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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Três desenhos com referências aos editais de 1 de Fevereiro de 1808


Publicamos abaixo três desenhos de autor anónimo com referências aos editais de 1 de Fevereiro, extraídos de uma série de dezassete composições alusivas à primeira invasão francesa e aparentemente compostas ainda antes da segunda invasão. Segundo Ayres de Carvalho, "o autor dos desenhos, que nalguns casos não só pela maneira como os executa, como também pelas críticas escritas, lembra o pintor e cronista deste período Cirilo Wolkmar Machado (1748-1823) que, ao contrário de Domingos António de Sequeira, nunca, segundo declarou, teve entendimentos com os invasores" [Ayres de Carvalho, Catálogo da Colecção de Desenhos, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1977, p. 26].

O aspecto caricatural destes desenhos é salientado pelas suas legendas sarcásticas, onde o autor insere colagens de frases suas com excertos de proclamações e decretos, algumas vezes subvertidas pela sua descontextualização, como se nota sobretudo no caso do primeiro dos desenhos abaixo inseridos. 


*


Saque de 40 milhões de cruzados
Junot, o pérfido Junot, em recompensa dos muitos obséquios que voluntariamente lhe fizeram em Portugal, 
dignou-se de atormentar os Portugueses com o tributo de 40 milhões de cruzados.


Napoleão o grande tomou debaixo da sua omnipotente protecção. [...]

Este benefício devemos à actividade e boa direcção do General em Chefe.
Pastoral do Bispo Inquisidor, 22 de Dezembro de 1807.




* 



Protecção própria de Junot
Não satisfeito o ímpio Junot do tributo por ele imposto de 40 milhões de cruzados, acrescenta que as igrejas sejam também saqueadas pelo direito da força com que as despojou. 


Todo o ouro e prata de todas as igrejas, capelas e confrarias serão conduzidos à Casa da Moeda. 



*


Profanações dos Templos.
Os abomináveis soldados de Napoleão mancham sacrilegamente os templos de Deus com execráveis insultos, desprezam as santas imagens, partem-nas e as lançam no fogo e....



 A religião de vossos pais, a mesma que todos professamos.... 
será protegida e socorrida pela mesma vontade. 

Grande socorro, grande protecção para a religião, lançarem as imagens sagradas no fogo. 
Bela frase.



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Ver ainda, a respeito destes desenhos, a recensão de Maria da Graça Garcia, "Governo de Junot em Portugal", in Tesouros da Biblioteca Nacional.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Poesia a propósito da contribuição dos 40 milhões de cruzados e dos prometidos Camões



Segundo Brito Aranha, "quando se espalhou pelo povo em 1808 o decreto para a contribuição forçada dos 40 milhões, e ao mesmo tempo Junot dizia numa proclamação, para lisonjear o povo, de que em cada terra haveria um Camões para cantar as glórias portuguesas, logo apareceu quem compusesse as seguintes décimas à fanfarronada do General francês. [...] Parece que esta glosa é do poeta António José Xavier Monteiro, que teve sonetos impressos alusivos à invasão dos franceses. Estas décimas não sei se foram impressas ou manuscritas":



                    MOTE

          Eu vos venho proteger
          Haverão muitos Camões
          Resgatai os vossos bens
          Dai-me quarenta milhões.


                    GLOSA
          
          Dessa traidora nação
          Em astúcias infernal,
          Para roubar Portugal
          Vem aqui muito ladrão:
          Vejam bem o figurão,
          Para a maldade esconder,
          Para nos empobrecer
          'Inda mais talvez que Job,
          Que nos dissesse Junot:
          Eu vos venho proteger.

          Isto disse o descarado,
          E estendeu-se muito mais,
          Prometeu romper canais
          E ter dos pobres cuidado;
          Um Camões assinalado
          Promete aos altos Beirões;
          Dizendo co'os seus botões:
          Se este engano o povo come,
          No artigo morrer à fome
          Haverão muitos ladrões.

          Na costumada carreira
          Após um volve outro mês,
          E já não pode o francês 
          Disfarçar a ladroeira:
          Então com voz lisonjeira
          Afectando mil desdéns,
          E dando-nos parabéns
          Da francesa ocupação, 
          Diz: Da parte do sultão
          Resgatai os vossos bens.

          Assolou, roubou cidades,
          Matou velhos e meninos,
          'Té q'enfim os céus benignos 
          Atulham tais crueldades.
          Com fingidas amizades 
          Não mais franceses ladrões
          Seduziram as nações;
          Nem para fartar marotos
          Dirá o chefe dos rotos
          Daí-me quarenta milhões.




Nota: Como se terá observado (se for verdade o que diz o Brito Aranha, sobre estes versos terem sido compostos logo depois da publicação dos aludidos editais de Junot), a última décima parece ser apócrifa, ou teria sido modificada posteriormente.

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Fonte: Brito Aranha, Nota ácerca das Invasões Francezas em Portugal - Principalmente a que respeita á primeira invasão do commando de Junot. Contém muitos documentos relativos aos successos assombrosos na Europa no fim do seculo XVIII e principeios do seculo XIX, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1909, pp. 106-108.