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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Bernardim Freire de Andrade (6 de Setembro de 1808)





Quartel-General, Oeiras, 6 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tendo o Bispo do Porto declarado-me, através do Oficial General britânico que está estacionado naquele lugar, que quer o Brigadeiro A.[sic] P. Bacelar a comandar os destacamentos de tropas portuguesas que será necessário enviar para Lisboa com a divisão do exército britânico que, na primeira oportunidade, tomará dos franceses a posse daquela capital, tenho de requerer que o oficial acima mencionado, com uma força que não exceda trezentos homens bem escolhidos, esteja pronto para entrar em Lisboa à menor notícia, sendo tal o estado da fermentação popular como que ameaçando muitos efeitos fatais.
A divisão do Tenente-General Hope está pronta para o mesmo dever; e requeiro que sejam dadas ordens ao Brigadeiro António Pinto Bacelar para que se comunique com aquele Tenente-General sobre o dever que estão prestes a ser empregados.
Tenho a honra de ser o mais obediente e humilde servidor de Vossa Excelência.


Dalrymple,
Tenente-General
Comandante das Forças Britânicas em Portugal.

[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 209 (doc. 112). Existe uma outra transcrição do original inglês, juntamente com a respectiva tradução em português, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 43-44 (doc. 85)].

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Carta do Major-General Murray ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro 1808)




No campo, 5 de Setembro de 1808.


Depois de ter chegado ao campo, recebi uma carta do Ajudante General [=Capitão Dalrymple?], escrita na suposição que eu ainda teria a honra de vos ver; mas como tal não acontecerá tão cedo como eu queria, tomo a liberdade de me dirigir a Vossa Excelência por escrito.
O Ajudante General da parte do General [Dalrymple] informou-me que foi simplesmente devido a um mal entendido que as bandeiras inglesas foram arvoradas no forte de S. Julião; que nada disto poderia concordar menos com as suas intenções; e que assim que ele o soube, deu ordem para arriá-las e para serem arvoradas as bandeiras portuguesas. Teria sido certamente melhor que este mal entendido não tivesse ocorrido, mas espero que Vossa Excelência e a Nação portuguesa não verão nisto mais do que um mal entendido. Estou ademais encarregado de comunicar a Vossa Excelência que está actualmente no forte de S. Julião um corpo de artilharia português, o qual tinha estado ao serviço dos franceses. Segundo o teor da carta [do Ajudante General de Dalrymple], parece-me que o General crê que é conveniente mandar retirar esse corpo do forte, mas ao mesmo tempo encarrega-me de pedir a Vossa Excelência que me dê a conhecer as vossas intenções e vontades a este respeito.
Não saberia finalizar sem exprimir a Vossa Excelência quanto me sinto devedor por todas as gratas atenções que me haveis mostrado desde que o meu Corpo está junto ao de Vossa Excelência, e de vos repetir ainda uma vez mais que tenho a honra de ser o servidor mais humilde e muito obrigado de Vossa Excelência, 


[Fonte: Esta carta foi escrita originalmente em francês, aparecendo publicada em tradução portuguesa no Correio Braziliense, Londres, Outubro de 1808, pp. 402-403. A transcrição de acima deriva de uma tradução nossa do original francês, disponível in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 41 (doc. 83)].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico (5 de Setembro de 1808)




Zambujal, 12 léguas a norte de Lisboa, 5 de Setembro de 1808.


Meu caro Senhor:

O vosso irmão Charles transmitiu-me a vossa carta de 20 de Agosto a Sir Hew Dalrymple, a qual o próprio Sir Hew comunicou-me diferentes partes ontem, e passo a dar-vos a minha opinião sobre os pontos que a mesma refere. Devo declarar-vos, contudo, que as informações que dispomos aqui sobre o estado das circunstâncias na Espanha são muito imperfeitas; que nós, ou pelo menos eu, desconhecemos quais são as posições, números, meios, ou quais são os objectivos do exército francês na Espanha; e ignoro igualmente qual é o estado da força dos espanhóis.
Assim, creio que o exército francês na Espanha consiste actualmente em cerca de 40.000 homens, em cujo número se incluem 5.000 de cavalaria, que são comandados pelo Marechal Bessières, e estão estacionados algures à volta de Vitória, na Biscaia. A probabilidade deles serem reforçados deve depender do estado das circunstâncias nas outras partes da Europa, das quais não tenho qualquer tipo de conhecimento; mas se a atenção do Governo francês não for distraída para outras partes, devemos esperar que o exército francês na Espanha será elevado em breve a um número muito grande.
A quantidade da força com a qual se podem levar a cabo as operações na Espanha é uma outra consideração muito material que pesa sobre toda a questão; e a partir das informações do estado dos recursos no país, duvido que seja praticável executar operações na Espanha com um corpo maior do que 40.000 homens. Pode haver outro corpo de reserva, empregado em operações na mesma ou noutras linhas, protegendo transportes para a França, etc., etc.; mas não é provável que o corpo na fronte exceda os 40.000 homens. Deveis considerar isto, no entanto, como uma mera opinião, fundada em informações gerais do estado dos recursos na Espanha, sobre as quais posso estar enganado.
O seguinte ponto para consideração diz respeito à força dos espanhóis: desconheço se têm um exército formal, capaz de se enfrentar aos franceses, para além daquele que é comandado pelo General Castaños. O General Cuesta tem alguma cavalaria em Castela; o General Galluzo tem alguma mais na Extremadura; e o exército de Blake na Galiza pode tornar-se num corpo eficiente a tempo. Mas aqueles exércitos de paisanos que cortaram os franceses em Múrcia, em Valencia e na Catalunha não podem ser considerados como exércitos eficientes para se enfrentarem às tropas francesas num campo de batalha. É muito provável que eles não irão nem de facto poderão deixar as suas províncias, e, mesmo que o possam, nenhum oficial poderá planear uma grande operação com aqueles corpos.
Não duvido que, se se puder fazer um relatório preciso sobre o seu estado, eles quererão armas, munições, dinheiro, vestuário e equipamentos militares de qualquer tipo; e embora tais corpos sejam muito formidáveis e eficientes nas suas próprias regiões, e provavelmente iguais nas suas defesas, não se deve contar com eles fora das suas mesmas regiões; e em qualquer caso é impossível calcular o efeito dos seus esforços. Em alguns casos, [os espanhóis] enfrentar-se-ão com sucesso contra um número idêntico de tropas francesas; noutros, 1.000 franceses com cavalaria e artilharia dispersarão milhares deles, e assim sendo, não podemos ter qualquer confiança neles no seu actual estado.
Assim, o resultado das informações que disponho sobre o presente estado da força espanhola oposta aos franceses é que estão actualmente prontos cerca de 25.000 homens comandados por Castaños, e mais ou menos o mesmo número comandado por Blake na Galiza, os quais podeis contar como tropas eficientes. Todo o resto pode tornar-se também eficiente, e tornar-se útil em diferentes modos até mesmo no momento presente, mas não deveis fundar os ajustes duma grande operação militar sobre a sua utilidade ou eficiência. Estou informado que o Governo [britânico] prometeu 10.000 homens a Castaños, e não tenho qualquer tipo de dúvida que um corpo bem equipado, consistindo em cerca de 15.000 homens, incluindo a devida proporção de cavalaria e artilharia britânica, ser-lhe-á altamente útil. Esta medida elevaria o seu exército a 40.000 homens, dos quais o corpo britânico seria a melhor tropa que ele pode encontrar em qualquer sítio; e este exército, auxiliado pela insurreição noutros reinos da Espanha, seria o exército de operações que agiria contra o que suponho que seja o exército de operações francês. Este corpo britânico avançaria a partir de Portugal, em cujo reino estaria entretanto empregado na defesa.
Deveis deixar em Portugal um corpo britânico de 5.000 homens, para ficar estacionado em Lisboa e nos seus arredores, talvez com uma pequena guarnição em Elvas. O objectivo de estacionar este corpo em Portugal é dar força ao governo que estabelecereis aqui, e para torná-lo independente das facções e intrigas que o criticarão por todos os lados.
Deveis enviar para Lisboa, na qualidade de Embaixador do Rei, uma pessoa discreta que supervisione a administração dos negócios deste país, particularmente a expedição do dinheiro que deveis suprir para as suas necessidades, e a sua aplicação para os fins para os quais foi cedido, a saber, providenciar uma defesa militar.
A próxima consideração é o emprego da restante parte do exército actualmente em Portugal, estimado em cerca de 10.000 [sic] homens, com um corpo adicional de 10.000 homens reunidos e prontos na Inglaterra, e alguma cavalaria. Reconheço que não penso que o estado dos acontecimentos na Espanha sejam tão prósperos para que possais crer que toda a força que a Inglaterra possui possa agir dentro daquele reino, sem que sejam adoptadas medidas de precaução, que assegurem a sua retirada para a costa. Para além disto, não vos ocultarei que os nossos homens têm tão pouca experiência de campo, que não conheço pessoa alguma que seja capazes de o suprir, ou que, mesmo que o consiga, que consiga distribuir os suprimentos a um exército de 40.000 homens (tropas britânicas) agindo juntos como um todo. Mesmo que se possa esperar que haverá abundância de suprimentos, morreremos de fome no meio das operações, por falta das devidas disposições. Porém, a primeira objecção é conclusiva. Devemos depender dela, pois sempre que reunamos um exército, os franceses considerarão a sua derrota e destruição como o seu primeiro objectivo, em particular se o próprio Bonaparte estiver à frente das tropas francesas; e se as operações do nosso exército chegarem perto da fronteira francesa, ele terá meios de se multiplicar, e multiplicará tanto os seus números sobre os do nosso exército, que poderá conseguir tirar o melhor proveito deles. Assim, no que diz respeito ao exército britânico, devemos ter uma retirada aberta, e a retirada deve ser por mar.
As nossas operações levadas a cabo a partir de Portugal e sobre o norte da Espanha envolver-nos-iam, como de facto observais, numa linha de operações demasiado longa. A retirada seria difícil, se não mesmo impossível. Esta objecção, direis vós, aplica-se igualmente ao corpo de 15.000 homens que se propõe ser empregue com Castaños. Em primeiro lugar, concebo que há uma grande diferença entre o risco da perda de um corpo como este, e o da perda de toda a força disponível da Grã-Bretanha. Em segundo lugar, daqui não se segue que, ainda que todo o exército britânico não consiga retirar-se para Portugal, um corpo de 15.000 não o conseguiria. Em terceiro lugar, não se segue que este corpo de 15.000 homens teria necessariamente que retirar-se por Portugal; ao ser uma parte do exército de Castaños, poder-se-ia retirar com as suas tropas para a Andaluzia, deixando a defesa das fronteiras de Portugal aos portugueses e ao corpo britânico de 5.000 homens, até que aqueles, ou uma parte deles, pudesse atravessar novamente o Tejo, ou pudesse entrar em Portugal pelo Algarve. Concluo assim que, apesar de se poder arriscar este corpo, podendo considerar-se a sua retirada para o mar de algum modo fundada no ar, toda a força disponível da Grã-Bretanha deve ser e tem de ser salvaguarda.
O único plano eficiente de operações em que as tropas britânicas podem ser empregues, de acordo com estas observações, é sobre o flanco e retaguarda dos postos avançados do inimigo à frente de Madrid, através das Astúrias. Se é verdade, como declararam os deputados das Astúrias em Londres, que a sua região é notavelmente forte, e que está protegida da invasão francesa; se é verdade que os portos de Santander e Gijón, em particular o primeiro, são portos seguros no Inverno; e se os seus muros podem permitir meios de embarque num, ou em ambos, mesmo se o inimigo for capaz de passar através das montanhas, as Astúrias são a região que devemos segurar imediatamente, na qual devemos reunir as nossas forças disponíveis assim que for possível, passando depois para as planícies, tanto por Leão como pela passagem de Reinosa. O exército pode então ter uma comunicação limitada e talvez problemática com o mar, que tem de ser efectuada através de mulas, que abundam na região; este exército cooperaria com o exército da Galiza comandado por Blake, e poderia pressionar o flanco direito e a retaguarda do inimigo, forçando a sua posição sobre o Ebro, onde evidentemente tenciona dispor a sua primeira linha. Deveis ter em consideração que segurar as Astúrias o mais rápido possível é o vosso primeiro objectivo na Espanha, seguindo-se a reunião, dentro daquela região, da totalidade da vossa força disponível, depois da marcha do destacamento para Castaños.
Existem alguns detalhes que devem ser observados nestas disposições. O exército que está actualmente neste país pode marchar para Leão ou embarcar e passar a Gijón ou a Santader. Esta última seria a operação mais rápida; se for adoptada a primeira, a sua artilharia, na sua forma presente, pode acompanhá-lo; mas deve ser lembrado que se a artilharia se mantiver na sua forma presente, em caso de retirada terá que ser deixada para trás, nas planícies; pois estou informado que não existem estradas para carros nas montanhas das Astúrias.
Assim, as tropas que actualmente se encontram neste país devem ser embarcadas no Tejo e enviadas para as Astúrias; e que da Inglaterra devem enviar-se carros de transporte de artilharia e munições sem perda de tempo, o que pode ser feito por peças, que podem ser transportadas à mão, e depois postas juntas para poderem ser levadas pelos cavalos. As notícias transmitidas pelos oficiais enviados àquelas regiões, referirão se a cavalaria pode passá-los; acho que podem, pois penso que um cavalo também pode ir onde vai uma mula. Se sim, a cavalaria vinda da Inglaterra deve igualmente ser desembarcada nas Astúrias; em caso negativo, a cavalaria deve ser desembarcada na Coruña ou no Ferrol, e juntar-se ao exército nas planícies, através das passagens da Galiza, que sabemos que são praticáveis pela cavalaria.
Resta considerar agora unicamente as operações do corpo da Sicília, que consiste em 10.000 homens. No presente estado das circunstâncias, o Governo talvez não deveria considerar conveniente a remoção deste corpo do Mediterrâneo; se os espanhóis conseguirem alguma proeza contra os franceses sobre a esquerda da sua linha na Catalunha, e sobre o baixo Ebro, este corpo poderá reforçar aquela parte da insurreição espanhola, mantendo sempre a sua retirada aberta para o mar. Isto, contudo, será muito difícil, dado que os franceses estão em posse de Barcelona; e o cerco desta praça, auxiliado pelos insurgentes da Catalunha, será provavelmente o máximo que este corpo poderá executar. E caso tal operação seja repelida com sucesso, ou caso se veja forçado a reembarcar em consequência da aproximação de uma força maior dos franceses, o mesmo corpo passaria a auxiliar materialmente as operações das tropas no centro da Espanha.
O resultado de todas estas operações, que actualmente deve ser distinto, confinaria os franceses à sua linha do Ebro no momento presente, obrigando-o eventualmente a retirar-se para a sua própria fronteira. Será ganho algum tempo para a posterior organização do Governo e das forças espanholas, cujo emprego judicioso e efectivo permitirá ao Governo britânico retirar as suas forças da Espanha, a fim de empregá-las noutras partes da Europa. Está fora de questão impedir-se a retirada dos franceses da Espanha. Eles detêm a posse de todas as fortalezas deste lado dos Pirenéus, através de cujas montanhas não há mais do que quarenta passagens pelas quais as tropas podem marchar. Para além disto, mesmo que nestas circunstâncias fosse possível colocar um exército na sua retaguarda, com o objectivo de cortar a sua retirada para a França, deveis ter em conta que toda a França levantar-se-ia como um homem em seu socorro, e que o resultado seria a perda do exército que assim seria empregado.
Em relação à vossa vontade de que devo partir para as Astúrias para examinar a região e formar uma ideia sobre a sua força, tenho que vos mencionar que não sou um desenhador, antes sou muito mau em descrições. Não deveria ter dificuldades em formar uma opinião e em planear a defesa daquela região, se estivesse seguro que tal seria executado. Mas será uma inútil perda do meu tempo, e uma imposição da vossa parte, se parto para aquela região com o pretexto de dar a vós ou a qualquer outro oficial general que ali empregueis uma ideia da região; e seria vão e infrutífero formar um plano para a defesa da região que dependerá da execução doutro. Na verdade, este último apenas me trairia desgraça, e desapontar-vos-ia.
Perante estas circunstâncias, disse a Sir Hew Dalrymple que ele não era capaz de executar o dever que vós haveis desejado que eu cumprisse; que eu não era um engenheiro topográfico, e que não tencionava descrever por escrito uma região como as Astúrias; e aparentemente ele pensou que alguns cavalheiros do departamento do Quartel-Mestre-General poderiam ser empregues mais utilmente neste serviço. Espero que não creiais que sinto alguma aversão a executar qualquer serviço em que possais pensar que vos posso ser mais útil; e que desencorajei a ideia de ser empregado naquilo que me foi proposto unicamente devido à minha incapacidade de executá-la como deve ser, e da certeza que não estaríeis consciente da natureza do serviço que me haveis requerido quando escrevestes a Sir Hew Dalrymple. 
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

O ofício que acabo de receber de Vossa Excelência, com os papéis que o acompanham, tem sido para mim do maior cuidado; ainda não deve dar muito um negócio de tanta gravidade quando chega ao ponto de se não poder remediar. Eu logo o fui conferir na Junta, e desta conferência resultou o assento que se tomou, e que vai dirigido a Vossa Excelência; e nas actuais circunstâncias, que mais pode Vossa Excelência fazer, nem a Junta? Nem nós podemos exigir mais de Vossa Excelência, nem Vossa Excelência de nós. Não podia ser novo para Vossa Excelência que havendo Exércitos combinados, sempre há desunião e desordem. Queira Vossa Excelência, digo, Nosso Senhor, livrar-nos dos franceses; tudo o mais a que não pudermos acudir e a que não cheguem as nossas forças, Nosso Senhor, de quem a causa é, proverá.
As perguntas de Vossa Excelência vão satisfeitas no modo possível na conjuntura presente, e Vossa Excelência não aumente aos seus actuais trabalhos considerações que o aflijam, e que nada remedeiam.
A inclusa ficou ontem de fora quando se fixou a carta, mas eu na minha quase que dizia o mesmo.
Nosso Senhor assista e dirija a Vossa Excelência em circunstâncias tão atadas, e guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 5 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência amigo muito venerador e obsequioso,

Bispo Presidente e Governador.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 36-37 (doc. 78)].

Carta da Junta do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (5 de Setembro de 1808)




Sendo visto nesta Junta do Governo Supremo o ofício do Marechal de Campo Bernardim Freire de Andrade em data de dois do corrente, com os mais papéis a que nele se refere, e o ofício do General inglês Dalrymple em data de 31 de Agosto, tomou a mesma Junta acerca do conteúdo neles a deliberação constante do assento de que se lhe remete a cópia inclusa. E quanto aos artigos constantes do ofício do mesmo General Bernardim Freire de Andrade, resolveu responder na forma seguinte:

1.º Se o General inglês não responder às explicações que se lhe pedem, que deveremos nós fazer? 
Deverá conformar-se com o espírito do assento incluso.

2.º Se o General inglês (o que não é natural) se prestar a não embaraçar as nossas operações separadas, se com efeito as devemos empreender?
Não havendo embaraço por parte do General inglês, e feita a necessária e prudente combinação entre as nossas forças e as do inimigo, seria muito decoroso à Nação empreender a destruição dele.

3.º Se o General inglês quiser (como é natural) sustentar a capitulação e opor-se às nossas operações, que devemos nós fazer?
Usar da moderação que exige uma força armada a que não podemos resistir.

4.º Se os corpos do Alentejo continuarem a obrar apesar da Capitulação, se devemos nós em todo o caso obrar com eles? 
Neste caso se resolve que dirija em continente uma requisição ao General inglês para que faça logo reprimir os franceses e que não o fazendo assim tome a deliberação de partir logo a defender e auxiliar os seus nacionais, e o faça com todas as forças que puder unir.

A mesma Junta, não podendo em tão grande distância e incerteza resolver as dúvidas ocorrentes em casos de conflito e que não admitem demora, autoriza o mesmo General Bernardim Freire para convocar Conselho Militar e proceder segundo as deliberações do mesmo Conselho, conformando-se sempre com as intenções desta Junta constantes do assento incluso.

Porto, 5 de Setembro de 1808.

Bispo Presidente e Governador.
Manuel Lopes Loureiro.
António da Silva Pinto.
José de Mello Freire.
José Dias de Oliveira.
Luís de Sequeira da Gama Ayala.
António Mateus de Andrada Coutinho.
Francisco Osório da Fonseca.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 37-38 (doc. 79)].

Assento da Junta Provisional do Governo Supremo do Porto (5 de Setembro de 1808)





Aos cinco dias do mês de Setembro de mil oitocentos e oito, nesta cidade do Porto, em Plena Sessão da Junta Provisional do Governo Supremo, sendo propostos pelo seu Excelentíssimo Presidente os ofícios do General em Chefe do exército britânico Dalrymple em data de trinta e um do mês passado, e do General do exército português Bernardim Freire de Andrade em data de dois do corrente, se resolveu uniformemente tomar-se o Assento seguinte:

Que suposta a ignorância em que se acha esta Junta do Governo Supremo, dos poderes que os Generais do Exército inglês trouxeram de Sua Majestade Britânica, e semelhantemente na incerteza em que se acha a mesma Junta das condições da Convenção ultimamente concluída entre o Comandante em Chefe francês de uma parte, e o Almirante Comandante da Armada de Sua Majestade Britânica e o Excelentíssimo General Dalrymple de outra parte, assenta a mesma Junta que não pode tomar deliberação alguma positiva sobre negócios de tanta ponderação e de tão graves consequências, que não seja confiar da sua Fidelíssima Aliada a Grã-Bretanha a Segurança do Reino, os Direitos da Monarquia e os Interesses da Nação, na certeza de que não cabe nos limites da mesma Junta aprovar condição alguma da sobredita Convenção que possa ser prejudicial a qualquer destes referidos objectos; e que nesta conformidade se responda a um e outro General, remetendo-se a cada um deles a cópia deste assento. 
Porto, era ut supra.

Bispo Presidente Governador.
Com sete rubricas dos sete Deputados da Junta do Governo Supremo.

Manuel Joaquim Lopes Pereira Negrão, Secretário da Junta Suprema.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 38-39 (doc. 80); Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 92-93. Este documento foi publicado originalmente em inglês: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, pp. 222-223 (doc. 151)].

Carta [fictícia?] dirigida a vinte e dois ingleses que pediram uma casa de campo em que habitava o seu dono, mas que se havia ausentado dela por alguns dias (5 de Setembro de 1808)



Meus camaradas:

É com muito gosto que recebo a notícia de que a minha casa pudesse servir a algum indivíduo do Exército auxiliar inglês.
Eu a ofereceria de boa vontade, se eu soubera que ela podia ter um tão lisonjeiro destino.
Agradeço-vos a escolha que dela fizestes; e podeis dispor dela como se fosse de propriedade inglesa. Dizeis assim ao vosso General, e felicitai-o juntamente da sua gloriosa comissão.
Este novo motivo acelera a minha partida para esse sítio; porém, com vossa permissão nos poderemos arranjar todos: e desde já vos mando aprontar os quartos em que possais estar mais comodamente.
Podeis dispor de tudo que houver nessa casa e da pequena horta que aí tenho, e disporeis de minha vontade toda inteira quando eu vos abraçar.
Sejais bem vindos.

[rubrica ilegível]

Quinta do Alvito, 5 de Setembro de 1808.


domingo, 4 de setembro de 2011

Carta do Duque de Portland, Primeiro-Ministro do Governo britânico, a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (4 de Setembro de 1808)



Bulstrode, Domingo ao meio-dia, 4 de Setembro de 1808.





Meu caro Senhor:

Não sei como expressar a minha admiração e perplexidade pelos termos do papel que passa por ser a Convenção feita por Sir Arthur Wellesley e Kellermann. Talvez sejam os termos propostos pelo último; mesmo assim, parece-me tão absurda a ideia de que foram considerados por um momento, que dificilmente consigo imaginar que um francês poderia ter segurança para os propor. Porém, é impossível que algum oficial inglês os tenha aprovado. Supor Sir Arthur Wellesley como sendo capaz de fazer um tal sacrifício do interesse, da honra e da boa fé do seu próprio país, e do seu próprio bom senso, seria um acto de injustiça que não me poderia perdoar ao culpabilizá-lo. Estou seguro que não necessito de requerer-vos, caro Senhor, a tomardes a primeira oportunidade que tiverdes para me libertardes desta cruel angústia, e a me esclarecerdes este enigma incompreensível. 
Sempre o vosso mais sincero,

Portland


[P.S.] Deverei estar na cidade amanhã à noite, depois do jantar. Pedi ao Coronel Brown e ao Capitão Campbell para jantarem comigo na Terça-feira [6 de Setembro]; se não tiverdes compromissos, ficarei muito contente em ter a vossa companhia.


P. 

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 423-424]. 

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao Brigadeiro-General Charles Stewart (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.





Meu caríssimo Charles*:

O tumulto do nosso júbilo pela conduta gloriosa e pelos sucessos de Wellesley foi perturbado cruelmente por uma comunicação de [D. Domingos de] Sousa [Coutinho] sobre uma suposta Convenção, em cuja cópia aparece inscrito o nome de Wellesley; se fosse levado a efeito, este instrumento garantiria aos franceses vantagens para além daquelas que seriam alcançadas através dos sucessos mais brilhantes, ao passo que os seus 10.000 homens estão actualmente pressionados por nada menos que 50.000 homens, entre britânicos e portugueses.
Em 1.º lugar, Bonaparte é reconhecido, à face de tal instrumento, como Imperador dos franceses.
Em 2.º lugar, providencia uma retirada segura de um corpo do inimigo destituído de quaisquer outros meios de escape.
Em 3.º lugar, dá à França a inteira graça de ter salvado para a Rússia a sua frota, quando na verdade a França não dispõe dum resto de poder para protegê-la.
Em 4.º lugar, sacrifica gratuitamente a frota dum inimigo, e, pela forma como o faz, reconhece direitos de neutralidade da parte de Portugal em relação à Rússia, os quais, se pudessem alguma vez ter subsistido num porto ocupado por um exército francês, teriam sido destruídos, mesmo em aparência, pela nomeação formal de Junot como o Tenente de Bonaparte em Portugal; e implica sobre todos nós o embaraço de observar um porto dos nossos com uma frota, enquanto devemos dar ao inimigo quarenta e oito hora de avanço, para que não possamos apanhá-lo.
Em 5.º lugar, dá à França não só o uso imediato do seu exército, o qual não poderia ter sem a nossa assistência activa, mas também o que se saqueou em Portugal, debaixo da máscara de propriedade privada.
Em 6.º lugar, dá à França toda a graça de ter protegido aqueles portugueses que traíram o seu soberano, enquanto nos implica na desgraça de expor os nossos aliados a ser posteriormente atacados por uma frota que a França teve a autoridade e meios para proteger. Acreditará a Espanha ou a Europa que isto foi antecedido por triunfos da nossa parte? E não ficará a França convencida do contrário?
Em 7.º lugar, finalmente, parece ser, no seu resultado geral, uma feliz maquinação, segundo a qual a Inglaterra teria feito um esforço poderoso apenas para tornar um Estado dependente no protector de um dos seus inimigos, enquanto [o próprio Armistício] se torna um instrumento segundo o qual o inimigo deve remover um exército duma posição que está perdida, para um onde pode recomeçar as sua operações com vantagem.
Não me posso perdoar por sentir a injustiça que é feita a Wellesley, ao supor que algum poder na terra o poderia ter induzido a ter uma parte individual em tal acordo; não imagino nenhum oficial britânico a ser capaz de fazê-lo, e muito menos aquele a quem confiámos a chefia do comando do nosso exército e marinha. [Para além disto] é uma Convenção que nenhum oficial francês honrado poderia propor por escrito, enquanto acordo racional entre as partes, e que, até enquanto esboço ou primeiro projêt [sic], para ser oferecido para consideração, necessitaria de todo o descaramento solene daquela nação.
Somente a posso entender enquanto suspensão de armas; e, se tivesse sido assinada enquanto tal, ainda que sendo politicamente desaconselhada, não estaria cheia de estipulações sobre os pontos mais importantes a ser ajustados; pois na verdade deixa para trás detalhes poucos importantes para negociar. Resumindo, é uma base falsificada algures, e nada me pode convencer a acreditar que seja genuína.
Deus vos abençoe, caríssimo Charles!
Com pressa,

Castlereagh

[P.S.] Escrevo a Dalrymple, incluindo a nota de Sousa, juntamente com a resposta de Canning, na qual se declara a total descrença do caso, bem como a indignação deste Governo perante o ataque de um poder [=Junta Suprema do Porto] que somente pôde surgir através dos nossos meios, e que tenta arrogar direitos que não tem, com o objectivo de voltá-los para a protecção de um inimigo que tem sido de facto dela, enquanto nos ajuda tanto quanto auxiliou os franceses a manterem-se em Lisboa.

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 421-423]. 

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Nota:

Brigadeiro-General Charles Stewart (meio-irmão do próprio Lord Castlereagh), tinha partido da Inglaterra em finais de Julho com a expedição do corpo militar comandado pelo General John Moore. Como já referimos, devido a uma tempestade, as embarcações que traziam a bordo estes militares demoraram mais de duas semanas para se reunirem no ponto combinado, a oeste do cabo Finisterra. Para evitar perder mais tempo, enquanto Moore acabava de reunir a frota que trazia os seus corpos, o General Harry Burrard (segundo no comando do exército britânico destinado a Portugal), que também vinha nesta expedição, decidiu adiantar-se, a bordo duma fragata, no dia 16 de Agosto. Ao chegar ao Porto, Burrard recebeu as cartas que Wellesley lhe tinha ali deixado e decidiu partir imediatamente ao seu encontro, vendo-se no entanto impossibilitado (devido a ventos contrários) de enviar ordens a Moore para este o seguir. Depois de esperar algum tempo pelas ordens de Burrard, e apercebendo-se que estas não chegariam tão cedo devido aos referidos ventos contrários, Moore acabou por decidir partir para o sul. Charles Stewart, que, como dissemos, vinha nesta expedição, teria então avançado à frente de Moore, partindo para o Porto (no dia 17 ou 18) para entrar em contacto com Burrard, ou, se este já tivesse partido (o que realmente ocorrera, como acima ficou dito), para saber quais eram as suas ordens. Stewart desembarcou no Porto (no dia 18 ou 19), sendo então informado que Burrard partira ao encontro de Wellesley. Devido a este inesperado conjunto de circunstâncias, Stewart encontrou-se na mesma ocasião com o Brigadeiro-General Frederick von Decken, agente secreto do Governo britânico, que tinha acabado de chegar ao Porto no dia 17 de Agosto, e que logo nessa noite se encontrara com o Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto. Von Decken aproveitou assim a passagem de Charles Stewart para lhe encarregar de ser o portador da sua primeira carta a Dalrymple sobre as intenções do Bispo do Porto. Sabemos que Charles Stewart chegou ao Vimeiro no dia 24 de Agosto, antes de John Moore, com a referida carta de von Decken, mas a partir daí ignoramos o seu destino, sendo bastante provável que se tenha mantido, pelo menos até à data da carta acima traduzida, com o exército agora comandado por Dalrymple. 

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Hew Dalrymple (4 de Setembro de 1808)





Esboço*.



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.



Senhor:

Não posso permitir que a minha carta oficial de hoje parta sem incomodar-vos com algumas linhas, a fim de declarar confidencial e privadamente o estado sincero dos sentimentos do Governo sobre a comunicação do senhor Sousa.
Não podemos certamente dar qualquer crédito aos papéis que ele transmitiu**; e ainda estamos incapazes de compreender a ideia errada que lhe foi imposta. O acordo parece-nos muito mais vantajoso para os franceses do que alguma vez poderiam pretender reivindicar;  ainda que seja este o caso, estamos inclinados a não lhe dar crédito; porém, os termos, tal como se referem a Portugal, bem como ao sacrifício gratuito da frota russa, não para a Rússia, mas para a França - pois só a França poderia tirar proveito de tal estipulação - tornam improvável, no nosso julgamento, que [os ingleses] tenham anuído a tais proposições; e apenas podemos supor que o General Kellermann talvez tivesse avançado com tal papel enquanto primeiro projecto, e que, enquanto tal, pudesse ter sido autentificado pelas assinaturas que nele estão inscritas. Resumindo, é difícil pensar sobre este assunto na sua forma actual, e espero que em breve sejamos libertados da tarefa de nos esforçarmos para resolver este enigma, que o ministro português [D. Domingos de Sousa Coutinho], com a declaração das pretensões mais injustificáveis da parte da sua corte, induziram-me a transmitir-vos, juntamente com a resposta que ele recebeu do senhor Canning
Tenho a honra de ser, etc.,

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, p. 425]. 


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Notas:

Na edição que consultámos para a presente tradução, indica-se que este documento é um esboço [draft], e assim sendo ignoramos se Castlereagh o chegou a enviar, ipsis verbis, ao seu destinatário. 

** Como se percebe pela nota oficial de D. Domingos de Sousa Coutinho a George Canning e pela resposta deste último, entre os diversos documentos que o referido embaixador de Portugal em Londres apresentou à Secretaria dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, no dia 3 de Setembro, encontravam-se pelo menos os seguintes (aqui ordenados por ordem cronológica):

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Harry Burrard (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Recebi, através do Capitão Campbell, ajudante de campo do Tenente General Sir Arthur Wellesley, o vosso ofício de 21 do passado mês, que incluía a notícia que aquele General vos tinha dirigido sobre a assinalada vitória obtida pelas forças de Sua Majestade debaixo das suas ordens, ao ser atacada, no Vimeiro, pela totalidade da força francesa em Portugal, comandada pessoalmente pelo General Junot. 
Depois de transmitir o mesmo ofício a Sua Majestade, recebi ordens de Sua Majestade para que declareis ao Tenente General Sir Arthur Wellesley que a disposição que ele tomou para receber o inimigo, bem como a perícia e valor que ele demonstrou ao conseguir derrotá-lo completamente, proporcionaram a Sua Majestade a mais alta satisfação.
A conduta do Major General Spencer e dos outros Generais e Oficiais que tão habilmente executaram as ordens que receberam, demonstrando tantos exemplos de discernimento e de valor, é altamente honorável para eles próprios e satisfatória para Sua Majestade.
Tereis o prazer de comunicardes a satisfação que Sua Majestade sentiu perante a bravura deliberada e firme pela qual as suas tropas se distinguiram, reflectindo ao mesmo tempo igual honra perante o carácter e disciplina do seu exército, qualidades que por si só permitem contemplar permanentemente o sucesso na guerra.
A delicadeza e a honorável paciência que vos determinou, apesar de presente na acção, a não interferirdes com as disposições previamente tomadas pelo Tenente General Sir Arthur Wellesley, que estavam então a ser executadas, foram observadas por Sua Majestade com aprovação.
Tenho a honra de ser, etc., 

Castlereagh

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 123-124].

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Wellesley (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Recebi, através do Capitão Campbell, vosso Ajudante de Campo, os vossos ofícios de 16 e 17 de Agosto, contendo o primeiro o relato da acção em Alcobaça [sic], que obrigou o inimigo a retirar os seus postos avançados; e contendo o do dia 17 o relato do vosso ataque, com as tropas debaixo do vosso comando, sobre os corpos avançados do inimigo na sua posição formidável perto de Óbidos [sic], e da sua completa derrota.
Estes ofícios foram comunicados a Sua Majestade, e transmito-vos por este meio a plena satisfação de Sua Majestade perante a conduta hábil, sensata e decisiva que haveis demonstrado, através da qual as armas de Sua Majestade reflectiram tanto crédito, e que tanto facilitou o avanço do exército no sentido de reduzir completamente o inimigo.
Sua Majestade também manifestou que é do seu real agrado que transmitais a sua mais grata aprovação ao Major General Spencer e aos Generais e outros Oficiais debaixo do vosso comando, pela perícia, valor e perseverança que revelaram, e às tropas em geral, pela coragem, frieza e determinação que parece que marcaram a sua conduta.
Tenho a honra de ser, etc., 

Castlereagh


Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao General Arthur Wellesley (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.


Meu caro Wellesley:

Acreditareis facilmente que poucos acontecimentos na minha vida, na verdade posso dizer nenhum, deram-me mais gratificação que as notícias das vossas duas esplêndidas vitórias, às quais dificilmente sei dar a preferência. A do dia 21 [batalha do Vimeiro] foi certamente a mais importante em todos os seus resultados, e teve certamente mais características de uma grande vitória; mas existem aspectos na primeira [batalha da Roliça], que não necessito particularizar, que a tornam, como feito militar, não menos merecedora de aplauso. Houve algo caprichosamente providencial no ataque que o inimigo fez sobre vós, no preciso momento que o vosso comando estava passando (e de facto passou formalmente) para outras mãos a glória dos vossos sucessos, ataque esse que a vossa moderação pessoal e o sentido de dever vos induziram a não provocar por qualquer aceleração extraordinária das vossas operações.
Haveis recebido a recompensa dos princípios que governaram a vossa conduta, numa ascensão importante de reputação militar, e haveis sulcado os fundamentos, segundo espero, duma sucessão de triunfos, tão frequentes quanto possamos levar as tropas britânicas a contactar com o inimigo em termos justos. 
Não vejo o Rei desde que o Capitão Campbell chegou. A nota que me enviou assinala como desfrutou dos vossos serviços; e soube que ele ouviu os detalhes das vossas cartas com tanto interesse e atenção que as sabe quase de cor.
Qualquer outro assunto não me pode incomodar, ao misturar-se com os indivisos sentimentos de gratidão e admiração com que vos dou os meus agradecimentos e parabéns pelos serviços que prestastes ao exército, tal como aos interesses imediatos do vosso próprio país; e estou convencido que, seja qual for o lugar que ocupeis agora no exército, as vossas qualidades enquanto oficial serão reveladas com um zelo igual como enquanto estivestes encarregado do comando supremo.
Reservo-me a escrever sobre outros pontos até uma nova ocasião. 
Sempre, meu caro Wellesley, o vosso mais sincero

Castlereagh


Ofício confidencial de George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico, a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres (4 de Setembro de 1808)



Confidencial




Ministério dos Negócios Estrangeiros, 4 de Setembro de 1808.


O abaixo assinado, Primeiro Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Sua Majestade, tem a honra de acusar a recepção da nota oficial do Cavalheiro de Sousa Coutinho, incluindo a cópia de uma Convenção que se supõe ter sido concluída entre os Comandantes dos exércitos britânico e francês em Portugal, juntamente com as observações do General Bernardim Freire de Andrade e do Bispo do Porto a seu respeito, assim como a cópia de uma carta dirigida pelo Bispo do Porto ao Comandante da esquadra russa no Tejo.
Quanto ao primeiro destes documentos, cumpre ao abaixo assinado certificar ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que não foi transmitido ao Governo de Sua Majestade; que a suposta Convenção parece apresentar bastantes razões de dúvida na sua autenticidade, e que se deve nutrir firme esperança de que ou a sua substância virá provar que foi erradamente anunciada, ou que o seu intento e natureza foram expressos de um modo inexacto.
O abaixo assinado deseja com sinceridade que possa haver dúvidas da mesma espécie quanto à autenticidade da carta do Bispo do Porto ao Almirante russo, escrita, como parece, a 22 de Agosto, e, por conseguinte, ainda antes que a suspeita da Convenção (tal como é representada) pudesse chegar ao Porto.
Mas, se esta carta se considerar genuína, e se pela sua comunicação ao Governo britânico se pretendeu intervir para proteger a esquadra russa, o abaixo assinado tem ordem de notificar imediatamente ao Cavalheiro de Sousa Coutinho o modo por que tal intervenção seria olhada por Sua Majestade.
Sua Majestade manda um exército para libertar Portugal do domínio da França e para se apoderar de uma esquadra inimiga ancorada num porto ocupado pelos exércitos franceses e inteiramente debaixo da sua autoridade.
As armas de Sua Majestade ganham uma vitória sobre as da França, o que promete a realização de um dos fins indicados.
Com tanta surpresa como indignação saberia Sua Majestade que o primeiro uso que faziam da vitória aqueles em cujo proveito se deu a batalha, era assumirem o exercício dos direitos de independência e neutralidade para proteger contra os conquistadores a esquadra de outro inimigo de Sua Majestade, aliado e confederado da França.
O abaixo assinado tem ordem de protestar com a maior energia contra uma pretensão tão absolutamente injustificável, e de negar autoridade ao Bispo do Porto ou a qualquer outro Governo Provisório para se interpor entre as armas vitoriosas de Sua Majestade e as consequências naturais da vitória.
Se tal pretensão fosse mantida em nome do Príncipe Regente pelo Ministro acreditado de Portugal, cumpria a Sua Majestade pensar seriamente qual a consideração que merecia um país cujo livramento as armas de Sua Majestade empreenderam e que convertia esse benefício em vantagem dos inimigos de Sua Majestade.
O abaixo assinado tem além disto ordem de Sua Majestade para recomendar à atenção do Cavalheiro de Sousa Coutinho a parte da carta do Bispo do Porto em que se menciona um «Tratado de aliança ultimamente concluído entre Sua Majestade Fidelíssima e o Imperador da Rússia», e de pedir ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que o informe de qual é o Tratado a que se alude.
O abaixo assinado pede ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que aceite os protestos da sua subida consideração.


George Canning


[Fonte: Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 86-91 (texto original e tradução portuguesa - itálicos conforme o original)]