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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Wellesley (9 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Há dois dias atrás, chegou um oficial espanhol com ofícios da Corunha dirigidos a Sir Harry Burrard. Porém, tais ofícios eram quase da mesma data daqueles que me haveis dado depois da minha chegada, e incluíam uma cópia da mesma carta do Tenente-Coronel Doyle. Ainda assim, diz agora o senhor Stuart (facto que eu ignorava antes) que o General Castaños estava a marchar para Madrid, segundo as ordens dum Conselho de oficiais estabelecido em Sevilha. Também fui informado, através dum oficial que esteve em Cádis há não muito tempo, que, pouco depois da batalha de Bailén, voltara a eclodir a disputa pela primazia, ou, pelo menos, pela independência, que tinha sido levantada logo muito cedo pela Junta de Granada*, e que, consequentemente, o exército de Granada separara-se do General Castaños, e não temos mais informações sobre os seus movimentos. Esse exército é comandado pelo General Reding, e certamente combateu e derrotou Dupont na batalha acima mencionada. Os exércitos destas províncias, assim reivindicados pelas [respectivas] Juntas, tinham comandos distintos durante a monarquia, e em muitos dos casos, senão na maioria, são sustentados por pessoas nomeadas pelo Rei.
As derrotas dos franceses em Valencia, Córdoba, etc., e a concentração da sua força em Burgos, proporcionaram uma razão, senão uma necessidade absoluta, para aqueles exércitos [espanhóis] marcharem para um ponto. Se aqueles exércitos se tivessem reunido, e se os seus generais comandantes estivessem unidos, o resultado poderia ter sido o estabelecimento de um governo central pelo poder ou influência desses oficiais, e a diminuição natural e gradual e extinção final dos governos revolucionários chamados de Juntas, que governam somente segundo as opiniões populares, e talvez influenciadas pela Igreja, o que é praticamente a mesma coisa.
Infelizmente, parece que os exércitos que já se juntaram (os de Blake e Cuesta) não estão unidos, e a autoridade da Grã-Bretanha, que creio (ou pelo menos espero) que tem uma influência predominante neste momento em todas as partes da Espanha, é administrada pelo Tenente-Coronel Doyle, que parece esforçar-se apenas para recrutar cavalaria para Blake, cujo partido ademais penso que adoptou, apesar de Blake ser certamente um oficial muito mais novo que Cuesta, e que comanda a província da Galiza apenas desde que a Junta foi estabelecida.
Perante todas estas circunstâncias, sinto-me muito disposto a enviar para Madrid um oficial com uma elevada graduação militar e conexões familiares, e que, ademais, se destaque tanto como estadista como enquanto militar, para que perceba claramente o sentido destas pequenas intrigas, que num momento como este são difíceis perceber; mas principalmente para sustentar uma linguagem que possa conduzir estas pessoas à sensatez. Eu próprio já experiencei que uma linguagem firme, ainda que feita por um oficial britânico em seu próprio nome, produziu os seus efeitos; e ainda que tal tenha ocorrido numa fase inicial**, e que agora não me possa valer das minhas opiniões individuais, ainda assim sinto-me confiante que, devido aos receios do povo, esse sentimento mantém-se, e seria estimulado, no local, pelo tipo de oficial que agora descrevi. Estando a descrição dada, escuso acrescentar que é a vós que tenho em vista. Se verdes esta matéria sob a luz com que a vejo, penso que percebereis a  importância do objecto, e que dedicareis uma parte do tempo em que devemos continuar aqui inactivos a uma missão tão importante, que poderá resultar na formação de um projecto sobre as nossas operações futuras com generais sobre os quais, segundo penso, ireis exercer aquela influência que, estou contente por confessar, penso que os missionários débeis enviados ao presente na Espanha estão bem prestes a perder, tanto sobre a sua nação como sobre eles próprios.
Não posso gostar da aparição do Duque del Infantado neste momento bastante crítico. O seu carácter manteve-se de pé, mas ele conduziu o seu Soberano [Fernando VII] a Bayonne, e agora regressa. Parece que o Tenente-Coronel Doyle tomou o Duque debaixo da sua protecção.
Se o exército da Extremadura decidir ser útil, deve marchar agora, pois a guerra de Portugal chegou ao fim. Creio que o General Galluzo tem 15.000 homens.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais humilde e obediente servidor,


H. W. Dalrymple


[Fonte: Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 133-134].


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Notas:


* Para percebermos a disputa a que alude Dalrymple, transcrevemos o seguinte trecho da memória que o mesmo escreveu sobre a sua conduta durante este período (a qual foi publicada postumamente):
"Ainda que nos últimos dias de Maio tinham sido formadas Juntas de Governo, semelhantes à de Sevilha, em todos os sítios que não estavam debaixo do poder dos franceses, parece que nesta época as mesmas o desconheciam, pois quando o General Castaños escreveu-me a anunciar a formação do novo governo, usou a seguinte expressão: "Na cidade de Sevilha foi erigida uma Junta Suprema de Governo dos quatro reinos da Andaluzia". Pouco depois, no entanto, o General percebeu que cada um dos quatro reinos da Andaluzia - a saber, Sevilha, Granada, Jaén e Córdova - tinha uma Junta própria; e que a Junta de Granada estava tão longe de reconhecer a supremacia da de Sevilha, que somente permitiu que as suas tropas se reunissem com as de Sevilha, a fim de agirem debaixo do comando do General Castaños contra os franceses comandados por Dupont, depois dum tratado formal negociado e ratificado pela autoridade das respectivas Juntas, no qual a independência de Granada foi afirmada e reconhecida" [Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 25].


** Dalrymple refere-se à correspondência extra-oficial que, ainda enquanto Governador de Gibraltar, trocara com o General Castaños, antes do estabelecimento das Juntas de Governo espanholas. 

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro de 1808)





Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Tenho de requerer a Vossa Excelência para dardes ordens expressas ao corpo comandado pelo General Bacelar, destinado a entrar em Lisboa, para não se mover do ponto onde está reunido até que receba ordens do General Hope.
Em qualquer caso, a reserva britânica entrará primeiro em Lisboa, e, caso se torne necessário empregar um número ainda maior de tropas para conter a populaça enquanto os franceses permanecerem na cidade, o reforço deverá ser britânico, pois vejo que poderiam surgir grandes inconvenientes se quaisquer outras tropas fossem empregadas naquele específico serviço.
Tenho a honra de ser o mais obediente e mais humilde servidor de Vossa Excelência.

Hew Dalrymple


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 210 (doc. 116). Existe uma outra transcrição do original inglês, juntamente com a respectiva tradução, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 56 (doc. 97)].

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro de 1808)



As cartas que Vossa Excelência me dirigiu em data de seis do corrente foram vistas na Junta do Governo Supremo com muita satisfação, pelas notícias agradáveis que se contêm nelas. A mesma Junta aprova a lembrança que Vossa Excelência teve de licenciar os Corpos de Milícias de Moncorvo e desta cidade, e lhe recomendo de o fazer logo, e ainda de praticar o mesmo a respeito de outros corpos Milicianos que haja no Exército do comando de Vossa Excelência, quando se possam escusar nele; o que deixa ao prudente arbítrio de Vossa Excelência, e deseja que Vossa Excelência, depois de praticada esta operação, lhe mande uma relação exacta do estado de força, número de praças e localidades a que fica reduzido o mesmo Exército, para em vista disso poder determinar com exacção as providências necessárias para o seu pronto pagamento e fornecimento; e neste mesmo teor se expede também ao Brigadeiro Manuel Pinto Bacelar a ordem inclusa para praticar igual diligência no Exército do seu comando, cuja ordem se encarrega Vossa Excelência de lhe fazer transmitir com a possível brevidade. O procedimento de Vossa Excelência com os nossos bons aliados ingleses tem sido muito acertado e muito conforme aos desejos da Junta já comunicados a Vossa Excelência na carta que se lhe dirigiu em data de 7 do corrente, e consequentemente não tem que acrescentar [nada] a esse respeito, estando na certeza que Vossa Excelência não omitirá coisa alguma que possa consolidar e estreitar mais a nossa boa harmonia. A mesma Junta e eu temos respondido a todos os ofícios recebidos de Vossa Excelência e com a possível prontidão. Tudo o mais que Vossa Excelência expõe, fica muito na consideração da Junta.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Porto, 9 de Setembro de 1808.

Bispo Presidente Governador

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp.50-51 (doc. 94)].

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Depois de haver estado esta manhã com Vossa Excelência, recebi os ofícios da Junta Suprema de Governo [do Porto], e não se fazendo neles menção da marcha de um destacamento deste Exército [português], que deva entrar em Lisboa enquanto os franceses a ocupam, e ao mesmo tempo reflectindo que as tropas do Exército que comando não serão de modo algum próprias para calmar uma comoção popular, porque na alternativa de obrar contra os franceses ou contra os habitantes de Lisboa, seguramente tomariam o partido de seus compatriotas; desejando evitar toda a ocasião de comprometer as minhas tropas, estou decidido a não fazer entrar na capital destacamento algum português enquanto nela existirem tropas franceses; logo porém que os franceses evacuem Lisboa, estará pronto o destacamento que Vossa Excelência me requereu, e que nesse caso poderá servir utilmente para manter a polícia e tranquilidade da capital; e para estar à mão de poder logo entrar para esse fim, oo mando reunir em Bucelas, de donde com aviso do General Hope marchará. Espero da prudência de Vossa Excelência que aprovará esta minha resolução, como a mais própria para evitar os males que mais devemos recear; o que acabo de expor a Vossa Excelência e outras muitas considerações me obrigam a lembrar a Vossa Excelência o que já hoje tive a honra de dizer-lhe, que seria de muitíssima conveniência a pronta saída dos franceses de Lisboa, para qualquer parte aonde embaraços de vexar os povos, ficassem cobertos pelas forças inglesas. Aproveito esta mesma ocasião de remeter Vossa Excelência a carta inclusa da Junta do Governo Supremo.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 49-50 (doc. 93). Este documento foi publicado originalmente em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 114)].

Assento do Conselho Militar do Exército comandado por Bernardim Freire de Andrade (8 de Setembro de 1808)



Tendo o Senhor General Comandante do Exército português feito convocar em Conselho os Oficiais abaixo assinados, a quem comunicou as ordens que hoje recebeu da Junta Suprema do Governo, em data de 5 do corrente, que vão adiante copiadas, e comparando-se neste Conselho as mesmas ordens com os ofícios e procedimentos que já tinha feito o Senhor General, e perguntando-se se o que estava feito era o que se devia fazer a elas mais completamente:
Assentou-se unanimemente que se tinha feito tudo quanto se podia fazer, vistas as instruções que o Senhor General tinha recebido do Governo de obrar de acordo com o Exército inglês, e a resposta que o General deste Exército tinha dado às instâncias que oficial[mente] lhe fizera o Major Aires Pinto de Sousa de sustentar a Capitulação [tantoquanto a sua influência ou poder se pode supor [que] se estenda pelas Leis ordinárias e sabidas da Guerra, o que unanimemente se entendeu por obstar com mão armada às operações que tentássemos em contravenção da mesma Capitulação; não restando outra coisa senão reiterar as instâncias a fim de minorar os males que pode sofrer o povo de Lisboa, acelerando a evacuação da mesma cidade.
Quartel-General de Mafra, 8 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire d'Andrada [sic].
D. Miguel Pereira Forjaz.
Nuno Freire d'Andrada.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca.
Filipe de Sousa Canavarro.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 55 (incluído no doc. 95)].

Carta do Tenente-Coronel Murray ao General Wellesley (8 de Setembro de 1808)


Quartel-General, Oeiras, 8 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de vos informar que o oficial que está comandando em Torres Vedras deu ordens para que um destacamento do 45.º Regimento ocupasse Peniche, e que obrigasse a guarnição francesa que evacuasse aquela praça a marchar através de Montachique para Lisboa, a fim de embarcar. Uma companhia do 45.º acompanhará as tropas francesas, e o Tenente-Coronel Gerard foi informado que um destacamento das tropas debaixo do vosso comando irá render tal companhia naquele ponto que possais achar apropriado, antes deles alcançarem Montachique; e ele dar-vos-á o aviso necessário para a sua marcha para esse destino.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais obediente e humilde servidor,

George Murray


Diário do General John Moore (8 de Setembro de 1808)



Paço de Arcos, 8 de Setembro de 1808.


No dia 5, todo o exército marchou em diversas colunas e tomou esta posição, com a ala direita sobre o mar junto a este lugar, estendendo-se o centro ao longo duma ravina íngreme e acidentada até onde a mesma termina, e onde está postado o corpo do Major-General Paget. Em geral, as tropas formam uma longa linha, com grandes intervalos entre as divisões. O exército reunido nesta posição está dividido, de acordo com a nova organização, em quatro divisões, cada uma delas comandada por um Tenente-General, ademais dum Corpo Ligeiro, comandando pelo Major-General Paget, e dum corpo chamado de Reserva, comandado pelo Major-General Spencer. A cavalaria é comandada pelo Brigadeiro-General Charles Stewart; a divisão de Sir Arthur Wellesley está no outro lado de Lisboa. Desembarcaram-se as tendas, e agora, pela primeira vez desde que desembarcaram, as tropas estão abrigadas. Estamos a cerca de seis milhas de Lisboa, e os navios de guerra e os transportes estão no porto. A confusão que existe nos diferentes departamentos excede tudo o que já tinha testemunhado.
Sir Hew, como nunca teve experiência de comando, parece muito desorientado em relação à forma como deve trabalhar com os diferentes chefes dos departamentos; e a tropa sofre. Entretanto, ele está ocupado com a sua correspondência com o Governo, com os portugueses, e com os franceses, que têm dado grandes problemas aos Comissários [Proby e Beresford] enviados a Lisboa para supervisionar a execução do tratado, devido à sua má fé e às suas disposições astutas, que, se não lhes eram naturais antes da Revolução, têm sido características suas desde então. Quando ontem conversei com Sir Hew, este falou-me sobre o que poderão ser as nossas operações futuras. Mostrou-me um ofício de Lord Castlereagh, que, como é habitual, era um palavreado sem sentido aparente, propondo que os britânicos deveriam agir, como ele dizia, sobre o flanco e retaguarda dos franceses de Santander a Gijón, enquanto os espanhóis os pressionariam pela frente. Este é um tipo de linguagem sem nexo utilizado por homens que, nos seus escritórios, supõem ser militares, mas que não sabem até que ponto tais medidas são susceptíveis de ser postas em prática. Parece que os nossos ministros não têm comunicado com os líderes na Espanha, nem estão informados sobre os seus recursos ou planos. Sem um conhecimento disto, e sem uma combinação com os espanhóis, não posso ver como é possível determinar onde e como vamos agir. 


Carta do Bispo do Porto ao General Dalrymple (8 de Setembro de 1808)





Porto, 8 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Já tive a honra de oferecer à vossa presença os meus devidos sentimentos de respeito e gratidão à pessoa de Vossa Excelência, pelas gloriosas medidas através das quais Vossa Excelência efectuou a restauração deste reino; e devo agora repetir os meus agradecimentos com uma obrigação muito maior, por ver Vossa Excelência tão interessado na restituição da Regência instituída por Sua Alteza.
Excelentíssimo Senhor, este governo [=Junta Suprema do Porto], que não desmereceu a sua consideração de governo provisório nacional, foi instituído apenas para expelir deste reino um tirano usurpador, tão inimigo da Inglaterra como de Portugal, e que usou como pretexto para uma invasão e usurpação iníqua deste reino, uma objecção à fiel e indispensável correspondência que o Príncipe Regente mantinha e que deve manter com a sua mais antiga aliada, a Grã-Bretanha.
Este glorioso fim, planeado por esta Junta de governo provisório, foi declarado logo no início da sua instituição original, e tem sido provado por numerosos documentos sobre as suas operações públicas e privadas, faltando somente aquele último que sirva para suplicar a Vossa Excelência, como prova maior, que sejais servido a auxiliar, tanto quanto for possível, a rápida restituição da Regência. E para tal propósito, há três dias partiu uma deputação deste governo para requerer a Vossa Excelência, como o maior dos favores, a vossa ajuda ao encaminhamento das nossas vontades, que devem corresponder com as de Vossa Excelência. A dita deputação está autorizada e instruída para, tanto quanto for possível, ajustar imediatamente este negócio, e para explicar, tão plenamente como eu o faria, todas as informações que podem ser necessários a Vossa Excelência; e prontamente aquiescerei a todas as resoluções, exceptuando aquela que me nomeia como membro do conselho da Regência, pois sei, melhor que qualquer pessoa, que é necessário, tanto para o bem da causa pública e daquelas províncias do norte, como para a manutenção da boa harmonia com as nações aliadas, que não me mova donde estou colocado, tanto por Deus como por Sua Alteza Real o Príncipe Regente.
Tenho a honra de ser, com as declarações mais sinceras de respeito,
O mais obsequioso e fiel servidor de Vossa Excelência,


Bispo, Presidente e Governador. 


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (7 de Setembro de 1808)



Pela carta que acabo de receber do General em Chefe [Dalrymple], cuja cópia remeto, conheço a razão pela qual Vossa Excelência julga poder dispensar-se de comunicar[-me] as suas intenções e as suas ordens sobre este Exército e comissão de que me acho encarregado; não creio que com este método possa aproveitar o serviço, mas creia Vossa Excelência que enquanto eu me conservar no emprego que ocupo, hei de continuar a proceder como entender a minha honra e [como] a minha consciência pede, desprezando toda a intriga, e tudo o que for pessoal. Receber eu as ordens de Vossa Excelência para nomeação dos oficiais que comando pelo canal do General inglês, cuja superioridade não devo reconhecer, é militarmente um caso inteiramente novo, e que nunca pode ter lembrado como possível; contudo existe, e é de Vossa Excelência para mim que sucede.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Quartel-General de Mafra, 7 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 47 (doc. 89)].

Carta do General Beresford e do Tenente-Coronel Proby ao General Dalrymple (7 de Setembro de 1808)




Lisboa, 7 de Setembro de 1808.




Senhor: 


Temos a honra de declarar que esta manhã tivemos novamente uma audiência de algumas horas com o General Kellermann, sobre os pontos relacionados com a devida execução do tratado, os quais foram por ele acedidos, à excepção daquele sobre a restituição da prata não cunhada em moeda; ele informou-nos ainda que o General em Chefe do Exército francês publicou uma ordem do dia ordenando que qualquer pessoa que tivesse em sua posse pinturas ou outros bens móveis, deveria devolvê-los imediatamente aos seus proprietários; e informou-nos que será devolvida qualquer coisa que ficar retida, se os proprietários o indicarem.
Em relação à prata em barras e não cunhada, tivemos uma longa discussão, algumas vezes acalorada, e o General Kellermann insistiu tenazmente, na maior parte das vezes, que a Convenção garantia-lhes tudo aquilo que estivesse na sua posse antes do primeiro dia de tréguas; e separámos-nos finalmente quando ele declarou da forma mais categórica que os franceses não cederão sobre este ponto. Expusemos-lhe as nossas razões para diferir da sua opinião, fundadas no artigo da Convenção que lhes limita a levar somente bagagens militares e pessoais, e naquilo que foi tratado entre o General Kellermann e o Tenente-Coronel Murray; sobre este último ponto, Kellermann declarou que apesar de ter assentido com a substância daquilo que refere o Tenente-Coronel Murray, não fazia nem podia fazer qualquer referência àquilo que [o exército francês] tinha recebido antes do começo das tréguas. Assim, como não conseguimos que o General Kellermann concordasse com o que nos parecia tão claro e razoável, partimos, não sem lhe declarar que o Comandante em Chefe britânico nunca consentiria com qualquer outra interpretação sobre a Convenção. 
Já escrevi a Vossa Excelência parte do que se passou na nossa entrevista, quando o General Kellermann anunciou que o General Junot consentia que, devido às queixas que fizemos sobre o facto dos depósitos de vários tipos estarem a ser dispostos duma maneira bastante inconsistente com o tratado, estes seriam todos postos no estado que estavam no começo das tréguas, racionando apropriadamente os gastos justos; que se deveria devolver tudo o que pertencia às casas, livrarias e museus reais, e todos aqueles que artigos que se tinham tirado a indivíduos, e que ainda permaneciam no país; e que consentiam em não levar para fora do país as barras da prata proveniente das igrejas, ainda que não reconhecessem qualquer obrigação para fazê-lo, segundo o tratado; que pagariam as dívidas do exército com tal prata, o que sempre tinha sido expressamente o seu planeado fim; e que, se depois de pagarem as suas dívidas restasse alguma prata, esta seria devolvida. Respondemos que como isto não era propriamente o que tínhamos sido instruídos a requerer, não poderíamos dar qualquer resposta, mas iríamos transmitir a proposta a Vossa Excelência, o que temos agora a honra de fazer; e o General Kellermann, declarou que se a isto não se acedesse, ele próprio dirigir-se-ia, amanhã de manhã, ao Quartel-General de Vossa Excelência. Devemos reconhecer que pareceu-nos que, segundo a Convenção, mal podemos pedir mais; porém, submetemos isto a Vossa Excelência, requerendo ordens sobre o assunto.
Temos a honra de ser os mais obedientes e humildes servidores de Vossa Excelência,


W. C. Beresford, Major-General.
Proby, Tenente-Coronel.


Carta da Junta de Évora ao General Dalrymple (7 de Setembro de 1808)






Évora, em Junta, 7 de Setembro de 1808.


A nação britânica, sempre aliada a Portugal, mostrou agora mais do que nunca os seus sentimentos de generosidade para connosco, por cuja razão esta Junta reconhece em Vossa Excelência um dos nossos libertadores. Num tempo em que, com temor, víamos abertos as passagens importantes da Moita e da Aldeia Galega [=actual Montijo], através das quais os inimigos avançaram cruelmente para saquear esta cidade abandonada, que sentirá os efeitos dos seus excessos durante muitos anos; e com o objectivo de evitarmos futuramente semelhantes mal-entendidos, rogamos a Vossa Excelência para tomar em consideração o estado das ditas passagens, a fim de permitir que ajamos nesta província como uma parte importante da Monarquia, e de mostrarmos a nossa lealdade e a nossa generosidade a um verdadeiro amigo desta nação e de cada uma das províncias, muito particularmente desta, por se achar tão ameaçada.
Deus guarde, etc., 
Évora, 7 de Setembro de 1808.

D. Sebastião José Barbosa Cordovil, Presidente.
D. Francisco Manuel Couceiro da Costa.
D. Manuel Freire da Costa.
D. João de Mesquita Pimentel e Pavia.
D. António Mexia Couto Galvão Pereira.
D. Nuno José dos Santos.



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Nota:


Repare-se que Frei Manuel do Cenáculo, apesar de presidir a Junta de Évora, não assina este documento, pois encontrava-se preso em Beja, como adiante se verá.

Carta do General Murray ao General do Exército Português (7 de Setembro de 1808)





No campo em S. Marcos [a sul do Cacém], 7 de Setembro de 1808.




Acabo de receber a carta para o sr. [D. Domingos António] de Sousa [Coutinho]*, e Vossa Excelência pode contar que ela será enviada pelo primeiro correio que se destinará à Inglaterra; dou-vos mil graças, meu General, pela confiança por me haverdes informado do seu conteúdo.
O Oficial a quem haveis tido a bondade de emprestar um cavalo acaba de me escrever que o enviou de volta ontem de manhã, que apenas o tinha retido porque não tinha ninguém para confiá-lo, e esperava que os dois Exércitos [português e britânico] se juntassem; acrescenta que a sela rompeu-se na primeira vez que a montou, e que queria repará-la antes do seu regresso; ele tem vergonha de o ter retido tanto tempo e pede mil desculpas, e espera que estas razões serão suficientes para que Vossa Excelência o desculpe. 
Deu-me bastante prazer saber que Vossa Excelência recebeu explicações do General Dalrymple sobre o Tratado, as quais vos tranquilizaram.
Vossa Excelência pode convencer-se que as intenções do General eram boas, e ademais sei que as ordens do nosso Governo são as mais positivas ao considerar como seu primeiro objecto a honra e os interesses do Príncipe e de Portugal. Aqui entre nós, estou convencido que a vontade que o General tinha de que o nosso Exército estivesse livre para agir noutro lugar foi um dos motivos mais poderosos que o levaram a apressar a conclusão do Tratado.
Provavelmente, meu General, tereis a resposta do vosso ofício de ontem durante o dia de hoje.
Como os corpos debaixo das minhas ordens estão actualmente [dispostos] em linha, fui encarregado de vos agradecer e devolver ao vosso Quartel-General os Dragões que estão comigo. Reenvio quatro, mas se Vossa Excelência o permitir, reterei ainda seis durante alguns dias, a fim de vos enviar as cartas destinadas a Vossa Excelência que me possam ser remetidas.
Disseram-me que os franceses pediram transportes para 27.000 pessoas. Não serve de nada iludir-nos, e parece que a sua força é muito maior do que pensávamos. 
Tenho a honra de ser, com a maior consideração, o criado mais humilde e obrigado de Vossa Excelência,

Murray


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 47-48 (doc. 90)].

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Nota:

* Apesar da aludida carta não se encontrar publicada (ao que nos conste), julgamos que a mesma deveria incluir o protesto que Bernardim Freire de Andrade escreveu contra a Convenção depois chamada de Sintra e/ou a memória do mesmo general sobre o mesmo assunto.

Carta do General Dalrymple ao General Beresford e ao Tenente-Coronel Proby (7 de Setembro de 1808)



Quartel-General, Oeiras, 7 de Setembro de 1808.


Senhores:



Depois de reconhecer [o recibo das] vossas cartas de ontem*, e de declarar a obrigação que sinto que deveis ter em relação ao modo próprio e firme com que estais executando a vossa importante missão, resta-me responder à proposta do General Kellermann, sobre as cópias extraídas do Museu, que devem ser decididas pela negativa. Não sendo meus esses tais artigos para deixá-los à disposição, não consentirei que sejam removidos.


Hew Dalrymple,
Tenente-General.


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 191 (doc. 78)].


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Nota:


Foram duas as cartas remetidas por Proby e Beresford a Dalrymple no dia anterior: veja-se a primeira e a segunda carta.

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (7 de Setembro de 1808)





Quartel-General, Oeiras, 7 de Setembro de 1808.


Senhor:

Até hoje não tive o poder de responder àquela parte da carta de Vossa Excelência do passado dia 4, relativamente ao nosso encontro; contudo, se Vossa Excelência o aprovar, ficarei contente em ter uma conferência convosco aqui amanhã.
Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.

Dalrymple

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 113). Existe uma outra transcrição do original inglês, juntamente com a respectiva tradução em português, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 48-49 (doc. 91)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (7 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

A carta que venho de receber pelo meu Ajudante de Ordens, em que Vossa Excelência responde aos meus ofícios de 3, não só pede que eu acuse a recepção, mas exigem também que eu signifique a Vossa Excelência a grande satisfação que me resulta do seu conteúdo, com o qual me prometo um feliz e pronto êxito da empresa que intentamos. Estes sentimentos de consideração por Vossa Excelência irei pessoalmente protestar-lhe com brevidade; e então poderemos conferir sobre os assuntos que Vossa Excelência julgar a propósito de tratar, devendo entretanto persuadir-se de que sou com o maior respeito sou de Vossa Excelência, etc.
Quartel-General de Mafra, 7 de Setembro de 1808.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 49 (doc. 92). Originalmente, este documento foi publicado em inglês, in  Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 208 (doc. 110)].

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (7 de Setembro de 1808)




Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Já Vossa Excelência terá recebido a resposta da Junta do Governo Supremo ao seu ofício de dois do corrente, assim como a que lhe enviei respeitante ao outro ofício precedente de Vossa Excelência; respondendo agora ao que Vossa Excelência me dirigiu em data de 4 deste mês, com a cópia da carta do General Dalrymple, dos Artigos da Capitulação convencionada entre o mesmo General e o do Exército francês, e [das] protestações feitas por Vossa Excelência contra os ditos artigos na parte em que são ofensivos aos Direitos do Príncipe Regente Nosso Senhor e aos Interesses da Nação, tenho para dizer a Vossa Excelência que sendo tudo proposto por mim na Junta do Governo Supremo, e nela maduramente ponderado, se assentou que Vossa Excelência tinha obrado com muito acerto a respeito das referidas protestações, as quais portanto a mesma Junta aprovou [e] ratificou, tomando o expediente de as dirigir ao Ministro Plenipotenciário do mesmo Senhor na Corte de Londres*, para requerer com elas ante Sua Majestade Britânica o que for conveniente ao serviço do mesmo Senhor. Sobre o mais que Vossa Excelência refere na sua carta, pareceu à mesma Junta conveniente que Vossa Excelência em conferência com o General inglês procure logo ajustar-se com ele a respeito da parte que Vossa Excelência deve ter na entrada e ocupação de Lisboa, como também sobre a posição e comportamento tanto do Exército do seu comando, como de todas as mais tropas portuguesas que se acham empregadas em qualquer parte deste Reino, e principalmente dos que estão no bloqueio de Almeida; e que acomodando-se ao que convencionar com ele, assim o faça observar pelas tropas do seu comando, e expressa na mesma conformidade os ofícios necessários aos Governadores da Beira, Alentejo, Reino do Algarve, dirigindo-lhes juntamente as ordens da Junta do Governo Supremo que com esta [carta] se remetem a Vossa Excelência, para os ditos Generais haverem de cumprir os ditos ofícios. Também previno a Vossa Excelência que na madrugada do dia de amanhã parte desta cidade um Deputado da Junta Suprema munido dos poderes e instruções necessárias para conferenciar com o dito General inglês sobre os negócios da maior importância para o serviço do Príncipe Regente Nosso Senhor e [para o] sossego público, e particularmente acerca do restabelecimento do Governo; ao qual Deputado sendo preciso Vossa Excelência prestará os auxílios que por ele lhe forem requeridos. Ultimamente, recomendo a Vossa Excelência que a respeito da Capitulação e [do] procedimento dos ingleses, faça toda a diligência por mostrar a maior satisfação, e influir esta mesma em todo o Exército do seu comando.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Porto, 7 de Setembro de 1808.


Bispo Presidente Governador


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 46-47 (doc. 88)].


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Nota: 

* Não nos consta que esteja publicado o aludido ofício dirigido a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres, a não ser que se trate da própria resolução pronunciada pela Junta do Porto no mesmo dia 7 de Setembro.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (6 de Setembro 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo:

Tenho a honra de pôr na respeitável presença de Vossa Excelência uma cópia da carta do General Murray, que agora mesmo venho de receber, e que certamente corresponde ao que sempre pensei sobre a conduta dos nossos Aliados. A nossa bandeira está arvorada na torre de S. Julião, e o Regimento de Artilharia da Corte a guarnece. O Almirante da Esquadra russa vem de o fazer cumprimentar por este mesmo respeito. Enfim, Senhor, esperemos em Deus, que não deixará de abençoar os nossos esforços e a sinceridade das intenções com que tanta gente de honra e de probidade se empenhou no serviço do Príncipe e da Pátria.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Mafra, 6 de Setembro de 1808.

P.S. Remeto a Vossa Excelência uma cópia da carta do General Dalrymple para o Major Aires Pinto de Sousa, pela qual Vossa Excelência verá confirmada a ideia da boa vontade com que os ingleses se prestam a todo o acordo.

Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 46 (doc. 87). Existe uma outra versão desta carta (que não inclui o P.S.), provavelmente traduzida a partir duma tradução inglesa, publicada in Correio Braziliense, Londres, Outubro de 1808, p. 402].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (6 de Setembro de 1808)




Quartel-General de Mafra, 6 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Ontem, pelas 10 horas da noite, recebi a carta de Vossa Excelência do 1.º do corrente, em que Vossa Excelência se faz cargo de haver recebido as minhas participações acerca do Armistício estipulado em 22 [de Agosto], e é esta a primeira carta que de Vossa Excelência ou do Governo tenho recebido há 20 dias, quando parece que os negócios mais instam, e que eu mesmo insto por instruções e respostas aos meus repetidos ofícios; vendo-me portanto em circunstâncias de obrar por meu arbítrio, o que poderá convir a quem não se quer comprometer, mas que a mim não me convém. Aqui me chegou a notícia de que se vai formar uma Legião ao serviço ou disposição de Inglaterra; declaro a Vossa Excelência que enquanto não se tratar da organização definitiva do Exército, não convém levantar novos corpos, e muito menos dispor dos indivíduos que se acham debaixo do meu comando, como talvez se intentava.
Vossa Excelência se servirá de dizer-me se lhe parece conveniente que eu mande licenciar os Corpos de Milícias de Moncorvo e Porto, que aqui se achavam servindo, e que não serão necessários para as guarnições das praças e de Lisboa, e do mesmo modo as que estão no Exército de Bacelar, o qual deve entrar comigo em Lisboa, porquanto estas Milícias estão aqui fazendo peso e despesa, e falta nas suas províncias. Consta por aqui que nas províncias do norte se tem procedido a um grande recrutamento, medida que me faz muita novidade, pois que deve ser necessitada por alguma causa urgente, e se eu tivesse sido informado dessa resolução, não teria certamente deixado de aceitar os oficiais e soldados dos antigos Regimentos que aqui se têm vindo reunir, o que tenho recusado até à organização definitiva do Exército. 
Pelo que pertence às ordenanças que requer o Coronel Pizarro, como tenho 140 cavalos reunidos ao Exército inglês, lhe mandarei ordem para que os tire daquele corpo. O General Dalrymple me pede [através do Major Aires Pinto de Sousaneste momento de remeter a inclusa com a maior brevidade, e portanto rogo a Vossa Excelência [para que] queira ordenar que ela seja prontamente entregue à sua direcção. Tenho muita razão de persuadir-me que os ingleses desejam neste momento quanto sempre desejaram, que a maior harmonia se conserve entre nós; depois de ter feito as protestações que me pareceram do meu dever, não procuro outra coisa tanto como promover e fomentar a melhor inteligência, quanto de mim depender. 
Estou certo que Vossa Excelência será da mesma opinião, persuadido sem dúvida de que o nosso mais fatal, mais funesto e mais iminente perigo, e para a causa pública, será se entre nós ou a respeito dos nossos aliados houver dissensões de que se possam aproveitar os nossos cruéis inimigos, cujos fautores e sequazes me cercam talvez, e procuram cercar todas as autoridades, e mesmo a sagrada pessoa de Vossa Excelência, de quem sou de Vossa Excelência, etc.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 45-46 (doc. 86)].

Excerto duma carta do Tenente-Coronel Murray ao General Wellesley (6 de Setembro de 1808)


Oeiras, 6 de Setembro de 1808.


Meu caro Sir Arthur:


[...]


Se me é permitido dar uma opinião sobre as nossas operações futuras, seja nas Astúrias ou noutro sítio, [penso] que era necessário que o governo [britânico] tivesse fixado qual deveria ser o teatro de guerra depois de restaurarmos Portugal. Se o exército fosse comandado por vós, tal seria menos necessário; contudo, nas presentes circunstâncias, uma carta consistindo sobretudo em questões e especulações não é o tipo de ofício que se deveria ter enviado a Sir Hew Dalrymple. O momento é precioso, e se os espanhóis estiverem dispostos a permitir que ajamos com eles, não se deve perder tempo algum. De facto, começamos agora a perceber que a nossa força está embaraçada, quando poderia estar a ser útil para a causa comum na crise mais importante que ocorreu durante a guerra
Estou inclinado a pensar que o melhor que podemos fazer é levar a nossa força para as Astúrias, se o exército chegar somente a 15.000 homens; contudo, com a força que agora tem, parece-me que podemos ampliar o nosso campo. Assim, se pudesse dar o meu voto sobre o modo como deveríamos agir no momento presente, proporia que se começassem sem perda de tempo as nossas disposições para mover consecutivamente os corpos sobre o Tejo, e também por Almeida, em direcção à província de Leão; tendo o cuidado de enviar à volta, por mar, um corpo de 10.000 ou 12.000 homens para as Astúrias, ou talvez, em vez disso, desembarcar ali as tropas que vêm da Inglaterra, donde também se deveria enviar um General para comandá-las.
As operações do exército britânico serão então no norte de Leão, vigiando Burgos e os Pirenéus Ocidentais, se as coisas correrem bem, e retroceder para a costa e para Portugal se as circunstâncias na Espanha não prosperarem, ou se a inferioridade da nossa força requerer que abdiquemos um pouco daquela parte. As operações do principal exército espanhol podem ser dirigidas para a parte norte do Ebro e de Navarra, enquanto agem defensivamente sobre o lado da Catalunha, onde talvez possamos encorajá-los com algumas tropas vindas da Sicília.


[...]


George Murray 

Carta do General Wellesley ao Bispo do Porto (6 de Setembro de 1808)



Zambujal, perto de S. António de Tojal, 6 de Setembro de 1808.


Com a licença de Vossa Senhoria:

Tive a honra de receber a carta de Vossa Senhoria datada de       *, e não deixei de apresentar ao Comandante em Chefe, Sir Hew Dalrymple, o papel contendo um memorando sobre aqueles pontos que Vossa Senhoria queria que ele considerasse na negociação de qualquer convenção com o exército francês. Resta-me dizer que Sua Excelência [Dalrymple] escreverá a Vossa Senhoria sobre este assunto.
Devo informar Vossa Senhoria que o meu comando das forças inglesas em Portugal concluiu-se com a batalha de 21 de Agosto. De facto, um oficial mais antigo, Sir Harry Burrard, chegou ao campo da batalha perto do fim da acção, e dirigiu as operações que se levaram a cabo depois daquela batalha. Sir Hew Dalrymple, o actual Comandante em Chefe, desembarcou na manhã de 22 de Agosto; e naquela tarde negociou pessoalmente com o General francês Kellermann um acordo para suspensão das hostilidades. Estive presente durante a negociação deste acordo; e, conforme a vontade do Comandante em Chefe, assinei-o. Porém, como acabo de referir a Vossa Senhoria, não o negociei; e não posso de maneira alguma ser responsável pelo seu conteúdo.
Este acordo foi seguido por uma negociação com o Comandante em Chefe francês, duma convenção para a evacuação de Portugal pelo exército francês, através da mediação do Coronel Murray, Quartel-Mestre-General do exército, convenção esta que foi concluída e ratificada pelos Comandantes em Chefe de ambos os exércitos, e que está actualmente a ser executada. Não vi esta convenção, e não posso informar Vossa Senhoria acerca do seu conteúdo; mas não duvido que o Comandante em Chefe vos envie uma cópia.
Julguei que era apropriado incomodar Vossa Senhoria com esta notícia detalhada da parte que tive nestes negócios, de forma a que Vossa Senhoria não me atribua a omissão de não vos ter informado acerca da sua natureza, a qual estou convencido que é apenas acidental. Mas como me considero, bem como o exército que comandei, particularmente obrigado a Vossa Senhoria, tal omissão da minha parte seria imperdoável; e estou feliz para tomar esta oportunidade de me aliviar de tal imputação, instruindo Vossa Senhoria acerca do modo como as negociações foram levadas a cabo, e da parte que nelas tive.
Tenho a honra de ser, etc.,

Arthur Welllesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 126-132; uma tradução parcial desta carta em português foi publicada por Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 182-183].

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Nota:

* O espaço em branco encontra-se no texto original.