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sábado, 10 de setembro de 2011

Notícias publicadas na Minerva Lusitana (10 de Setembro de 1808)



Lisboa, 10 de Setembro, pelas 5 horas da tarde. 

A Fundição, [o] Arsenal, e dizem também que o Castelo, estão já guarnecidos pelos nossos aliados ingleses; de que já entrou um grande número em Lisboa com o General Beresford. O forte do Exército português ainda está hoje em Mafra; mas assegura-se que fará a sua entrada amanhã.
Quase todos os franceses estão, há dias, abarracados no Terreiro do Paço, Rossio, Campo de Santana [actual Campo dos Mártires da Pátria], e no largo de São Paulo; e começaram já hoje a embarcar.
Ontem apresentaram-se no Quartel-General inglês muitas pessoas constituídas em autoridade, e entre as quais alguns dos Governadores do Reino.
O Tejo não oferece, há muitos anos, mais vistoso e lisonjeiro espectáculo, pelo considerável número de embarcações que têm entrado.

[Fonte: Minerva Lusitana, 12 de Setembro de 1808]. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do Almirante Charles Cotton ao Vice-Almirante Séniavin (6 de Setembro de 1808)



Hibernia, defronte do Tejo, 6 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de incluir aqui a Vossa Excelência uma cópia traduzida dos artigos que tivestes a bondade de mandar-me, agora executados por mim como contra-cópia; a qual, para poupar mais trabalho, fiz que fosse examinada por mr. Sass e pelo meu Secretário a noite passada; considerando que a conversação entre o Almirante Tyler e vós, plenamente explicaria todos os arranjamentos menores, como perfeitamente se entendia. Eu desejo muito que fique um oficial a bordo do vosso navio pelas razões que terei o prazer de vos expor, quando for honrado com uma entrevista; honra esta que espero que a breve renovação da vossa saúde nos permita hoje. Tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton


domingo, 4 de setembro de 2011

Carta de Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, ao Brigadeiro-General Charles Stewart (4 de Setembro de 1808)



Downing Street, 4 de Setembro de 1808.





Meu caríssimo Charles*:

O tumulto do nosso júbilo pela conduta gloriosa e pelos sucessos de Wellesley foi perturbado cruelmente por uma comunicação de [D. Domingos de] Sousa [Coutinho] sobre uma suposta Convenção, em cuja cópia aparece inscrito o nome de Wellesley; se fosse levado a efeito, este instrumento garantiria aos franceses vantagens para além daquelas que seriam alcançadas através dos sucessos mais brilhantes, ao passo que os seus 10.000 homens estão actualmente pressionados por nada menos que 50.000 homens, entre britânicos e portugueses.
Em 1.º lugar, Bonaparte é reconhecido, à face de tal instrumento, como Imperador dos franceses.
Em 2.º lugar, providencia uma retirada segura de um corpo do inimigo destituído de quaisquer outros meios de escape.
Em 3.º lugar, dá à França a inteira graça de ter salvado para a Rússia a sua frota, quando na verdade a França não dispõe dum resto de poder para protegê-la.
Em 4.º lugar, sacrifica gratuitamente a frota dum inimigo, e, pela forma como o faz, reconhece direitos de neutralidade da parte de Portugal em relação à Rússia, os quais, se pudessem alguma vez ter subsistido num porto ocupado por um exército francês, teriam sido destruídos, mesmo em aparência, pela nomeação formal de Junot como o Tenente de Bonaparte em Portugal; e implica sobre todos nós o embaraço de observar um porto dos nossos com uma frota, enquanto devemos dar ao inimigo quarenta e oito hora de avanço, para que não possamos apanhá-lo.
Em 5.º lugar, dá à França não só o uso imediato do seu exército, o qual não poderia ter sem a nossa assistência activa, mas também o que se saqueou em Portugal, debaixo da máscara de propriedade privada.
Em 6.º lugar, dá à França toda a graça de ter protegido aqueles portugueses que traíram o seu soberano, enquanto nos implica na desgraça de expor os nossos aliados a ser posteriormente atacados por uma frota que a França teve a autoridade e meios para proteger. Acreditará a Espanha ou a Europa que isto foi antecedido por triunfos da nossa parte? E não ficará a França convencida do contrário?
Em 7.º lugar, finalmente, parece ser, no seu resultado geral, uma feliz maquinação, segundo a qual a Inglaterra teria feito um esforço poderoso apenas para tornar um Estado dependente no protector de um dos seus inimigos, enquanto [o próprio Armistício] se torna um instrumento segundo o qual o inimigo deve remover um exército duma posição que está perdida, para um onde pode recomeçar as sua operações com vantagem.
Não me posso perdoar por sentir a injustiça que é feita a Wellesley, ao supor que algum poder na terra o poderia ter induzido a ter uma parte individual em tal acordo; não imagino nenhum oficial britânico a ser capaz de fazê-lo, e muito menos aquele a quem confiámos a chefia do comando do nosso exército e marinha. [Para além disto] é uma Convenção que nenhum oficial francês honrado poderia propor por escrito, enquanto acordo racional entre as partes, e que, até enquanto esboço ou primeiro projêt [sic], para ser oferecido para consideração, necessitaria de todo o descaramento solene daquela nação.
Somente a posso entender enquanto suspensão de armas; e, se tivesse sido assinada enquanto tal, ainda que sendo politicamente desaconselhada, não estaria cheia de estipulações sobre os pontos mais importantes a ser ajustados; pois na verdade deixa para trás detalhes poucos importantes para negociar. Resumindo, é uma base falsificada algures, e nada me pode convencer a acreditar que seja genuína.
Deus vos abençoe, caríssimo Charles!
Com pressa,

Castlereagh

[P.S.] Escrevo a Dalrymple, incluindo a nota de Sousa, juntamente com a resposta de Canning, na qual se declara a total descrença do caso, bem como a indignação deste Governo perante o ataque de um poder [=Junta Suprema do Porto] que somente pôde surgir através dos nossos meios, e que tenta arrogar direitos que não tem, com o objectivo de voltá-los para a protecção de um inimigo que tem sido de facto dela, enquanto nos ajuda tanto quanto auxiliou os franceses a manterem-se em Lisboa.

Castlereagh

[Fonte: Charles William Vane (org.), Correspondence, Despatches, and other Papers of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 421-423]. 

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Nota:

Brigadeiro-General Charles Stewart (meio-irmão do próprio Lord Castlereagh), tinha partido da Inglaterra em finais de Julho com a expedição do corpo militar comandado pelo General John Moore. Como já referimos, devido a uma tempestade, as embarcações que traziam a bordo estes militares demoraram mais de duas semanas para se reunirem no ponto combinado, a oeste do cabo Finisterra. Para evitar perder mais tempo, enquanto Moore acabava de reunir a frota que trazia os seus corpos, o General Harry Burrard (segundo no comando do exército britânico destinado a Portugal), que também vinha nesta expedição, decidiu adiantar-se, a bordo duma fragata, no dia 16 de Agosto. Ao chegar ao Porto, Burrard recebeu as cartas que Wellesley lhe tinha ali deixado e decidiu partir imediatamente ao seu encontro, vendo-se no entanto impossibilitado (devido a ventos contrários) de enviar ordens a Moore para este o seguir. Depois de esperar algum tempo pelas ordens de Burrard, e apercebendo-se que estas não chegariam tão cedo devido aos referidos ventos contrários, Moore acabou por decidir partir para o sul. Charles Stewart, que, como dissemos, vinha nesta expedição, teria então avançado à frente de Moore, partindo para o Porto (no dia 17 ou 18) para entrar em contacto com Burrard, ou, se este já tivesse partido (o que realmente ocorrera, como acima ficou dito), para saber quais eram as suas ordens. Stewart desembarcou no Porto (no dia 18 ou 19), sendo então informado que Burrard partira ao encontro de Wellesley. Devido a este inesperado conjunto de circunstâncias, Stewart encontrou-se na mesma ocasião com o Brigadeiro-General Frederick von Decken, agente secreto do Governo britânico, que tinha acabado de chegar ao Porto no dia 17 de Agosto, e que logo nessa noite se encontrara com o Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto. Von Decken aproveitou assim a passagem de Charles Stewart para lhe encarregar de ser o portador da sua primeira carta a Dalrymple sobre as intenções do Bispo do Porto. Sabemos que Charles Stewart chegou ao Vimeiro no dia 24 de Agosto, antes de John Moore, com a referida carta de von Decken, mas a partir daí ignoramos o seu destino, sendo bastante provável que se tenha mantido, pelo menos até à data da carta acima traduzida, com o exército agora comandado por Dalrymple. 

Ofício confidencial de George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico, a D. Domingos António de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres (4 de Setembro de 1808)



Confidencial




Ministério dos Negócios Estrangeiros, 4 de Setembro de 1808.


O abaixo assinado, Primeiro Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Sua Majestade, tem a honra de acusar a recepção da nota oficial do Cavalheiro de Sousa Coutinho, incluindo a cópia de uma Convenção que se supõe ter sido concluída entre os Comandantes dos exércitos britânico e francês em Portugal, juntamente com as observações do General Bernardim Freire de Andrade e do Bispo do Porto a seu respeito, assim como a cópia de uma carta dirigida pelo Bispo do Porto ao Comandante da esquadra russa no Tejo.
Quanto ao primeiro destes documentos, cumpre ao abaixo assinado certificar ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que não foi transmitido ao Governo de Sua Majestade; que a suposta Convenção parece apresentar bastantes razões de dúvida na sua autenticidade, e que se deve nutrir firme esperança de que ou a sua substância virá provar que foi erradamente anunciada, ou que o seu intento e natureza foram expressos de um modo inexacto.
O abaixo assinado deseja com sinceridade que possa haver dúvidas da mesma espécie quanto à autenticidade da carta do Bispo do Porto ao Almirante russo, escrita, como parece, a 22 de Agosto, e, por conseguinte, ainda antes que a suspeita da Convenção (tal como é representada) pudesse chegar ao Porto.
Mas, se esta carta se considerar genuína, e se pela sua comunicação ao Governo britânico se pretendeu intervir para proteger a esquadra russa, o abaixo assinado tem ordem de notificar imediatamente ao Cavalheiro de Sousa Coutinho o modo por que tal intervenção seria olhada por Sua Majestade.
Sua Majestade manda um exército para libertar Portugal do domínio da França e para se apoderar de uma esquadra inimiga ancorada num porto ocupado pelos exércitos franceses e inteiramente debaixo da sua autoridade.
As armas de Sua Majestade ganham uma vitória sobre as da França, o que promete a realização de um dos fins indicados.
Com tanta surpresa como indignação saberia Sua Majestade que o primeiro uso que faziam da vitória aqueles em cujo proveito se deu a batalha, era assumirem o exercício dos direitos de independência e neutralidade para proteger contra os conquistadores a esquadra de outro inimigo de Sua Majestade, aliado e confederado da França.
O abaixo assinado tem ordem de protestar com a maior energia contra uma pretensão tão absolutamente injustificável, e de negar autoridade ao Bispo do Porto ou a qualquer outro Governo Provisório para se interpor entre as armas vitoriosas de Sua Majestade e as consequências naturais da vitória.
Se tal pretensão fosse mantida em nome do Príncipe Regente pelo Ministro acreditado de Portugal, cumpria a Sua Majestade pensar seriamente qual a consideração que merecia um país cujo livramento as armas de Sua Majestade empreenderam e que convertia esse benefício em vantagem dos inimigos de Sua Majestade.
O abaixo assinado tem além disto ordem de Sua Majestade para recomendar à atenção do Cavalheiro de Sousa Coutinho a parte da carta do Bispo do Porto em que se menciona um «Tratado de aliança ultimamente concluído entre Sua Majestade Fidelíssima e o Imperador da Rússia», e de pedir ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que o informe de qual é o Tratado a que se alude.
O abaixo assinado pede ao Cavalheiro de Sousa Coutinho que aceite os protestos da sua subida consideração.


George Canning


[Fonte: Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 86-91 (texto original e tradução portuguesa - itálicos conforme o original)]
 

Carta do Almirante Charles Cotton ao irmão mais velho do General Wellesley, William Wellesley-Pole, Secretário do Almirantado britânico (4 de Setembro de 1808)



Hibernia, na barra do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de vos incluir com esta carta, para conhecimento dos Lordes Comissários do Almirantado, uma cópia da Convenção que acordei com o Vice-Almirante Séniavin, comandante da frota russa no Tejo, pela qual pelo qual Suas Senhorias verão que esta esquadra rendeu-se a mim, a fim de ser guardada por Sua Majestade como depósito, até seis meses depois da conclusão de uma paz entre a Rússia e a Inglaterra.
Encarreguei o Capitão Halsted, Primeiro-Capitão do Hibernia, e Capitão da frota, para entregar este ofício a Suas Senhorias; como o enviei para negociar a Convenção com o Vice-Almirante Séniavin, será assim capaz de explicar todos os detalhes.
Sinto-me em grande dívida com o Capitão Halsted, pelos seus talentosos conselhos e assistência em todos os objectivos da missão; o seu zelo e diligência foram exemplares, e autorizo-o à minha alta recomendação.
Contra-Almirante Tyler recebeu ordens para supervisionar a primeira divisão da frota russa, que propus que partisse debaixo da sua protecção para Spithead imediatamente; devo bastante (desde que está comigo) a toda a sua assistência, e aos Capitães, Oficiais e tripulação dos navios que têm estado ocupados no bloqueio prolongado e tedioso (através dos quais todos esforços foram feitos com um grau de boa vontade que lhes dá uma infinita honra). Sinto-me extremamente agradecido e julgo que tal é o meu dever; oferecei qualquer testemunho possível da minha aprovação a seu favor.
Tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton


Carta do Almirante Charles Cotton ao Vice-Almirante Séniavin (4 de Setembro de 1808)




Hibernia, defronte do Tejo, 4 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tenho a honra de acusar a recepção da carta de Vossa Excelência na data de hoje, e permiti-me que vos assegure que, considerando o acto de rendimento da frota do vosso comando e o modo de o fazer, [como] objectos da mais delicada natureza, ambos foram deixados à vossa escolha, na maneira que pareceu menos provável o ferir a vossa sensibilidade; mas vós deveis conhecer, Senhor, que algum acto de rendimento é absolutamente necessário.
Eu não respondi às vossas duas cartas de 21 de Agosto – 2 de Setembro porque, sabendo que mr. Sass tem a vossa confiança, os pontos a que nelas se alude foram plenamente discutidos antes que ele desse o seu consentimento por vossa parte à convenção que eu assinei ontem, e que eu então esperava [que] não achasse objecção à vossa assinatura na contra-cópia, visto que a bandeira inglesa está actualmente arvorada nos fortes sobre os bancos do Tejo.
De ontem para cá me ocorreu que seria mais conforme aos vossos sentimentos que qualquer acto de rendimento (o modo ainda assim se deixa à vossa adopção) se fizesse na presença de um oficial de grau superior ao Tenente Bellamy, e que para isto mando a Vossa Excelência o Contra-Almirante Tyler, o segundo oficial no comando desta frota, o qual tomou sobre si ser o portador desta carta, e apresentará a Vossa Excelência as minhas sinceras seguranças de estimação e respeito, e da alta consideração com que tenho a honra de ser, etc.

C. Cotton

Carta do Vice-Almirante Séniavin ao Almirante Charles Cotton (4 de Setembro de 1808)



A bordo do Tuerdoi, 23 de Agosto – 4 de Setembro de 1808*.


Senhor Almirante:

Os oficiais que deputei a Vossa Excelência ontem para concluir a convenção voltaram a meu bordo e me trouxeram esta convenção assinada de vossa parte em duas cópias. Deram-me conta do que Vossa Excelência lhes fez entender, a respeito do cerimonial que vos parece conveniente ser observado na ocasião da entrega a Sua Majestade Britânica da esquadra imperial que tenho a honra de comandar. Este artigo, sendo um dos mais delicados, eu me reservo a honra de vos fazer saber os meus sentimentos; entretanto rogo-vos que me queirais responder às duas cartas que vos dirigi na data de antes de ontem**; e particularmente sobre o artigo que diz respeito à bandeira portuguesa ou inglesa, e sobre a neutralidade deste porto, da maneira que houvestes por bem dizer verbalmente aos meus sobreditos deputados. Logo que receber esta resposta não deixarei de assinar a cópia da convenção, e de a fazer remeter a Vossa Excelência com as observações relativas à bandeira de Sua Majestade Imperial [russa].
Tenho a honra de ser, etc.

De Séniavin


____________________________________________________________

Notas:

* Sobre as duas diferentes datas ver a explicação dada numa nota a uma anterior carta do mesmo remetente ao mesmo destinatário.

** Os dois documentos aludidos foram publicados aqui e aqui.

sábado, 3 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, Lord Castlereagh (3 de Setembro de 1808)



Quartel-General de Sintra, 3 de Setembro de 1808. 



Meu Senhor: 

Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que desembarquei em Portugal e tomei o comando do exército na segunda-feira, 22 de Agosto, um dia depois da batalha do Vimeiro, onde o inimigo sofreu uma assinalada derrota, e onde o valor e a disciplina das tropas britânicas e o talento dos oficiais britânicos se revelaram eminentemente. 
Poucas horas depois da minha chegada, o General Kellermann veio [ao Quartel-General britânico no Vimeiro] com uma bandeira de tréguas, da parte do General em Chefe francês, para propor um acordo para se cessarem as hostilidades, com o objectivo de se concluir uma Convenção para as tropas francesas evacuarem Portugal. Os documentos anexos contêm os diversos artigos inicialmente acordados e assinados por Sir Arthur Wellesley e pelo General Kellermann; mas como era feita uma referência ao Almirante britânico [Cotton], que, ao lhe ser comunicado o acordo, opôs-se ao artigo VII, que tinha por objecto a disposição da frota russa no Tejo, foi finalmente concluído que o Tenente Coronel Murray, Quartel-Mestre-General do exército britânico, e o General Kellermann deveriam proceder à discussão dos restantes artigos, para concluírem finalmente uma Convenção para a evacuação de Portugal, sujeita à ratificação do General em Chefe francês, e dos Comandantes britânicos em mar e terra. 
Depois de consideráveis discussões e repetidas referências a mim, tornou-se necessário que me aproveitasse do prazo limitado para a suspensão das hostilidades, que tinha recentemente prescrito, mandando seguir o exército para diante e dispondo as diferentes colunas nos caminhos pelos quais o mesmo exército deveria marchar, a Convenção foi assinada e trocaram-se as ratificações no dia 30 do passado mês
Para que não se perdesse tempo em obter um ancoradouro para os transportes e para os outros navios, que durante alguns dias tinham estado expostos a grandes riscos nesta perigosa costa, e para garantir a comunicação entre o exército e os navios dos víveres, que tinha sido interrompida pelo mau tempo e pela marulhada na praia, enviei ordens aos Regimentos dos Buffs e ao n.º 42, que estavam a bordo dos navios de transportes com a esquadra de Sir Charles Cotton, para desembarcarem e tomarem posse dos fortes no Tejo, quando o Almirante julgasse oportuno. Consequentemente, esta medida foi executada ontem de manhã, quando os fortes de Cascais, S. Julião e Bugio foram evacuados pelas tropas francesas e apoderados pelas nossas.
Como eu desembarquei em Portugal ignorando completamente o estado real do exército francês e muitas outras circunstâncias de natureza local e acidental, que indubitavelmente tinham grande peso na decisão desta questão, sendo a minha própria opinião a favor da conveniência de se executar a expulsão do exército francês de Portugal por meio da Convenção que a última derrota levara o General em Chefe francês a solicitar, em vez de o fazer pela continuação das hostilidades, esta questão foi principalmente fundada na grande importância do tempo, que era particularmente valioso nesta estação do ano, e que o inimigo podia facilmente ter gastado na prolongada defesa das praças-fortes que ocupava, se os termos da Convenção lhe fossem recusados. 
Quando a suspensão de armas foi acordada, o exército comandado por Sir John Moore não tinha chegado, e ainda havia dúvidas se um tão grande corpo de homens podia desembarcar numa praia aberta e perigosa; e se tal se efectuasse, se poderia prover-se um exército tão grande com as provisões dos navios, com todas as desvantagens às quais os navios estavam expostos. Durante a negociação, a primeira dificuldade foi superada pela actividade, zelo e inteligência do Capitão Malcom, do [navio] Donegal, e dos oficiais e homens que estava às suas ordens; mas a possibilidade da última [dificuldade] pareceu ter cessado quase no momento em que já não era necessária. 
O Capitão Dalrymple, do 18.º Regimento de Dragões, meu secretário militar [e filho], terá a honra de apresentar este ofício a Vossa Senhoria. Ele está plenamente informado de tudo quanto foi feito debaixo das minhas ordens, em relação ao serviço para o qual fui empregue, e pode dar sobre isto qualquer explicação que possa ser requerida. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Hew Dalrymple
Tenente-General 


_____________________________________________________

Nota: 

Esta carta foi o primeiro documento oficial que o General Dalrymple escreveu ao Governo britânico desde que desembarcara na praia do Porto Novo (a oeste do Vimeiro), na manhã de 22 de Agosto, para tomar o comando em chefe do exército britânico em Portugal. Foi também o primeiro documento oficial que o Governo britânico recebeu (no dia 15 de Setembro) onde se mencionava tanto o armistício de 22 de Agosto como a Convenção do dia 30 do mesmo mês. Dizemos documento oficial, pois no mesmo dia 3 Dalrymple escreveu outra carta, embora secreta, a Lord Castlereagh.
É certo que, antes mesmo de se ter recebido e publicado esta carta, o Governo britânico já tinha sido informado (embora não oficialmente) que Wellesley tinha assinado um armistício com Kellermann logo após a batalha do Vimeiro, através duma comunicação não oficial que D. Domingos António de Sousa Coutinho (depois de ter sido por sua vez informado através duma carta do Bispo do Porto) tivera sobre este assunto com George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico. Esta informação, que chegou a ser noticiada em alguns jornais, contrastava enormemente com as outras notícias das vitórias do exército comandado por Wellesley em Portugal, publicadas com ordem do Governo britânico a partir de 3 de Setembro, sendo por tal motivo abafada e até descredibilizada, sendo possível que o Governo britânico tivesse julgado oportuno esperar para ver o resultado da Convenção anunciada no dito armistício, dado que este - a ser verdadeiro - era apenas temporário. 
Pode-se assim imaginar o choque do Governo britânico ao receber não só a carta acima traduzida, como sobretudo os documentos que trazia anexos, particularmente o da Convenção definitiva. Ao serem publicados, estes documentos provocaram uma grande onda de indignação por toda a Inglaterra, mais ainda do que em Portugal, país onde tal tratado permaneceu praticamente desconhecido durante muito tempo... 

Uma última observar em relação a esta carta: Voltamos a frisar que se trata do primeiro documento oficial onde se menciona tanto o armistício como a convenção definitiva. Ao ser publicada a 16 de Setembro (um dia depois de chegar a Londres), num número extraordinário do periódico The London Gazette (um dos órgãos oficiais do Governo britânico), esta carta era seguida tanto pelo texto do armistício como pelo da Convenção. Como Dalrymple tinha remetido todos estes documentos de Sintra, onde assentara o seu Quartel-General no dia 2 de Setembro, parece que este dado confundiu o público inglês (talvez devido à sua ignorância da geografia portuguesa), que nos meses seguintes passaria a chamar "Convenção de Sintra" a uma convenção que, na verdade, fora assinada em Lisboa, e ratificada da parte de Junot também em Lisboa, da parte de Dalrymple em Torres Vedras, e da parte de Charles Cotton na barra do Tejo. Foi contudo com tal título que a convenção passou a ser definitivamente conhecida até aos nossos dias, reproduzindo os portugueses ingenuamente a expressão inglesa, e crendo mesmo alguns autores, sem qualquer tipo de fundamento, que a mais mal falada que estudada Convenção fora assinada no Palácio de Queluz ou no de Seteais...

Lista dos navios russos ancorados no Tejo que se renderam à esquadra comandada pelo Almirante Charles Cotton




Nomes
Comandante
Canhões
Tripulação
Twerday
Vice-Almirante Séniavin
74
736
Skoroy
Capitão Schelling
60
524
St. Helene
Capitão Bitchenskoy
64
598
S. Cafael
Capitão Roshnoff
74
610
Ratvizan
Capitão Rtischchoff
66
549
Silnoy
Capitão Tenente Malygruin
74
604
Motchnoy
Capitão Tenente Rasvosoff
74
629
Rafael
Capitão Tenente Bytchenskoy
80
640
Fragata Kilduyn
Capitão Tenente Dournoff
26
222
Yarowslavl
Capitão Milkoff
74
567




Total

676
5685



Convenção para a rendição da frota russa ancorada no Tejo (3 de Setembro de 1808)




Artigos duma Convenção ajustada entre o Vice-Almirante Séniavin, Cavaleiro da Ordem de S. Alexandre e de outras Ordens russas, e o Almirante Sir Charles Cotton, Baronete, para a rendição da frota russa presentemente ancorada no rio Tejo.



Art. I. Os navios de guerra do Imperador da Rússia presentemente no Tejo, tal como se especificam na lista anexa, serão entregues ao Almirante Sir Charles Cotton, imediatamente, com todos os seus provimentos, tal como se encontram agora, a fim de serem enviados para a Inglaterra, onde serão guardados como depósito por Sua Majestade Britânica, para serem restituídos a Sua Majestade Imperial seis meses depois da conclusão da paz entre Sua Majestade Britânica e Sua Majestade o Imperador de todas as Rússias. 

Art. II. O Vice-Almirante Séniavin e os oficiais, marinheiros e soldados da marinha debaixo do seu comando voltarão para a Rússia sem qualquer condição ou estipulação relativamente aos seus futuros serviços; serão para aí transportados em navios de guerra ou em embarcações apropriadas, às custas de Sua Majestade Britânica. 

Dado e concluído a bordo do navio Twerday, no Tejo, e a bordo do navio de Sua Majestade Britânica Hibernia, na barra do mesmo rio, a 3 de Setembro de 1808. 

De Seniavin 

Charles Cotton 


Autentificado pelo comando do Almirante [russo] 

L. Sass, Assessor do Colégio. 


Autentificado por ordem do Almirante [inglês] 

James Kennedy, Secretário. 


[Fonte: The London Gazette Extraordinary, n.º 16182, September 16, 1808, p. 1260. Esta Convenção também foi publicada em português (entre muitas obras posteriores) no Correio Braziliense, Londres, Setembro de 1808, pp. 315-316].

Carta do Almirante Charles Cotton ao irmão mais velho do General Wellesley, William Wellesley-Pole, Secretário do Almirantado britânico (3 de Setembro de 1808)



Hibernia, na barra do Tejo, 3 de Setembro de 1808. 



Envio inclusa, para conhecimento dos Lordes comissários do Almirantado, uma cópia da Convenção para a evacuação de Portugal por parte do exército francês, acordada entre o Tenente-Coronel Murray e o General Kellermann; esta Convenção foi ratificada pelo Tenente-General Sir Hew Dalrymple, por mim próprio, e pelo Comandante em Chefe francês. Tropas britânicas, que consistem nos Regimentos n.º 3 e n.º 42, desembarcaram no dia 2 para ocupar os fortes de Cascais, Santo António, São Julião e o Bugio, e não se perderá tempo para embarcar as tropas francesas, de acordo com a dita Convenção. 
O Capitão Halsted, Primeiro-Capitão deste navio e Capitão da frota, portador dos ofícios dirigidos a Suas Senhorias sobre a esquadra russa no Tejo, dispõe da minha plena confiança, e será capaz de explicar a Suas Senhorias os motivos que me levaram a ratificar a referida Convenção, como também de dar qualquer informação adicional que se julgue necessária. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Charles Cotton 


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Carta de Manuel Ferreira Sarmento ao General Bernardim Freire de Andrade (2 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 



Esta noite passada, pela meia para uma hora, o General Murray recebeu ordem para se pôr em marcha com a sua Divisão para Mafra, onde devemos ficar hoje, e sairmos amanhã pelas 6 horas para Sintra, para onde se avançou hoje pelas 6 horas da manhã a coluna que vem de Torres Vedras; e tinha acampado também na nossa retaguarda. 
Como nós esperávamos defronte da porta da tapada que a coluna de Torres passa-se para nós irmos na sua retaguarda, teve o General Murray ocasião de falar com o General dos postos avançados, o qual lhe disse alguma coisa a respeito da Capitulação. Sobre o artigo relativamente à Esquadra russa, nada se lhe admitiu. Os franceses sairão com a sua bagagem militar tão somente; não devem levar pinturas ou estátuas que pertençam a qualquer indivíduo do país; enfim, fica-nos o direito de poder examinar toda a sua bagagem. Queria Junot que a sua tropa só embarcasse em 3 Divisões, e que ele entregaria a Torre de S. Julião depois que a primeira estivesse embarcada, a outra [fortificação] que se lhe segue, depois da segunda, etc. Não estiveram por esta proposição, de maneira que hoje se entregaram as Torres [=fortificações]. Exigiu-se que eles dessem uma conta exacta do dinheiro da contribuição, responderam que como o país tinha sido conquistado, eles podiam pedir aquela para despesas do Exército, e que nelas o tinham despendido todo. Tratou-se também de que dessem conta da prata das igrejas, que isto tinha sido roubo, e não contribuição; porém Junot rogou que este artigo não fosse público, porque dalgum modo era chamar-lhes ladrões. O General disse-me que por ora era o que sabia. 
Mafra, 2 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência criado muito fiel e obrigadíssimo,
Manuel Ferreira Sarmento.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 196 (doc. 66)].

Carta do Vice-Almirante russo Séniavin ao Almirante britânico Charles Cotton (2 de Setembro de 1808)



Lisboa, a bordo do Tuerdoi, 21 de Agosto - 2 de Setembro de 1808*.


Senhor Almirante: 

Em aditamento à minha carta oficial relativa à convenção que vós me propusestes, tenho a honra de vos representar as circunstâncias que me prometiam toda a segurança neste porto de Lisboa. 
A esquadra russa debaixo das minha ordens entrou no Tejo obrigada da mais violenta tempestade, nos princípios do mês de Novembro passado, para buscar refúgio e para se reparar num porto amigo e aliado. Sua Alteza Real o Príncipe Regente dispensou a favor desta esquadra, na restrição que as leis e os tratados punham à entrada simultânea no porto de Lisboa de mais de seis navios de guerra de uma mesma nação; e Sua Alteza Real, manifestando-me a mim e à oficialidade da esquadra da maneira a mais solene os seus sentimentos para com o seu amigo e aliado o Imperador da Rússia, prometeu à sua esquadra todos os socorros que lhe pudesse fornecer o porto da capital. 
A ausência de Sua Alteza, a ocupação de Portugal e do porto de Lisboa pelos exércitos franceses, não mudam a situação em que deve ser considerada a esquadra russa, desde o momento em que a bandeira portuguesa for de novo arvorada em Lisboa, como ela já se acha arvorada em algumas províncias de Portugal. 
Ainda quando a situação das coisas e negociações entre a Rússia e a Inglaterra seja tal que o Comandante da frota de Sua Majestade Britânica julgue, segundo as suas instruções, que não pode deixar voltar para o Báltico a esquadra russa que está no Tejo, daí não se segue que ela deva ser inquietada no porto de um príncipe amigo do seu Soberano. 
A minha conduta durante uma estada de dez meses em Lisboa, a minha constante recusação em não tomar a menor parte nas medidas hostis que me propuseram, particularmente no dia 12-24 de Agosto passado*, quando o General Kellermann veio a meu bordo, da parte do General em Chefe Junot, para me obrigar a cooperar com as tropas francesas na ocupação dos fortes e defesa de Lisboa; todos estes motivos deviam manter-me na firme persuasão em que estou, que V.ª Ex.ª atenderá às circunstâncias acima mencionadas, e que a neutralidade que me pertence será guardada à minha esquadra enquanto ela estiver no Tejo. 
Tenho a honra de ser, etc. 

De Séniavin 

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Nota: 

* Sobre as duas diferentes datas ver a explicação dada numa nota a uma anterior carta do mesmo remetente ao mesmo destinatário.

Carta do Vice-Almirante russo Séniavin ao Almirante britânico Charles Cotton (2 de Setembro de 1808)



Tuerdoi, em Lisboa, 21 de Agosto - 2 de Setembro de 1808*.


Senhor Almirante: 

Pelas instruções datadas de 17-29 do mês passado, que destes ao Capitão L. W. Halsted, e de que ele me deixou ontem cópia, vejo, com grande mágoa, e não sem admiração, que vós não podeis considerar como neutro o porto de Lisboa, nem na situação actual, nem depois que as tropas francesas o tiverem evacuado; mas vejo ao mesmo tempo, com satisfação, as considerações que vós expondes, e que me fariam esperar igualmente que as relações de paz e amizade entre a minha nação e a vossa poderiam bem depressa ser reestabelecidas, se não fossem acompanhadas de dois artigos que dizem respeito à esquadra do meu Augustíssimo Soberano, e pelos quais vós me propondes: 

1. Que eu vos entregue esta esquadra, com todo o seu aparelho e munições, no estado em que ela se acha, a fim de que ela seja enviada à Inglaterra, para ser lá guardada, como em depósito, para depois ser reentregue a Sua Majestade o Imperador [russo], dentro em seis meses, depois da conclusão da paz; e que nós seremos transportados em navios de guerra ou outros vasos convenientes à custa de Sua Majestade Britânica. 
2. Que eu, com todos os oficiais, marinheiros e gente de embarque debaixo das minhas ordens, voltemos para a Rússia sem nenhuma condição nem estipulação relativamente ao nosso serviço futuro, e que nós seremos transportados para ali por navios de guerra ou outros vasos convenientes, à custa de Sua Majestade Britânica. 

O Capitão Halsted me declarou ao mesmo tempo, da vossa parte, que a bandeira de Sua Majestade Imperial [russa] ficaria arvorada e não se arrearia antes de que os capitães e equipagem deixassem os seus respectivos vasos. Sensível, portanto, a todas as considerações e sentimentos expostos de vossa parte, e guiado pelos princípios de honra e de lealdade, assim como pelo zelo o mais inviolável pelos interesses do serviço do meu Augustíssimo Soberano, consinto em aceder às vossas proposições, por uma convenção formal, com a condição, porém, que esta convenção não será nem poderá ser valiosa, senão no caso de que a bandeira inglesa seja arvorada nas fortalezas, e que o porto de Lisboa seja reconhecido como um porto pertencente a Sua Majestade Britânica. 
Em consequência do que autorizo de minha parte ao Capitão de 1.ª classe Schettinge, e ao Secretário da Legação de Sass, que terão a honra de vos entregar esta [carta], para que possam tratar sobre os artigos da convenção, cuja ratificação, em devida forma e em duas cópias, será assinada por Vossa Excelência e por mim. 
Tenho a honra de ser, etc. 

De Séniavin


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Nota: 

* Sobre as duas diferentes datas ver a explicação dada numa nota a uma anterior carta do mesmo remetente ao mesmo destinatário.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Carta do Vice-Almirante russo Séniavin ao Almirante britânico Charles Cotton (29 de Agosto de 1808)



Lisboa, a bordo do Tuerdoi, 17-29 de Agosto de 1808*


Senhor:

Havendo sido informado dos progressos que as armas britânicas têm feito em Portugal, em união com os portugueses, e supondo, segundo as comunicações que me foram feitas pelo General em Chefe das tropas francesas em Lisboa, que é muito natural, em consequência de uma convenção que se vai a concluir entre os Chefes das forças britânicas e o General francês que este evacue Lisboa e suas fortificações, e que as forças de Sua Majestade Britânica tomem posse delas, em consequência disto é do meu dever requerer a V.ª Ex.ª que me faça saber, em tal caso, se os chefes das forças de Sua Majestade Britânica de mar e terra e particularmente V.ª Ex.ª consideraram Lisboa como um porto neutral, tomando posse dele, e de seus fortes, em nome do Príncipe Regente de Portugal, ou se eles devem ser considerados como fazendo parte dos domínios britânicos, e se é a bandeira inglesa ou a portuguesa que se há de arvorar em Lisboa.
Mr. Sass, Secretário da Legação no serviço de Sua Majestade o Imperador de todas as Rússias, que terá honra de entregar a V.ª Ex.ª esta carta, gozará a minha plena confiança; toda a comunicação que V.ª Ex.ª for servido fazer-lhe, ou verbalmente ou por escrito, será inteiramente segura, e a considerei como se fosse feita a mim mesmo. Lisonjeando-me de que V.ª Ex.ª me honrará com o favor de uma resposta, pelo portador da presente, a respeito das matérias sobre que vos escrevi; aproveito-me desta ocasião para assegurar a V.ª Ex.ª da minha mais alta consideração.
Sou, etc.

Séniavin


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Nota: 

* Conforme o calendário juliano (utilizado pelos russos), o dia 17 de Agosto corresponde ao 29 no calendário gregoriano (utilizado na maioria dos países ocidentais). Daí as diferentes datas inscritas no início da carta.