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domingo, 28 de agosto de 2011

Carta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (28 de Agosto de 1808)





Porto, 28 de Agosto de 1808


Senhor:

Vossa Excelência terá recebido as minhas cartas secretas dos passados dias 18 e 22, relativas ao governo temporário deste reino. Nos últimos dias, Sua Excelência o Bispo do Porto recebeu deputados da província do Alentejo; o Reino do Algarve e parte da Estremadura, nomeadamente a cidade de Leiria, também se submeteram à sua autoridade; e talvez se possa assim dizer que todo o reino de Portugal reconheceu a autoridade do Governo temporário, encabeçado pelo Bispo do Porto, à excepção da cidade de Lisboa ou da vila de Setúbal. Mesmo que o facto destas localidades não terem ainda reconhecido a autoridade do Governo temporário talvez possa ser explicado pela posse das mesmas pelos franceses, ainda assim o Bispo está convencido que os habitantes de Lisboa recusarão submeter-se ao Governo temporário do Porto, em cuja obstinação serão fortemente sustentados pelos membros da antiga Regência estabelecida pelo Príncipe Regente, que, obviamente, estarão bastante ansiosos em reassumir o seu antigo poder.
O Bispo, ao ter assumido o Governo temporário, obedeceu apenas aos votos do povo; ele tinha a certeza de que esta era a única forma de salvar o país; contudo, como não teve interesses pessoais, está disposto a abdicar da autoridade, a qual aceitou com relutância, assim que esteja convencido de que o poderá fazer sem prejudicar a causa do seu Soberano, e sem lançar o país na confusão. 
Tudo indica que os habitantes das três províncias do norte de Portugal não irão permitir que o Bispo abdique do Governo e se submeta à antiga Regência; eles estão orgulhosos de terem sido os primeiros a tomar as armas, e em considerarem-se como os libertadores e salvadores do seu país. E como os habitantes de Lisboa não estarão nada inclinados a se submeterem ao Governo temporário do Porto, seguir-se-á naturalmente uma divisão das províncias, que provocará uma comoção interna, se tal não for amparado por Vossa Excelência.
Pareceu-me que a melhor maneira de reconciliar estes partidos opostos seria através dum esforço para unir o presente Governo do Porto com aqueles membros da antiga Regência que, pela sua conduta, não tenham perdido a confiança do povo. E tendo exposto a minha ideia ao Bispo, deu-me ele como resposta que não iria opor-se a isto, se tal fosse proposto por vós. Assim, tomei a liberdade de sugerir que a dificuldade acima mencionada seria em grande parte removida, se Vossa Excelência concordar, que, depois de Lisboa se render, e até que a vontade do Príncipe Regente seja conhecida, ireis considerar o Governo temporário estabelecido no Porto como o Governo legítimo, com a adição de quatro membros da antiga Regência, que me foram indicados pelo Bispo como aqueles que se comportaram fielmente com o seu soberano e país, a saber:

                    D. FRANCISCO NORONHA
                    FRANCISCO DA CUNHA
                    O MONTEIRO MOR, e
                    O PRINCIPAL CASTRO

Estes membros seriam colocados à cabeça das diferentes secretarias, e o Bispo seria considerado como o Presidente, cujas ordens seriam seguidas por eles; este plano contaria com poucas dificuldades, pois o Presidente da antiga Regência, nomeado pelo Príncipe Regente, abandonou Portugal, encontrando-se agora em França.
A circunstância de Lisboa encontrar-se actualmente num estado de grande confusão fornecerá uma justa pretensão para fixar urgentemente o assento do Governo temporário no Porto, para cujo lugar os senhores acima mencionados deverão dirigir-se sem perda de tempo, para apresentarem-se pessoalmente ao Bispo. 
Independentemente das razões que tive a honra de expor a Vossa Excelência na minha carta do passado dia 22, sobre a impossibilidade do Bispo deixar o Porto, devo pedir licença para acrescentar que, por aquilo que percebo, a maior parte dos habitantes de Lisboa estão conformados aos interesses dos franceses, e que por isso será necessário que uma guarnição de tropas britânicas mantenha a cidade em ordem. O Bispo do Porto, apesar de estar convencido da necessidade de se considerar actualmente Lisboa como uma posição militar e o sítio onde deverá estar um Comandante e uma guarnição britânica, ainda assim, ansioso com os sentimentos dos habitantes possam ser o menos ofendidos possível, deseja que concordeis em também pôr algumas tropas portuguesas na guarnição de Lisboa, juntamente com um Comandante português, que, apesar de ficar completamente debaixo das ordens do Governo britânico, poderá ordenar a polícia naquela cidade, ou pelo menos serem encarregadas de fazer executar aquelas ordens que possam receber do Governador britânico que as encabeça.
Se Vossa Excelência concordar em aprovar esta proposta, o Bispo pensa que sendo o Brigadeiro António [sic] Pinto Bacelar o Oficial mais próspero entre aqueles que actualmente se encontram no Exército português, deverá o mesmo dirigir-se para Lisboa e ser ordenado para organizar a força militar da província da Estremadura. O Bispo está plenamente convencido de que o Governo temporário do país não poderá continuar a existir sem o suporte das tropas britânicas; e espera que o nosso Governo deixe um corpo de 6.000 homens em Portugal depois que os franceses sejam subjugados, até que as tropas portuguesas possam ser suficientemente organizadas e disciplinadas para serem capazes de proteger o seu próprio Governo.
Tenho a honra de ser, etc., etc.

Brigadeiro General

sábado, 27 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (27 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

A importância e a multiplicidade de objectos que têm fixado a minha atenção desde que me pus em marcha para estes sítios, não permitiram até agora a organização do Boletim do Exército, chegando o tempo, quanto muito, para se tomarem os precisos apontamentos e se participar a Vossa Excelência, juntamente com os negócios da maior urgência, a notícia das nossas marchas e posições. Hoje que houve um momento à minha disposição, pôde-se arranjar a cópia das notícias que a Vossa Excelência remeto e que continuarei segundo me for possível*. Queira Vossa Excelência persuadir-se que eu estimaria bem estar em tão curta distância de Vossa Excelência, ou ter um tão grande número de empregados, que pudesse não dar um só passo nem tomar a mais indiferente resolução sem a consultar com Vossa Excelência; e eis aqui porém o que distâncias e uma indispensável economia tornam impraticável; quando mesmo a necessidade de tratar negócios sumamente importantes em circunstâncias imperiosas, quase sempre imprevistas, e a cada instante variáveis, e como o inimigo à vista, não me obrigassem a resoluções prontas e decisivas, sem que sobeje tempo para outros assuntos. Anteontem escrevi a Vossa Excelência sobre quanto se havia passado de importante até então. Acrescentarei agora que a evacuação de Santarém é certa, e que os povos daquele distrito tomaram o nosso partido, e se vão preparando para a sua defesa; sendo muito para estimar que as nossas tropas do comando do Brigadeiro Bacelar, que mandara parar em razão do Armistício, se tivessem avançado até aquela vila, onde estão com grande prazer do povo da Borda d'água, que me [as]seguram [que] vai desenvolvendo uma energia maior do que em nenhuma outra parte, e que nos seria bem útil. Eu já hoje fiz dirigir ofícios de agradecimento aos Magistrados e outras pessoas, e cuido de excitar naquela gente o maior entusiasmo. A guarnição francesa que ali estava se havia já dirigido para lá de Vila Franca [de Xira]; mas diz-se e não é certo que ou estes ou alguns outros se passaram para o Alentejo.
Dos que ocupavam as nossas posições actuais, parte caminhou para Lisboa, e a outra parte, que será de 4 a 5 mil homens, tomou a cabeça de Montachique, posto importante, e que vão fortificando, segundo consta.
Também se fala de revolução em Lisboa, projectada, ou já em parte desenvolvida, e que em razão da distância em que estamos e do Armistício pode ser abafada com grande desgraça daquela capital.
As posições do Exército francês, o modo triunfante com que entraram em Lisboa, o que imprimiram com tanta falsidade a respeito das suas imaginárias vitórias e sobre os Exércitos Aliados**, as barbaridades e roubos que continuam a perpetrar nos lugares da sua dominação, os reforços que o Exército inglês recebe continuamente, e aqui mesmo, tendo desembarcado de novo 14.000 homens, tudo isto parece dispor e fazer necessária a renovação das hostilidades para se pôr termo a esta luta, com a vantagem que nos promete a superioridade de forças. Ao nosso Exército se vai unindo bastante gente, e nem toda da maior utilidade; mas não sendo possível deixar de admitir a ele militares que se apresentam com patriotismo verdadeiro ou forçado, limitei-me a dar-lhe alimento, e é quanto se pode fazer por ora num país [=região] devastado por franceses, e posto em requisição de víveres pelos ingleses, e agora por nós. [As]seguro a Vossa Excelência que as subsistências me devem grande cuidado, e que por isso reputaria um grande benefício da Providência proporcionarem-se os negócios a sairmos todos para posições mais abundantes, pois que esta da Lourinhã até de água carece. A província do Alentejo está em maior desarranjo; como a Junta de Évora se dissolveu, e o Governador se ausentou para Olivença, ficou todo o corpo militar numa espécie de anarquia, e pelo que me dizem com grave prejuízo do público. Fui requerido para providenciar esta desordem, ao que me recusei por não me considerar com autoridade para o fazer. Entretanto rogo a Vossa Excelência se digne nomear Governador para aquela província, porque será de absoluta necessidade a reunião e disciplina daquela tropa, ou seja para defesa própria, ou para a da margem do Tejo, se os franceses o passarem no projecto de voltando a sua marcha sobre Abrantes ou mais adiante, se dirigirem contra as províncias do norte. Por cautela recomendo ao Brigadeiro Bacelar, que reúne do outro lado do Tejo a tropa portuguesa que lhe ficar mais à mão, e a que diz esperar-se ali de Espanha para obstarem de acordo a alguma incursão do inimigo. Tem havido um considerável número de denúncias de polícia, e fui obrigado a mandar prender algumas pessoas denunciadas, e outras contra quem haviam factos e indícios veementes de espionagem e traição. Agora mandei um Magistrado visitar as cadeias de Leiria, Caldas, Óbidos e Lourinhã, e os presos que ali se achassem em razão de desconfiança sobre a sua opinião e conduta política, ordenando-lhe [que] soltasse os que lhe parecessem inocentes ou de nenhuma importância, [mas que] conservasse porém em prisão e inquirisse formalmente sobre os que o merecessem, e à vista dos indícios que houver contra eles, enviando-me relação de todos e os sumários com os réus para Coimbra e Porto, segundo o pedisse a justiça. O assassinato premeditado e aleivoso do Corregedor mor de Abrantes, em que ultimamente falava a Vossa Excelência, foi um acontecimento desgraçado, e que não pode ter a aprovação da justiça. Pelos papéis inclusos verá Vossa Excelência o que se me representou, e o partido que tomei. Agora me consta que hoje vieram ao Quartel-General inglês dois emissários franceses que, chegando às 9 da manhã, saíram às duas da tarde; e ali se rompeu que eles tinham moderado as suas pretensões, em consequência da repulsa que encontrou o Tratado assinado a 22, da parte do Almirante Cotton, e que tudo parecia ajustado; apesar porém desta notícia, pode ser que dentro em bem pouco tempo marchemos.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Lourinhã, 27 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 212-214 (doc. 41)].

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Nota: 


* Tratava-se provavelmente do Diário do Exército de Operações da Estremadura que apareceu publicado na Minerva Lusitana de 29 de Agosto.

** Ver em particular a carta de Junot a Lagarde (datada de 19 de Agosto) e a carta do mesmo ao General Travot (de 21 de Agosto), ambas publicadas a 24 de Agosto em Lisboa, e inseridas no mesmo dia na Gazeta de Lisboa, no último número em que este periódico esteve debaixo do poder do Governo francês em Portugal. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ordem da Junta do Porto ao Juiz da Alfândega do Porto (25 de Agosto de 1808)






Edital da Junta do Porto mandando dar execução às sentenças pronunciadas "no tempo do intruso Governo francês" (25 de Agosto de 1808)





Edital da Junta do Porto desviando os fundos destinados ao encanamento do rio Lima para despesas de guerra (25 de Agosto de 1808)






quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (24 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Todas as providências de que Vossa Excelência se lembra estão dadas em tempo conveniente, e Sebastião Correia partiu para o Exército [português] a semana passada, e já de Coimbra me escreveu participando-me as notícias que ali encontrou do Exército inglês; desejo que Vossa Excelência tenha muito boa saúde, e ter ocasiões em que lhe possa dar gosto.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 24 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência amigo muito venerador.

Bispo, Presidente e Governador.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 200 (doc. 33)].

Carta do General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal, ao Brigadeiro-General Frederick von Decken (24 de Agosto de 1808)



Quartel-General do Ramalhal, 24 de Agosto de 1808


Senhor:

Tive a honra de receber a vossa carta do passado dia 18, e surpreendeu-me perceber que o Bispo do Porto tomou o Governo de Portugal nas suas mãos, por ser esta uma medida de considerável delicadeza e importância, que de modo algum consigo compreender como se pode ter realizado.
Não consigo determinar por agora que passos devem ser dados em consequência deste acontecimento, sobretudo sem o ter comunicado a Sir Charles Cotton, que, contudo, conforme penso (e não só eu) não aprovará completamente o forte passo que haveis tomado, ao recomendar ao Bispo para reter uma autoridade que não posso julgar como conferida pela voz unânime da nação portuguesa. E tenho que requerer que, de futuro, não utilizareis uma linguagem que possa ser interpretada como sendo a expressão dos sentimentos do Governo de Sua Majestade, ou a dos Oficiais Comandantes em Chefe do exército e da marinha britânica, sem terdes recebido autoridade e instruções distintas para o fazer, de forma a que depois não se venha invocar que a Grã-Bretanha acabou por decidir medidas diferentes e até opostas.

H. W. Dalrymple


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Bispo e Presidente da Junta Suprema do Porto ao Almirante Séniavin, comandante da esquadra russa ancorada no Tejo (22 de Agosto de 1808)



A Junta do Supremo Governo instituído nesta cidade do Porto, à qual se têm unido e subordinado as províncias do norte de Portugal para o fim da restauração do mesmo reino, e restituição dele ao seu legítimo Soberano, o Príncipe do Brasil, tendo reintegrado as suas antigas alianças com o reino da Galiza, e com a sua fidelíssima aliada a Grã-Bretanha, estimaria muito poder renovar na Real presença do Imperador de todas as Rússias o Tratado de aliança ultimamente celebrado entre a Corte de Petersburgo e Sua Majestade Fidelíssima. Mas não permitindo o aperto do tempo nem a grande distância, que o actual Governo de Portugal dirija directamente a Sua Majestade Imperial os seus respeitosos ofícios, toma a deliberação de representar ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Almirante da esquadra russiana [sic] fundeada no porto de Lisboa os sinceros desejos que tem de conservar a mesma inteligência e boa harmonia que entre as duas Corôas havia no tempo da partida de Sua Alteza Real para os seus Estados do Brasil.
Porto, 22 de Agosto de 1808.


Carta secreta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (22 de Agosto de 1808)


Porto, 22 de Agosto de 1808


Senhor:

Sua Excelência terá recebido a carta secreta do passado dia 18, que tive a honra de remeter-vos através do Brigadeiro-General Stewart, sobre as comunicações de Sua Excelência o Bispo do Porto relativas à sua renúncia do Governo nas mãos da Regência estabelecida pelo Príncipe Regente. Para além do que tive a honra de referir sobre este assunto, peço licença para acrescentar que Sua Excelência o Bispo quis hoje que eu acautelasse Vossa Excelência, no caso que possa ser desejável que ele mantenha o Governo nas suas mãos até que a vontade do Príncipe Regente seja conhecida, que ele não abandonará o Porto, e o assento do Governo deverá necessariamente, em tal caso, continuar nesta cidade. Sua Excelência o Bispo pensa ser seu dever informar-vos desta circunstância assim que for possível, pois prevê que a cidade de Lisboa será preferida para o assento do Governo logo que o Exército britânico a tenha em seu poder. 
Se o assento do Governo temporário permanecer no Porto, o melhor método a adoptar, em relação às outras províncias de Portugal, parece ser que enviarão deputados para tal lugar, para os propósitos de tratar os negócios relativos às suas próprias províncias; da mesma maneira como as províncias de Entre-Douro e Trás-os-Montes enviam agora os seus representantes.
Uma das principais razões pelas quais Sua Excelência o Bispo pode apenas aceder em continuar à cabeça do Governo, com a condição deste permanecer no Porto, é porque ele está convencido que os habitantes da sua cidade não lhe permitirão que a abandone, a não ser por ordem do Príncipe Regente. 
Também poder ser aconselhável manter o assento do Governo no Porto, porque supõe-se que Lisboa estará num estado de grande confusão nos dois primeiros meses depois dos franceses a abandonarem.

domingo, 21 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (21 de Agosto de 1808)



Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor: 

Agora me participam que ontem à tarde se efectuara um desembarque de mais forças inglesas; se houver de próximo ocasião de entrar em Lisboa, não sei se não se precisaria de algumas instruções. 
Fico muito pronto ao serviço de Vossa Excelência, de quem sou o mais obrigado e respeitoso amigo e criado.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

Óbidos, 21 de Agosto de 1808.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 197 (doc. 29)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (21 de Agosto de 1808)



Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor: 

Meu Senhor, o que eu tive a honra de anunciar a Vossa Excelência quando saí de Leiria, compôs-se perfeitamente pelo que pertence ao que parecia diferença de opinião. Ontem recebi uma carta do General Wellesley, em que me comunica o que devo fazer daqui em diante. Acho-me em Óbidos por disposição de passar à Lourinhã ou Torres, conforme os movimentos do inimigo, que provavelmente já não procurará mais que retirar-se para as imediações de Lisboa depois das acções que têm havido, todas à vantagem do nosso Exército.
O General inglês está já em Mafra, e os franceses, reunidos em Torres, não têm outro recurso do que passando pela outra estrada vir ainda oferecer alguma oposição às operações em que o General Wellesley prossegue com tanto vigor e energia.
Eu devo seguir a unir-me com este General, logo que o inimigo lhe passe adiante, segundo me disse ontem, mas acho-me sempre embaraçado pelo pão; e isto depois de Vossa Excelência ter dado todas as disposições que podia; mas é particularmente pela falta de estarem as repartições montadas, como devia ser, e pela falta de energia dos empregados.
Suplico instantemente a Vossa Excelência [para que] queira mandar-me com a maior brevidade Sebastião Correia, com os oficiais que entender [que] lhe são precisos para me ajudar nesta parte tão essencial, e sem o qual estamos peados. Aqui temos recebido as remessas dos diferentes ofícios que devemos ao particular cuidado de Vossa Excelência. Supondo que a entrada em Lisboa não se demorará muito, e eu coxo, por assim dizer, por falta de subsistências seguras, o que não sucede aos ingleses, que levam consigo provimentos suficientes de bolacha, rogo a Vossa Excelência ainda uma vez [mais] que me mande Sebastião Correia quanto mais depressa. Creia Vossa Excelência que nada me pode ser mais sensível do que a desordem em que vejo a administração dos víveres e transportes deste Exército; porque quando não se fazem as distribuições a tempo, não se podem fazer com regularidade, e do mesmo modo a respeito dos transportes. Por aqui não tem ocorrido mais novidade de que possa informar a Vossa Excelência, e graças a Deus o Reino não tem padecido senão onde os franceses estavam. 
Tenho a honra de ser o mais obrigado, respeitoso e fiel amigo e criado.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

Óbidos, 21 de Agosto de 1808.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 196-197 (doc. 28)].

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (21 de Agosto de 1808)



Antes de Vossa Excelência partir para o Exército, mal se podiam prevenir os acontecimentos que dependiam de casualidades impensadas. Apenas assentámos em que Vossa Excelência não partiria com o nosso Exército para Lisboa enquanto deixasse franceses ao lado esquerdo. Depois disto Vossa Excelência em todas as ocorrências de contestações de maior consequência tem sempre livre o recurso de que os ingleses nos estão dando repetidos exemplos. Eu não posso deliberar sem consultar o Almirante F. primeiro ou o General F., porque ainda mesmo quando desta Junta nem de mim possa esperar resoluções que satisfaçam, sempre este meio termo lhe pode ser útil para não comprometer nem o Exército de Sua Alteza. Ontem houve uma Junta Militar, em que assistiu Sepúlveda, Parreiras, Leite, um Coronel inglês que partiu ontem mesmo para o Exército, e Mr. Lecor; entre todos se tratou do negócio constante dos ofícios que Vossa Excelência me dirigiu, e da deliberação que Vossa Excelência tomou de não marchar com o Exército inglês, deixando estas províncias abertas e expostas, e foi aprovada por todos como a mais importante para esta nação.
Mas tomando-se em consideração tudo o mais que podia ser conveniente para a nossa defesa, todos desejaram saber as forças actuais do nosso Exército, e eu não tive que responder. Nestes termos, parecendo a Vossa Excelência que será conveniente fazer algumas participações a este respeito (as quais se supõem necessárias), queira ter a bondade de as dirigir a esta Junta do Supremo Governo, porque eu me acho com bastante moléstia de olhos, e por este motivo muito embaraçado para o exercício de ler e escrever. Nesta cidade correm algumas notícias vagas a respeito dos Exércitos, e não faltam cuidados a respeito das pessoas que por lá andam. 
Nosso Senhor dê a Vossa Excelência saúde e forças para o trabalho e o livre de perigos, como lhe peço e muito desejo.
Porto, 21 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência amigo muito venerador e obrigado.

Bispo do Porto

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 195-196 (doc. 27)].

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Carta secreta do Brigadeiro-General Frederick von Decken ao General Hew Dalrymple, Comandante do Exército britânico em Portugal (18 de Agosto de 1808)



Porto, 18 de Agosto de 1808


Senhor:

Como o Bispo do Porto manifestou-me que me queria ver em privado, a fim de me fazer uma importante comunicação, que desejava que se mantivesse secreta, fui ao seu Palácio na noite passada, a uma hora tardia. O Bispo disse-me então que tinha tomado o Governo de Portugal nas suas mãos, mas a sua intenção era restabelecer o Governo do seu legítimo Soberano, e esperava que Sua Majestade o Rei da Grã-Bretanha não tivesse outro objecto em mente quando enviou as suas tropas para este país. Depois de lhe ter dado todas as garantias sobre este assunto, o Bispo continuou: que como o Príncipe Regente, ao deixar Portugal, estabelecera uma Regência para governar este país durante a sua ausência, ele considerava que tinha o dever de abdicar do Governo e dispô-lo nas mãos da Regência, logo que fosse possível.
Respondi que não tinha instruções do meu Governo sobre este assunto, mas roguei-lhe para considerar se a causa do seu Soberano não se prejudicaria ao abdicar do Governo nas mãos da Regência, que, como tinha agido debaixo da influência dos franceses, tinha perdido a confiança da Nação; e se não seria mais aconselhável que ele continuasse a deter o Governo, até que a vontade do Príncipe Regente fosse conhecida.
O Bispo admitiu que a Regência nomeada pelo Príncipe Regente não possui a confiança do povo,  que vários dos seus membros agiram de tal maneira que aparentam ser amigos e partidários dos franceses, e que, em todo o caso, nem todos os membros da antiga Regência podiam ser restabelecidos no seu poder anterior; contudo, ele teme que as províncias da Estremadura, Alentejo e Algarve não reconhecerão a sua autoridade, se o Governo britânico não interferir. 
Depois de uma longa conversação, acordámos que eu deveria informar aos nossos Ministros aquilo que o Bispo me comunicou, e que, de forma a não se perder tempo à espera duma resposta, o Bispo quis que comunicasse o mesmo a vós, expressando a vontade de lhe escreverdes uma carta oficial, onde lhe referireis a vossa vontade em que ele detenha o Governo, até que a vontade do seu Soberano seja conhecida, para bem das operações das tropas britânicas e portuguesas debaixo do vosso comando.
O secretário do Bispo, que serviu de tradutor, disse-me depois, em privado, que rebentaria uma enorme confusão se o Bispo abdicasse do Governo neste momento, ou se se associasse com pessoas que nem são queridas nem estimadas pela nação.
Peço licença para acrescentar que, apesar do Bispo ter expressado o contrário, todavia parece-me que ele não se opõe a manter o Governo nas suas mãos, se tal pudesse ser feito pela interferência do nosso Governo. 

Brigadeiro-General


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo e Presidente da Junta do Porto (15 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:



Na minha última carta* dizia a Vossa Excelência que eu me determinava a tomar com a tropa às minhas ordens uma direcção com que, não deixando de apoiar o Exército inglês, pudesse ao mesmo tempo vigiar no que fizessem os franceses que tínhamos ainda na nossa esquerda, pois que não tendo absolutamente sido possível seguir a marcha das colunas inglesas, por falta absoluta de subsistências, uma vez que elas não me podiam fornecer alguns dias de biscoito, desde que chegassem a Alcobaça até que se pudesse arranjar essa repartição, que achei absolutamente desmontada. Verá Vossa Excelência das cópias inclusas o que se tem passado depois e a que ponto me tenho visto comprometido por falta de instruções, pois que nelas não se me diz expressamente se devo, como os ingleses, cuidar em primeiro lugar em ocupar Lisboa, ainda com o risco de deixar devastar as províncias que fizeram a Revolução, e todos os esforços que é constante, e que devem esperar de nós este serviço, ou se deve ser este o nosso objecto. Confesso a Vossa Excelência que tenho passado horas amarguradas, vendo comprometida mesmo talvez a minha reputação, pois que não me convém dar explicações a ninguém, nem fazer aparecer coisa que possa ter aparência de menos inteligência entre nós e os ingleses. Porém, Deus há de acudir a quem, como eu, não procura senão acertar, sem outra alguma paixão nem parcialidade.
Esta resolução tinha eu tomado depois de receber uma carta em que o General Wellesley se me explicava muito amigavelmente a respeito da requisição que eu lhe tinha feito fazer pelo Coronel Trant, para me fornecer biscoito, como já disse; e na minha resposta eu lhe comunicava aquele projecto que me parecia oportuno**. Nessa noite recebi uma participação feita pelo Coronel Trant, em que o General, não aprovando aquele plano, como Vossa Excelência verá  da cópia n.º 1***, me vi obrigado a chamar os principais oficiais deste Exército para ouvirem as proposições do General inglês. O resultado deste conselho verá Vossa Excelência da cópia n.º 2, em consequência do que destaquei a tropa, de cuja resolução me pareceu satisfeito o Coronel, o que prova exuberantemente quanto eu procuro prestar-me às requisições dos ingleses, para fazer ver a boa fé com que procedo a seu respeito, ainda em coisas de tanta consequência. Para substituir esta falta, mandei que de Coimbra marchassem um Batalhão de Granadeiros e o de Caçadores de Trás-os-Montes, prosseguindo no mesmo projecto de não desamparar o que nos fica à esquerda, ainda ficando sem outro apoio que o das minhas próprias forças. Quando ontem estava a marchar recebi uma carta do Coronel Trant remetendo-me a cópia da que recebera do General Wellesley, à qual respondi como Vossa Excelência verá do n.º 3Vossa Excelência poderá julgar dos motivos que me têm resolvido a tomar este partido, que se não é o mais brilhante, é o mais sólido, e nisto mesmo me confirma a notícia de que Loison se tinha recolhido a Santarém, onde estava ontem pelas 6 da manhã; mas enquanto me chegam as notícias da marcha pomposa do Exército inglês, eu fico em inacção observando os movimentos dos franceses nesta distância, sem poder adivinhar aonde hei de dirigir-me.
As medidas que se têm tomado são as seguintes: 
Mandar ao Brigadeiro Bacelar descer de Castelo Branco a Abrantes, para ocupar esta praça no caso de ser abandonada, ou de conservarem ali os franceses forças com que ele possa revolucionar os povos e vir a Tomar a observar os movimentos do inimigo; as forças de que ele pode dispor são 3.000 homens, pouco mais ou menos; 
Mandar-se proclamar o Príncipe por toda a parte onde dominamos, e armar o povo;
Mandar estabelecer vigias nas vizinhanças de Santarém para ser informado das disposições do inimigo;
Fazer as que são necessárias para que os habitantes de Ribatejo se revoltem logo que ali apareça alguma força.
São estas as disposições que se podem fazer, e ficar este Exército pronto a marchar ao primeiro aviso, com as bagagens e duas rações de pão e etapa****, que o acompanharão para qualquer parte. Mas enquanto me ocupo destes muito sério cuidados, o General inglês se avança sem puder encontrar grande oposição, pois que a Divisão de Loison ainda por cá fica, e eu deixo de entrar com ele em Lisboa, como eu devia fazer, se não me parecesse ainda mais essencialmente do meu dever procurar, quanto em mim possa caber, obstar a que os franceses vão repetir na Beira e províncias do norte as cenas que ultimamente assolaram o Alentejo.
Supondo que escolhi o melhor partido, desejo que Vossa Excelência assim o entenda, e o Supremo Conselho. Desejo mil ocasiões de servir a Vossa Excelência.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General de Leiria, 15 de Agosto de 1808.
Sou, etc.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 185-186 (doc. 17)].

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Nota: 

* Como atrás referimos, não nos consta que a aludida carta de Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (escrita possivelmente a 13 de Agosto) esteja publicada.


** Já tivemos ocasião de referir que também não se encontra publicada a carta em que Bernardim Freire de Andrade comunicava a Wellesley o seu novo plano de operações, o qual somente se conhece através de referências indirectas.


*** Como também já referimos, não nos consta que esteja publicada a aludida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley, onde era comunicado o novo plano de operações proposto pelo General português.


*** Sobre este termo, ver o que atrás anotámos.

sábado, 13 de agosto de 2011

Carta do Bispo do Porto ao General Bernardim Freire de Andrade (13 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Tenho por certo que esta [carta] vai aparecer a Vossa Excelência em marcha para Lisboa; não posso ocultar-lhe o cuidado que me aflige bastante, se terão esses malditos cortado ou minado as estradas para Lisboa; não estou livre de cuidado a respeito de franceses pelo norte, porque diferentes cartas de Espanha concordam em que andam doze a treze mil homens no Reino de Leão, e na Junta daquele Governo tem havido alguma desordem por causa de traidores, dos quais um já se acha preso. Para Lamego marchou o Regimento de Basto e para Amarante dois Esquadrões de Braga, para poderem com mais brevidade acudir onde convier. Agradeço muito a Vossa Excelência o mimo das suas muito eloquentes proclamações*, que espero [que] sejam muito úteis para animar os nossos aflitos lisboetas; se eles fizerem como os matritenses [=madrilenos], bem estamos. Na ida de Sebastião Correia [Superintendente da Alfândega do Porto] não há dúvida alguma, senão uma resposta que ele espera de Vossa Excelência. Tenho em toda a consideração uma carta que recebi do Sr. Nuno Freire, e responderei como o caso pede.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 13 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência muito atento venerador e obrigado,

Bispo Presidente Governador

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 176 (doc. 12)].

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Nota: 


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Carta do Bispo do Porto a D. Miguel Pereira Forjaz, Brigadeiro Ajudante General do Exército português (10 de Agosto de 1808)



Na grande confiança que Vossa Excelência  tem em Deus Nosso Senhor, lhe considero o maior socorro nos seus grandes e incessantes trabalhos e no que eu puder concorrer para o mesmo fim, não faltarei.
Joaquim de Castro ou entendeu mal ou não disse bem; Vossa Excelência o conhecerá assim logo que ele volte da Beira. Ele está incumbido da Inspecção das Milícias, de que Vossa Excelência o incumbiu; somente lembrou que seria conveniente algum título que o fizesse reconhecer como tal, porque o mero facto poderá não ser bastante.
Isto foi o que ocorreu e nada mais.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Porto, 10 de Agosto de 1808.
De Vossa Excelência muito obsequioso e obrigado,

Bispo, Presidente e Governador

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 174-175 (doc. 11)].

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta do General Arthur Wellesley ao Bispo do Porto (8 de Agosto de 1808)



Campo perto de Lavos, 8 de Agosto de 1808.


Com a permissão de Vossa Senhoria:

Tenho a honra de informar a Vossa Senhoria que o Sr. Fernandes, da Figueira [da Foz], prestou-se de forma extremamente útil ao Exército britânico desde que este desembarcou neste país, e que é altamente essencial que o serviço público continue a aproveitar o seu empenho durante a marcha do Exército a partir daqui, dado que o seu conhecimento do terreno e dos seus habitantes facilitará muito os nossos esforços a respeito da obtenção de suprimentos e de meios de transporte. Sou, assim, induzido a requerer a Vossa Senhoria que queira estender o poder do Sr. Fernandes, nomeando-o, pro tempore, de Magistrado dos Transportes e Munições de Boca do Exército inglês*.
Sou, etc.

Arthur Wellesley.


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Nota: 

* Na carta original, escrita em inglês, este título foi grafado em castelhano: Magistrado de los Transportes y Municiones de Boca del Exercito Ingles.


Edital da Junta do Porto aumentando os impostos sobre o consumo e exportação de bebidas alcoólicas e vinagre (8 de Agosto de 1808)




Edital da Junta do Porto mandando recolher armas para serem destinadas ao exército português (8 de Agosto de 1808)



Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo e Presidente da Junta do Porto (8 de Agosto de 1808)




Meu Senhor:

Suspendi a remessa do ofício incluso, porque vinha de receber notícias que era preciso comunicar a Vossa Excelência.
Com efeito Loison entrou em Elvas, donde mandou proclamações a diversas terras da província, mas dizem que as forças que se acham em Badajoz, clamando a si outras que se acham na província, se dispõem a frustrar-lhes quaisquer intentos ulteriores.
Aqui se espalhou que o General Junot tinha saído de Lisboa, da Sexta para o Sábado, deixando o Governo ao Conde da Ega, mas aqui chegou [outra notícia] depois, e aqui está o cozinheiro de Junot que saiu de Lisboa no Sábado, onde o deixou; e creio que a causa da equivocação foi a saída furtiva do General Carrafa, que o referente conhece muito bem e que ele encontrou ao pé da Barquinha, o que é facto bem inesperado. Mas as notícias da marcha de Loison têm posto em alvoroço esta província; para a sossegar, e porque com efeito é necessário fornecer os meios que se podem achar, por isso se remetem para o Regimento de Penamacor o número necessário de armas; amanhã partem para Viseu, para passarem à Guarda, parecendo-me recomendar a Bacelar as operações que for conveniente adoptar. Da carta que recebo do Marquês de Valladares, se vê as instâncias com que pretende a reunião das companhias que aí deixou, e eu proporia a Vossa Excelência que mandasse vir para essa cidade 300 ou 400 homens do Regimento de Viana.
As nossas munições são escassas, não temos mais de 60 cartuxos por praça do Exército que aqui se reúne; espero que não seja preciso gastar todas, mas entretanto é pouco para entrar em campanha.
Os ingleses ainda prometem armas, mas por ora não deram mais do que 5.000, das quais querem [que] se lhes restituam 500, e com o número que resta é necessário, depois de armar Penamacor, armar o resto destas tropas que marcham. Não quero ser mais importuno a Vossa Excelência, de quem tenho a honra de dizer-me etc.
Quartel-General de Coimbra, 8 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrade

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, p. 168 (doc. 4)].