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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Memorando do General Wellesley ao General em Chefe Dalrymple (23 de Agosto de 1808)



I. Seria muito desejável instruir o Coronel Murray hoje bem cedo, para instar ao Almirante [Charles Cotton] a comunicar-se com o Almirante russo, a fim de que este último seja informado que, qualquer que seja o resultado das negociações entre Sir Hew [Dalrymple] e o Duque de Abrantes, a esquadra russa não deverá ser incomodada, se eles se comportarem como deve ser num porto neutro, e se não tomarem parte na contenda. 

II. Se o Almirante [Cotton] consentir nesta disposição a favor dos russos, e se estes ficarem satisfeitos com este ponto, o Comandante em Chefe francês deverá ser pressionado sobre os seguintes pontos na negociação para a Convenção: 

1.º O forte de Peniche será evacuado em dois dias; o forte de Elvas e de Lippe em quatro dias; o forte de Almeida em cinco dias; o exército francês atravessará o Tejo e evacuará Lisboa e todos os fortes do Tejo em quatro dias a partir da assinatura da Convenção, e preparar-se-á para embarcar em sete dias, ou logo depois que o Comandante em Chefe britânico o possa indicar. 
Entretanto, o exército britânico poderá usar o porto de Lisboa e navegar no Tejo. 

2.º Determinar-se-á o modo de pagamento do contrato dos transportes. 

3.º Determinar-se-á o porto para desembarcar os franceses; Rochefort ou Lorient serão os melhores, por estarem a grande distância da Espanha e da fronteira austríaca. 

4.º Será requerida uma garantia para os transportes que forem aos portos indicados, e para o regresso dos mesmos; pois cinquenta deles enviados com o exército [francês] do Egipto ficaram detidos na França. 

5.º Planear-se-á algum modo para fazer com que os Generais franceses restituam a prata das igrejas que tenham roubado. 

6.º Determinar-se-á uma troca de prisioneiros. 

7.º Não haverão transportes para os cavalos, e deve-se permitir que os franceses deixem aqui comissários para vender os cavalos ou para contratar embarcações para transportá-los para a França, mas certamente não a própria cavalaria. 

Ramalhal, 23 de Agosto de 1808. 


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto ao Almirante Séniavin, comandante da esquadra russa ancorada no Tejo (22 de Agosto de 1808)



A Junta do Supremo Governo instituído nesta cidade do Porto, à qual se têm unido e subordinado as províncias do norte de Portugal para o fim da restauração do mesmo reino, e restituição dele ao seu legítimo Soberano, o Príncipe do Brasil, tendo reintegrado as suas antigas alianças com o reino da Galiza, e com a sua fidelíssima aliada a Grã-Bretanha, estimaria muito poder renovar na Real presença do Imperador de todas as Rússias o Tratado de aliança ultimamente celebrado entre a Corte de Petersburgo e Sua Majestade Fidelíssima. Mas não permitindo o aperto do tempo nem a grande distância, que o actual Governo de Portugal dirija directamente a Sua Majestade Imperial os seus respeitosos ofícios, toma a deliberação de representar ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Almirante da esquadra russiana [sic] fundeada no porto de Lisboa os sinceros desejos que tem de conservar a mesma inteligência e boa harmonia que entre as duas Corôas havia no tempo da partida de Sua Alteza Real para os seus Estados do Brasil.
Porto, 22 de Agosto de 1808.


Carta do Almirante Cotton à Junta de Sines (22 de Agosto de 1808)


A bordo da nau de Sua Majestade Britânica a Hibernia, fora da barra do Tejo, 22 de Agosto de 1808.


Meus Senhores:

Tenho a honra de reconhecer o recebimento da sua carta com data de 16 do corrente, pedindo-me que deixasse a fragata Comus para guardar a costa de Sines. O Capitão Smith, Comandante da dita fragata, é despachado agora por mim expressamente para informar a Vossas Excelências das várias causas que motivam a sua retirada por breve tempo daquele serviço, em que tem sido tanto tempo, e tão bem empregado, a principal das quais causas é ajudar efectivamente a bloquear o Tejo e impedir que o comum inimigo já quase reduzido à última extremidade, não escape com os tesouros que tem roubado neste país; para efeito de semelhante serviço, pequenas fragatas, da natureza da Comus, são da primeira utilidade.
Além disso, tenho bem fundadas esperanças que nada tem que temer semelhante à horrível calamidade que Vossas Excelências dizem ter acontecido em Évora, pois que toda a força do inimigo está actualmente dirigida contra o exército britânico ao norte do Tejo.
O Capitão Smith os informará duma gloriosa batalha dada em Roliça entre os franceses e ingleses, auxiliados estes pelos portugueses, aos 17 do corrente, no qual a divisão do General Delaborde ficou totalmente destroçada, como também da derrota do General Junot no dia 21 seguinte. Tenho esperado com ansiosa expectação ouvir que os leais habitantes das vilas e lugares se têm unido aos de Sines e se têm aproximado a Setúbal, aonde entendo que ficam poucos ou nenhuns franceses, e onde está ancorado um navio de guerra para cooperar com os valorosos sujeitos que determinam esforçar-se para manter a sua independência, ou mesmo a sua existência.
Parece-me supérfluo repetir a Vossas Excelências que, para serem bem sucedidos, é preciso que sejam unânimes, nem intimidados por ameaços, nem seduzidos com promessas, e que a cordial e enérgica cooperação de todos os estados [=classes sociais] é necessária para sustentar uma causa tão grande e gloriosa qual é a em que todo o verdadeiro e leal português está actualmente empenhado.
Tenho a honra de ser, etc.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, p. 46-47].

sábado, 20 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley ao Capitão Bligh do navio Alfred (20 de Agosto de 1808)



Vimeiro, 20 de Agosto de 1808, onze e meia da manhã.


Meu caro Senhor:

Fiquei muito agradecido pela vossa carta de ontem. Acabei de vir da Maceira [=praia do Porto Novo], onde espero que desembarcareis o pão, munições, etc., e as selas. Parece ser um bom lugar para o desembarque, tem uma boa estrada, e não é muito longe daqui; mas se achardes que aquele lugar é inconveniente, planearei comunicar com outro qualquer lugar em que possais fazer o desembarque.
Tenciono marchar amanhã para Mafra; ficaria contente se estiverdes na costa da Ericeira amanhã à tarde. Planeio comunicar convosco amanhã ou no dia seguinte, e anunciar o próximo lugar de encontro.
Não receio quaisquer acidentes; mas devo manter os transportes por alguns dias, em caso que ocorra algum. Eles também podem ser úteis para voltearem qualquer posição que o inimigo possa tomar nas vizinhanças do cabo da Roca. 
Acreditai em mi, etc., 

Arthur Wellesley

P.S.: Se o General Acland se reunir a vós, mantende-o convosco, e rogai-lhe que mo faça saber imediatamente.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley ao Almirante Charles Cotton (18 de Agosto de 1808)


Lourinhã, 18 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Tenho o prazer de informar-vos que ontem derrotei o corpo de Laborde, numa acção cujas circunstâncias estão detalhadas no ofício anexo, destinado a Sir Hew Dalrymple, que peço que examineis, e que lhe envieis na primeira oportunidade. Fui informado que o inimigo perdeu 1.500 homens. As nossas baixas são cerca de 70 mortos, 350 feridos, e uns poucos desaparecidos, incluindo oficiais.
Espero enfrentar-me com o total do seu exército num dia ou dois, e, em qualquer caso, espero estar nas vossas vizinhanças pouco depois. Se Junot, que está com o exército, decidir retirar-se, deverei estar em Mafra depois de amanhã, segundo espero; mas recomendo que não desembarqueis os vossos soldados da marinha, etc., até que tenhais novas notícias de mim. 
Estão com o Capitão Bligh 2.500 homens comandados pelo General Anstruther, e decidi desembarcá-los amanhã.
Acreditai em mim,

Arthur Wellesley

[
Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, p. 88].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra (18 de agosto de 1808)




Lourinhã, 18 de Agosto de 1808 


Meu Senhor: 

Já depois de vos ter escrito na noite passada, soube pelo Brigadeiro General Anstruther que ele se encontra na costa de Peniche, com a frota de provisões e de navios de transporte chefiada pelo Capitão Bligh, do Alfred, com uma parte da força destacada da Inglaterra, comandada pelo Brigadeiro General Acland, em consequência de ter recebido as cartas com as ordens que tinha deixado na baía do Mondego para o General Acland, as quais ele abriu. 
Ordenei ao Brigadeiro General Anstruther para desembarcar imediatamente; e marchei para este lugar, com o objectivo de proteger o seu desembarque e facilitar a sua junção. 
Durante a noite passada, o General Loison juntou-se ao General Laborde, em Torres Vedras; e fui informado que ambos começaram a marchar em direcção a Lisboa nesta manhã; também me informaram que o General Junot chegou hoje a Torres Vedras, com um pequeno corpo de Lisboa; e concluo que a totalidade do exército francês estará reunida entre Torres Vedras e a capital nos próximos dias. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Continuação da memória sobre a viagem do Núncio Apostólico Lorenzo Caleppi, desde a Inglaterra até à sua chegada ao Rio de Janeiro, a 8 de Setembro de 1808







Chegado à cidade de Plymouth [no dia 11 de Maio], Monsenhor Núncio foi aí acolhido do melhor modo pelo Major ou chefe da Polícia, e dali se dirigiu à vizinha cidade de Plymouth-Dock, para hospedar-se numa casa particular bastante decente, na qual noutros tempos tinha morado o Marquês de Niza, almirante português. Pouco depois da sua chegada, veio visitá-lo um sacerdote francês, Mr. Guilbert, que era pároco dos católicos naquele distrito, e o Almirante que o comandava, Mr. W. Young, mandou o seu capitão cumprimentá-lo e anunciar-lhe que o Almirante viria fazer-lhe uma visita, o que de facto fez, dando-lhe as maiores demonstrações de respeito, e convidando-o com insistência a ir na mesma manhã almoçar com algumas pessoas em sua casa. Nesse almoço, o Almirante convidou as pessoas presentes a beberem à saúde do Santo Padre, e Monsenhor Núncio, sensiblizado por essa especial atenção, correspondeu a esse gesto bebendo à saúde do Rei da Inglaterra e da Nação inglesa. Durante todo o tempo que permaneceu nessa cidade, Monsenhor Núncio recebeu as maiores demonstrações de acatamento, e as maiores atenções por parte de todas as pessoas de distinção, e particularmente da sua parte desse mesmo Almirante, que deu vários banquetes em sua honra, e no terceiro ou quarto dia depois da sua chegada a Plymouth foi à casa de Monsenhor Núncio, para declarar-lhe francamente que dali por diante todas as atenções que para com ele tivesse devia Monsenhor Núncio considerá-las a ele feitas por ordem do governo britânico, que, informado da sua chegada, acabava de mandar-lhe ordem expressa nesse sentido, por meio do telégrafo. Não omitiu Monsenhor Núncio, na manhã do dia 15, que era domingo, de ir à capela católica havia pouco construída pelo citado pároco, num lugar chamado Stonehouse, que se acha à igual distância das duas cidades de Plymouth e de Plymouth-Dock, e ali celebrou a Santa Missa, com assistência, além de católicos, de muitos protestantes, e ali assistiu depois, em hábito prelatício, à missa e ao sermão pronunciado pelo mesmo pároco. É digna de nota a observação que no mesmo dia fez à mesa o Almirante Young, já informado da missa celebrada por Monsenhor Núncio, que era ele o primeiro Núncio Pontifício que, depois das desgraças religiosas da Inglaterra, isto é, desde mais de dois séculos e meio, nela houvesse celebrado a Santa Missa, e que a havia celebrado precisamente no mesmo lugar em que os huguenotes foragidos da França tinham procurado asilo, portanto, no próprio sítio que foi o berço do protestantismo. No dia 15 desse mês de Maio, Monsenhor Núncio recebeu também uma especial distinção por parte do Lord Visconde de Strangford, que depois de ter estado em Lisboa como encarregado de negócios da Inglaterra, e que devia partir no dia seguinte para o Brasil por haver sido nomeado por Sua Majestade Britânica seu enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto ao Príncipe Regente, veio a cavalo a Plymouth-Dock, com dois adidos à Legação inglesa, de Forbay, distante cerca de cinquenta milhas, com o único fim de fazer a Monsenhor Núncio uma visita de cortesia. Tal, porém, foi a surpresa que causaram a Lord Strangford a magreza e o estado em que encontrou Monsenhor Núncio, em consequência dos incómodos que sofrera, como já dissemos, que o aconselhou a ficar algum tempo na Inglaterra para recuperar as forças; chegado ao Brasil, não fez dúvida em dizer que receava que Monsenhor Núncio não tivesse podido prosseguir sua viagem. A sua saúde, entretanto, foi visivelmente melhorando de dia a dia, o que lhe permitiu sem maior incómodo empreender no dia 20 de Maio a viagem por terra a Londres, a convite do Ministro Plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, para celebrar na Capela Real de sua casa [um] solene Te Deum pela notícia que havia recebido nesses dias da feliz chegada da Família Real ao Brasil, e ainda para obter embarque conveniente para o Rio de Janeiro, esperançado também de que não resultasse aos católicos da Irlanda inútil a sua presença ali, pois tratava-se nessa ocasião, no Parlamento, da grande questão que lhes dizia respeito, da devolução dos seus privilégios e admissão a todos os empregos públicos, sem excepão, do mesmo modo que os outros súbditos ingleses protestantes. Mesmo antes de partir de Plymouth-Dock, Monsenhor Núncio recebeu do mesmo Almirante Young [uma] nova e inequívoca prova de sua estima e do seu afecto para com ele, pois não só por ocasião da visita de despedida chegou a prorromper em pranto, mas ainda, depois de tudo haver disposto para essa viagem até Londres, quis ele mesmo levá-lo à sua carruagem, dizendo ao mesmo tempo que essa atenção de sua parte obrigava também outros a prestarem-lhe todas as deferências no correr da viagem.
Seria longo enumerar com pormenores as homenagens, as provas de veneração e as atenções que Monsenhor Núncio recebeu em Londres (aonde chegou no dia 22 de Maio, e onde permaneceu até 30 de Junho), por parte dos Ministros de Sua Majestade Britânica, do corpo diplomático, dos senhores e damas da primeira sociedade,e de toda classe de pessoas, destacando-se entre outras o ministro plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, o Sr. Cavaleiro D. Domingos de Sousa Coutinho. Bastará assinalar somente de modo particular que o Duque de Portland, chefe do ministério britânico, lhe ofereceu um lautíssimo banquete oficial, com convite prévio de vinte e tantos dias, que Sua Majestade Britância, por intermédio de Mr. Canning, seu alto Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, o presenteou com uma caixa com seu retrato rodeado de grandes brilhantes, a qual foi avaliada em cerca de 1.200 guinéus (ou sejam cinco mil e quatrocentos escudos romanos); e que o mesmo monarca se dignou de ordenar que se aprestasse um navio de guerra da sua Marinha Real, e que abastecido esse navio abundantemente com as mais delicadas provisões de boca, fosse posto à disposição de Monsenhor Núncio para transportá-lo ao Brasil. A sua estada em Londres e a alta estima que com seu procedimento e suas palavras tinha grangeado de todos os partidos, contribuiram muitíssimo para a mudança, salientada pelas próprias gazetas inglesas*, que se efectou relativamente à oposição que os católicos tinham encontrado até então, devida ao seu zelo e às esperanças concebidas pelos parlamentares amigos dos católicos a respeito dessas suas pretensões; e se a causa destes não foi no momento decidida em seu favor de modo absoluto, mas somente diferida, pôde-se, entretanto, conceber a mais fundada esperança de feliz êxito, por ocasião de ser proposta novamente mais tarde. Pondo-se nos melhores termos com Monsenhor Bispo de Cantuária, Vigário Apostólico de Londres, com Monsenhor Milner, Bispo de Castabula, Vigário Apostólico do distrito dos Middlands da Inglaterra (o qual com autorização apostólica se achava em Londres para tratar dos negócios do clero e dos católicos da Irlanda), teve a satisfação de ver por esse tempo impressa em Londres uma pastoral deles, que incitava os católicos seus subordinados a fazerem orações especiais pelo Sumo Pontífice, por motivo da perseguição que lhe fazia o Imperador dos franceses, Napoleão; esse exemplo aproveitou-o mais tarde Monsenhor Núncio para animar ainda mais o zelo dos bispos da América portuguesa, espanhola e setentrional e da Ásia a seguirem esse proceder**.
Não satisfeito com tudo isso, quis, embora lhe faltassem instruções, fazer uma tentativa para alcançar, no modo que lhe era possível, a segurança da pessoa de Sua Santidade e dos Cardeais (cuja infeliz situação era denunciada pelas gazetas públicas) e para beneficiar a Roma e ao Estado Pontifíco; e para esse fim expediu uma nota, dirigida a Mr. Canning, Secretário de Estado dos Negócios estrangeiros, a fim de induzir o governo britânico a agir nesse sentido, nas ocasiões que se apresentassem. Finalmente, após haver assistido, em 31 de Maio, missa solene cantada na Real Capela portuguesa, entoando o Te Deum a que acima aludimos; depois de haver procurado edificar os católicos, comparecendo a todas as festividades, e de celebrar a Santa Missa nessa mesma capela, onde administrou um dia o crisma; depois de ter visitado para consolação espiritual delas vários mosteiros de religiosas, e outros lugares de devoção existentes nos arredores de Londres, partiu dali para o porto de Portsmouth, onde já se achava pronto o navio de guerra de que falámos acima, chamado Stork, que devia levá-lo ao Brasil, e onde recebidas que foram ali muitas atenções de parte dos católicos e das principais autoridades inglesas, partiu ele no dia 5 de Julho para Plymouth, onde tinha ficado um fâmulo com alguns caixões. Aí chegámos no dia 7 desse mês, e depois de renovadas aí as mesmas homenagens que já haviam tributado anteriormente a Monsenhor Núncio, na noite de 10 do dito mês, após haver celebrado na manhã novamente a santa missa na capela católica de Stonehouse, de que acima falámos, tornou a embarcar, acompanhado pelo ministro de Portugal já nomeado, que lhe fez a gentileza de deixar Londres para encontrar-se com ele em Plymouth; e na manhã do seguinte, 11 do [mesmo] mês, prosseguiu a bordo do Stork a viagem em direcção à Ilha da Madeira.
Nada aconteceu que merecesse particular menção até chegar-se ao Funchal, Ilha da Madeira, o que se deu na manhã de 25 de Julho, festa de São João Apóstolo. Estava ancorada no porto uma fragata inglesa, e o capitão dela, tendo sabido pelos sinais que a bordo do mesmo navio estava o Núncio Apostólico, avisou disso na noite anterior ao governador e capitão general português da ilha, em consequência do que este na manhã seguinte mandou os seus três ajudantes de ordens, numa magnífica falua (a que chamam os portugueses escaler) a cumprimentá-lo em seu nome e para conduzi-lo à terra, assim como também vieram cumprimentá-lo três cónegos da Catedral, entre os quais o vigário geral, juntamente com o reitor do seminário, oferecendo-lhe para sua morada o palácio episcopal, de acordo com as ordens que por precaução havia Monsenhor Bispo mandado de Lisboa, de onde não tivera ainda podido partir. Ao aproximar-se Monsenhor Núncio do desembarcadouro, oito fortalezas da cidade (entre elas também a que estava ocupada pelas tropas inglesas, que em número de cerca de 2.000 homens ali se mantinham como auxiliares das tropas portuguesas) o saudaram com tiros de canhão, e chegando a esse lugar, aí encontrou uma liteira (chamada cadeirinha), mandada pelo próprio governador e levada por seus criados, uma vez que nessa ilha não se faz uso de carruagens, por motivo de sua configuração montanhosa. Monsenhor Núncio, depois de haver sido saudado sob o rufo dos tambores pelas tropas ali enfileiradas, vendo a enorme quantidade de povo que se apinhava e se prostrava à sua passagem para receber a sua benção, desceu da liteira e se dignou, apesar do calor de um sol muito ardente, de satisfazer o afecto do povo, pois todos, grandes e pequenos, sacerdotes e religiosos, queriam beijar a sua mão sagrada. Também veio ao seu encontro o deão da catedral, que governava nesse tempo a diocese por encargo de Monsenhor Bispo, apesar de, pela sua idade provecta e seus incómodos de saúde, não ter podido acompanhar as outras pessoas até a bordo do navio inglês. Dirigindo-se Monsenhor Núncio à igreja catedral, para ali dizer a santa missa, e passando na vizinhança da fortaleza em que reside o governador, quis proporcionar-lhe a surpresa de sua visita, vindo ao seu encontro o mesmo governador fora da porta da casa, e nas escadarias, com alguns fidalgos e seus ajudantes de ordens. À porta da catedral veio recebê-lo o capítulo com suas vestes, o qual o acompanhou à capela do Santíssimo Sacramento, onde o pároco celebrou a Santa Missa, ficando a igreja, apesar de bastante grande, com as suas três naves repletas de gente, que continuou sem cessar durante o tempo de sua permanência no Funchal, a acorrer para beijar-lhe a mão e receber sua benção. Não só o governador português, mas também o general das tropas inglesas, Mr. Beresford, os quais foram visitar Monsenhor Núncio no palácio episcopal, lhe ofereceram uma escolta de honra, que ele recusou aceitar, e tanto um, como outro, caprichavam em dar-lhe as maiores demonstrações de homenagem e de estima, ofertando-lhe também lautos jantares em sua honra.
Nas quatro noites da permanência de Monsenhor Núncio, houve iluminação na catedral e noutras igrejas, conventos e lugares de devoção da cidade, que Monsenhor Núncio foi em pessoa visitar, recomendando em toda parte, de modo particular, que dirigissem a Deus preces fervorosas pelo Santo Padre. Suas vestes, quando andava na cidade, foram sempre o hábito prelatício de viagem, recebendo em todas as ocasiões as honras da continência com rufos de tambores, não só da parte das tropas portuguesas, mas também por parte das tropas inglesas. Mas, em vez de proporcionarem a Monsenhor Núncio esses poucos dias algum repouso dos incómodos que sofrera na viagem por mar, e para preparar-se ele à viagem mais longa que lhe restava fazer, não podiam senão torná-los ainda mais penosos por motivo das contínuas visitas e da expedição de muitos requerimentos que lhe eram apresentados por gente que queria aproveitar a sua passagem por essa ilha. Também foi muito instado para conferir ordens sacras, dado o longo tempo decorrido desde que Monsenhor Bispo se ausentara da diocese; mas ele, apesar de possuir para isso o consentimento desse mesmo Bispo, pelas palavras que este lhe dirigira em Lisboa, dado o caso que ele tocasse na Madeira, não quis, em vista da escassez do tempo, senão dar na capela do palácio episcopal a tonsura e as ordens menores a muitos eclesiásticos e a alguns franciscanos, administrando também o crisma aos ordinandos, que não o haviam recebido. Finalmente, feitos pelo capitão da nau inglesa Stork os novos abastecimentos necessários, na tarde de 29 do mês de Julho, depois de ter celebrado a santa missa na igreja catedral, à qual assistiu o capítulo dela, tornou Monsenhor Núncio a embarcar pela tarde, ao repique dos sinos da cidade, as tropas formadas diante da mesma catedral, e com um séquito de grande número de eclesiásticos, religiosos e imenso concurso de povo, ao qual, após ter-se embarcado no escaler régio, juntamente com o governador das fortalezas, e com os ajudantes de ordens do governador da cidade, deu a sua bênção. Salvaram novamente em sua honra as fortalezas da cidade e a nau inglesa Stork, a qual na manhã seguinte, 30 do mês de Julho, retomou a sua viagem em direitura ao Brasil. Quarenta dias durou essa viagem, que, embora feliz, por não ter acontecido desgraça alguma durante o seu curso, e em vista do excelente tratamento, assim das atenções recebidas do capitão e de todos os oficiais do navio, transcorreu com os muitos incómodos e com vários perigos e receios que acompanham sempre tão longas travessias por mar.
No dia da festa da Natividade da Beatíssima Virgem, que com visível protecção nos tinha sempre ajudado de modo particular, entrámos no belíssimo porto do Rio de Janeiro, capital do Brasil; reportando-me a respeito de tudo quanto aconteceu depois do navio ter ancorado, ao Diário, que à parte escrevi para dar conta de tudo quanto em coisas políticas diz respeito a Monsenhor Núncio, a partir do mesmo dia 8 de Setembro de 1808, até que praza ao Altíssimo deva durar a minha permanência no Rio de Janeiro, e até que possa quem escreve estas linhas continuar esta obra, que ele julgou não desprovida de valor, para escrever a memória daquilo que pode referir-se à honra da Santa Sé e dos seus representantes.


Rio de Janeiro, 23 de Março de 1811.




[Fonte: Anais da Biblioteca Nacional - Vol. LXI, Rio de Janeiro, 1939, pp. 15-58].

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Notas: 

* Cf. "Political Events of the Week", in The National Register, n.º 21, May 22, 1808, pp. 331-332; "State of Public Affairs", in The Universal Magazine, n.º LIV - Vol. IX, May, 1808pp. 444-445; "Monthly Retrospect of Public Affair's; or, the Chrisian's Survey of the Political World", in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXIX - Vol. III, May, 1808, p. 274 e in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXX - Vol. III, June, 1808, p. 339 e ss; "Pope's Nuncio in London", in The Literary Panorama, July, 1808, p. 799.


** Cf. Carta do Núncio Apostólico aos Excellentíssimos e Reverendíssimos Prelados dos Estados Hespanhoes, com algumas peças relativas, entre ellas: Notificação que o SS. Padre mandou publicar no dia em que entrárão as Tropas francesas em Roma, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1808.

Carta do General Arthur Wellesley ao General Harry Burrard, sobre o estado das circunstâncias em Espanha e Portugal (8 de Agosto de 1808)



Lavos, 8 de Agosto de 1808



Senhor:

Como recebi instruções da Secretaria de Estado que me informam que estais quase a chegar à costa de Portugal com um corpo de 10.000 homens, que tinha estado empregado nos últimos tempos no norte da Europa debaixo das ordens de Sir John Moore, apresento-vos agora aquelas informações que recebi relativas ao estado geral da guerra em Portugal e na Espanha, bem como o plano de operações que estou prestes a pôr em execução, em obediência às ordens da Secretaria de Estado*.
A força do inimigo actualmente em Portugal consiste, tanto quanto sou capaz de formar uma opinião, entre 16.000 a 18.000 homens, dos quais cerca de 500 estão no forte de Almeida, mais ou menos o mesmo número em Elvas, cerca de 600 ou 800 em Peniche, e 1.600 ou 1.800 na província do Alentejo, em Setúbal, etc.; o resto está disposto para a defesa de Lisboa, encontrando-se nos fortes de S. Julião e Cascais, nas baterias ao longo da costa até ao Cabo da Roca, e na velha cidadela de Lisboa, na qual o inimigo fez algumas obras nos últimos tempos.
Nos últimos tempos, o inimigo destacou, da força disponível para a defesa de Lisboa, um corpo de cerca de 2.000 homens sob as ordens do General Thomières, sobretudo, segundo julgo, para observar as minhas movimentações, corpo este que agora está em Alcobaça; e um outro corpo de 4.000 homens sob as ordens do General Loison atravessou o Tejo, no dia 26 do passado, para passar para o Alentejo; este destacamento tinha como objectivo dispersar os insurgentes portugueses naquela parte, forçar a retirada do corpo espanhol composto por cerca de 2.000 homens que tinha avançado desde a Extremadura até Évora, e por conseguinte conseguir incrementar a força destinada para a defesa de Lisboa com os corpos das tropas francesas que têm estado estacionados em Setúbal e na província do Alentejo. Em todo o caso, o corpo de Loison regressará a Lisboa, e os corpos franceses disponíveis para a defesa deste lugar deverão andar provavelmente à volta dos 14.000 homens, dos quais pelo menos 3.000 devem permanecer de guarnição e nos fortes na costa e no rio.
O exército francês na Andaluzia, comandado por Dupont, rendeu-se, no dia 20 do passado mês, ao exército espanhol comandado pelo General Castaños; e por isso não existem agora tropas francesas no sul da Espanha. 
O exército espanhol da Galiza e de Castela, no norte, foi posto em xeque em Rioseco, na província de Valladolid, no dia 14 de Julho, por um corpo francês supostamente debaixo do comando do General Bessières, que avançou de Burgos.
As tropas espanholas retiraram-se no dia 15 para Benavente, e julgo que houve desde então alguma contenda com os postos avançados naqueles arredores; mas não estou certo disto, nem tenho conhecimentos da posição do exército espanhol, ou do francês, desde o dia 14 de Julho. Depois de estardes pouco tempo neste país e observardes o grau de deficiência das informações autênticas, produzido pela circulação de notícias infundadas, não vos surpreendereis da minha falta de conhecimentos exactos sobre estes assuntos.
No entanto, é certo que nada de importante aconteceu naquela parte desde o dia 14 de Julho, e por esta circunstância concluo que o corpo do Marechal Bessières atacou o exército espanhol em Rioseco somente para proteger a marcha do Rei José Bonaparte para Madrid, onde chegou no dia 21 de Julho.
Para além da derrota na Andaluzia, é provável que tenhais ouvido dizer que o inimigo foi batido num ataque que fez em Zaragoza, em Aragão; também foi batido sobre a cidade de Valencia (diz-se que em ambas as acções perdeu bastantes homens); e relata-se que na Catalunha dois destacamentos franceses foram desbaratados, que o inimigo tinha perdido o forte de Figueras nos Pirenéus, e que Barcelona estava sitiada; não vi quaisquer notícias oficiais das últimas acções e operações mencionadas, mas todos acreditam no relato delas, que circula por todo o lado. Em todo o caso, sejam estas notícias fundadas ou não, é evidente que a insurreição contra os franceses é geral por toda Espanha; que grandes corpos de espanhóis estão em armas (entre outros, em particular, um exército de 20.000 homens, incluindo 4.000 de cavalaria, em Almaraz, sobre o Tejo, na Extremadura); e que os franceses não conseguem levar a cabo as suas operações através de pequenos corpos. Pela sua inacção e pelas desgraças que sofreram, imagino que não têm meios para reunir uma força suficientemente forte para contrariar o progresso da insurreição e os esforços dos insurgentes, bem como para sustentar os destacamentos dos seus diferentes corpos; ou que percebem que não podem levar a cabo as suas operações sem depósitos de abastecimentos suficientes para um exército tão grande quanto achassem necessário empregar.
Em relação a Portugal, todo o reino, exceptuando os arredores de Lisboa, está num estado de completa insurreição contra os franceses; contudo, os seus meios de defesa são menos poderosos do que os que têm os espanhóis. As suas tropas foram completamente dispersas, os seus oficiais foram para o Brasil, e os seus arsenais foram pilhados ou estão em poder do inimigo. Nas circunstâncias em que foi feita, a sua revolta é ainda mais admirável do que a da nação espanhola. 
Os portugueses devem ter, nas províncias setentrionais do reino, cerca de 10.000 homens em armas, dos quais 5.000 marcharão comigo em direcção a Lisboa; os restantes, juntamente com um destacamento de 1.500 homens que vieram da Galiza, estão ocupados em bloquear Almeida à distância e em proteger a cidade do Porto, que é presentemente a sede do Governo. 
A sul, a insurreição é geral por todo o Alentejo e Algarve, e a norte, em Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes e Beira; contudo, devido à falta de armas, o povo nada pode fazer contra o inimigo.
Depois de consultar Sir Charles Cotton, pareceu-nos a ambos que o ataque proposto sobre a baía de Cascais era impraticável, porque a baía é bem defendida pelo forte de Cascais e pelas outras obras construídas para sua defesa, e os navios de guerra não poderiam aproximar-se até uma distância suficiente para os fazer calar. O desembarque em Paço d'Arcos, no Tejo, não poderia ser efectuado sem calar o forte de S. Julião, mas aqueles que iriam executar essa operação acharam que isto seria impraticável. 
Existem pequenas baías a sul e a norte do cabo da Roca, que talvez pudessem permitir o desembarque das tropas; contudo, todas elas são defendidas por fortes que primeiro tinham que ser calados; são pouco amplas, e apenas poucos homens poderiam desembarcar de cada vez; há nelas uma arrebentação contínua que afecta de tal modo o desembarque que se duvidava que as tropas que chegassem primeiro à costa poderiam ser sustentadas a tempo pelas outras que se lhes seguissem; e inclusive se os cavalos para a artilharia e cavalaria, bem como os abastecimentos e provisões necessárias, conseguiriam mesmo desembarcar.
Estes inconvenientes relativos ao desembarque em qualquer uma das baías perto do cabo da Roca seriam agravados pela proximidade do inimigo em relação ao lugar do desembarque, e pelos poucos recursos do território onde as tropas deveriam desembarcar.
Por estes motivos, o melhor plano era desembarcar na parte mais a norte de Portugal, e acabei por fixar-me na baía do Mondego, por ser o lugar mais próximo [de Lisboa] que oferecia mais facilidades para o desembarque, à excepção de Peniche; contudo, o lugar de desembarque desta península é defendido por um forte ocupado pelo inimigo, que teria de ser necessariamente atacado com regularidade, a fim de dispor os navios em segurança.
Um desembarque a norte era mais recomendado, porque garantiria a cooperação das tropas portuguesas na expedição para Lisboa. Tendo desembarcado a totalidade dos corpos dispostos debaixo do meu comando, incluindo o comandado pelo General Spencer, tenciono começar a marchar na Quarta-feira [10 de Agosto]. Devo tomar a estrada por Alcobaça e Óbidos, tendo em vista manter a minha comunicação pela costa, e examinar a situação de Peniche; e irei para Lisboa pela estrada de Mafra e pelas colinas a norte daquela cidade.
Como fui informado pelo Secretário de Estado que um corpo de tropas debaixo do comando do Brigadeiro General Acland deve chegar à costa de Portugal antes da vós, escrevi-lhe desejando que se dirija daqui para o sul, ao longo da costa de Portugal; e propus comunicar-me com ele através do Capitão Bligh, do Alfred, que seguirá os movimentos do exército, com uns poucos navios-transportes que têm a bordo as provisões e as dispensas militares. Tenciono ordenar ao Brigadeiro General Acland para atacar Peniche, se achar necessário obter a posse dessa praça; em caso contrário, proponho ordenar-lhe a se juntar à esquadra estacionada na foz do Tejo, com o objectivo de desembarcar numa das baías próximas do Cabo da Roca, logo que eu me aproxime o suficiente para permitir-lhe que efectue essa operação.
Se imaginasse que o corpo do General Acland estava equipado de tal modo que lhe fosse permitido mover-se a partir da costa, deveria ter-lhe dado ordens para desembarcar no Mondego e marchar até Santarém, a partir donde poderia dar assistência às minhas operações ou impedir a retirada do inimigo, se esta fosse feita pelo norte do Tejo em direcção a Almeida, ou pelo sul do Tejo em direcção a Elvas. Mas como estou convencido que se espera que o corpo do General Acland forme parte de algum outro corpo que seja provido dum comissariado, pois ele não terá nenhum consigo, e, consequentemente, que o seu corpo deverá depender do país; e como nada se pode garantido a partir dos recursos deste país, considerei que é melhor que o General dirija a sua atenção sobre a costa marítima. 
Se, contudo, o comando do exército continuar nas minhas mãos, devo certamente mandar desembarcar no Mondego o corpo que tem estado ultimamente sob o comando de Sir John Moore, movendo-o para Santarém.
Tenho a honra de incluir uma relação das tropas debaixo do meu comando, bem como a cópia duma carta que escrevi ao Capitão Malcolm, do Donegal, na qual se refere o modo de disposição dos transportes.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 53-57. Encontra-se outra tradução disponível na obra de Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 85-91].


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Nota: 

*  Recordemos que, de acordo com a lista definitiva das forças britânicas enviadas para a Península Ibérica, enviada a Wellesley a 15 de Julho por Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, o General Hew Dalrymple passava a ser o Comandante-em-Chefe das referidas forças, com o General Harry Burrard como segundo no comando e o General John Moore como terceiro. 
Wellesley endereçou a carta acima transcrita a Harry Burrard e não a Dalrymple (apesar de lhe ter remetido uma cópia da mesma), porque sabia que Burrard chegaria à costa portuguesa muito antes de Dalrymple. De facto, ao passo que Dalrymple só viria a partir de Gibraltar (praça que até então governava) no dia 13 de Agosto, Harry Burrard tinha embarcado em Portsmouth no dia 22 de Julho, a bordo do navio Audacious, o mesmo que trazia o General Moore. Contudo, o mau tempo atrasou a viagem destes últimos para o dia 31 de Julho, continuando a prejudicar de tal modo a trajectória do comboio que acompanhava o Audacious (onde vinham os cerca de 10.000 homens comandados por Moore na sua recente expedição à Suécia), que os transportes tardaram mais de duas semanas para se reunirem junto ao Cabo Finisterra. Sem aguardar a dita reunião, Burrard deixou Moore no dia 16 de Agosto e rumou para o Porto, onde soube que Wellesley já tinha desembarcado no Mondego, para onde partiu, e onde finalmente chegou no dia 18.


Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra (8 de Agosto de 1808)




Lavos, 8 de Agosto de 1808



Meu Senhor:

Tenho a honra de vos informar que o Major General Spencer chegou à baía do Mondego na noite do passado dia 5, e foi seguido por uma parte do corpo debaixo do seu comando no dia 6, chegando a restante no dia 7, e todos desembarcaram entre ontem e hoje. O General Spencer tinha determinado embarcar, em obediência às instruções de Vossa Senhoria do dia 30 de Junho, no dia 21 de Julho, quando recebeu as notícias da derrota de Dupont, e por isso não chegou a receber as instruções que lhe tinha dirigido no dia 26 de Julho, cuja cópia transmiti a Vossa Senhoria na minha última carta.
Recebi a carta de Vossa Senhoria do dia 21 de Julho, e já pedi aos Capitães que comandam os navios de Sua Majestade que estão junto ao Cabo Finisterra para comunicarem a todas as embarcações e comboios que venham da Inglaterra que o exército sob o meu comando tinha desembarcado na baía do Mondego.
Tenciono começar a minha marcha depois de amanhã, e tenho a honra de incluir uma cópia duma carta, que deixo aqui para que seja entregue a Sir Harry Burrard, na qual lhe informo do estado das circunstâncias em Espanha e Portugal, de acordo com os conhecimentos que consegui obter. Enviei uma cópia desta carta a Sir Hew Dalrymple.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley


sábado, 6 de agosto de 2011

Carta privada do General Wellesley ao Almirante Charles Cotton (6 de Agosto de 1808)



Lavos, 6 de Agosto de 1808 


Meu caro Senhor: 

Tive o prazer de receber a vossa carta datada do dia 2, através do Nautilus, que trouxe o General Spencer, e que aqui chegou anteontem. As suas tropas estão agora a chegar, e desembarcarão amanhã, como espero; e então começarei imediatamente a minha marcha. 
Estou muito agradecido por terdes permitido que o Alfred continue connosco. Darei o plano das nossas marchas ao Capitão Bligh, e tratarei com ele sobre a nossa comunicação, através da qual espero que não somente tiraremos proveito para os abastecimentos, mas também para vos informar acerca dos nossos movimentos. Para além disto, propus comunicar-me diariamente com o Capitão Malcolm, que está na Figueira, até que ele parta dali. 
Enviei as minhas cartas para a Inglaterra através do Blossom, que terá passado por vós. A [fragata] Crocodile continua por aqui, e penso que é melhor pedir ao Capitão Malcolm não para deixá-la partir até que eu ache absolutamente necessário, o que ainda não é o caso, pois várias embarcações têm partido para sul todos os dias.
Estou muito agradecido por terdes ordenado aos navios com artilharia para se reunirem a nós. Os vossos amigos de …* continuam aqui. As armas que lhes propus dar são aquelas que as tropas portuguesas (que ainda não chegaram de Coimbra) entregarão quando receberem as suas novas armas. As tropas portuguesas estão plenamente satisfeitas com as suas armas, que, pelo que percebo, são aproveitáveis. Contudo, quando elas chegarem, caso ache que não o são, tenciono dar-lhes 500 conjuntos de armas novas. Elas ficaram um pouco alarmadas quando souberam que os franceses atravessaram o Tejo, e não as vi desde que fui informado que os franceses regressaram novamente.
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 


P.S.: Escrevi-vos oficialmente em relação à proclamação, na qual somente fiz uma alteração da forma verbal, e consegui uma tradução melhor.

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, p. 51].


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Nota: 


* Desconhece-se que amigos seriam estes, pois encontra-se um espaço em branco na transcrição utilizada para a presente tradução.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego, segundo Henry L'Evêque







The landing of the british Army at Mondego Bay

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego


Nesta gravura, Henry L'Êveque representou o desembarque do exército britânico comandado por Wellesley em Lavos, na margem sul do Mondego, perto da Figueira da Foz (que se vê na outra margem). Deveu-se ao Capitão Pulteney Malcolm (comandante do Donegala boa execução do desembarque, que se prolongou durante os cinco primeiros dias de Agosto de 1808, devido sobretudo à arrebentação das ondas naquela parte da costa portuguesa, que dificultou as manobras. Como a gravura assinala, este exército recebeu logo a ajuda dos portugueses da zona, através do fornecimento de botes para o desembarque, cavalos, mulas e burros, carros de bois, e provisões diversas. 

sábado, 30 de julho de 2011

Carta do General Wellesley ao Almirante Sir Charles Cotton (30 de Julho de 1808)



H.M.S. Donegal, diante da Figueira, 30 de Julho de 1808 


Senhor:

Cheguei aqui hoje, e recebi ofícios da Inglaterra datados do passado dia 15*, pelos quais percebo que é provável que um reforço de 5.000 homens esteja a chegar aqui brevemente. 
Tenciono desembarcar aqui depois de amanhã, mas não deverei marchar para diante até que tenha notícias do meu reforço vindo da Inglaterra, ou da chegada do General Spencer. Penso que é provável que ele venha para aqui agora, pois julgo que o General Castaños derrotou Dupont numa batalha travada no passado dia 20, e que Dupont rendeu-se sob a condição de ser enviado para a França por mar. Se isto for verdade, não há nada que detenha o General Spencer naquela parte. 
Tenciono observar Peniche à medida que vá marchando em direcção a Lisboa, e se tiver alguma expectativa de conseguir um sucesso imediato, atacarei a praça. Mas para ser capaz de efectuar este objectivo, devo ter artilharia de calibre 24; e como pode haver necessidade de ter esta artilharia em Peniche, e como desejo aproveitar-me tanto tempo quanto for possível da assistência do Capitão Bligh, sou induzido a pedir-vos que permitais que o Alfred continue connosco enquanto for possível. Deixarei de conservar tanto este navio como o Donegal logo que chegue o momento de atacardes a esquadra**. 
Se se dirigir para a boca do Tejo qualquer uma das frotas que têm a bordo as dispensas da artilharia, o corpo do General Spencer, ou os reforços vindos da Inglaterra, agradecer-vos-ei que a envieis para aqui, com ordens para ficar na costa, para o caso das circunstâncias nos permitirem comunicar com elas. 
O Capitão Malcolm escrever-vos-á sobre os soldados da marinha, que devem ser enviados na [chalupa canhoneira] Blossom e na [fragata] Lively
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 38-39]. 
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Notas:

* Nesse dia 15 de Julho de 1808, o Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, Lord Castlereagh, remeteu pelo menos três ofícios a Wellesley: 

** Wellesley referia-se à esquadra russa ancorada no Tejo.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Carta de William Warre ao seu pai, sobre a chegada do exército britânico à foz do Douro (25 de Julho de 1808)



Enseada do Porto, 25 de Julho de 1808

Meu querido pai:

Hoje de manhã chegámos aqui, onde se tinha convocado o encontro e reunião [das várias embarcações vindas da Inglaterra]. Ainda não consegui comunicar com a costa, e é pouco provável que consiga ver os meus amigos aqui ou mesmo em terra. Acabaram de me informar que uma fragata parte para a Inglaterra, e esta embarcação só está espera que acabe a minha carta para poder partir, de maneira que somente tenho tempo para dizer que todos estamos bem. Penso que iremos desembarcar em Lisboa e atacar Junot. Esta é a minha ideia, mas nada se sabe. Seria impossível, para não dizer frustrante (por não ser capaz de descrevê-lo), expressar os sentimentos que tive ao ver o lugar do meu nascimento, o sítio onde vivi alguns dos dias mais importantes da minha vida. Se desembarcarmos, tereis novas notícias minhas, logo que tiver oportunidade. Agora estão a chamar-me para que lhes entregue minha carta.
O vosso filho sempre afeiçoado,

William Warre

[P.S.] Abri esta carta para dizer que tenho uma mensagem do Comodoro, que diz que lamenta por não me ter sido possível desembarcar, pois [os oficiais] apenas esperam que Sir Arthur Wellesley regresse para se fazerem à vela. Eles estão a combinar disposições para a ancoragem da frota e para o desembarque. Spencer irá reunir-se connosco. Estou bastante desapontado por não ter desembarcado ou comunicado com a costa.

Adeus,
Com as maiores saudades.


sábado, 23 de julho de 2011

Carta da Junta de Governo de Sines ao Almirante Charles Cotton (23 de Julho de 1808)




Recebemos a carta que Vossa Excelência nos fez a honra de remeter pelo emissário encarregado da condução das armas, que Vossa Excelência já na sua primeira carta nos ofereceu, secundando a mesma oferta na outra que pelo mesmo emissário nos foi enviada; e como, segundo Vossa Excelência ajustou com ele, tem já decorrido o tempo aprazado de oito dias, dentro dos quais Vossa Excelência prometeu enviar-nos o armamento, caso que até então chegasse; e como este continua a ser-nos necessário, e supomos que Vossa Excelência já o terá recebido, mandamos novamente, na forma que se ajustou com Vossa Excelência, esse emissário buscar as 400 armas, 8.000 balas e as pistolas e espadas que Vossa Excelência puder dispensar.
Acresce a isto a nova requisição que fazemos a Vossa Excelência de pólvora, o que sem dúvida não exigiríamos se estivéssemos de posse da que tínhamos, que eram dezassete barris, os quais por precaução pusemos a bordo da fragata Comus, que aqui estava, donde Vossa Excelência a poderá receber caso que a dita fragata aqui não volte, remetendo-nos agora a que puder, pois igualmente nos é de suma necessidade.
Rogamos a Vossa Excelência que haja de enviar-nos, quanto antes, ou a mesma ou qualquer outra fragata, a qual servirá não só de animar este povo e suas vizinhanças, que ficaram sumamente sentidos quando a viram sair deste porto, mas até de pôr freio a alguma incursão do inimigo, que, segundo nos consta, tem chegado em grande número a Setúbal, tendo até assestado peças no castelo de Palmela.
Esperamos de Vossa Excelência quanto lhe pedimos, pela grande falta que temos de tudo, não esquecendo a Vossa Excelência a pólvora, por ser artigo da primeira necessidade. 
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Sines, em Junta do Governo de 23 de Julho de 1808.

Fr. Eusébio da Estrela, Secretário da Junta.

[seguiam-se as assinaturas do Presidente e dos Deputados].

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 41-43].