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sábado, 10 de setembro de 2011

Carta do General Wellesley ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)





Zambujal, 10 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tive a honra de receber, durante a noite, a carta que me haveis escrito ontem. Sempre tive a vontade de ser tão útil quanto possa para o oficial sob cujo comando posso estar a servir; e este desejo é apenas limitado pela dúvida que posso ter sobre a minha capacidade para o emprego que me é oferecido. As observações que tenho tomado sobre o estado das circunstâncias na Espanha já me tinham sugerido há algum tempo que era apropriado colocar naquele reino uma pessoa com as características que haveis referido, possuindo plenos poderes, meios de exercê-los em todas as partes da Espanha, e de comunicar e tratar com todas as Juntas de governo locais.
De forma a poder realizar a importante tarefa que lhe é atribuída, esta pessoa deve possuir a confiança de quem o empregue; e, acima de tudo, de forma a poder recomendar, com autoridade, um plano para os espanhóis, tal pessoa deve ser informada dos planos daqueles que o empreguem, e dos meios através dos quais tencionam habilitar a nação espanhola a executar aquele plano que lhes seria proposto.
Não posso certamente considerar-me possuidor de tais vantajosas características, que me poderiam qualificar para a situação que me haveis proposto; e deveis ser o melhor juiz para decidirdes se estais disposto a instruir-me, e se estais inclinado a confiardes em mim, para tudo o que seja necessário dar a minha opinião, de modo a obter qualquer vantagem geral de tal missão. É verdade que poder-se-ia encarregar alguém com vistas e objectivos mais limitados do que aqueles que acima vos aludo, e que são discutidos na carta que me haveis dado a honra de receber da vossa parte; e que poderiam ser limitados a meros ajustes com o General Castaños ou com a comissão militar em Madrid, sobre um plano para a restante parte da campanha. Esta missão, contudo, requererá uma explicação clara e completa dos objectivos e dos meios; e a pessoa que de tal se encarregar deve ter a confiança de quem o empregue, e deve estar segura que o plano que ajustará nestas circunstâncias será posto em execução.
Rogo para me considerardes pronto a ser empregado de qualquer forma que acheis apropriada; e acima indiquei os poderes e instruções que por si só podem, na minha opinião, tornar o emprego de qualquer pessoa, na posição que me haveis oferecido, bastante vantajoso para o exército ou para o país.
Tenho a honra de ser, etc., 


Arthur Wellesley

Notícias publicadas no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro (10 de Setembro de 1808)



Rio de Janeiro, a 10 de Setembro de 1808.


A Europa devia prever há muito a sorte do Sumo Pontífice, especialmente desde que foi obrigado a ir a Paris e a assinar a Concordata. O Santo Padre viu enfim que nada conseguia pela moderação evangélica que até aqui o caracterizava, e que a causa da religião exigia a nobre resolução que tomou. O capitólio tão celebrado na História não podia escapar por mais tempo aos desígnios do Imperador dos franceses. Roma deve suscitar-lhe muitas lembranças. A divisa do povo italiano acha-se neste verso de Alfieri!

Siam servi si, má servi ognor frémenti. 
[Sejamos servos, sim, mas servos sempre trémulos].

Ainda que estivéssemos preparados para acontecimentos desta natureza, quase que não pensávamos ver derrubar ao mesmo tempo o trono dos Papas, e roubar o da Espanha, a mais antiga Dinastia da Europa. O Governo francês ainda há pouco engodava a Prússia enquanto atacava a Áustria, enganava a Áustria enquanto combatia com a Prússia e Rússia, fazia protestações de amizade a Portugal, e disfarçava com a Espanha enquanto tinha a contender com as principais Potências do Norte, mandava a Rússia invadir a Suécia enquanto se apoderava da Dinamarca; mas agora empreende juntamente a conquista do Indostão, a ocupação da Pérsia, a desmembração do Império Otomano, a invasão da Sicília, da Suécia, da Espanha, a sujeição de Portugal, a usurpação dos bens e privilégios da Igreja, a protecção da América espanhola. Se ainda pudesse haver uma só pessoa que acreditasse de boa fé a doutrina francesa, bastariam estes factos para lhe abrir de todo os olhos; mas a rebelião de Constantinopla, os levantamentos e emigrações continuadas dos leais portugueses, a resistência de todos os espanhóis, cujo carácter sério e persistente é bem conhecido, a magnânima resolução de Sua Santidade, e o procedimento da Casa de Áustria são provas evidentes de que a Europa não crê mais em enganos.
Monitor continua de vez em quando a ameaçar os incrédulos. Não há muito tempo que dizia que brevemente não restaria outro recurso a El-Rei de Suécia senão de ir reinar para alguma parte da América. Se esta frase do Monitor envolvesse alguma insinuação a nosso respeito, responder-se-lhe-ia: "Reinamos na melhor porção da América, e a prova disso são os sábios Actos do Governo do Nosso Amado Soberano. O Príncipe Regente Nosso Senhor imediatamente depois da sua chegada mandou abrir os portos destes seus Domínios ao Livre Comércio de todas as Nações Amigas, e declarou guerra àquela que invadiu aleivosamente o património que transmitiu o primeiro dos nossos Reis à sua Augusta Família Real, na cessão da qual jamais consentirá, e sobre o qual conservará sempre os mesmos direitos que tem ao vasto Império que herdou do Senhor Rei D. Manuel.
Entrou neste porto a 19 do passado [mês] uma fragata inglesa, vinda de Gibraltar, que trouxe as importantes notícias que se seguem. Em Cádis, depois de um renhido fogo das barcas canhoeiras e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais se comprehendem muitos Oficiais. Murat acha-se cercado no sítio do Bom Retiro [sic]. Todas as províncias da Espanha têm pegado em armas contra a tirania do Perturbador do Género Humano. As tropas francesas, que se acham dispersas, estão na maior consternação. O nosso fiel Aliado El-Rei da Grande [sicBretanha tem prestado todos os socorros aos espanhóis. A Junta do Governo Provisório estabelecida em Sevilha declarou guerra à França, e ajustou um armistício com os Chefes ingleses. Os nossos leais compatriotas manifestam o mesmo espírito, e já recobraram a importante posição de Elvas. O General Junot refugiou-se no Castelo de S. Jorge e dali oferece capitular. A cidade do Porto arvorou a Bandeira portuguesa.
Correu aqui notícia vinda por pedestres de Goiazes [sic], que os franceses, tendo feito um desembarque no Pará com aparências de amizade, o Capitão General os rechaçara completamente, ficando vivos só os prisioneiros; porém, isto ainda merece confirmação.
Igualmente correu voz que um corsário francês desembarcara 20 homens na costa do Pará ou Maranhão para procurar à força mantimentos, e que toda essa gente fora morta, ou feita prisioneira; tendo-se feito à vela o corsário bem embaraçado no porto em que tocaria, pois Caiena se diz bloqueada por duas fragatas inglesas.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Wellesley (9 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Há dois dias atrás, chegou um oficial espanhol com ofícios da Corunha dirigidos a Sir Harry Burrard. Porém, tais ofícios eram quase da mesma data daqueles que me haveis dado depois da minha chegada, e incluíam uma cópia da mesma carta do Tenente-Coronel Doyle. Ainda assim, diz agora o senhor Stuart (facto que eu ignorava antes) que o General Castaños estava a marchar para Madrid, segundo as ordens dum Conselho de oficiais estabelecido em Sevilha. Também fui informado, através dum oficial que esteve em Cádis há não muito tempo, que, pouco depois da batalha de Bailén, voltara a eclodir a disputa pela primazia, ou, pelo menos, pela independência, que tinha sido levantada logo muito cedo pela Junta de Granada*, e que, consequentemente, o exército de Granada separara-se do General Castaños, e não temos mais informações sobre os seus movimentos. Esse exército é comandado pelo General Reding, e certamente combateu e derrotou Dupont na batalha acima mencionada. Os exércitos destas províncias, assim reivindicados pelas [respectivas] Juntas, tinham comandos distintos durante a monarquia, e em muitos dos casos, senão na maioria, são sustentados por pessoas nomeadas pelo Rei.
As derrotas dos franceses em Valencia, Córdoba, etc., e a concentração da sua força em Burgos, proporcionaram uma razão, senão uma necessidade absoluta, para aqueles exércitos [espanhóis] marcharem para um ponto. Se aqueles exércitos se tivessem reunido, e se os seus generais comandantes estivessem unidos, o resultado poderia ter sido o estabelecimento de um governo central pelo poder ou influência desses oficiais, e a diminuição natural e gradual e extinção final dos governos revolucionários chamados de Juntas, que governam somente segundo as opiniões populares, e talvez influenciadas pela Igreja, o que é praticamente a mesma coisa.
Infelizmente, parece que os exércitos que já se juntaram (os de Blake e Cuesta) não estão unidos, e a autoridade da Grã-Bretanha, que creio (ou pelo menos espero) que tem uma influência predominante neste momento em todas as partes da Espanha, é administrada pelo Tenente-Coronel Doyle, que parece esforçar-se apenas para recrutar cavalaria para Blake, cujo partido ademais penso que adoptou, apesar de Blake ser certamente um oficial muito mais novo que Cuesta, e que comanda a província da Galiza apenas desde que a Junta foi estabelecida.
Perante todas estas circunstâncias, sinto-me muito disposto a enviar para Madrid um oficial com uma elevada graduação militar e conexões familiares, e que, ademais, se destaque tanto como estadista como enquanto militar, para que perceba claramente o sentido destas pequenas intrigas, que num momento como este são difíceis perceber; mas principalmente para sustentar uma linguagem que possa conduzir estas pessoas à sensatez. Eu próprio já experiencei que uma linguagem firme, ainda que feita por um oficial britânico em seu próprio nome, produziu os seus efeitos; e ainda que tal tenha ocorrido numa fase inicial**, e que agora não me possa valer das minhas opiniões individuais, ainda assim sinto-me confiante que, devido aos receios do povo, esse sentimento mantém-se, e seria estimulado, no local, pelo tipo de oficial que agora descrevi. Estando a descrição dada, escuso acrescentar que é a vós que tenho em vista. Se verdes esta matéria sob a luz com que a vejo, penso que percebereis a  importância do objecto, e que dedicareis uma parte do tempo em que devemos continuar aqui inactivos a uma missão tão importante, que poderá resultar na formação de um projecto sobre as nossas operações futuras com generais sobre os quais, segundo penso, ireis exercer aquela influência que, estou contente por confessar, penso que os missionários débeis enviados ao presente na Espanha estão bem prestes a perder, tanto sobre a sua nação como sobre eles próprios.
Não posso gostar da aparição do Duque del Infantado neste momento bastante crítico. O seu carácter manteve-se de pé, mas ele conduziu o seu Soberano [Fernando VII] a Bayonne, e agora regressa. Parece que o Tenente-Coronel Doyle tomou o Duque debaixo da sua protecção.
Se o exército da Extremadura decidir ser útil, deve marchar agora, pois a guerra de Portugal chegou ao fim. Creio que o General Galluzo tem 15.000 homens.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais humilde e obediente servidor,


H. W. Dalrymple


[Fonte: Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 133-134].


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Notas:


* Para percebermos a disputa a que alude Dalrymple, transcrevemos o seguinte trecho da memória que o mesmo escreveu sobre a sua conduta durante este período (a qual foi publicada postumamente):
"Ainda que nos últimos dias de Maio tinham sido formadas Juntas de Governo, semelhantes à de Sevilha, em todos os sítios que não estavam debaixo do poder dos franceses, parece que nesta época as mesmas o desconheciam, pois quando o General Castaños escreveu-me a anunciar a formação do novo governo, usou a seguinte expressão: "Na cidade de Sevilha foi erigida uma Junta Suprema de Governo dos quatro reinos da Andaluzia". Pouco depois, no entanto, o General percebeu que cada um dos quatro reinos da Andaluzia - a saber, Sevilha, Granada, Jaén e Córdova - tinha uma Junta própria; e que a Junta de Granada estava tão longe de reconhecer a supremacia da de Sevilha, que somente permitiu que as suas tropas se reunissem com as de Sevilha, a fim de agirem debaixo do comando do General Castaños contra os franceses comandados por Dupont, depois dum tratado formal negociado e ratificado pela autoridade das respectivas Juntas, no qual a independência de Granada foi afirmada e reconhecida" [Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 25].


** Dalrymple refere-se à correspondência extra-oficial que, ainda enquanto Governador de Gibraltar, trocara com o General Castaños, antes do estabelecimento das Juntas de Governo espanholas. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Spanish Joke!!!, caricatura de George Cruickshank (5 de Setembro de 1808)




Uma brincadeira espanhola!!!
Caricatura de George Cruickshank publicada a 5 de Setembro de 1808.


Tal como tinha feito o seu pai poucos dias antes (ver Sancho alias Ioe Butts...), George Cruickshank concebeu esta caricatura baseando-se num episódio da obra O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, segundo o qual D. Quixote, depois duma breve discussão com o dono da estalagem onde repousara, foge no seu cavalo Rocinante sem pagar a sua conta, e sem se aperceber que o seu escudeiro Sancho Pança não o seguia. Segundo Cervantes,
Quis a desventura que entre a gente que se achava na estalagem estivessem quatro tosadores de Segóvia, três fabricantes de agulhas de Córdova, e dois vizinhos da feira de Sevilha, gente alegre, bem intencionada, corrompedora e brincalhona, os quais, como instigados e movidos de um mesmo espírito, chegaram-se a Sancho, e apeando-o do burro, um deles foi buscar uma manta; e deitando-o todos nela, levantaram os olhos, e viram que o tecto era alguma coisa mais baixo do que se necessitava para a sua obra, e determinaram sair para o pátio, onde tinham altura de mais. Aí, deitado Sancho no cobertor, entraram a atirar com ele ao alto, e a brincar com o pobre como quem brinca com um cão. Os gritos que dava o miserável manteado foram tais que chegaram às orelhas do seu Amo; o qual, parando para escutar atentamente, julgou que nova aventura se lhe oferecia, até que claramente conheceu que seu Escudeiro era o que gritava. Mete logo o seu Rocinante a todo o galope para a estalagem, e achando-a fechada, dá volta para ver se achava por onde entrar. Mas como as paredes do pátio não eram muito altas, viu o brinco que faziam com seu Escudeiro, o qual subia e descia pelo ar com tanta graça e ligeireza que, a não estar tão irado como estava, não deixaria de rir. Uma e muitas vezes fez toda a diligência para ver se podia subir de cima do cavalo ao muro, mas estava tão moído e quebrantado que nem apear-se pôde; e assim, em pé como estava sobre o cavalo, entrou a dizer tantas injúrias aos que jogavam com o pobre Sancho, e a desafiá-los por tal maneira, que não é possível explicá-lo. Mas nem por isso deixavam eles de continuar a rir e jogar o seu jogo, e o triste Sancho a voar e a queixar-se, já ameaçando, já pedindo que o deixassem; mas de nada lhe valiam seus ameaços e rogos [...].
[Fonte: Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha - Tomo I, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1794, pp. 212-213 (cap. XVII)]. 

Servindo-se assim deste episódio, George Cruickshank representa Napoleão, qual D. Quixote, do outro lado do muro (alusão aos Pirenéus), vendo o seu irmão José Bonaparte, qual Sancho Pança, a ser lançado para o ar pelos espanhóis, aos quais injuria e ameaça: Vis cobardes, como ousais tratar o meu escudeiro desse modo tão descortês? Sabei que se for desafiado a pular o muro, eu o farei; sim, o farei. Um dos espanhóis vira-se para Napoleão e replica-lhe: Não damos a mínima para vós ou para semelhantes vilões. Declara outro: Isto é por roubardes a estalagem e fugirdes sem pagardes a vossa conta. Do outro lado, diz uma freira: Um arremesso pelo nosso FernandoEm pleno ar, José perde a sua coroa e roga para acabarem com tal brincadeira: Ah! Misericórdia [pelo] Rei Zé [King Jo]este é um mau momento para brincadeiras [Jo-King]John Bull, ou melhor, Don Bull, é representado como o dono da estalagem, à porta da qual aparece exibindo uma gazeta com o título Rendição de Junot e incentivando os espanhóis: Essa é a vossa qualidade, meus camaradas, para cima com ele, minhas galinhas de caça! Urra! Eis mais navios, colónias e comércio, mas não para o irmão de Napoleão!!! 
Finalmente, repare-se que à esquerda da gravura encontra-se a sacola de Sanchocarregada de ouro e prata: trata-se de mais uma alusão à obra de Cervantes, o qual conclui este episódio com a fuga de Sancho deixando para trás os seus alforges, ficando o estalajadeiro em sua posse como forma de pagamento do que se lhe devia...

sábado, 3 de setembro de 2011

The Spanish Pye. A Ditty for young Patriots, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Setembro de 1808)





A tarte espanhola. Uma cantilena para jovens patriotas.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Setembro de 1808.


Esta caricatura satiriza o susto de José Bonaparte e dos franceses perante a inesperada irrupção das sublevações espanholas, representando o momento em que um grupo de pequenos soldados espanhóis (identificados pelas suas roupas e pela bandeira que ostentam) irrompe de dentro da tarte espanhola que o novo monarca, de faca e garfo nas mãos, se preparava para comer. Surpreendido e assustado, José Bonaparte recua, e ainda que ostente ameaçadoramente a faca do bolo, o certo é que os seus reforços estão do outro lado da mesa, também assustados... Trata-se provavelmente duma alusão directa às consequências da derrota em Bailén do General Dupont (que talvez esteja representado na caricatura como o francês com a cabeça enfaixada, as calças rasgadas e as botas gastas), facto que viria a provocar a decisão de José Bonaparte retirar-se de Madrid, apenas cerca de uma semana depois de aí ter chegado.
Por cima da tarte espanhola que dá título à caricatura encontram-se os versos da cantilena assinalada no subtítulo, que abaixo traduzimos literalmente: 

Canto uma canção de seis pences - um saco cheio de centeio, 
Quatro e vinte Patriotas - cozidos numa torta.
Quando a tarte foi aberta, os rapazes começaram a cantar. 
Ora, não era um belo prato para apresentar a um rei?



Os versos originais em inglês correspondem precisamente (ou melhor, quase inalterados) aos primeiros versos duma famosa cantilena infantil inglesa, Sing a song of sixpence, cuja fixação moderna pode ser abaixo escutada: 

 


Tendo em conta algumas variações conhecidas desta cantilena*, conseguimos apurar que a maior alteração que Cruikshank fez aos versos originais foi a introdução de um único termo que lhe era alheio (a saber, patriots), o qual, no entanto, para além de complementar o sentido da ilustração, altera significativamente o sentido dos versos originais. De facto, devemos ter em conta que o termo patriots ["patriotas"] tinha sido largamente difundido pela imprensa britânica, desde meados de Maio de 1808, em referência aos sublevados espanhóis, pelo que passara praticamente a ser sinónimo destes. Devemos finalmente acrescentar que para além da referida cantilena inglesa que indubitavelmente serviu de inspiração à caricatura, é possível ainda que a alusão à mocidade espanhola (através do termo sublinhado boys ["rapazes"] e do termo young ["jovens"], presente no subtítulo) derive do conhecimento que Cruikshank tinha de uma obra patriótica dirigida aos jovens espanhóis, nomeadamente um catecismo que começara a ser largamente divulgado na Espanha pouco depois dos incidentes de 2 de Maio de 1808 em Madrid, e que chegou mesmo a ser traduzido e publicado na Inglaterra em Setembro de 1808 (se não antes), através do periódico The Monthly Register


Outra digitalização: British Museum.

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Nota: 


* Como vulgarmente sucede em recolhas de manifestações da cultura popular, os versos desta cantilena (cuja primeira recolha foi publicada em 1744) encontram-se publicados em diferentes obras com algumas variações. Indicamos abaixo, a negrito, algumas dessas variações (relativamente ao excerto que nos interessa), acompanhadas por uma sugestiva gravura:


Sing a song of sixpence 
bag/pocket full of rye;
Four and twenty naughty boys/blackbirds 
Baked/Bak'd in a pie.

When the pie was open'd, 
the birds began to sing;
[And/NowWasn’t that a pretty/dainty dish 
to set before a/the King?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

The Spanish Bull broke loose or Josephs flight out of Spain, caricatura de James Gillray (Setembro de 1808)


Fonte: Brown University Library

O touro espanhol solto ou a debandada de José da Espanha.
Caricatura de Charles William, publicada em Setembro de 1808.

Esta caricatura é uma sequela duma outra que já tivemos ocasião de publicar aqui. Se na anterior caricatura o touro espanhol não tinha nome, agora passa a ser nomeado Don Bull ("Dom Touro"), e a corrente corsa que antes levava ao pescoço jaz agora no chão, debaixo do seu acompanhante, John Bull personificado também num touro, o qual transporta no dorso um cesto (com a sigla do rei britânico George III) cheio de inúmeras espadas e espingardas munidas de baionetas. Iluminados e aquecidos pelo sol do Patriotismo, ambos touros bufam Liberdade das narinas enquanto perseguem José Bonaparte, que foge espavorido em direcção a Bayonne, montado num burro carregado com cálices e outros objectos religiosos de prata e com sacos com dólares ouro (este último está rasgado e já caíram algumas moedas ao chão). Ao fundo, atrás de José (que deixa cair a coroa espanhola na fuga), e toldados por uma nuvem densa e escura que nada augura de bom, soldados franceses marcham também em direcção à França, puxando dois carros carregados com Prata das Igrejas e de Privilégios Reais



Finalmente, e tal como na outra caricatura acima aludida, toda a cena é observada com aparente euforia por um grupo de soberanos europeus, dispostos sobre um monte localizado no centro da gravura.

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Outras digitalizações: 


- Oxford Digital Library

- British Museum

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Long faces at Bayonne or King Nap and King Joe in the dumps, caricatura publicada por Walker (Agosto de 1808)



Rostos descontentes em Bayonne ou o Rei Nap' e o Rei Zé carrancudos.
Caricatura publicada por Walker em Agosto de 1808.



Esta caricatura retoma as circunstâncias da resistência espanhola e da retirada de José Bonaparte de Madrid após a derrota de Dupont em Bailén. Transportado para Bayonne (embora na realidade continuasse na Espanha), José Bonaparte é representando com as vestes e coroa dos monarcas espanhóis, portando um colar da ordem do Tosão de Ouro e tendo ao seus pés um ceptro com uma faixa com a inscrição latina Servata Fides Cineri (fiel às cinzas dos antepassados). Ao seu lado, também sentado e com uma expressão igualmente mal humorada, encontra-se o seu irmão Napoleão, que lhe diz: Um belo pedaço de negócio foi o que fizemos, mano Zé. Ao que este lhe replica: Sempre te disse o que ocorreria por seres tão liberal com os espanhóis... 
Note-se que a caricatura é rica em trocadilhos que nos remetem para o tema já abordado da evacuação de Murat. Tanto Napoleão como o seu irmão parecem estar em posição para defecar, acção essa que é precisamente um dos vários significados do termo "dumps". Por outro lado, note-se a quase homofonia entre "long faces" (expressões carrancudas) e "long faeces/feces" (fezes longas), pelo que outra tradução livre para esta caricatura poderia ser: Grandes excrementos em Bayonne ou a cagada do Rei Nap' e do Rei Zé.

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Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d, caricatura de Charles Williams (Agosto de 1808)






Em Outubro de 1806, Ansell (pseudónimo de Charles Williams) compôs a caricatura acima publicada, na qual dispunha dois grupos de figuras entretidas a jogar uma partida de quadrilha, antigo jogo de cartas a quatro mãos (curiosamente, de origem espanhola). À volta da mesa da esquerda aparecia Jorge III da Grã-Bretanha, Carlos IV da Espanha, Frederico III da Prússia e Alexandre I da Rússia, enquanto na noutra mesa estava Napoleão, Francisco I da Áustria, um burguês gordo representando a Holanda, e o Papa Pio VII, cuja tiara e cruz estavam no chão, sendo esta última pisada por Napoleão. Note-se que Carlos IV, com ar desconsolado, referia que tinha sido obrigado a jogar uma carta do naipe de espadas, já que fora traído pela sua rainha, embora acrescentasse que mesmo que tivesse perdido todos os seus dólares não podia abdicar dos seus Ases [Aires, literalmente em espanhol], em alusão à primeira invasão britânica a Buenos Aires.

Menos de dois anos depois, a irrupção da Espanha na luta anti-napoleónica levou o mesmo autor a publicar a sequela que apresentamos de seguida. Aparte do tom satírico, trata-se de uma interpretação brilhante - e em alguns casos profética - das consequências dos levantamentos populares espanhóis no cenário da política europeia:



Quadrilha política - O fim do jogo. (Gravura 2.ª)
Caricatura de Charles Williams, publicada em Agosto de 1808

Apesar da confusão ilustrada nesta segunda caricatura, os personagens encontram-se mais ou menos nos mesmos sítios que ocupavam na primeira, exceptuando Carlos IV, que desapareceu da sala de jogo (estando supostamente encarcerado por Napoleão), vendo-se apenas a sua cadeira, vazia, com o brasão da Espanha. Em compensação, aparece um novo personagem representando a Espanha, o qual parece que acaba de descobrir a batota que Napoleão estava a fazer, provocando em consequência um enorme tumulto. Agarrando Bonaparte pelo colarinho, faz-lhe a seguinte ameaça: Digo-vos que sois um canalha, e que se não restaurais o meu Rei, o qual roubastes da outra mesa, e que se não restabeleceis o Ás [alusão à carta e ao Papa, derrubado no chão], pela honra dum patriota espanhol, estrangular-vos-ei! Napoleão, apanhado de surpresa perante a irrupção deste espanhol, perdeu o chapéu e está numa posição bastante complicada, apenas com um pé no chão, podendo cair com um simples empurrão. Ainda assim, dá ao espanhol uma resposta que não convence: Não sejas tão turbulento, tomei-o emprestado apenas para completar o baralho [a quadrilha era jogada com 40 cartas]. Interrompidas ambas as partidas perante esta confusão, os restantes personagens observam atentamente a cena, fazendo alguns comentários. Jorge III da Grã-Bretanha, na extrema esquerda, levanta-se para observar a briga com o seu monóculo, e parece admirado: O quê! Mas que confusão, não? Melhor ainda. Bonaparte ficou com o pior do jogo, devo dar uma mão. Note-se que a sua posição é a mesma como foi representado por James Gillray na caricatura The Spanish Bull-Fight... (por sua vez inspirada numa outra intitulada The King of Brobdingnag and Gulliver, do mesmo Gillray), com a excepção que, em vez do tridente, Jorge III sustenta agora uma clava com a inscrição Heart of Oak (literalmente, Coração de Carvalho), nome da marcha oficial da marinha real britânica. O Imperador Alexandre da Rússia, sentado entre o monarca britânico e Napoleão, parece reavaliar a aliança que formara em Tilsit com este último: Agora é a hora de raspar a ferrugem de Tilsit. Frederico III da Prússia, talvez a maior vítima da dita aliança, levanta-se para ver a bulha, e parece determinado a tirar proveito da desordem: Se não aproveitar a oportunidade presente, serei realmente um bolo prussiano (já na primeira das caricaturas acima inseridas o mesmo monarca usava esta expressão, a qual voltara a ser utilizada pelo mesmo autor em 1807, na caricatura intitulada The Imperial embrace - on the- raft - or Boneys new drop). Francisco I da Áustria, atrás do espanhol, levanta-se também e agarra no seu chapéu e na sua espada: Ah! Ah! O jogo tomou um rumo diferente do que esperava, não devo ficar parado. O burguês holandês, na extrema direita da gravura, apesar de sentado, afirma que também chegou a sua hora de abandonar o jogo e de se levantar: Raios e trovões! Estou bastante farto do jogo. Uau, uau, agora  ​é tempo de me levantar. Abaixo deste último encontra-se o Papa Pio VII, derrubado no chão, em aparente alusão à ocupação napoleónica de Roma desde Fevereiro de 1808
Concluindo, note-se que o subtítulo desta caricatura (The Game Up) tanto pode significar o fim do jogo ou o jogo terminado, como o jogo exaltado/agitado/revoltoso, sendo que o termo up, no sentido de movimento ascendente, também alude aos "levantamentos" ilustrados na caricatura. Por outro lado, a expressão the game is up (ou the game's up), para além do seu sentido literal de o jogo terminou, também é usada na língua inglesa para se dar a entender a alguém que as suas actividades ou planos secretos estão ao descoberto, e que por isso não podem continuar: precisamente o sentido daquilo que o espanhol diz a Napoleão...


Outras digitalizações:

1. Political Quadrille (1806):
    b) British Museum.

2. Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d (1808):
    b) British Museum.


Little Nap. The Great in a Hobble; or Unwelcome Messengers, alias Job's Comforters, caricatura de T. P. (Agosto de 1808)




Pequena distracção. O Grande em dificuldades; ou mensageiros importunos, aliás consoladores de Job. 
Caricatura de T. P., publicada por Walker em Agosto de 1808.


Esta caricatura é uma sequela de Thieves robbing ready furnished lodgings..., e é inspirada numa caricatura que James Gillray publicou em 1806, intitulada News from Calabria! Capture of Buenos Ayres!... (cujo motivo central já antes tinha servido de inspiração a Isaac Cruikshank para uma sátira sobre a entrada das tropas napoleónicas em Lisboa). 
Vários mensageiros com feições grotescas correm em direcção a Napoleão, trazendo consigo más notícias. Na frente do Imperador, na extrema direita da gravura, um dos mensageiros anuncia que os austríacos têm 3.000.000 homens prontos para a acção debaixo das ordens do Arquiduque Carlos. Outro exibe papéis com os seguintes títulos: Suecos e russos pacificam-se10.000 espanhóis abrem caminho entre franceses na Dinamarca - Com armas, munições, canhões, etc. [alusão às tropas do Marquês de la Romana]; Levantamento em Westfália. Napoleão, irritadíssimo com estas notícias, perde o chapéu, desembainha a espada e dá um pontapé nas nádegas dum destes mensageiros, enquanto grita Fora, escravos ordinários!! Sois todos mentirosos!!! E o Moniteur irá prová-lo. Negando os factos que lhe são comunicados, Napoleão pisa um papel dizendo Liberdade de Imprensa, enquanto sustenta um número do Moniteur que anuncia que o Rei José [foirecebido em Madrid com regozijo e iluminações e que garante que não existe nenhuma guerra com a Áustria. Contudo, pelo sim, pelo não, Napoleão é escoltado por um hussardo, em cujo chapéu está desenhada uma caveira sobre dois ossos cruzados, como que indicando o futuro próximo do Imperador, cercado de perigos. 
De facto, Napoleão não só quer ignorar aquelas notícias (algumas reais, outras apenas rumores e boatos), como parece não aperceber-se do que se passa atrás de si. Um mensageiro, vindo da Espanha, está prestes a alcançá-lo com mais notícias desfavoráveis, a julgar pelos títulos que ostenta:  Dupont, Bessieres, Moncey e Exércitos aniquilados. Nenhum francês permanece na Espanha. Tomados 3000 cavalos! 10.000 mosquetes! 75 carros. Um pouco mais atrás, aparece também correndo um outro mensageiro que indica que o Rei Zé fugiu de Madrid e despojou-a de todos os bens. Atrás destes mensageiros vê-se o Exército francês fugido de Madrid, carregado com as suas pilhagens, e um pouco mais à frente José Bonaparte, que segura uma mitra, um cobertor, um saco e um crucifixo (como na caricatura Thieves robbing ready furnished lodgings...), e que exclama, preocupado: Como enfrentarei Napoleão? Ai de mim, pobre Zé! 
Finalmente, no canto superior direito surge um demónio, que chama Napoleão: Vinde, Boney. Serei o único amigo que vos restará.


Outra digitalização:


Thieves robbing ready furnished lodgings. Scene Madrid, caricatura de T. P. (Agosto de 1808)




Ladrões roubando alojamentos completamente mobilados. Cena - Madrid.
Caricatura de T. P., publicada por Walker em Agosto de 1808.


Esta caricatura representa uma sátira à retirada do Exército francês de Madrid, o qual aparece a marchar em direcção à França, conforme se indica num letreiro em forma de forca, ao centro da gravura: Estrada para a França - aliás, para a Ruína - Recompensa de Mérito. José Bonaparte, em primeiro plano, está à beira dum Lago de sangue, e apela à ajuda do demónio alado que voa à sua frente: Para onde devo fugir? Como poderei atravessar aquele lago? Senhor Bom Diabo, salvai-me. Como resposta, o demónio dá-lhe a escolher entre uma pistola e uma pequena forca com uma corda: Fazei a vossa escolha, filho. Abaixo deste está um outro demónio mais pequeno, que por sua vez oferece uma taça de veneno. Indignado com tal resposta, um francês que está debaixo destes demónios exclama Diabo, como se de uma injúria se tratasse. Enquanto caminha, José Bonaparte perde a sua coroa e deixa cair algumas moedas da sua bolsa dissimulada (ornamentada com um crucifixo), conservando contudo uma mitra e um manto (ou melhor, um cobertor barato) onde aparece a seguinte inscrição: Lã espanhola e artigos diversos tomados do Palácio onde estava ultimamente alojado.
Tal como José Bonaparte, os soldados franceses marcham carregados com os frutos das suas pilhagens, vendo-se entre eles cálices, crucifixos e outras alfaias religiosas com o monograma IHS (que corresponde à latinização das três primeiras letras de Ίησους, "Jesus" em grego) ademais de sacos cheios de prata de igreja, de dólares e de ouro. Acima deles voam outros três demónios (um dos quais atirando-lhes flechas) que se indica serem irmãos, sem se precisar se são irmãos entre si ou dos franceses... Entre estes últimos vê-se um personagem cujo saco tem a seguinte inscrição: Sou o cidadão Moser que roubou o diamante de Luís [possível alusão ao diamante que posteriormente viria a ser chamado Hope, roubado durante a Revolução francesa]. Finalmente, a retaguarda do Exército francês dispara indiscriminadamente sobre alguns espanhóis, jazendo no chão uma mulher e uma criança (à direita) e um homem ferido (em primeiro plano), que exclama, em sofrimento: Somente o Céu vinga[] a nossa causa.



Outra digitalizações: 

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

Burglary and robbery!!!, caricatura publicada por John Fairburn (c. Agosto de 1808)




Roubo e Pilhagem!
Caricatura publicada por John Fairburn, circa Agosto de 1808.


Considerando que na passada noite de 20 de Julho um numeroso bando de bandidos entrou na cidade de Madrid e assaltou de rompante o Palácio Real, o Banco Nacional, e a maioria das Igrejas; matando todos os que se opunham aos seus procedimentos mais infames.
O dito bando continuou em Madrid até ao dia 27 do dito mês, e então partiu subitamente, tomando o caminho para a França, carregado com saques imensos, tendo ali roubado diversos carros cheios de prata e todos os artigos de valor móveis; todos os patriotas espanhóis são por este meio requisitados para ajudarem e auxiliarem na captura de todos ou de algum dos ditos ladrões; e quem quer que capture todos ou qualquer um deles, receberá os agradecimentos e as bênçãos de todas as pessoas bem intencionadas da Europa.
Os ditos bandidos eram conduzidos por Zé Nap, um feroz rufião cuja descrição é a seguinte: Tem cerca de cinco pés e sete polegadas de altura, de aspecto magro, esquálido, com a pele cor de açafrão. Estava vestido, quando escapou, com o manto real, que se sabe que foi por ele roubado do guarda-roupa do Rei em Nápoles. Ele é um irmão do famoso ladrão que praticou um sem número de roubos em toda a Europa, matando milhões da raça humana, o qual estava nos últimos tempos em Bayonne, onde se supõe que permanece com o objectivo de receber os bens roubados que o seu irmão devia trazer da Espanha.

Spanish flies or Boney takeing an imoderate dose, caricatura atribuída a Charles Williams (Agosto de 1808)



Moscas-espanholas ou Boney tomando uma dose imoderada.
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Agosto de 1808.


Aludindo à retirada do exército francês de Madrid, esta caricatura representa um enxame enorme de moscas-espanholas (Lytta vesicatoria), que cobrindo o céu desde a capital da Espanha (à direita), persegue e provoca a debandada do exército francês pela passagem do caminho dos Pirenéus para Bayonne (à esquerda). Em primeiro plano, Napoleão, a cujos pés encontra-se (ao lado duma bandeira e de espadas destroçadas) um papel parcialmente rasgado, onde se pode ler Decretos da Junta em Bayonne e Joseph Bonaparte Rex Espagnol [sic], tenta livrar-se  destes insectos, que o envolvem e assediam. O seu esforço é infrutífero, pelo motivos que o próprio afirma: "Morbleu - quão fraco e tonto estou, estas moscas costumavam ter uma grande utilidade para mim, mas receio que este seu uso descuidado vai causar uma mortificação, a menos que Doutor Tall[e]y[and] possa aliviar-me". De facto, o subtítulo da caricatura revela que Napoleão foi imprudente em abusar dos espanhóis, representados aqui como insectos que eram utilizados como uma espécie de viagra da época, visto que "uma dose muito grande de Cantáridas, ou moscas espanholas, provoca desmaios, delírios, tonturas, loucura e morte. Vide [The NewDispensatory de Lewis". 



Pormenor 


Outras digitalizações:

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Spanish Lick-Rish, caricatura publicada por Thomas Tegg (30 de Agosto de 1808)




Alcaçuz espanhol.
Caricatura publicada por Thomas Tegg a 30 de Agosto de 1808.



Tomando como pano de fundo uma batalha onde espanhóis avançam sobre franceses em retirada, um soldado espanhol, em primeiro plano, ostenta numa mão uma espada (cuja lâmina tem a inscrição Real Toledo), enquanto esgana com a outra o pescoço dum oficial francês, ao qual afirma, em tom ameaçador: Canalha Dupont, vamos ensinar-te a tocar nos espanhóis. Responde-lhe o General francêsOh! Miserável de mim. Não gosto do "alcaçuz espanhol"; prefiro muito mais o açúcar francês, prumo da Grande  Legião de Honra
Devemos assinalar que traduzimos por "alcaçuz espanhol" a expressão spanish lick-rish (também dita spanish licorishlicuorish ou liquorice), nome pelo qual era então vulgarmente conhecido na Inglaterra tanto o pau de alcaçuz como o xarope doce que se extrai dessa planta. Note-se no entanto que, ao sublinhar o termo lick ("lamber", "bater", "dominar"), o anónimo autor desta caricatura alerta-nos para uma série de trocadilhos possíveis, muitos deles de cariz (homo)sexual.

Spanish lickerish: "Espanhol saboroso gostoso" (literalmente, "lambível"); "Espanhol ávido / glutão / voraz / guloso / garganeiro"; "Espanhol lascivo / lúbrico / luxurioso / impudico / licencioso".
lick a rish: "Lamber um junco".
lick or wish: "Lamber ou desejar".
lick rich: "Rica lambidela".
lick rush: "Carga [de] pancada"; "golpe impetuoso"; "avanço predominante"; lambidela incómoda".
lick rash: "lamber [a] erupção"



Outra digitalização: