com estas observações, é sobre o flanco e retaguarda dos postos avançados do inimigo à frente de Madrid, através das Astúrias. Se é verdade, como declararam os deputados das Astúrias em Londres, que a sua região é notavelmente forte, e que está protegida da invasão francesa; se é verdade que os portos de Santander e Gijón, em particular o primeiro, são portos seguros no Inverno; e se os seus muros podem permitir meios de embarque num, ou em ambos, mesmo se o inimigo for capaz de passar através das montanhas, as Astúrias são a região que devemos segurar imediatamente, na qual devemos reunir as nossas forças disponíveis assim que for possível, passando depois para as planícies, tanto por Leão como pela passagem de Reinosa. O exército pode então ter uma comunicação limitada e talvez problemática com o mar, que tem de ser efectuada através de mulas, que abundam na região; este exército cooperaria com o exército da Galiza comandado por Blake, e poderia pressionar o flanco direito e a retaguarda do inimigo, forçando a sua posição sobre o Ebro, onde evidentemente tenciona dispor a sua primeira linha. Deveis ter em consideração que segurar as Astúrias o mais rápido possível é o vosso primeiro objectivo na Espanha, seguindo-se a reunião, dentro daquela região, da totalidade da vossa força disponível, depois da marcha do destacamento para Castaños.
Existem alguns detalhes que devem ser observados nestas disposições. O exército que está actualmente neste país pode marchar para Leão ou embarcar e passar a Gijón ou a Santader. Esta última seria a operação mais rápida; se for adoptada a primeira, a sua artilharia, na sua forma presente, pode acompanhá-lo; mas deve ser lembrado que se a artilharia se mantiver na sua forma presente, em caso de retirada terá que ser deixada para trás, nas planícies; pois estou informado que não existem estradas para carros nas montanhas das Astúrias.
Assim, as tropas que actualmente se encontram neste país devem ser embarcadas no Tejo e enviadas para as Astúrias; e que da Inglaterra devem enviar-se carros de transporte de artilharia e munições sem perda de tempo, o que pode ser feito por peças, que podem ser transportadas à mão, e depois postas juntas para poderem ser levadas pelos cavalos. As notícias transmitidas pelos oficiais enviados àquelas regiões, referirão se a cavalaria pode passá-los; acho que podem, pois penso que um cavalo também pode ir onde vai uma mula. Se sim, a cavalaria vinda da Inglaterra deve igualmente ser desembarcada nas Astúrias; em caso negativo, a cavalaria deve ser desembarcada na Coruña ou no Ferrol, e juntar-se ao exército nas planícies, através das passagens da Galiza, que sabemos que são praticáveis pela cavalaria.
Resta considerar agora unicamente as operações do corpo da Sicília, que consiste em 10.000 homens. No presente estado das circunstâncias, o Governo talvez não deveria considerar conveniente a remoção deste corpo do Mediterrâneo; se os espanhóis conseguirem alguma proeza contra os franceses sobre a esquerda da sua linha na Catalunha, e sobre o baixo Ebro, este corpo poderá reforçar aquela parte da insurreição espanhola, mantendo sempre a sua retirada aberta para o mar. Isto, contudo, será muito difícil, dado que os franceses estão em posse de Barcelona; e o cerco desta praça, auxiliado pelos insurgentes da Catalunha, será provavelmente o máximo que este corpo poderá executar. E caso tal operação seja repelida com sucesso, ou caso se veja forçado a reembarcar em consequência da aproximação de uma força maior dos franceses, o mesmo corpo passaria a auxiliar materialmente as operações das tropas no centro da Espanha.
O resultado de todas estas operações, que actualmente deve ser distinto, confinaria os franceses à sua linha do Ebro no momento presente, obrigando-o eventualmente a retirar-se para a sua própria fronteira. Será ganho algum tempo para a posterior organização do Governo e das forças espanholas, cujo emprego judicioso e efectivo permitirá ao Governo britânico retirar as suas forças da Espanha, a fim de empregá-las noutras partes da Europa. Está fora de questão impedir-se a retirada dos franceses da Espanha. Eles detêm a posse de todas as fortalezas deste lado dos Pirenéus, através de cujas montanhas não há mais do que quarenta passagens pelas quais as tropas podem marchar. Para além disto, mesmo que nestas circunstâncias fosse possível colocar um exército na sua retaguarda, com o objectivo de cortar a sua retirada para a França, deveis ter em conta que toda a França levantar-se-ia como um homem em seu socorro, e que o resultado seria a perda do exército que assim seria empregado.
Em relação à vossa vontade de que devo partir para as Astúrias para examinar a região e formar uma ideia sobre a sua força, tenho que vos mencionar que não sou um desenhador, antes sou muito mau em descrições. Não deveria ter dificuldades em formar uma opinião e em planear a defesa daquela região, se estivesse seguro que tal seria executado. Mas será uma inútil perda do meu tempo, e uma imposição da vossa parte, se parto para aquela região com o pretexto de dar a vós ou a qualquer outro oficial general que ali empregueis uma ideia da região; e seria vão e infrutífero formar um plano para a defesa da região que dependerá da execução doutro. Na verdade, este último apenas me trairia desgraça, e desapontar-vos-ia.
Perante estas circunstâncias, disse a Sir Hew Dalrymple que ele não era capaz de executar o dever que vós haveis desejado que eu cumprisse; que eu não era um engenheiro topográfico, e que não tencionava descrever por escrito uma região como as Astúrias; e aparentemente ele pensou que alguns cavalheiros do departamento do Quartel-Mestre-General poderiam ser empregues mais utilmente neste serviço. Espero que não creiais que sinto alguma aversão a executar qualquer serviço em que possais pensar que vos posso ser mais útil; e que desencorajei a ideia de ser empregado naquilo que me foi proposto unicamente devido à minha incapacidade de executá-la como deve ser, e da certeza que não estaríeis consciente da natureza do serviço que me haveis requerido quando escrevestes a Sir Hew Dalrymple. 
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

O ofício que acabo de receber de Vossa Excelência, com os papéis que o acompanham, tem sido para mim do maior cuidado; ainda não deve dar muito um negócio de tanta gravidade quando chega ao ponto de se não poder remediar. Eu logo o fui conferir na Junta, e desta conferência resultou o assento que se tomou, e que vai dirigido a Vossa Excelência; e nas actuais circunstâncias, que mais pode Vossa Excelência fazer, nem a Junta? Nem nós podemos exigir mais de Vossa Excelência, nem Vossa Excelência de nós. Não podia ser novo para Vossa Excelência que havendo Exércitos combinados, sempre há desunião e desordem. Queira Vossa Excelência, digo, Nosso Senhor, livrar-nos dos franceses; tudo o mais a que não pudermos acudir e a que não cheguem as nossas forças, Nosso Senhor, de quem a causa é, proverá.
As perguntas de Vossa Excelência vão satisfeitas no modo possível na conjuntura presente, e Vossa Excelência não aumente aos seus actuais trabalhos considerações que o aflijam, e que nada remedeiam.
A inclusa ficou ontem de fora quando se fixou a carta, mas eu na minha quase que dizia o mesmo.
Nosso Senhor assista e dirija a Vossa Excelência em circunstâncias tão atadas, e guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 5 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência amigo muito venerador e obsequioso,

Bispo Presidente e Governador.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 36-37 (doc. 78)].

Carta da Junta do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)




Sendo visto nesta Junta do Governo Supremo o ofício do Marechal de Campo Bernardim Freire de Andrade em data de dois do corrente, com os mais papéis a que nele se refere, e o ofício do General inglês Dalrymple em data de 31 de Agosto, tomou a mesma Junta acerca do conteúdo neles a deliberação constante do assento de que se lhe remete a cópia inclusa. E quanto aos artigos constantes do ofício do mesmo General Bernardim Freire de Andrade, resolveu responder na forma seguinte:

1.º Se o General inglês não responder às explicações que se lhe pedem, que deveremos nós fazer? 
Deverá conformar-se com o espírito do assento incluso.

2.º Se o General inglês (o que não é natural) se prestar a não embaraçar as nossas operações separadas, se com efeito as devemos empreender?
Não havendo embaraço por parte do General inglês, e feita a necessária e prudente combinação entre as nossas forças e as do inimigo, seria muito decoroso à Nação empreender a destruição dele.

3.º Se o General inglês quiser (como é natural) sustentar a capitulação e opor-se às nossas operações, que devemos nós fazer?
Usar da moderação que exige uma força armada a que não podemos resistir.

4.º Se os corpos do Alentejo continuarem a obrar apesar da Capitulação, se devemos nós em todo o caso obrar com eles? 
Neste caso se resolve que dirija em continente uma requisição ao General inglês para que faça logo reprimir os franceses e que não o fazendo assim tome a deliberação de partir logo a defender e auxiliar os seus nacionais, e o faça com todas as forças que puder unir.

A mesma Junta, não podendo em tão grande distância e incerteza resolver as dúvidas ocorrentes em casos de conflito e que não admitem demora, autoriza o mesmo General Bernardim Freire para convocar Conselho Militar e proceder segundo as deliberações do mesmo Conselho, conformando-se sempre com as intenções desta Junta constantes do assento incluso.

Porto, 5 de Setembro de 1808.

Bispo Presidente e Governador.
Manuel Lopes Loureiro.
António da Silva Pinto.
José de Mello Freire.
José Dias de Oliveira.
Luís de Sequeira da Gama Ayala.
António Mateus de Andrada Coutinho.
Francisco Osório da Fonseca.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 37-38 (doc. 79)].