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sábado, 27 de agosto de 2011

King Joe on his Spanish Donkey, caricatura de Thomas Rowlandson (27 de Agosto de 1808)




O Rei Zé montado no seu burro espanhol.
Caricatura de Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 27 de Agosto de 1808.



Nesta caricatura alusiva à retirada de José Bonaparte de Madrid, o novo monarca aparece montado sobre um burro espanhol indomável, de cujo ânus saem vários papéis, enrolados ou rasgados, onde estão escritas as seguintes frases: "Todos os que forem encontrados com armas serão fuzilados"; "Anjinhos para os prisioneiros"; "nenhuma liberdade para os espanhóis"; "Notícias francesas"; "O caminho para a fortuna"; "Proclamação"; "José Rei da Espanha"; "sem quartel"... Os coices do burro já fizeram saltar a sua carga - "um alforje para os espanhóis" -, e José, apesar de agarrar-se para não cair, deixa cair o seu ceptro e a sua coroa. Perante este comportamento do burro, afirma: "Que animal rebelde é este! Pensava que ele seria tão dócil quanto um pónei francês... e que seria domado tão facilmente quanto um galgo italiano".

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

The oven on fire - or Boneys last Batch entirly spoiled!!!, caricatura de Isaac Cruikshank (24 Agosto de 1808)




O forno em chamas - ou a última fornada de Boney completamente estragada!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 24 Agosto de 1808.


A fim de representar as dificuldades que Napoleão começou a sentir perante o alastramento das revoltas anti-francesas na Península Ibérica, Isaac Cruikshank concebeu uma espécie de sequela duma das caricaturas mais conhecidas de James Gillray, na qual o Imperador era representado como um padeiro a fazer fornadas de monarcas*. Contudo, dois anos e meio depois da primeira ter sido executada, o cenário alterou-se. Napoleão aparece agora vergado, de braços no ar, surpreendido pelas labaredas que irromperam do forno da Espanha e Portugal (este último nome mal se deixa ver devido ao fogo). Da boca do forno, também tapada pelas chamas, surge a expressão Um povo unido jamais pode ser conquistado, enquanto nas labaredas aparecem outras inscrições, a saber (no sentido dos ponteiros do relógio): Legiões das Astúrias, Exército de Portugal, Biscaia, Exército catalão, Exército da Galiza, Exército andaluz, Exército de Castela Velha e Nova, Exército e frota britânicaExército da Extremadura, Leão, Exército de ValenciaMúrciaExército de Granada. Perante estas chamas, Napoleão largou a pá com a qual queria meter o seu irmão José Bonaparte dentro do forno. Desequilibrado e prestes a cair como já caiu o seu ceptro, José grita ao seu irmão: "Oh Nap, Nap! O que é isto! Em vez de me tornardes um Rei, apenas me enganastes"**. Significativamente, também já caída sobre o chão debaixo de José, encontra-se uma pá em cujo cabo está inscrito o nome do General francês DupontNapoleão, que usa um avental de padeiro por cima do seu uniforme militar, bem como um chapéu bicorne exageradamente grande, exclama: "Raios, serei dominado por estas malditas chamas patrióticas; pensava que não restava uma única, mas acho que há ali mais chamas do que as que podem ser extintas por todos os meios da França". 
Na direita da imagem aparece Tayllerand, representado como assistente de padeiro, de mangas arregaçadas e avental. Observando o cenário, declara ironicamente a Napoleão: "Ai Ai! Eu disse-vos que queimaríeis os dedos nessa fornada de bolo de gengibre. Mas não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um carcereiro, por isso toda a minha glória chegou ao fim". Tayllerand está encostado a um móvel que ostenta a inscrição Prisão do Estado, sobre o qual aparecem as cabeças de Carlos IV, da sua esposa, de Fernando VII e seus irmãos***

Outras digitalizações:

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

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Notas: 

* Aludimos à caricatura intitulada Tiddy-Doll, the great French-Gingerbread-Baker; drawing out a new Batch of Kings, publicada originalmente a 28 de Janeiro de 1806:



** " [...] Instead of a King you've only made me a Dup - ont", no original. Trata-se de um trocadilho difícil de traduzir, entre o nome do General Dupont (que fora derrotado na batalha de Bailén), e a palavra inglesa dupe, sinónimo dos termos "ingénuo", "crédulo", "incauto" (e por extensão, "otário", "tolo", "parvo"), e dos verbos "enganar, ludibriar, lograr, iludir", sendo que a expressão be the dupe of someone significa "deixar-se enganar por alguém", enquanto que make a dupe of someone, tem o sentido de "trapacear ou enganar alguém".

*** O autor da caricatura alude ao facto de Fernando VII, o seu irmão D. Carlos, o seu tio D. António e diversas outras personalidades da alta nobreza e do alto clero espanhol terem ido viver, depois das chamadas abdicações de Bayona (e durante os 5 anos seguintes), para o Château de Valençay, propriedade do próprio Tayllerand. (Carlos IV e a sua esposa, por outro lado, foram primeiro para Compiègne, depois para Marselha, e finalmente para a Itália, acabando ambos por morrer em Roma, com poucos dias de diferença, em Janeiro de 1819). 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Horrid Visions or Nappy Napp'd at Last, caricatura de Thomas Rowlandson (23 de Agosto de 1808)






Visões horríveis ou Napoleão apanhado finalmente desprevenido. 
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 23 de Agosto de 1808.



No centro da caricatura aparece Napoleão com o cabelo eriçado, fustigado pelos trovões britânicos e ameaçado por todos os lados. Espantado, exclama com preocupação: O que é tudo isto que vejo e ouço? Atrás de mim o trovão britânico e um furacão espanhol! Diante de mim a Águia austríaca saindo da sua gaiola, e o urso do norte despertando da sua letargia! Ao fundo está uma nuvem de males! E escuto os sapos coaxando nos pântanos holandeses. O que será de mim?




Pormenor representando o Rei José Bonaparte apanhado no meio do furacão espanhol.




Outra digitalização:




domingo, 21 de agosto de 2011

King Joes Retreat from Madrid, caricatura de Thomas Rowlandson (21 de Agosto de 1808)



A retirada do Rei Zé de Madrid.
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 21 de Agosto de 1808.


Esta sátira alude, como o título indica, à retirada do Rei José Bonaparte de Madrid, e é uma espécie de sequela da caricatura King Joes Reception at Madrid, publicada no mesmo dia e com o mesmo número de chapa, e desenhada e gravada pelos mesmos artistas. 
À esquerda da gravura, no topo duma "montanha", encontra-se um grupo de granadeiros e religiosos espanhóis que grita aos franceses Parem, ladrões! Parem ladrões! Roubaram a prata do Palácio!, ao mesmo tempo que dispara à queima-roupa sobre as suas costas. Os franceses, ao fundo, tentam trepar a "montanha" que está à direita, enquanto em primeiro plano vê-se José Bonaparte (que na fuga perde a coroa) e alguns oficiais franceses carregados com sacos de despojos, um dos quais cheio de prata. Cansado, José Bonaparte implora ao seu irmão para parar: Mano Nap - mano Nap! Porque não paras? Os filisteus estão a perseguir-nos! Napoleão,  dentro do coche que ascende a "montanha" da direita, responde-lhe: Não posso, mano Zé! Estou com muita pressa

King Joes Reception at Madrid, caricatura de Thomas Rowlandson (21 de Agosto de 1808)




A recepção do Rei Zé em Madrid.
Caricatura de Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 21 de Agosto de 1808.


No centro, José Bonaparte, recém-coroado rei da Espanha, vira-se em atitude suplicante para a esquerda, onde estão dois espanhóis e duas espanholas, aos quais declara: "Muito obrigado por esta gentil e lisonjeadora recepção. Contemplai o irmão do grande Napoleão que veio para reinar sobre vós pelos vossos bens". Virado de costas para José, o espanhol que ostenta uma espada longa comenta ao que porta uma adaga, a propósito da declaração do monarca: "Sim camarada, e sobre os nossos bens imóveis também, se penso correctamente". Na extrema esquerda da imagem, uma espanhola, que segura um punhal, diz à outra: "Fizeram-no estudar para advogado e em breve iremos expulsá-lo da Espanha". A outra espanhola responde-lhe que "apesar de ser uma mulher, estou determinada a resistir". No lado direito, atrás de José, um oficial francês segura uma bandeira com a inscrição Vive le Roi [sic], e exclama com raiva: "Será que ninguém grita Viva, será que ninguém repica os sinos? Se não fazeis barulho caíreis todos pela Baioneta Real". A multidão que está atrás de si, armada com chuços e alabardas, responde então com o grito "Viva o Rei, Urra!".


Outras digitalizações: 


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

From the Desk to the Throne. A New Quick Step by Joseph Bonaparte. The Bass by Mess.rs Nappy and Tally, caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de G. Sauler Farnham (18 de Agosto de 1808)



Da escrivaninha ao trono.
Um novo passo rápido por José Bonaparte.
O baixo pelos Messieurs Nappy e Tally.
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de G. Sauler Farnham, publicada a 18 de Agosto de 1808.


Esta caricatura alude à rápida ascensão de José Bonaparte, de simples advogado a Rei de Espanha (no entanto, tal não corresponde literalmente à verdade: ainda que de facto começasse por exercer advocacia, José Bonaparte, depois do seu irmão ascender ao poder, foi nomeado embaixador e depois ministro plenipotenciário da França, e finalmente Rei de Nápoles, cargo que abandonou em Maio de 1808 para ir ocupar o trono da Espanha). 
Um papel afixado na parede indica que a cena passa-se dentro do escritório do Notário público de Bayonne, cidade francesa onde Napoleão logrou a coroa da Espanha através da abdicação da família real espanhola, trespassando logo de seguida a dita coroa ao seu irmão. Como que interpretando um passo de dança (com música tocada por Napoleão e Talleyrand, como indica o subtítulo), José Bonaparte, vestido como um advogado, equilibra-se com a ponta do seu pé direito sobre o varão duma escrivaninha, enquanto se esforça por alcançar com o seu pé esquerdo a cidade de Madrid, no centro dum Mapa de Espanha e Portugal afixado na parede. Ao mesmo tempo, ergue sobre a sua cabeça umas almofadas franjadas, sobre as quais se vê um ceptro e a coroa de Espanha. 
Todos os funcionários do gabinete olham com espanto para tal passo. Um que se encontra na extrema direita da gravura afirma que passo prodigioso para um escriturário dum notário
Ao seu lado, outro pergunta: Porque vais tu, José, tão murcho [wither]?
José Bonaparte, que de facto é representado com uma expressão triste, olha para baixo e responde-lhe: Para onde [whither] - senão para cumprir o meu alto destino? E como o meu nobre irmão dominar o ceptro de outro! 
Em primeiro plano, outro funcionário declara que ele vai necessariamente por onde o Diabo o conduz, o que lhe pode custar o pescoço!
Finalmente, o último funcionário improvisa uma quadra inspirada no provérbio inglês There's many a slip between the cup and the lip (cujo sentido talvez seja mais compreensível através do dito português "não deites foguetes antes da festa"), mas trocando o termo cup por tankard (caneca), em aparente alusão à (injusta) fama de bêbado de José Bonaparte no território espanhol, onde ficou conhecido como Pepe Botella (literalmente, "Zé Garrafa")

Mas os provérbios falam de muitos deslizes
Entre a caneca e os lábios
E realmente estou inclinado a dar 
Crédito ao provérbio enquanto viver. 



Outras digitalizações:



Brown University Library (a preto e branco).


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Spanish-Patriots attacking the French-Banditti. Loyal Britons lending a lift, caricatura de James Gillray (15 de Agosto de 1808)




Patriotas espanhóis atacando os bandidos franceses. Leais bretões dando uma ajuda.
Caricatura de James Gillray, publicada a 15 de Agosto de 1808.


Publicada no mesmo dia em que Napoleão festejou os seus 39 anos, esta gravura ricamente detalhada satiriza as primeiras derrotas dos exércitos franceses na Espanha, criticando ao mesmo tempo a defesa do Ancien Régime por parte dum exército atípico donde sobressaem monges, bispos, freiras, e homens e mulheres da nobreza espanhola.



Em primeiro plano, à esquerda, duas damas espanholas (uma das quais levando um punhal ensanguentado pendurado à cintura) transportam balas para a boca dum canhão que está a ser calcado com um soquete por um monge, enquanto um nobre prepara-se para lançar fogo à peça com um morrão. No canto inferior esquerdo encontram-se barris de pólvora britânica.





Ao centro, também em primeiro plano, encontram-se freiras que empunham crucifixos e punhais ensanguentados. Uma delas, mais corpulenta, pisa um soldado francês que agoniza no chão, ao mesmo tempo que está prestes a esfaquear outro francês que agarra pelos cabelos, o qual apresenta uma expressão aterrorizada. 



Em segundo plano, no lado esquerdo, sobressaem alguns homens a cavalo, com espadas ensanguentadas, liderados por um bispo (que segura o seu báculo numa mão e na outra uma espada, também ensanguentada) e por um monge gordo que toca uma trombeta para animar a multidão de soldados. Estes últimos estão todos armados com lanças e em formação cerrada, e portam bandeiras com inscrições para animar a hoste: Viva a Liberdade, Vitória Espanhola, Viva o Rei Fernando VII. Note-se que entre o bispo e o monge também se vê uma imagem da Virgem Santa, a qual segura o menino com uma mão e uma espada com a outra. É talvez este o quadro que melhor ilustra a unidade então tão proclamada entre a Pátria, a Religião e a Monarquia.





Os motivos religiosos repetem-se em todo o lado esquerdo da gravura. Ao fundo, aparecem várias pessoas cercando uma grande cruz que está sobre o topo duma montanha, enquanto um pouco mais abaixo a artilharia espanhola (com uma bandeira da Liberdade e Lealdade) abre fogo sobre os franceses.



No lado direito, também ao fundo, vê-se em pequena escala uma multidão de soldados franceses fugindo em debandada, deixando para trás mortos, armas, tambores... Nas suas bandeiras podem-se ler expressões como A morte ou a vitória, Viva o Rei José e Dupont. Para além do cenário montanhoso, a aparição do nome do General Dupont remete inevitavelmente para a batalha de Bailén (no sopé da Sierra Morena), suposto cenário da batalha aqui representada.




No lado direito, em primeiro plano, vê-se um granadeiro britânico a trespassar com a baioneta do seu mosquete a dois dos franceses horrorizados e grotescos que aparecem mais à direita. Na sua barretina estão inscritas as letras G.R., que correspondem à expressão latina George Rex (Rei Jorge). Devemos aqui fazer um parêntesis para sublinhar, em termos de rigor histórico, que o exército britânico não participou na batalha de Bailén (de facto, o exército britânico forneceu pólvora e munições aos espanhóis e o corpo de Spencer chegou a desembarcar no Puerto de Santa María, perto de Cádis, mas pouco depois voltou a embarcar com destino a Portugal, sem ter tido qualquer tipo de confronto contra os franceses durante essa curta estadia no território espanhol). Na verdade, as primeiras tropas britânicas que lutaram contra os franceses na Península foram as comandadas por Wellesley, num pequeno confronto travado a sul de Óbidos, travado precisamente no dia em que esta caricatura foi publicada.


Note-se finalmente que um dos pés do referido granadeiro britânico pisa a bandeira duma suposta Legião Invencível do Exército francês, cujo portador jaz decapitado no chão...

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Brobdignags of Bayonne peeping over the Pyrenean Mountains at the Lilliputian Spanish Army, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Agosto de 1808)




Brobdingnagianos de Bayonne espreitando sobre as montanhas dos Pirenéus o exército liliputiano da Espanha.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Agosto de 1808



Isaac Cruikshank recorreu ao mundo imaginado por Jonathan Swift, na sua famosa obra Viagens de Gulliver, para representar nesta caricatura uma sátira sobre as primeiras derrotas de Napoleão na Espanha. 
Entre Brobdingnag, terra dos gigantes, "transportada" aqui para Bayonne (à direita) e os Pirenéus (ao centro) encontram-se dois gigantes, Napoleão e José Bonaparte, que observam com preocupação o cenário à esquerda, na Espanha-Liliput, em cujo horizonte se vêem várias bandeiras espanholas, arvoradas nos picos das montanhas. 
Depois de abandonarem o seu enorme acampamento, diversas linhas de infantaria espanhola perfeitamente formadas avançam sobre as tropas francesas, que lutam desordenadamente e começam a ser desbaratadas. No lado francês do campo da batalha (ver pormenor abaixo), vêem-se vários militares mortos, bem como um cavalo, em cuja sela aparecem as letras NB (iniciais de Napoleão Bonaparte e da expressão latina nota bene). Entre os que fogem precipitadamente, vê-se ainda um francês sem chapéu, que reza ajoelhado
Perante este cenário, Napoleão, com o chapéu depenado, exclama: Misericórdia de mim! Quem poderia ter pensado isto de um conjunto de tais liliputianos? Porque estão eles arruinando o nosso exército brobdingnagiano?! José Bonaparte, ostentando a coroa espanhola, replica ao seu irmão: Nap, digo-te que podes colocar também a minha coroa no teu bolso, para que não me surpreendam tais camaradas com rostos de assassinos.



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Outra digitalização: The British Museum

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Apotheosis of the Corsican-Phœnix, caricatura de James Gillray (2 de Agosto de 1808)



Fonte: British Museum


 Apoteose da Fénix-Corsa.
Caricatura de James Gillray, publicada a 2 de Agosto de 1808.



O sentido desta caricatura é explicado pelo seu subtítulo, que cita um trecho imaginário duma obra supostamente editada em 1808 e intitulada A Nova Enciclopédia Espanhola (The New Spanish Encyclopaedia): "Ao cansar-se de viver, a Fénix constrói um ninho sobre as montanhas, incendiando-o através do bater das suas asas e consumindo-se ela própria nas chamas! E do fumo das suas cinzas renasce uma nova Fénix para iluminar o Mundo!!!"
Napoleão é assim representado como a Fénix-corsa auto-imolando-se no topo duma escarpa das Montanhas dos Pirenéus, as quais estão envoltas por densas nuvens de fumo negro, como que aludindo às revoltas anti-francesas na Península Ibérica. O seu ninho é formado por mosquetes e baionetas, sobre as quais está um globo terrestre, em forma de ovo, com toda a Europa continental em chamas, bem como a Sicília e a Algéria. Com as asas já pegando fogo, a Fénix-corsa (adornada com um cordão de honra tricolor e um colar militar franjado com pequenos punhais) está prestes a sucumbir perante as chamas que a envolvem, tendo já saltado da sua cabeça a coroa e das suas garras o ceptro e o orbe (símbolos, respectivamente, do poder temporal e espiritual). Por cima do fumo provocado por esta combustão, surge uma pomba da paz, irradiando luz e com um ramo de oliveira no seu bico, podendo ler-se nas suas asas abertas a inscrição Paz sobre a Terra.


Outras digitalizações:



domingo, 31 de julho de 2011

Iohn Bull amongst the Spaniards, or Boney decently Provided for, caricatura de Charles Williams (Julho de 1808)



John Bull entre os espanhóis, ou Bonaparte decentemente provido.
Caricatura de Charles Williams, publicada em Julho de 1808.


Esta caricatura, publicada na sequência dos pedidos de auxílio de algumas Juntas espanholas ao Governo britânico e da consequente declaração do fim das hostilidades contra a Espanha, representa John Bull sobre um barril de bebidas espirituosas britânicas, declarando aos espanhóis pouco animados que o cercam: "Meus bons amigos, aqui estou entre vós. Deveis saber que não gosto de qualquer tipo de estrangeiros, mas como quereis derrotar Bonaparte, trouxe-vos - por puro amor e caridade - alguma coisa para vos ajudar: aqui está um barril de bebidas espirituosas britânicas e outro de lâminas de barbear, dois cangalheiros, um coveiro e um pequeno caixão. O que mais podeis desejar?". 


Pormenor

Aludindo à segunda parte do título desta caricatura (note-se ainda que Boney, ademais de ser o diminutivo de Bonaparte em inglês, significa também "ossudo"), encontra-se aos pés do coveiro e dos cangalheiros cedidos por John Bull um pequeno caixão, condicente com a reduzida estatura atribuída ao Imperador da França, sobre o qual se lê o seguinte "epitáfio", que mais parece uma prece: 
Napoleão, por graça de Deus, deixa esta vida





Outras digitalizações:

British Museum

British Museum

The Ghosts of the Old Kings of Spain appearing to their Degenerate Posterity, caricatura atribuída a Charles Williams (Julho de 1808)




Os fantasmas dos velhos Reis da Espanha aparecendo à sua posteridade degenerada
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Julho de 1808.



Quatro fantasmas irados de antigos Reis da Espanha surgem no meio de fumo para condenar a família real espanhola. Um dos fantasmas, ao centro da gravura, vira-se para Carlos IV e declara-lhe: Desgraça dos vossos antepassados, tremereis pela vingança! O velho monarca, horrorizado, implora pela misericórdia do fantasma: Oh, não olheis com essa carranca para um pobre, miserável e velho rei. À esquerda da imagem, Fernando volta-se para o fantasma que está atrás de si, declarando-lhe, enquanto aponta um dedo acusador a Godoy:  Eis a causa da nossa desgraça. Contudo, o fantasma recorda a Fernando que também ele é responsável pelo destino da sua família: Relembrai que sois um Príncipe. Godoy, cujo chapéu está tombado no chão, enterra a sua cabeça no colo da rainha, como que buscando protecção, e do seu bolso caem papéis da Correspondência entre Godoy e Bonaparte e outros Para o Príncipe [da] Paz. Incapaz de assistir à horrífica cena, a própria rainha tapa a cara. Napoleão, no lado direito da gravura, é indiferente às aparições. Com um sorriso no rosto, remove a coroa de Carlos IV, e declara-lhe: Não vos alarmeis, meu bom amigo, tomarei conta da vossa Coroa, a qual não poderia estar em melhores mãos; penso que servirá no mano Zézinho. Vendo isto, John Bull, atrás de Napoleão, ordena-lhe que pare: Parai, meu pequeno senhor. Vereis que aí está uma pessoa chamada Fernando; essa coroa servir-lhe-á muito melhor do que em Zézinho



Outras digitalizações:

British Museum (a cores).

British Museum (a preto e branco).

Brown University Library (a preto e branco).


sexta-feira, 22 de julho de 2011

The Beast as described in the Revelations, Chap. 13. Resembling Napolean Bounaparte, caricatura de Thomas Rowlandson (22 de Julho de 1808)





Fonte: Brown University Library

A Besta como descrita no livro do Apocalipse, Cap. 13.
Semelhante a Napoleão Bonaparte.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 22 de Julho de 1808.




E vi subir do mar uma besta que tinha [...] sete cabeças, [...] e sobre as suas cabeças um nome de blasfémia. [...] E a besta que vi era semelhante a um leopardo [...] e a sua boca como a de um leão. [...] E vi uma das suas cabeças como que ferida mortalmente [...]. 
(Ap., 13: 1-3).


Inspirando-se, como indica o título, no 13.º capítulo do livro do Apocalipse, esta caricatura representa a besta de sete cabeças erguida do mar (neste caso, a Córsega natal de Napoleão), a qual ostenta o número 666 no seu corpo de leopardo (semelhante ao do "tigre" que o mesmo autor já tinha representado duas semanas antes, na caricatura intitulada The Corsican Tiger at Bay). Esta besta monstruosa é atacada por um guerreiro que representa a Espanha, inclusive na sua própria pose (reforçada pela capa), que se assemelha aos contornos geográficos do dito país. A mitra que ostenta (também presente noutras caricaturas, como por exemplo The Noble Spaniards..., King Joes Reception at Madrid, ou Sancho alias Joe Butt's...), portando as inscrições S. Pedro e Roma, alude ao facto dos monarcas espanhóis serem conhecidos como os Reis Católicos, enquanto a lâmina da sua espada representa um verdadeiro espanhol [de] Toledo, o seu escudo a Catalunha, o seu braço direito o Patriotismo espanhol e o antebraço as Astúrias, o seu boldrié Madrid e a sua coxa esquerda Córdova. O seu pé direito, que representa Cádis, pisa uma serpente, em alusão à rendição incondicional da esquadra de Rosily, reforçada pela presença, ao fundo, da esquadra do Almirante Purvis. Este personagem, vestido como um nobre espanhol, declara que O verdadeiro Patriotismo é subjugar assim a besta monstruosa e acalmar a fúria da Guerra!!!





Este herói deu um golpe certeiro numa das cabeças da besta (precisamente a de Napoleão), a qual está presa por um fio, se bem que continuando a largar chamas da boca. As outras seis cabeças da Besta ostentam caretas selvagens e arreganham os dentes. As suas coroas indicam que são os monarcas da Rússia, Prússia, Dinamarca, Holanda, Nápoles e Áustria. 



Da cabeça quase completamente decepada de Napoleão caiem quatro coroas (duas da França, uma de Portugal e outra da Espanha). A Esperança, representada por uma mulher com uma âncora, corre nesse momento para tentar apanhá-las com o seu avental. 


 


Finalmente, ademais de aparecer inscrito no corpo da besta, o número 666 aparece também associado ao próprio nome de Napoleão (aqui chamado de Napolean), através da correspondência entre as letras e a sua correspondência numérica. Note-se que esta associação entre Napoleão e a Besta do Apocalipse não era nova (ver por exemplo, a cores ou a preto e branco, a caricatura intitulada An hieroglyphic, describing the state of Great Britain and the continent of Europe, for 1804):



[...] A marca que é o nome da besta ou o número do seu nome. [...] 
E o seu número é seiscentos e sessenta e seis 
(Ap. 13: 17-18).


Outras digitalizações:


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Caricatura alusiva à incapacidade de Murat desbaratar os bandos de insurgentes espanhóis



Ainda que não esteja datada, julgamos que esta gravura foi concebida na sequência das notícias sobre a enfermidade de Murat, que começaram a circular em meados de Julho de 1808.

The Noble Spaniards, or Britannia assisting the cause of Freedom all over the World, whither Friend or Foe!, caricatura de Isaac Cruikshank (20 de Julho de 1808)



Os Nobres espanhóis, 
ou Britânia auxiliando a causa da liberdade em todo o mundo, seja amigo ou inimigo!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 20 de Julho de 1808.


Um "oficial" espanhol com uma mitra adornada com um cocar, de espada erguida e com uma bandeira dizendo Fernando VII - Liberdade ou Morte, olha para a espécie de procissão que o segue. Atrás dele, dois nobres espanhóis, com as suas mãos direitas sobre os seus corações, portam as suas espingardas, secundados por outros dois porta-bandeiras, que arvoram os dizeres Vox Populi Vox Dei ("a voz do povo [é] a voz de Deus") e Não à tirania francesa. Mais atrás, seguem-se vários populares armados com chuços e forquilhas e vivandeiras com provisões. Entre esta "vanguarda" e a retaguarda pode-se ainda ver dois frades, ambos armados com espingardas.
Ao lado do líder destas "tropas irregulares" encontra-se um gato que mia por Murat (Mew Rat*) enquanto caça um dos vários ratos que fogem à sua frente, todos eles com um cocares tricolores... Acima dos espanhóis a legenda diz que um galante espanhol nunca se submeterá a ser governado pelo irmão de um macaco
Finalmente, no canto superior esquerdo, sobre as nuvens, aparece a personificação da Grã-Bretanha, que lança sobre o solo espanhol, através da sua cornucópia, canhões, espingardas, pistolas, espadas, munições, chuços, dizendo que a nação que tem espírito para se libertar do jugo do tirano da Europa, é nesse momento uma aliada da Grã-Bretanha**

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Notas:

* O trocadilho Mew Rat (que na fonética inglesa se aproxima bastante à pronunciação de Murat em francês) permite múltiplas leituras, dada a diversidade de significados dos termos que o compõem:

Mew: miado ou gaiola (substantivos); miar, confinar, encarcerar, engaiolar (verbos).
Rat: rato, canalha, guincho (substantivos); caçar ou apanhar ratos (verbos).

Deve-se ainda notar que esta mesma expressão (aludindo precisamente a Murat) já tinha aparecido numa caricatura anterior, atribuída a Charles Williams e publicada em Fevereiro de 1807, intitulada The Battle of Pul-Tusk, se bem que nesta última Murat fosse representado com cabeça de gato (com as inscrições Mew no seu colarinho e Rat na sua cintura).
Ver ainda a este respeito a caricatura intitulada Spanish Patriots entring [sicMadrid, or the Grand Duke of Bergs retreat discovered, publicada a 14 de Julho de 1808.



*Esta frase é inspirada num trecho dum discurso sobre os assuntos espanhóis pronunciado a 15 de Junho de 1808, na Casa dos Comuns, por George Canning, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha: 

Devemos agir sobre o princípio de que torna-se instantaneamente nossa aliada essencial, independentemente de quais forem as relações políticas existentes com a Grã-Bretanha, qualquer nação da Europa que começar a determinar-se contra um poder que, professando uma paz insidiosa ou declarando guerra aberta, é o inimigo comum de todas as nações. 
[Fonte: The Parliamentary Debates from the year 1803 to the present time - Vol. XI (Comprising the period from the eleventh day of April to the fourth day of July 1808), London, 1812, pp. 889-891,pp. 890-891]. 

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Outra digitalização desta caricatura: